quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Piaf, um hino ao amor - a voz da França


Grande sucesso de 2007, a cinebiografia da cantora francesa Edith Piaf, considerada até hoje como a maior intérprete da música francesa, acompanha toda a trajetória de sua conturbada carreira e de sua vida agitada, passando por doenças, vícios, amores, separações trágicas, momentos de euforia, perdas e ganhos. Uma vida totalmente passional. 
Dessa forma, vemos a vida de Edith desde sua infância pobre tendo de conviver com uma mãe relapsa, um pai contorcionista e as gentis prostitutas do prostíbulo de sua avó, passando por sua juventude como cantora nas ruas de Paris, sua descoberta, ao acaso, por um importante nome da música francesa, seu treinamento de aprimoramento vocal, a construção da cantora Edith Piaf, substituindo a então conhecida como menina Piaf, cantora de cabarés e seu trágico fim, doente, fragilizada e incapacitada de fazer o que fazia sua vida valer a pena: cantar. 
Piaf, um hino ao amor (La vie en rose, 2007) não faz a construção da biografia da cantora de forma linear, mas sim, vai viajando entre diferentes fases de sua vida. O problema do filme é que a vida de Piaf foi muito movimentada. Muito mesmo. Então o roteiro não dá conta de mostrar tantos fatos e muitos acabam passando despercebidos ou não conseguem obter a atenção, por parte do filme como também dos espectadores, de sua real importância. Sua vida também foi muito sofrida. Muito mesmo. A quantidade de tragédias pessoais compõe uma lista imensa, e o filme faz questão de não nos poupar de nenhuma delas, tornando-se quase enfadonho. É tanto sofrimento seqüencial que chega a ser difícil acompanhar tudo e impossível de não sentir qualquer tipo de compaixão por Edith por trás do mito Piaf.
Não é um filme fantástico e está longe de ser impecável, mas numa coisa Piaf, um hino ao amor acerta em cheio: Marion Cotillard. Não poderia ter sido feita escolha melhor. A caracterização de Marion é extraordinária. Como ela interpreta Edith desde seus 20 anos até seus 50 (aproximadamente), quando faleceu aparentando ter bem mais de 70, a atriz é forçada a se transformar física e psicologicamente inúmeras vezes ao longo das pouco mais de duas horas do filme. E o faz brilhantemente. Certa vez vi uma crítica que dizia que “poucas vezes uma artista mergulhou tão fundo na alma de outro artista” e é verdade. Não vemos Marion, vemos Edith. Gestos, atitudes, a forma de cantar é tudo impecável. Quem vê Marion Cotillard dificilmente consegue ligá-la fisicamente a esta personagem, pois seu trabalho, bem como o de maquiagem e figurino a escondem totalmente para que só possamos ver Edith. Desta forma, o Oscar de melhor atriz de Marion Cotillard (por incrível que pareça, primeira atriz francesa a conseguir o prêmio) é totalmente justificável e louvável – o ideal seria um empate com Julie Christie por Longe dela, mas empates são bem raros na premiação da Academia.

Leia também:
Johnny e June
Meia-noite em Paris
O destino mudou sua vida

Lucas Moura

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - vencedores


A 85ª edição do Oscar até que foi bem interessante. A cerimônia em si, marcada por números musicais impecáveis, foi uma das melhores que vi, contando com a irreverência de sempre de Seth MacFarland, diretor e produtor da série Family Guy, que foi o mestre de cerimônia do ano. De um modo geral, o que se percebeu foi a homogeneidade de qualidade – alta – dos filmes do ano passado, visto que os prêmios ficaram muito divididos entre diferentes longas. Com relação aos prêmios principais, não foram exatamente surpresas e nem decepções, mas alguns geraram certa polêmica. Os vencedores das categorias principais foram:
Melhor Filme
Argo
Amor
Django livre
Indomável sonhadora
O lado bom da vida
Os miseráveis
A hora mais escura
Lincoln
As aventurasde Pi

Dos indicados a melhor filme, os únicos que não conferi foram Amor e Indomável sonhadora – que parecem ser excelentes. O vencedor da noite foi o favoritíssimo Argo, que já vinha arrebatando quase todos os prêmios de cinema pré-Oscar. Desta forma, sua vitória não foi surpresa nenhuma. Argo também era o meu favorito, pois o achei um filme com uma capacidade enorme de entreter ao mesmo tempo em que é de muita inteligência. Um trabalho memorável de Ben Afleck – a sua não indicação a melhor diretor foi, de longe, a maior polêmica do Oscar deste ano. Dos demais indicados, meu segundo favorito era Django Livre, de Tarantino, seguido por Os miseráveis, O lado bom da vida e As aventuras de Pi – não seguindo uma ordem definida. Para mim, estes foram os cinco melhores filmes da cerimônia (não incluo Lincoln porque, como já disse, é um filme que para nós, brasileiros, não tem qualquer empatia emocional, tornando-se apenas um filme muito bem realizado, mas pouco envolvente).
Melhor diretor
Ang Lee – As aventuras de Pi
Steven Spielberg – Lincoln
Benh Zeitlin – Indomável sonhadora
Michael Haneke – Amor
David O. Russel – O lado bom da vida

Essa sim foi a categoria surpreendente. Todo mundo esperava uma vitória “fácil” ou no mínimo óbvia de Spielberg. Quem levou o prêmio de direção, no entanto, foi Ang Lee por As aventuras de Pi e eu saio totalmente em defesa do diretor. Pi é um filme muito original, muito criativo, muito bonito, muito bem feito e um trabalho primoroso da enorme equipe de produção envolvida, todos a cargo da direção corajosa, talentosa e primorosa de Ang Lee. Desta forma, seu prêmio está muito mais que justificado.
Melhor ator
Daniel Day-Lewis – Lincoln
Bradley Cooper – O lado bom da vida
Hugh Jackman – Os miseráveis
Denzel Washington – O vôo
Joaquin Phoenix – O mestre

Prêmio mais óbvio, não houve. Desde o anúncio que Day-Lewis seria o protagonista de Lincoln que todos já apostavam em sua indicação e, de certa forma, em sua vitória ao Oscar de melhor ator. Todos os rumores e tendências foram confirmados e o ator recebeu, das mãos de Meryl Streep, sua terceira estatueta de melhor ator. Terceira! Apenas outros três atores (Walter Brennan, Jack Nicholson e Meryl Streep) possuem três prêmios de atuação. Além de entrar para a seleta lista, Day-Lewis ainda entra como o único a ter as três vitórias como protagonista. Isso é muita coisa. Meu segundo favorito na categoria era Denzel Washington por O voo, filme que particularmente achei muito legal e a atuação de Denzel é excepcional, como sempre.
Melhor atriz
Jennifer Lawrence – O lado bom da vida
Jessica Chastain – A hora mais escura
Emmanuelle Riva – Amor
Naomi Watts – O impossível
Quvanzhané Wallis – Indomável sonhadora

Então... definitivamente a vitória mais polêmica da cerimônia. Indo contra uma legião de críticos e cinéfilos que louvavam a interpretação e a carreira impecáveis de Emmanuelle Riva e outra quantidade enorme de cinéfilos e críticos que defendiam ferozmente o trabalho de Jessica Chastain quem acabou saindo vencedora foi a atriz de 22 anos Jennifer Lawrence. Sua vitória não veio do nada. Nas premiações pré-Oscar, é importante lembrar que Jennifer ganhou o Globo de Ouro e o SAG, prêmios importantíssimos. Afinal, Lawrence merecia ou não o prêmio? Para mim é nítido que haviam candidatas mais interessantes a levar o prêmio. Não posso afirmar com relação a Emmanuelle Riva e não acho que o trabalho de Jessica Chastain tenha sido tão bom assim, mas, pessoalmente, a atriz que eu realmente gostaria de ver levando a estatueta esse ano era Naomi Watts. Seu trabalho em O impossível é algo simplesmente extraordinário, de uma força gigante e tão visceral quanto poucos. Além disso, a atriz já está em atividade há um bom tempo, vem constantemente com trabalhos bons e apresenta sempre um padrão alto de qualidade em atuação. Por estes motivos, era minha favorita. A vitória de Lawrence, por sua vez, parece-me como a coroação de uma geração nova de atrizes (atrizes, não atores) jovens que são excelentes e que vem roubando totalmente a cena nos últimos anos. Destas, a que está mais por cima no momento é justamente Jennifer Lawrence, por suas populares atuações protagonistas em O lado bom da vida e na franquia Jogos vorazes, bem como pelo ótimo Inverno da alma, filme que fez sua carreira decolar. Então, entendo sua vitória e o fato de terem atrizes fantásticas na categoria não torna Lawrence uma atriz menor do que o que ela é. Ela é, de fato, ótima.
Melhor ator coadjuvante
Christoph Waltz – Django livre
Robert De Niro – O lado bom da vida
Tommy Lee Jones – Lincoln
Philip Seymour Hoffman – O mestre
Alan Arkin – Argo

Racionalmente falando, era muito claro que a vitória seria de Christoph Waltz. A parceria do ator com Quentin Tarantino, que se iniciou em Bastardos inglórios – primeiro Oscar de Waltz, é de uma qualidade enorme e há muito tempo não se via algo assim. Emocionalmente falando, acredito que eu e muitos cinéfilos tínhamos grandes esperanças de o veterano e idolatrado Robert De Niro, que não recebia indicações desde Cabo do medo em 1991, pudesse ganhar o Oscar de coadjuvante por sua atuação em O lado bom da vida que é seu melhor trabalho em pelo menos 20 anos. Infelizmente, não deu. Isso, logicamente, não diminui a excelência de Waltz (o ator praticamente foi descoberto por Tarantino em 2009 e em um espaço curto de tempo já faturou dois Oscar. Tem muito futuro ainda).

Melhor atriz coadjuvante
Anne Hathaway – Os miseráveis
Jacki Weaver – O lado bom da vida
Helen Hunt – As sessões
Amy Adams – O mestre
Sally Field – Lincoln

Outro prêmio bem óbvio esse. Anne Hathaway vinha faturando praticamente todos os prêmios de coadjuvante por seu trabalho tão dramático quanto impecável na pele de Fantine, a personagem mais emotiva de Os miseráveis. Suas concorrentes são todas ótimas atrizes. Amy Adams acumula sua quarta derrota ao prêmio de atriz coadjuvante e Sally Field, pela primeira vez, foi indicada ao Oscar sem sair vencedora (tem outras duas indicações, ambas convertidas em vitórias na categoria de melhor atriz).
Melhor Animação
Valente
Frankenweenie
Detona Ralph
Piratas pirados
Paranorman

Melhor roteiro original
Django Livre
O vôo
Moonrise kingdom
A hora mais escura
Amor

Melhor roteiro adaptado
Argo
Indomável sonhadora
As aventuras de Pi
Lincoln
O lado bom da vida

Melhor filme estrangeiro
Amor
No
Rebelle
O amante da rainha
Kon-Tiki

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Oscar - grandes premiados (6) - melhor direção e roteiro

 1. John Ford: Em termos de aproveitamento, deve ser o maior vitorioso do prêmio de direção. De cinco indicações a melhor diretor, John Ford converteu quatro em vitórias. Seu estilo era muito definido: westerns, o povo do centro-oeste americano com todas suas lutas e sofrimentos, bem como seu cotidiano e seu comportamento geral. Desta forma, seu cinema era bastante nacionalista e praticamente um patrimônio cultural dos EUA, o que mais que justifica seu posto como um dos diretores mais queridos da história do cinema. Mas seu trabalho não se limita a isso. É de uma sobriedade, Inteligência e qualidade técnica muito pouco vistos no cinema, ainda mais em sua época de menor qualidade tecnológica (comparando com o que temos hoje em dia). Todas as cenas externas e de batalhas são muito bem feitas, e geralmente expõem a aridez das longas planícies desérticas e semidesérticas, quase sempre contrastando com a riqueza de acontecimentos das histórias de Ford. Das suas cinco indicações, a única derrota veio pelo western de ação pura com pitadas de romance Nos tempos das diligências, de 1939, já estampando um John Wayne pronto para personificar uma fatia dos EUA, digamos assim. Das suas vitórias, pelo menos uma considero “injusta”, que é a vitória de Como era verde meu vale sobre o emblemático Cidadão Kane de Orson Welles, mas todos sabem que haviam outros interesses envolvidos. Dentre os quatro vitoriosos, confesso meu amor por Vinhas da ira. Uma história fantástica de uma beleza melancólica que jamais vi em nenhum outro filme, que se centra numa família rural que perdeu absolutamente tudo após a grande depressão e migra, com seus poucos pertences e algum tipo de esperança para o oeste, em busca de oportunidades que parecem tão difíceis de serem alcançadas. As paisagens e o preto e branco dão o clima, mas são as atuações – algo que Ford também sabia aproveitar muito bem – que dão a alma deste que é um dos meus filmes preferidos.

2. Orson Welles: Se fossem escolher dez diretores mais importantes da história do cinema mundial, podem ter certeza que o nome Orson Welles estaria na lista. O diretor/ator/roteirista foi responsável pelo maior clássico de Hollywood, filme que ficou em primeiro lugar na lista de 50 melhores filmes de todos os tempos da Sight and Sound por nada mais que 50 anos: Cidadão Kane. O longa de 1941 é absurdamente inovador até os dias de hoje. Absolutamente tudo nele é original: sua temática, seu roteiro e seus elementos técnicos são algo muito próximo da perfeição. Assistir Cidadão Kane é, sempre foi e sempre será uma experiência cinematográfica única. Tudo isto veio da mente inovadora e revolucionária de Orson Welles. A derrota de Cidadão Kane aos prêmios de melhor filme e melhor direção são, até os dias de hoje, inaceitáveis. O fato é que Hollywood preferiu dar o prêmio para o conversador e bem intencionado Como era verde meu vale – filme mais apropriado ao clima político e social da época (bem no meio da segunda guerra mundial). Pelo menos Cidadão Kane saiu com o prêmio de roteiro (que é um trabalho sem precedentes).

3. Billy Wilder: sem dúvida um dos diretores mais completos do cinema americano, Billy Wilder dirigiu desde comédias até dramas complexos, sempre muito bem sucedido. O primeiro Oscar veio em 1945 com Farrapo humano, vencedor de melhor filme, direção, roteiro original e de quebra melhor ator pra Ray Milland. O filme foi o primeiro a falar de maneira séria do alcoolismo e das pessoas que sofrem desse mal. Wilder novamente levou o prêmio de melhor roteiro em 1950 por Crepúsculo dos deuses, que retrata a decadência de alguns atores com a ascenção do cinema falado. Saiu novamente vitorioso nos prêmios principais em 1960, com Se meu apartamento falasse, que também levou melhor filme, direção e roteiro. O filme é uma comédia de costumes que tem a marca registrada do diretor, diálogos brilhantes com cenas muito engraçadas. Billy Wilder recebeu ao todo oito indicações a melhor diretor, e é detentor de um título há mais de cinquenta anos: Quanto mais quente melhor, seu filme de 1959, é considerado a melhor comédia de todos os tempos, título que eu acho difícil de perder.

4. William Wyler: Dono de um dos nomes mais fortes e influentes do cinema clássico, ao longo de quase três décadas de indicações ao Oscar, Wyler somou 14 indicações, três prêmios de direção e ainda um prêmio honorário pelo conjunto da obra. E que obra. Sua filmografia conta com a presença de clássicos inquestionáveis do cinema hollywoodiano como O morro dos ventos uivantes, A princesa e o plebeu, Tarde demais e suas três vitórias: Rosa de esperança, Os melhores anos de nossas vidas e Ben-Hur. Destes vitoriosos, confesso que apenas assisti Ben-Hur, que é provavelmente um dos filmes épicos mais conhecidos do cinema. É de uma grandeza, perfeição técnica e beleza visual intocáveis e ainda tem abrangência suficiente para agradar públicos de diferentes gostos. Talvez esta seja uma das chaves que o levaram a ser um dos três filmes mais vencedores do Oscar, arrecadando 11 prêmios. Particularmente, não morro de amores por este filme, mas A princesa e o plebeu e Tarde demais são filmes de Wyler que eu realmente gosto. Por mais que tenha mostrado uma perfeição técnica em Ben-Hur, é nesses filmes “menores” que ele mostra um talento ainda maior: controle das cenas e dos atores. Tomadas longas e contínuas que forçam o ator a dar seu melhor. Quem vê Tarde demais, por exemplo, jamais se esquece dos longos takes de filmagem em que Olivia de Havilland sobe aquelas longas escadas ostentando orgulho ou sofrimento e quem vê A princesa e o plebeu não consegue tirar o foco da intimidade crescente e dos passeios aleatórios entre Audrey Hepburn e Gregory Peck.

5. Bob Fosse: O bailarino e coreógrafo Bob Fosse ficou famoso no mundo todo nos anos 70 devido, principalmente, a seus dois musicais emblemáticos, inesquecíveis e históricos: Cabaret (1972), que narra a vida da cantora e dançarina Sally Bowles (vencedora do Oscar de melhor atriz – Liza Minelli), passando por seus amores e infelicidades dentro e fora dos palcos e no grande espetáculo que é a vida em si; e All that jazz (1979), filme com muitos elementos auto-biográficos que acompanha um coreógrafo (Robert Scheider) através de suas paixões, seus vícios e seu modo de vida agitado enquanto planeja criar um novo espetáculo de dança com forte teor sexual e aproxima-se, a passos largos, de seu trágico fim. Ambos os filmes tratam a vida como um espetáculo para rir e chorar e Bob Fosse é o mestre de cerimônias. Vencedor do Oscar de melhor diretor por Cabaret, derrotando ninguém mais ninguém menos que Francis Ford Coppola e seu historicamente imbatível O poderoso chefão.

6. Francis Ford Coppola: Coppola ganhou notoriedade em 1970 por escrever o roteiro de Patton, que ganhou o Oscar de roteiro original. Em 1972 dirigiu O poderoso chefão, sucesso de público e crítica como há muito tempo não se via; perdeu o Oscar de direção para Bob Fosse, de Cabaret, mas ganhou roteiro adaptado (junto a Mario Puzo, autor do livro) e o filme venceu a categoria principal. Dois anos depois, com a segunda parte de O poderoso chefão, Coppola ganhou o prêmio de direção e outra vez roteiro e melhor filme (mas no primeiro ele não foi produtor). Depois disso, ele já era um mito, e partiu numa aventura para produzir Apocalyse now, um filme sobre a guerra do Vietnã. Só posso dizer que o cara comeu o pão que o diabo amassou: Martin Sheen, o protagonista, sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens; Marlon Brando, que estava sumido há um tempo, apareceu dezenas de quilos mais pesado; um tufão destruiu os cenários certa vez (o filme foi gravado nas Filipinas) - o coitado do Coppola pensou em se matar várias vezes. Inicialmente Apocalypse now não foi muito bem recebido pela crítica, mas hoje é uma unanimidade - é o melhor filme de guerra já feito; melhor até que o Nascido para matar de Kubrick. Depois disso ele passou por um tempo de crise financeira, seus estúdios faliram e seus filmes não chamavam tanta atenção. Mas nenhum fracasso de Coppola é capaz de ofuscar suas três obras primas, filmes ímpares na história do cinema.

7. Woody Allen: A carreira de Woody no cinema remete aos primeiros anos da década de 70, com filmes pastelões, antes de seu grande amadurecimento profissional, com Annie Hall em 1977. O filme derrotou nada menos que Star Wars no Oscar, faturando filme, diretor, roteiro original e atriz (Diane Keaton), e Woody também foi indicado a melhor ator. Depois disso foram outras 6 indicações a melhor diretor e outras 13 indicações a melhor roteiro original, saindo vencedor por Hannah e suas irmãs (1986) e Meia-noite em Paris (2011). Não que importe muito, Woody nunca foi receber seus prêmios, nem mesmo quando Annie Hall foi indicado, preferindo ir tocar com sua banda; sua única aparição na cerimônia foi em 2002, para homenagear Nova York depois dos atentados de 11 de setembro.

8. Oliver Stone: Oliver Stone foi, por pelo menos duas décadas, um dos diretores e roteiristas mais respeitados em Hollywood e mais valorizados pela Academia. Seu trabalho, sempre voltado para questões políticas ou militares, tornou-se um estilo próprio nos anos 80 e o imortalizou através do drama de guerra Platoon, de 1986, considerado um dos melhores filmes já feitos sobre a guerra do Vietnã. Naquele ano, Platoon saiu vitorioso tanto nas categorias de melhor filme quanto na de melhor diretor, perdendo o prêmio de roteiro para o igualmente clássico Hannah e suas irmãs, de Woody Allen. Platoon, na verdade, só fez louvar a carreira já estável e próspera de Oliver Stone, que prosseguiu com sua onda de sucesso pelos anos seguintes, emplacando filmes como Nascido em 4 de julho (que lhe rendeu um segundo Oscar de direção) e JFK – a pergunta que não quer calar, um dos filmes mais polêmicos dos anos 90. A controvérsia, aliás, sempre foi amiga íntima do cinema de Stone. Somado a estes dois prêmios de direção, ainda há uma vitória de roteiro, logo no início de sua carreira, pelo filme O expresso da meia-noite, relato tenso do cotidiano de um prisioneiro americano encarcerado numa prisão turca.

9. Roman Polanski: Apesar de todos os escândalos que sempre envolveram sua vida pública, Roman Polanski não precisa provar a ninguém sua importância cinematográfica, pois esta é inegável. Dono de uma filmografia vasta, diversificada e reverenciada por público e crítica, Polanski é responsável direto por grandes clássicos como O bebê de Rosemary (pelo qual recebeu uma indicação o melhor roteiro) e Chinatown. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, soma cinco indicações ao Oscar. Três de direção, por Chinatown – a renovação do cinema noir nos anos 70; Tess – drama trágico e clássico dos anos 80; e O pianista, filme que finalmente lhe garantiu o Oscar de melhor diretor, já no ano de 2002 e que se tornou um marco no cinema da década. Polanski continua em atividade, lançando esporadicamente filmes de qualidade inquestionável.

10. Steven Spielberg: Eu não sou fã de Spielberg. Me xinguem, briguem, mas não sou fã de Spielberg. Seus filmes são ótimos, feitos com um preciosismo técnico impressionante, mas o tom moralista sempre presente não me desce. Mesmo assim, uma coisa não contesto: ninguém faz cenas de guerra como ele, nem mesmo Kubrick em Nascido para matar ou Coppola em Apocalypse now. A cena do desembarque na Normandia (o Dia D) em O resgate do soldado Ryan é de tirar o fôlego: são mais de dez minutos de tiros, explosões, membros perdidos, tudo isso num realismo incrivel. Steven Spielberg é produto dos anos 70, com destaque para seu primeiro grande sucesso, Tubarão, e se especializou em grandes produções; em 1985 surpreendeu ao dirigir A cor púrpura e mostrar que também sabe fazer filmes adultos. A grande consagração veio com A lista de Schindler (1993), vencedor de melhor filme, diretor, e outros prêmios técnicos. Com O resgate do soldado Ryan (1999) foi novamente vencedor do Oscar de direção, mas perdeu melhor filme para Shakespeare apaixonado, episódio mais polêmico da premiação nos últimos anos.

11. Irmãos Coen: Muito apontam os irmãos Joel e Ethan Coen como dois dos melhores nomes deixados pelo cinema da década de 80. Tal mérito não é exagerado e tão pouco desmerecido. Desde sua estréia, os irmãos imprimiram um estilo único e criativo de fazer filmes, baseado em elementos como: bizarrices diversas, humor escancarado mesclado com doses pontuais de sarcasmo e ironia e elementos de violência. Todos esses fatores que, resumidamente compõem a criação dos Coen podem ser facilmente sintetizados em Fargo – uma comédia de erros (Fargo, 1996), filme que rendeu a primeira indicação de Joel Coen a melhor diretor e ainda deu aos dois irmãos seus primeiros prêmios de roteiro. Fargo também se firmou como um dos melhores (a meu ver, o melhor) filme daquele ano e um dos principais da década. Boa parte desse sucesso pode ser atribuída também à atuação inesquecível de Frances McDormand no papel da protagonista. Anos mais tarde, e passados uma série de excelentes filmes, os irmãos Coen emplacaram seu maior sucesso no Oscar até agora. A mistura de western com elementos modernos e violência exagerada tornou Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007) um dos melhores filmes da década. Demasiadamente único e peculiar, o longa teve força o suficiente para bater a quase perfeição de Sangue negro, seu maior rival e um dos melhores filmes que já vi. Onde os fracos não tem vez ainda rendeu os prêmios de melhor diretor e melhor roteiro para os irmãos (isso sem falar em ter arrancado a melhor interpretação de Javier Bardem). O último sucesso dos irmãos foi o western Bravura indômita, que recebeu 10 indicações ao Oscar – mas nenhuma vitória.

12. Quentin Tarantino: Os irmãos Coen estão para os anos 80 assim como Tarantino está para os anos 90. Na década considerada por muitos como a pior década do cinema, surge este diretor/roteirista com uma linguagem única, moderna, pop, original e tão engraçada quanto violenta. Tarantino nos mostra verdadeiros banhos de sangue na tela, acompanhados por gags perfeitas, diálogos incríveis e situações tão improváveis quanto marcantes. Sua estréia de sucesso deu-se com o filme Cães de aluguel (Reservoir dogs, 1992), mas a explosão de sucesso veio com o super arrojado Pulp fiction, de 1994, filme icônico não apenas da década como do cinema de um modo geral. Sua linguagem rápida, seu senso de humor ácido e toda sua violência estranhamente fascinante o tornam um dos filmes mais queridos e respeitados no meio cinéfilo. Num ano quase totalmente dominado pelo bonito, porém bem comportado, Forrest Gump, Pulp fiction não saiu com as mãos abanando: Tarantino levou seu Oscar de melhor roteiro (acompanhado de uma indicação a diretor). o mundo do cinema rendeu-se a ele e os anos subseqüentes foram de sucessos seqüenciais (nenhum chegando nem perto do que foi Pulp fiction). Em 2009, no entanto, voltou a chamar a atenção da Academia através de seu conto de peculiar originalidade desenvolvido na França ocupada pelos nazistas: Bastardos inglórios. Bastardos alia todas as características usuais do cinema tarantinesco e ainda constrói uma história que mescla fatos e personagens reais com eventos e situações fantasiosas. Uma verdadeira reinvenção da história como a conhecemos. O filme rendeu a Tarantino novas indicações a direção e roteiro e consagrou mundialmente o ator Christoph Waltz. Neste ano, Tarantino voltou com força total com seu Django Livre, filme que também disputa categorias importantes no Oscar, como melhor filme, melhor roteiro e melhor ator coadjuvante (novamente, Waltz).

13. James Cameron: Visionário. Megalomaníaco. Inovador. Gênio. Falar em James Cameron é falar em super produções, orçamento milionários e bilheterias extraordinárias. Cameron começou a dirigir no fim dos anos 70, mas foi na década de 80 que ficou conhecido por Rambo II, O exterminador do futuro e Aliens. Em 1997, com Titanic, ganhou Oscar de melhor filme, diretor e edição; a bilheteria foi de mais de dois bilhões de dólares, recordista até então. Além disso, Cameron criou várias técnicas de filmagem durante a produção do filme. Doze anos depois, seu projeto mais ambicioso, mais caro, mais inovador e mais lucrativo: Avatar, filme futurístico ambientado num planeta há mais de quatro anos-luz da Terra, indicado a melhor filme e direção. A tecnologia usada em Avatar, pioneira, abriu uma revolução nos efeitos especiais e consolidou o uso do 3D, dando novo fôlego ao cinema. Sua bilheteria é a maior da história, cerca de 2,7 bilhões de dólares (superando até E o vento levou, que com a correção da inflação hoje seria de mais de 2 bilhões de dólares).

14. Martin Scorsese: Demorou. Deus e mundo sabem o quanto demorou, mas Scorsese finalmente ganhou seu Oscar de melhor diretor em 2006, por Os infiltrados. A primeira indicação foi em 1980 por Touro indomável, perdendo para o diretor de Gente como a gente, filme que derrotou Touro também no prêmio principal, uma das mais conhecidas injustiças do Oscar. Scorsese recebeu outras seis indicações, vencendo apenas uma vez; algumas dessas derrotas foram muito polêmicas, não só por ser mais uma derrota dele, mas por ele realmente merecer o prêmio. Além das indicações a melhor diretor, tem também três indicações a melhor roteiro adaptado. O último filme de Scorsese, Hugo, também foi derrotado, pelo franco-belga O artista. Ambos retratam o passado do cinema; Hugo remonta ao início do século passado e à figura de George Méliès, enquanto O artista fala da chegada do som ao cinema; sinceramente, acho que houve mais uma injustiça: O artista pode ser muito bom, mas Hugo é superior. Sua história é melhor, mais envolvente, tem efeitos especiais ótimos e mostra a importância do cinema na vida das pessoas. Beleza que umas horas Scorsese se empolga e parece querer dar uma aula, mas quem se importa?

15. Kathryn Bigelow: Diretora de poucos trabalhos conhecidos, mas de uma importância enorme para o cinema. Bigelow tornou-se a primeira mulher a vencer um Oscar de melhor direção, pelo seu filme Guerra ao terror de 2009, vencendo outros quatro concorrentes homens, incluindo seu ex-marido James Cameron. Bigelow tem um estilo cinematográfico particular e quase documental. Seu foco é em histórias políticas ligadas diretamente a guerras e as conseqüências dessas na vida do homem. Guerra ao terror, seu melhor trabalho, alia bem as cenas mais tensas envolvendo a guerra em si com uma enorme sensibilidade e melancolia relacionada ao sofrimento e a exaustão física e psicológica daqueles homens que odeiam e necessitam da batalha quase em mesma medida.

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Lucas Moura e Luís F. Passos

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Oscar nos anos 2000 (4): 2010 e 2011

2010
Melhor filme
 127 horas
 A origem
A rede social
Bravura indômita
Cisne negro
Inverno da alma
Minhas mães e meu pai
O discurso do rei
O vencedor
Toy Story

Depois de uma década sem muitos filmes excepcionais, enfim tivemos uma corrida pelo Oscar realmente empolgante. Foram dez os filmes que concorreram na principal categoria: a animação Toy Story 3, fim da muito bem sucedida série de Woody, Buzz e seus amigos; os semi-alternativos Inverno da Alma e Minhas mães e meu pai, cujos destaques foram principalmente suas protagonistas, ambas indicadas a melhor atriz; Bravura indômita, dos irmãos Coen, remake de um clássico de John Wayne; O vencedor, filme que usa o boxe como fundo para falar de família e vitórias pessoais; A origem,  de Christopher Nolan, que dividiu opiniões (brilhante ou confuso?) e deu um show de efeitos especiais; 127 horas, em que James Franco leva sozinho 90 minutos de filme numa atuação incrível; Cisne negro, que mostra uma bailarina em busca da perfeição e acaba entrando num processo de auto-destruição; A rede social, que usa a história da criação do Facebook para falar de uma geração de jovens prodigiosos e poder; e claro, O discurso do rei, sobre os desafios do rei George VI para vencer sua gagueira e ser a voz de seu povo. Sabe Deus como, O discurso do rei ganhou força e levou o Oscar, derrotando pelo menos cinco filmes bem melhores que ele. Seu diretor também faturou estatueta, seu roteirista também. Nas atuações, em compensação, não houve surpresas e os vencedores foram os esperados: melhor atriz pra Natalie Portman por Cisne negro, melhor ator pra Colin Firth por O discurso do rei, e coadjuvantes Melissa Leo e Christian Bale por O vencedor. Uma coisa que achei muito bacana foi a indicação de Nicole Kidman ao prêmio de melhor atriz por Reencontrando a felicidade; depois de alguns anos sem fazer nada de destaque, o botox dela afrouxou um pouco e lhe permitiu boas expressões que foram fundamentais para seu trabalho, na minha opinião o segundo melhor do ano - porque com Natalie Portman no páreo, era difícil superar.

2011
Melhor filme
A árvore da vida
A invenção de Hugo Cabret
Cavalo de guerra
Histórias cruzadas
Meia-noite em Paris
O artista
O homem que mudou o jogo
Os descendentes
Tão forte e tão perto

A última edição do Oscar foi marcada por um momento interessantíssimo na história da indústria. Como todos sabem, a tecnologia no cinema avança cada vez mais e o uso do 3D é cada vez mais freqüente e otimizado (As aventuras de Pi está aí para nos mostrar isso). No entanto, em meio a tanta transformação, cabe a pergunta: e o passado, como fica? A antiga arte no cinema, a magia do cinema mudo e o valor da história da sétima arte tem espaço no mundo atual? 2011 provou que sim, mostrando filmes que se voltavam totalmente a um olhar do passado, nos primórdios do cinema. A invenção de Hugo Cabret, do diretor Martin Scorsese, provavelmente o filme mais popular do ano, aliou perfeitamente esses dois elementos. Através do uso do que havia de mais alto em tecnologia, Scorsese criou um universo todo baseado nos antigos tempos do cinema, na arte do cinema mudo e nos princípios das bases técnicas que futuramente se tornariam o que vemos hoje. O próprio George Mélies (para que não sabe, Mélies é um dos nomes mais importantes do cinema. Sua obra conta com centenas de filmes – muitos deles, perdidos – e seu trabalho constitui o alicerce da tecnologia cinematográfica) é uma personagem vital no longa, que alia fantasia com fatos reais. O grande vencedor da noite, O artista, é um filme mudo sobre o fim do cinema mudo. Sobre as transformações que ocorreram na indústria durante os anos 30 e sobre a decadência dos astros do silêncio (personificados na figura de George Valentin – vencedor do Oscar de melhor ator, Jean Dujardin). Filme mudo cuja técnica remete automaticamente aos filmes da época que retrata. Nesse ano, foram nove os indicados a melhor filme. Destes, os destaques ficaram em torno de cinco: A invenção de Hugo Cabret, Meia noite em Paris, Os descendentes, Histórias cruzadas e O artista. O melhor, em minha opinião, é Hugo, mas gosto de todos os cinco. Meia noite em Paris, do diretor Woody Allen, também volta suas atenções ao passado, quando seu protagonista, Gil (Owen Wilson), na noite mágica de Paris, acaba encontrando-se na década de 20 em meio a seus grandes ídolos literários. Os descendentes, mais novo trabalho de Alexander Payne, não é excelente, mas tem capacidade suficiente de agradar a todos.  Histórias cruzadas discursa sobre racismo e intolerância no sul dos Estados Unidos, através da visão das empregadas domésticas, sendo as principais interpretadas por Viola Davis (indicada ao Oscar de melhor atriz) e Octavia Spencer (vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante). 2011 também coroou dois grandes nomes do cinema: Christopher Plummer, um dos atores mais experientes do cinema atual (pode ser visto, por exemplo, no clássico musical A noviça rebelde de 1965), ganhou o prêmio de ator coadjuvante (pelo filme Toda forma de amor) e tornou-se o ator mais velho a vencer na categoria (82 anos nas costas); e Meryl Streep! Quase três décadas após sua última vitória por A escolha de Sofia e umas doze indicações depois disso, a atriz mais respeitada do cinema atual voltou a receber a estatueta por seu trabalho como Margareth Tatcher, no filme A dama de ferro. O desfalque principal da cerimônia ficou a cargo da ausência de indicações para o filme Melancolia, de Lars Von Trier. O via em pelo menos cinco categorias: melhor filme, melhor diretor (Trier) melhor atriz (Kirsten Dunst), melhor atriz coadjuvante (Charlotte Gainsbourg, que também poderia entrar como atriz) e melhor fotografia, com potencial de vitória em todas. No entanto, não recebeu sequer uma. Esnobe total relacionado à escandalosa coletiva de imprensa dada por Trier em Cannes.

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Lucas Moura e Luís F. Passos

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A hora mais escura - os EUA vão à caça

Todos estão cansados de saber que os ataques terroristas de 11/09 provavelmente foram um dos marcos mais importantes da história recente e que definitivamente mudou o mundo. Nos EUA, então, o atentado saiu da esfera bélica e política e adentrou na sociedade. Instaurou-se um comportamento de medo no povo estadunidense e sua falsa sensação de segurança, garantida por uma aparência de país inabalável e inalcançável acabou, literalmente, em questão de minutos. Os EUA estavam com medo. Estavam revoltados. Precisavam de uma saída e alguém tinha que pagar por tudo aquilo. Quem deveria pagar? A organização terrorista responsável direta pelos atentados ao WTC e também ao pentágono: a Al-Qaeda. Mas para derrubar a organização de vez era preciso destruir o ponto chave de toda a máquina. Era preciso caçar, matar e mostrar para todo o mundo Osama Bin Laden. No entanto, o líder da organização sabia muito bem de sua posição de perigo e soube se esconder do quase incansável exército americano, que literalmente iniciou uma guerra ao redor desta caça (mais detalhes sobre isto podem ser vistos no filme da mesma Kathryn Bigelow, Guerra ao terror de 2009), e que, por anos procurou por seu paradeiro. Uns diziam que Bin Laden estava morto, outros que ele vivia escondido em cavernas em regiões afastadas do Paquistão. No fim das contas, o homem mais procurado da história na verdade se escondia numa casa enorme (com a segurança de um QG), no meio de uma cidade movimentada e a poucos metros de um centro de treinamento militar. Resumidamente, na cara dos americanos. A grande caçada que se iniciou logo após o 11/09/2001 teve fim apenas em maio de 2011, quando os EUA mostraram para o mundo todo que tinham, por fim, derrotado seu maior inimigo, mesmo pagando um altíssimo custo para tal.
Tudo que falei até agora acredito que vocês já saibam. Aliás, qualquer um que tenha acompanhado o mínimo dos fatos mais marcantes do século XXI viu, direta ou indiretamente, todo esse processo se desenrolar em meio a manchetes de jornais e reportagens de televisão. O filme A hora mais escura (Zero dark thirty, 2012), de Kathryn Bigelow, vai fundo no tema, mostrando com um caráter quase documental todo o desenrolar de fatos que culminaram com a morte de Osama Bin Laden. Acompanhamos as práticas de tortura comumente usadas para obter informações ainda no início da guerra, bem como o fim destas já no governo Obama devido as escândalos de Guantánamo; nos situamos em meio a fatos históricos que podem despertar a memória de algumas pessoas, como ataques terroristas a bases militares americanas no Paquistão; o táxi com bombas que quase explodiu em meio a Times Square e apavorou Nova York, o ônibus com bombas que explodiu nas ruas de Londres; percebemos todo o jogo político, militar e de inteligência americana em traçar previsões, acumular dados e perceber os pequenos detalhes que podiam passar despercebidos mas que fazem toda diferença. Vemos pistas falsas e verdade incômodas. No centro de tudo está Maya (Jessica Chastain), jovem oficial diretamente enviada por Washington D.C para liderar a caça. Seus esforços são incansáveis e sua confiança – mesmo que aliada a um nervosismo e uma histeria permanentes – é o combustível para tudo.
Muita polêmica foi gerada ao redor de A hora mais escura. Os motivos são óbvios. Alguns podem facilmente interpretá-lo como apenas mais um filme pró-América, que valoriza o intervencionismo exagerado dos EUA em território estrangeiro, monta o universo árabe como monstros inimigos que devem ser eliminados e, principalmente, que é um filme a favor das práticas de tortura. A questão é: isso é verdade? Em parte, sim. Não por Bigelow ter feito um trabalho tendencioso para tal, mas sim por ter havido uma preocupação em tentar, ao máximo, mostrar as coisas como elas realmente aconteceram. A verdade está aí e deve ser mostrada da melhor forma possível, por mais indigesta que seja. Os EUA fazem muita coisa errada, todo mundo está cansado de saber disso. O foco de Bigelow não é em deturpar ou valorizar a imagem que temos dos EUA, mas sim focar os fatos. Como negar a existência da tortura? Ela ocorreu, foi amplamente usada e foi através dela que eles conseguiram muitas informações importantes. Então, está no filme. Quando a tortura foi proibida (pelo menos é o que dizem) pelo governo Obama, obviamente houve uma dificuldade em obter informações e uma polêmica foi gerada em torno de tal tema. Isto também está no filme.
Achei uma boa escolha a presença de Jessica Chastain no papel de Maya. É uma atriz em ascensão, vem fazendo um filme atrás do outro e filmes com um nível relativamente alto de qualidade. Não consegui me conectar muito com a personagem, mas entendo sua indicação ao Oscar de melhor atriz e sua vitória no Globo de Ouro. Bigelow, mais uma vez, faz um excelente trabalho de direção. A hora mais escura não é um filme apaixonante, mas é um filme que tem um objetivo muito sério e desenvolve muito bem o que quer mostrar (achei algumas partes entediantes, mas toda a parte final é fantástica). Bigelow, pra mim, é um dos nomes mais interessantes do cinema atual. Em meio a um cenário de filmes políticos e de guerra que podiam ser muito bem associados a uma visão mais masculina, ela aparece para nos mostrar que o sexo não importa quando se trata de talento. A hora mais escura não é melhor que Guerra ao terror, mas deixo aqui minha recomendação para ambos. Aparentemente, Bigelow é a voz dos “heróis” desconhecidos.

Lucas Moura

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Oscar nos anos 2000 (3) - 2008 e 2009

2008
Melhor Filme
O curioso caso de Benjamin Button
Frost/Nixon
O leitor
Milk
Quem quer ser um milionário?

O que dizer deste ano? Com relação aos atores vencedores, tudo nos seus devidos conformes: Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona) e Heath Ledger (Batman: O cavaleiro das trevas) nos prêmios de coadjuvantes (certíssimo). Kate Winslet (O leitor) e Sean Penn (Milk – a voz da igualdade) nos prêmios de protagonistas (ótimas opções, ótimos atores e ótimos trabalhos que disputaram em pé de igualdade com Meryl Streep e Mickey Rourke). O problema de 2008 é que os melhores filmes do ano não foram indicados ao Oscar de melhor filme por puro conservadorismo da Academia. São eles: Wall-e e Batman: O cavaleiro das trevas, segunda fatia da trilogia Batman de Christopher Nolan. Wall-e é uma das melhores animações já produzidas pela parceria Disney/Pixar e é um trabalho genuinamente único em qualidade técnica e sentimental. É extremamente raro um filme de animação ser indicado a melhor filme (apenas Up!, Toy Story 3 e A bela e a fera conseguiram tal feito) e a única explicação que eu vejo pra isso é que a academia não curte o gênero. O cavaleiro das trevas, por sua vez, também deriva de outro gênero que também não é tão bem visto pelos membros da academia. Por mais que o trabalho de Nolan seja superior a essa denominação simples, é um filme de super-herói. Mas o que todos sabem é que este é um dos melhores filmes da década, aliando um grande roteiro com uma superprodução técnica e um desempenho inquestionável dos atores. Se apenas um filme de 2008 for entrar pra história, será O cavaleiro das trevas. No mais, os cinco indicados são bons filmes. Benjamin Button é bonito, mas não consigo levá-lo muito a sério. O leitor é muito interessante com seu questionamento de acerto de contas da Alemanha com seu passado nazista através do romance de juventude de um advogado. Milk retrata a biografia do político homossexual Harvey Milk, que lutou ferozmente pelos direitos homossexuais nos EUA dos anos 70. Quem quer ser um milionário?, o vencedor da noite e o melhor dos cinco indicados, é um filme bem completo. Tem drama, ação, comédia, aventura e até cenas mais tensas, tudo isso passando na Índia. Não a Índia exótica e misteriosa, mas sim num país de pobreza, violência e marginalidade muito longe do foco da mídia.
Obs: Ledger veio a se tornar o segundo ator a receber um prêmio póstumo. O primeiro foi Peter Finch, vencedor de melhor ator por Rede de intrigas (Network, 1976).

2009 
Melhor Filme
Educação
Um sonho possível
Up – altas aventuras
Amor sem escalas
Avatar
Guerra ao terror
Bastardos inglórios
Preciosa
Distrito 9
Um homem sério

Mudança de regras na Academia. Depois de quase 80 anos, voltam a serem dez os indicados na categoria principal. O lado bom disso é que bons filmes que literalmente corriam risco de serem esquecidos com o tempo acabam tendo uma chance maior de alcançarem uma representatividade interessante, mas a verdade é que na disputa real ao prêmio continuam sendo cinco filmes: Avatar, Bastardos inglórios, Guerra ao terror, Preciosa e Amor sem escalas. Destes, o vencedor acabou sendo Guerra ao terror. Meu favorito? Longe disso. Realmente acredito que Guerra ao terror seja um filme excepcional com seus “viciados em guerra” e admiro o trabalho de direção de Kathryn Bigelow, mas Bastardos inglórios é algo tão original, tão inovador, tão bem feito, criativo, “cool”, e com um elenco, roteiro e direção (ambos de Quentin Tarantino) tão bons que pra mim é o mais nítido possível que este é o melhor filme de 2009. De longe o melhor. Dos outros cinco, os que realmente valem a pena são Educação – a trajetória de uma jovem inglesa chamada Jenny (Carey Mulligan) que aspira viver uma vida cheia de cores e sons através de um relacionamento com um homem mais velho e que no caminho acaba aprendendo lições importantes sobre a vida e o amor (pra mim, este é o segundo melhor filme de 2009) – e Up: altas aventuras – a carismática aventura de um velhinho que decide seguir um sonho de infância compartilhado por toda uma vida com sua esposa levando sua casa amarrada em balões até as florestas tropicais da América do Sul. Vencedor de melhor ator: Jeff Bridges por Coração Louco. Vencedora de melhor atriz: Sandra Bullock por Um sonho possível. E aí eu te pergunto: que merda é essa? Pois é, também não sei. Tínhamos um ano realmente especial no Oscar de melhor atriz. Não digo isso pela presença de Meryl Streep (cujo papel eu nem curti tanto assim), que todos indicavam como a rival direta de Bullock, mas pela presença de dois jovens rostos cheios de talento em filmes que são pequenas obras-primas: Carey Mulligan, por Educação, e Gabourey Sidibe, por Preciosa. Ambos filmes excelentes, ambas interpretações mágicas em papéis dificílimos. Qualquer uma das duas seria uma vitória merecida e muito bonita de se ver. Ao invés disso, a Academia deu o prêmio a pior das cinco indicadas por um filme meia boca que tem a cara da sessão da tarde – sem querer ofender ninguém que gosta. Uma pena. Principalmente para Gabourey Sidibe. Se for analisar as carreiras dela e de Carey atualmente, é nítido que a dela é que passa por mais problemas. Depois do sucesso de Educação, Carey emendou um filme atrás do outro e todos de alta qualidade, diferente de Gabby que não fez mais nada de impacto. Afinal, sejamos sinceros, é muito difícil uma atriz quase desconhecida, negra, obesa e com cara de pobre conseguir um papel de real visibilidade dentro de Hollywood. Preciosa, pelo menos, saiu com o prêmio de atriz coadjuvante para Mo’nique, num trabalho assustadoramente excelente. Quem também teve grande destaque foi o vencedor de ator coadjuvante, Christoph Waltz, pelo seu trabalho inesquecível na pele do caçador de judeus em Bastardos inglórios.

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Lucas Moura

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Cantor de Jazz - Hollywood aprende a falar

Não foi a imagem colorida, não foram os efeitos especiais, nem mesmo a chegada do 3D. A maior revolução do cinema foi o advento do som, tanto nas falas das personagens como nos elementos de sonoplastia. O ano era 1927, a Warner estava beirando a falência, e foi o lançamento de um filme com falas e números musicais que botou as contas da casa em dia e deu novo fôlego à Sétima Arte. Tal revolução é tratada em diversos filmes, como Crepúsculo dos Deuses (1950), Cantando na chuva (1952) e mais recentemente O Artista (2011), longas que mostram a surpresa das pessoas diante da novidade, o repúdio de muitos que achavam que a moda seria passageira, e a mudança na vida de todos os profissionais de Hollywood, principalmente os atores, que deveriam deixar de lado o estilo caricato cheio de caras e bocas e aperfeiçoar suas performances com o uso da voz. Mas a nossa intenção hoje é falar do primeiro dos filmes falados: O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927).
No Guetto judeu de Nova York, o rabino Rabinowitz (Warner Oland) é uma figura de muito prestígio. Além de um dos principais líderes da sinagoga local, também é o cantor de maior destaque; talento presente na sua família há quatro gerações. Rabinowitz é um homem conservador que preza pelas tradições seguidas ao pé da letra, por isso que desde cedo deu aulas de canto ao seu filho Jakie (Bobby Gordon) para que ele assumisse seu lugar como rabino e cantor quando adulto. Acontece que Jakie é um grande fã de jazz e sonha em ser um ídolo do gênero. No dia em que descobre que o filho cantava jazz num bar, o rabino tem uma séria discussão com ele e o garoto foge de casa.
Os anos passam e Jakie se torna um conhecido cantor na Califórnia, usando o nome Jack Robin (Al Jolson o representa nessa fase adulta). Agora sua ambição é cantar e atuar na Broadway, que representa o topo da carreira e a possibilidade de se reaproximar de sua família. Com a ajuda de sua namorada Mary Dale (May McAvoy) ele consegue uma vaga num musical e retorna a sua cidade. Logo quando volta ao Guetto encontra sua mãe Sara (Eugenie Besserer), que fica muito contente com sua volta, o que não se podia dizer do rabino. Bem, era óbvio que ele estava feliz por rever o filho, mas não deu o braço a torcer porque ele voltara para trabalhar com jazz, e não na sinagoga, e acaba expulsando-o de sua casa. O rabino acaba doente, e o povo do Guetto pede a Jakie que o substitua nas celebrações do Yom Kippur (feriado judeu), que estão por vir; a partir daí seu coração fica dividido entre seus sonhos em ser um astro e suas obrigações para com seu povo.
Vamos às considerações, primeiro ao filme em si: merece destaque não só pelas inovações, mas por ser muito bom. Fui assistir com poucas expectativas, que foram facilmente superadas. É muito legal o roteiro que fala de sonhos, família, perdão (inclusive o Yom kippur é o feriado do dia do perdão) e os confrontos existentes quando se quer seguir um caminho mas alguns fatores levam a seguir outros.
Já em relação à inovação sonora: O Cantor de Jazz não é um filme totalmente falado. Praticamente só há duas sequências faladas (por sinal muito boas) e é nos números musicais que ouvimos as vozes do elenco (Al Jolson era cantor profissional); mas não há elementos de sonoplastia como sons de passos, de móveis sendo arrastados ou coisas do tipo, as falas são escritas para a plateia ler e há o típico fundo musical instrumental. Mas essas poucas falas e canções foram a chave para o que viria a seguir: a imensa onda de filmes falados, conhecidos como talkies, muito populares e que encheram as salas de cinema.
Mas além de histórico, este é um filme um pouco polêmico quando olhamos o contexto de preconceitos e e da falta de direitos civis para todos. Primeiro pelo fato muito conhecido de que o ator usa maquiagem para interpretar um negro - mas diferente do que é falado, não é o ator que se pinta para viver um protagonista negro; é o protagonista, que é ator, que se pinta para viver no teatro uma pessoa de cor. Ou seja, a racista da vez seria a  Broadway, e não Hollywood. Não que eu queira amenizar a coisa, até porque essa era uma prática comum no cinema até os anos 1950. Lembrando que a primeira pessoa negra a conseguir um Oscar foi Hattie MacDaniel, que interpretou uma escrava em ...E o vento levou (1939), mas vergonhosamente Hattie entrou e saiu no teatro da premiação pela porta dos fundos. O filme também toca noutro ponto delicado: os guettos judeus. Até metade do século XX os judeus em Nova York estavam restritos a alguns bairros ou distritos (guettos), apesar da imensa população judaica na cidade (oi, Woody Allen?).

Leia também:
Cantando na chuva
O artista
Oscar de Melhor atriz coadjuvante

Luís F. Passos

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O grande Gatsby - o grande romance americano

Os fãs de Meia-noite em Paris, como eu, lembram bem da primeira vez em que Gil chega aos anos 20 e quem são seus primeiros guias pela boemia parisiense: o casal Scott e Zelda Fitzgerald. No filme ambos parecem muito carismáticos, como eram de fato; essa participação, além dos vários comentários tecidos por Gil despertaram minha curiosidade em relação a eles.
Francis Scott Fitzgerald nasceu em Minnesota, EUA, em 1896. Publicou seu primeiro livro em 1920 (Este lado do paraíso), graças ao qual teve dinheiro para casar com Zelda Sayre, uma rica moça do Alabama. O sucesso de Scott permitiu ao casal manter um alto padrão de vida, dividindo-se entre os EUA e algumas cidades da Europa. As farras dos Fitzgerald eram tão conhecidas quanto a obra de Scott, regadas a muito bourbon e tulmutuadas desde que Zelda passou a apresentar problemas psicológicos - na verdade ela nunca fora muito boa do juízo, mas piorou com sua frustração por não ter talento para escrever e sua insegurança e medo de que Scott a largasse. Zelda foi internada numa clínica em 1932; poucos anos depois Scott passou a escrever roteiros para Hollywood. Faleceu em 1940 vítima de um ataque cardíaco.
O grande Gatsby (1925) é considerado a  obra prima de Scott Fitzgerald. É ambientado nos prósperos e loucos anos 20, quando a Europa se recuperava da Primeira Guerra Mundial e os Estados Unidos lucravam com isso. Nessa época a classe média americana aumentou muito, e passou a ostentar riqueza e conforto, o chamado American Way of Life. Também nesse tempo estava em vigor a Lei Seca, que proibia o comércio de bebidas alcoólicas, o que aumentou bastante o contrabando destas e consequentemente enriqueceu o mercado negro.
É nesse contexto que o ingênuo comerciante Nick Carraway chega em Long Island, cidade próxima a Nova York em que os milionários do estado mantinham mansões à beira da praia - mas morava em uma casa simples o suficiente para que pudesse pagar o aluguel. Também em Long Island, mas do outro lado da baía, morava a prima de Nick, Daisy, que era casada com um rico atleta, Tom Buchanan. Foi em um almoço na casa de Daisy que Nick conheceu Jordan Baker, uma jovem meio misteriosa por quem o rapaz se interessou.
Dias depois do tal almoço, Nick recebeu uma carta de seu vizinho, Jay Gatsby, que o convidava pra uma festa no próximo sábado. Essas festas semanais eram famosas por serem regadas a muita bebida e só acabarem no amanhecer do domingo. O estanho é que nem os frequentadores mais assíduos dos festões de Gatsby o conheciam; seu passado e a origem de sua fortuna sempre rendiam muitos boatos, mas ninguém sabia nada verdadeiro ou concreto. Mais estranho ainda foi Nick conhecer seu anfitrião logo na primeira festa - Gatsby foi bastante cordial, chegando a convidar o vizinho para um passeio de aeroplano.
Com o passar das semanas, Gatsby vai revelando a verdade a Nick. Ele e Daisy haviam namorado anos antes, durante a guerra, mas o romance não deu certo porque ele era muito pobre. Jay caiu no mundo enquanto Daisy havia se casado com Tom. Anos depois ele retornou rico e ao descobrir o paradeiro da ex, decidiu construir uma .mansão próxima à de Daisy, mas do outro lado da baía. As festas incríveis eram feitas na esperança de que Daisy e Tom aparecesem; como isso nunca havia acontecido, Gatsby pediu a Jordan que o aproximasse de Nick, para assim, reencontrar Daisy.
O grande Gatsby não só é considerado a obra-prima de F. Scott Fitzgerald como também um dos melhores livros do século. Isso porque é o perfeito retrato de uma década áurea, ao mesmo tempo em que é uma forte crítica ao Sonho americano. Fitzgerald era um boêmio, mas mesmo assim criticava o materialismo exacerbado e a decadência moral que cercava a alta sociedade estadunidense. É fácil perceber essa futilidade no romance: desde as centenas de pessoas que frequentavam as festas na mansão, até o próprio Gatsby, que usava seus convidados como fantoches; a única intenção das festas era atrair seu antigo amor. E a partir da relação Gatsby-Daisy-Nick, o autor trata de outros temas, como a traição; Nick é errado por arrumar um encontro para a prima casada, e esta e Gatsby são errados por manter um caso. Também aparecerão indícios de traição por parte de Tom, e é aí que os esqueletos sairão de todos os armários (oi, drama?).
E claro, o maior mistério do livro é Gatsby. Quem é ele? De onde veio? De onde surgiu sua fortuna? Herança, roubo e contrabando são as principais hipóteses. Mas aos poucos os segredos são revelados e o grande Jay Gatsby vai se mostrando cada vez menor - ou mais humano? - aos olhos de Nick. Talvez, por trás da lenda do milionário de Long Island exista apenas um homem solitário. Por fim descobrimos que acima de tudo o livro trata da recusa da maturidade, a incapacidade de envelhecer e a obsessão por beleza e riqueza eternas.

E dedos cruzados! Está prevista para março a estreia da nova adaptação de O grande Gatsby para o cinema, com Leonardo Dicaprio, Carrey Mulligan e Tobey Maguire.

Luís F. Passos

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Oscar nos anos 2000 (2) - 2004 a 2007

2004
Melhor Filme
Menina de ouro
O aviador
Em busca da terra do nunca
Sideways
Ray

A briga no ano ficou quase toda entre Clint Eastwood e sua Menina de ouro e Martin Scorsese e seu O aviador. Quem saiu vencedor? Eastwood. Scorsese tem um longo histórico de rejeição por parte dos votantes da academia e na edição deste ano, não foi diferente. No entanto, analisando os dois filmes em questão, aceito a vitória de Menina de ouro numa boa. É um filme excelente, isso não se pode negar. O único problema dele é que é um drama que perdeu muita força. Não é exatamente aquele filme que se possa ver várias e várias vezes sem cansar. E O aviador, por sua vez, está longe de ser o melhor filme de Scorsese. Longe mesmo. Minha opinião sobre o melhor filme do ano? Brilho eterno de uma mente sem lembranças, que nem está aqui entre os cinco indicados. Mesmo assim, o filme ainda saiu vencedor por melhor roteiro original e com uma indicação para Kate Winslet na categoria de melhor atriz (perdeu – a meu ver, injustamente – para Hilary Swank por Menina de Ouro). Melhor ator foi para Jamie Foxx como Ray Charles em Ray, outro caso complicado de premiação, pois o trabalho de Di Caprio em O aviador é fantástico. Ah, mais um detalhe. Neste ano, Clint Eastwood ganhou pela segunda vez os prêmios de melhor filme e melhor diretor (sendo a primeira pelo ótimo Os imperdoáveis, 1992).

2005
Melhor Filme
Capote
Crash
Boa noite e boa sorte
O segredo de Brokeback Mountain
Munique

Um dos casos históricos de erros da Academia aconteceu nesta cerimônia. O favorito de quase todos, o filme mais polêmico e mais comentado do ano, O segredo de Brokeback Mountain, misteriosamente, por razões desconhecidas, perdeu na categoria principal para Crash – no limite. Não é que Crash seja ruim – tem uma proposta interessante relacionada ao choque e as conexões, das mais variadas formas, entre as pessoas das grandes cidades, cujas vidas estão, de várias maneiras, conectadas e a mercê da "ação e reação". Todo ato cometido terá, em algum momento, alguma repercussão – mas Brokeback Mountain é bem melhor. Sua proposta de criar um drama romântico protagonizado por um casal homossexual numa sociedade extremamente machista e opressiva segue quase o padrão clássico de "amor impossível" dos grandes contos de romance. A diferença é que o casal é um casal gay e eles não estão enfrentando uma doença, distância ou famílias rivais. O grande impedimento aqui é a intolerância. Tudo mostrado da forma mais simples, direta e sensível possível, sem jamais ser grosseiro, vulgar, brega ou exageradamente fantasioso. Enfim, é melhor que Crash, mas pelo menos levou o prêmio de direção para Ang Lee e elevou as carreiras de seus quatro atores principais (Heath Ledger, Jake Gyllenhal, Michelle Williams e Anne Hathaway) a outro nível. Vencedor de melhor ator: Phillip Seymour Hoffman por Capote – sim, o próprio Truman Capote, autor de Bonequinha de luxo. Vencedora de melhor atriz: Reese Witherspoon por Johnny e June – ótima atuação, mas tanto Felicity Huffman (Transamerica) quanto Charlize Theron (Terra Fria) fizeram trabalhos mais legais.

2006
Melhor Filme
Cartas de Iwo Jima
Babel
Os infiltrados
Pequena miss Sunshine
A rainha

Finalmente o ano de Scorsese! Com Os infiltrados, o diretor finalmente conseguiu seu prêmio de melhor diretor (mais de três décadas após a derrota inexplicável de Touro indomável) e o filme ainda conseguiu levar melhor filme, feito único em sua extensa e fantástica carreira. Babel é quase a mesma coisa que Crash. A diferença é que as ligações entre as personagens vão além de uma simples cidade e se estendem, literalmente, pelo mundo. A rainha é a apoteose da vencedora do Oscar Helen Mirren, num trabalho memorável nesse filme interessantíssimo sobre os bastidores da família real britânica em um de seus momentos de maior crise. Pequena miss Sunshine, a grande surpresa do ano, veio a se tornar um dos filmes mais bem sucedidos e populares da década de 2000 e escancarou as portas dos filmes de circuito independente para Hollywood com sua forma simples e hilária de questionar temas sérios e pertinentes. Vencedor de melhor ator: Forest Whitaker por O último rei da Escócia, filme para testar os nervos de qualquer um que resolva encará-lo.

2007
Melhor Filme
Desejo e reparação
Sangue negro
Onde os fracos não têm vez
Juno
Conduta de risco

Ano fortíssimo. Um dos anos mais complicados e excepcionais que a Academia teve neste ainda recente século XXI. Tirando melhor ator (Daniel Day-Lewis – Sangue negro) e melhor ator coadjuvante (Javier Bardem – Onde os fracos não têm vez), em que ambos atores não apenas trouxeram as melhores atuações do ano, como também duas das melhores da década, todas as outras categorias principais foram disputadíssimas e compostas por candidatos no auge de suas carreiras em interpretações fantásticas. Em atriz coadjuvante, Tilda Swinton (Conduta de risco) brigou muito pelo prêmio com a jovem Saoirse Ronan (Desejo e reparação, um dos meus filmes preferidos), que na época tinha apenas 13 anos de idade, pra conseguir levar seu prêmio. Disputa absurda e, pra mim, uma das maiores da categoria de melhor atriz aconteceu entre a veterana e incrível Julie Christie (indicada por Longe dela – filme belíssimo. Vencedora por Darling, a que amou demais no longínquo ano de 1965) e a vencedora até então semi-desconhecida Marion Cotillard por seu desempenho absurdo como Edith Piaf em Piaf – um hino ao amor. Sua caracterização foi considerada por muitos como uma das melhores atuações de vencedoras do Oscar de melhor atriz de toda a história da premiação. Para completar, Sangue negro e Onde os fracos não têm vez brigaram muito pelas duas categorias principais, mas o filme dos Coen acabou levando a melhor. Não tenho uma opinião precisa sobre, pois adoro os dois filmes, mas cada vez mais acredito que Sangue negro seja um filme melhor. Juno é uma explosão de cinema teen de qualidade e elevou Ellen Page ao topo de Hollywood, de modo até a transformá-la numa das atrizes de maiores destaques dos anos 2000 e uma das grandes promessas do cinema americano nos últimos anos. Conduta de risco é... sei lá, não gostei.

Leia também:
Oscar nos anos 2000 (1)
Oscar de melhor filme
Oscar de melhor atriz

Lucas Moura

sábado, 9 de fevereiro de 2013

As vantagens de ser invisível - as vantagens do cinema independente

 Todo ano temos sempre um ou dois filmes de circuito independente ou semi-independente que conseguem uma representatividade grande e alcançam um público muito maior do que o esperado para seu gênero e sua proposta inicial. Conseguir isso, no entanto, é extremamente difícil. Fazer com que um filme de baixo orçamento que esteja por fora dos grandes estúdios de Hollywood e que não trabalhe com as maiores estrelas do momento torne-se popular é realmente muito difícil, pois, para tal, o filme deve ter no mínimo um roteiro excepcional e um elenco que pode até ter muitos nomes desconhecidos, mas que deve, obrigatoriamente, ser excelente. O caso é que As vantagens de ser invisível (The perks of being a wallflower, 2012) vai muito além disso.

O filme trata, basicamente, da vida de um jovem adolescente de 16 anos que acaba de entrar para o ensino médio. Seu nome é Charlie (Logan Lerman) e ele de fato não tem nenhum amigo e pouca convivência com o mundo a sua volta, já que vive sempre assombrado por distúrbios psicológicos causados por terríveis traumas de sua infância – que vão sendo revelados aos poucos ao longo da trama. No meio de uma multidão de adolescentes que parecem tão vivos ele é um nada. Uma pessoa invisível. 
Sua invisibilidade começa a desaparecer quando ele encontra as duas pessoas que viriam a se tornar seus melhores amigos e confidentes. Patrick (Ezra Miller), um veterano super divertido e descolado que parece estar sempre alegre e disposto a tornar todos a sua volta com o mesmo estado de espírito. Sam (Emma Watson), a bela colegial, super simpática e, aparentemente, igualmente cheia de vida por quem Charlie acaba desenvolvendo uma paixão inegável. Junto a essas duas novas pessoas, o solitário Charlie começa a andar sobre novos caminhos, tomar novas atitudes e passar por novas experiências, das mais banais as mais incomuns, que funcionam como um verdadeiro sopro de vida em sua decepcionante rotina e que acabam o afastando, um pouco, dos seus velhos transtornos que sempre o acompanharam. Entra de cabeça num mundo totalmente novo. Tudo parece ir melhor do que nunca. 
O problema é que as coisas nunca são realmente o que parecem ser. A aparente euforia dos garotos, na verdade, não representa de fato o estado de espírito deles. Seus segredos, suas frustrações, seus medos e suas inseguranças vão, aos poucos, sendo cada vez mais exibidos em momentos naturais da mais franca sensibilidade. As aparências realmente enganam e escondem quem realmente somos. Charlie não é o único perdido ali, todos, em suas próprias maneiras, estão confusos e a procura de uma identidade pessoal ainda em formação.
As vantagens de ser invisível fala justamente disso. Dessa construção de uma identidade própria, da forma como disfarçamos nossos problemas e nossos traumas, da necessidade absurda de conseguir encontrar um lugar e um alguém com quem ser nada mais do que si mesmo (“vamos ser desajustados juntos!”). Fala sobre a importância da amizade e de como nos comportamos perante relacionamentos efetivos (“nós aceitamos o amos que achamos merecer” – frase fantástica essa). Tudo isso com uma sensibilidade e uma franqueza que somente filmes independentes poderiam trazer. Um filme ousado que se propõe a trazer algo genuinamente novo, mesmo que o tema central já tenha sido abordado em outros filmes para adolescentes e jovens. Afinal, As vantagens de ser invisível é sim um filme voltado para tal público. Não há motivos para negar isso. Sua linguagem fala diretamente a pessoas entre seus 15 e 20 anos, mais ou menos, por mais que possa se conectar com qualquer idade. É um filme jovem, feito para jovens, com um elenco quase inteiramente de jovens. E quem disse que filme para jovens é porcaria? Eventualmente temos provas consistentes de que há sim vida inteligente na juventude e que existe uma parcela considerável de espectadores de tal faixa etária mais interessada em questionamentos realmente pertinentes sobre temas diversificados e sérios. Que se preocupa com conteúdo e com uma legítima identificação com uma história, não com uma menina sem graça cuja grande dúvida é se vai transar com um lobisomem ou com um vampiro.
Além disso, para os fãs de boa música, As vantagens de ser invisível conta com uma trilha sonora muito legal e ainda com uma grande reverência ao excêntrico e sexual musical The Rocky Horror Picture Show (1975), que não podia ser metáfora maior ao modo como eles se propõem a serem pessoas diferentes no meio da mesmice. Muito legal.

Não conhecia o ator Logan Lerman, mas definitivamente adorei seu trabalho como o protagonista tão calado quanto complexo. Charlie é uma personagem completo e é impossível não criar empatia imediata com ele. Ezra Miller vive Patrick, o amigo gay e descolado, que garante boa parte dos momentos descontraídos do filme e ainda arrebata alguns dos momentos mais tensos e sentimentais. Ezra ficou conhecido pelo seu papel como Kevin em Precisamos falar sobre o Kevin (2011). E Emma Watson? Incrível. Ela confirma o que qualquer um com bom senso já sabia, que é a melhor coisa que saiu da saga Harry Potter no cinema. Mostra que consegue ir muito além de Hermione Granger e que tem absolutamente tudo que é necessário para se tornar a nova atriz sensação dessas pequenas maravilhas que são os filmes semi-independentes (ainda este ano, estréia no novo filme de Sofia Coppola), território onde nomes como Kirsten Dunst, Jennifer Lawrence e Ellen Page conseguiram firmar seus talentos alguns anos atrás.

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