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terça-feira, 12 de maio de 2020

Crepúsculo dos deuses - Billy Wilder, 1950

Um dos temas preferidos de Hollywood é falar sobre si, sobre o processo criativo e os bastidores da indústria do cinema. É um tópico bastante recorrente desde a chamada época de ouro do cinema clássico até os filmes contemporâneos. Um dos filmes que mais se aprofunda nos aspectos psicológicos envolvidos com a fama e a idolatria que cerca as grandes estrelas é Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950), clássico indispensável para qualquer amante de cinema.
O filme traz o relacionamento complexo entre um jovem e falido roteirista chamado Joe (Willian Holden) e uma antiga estrela do cinema chamada Norma Desmond (Gloria Swanson). Os dois se conhecem por um acaso quando ele acaba escondendo na mansão da atriz enquanto fugia de funcionários do banco que lhe perseguiam para tomar seu carro por falta de pagamento. Na interação entre os dois, parece se formar uma relação bem simples e até vantajosa para Joe. Em troca de um abrigo (quase um esconderijo) e um bom salário, Joe trabalharia junto com Norma fazendo revisões em um roteiro escrito pela atriz como sua tentativa de voltar ao estrelato.
Temos aqui duas figuras vivendo momentos completamente diferentes em suas vidas, mas ambos no limite. Joe é jovem, mas a situação financeira que ele vive é tão séria que não parece haver grandes opções para ele que não voltar para sua cidade natal e desistir do sonho de uma carreira dentro do cinema. Esta é uma das faces de Hollywood que o filme traz: a difícil jornada para o estrelato. Apesar da grande propaganda de terra de oportunidades, fazer uma carreira dentro do cinema é extremamente difícil. Mesmo que tenha tido um aparente bom começo, Joe encontra-se desempregado e num difícil processo artístico, visto que não consegue encontrar o balanço entre tornar sua arte relevante e ao mesmo tempo comercial. A mesma cidade que se maquia de cidade dos sonhos é bastante cruel com sonhadores. Joe é, então, um homem cínico e cético que não tem muito a perder – e quem não tem nada a perder está disposto a muitas coisas.
Norma Desmond não é uma atriz qualquer, mas sim uma das maiores estrelas do cinema mudo. A maior de todas (como gosta de frisar), mas seus dias de glória há muito ficaram para trás com a mudança na maneira de fazer cinema que veio com o advento da fala e com a extinção do cinema mudo. A mesma indústria que alimentava o ego de suas estrelas, e que as elevava ao status de deuses, simplesmente virou as costas para eles, jogando-os ao esquecimento e a lembranças e ilusões de um passado glorioso e distante. A maneira como o estrelato e a exclusão são capazes de perverter a mente humana é o grande foco do filme. Norma é completamente desconectada com a realidade, agarrada fielmente a um passado que não vai voltar e a crenças cegas de que o público e a indústria não a descartaram. Sua negação é tão grande que ela demonstra profundo desprezo pelo cinema falado, quase como se esta fosse uma forma inferior de arte e como se a culpa pelo seu sofrimento fosse o áudio e não as pessoas que se aproveitaram de sua imagem. Em suas próprias palavras: eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos. A maneira como ela se agarra à grandiosidade é digna de pena (inclusive por parte de Joe) e reverbera na manutenção de hábitos do passado, em relações pontuais com antigos amigos também envolvidos no cinema mudo e no apego a bens materiais decadentes, mas com toda a extravagância digna de Gatsby e dos anos 20. Quando a realidade torna-se inevitável, Norma demonstra toda sua fragilidade emocional e deixa à mostra grande tristeza e vulnerabilidade.
Outro aspecto que o filme aborda de maneira bem pertinente é o processo de envelhecimento diante das telas e de como isso é um problema para as atrizes. ATRIZES, não atores. Quando acredita que seu projeto realmente vai sair do papel, Norma entra em um processo obsessivo de “embelezamento”, se submetendo a diversos e desconfortáveis tipos de tratamento para tentar aparentar ser mais jovem. Esse é um problema que atrizes vivenciam até hoje. É muito comum que atrizes tenham seus anos mais prolíficos no cinema em torno de seus 20 a 30 anos de idade e que a partir de certa idade o número de ofertas de papéis interessantes diminui consideravelmente, além de muitas acabarem sendo encaixadas em personagens engessados ou figuras específicas como a mãe, a esposa ou a professora. Mesmo hoje, poucas atrizes conseguem quebrar com frequência os estereótipos que vêm com a idade, o que não se vê na mesma intensidade com os homens. Em certo momento, Joe critica – e até ridiculariza – Norma pelo seu desespero em tentar parecer uma mulher de 25 anos, mas não parece se atentar muito à origem do problema, o que também é algo que fazemos com frequência nos dias de hoje, com uma mídia focada em apontar “falhas” e criticar a aparência de atrizes e de mulheres em evidência no geral.
Em um toque de genialidade na escolha do elenco, Gloria Swanson vive Norma. É genial, pois no sentido mais íntimo da questão Gloria e Norma são até certo ponto a mesma pessoa, visto que a atriz Gloria Swanson, assim como a personagem Norma Desmond, foi uma atriz de reconhecimento gigante no cinema mudo que teve sua carreira arrasada pelo envelhecimento e pelo crescimento do cinema falado.
Crepúsculo dos deuses vai fundo na ferida e critica a maneira hollywoodiana de tratar pessoas como bens materiais descartáveis de uma forma que o torna relevante mesmo hoje, 70 anos após seu lançamento. É um dos melhores filmes do Billy Wilder (isso não é pouca coisa) e um dos melhores clássicos do cinema estadunidense.

Nota: 10

Lucas Moura

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domingo, 31 de dezembro de 2017

Sobre 2017, seus altos e baixos e alguns filmes

Vou começar este texto de fim de ano com sinceridade: eu não sei sobre o que escrever. Não assisti a Retrospectiva 2017 da Globo, minha memória anda ruim, então eu espero que à medida em que escrevo, vá lembrando de coisas importantes desse ano de muitas emoções. Muitas. De todos os tipos.
Conforme esperado, a crise político-financeira de nosso País piorou. Piorou muito. Maldito seja Tiririca e seu "pior do que tá não fica". O que já era errado ficou nojento de tão escancarado, explícito e sem vergonha nenhuma. Assistimos perplexos à delação dos Irmãosley - Wesley e Joesley - Batista, mostrando até onde chegava a corrupção do governo Temer e de seus principais aliados. Malas de dinheiro destinadas ao mais alto escalão do executivo, do legislativo e a crápulas já presos, como o embuste-mor da República, Eduardo Cunha, que estaria recebendo milhões da JBS para manter a boca fechada e não delatar o ninho de cobras de Brasília. Enquanto o povo esperava que alguém voasse, a única coisa que voou foi o dinheiro público, já que centenas de deputados foram comprados duas vezes para impedir a autorização da investigação do presidente e de alguns de seus ministros pelo Supremo Tribunal Federal. Relembrando áudios de Sérgio Machado gravados no ano passado, onde ele dizia que "o primeiro a ser comido" seria Aécio Neves, não foi bem assim que a coisa aconteceu. O senador, gravado pedindo 2 milhões de reais e afirmando que quem deveria buscar o dinheiro era alguém que fosse morto antes de fazer delação, teve o mandato suspenso mas foi posteriormente absolvido por seus pares do Senado.
Aproveitando o tema STF... quanta decepção. Claro que a gente só podia lembrar do "grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo" ao ver ministros da suprema corte livrando tão facilmente algumas das piores caras de nossa política. Merece destaque aquele que teve tantos jantares particulares com Temer, que recentemente soltou ex-governadores do RJ e que levou um belo chega-pra-lá do ministro Barroso, que categoricamente afirmou que seu colega tem "parceria com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco". Além disso, o Supremo fez o favor de liberar ensino religioso no Brasil, e de uma forma que não garante que várias religiões sejam debatidas, como seria mais correto; podemos afirmar que será uma imposição de cristianismo. Vá embora de vez, estado laico.
Pois é, gente. Apanhamos, e a porrada veio de todos os lados. Corrupção, piora dos serviços públicos, aumento abusivo de impostos, enquanto isenções eram concedidas a grandes empresas - o que falar de 1 trilhão em isenção ao longo de 25 anos pras exploradoras do pré-sal? Ao mesmo tempo, o gás de cozinha ficou cada vez mais caro, prejudicando principalmente os mais pobres. Que seja lembrado o caso de um senhor em Pernambuco que comprou um botijão em um vendedor clandestino para não pagar tão caro, mas houve um vazamento seguido de explosão que matou três pessoas e feriu os demais moradores na residência. Reflexos do golpe de 2016. Afinal, não foi um golpe só contra Dilma, mas contra os pobres, os trabalhadores, os negros, as mulheres e os LGBT.
E num ano com tantos desafios, cada oportunidade de rir era aproveitada. Deus abençoe o menino que gerou o meme do "caindo ao som de sweet dreams", um dos melhores dos últimos anos, e a dona e proprietária da internet, Gretchen, que zerou a rede ao estrelar um clipe de Katy Perry (que é muito melhor que o clipe oficial. Amém). E por falar em música, teve Anitta e Pabllo Vittar pra mostrar porque se deve lutar por representatividade - algumas vitórias contra o conservadorismo, né? E por falar em luta, nossos aplausos e nosso respeito às mulheres que denunciaram assédio e abuso na indústria de Hollywood e também na televisão brasileira. Respeita as mina!
Pra encerrar, meu maior conselho pra 2018: se cuidem, galera. Do corpo e da mente. Em um ano de tantas histórias tristes envolvendo saúde mental e desfechos trágicos como suicídio, a minha mensagem é um pedido pra que vocês não deixem passar suas próprias necessidades por priorizarem outras coisas como estudos, trabalho ou algum problema. São importantes? Claro que sim. Mas nada é mais importante que cuidar de si mesmo, e depois disso, cuidar das pessoas que nos cercam. Pessoalmente falando, esse foi um ano realmente cheio de altos e baixos,e com uns baixos que me fizeram tremer. Talvez eu tenha passado pelo pior momento de minha vida, mas com tempo, fé e pessoas queridas, a vida segue em frente. E alegria nesse ano também não faltou. FORMEI, GENTE! Depois de seis anos de faculdade (e desse querido blog que me deu uma baita ajuda nesse tempo), sou médico. Muita coisa boa aconteceu na contagem regressiva pro final do curso, muitas festas, lágrimas de alegria, e a formatura foi uma semana positivamente inesquecível.
Talvez este seja o último post de nosso blog. Ou não, mas sei que ficarei um bom tempo sem escrever por aqui. Então me despeço agradecendo a companhia ao longo dos últimos seis anos neste projeto que muitas vezes me fez esquecer problemas, além de tirar minha cabeça das obrigações cotidianas e me distrair ao escrever sobre cinema, literatura, música e algumas besteiras. Um 2018 de muita paz, saúde e realizações pra todos.
E pra não perder a prática, a recomendação de cinco filmes pra ver no fim de semana, no meio da semana, em qualquer hora. Filmes excelentes que o Sagaranando aprova, recomenda e assina embaixo.


1. Que horas ela volta? (2015)
A história é centrada em Val (Regina Casé), empregada doméstica numa casa de classe média alta em São Paulo que há mais de dez anos deixou sua família em Pernambuco em busca de trabalho que lhe permitisse dar melhores condições ao futuro de sua filha. Val praticamente criou Fabinho (Michel Joesas), filho de seus patrões, que nunca tinham tempo para o menino. Quando a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), chega em São Paulo para fazer o vestibular e fica na casa da família rica, acaba o sossego de Val e da patroa. O interesse que ela desperta nos homens da casa e a insubordinação diante da mãe, que considera uma estranha, cria uma tensão que perdura por boa parte do filme, que trata de maneira brilhante de temas como migração motivada por pobreza, relações familiares e a íntima e complexa relação entre patrões e empregados domésticos (mostrando que casa grande e senzala ainda perduram no País).
Nota: 10
2. O Escafandro e a Borboleta (Le scaphandre et le pappillon, 2007)
Uma nova definição de filme lindo. Sensibilidade é a palavra chave da história de Dominique Bauby (Mathieu Amaric), que depois de sofrer um derrame é vitimado pela raríssima síndrome do encarceramento, em que todo o seu corpo fica paralisado, exceto os olhos - sendo que todas as faculddes mentais ficaram preservadas. Para completar, seu olho direito precisa ser ocluído para evitar um ferimento na córnea, e ele fica dependente apenas do esquerdo. Com a ajuda de uma fonoaudióloga, Dominique aprende a se comunicar através de um sistema lento, mas eficiente, a partir do piscar de seu olho. Através da narração de Dominique, vemos como foi sua vida, os diversos erros que ele cometeu com seus entes queridos, a rua relação com seu pai e seus filhos, a amante que nunca o visitou depois da doença e a sua obstinação em compor um livro que se tornaria best-seller. Baseado em fatos reais.
Nota: 10
3. A vida dos outros (Das Leven der Anderen, 2006)
Pense duas vezes antes de dizer que o cinema não é mais o mesmo e que já não se produzem inesquecíveis obras-primas. A vida dos outros tá aí pra provar que o cinema de alta qualidade ainda resiste. Com roteiro e direção de Florian Henckel von Donnersmarck, um desconhecido até então, o filme é ambientado nos anos 80 na Alemanha Oriental, onde a Stasi, uma das mais controladoras polícias secretas da Cortina de ferro tocava o terror numa época em que não havia o menor indício de abertura política. O capitão da Stasi Gerd Weisler (Urich Müher) recebe a missão de espionar um dramaturgo e sua esposa, que é atriz, e se instala no mesmo prédio em que o casal mora, no andar de cima, ouvindo tudo o que se passa na casa deles. O que inicialmente era apenas uma missão e encarado com escárnio se transforma numa relação unilateral de solidariedade, levando o espião a duvidar de toda sua ética e crença no partido totalitário e questionar um estilo de vida sem liberdade e sem direito à individualidade. Em poucas palavras: um filme excepcional. Infinitos elogios ao roteiro, à direção e à atuação de Mührer, que era um experiente ator de teatro na Alemanha (inclusive fora espionado durante a Guerra Fria) e que infelizmente faleceu um ano após o lançamento do filme.
Nota: 10
4. Cabaret (1972)
Pra um público que viu o festival de alegria que é Catando na chuva na década de 50 e a fofura bonitinha demais que é Minha linda dama nos anos 60, imagine o choque ao chegar em 72 e ver Cabaret, que sai de cenários elegantes e vai para o subúrbio da Berlim dos anos 30, onde um país arrasado pela Guerra e pela Depressão era campo fértil para a disseminação das ideias totalitaristas e racistas de Hitler. Nesse rebuliço, Brian Roberts (Michael York), jovem americano, chega em Berlim para dar aulas de inglês, e logo conhece Sally Bowles (Liza Minelli), estrela do Kit Kat Club, a casa de shows mais animada da cidade. Sally é uma dançarina que sonha em ser uma grande atriz - típico, não? Mas a história do diretor Bob Fosse consegue ser surpreendentemente original, com seus ótimos números musicais que floreiam amores incompreendidos e ambição; é como diz uma das músicas: "money makes the world go round!". Cabaret também se destaca por dividir os holofotes do Oscar de seu ano com O Poderoso Chefão, faturando os prêmios de direção, atriz, ator coadjuvante (Joey Grey, mestre de cerimônias do Kit Kat e figura essencial no filme), entre outros. 
Nota: 10
5. Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960)
Lembrei desse filme incrível porque já faz um tempo que o vi e não seria nada mal revê-lo (vou seguir minha própria recomendação). Escrito e dirigido por Billy Wilder, o filme acompanha o simpático C. C. Baxter (Jack Lemmon), funcionário de uma seguradora que caiu nas graças dos chefes por emprestar a eles seu pequeno apartamento ocasionalmente, por algumas horas, para que eles se encontrassem com suas amantes. As coisas se complicam quando Baxter se apaixona por uma dessas amantes, que também era sua colega de trabalho (Shirley MacLaine), e pela primeira vez questiona sua amoralidade diante dos favores que fazia a seus superiores - devidamente recompensados com promoções. Comédia imortal vencedora de cinco Oscars, incluindo melhor filme, roteiro e direção.
Nota: 10
Luís F. Passos

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Filmes pro final de semana - 01/09 - Especial Grandes frases

1. Apocalypse Now (1979)
Não há filme de guerra que se compare a Apocalypse Now, nem mesmo Kubrick ou Oliver Stone chegaram perto. O capitão Willard (Martin Sheen), das Operações Especiais do Exército recebe a missão de matar o coronel Kurtz (Marlon Brando), oficial brilhante que enlouquecera e desertara para criar no Camboja uma sociedade bizarra em que é adorado como um deus e mata sem piedade. Na viagem, Willard vê a verdadeira face da guerra e seus efeitos nas pessoas - o medo, a loucura, o horror. Depois de uma epopeia para descer o Vietnã vivenciando coisas que chegam a ser bizarras, como a "Cavalgada das Valquírias" em que um coronel surfista (Robert Duvall) distribui morte pelos ares e se delicia com o cheiro de morte e destruição, Willard enfim chega ao Camboja e vê sua vida mudada pelo que tem de enfrentar para terminar sua missão. Um final ambíguo e perturbador para a mais fiel das histórias sobre a Guerra do Vietnã.
Frase memorável: "Adoro o cheiro de napalm pela manhã".
Nota: 10
2. Gata em teto de zinco quente (Cat on a Tin Hoof, 1958) 
Um clássico cheio de diálogos tensos, a maioria entre o casal Maggie (Elizabeth Taylor) e Brick (Paul Newman), jogador de futebol americano entregue à bebida após um incidente no trabalho envolvendo um amigo - coisa que não é totalmente esclarecida e que dá brecha para a suspeita de um caso gay. E por que tanta briga entre Maggie e o esposo? É porque Brick simplesmente despreza a mulher, assim como toda a família, em especial o pai, "Big Daddy" Harvey (Burl Ives), com quem nunca teve boa relação. Bid Daddy está com câncer, não há perspectiva de cura e se preocupa com a possibilidade de deixar toda sua fortuna para o filho mais velho, Gooper, que é uma lesma e casado com uma mulher gorda e chata, e tem vários filhos gordos e chatos. A tensão entre Brick e Maggie e Brick e Big Daddy abre espaço para discussões diálogos brilhantes - afinal, o filme é baseado numa peça de Tennessee Williams, influente dramaturgo da Broadway. Também chama a atenção as espetaculares atuações de Paul Newman e Liz Taylor e claro, a beleza inesquecível da atriz.
Frase memorável:  "Nós não vivemos juntos, apenas dividimos a mesma jaula"
Nota: 9,5/ 10
3. Uma rua chamada pecado (A streetcar named desire, 1951)
Desejo e loucura. Duas palavras que descrevem muito bem a potência desse clássico marcado por personagens à flor da pele e interpretações monstruosas de quatro atores de duelam com ferocidade em cena para ver quem mostra mais força. São eles: Karl Malden (vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante), Kim Hunter (vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante) e, principalmente, dois dos maiores nomes do cinema mundial, Marlon brando (indicado a melhor ator) e Vivien Leigh (vencedora de melhor atriz) como uma das personagens mais ricas não apenas do cinema, como do teatro (esta obra é baseada numa peça homônima de Tennessee Williams). As relações intrincadas de atração e repulsa entre essas personagens são o motor deste intenso e inovador clássico. 
Frases memoráveis: "Sempre dependi da bondade de estranhos" e "STEELLAAAAAAAAA!"
Nota: 10
4. Crepúsculo dos Deuses (Sunset boulevard, 1950)
Crepúsculo dos deuses é uma grande crítica à própria indústria do cinema e do entretenimento, um mundo que pode num momento elevar uma pessoa ao céu e, em questão de minutos, lançá-lo no total ostracismo quando não lhes é mais conveniente. É isso que ocorre com a Norma Desmond interpretada por Gloria Swanson. Uma musa do cinema mudo largada no esquecimento após o advento do cinema falado e que sofre com sua loucura e suas obsessões ao mesmo tempo em que alimenta fantasias megalomaníacas de uma volta ao estrelato que jamais ocorrerá. O roteiro de Wilder é fantástico. A forma como amarra as diferentes circunstâncias que culminam para o grande final, que é revelado já no início do filme, é de uma inteligência incrível. O filme é ácido, maldoso e as coisas se desenrolam de uma maneira ironicamente cruel para todas as personagens. Wilder não se importa de vê-las sofrer e as castiga pelos seus erros.  Filme não só obrigatório como essencial para os amantes do bom cinema.
Frase memorável: "Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos".
Nota: 10
 5. ...E o vento levou (Gone with the wind, 1939) 
Tan tan tan taaan... A música tema da personagem Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) é quase tão icônica quando a heroína, uma das mais queridas figuras de todo o cinema. Scarlett é filha de um rico fazendeiro da Geórgia que vê seu mundo virar ao avesso com o início da Guerra Civil (Guerra de Secessão). A moça, que tinha dezenas de admiradores aos seus pés e era apaixonada por Ashley Wilkes vê seus fãs irem para a guerra e seu amado se casar e também ir para a luta. Ao longo de quatro horas de filme, vemos as mudanças de Scarlett: de rica à pobre, de dondoca a mulher forte; de ingênua a ser capaz de matar para proteger a si e a sua família -versatilidade mostrada graças ao enorme talento de Vivien Leigh, que fez dessa uma das maiores atuações vencedoras de Oscar. Do outro lado da história, o cafajeste Rhett Butler (Clark Gable) apaixonado por Scarlett e que tem um enorme coração por trás da cara de canalha, que luta pelo coração da jovem, teimosa e ambiciosa O'Hara. Uma dupla que o mundo vê e ama há mais de setenta anos.
Frase memorável: "Frankly, my dear, I don't give a damn" (Tem que ser em inglês senão perde o efeito)
Nota: 9,5/ 10


Bônus: De pernas pro ar (2010)
Em defesa das comédias nacionais, vamos falar desse filme que todo mundo viu, mas não custa nada rever.  Alice (Ingrid Guimarães) é uma executiva cuja carreira brilhante contrasta muito com seu casamento. Seu marido João (Bruno Garcia) reclama da falta de atenção à família e também da falta de sexo. A vida (aparentemente) sob controle dá uma reviravolta quando, no mesmo dia, ela perde o emprego graças a uma confusão de caixas e João sai de casa, pedindo um tempo na relação. É depois de se aproximar da sensual vizinha Marcela, dona de uma sex shop decadente, que Alice encontra novas ideias para reestruturar sua vida profissional e também pessoal, derrubando vários tabus a respeito de sexo. Claro que o filme apela muito para as cenas engraçadas relacionadas a  situações e  produtos eróticos, mas também tem um lado romântico bem bonito, embalado pelo som de Tim Maia.
Frase memorável: "Às vezes eu acho que o mundo é uma imensa suruba e eu não fui convidada".
Nota: 8,0/ 10

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Filmes pro final de semana - 17/06

1. Intriga Internacional (North by northwest, 1959)
 Depois de Um corpo que cai, que não foi bem recebido por público e crítica, Alfred Hitchcock lança aquele que veio a ser um de seus maiores sucessos: o intenso Intriga Internacional. Cary Grant, assíduo colaborador de Hitchcock, é o publicitário Roger O. Thornhill, executivo de publicidade confundido com um agente secreto que a partir do infeliz mal entendido precisa fugir de um lado pra outro dos Estados Unidos, muitas vezes atrás da misteriosa loira Eve Kendall (Eve marie Saint), que tem uma estranha relação com aqueles que querem sua cabeça. Um filme cheio de ação, que lembra muito 007 (tanto que Hitchcock se recusou a dirigir o primeiro 007 afirmando que era plágio de sua obra), mas que eu esperava mais. Desculpa, Hitch.
Nota: 8,5/ 10
2. Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957)

Um dos melhores e mais conhecidos filmes de Ingmar Bergman também é um dos mais influentes. Em filmes como Desconstruindo Harry de Woody Allen podemos ver traços da imortal história de um médico e professor universitário, Isak Borg (Victor Sjöström), que viaja de Estocolmo a sua cidade natal de carro para receber uma homenagem. Um dia na estrada junto de sua nora e uns jovens caroneiros fazem o velho Isak relembrar sua juventude, seu amor por uma prima e pensar em sua vida, mergulhada no trabalho, cheia de decepções, além de pensar na própria mortalidade - tema que inicia o filme, quando Isak tem um sonho sombrio. Coroado no Festival de Berlim com Urso de Ouro (melhor filme) e prêmio de melhor ator para Sjöström, Morangos Silvestres permanece atual e vivo entre sua enorme legião de fãs.
Nota: 10
3. Disque M para matar (Dial M for murder, 1954)
Ray Milland, grande ator do cinema clássico e vencedor do Oscar de melhor ator por Farrapo humano (1945) vive aqui um ex-tenista chamado Tony Wendice, um cara cujo dinheiro se foi há algum tempo junto com a carreira no esporte. O alto padrão que ele ostenta é patrocinado por sua bela esposa Margot (ninguém menos que Grace Kelly), mas o casamento dos dois não vai bem e ele descobre que ela pretende deixá-lo para viver com um amante. Para não perder a boa vida - aliás, melhorar a vida financeira - Tony decide matar a esposa e ficar com todo seu dinheiro. Contrata um amigo para matá-la, mas o tiro sai pela culatra e no momento de desespero, Margot reage e mata o criminoso. Final feliz? Calma, nem chegamos à metade do filme. Tony elabora rapidamente um plano B e... só assistindo pra saber. Hitchcock, do jeito que só ele sabia fazer, conduz cenas muito tensas segurando os mistérios da macabra trama do marido ambicioso. Show de direção.
Nota: 9,5/ 10
4. Sabrina (1954)
Depois de sua triunfante estreia no cinema em A princesa e o plebeu, dirigido por William Wyler, que de cara lhe deu um Oscar de melhor atriz, Audrey Hepburn trabalhou com outro grande diretor, Billy Wilder. Na pele da protagonista Sabrina, Audrey interpreta a jovem filha do motorista de uma das famílias mais ricas de Nova York, que é apaixonada por um dos filhos do patrão. Decepcionada pelo fato do amado David (William Holden) ser um cafajeste, Sabrina viaja para a Europa para estudar, e volta anos depois transformada numa elegante mulher. A nova Sabrina vai voltar a mexer com o mulherengo David mas também com seu irmão mais velho, o austero Linus (Humphrey Bogart). Filme simples, mas prato cheio de elegância e do humor ácido de Billy Wilder.
Nota: 8,5/ 10
5. Crepúsculo dos Deuses (Sunset boulevard, 1950)
Crepúsculo dos deuses é uma grande crítica à própria indústria do cinema e do entretenimento, um mundo que pode num momento elevar uma pessoa ao céu e, em questão de minutos, lançá-lo no total ostracismo quando não lhes é mais conveniente. É isso que ocorre com a Norma Desmond interpretada por Gloria Swanson. Uma musa do cinema mudo largada no esquecimento após o advento do cinema falado e que sofre com sua loucura e suas obsessões ao mesmo tempo em que alimenta fantasias megalomaníacas de uma volta ao estrelato que jamais ocorrerá. O roteiro de Wilder é fantástico. A forma como amarra as diferentes circunstâncias que culminam para o grande final, que é revelado já no início do filme, é de uma inteligência incrível. O filme é ácido, maldoso e as coisas se desenrolam de uma maneira ironicamente cruel para todas as personagens. Wilder não se importa de vê-las sofrer e as castiga pelos seus erros.  Filme não só obrigatório como essencial para os amantes do bom cinema.
Nota: 10

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Filmes pro final de semana - 20/11

1. Para sempre Alice (Still Alice, 2011)
A vencedora do Oscar de melhor atriz desse ano saiu mais uma vez um filme de elenco, ou seja, uma história boa - apenas boa, nada inesquecível ou revolucionário - que se destaca pelo elenco. Estamos falando de Juliane Moore, que interpreta a professora universitária Alice Howland. Alice construiu uma respeitosa carreira através de muito estudo e da linguística, sua especialidade, e foi após se atrapalhar numa palestra, ao esquecer a palavra léxico, que ela atenta para o esquecimento, cada vez mais presente em sua vida. Ao consultar um neurologista, ela é diagnosticada com o mal de Alzheimer, numa forma precoce e agressiva por se tratar de uma mutação genética herdada de seu pai. Ao longo de dois anos vemos a vida de uma mulher independente mudar radicalmente, ao ponto de não conseguir amarrar os próprios cadarços. O filme, por seu roteiro e direção, se assemelha à uma evolução clínica de uma paciente, mas a atuação de Moore é tão marcante, tão vívida, incorporando as debilidades físicas e psíquicas de Alice, que escapa de qualquer crítica e salva o conjunto final.
Nota: (10 de Juliane Moore + 6 do filme /2=) 8,0/ 10
2. O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005)
Um filme muito sólido, emocionante e nem um pouco apelativo. A história do amor proibido dos cowboys Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) se passa nos anos 60, a partir do primeiro contato, quando foram contratados para tomar conta de um rebanho nos arredores de uma montanha. O tempo passa, ambos constituem família em suas respectivas cidades, se reencontrando raras vezes mas mantendo o sentimento que os uniu. Sentimento transmitido pelas grandes atuações dos protagonistas, em especial Heath Ledger, que se mostrou uma revelação. Tímido e introspectivo, Ennis Del Mar esconde seus sentimentos por trás de uma carapaça de músculos e brutalidade. Tudo isso apresentado como um western pra John Ford ou Sergio Leone nenhum botar defeito - a não ser que eles não deixassem de lado alguns preconceitos.
Nota: 9,5/ 10
3. Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988)
Italianos... ô povinho pra saber fazer filme bom! A Itália é um dos países que mais venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro, além de ser berço de alguns dos maiores cineastas da história, como Fellini, Antonioni, De Sicca, Leone, entre outros. Ente os italianos vencedores do Oscar, um dos mais queridos é o emocionante Cinema Paradiso, a bela história de Salvatore, um pobre garoto do interior apaixonado por cinema que cria uma forte amizade com Antonio, o projetor do pequeno cinema local. Salvatore, conhecido como Totó quando pequeno, costumava espiar da sala de projeção enquanto o padre censurava as cenas de beijo, e assim nasceu sua paixão pelo cinema. O brilho nos olhos de Totó é o mesmo brilho de qualquer criança (ou alguém que preserve o fascínio de uma criança) diante de um telona - e é apenas um de muitos aspectos positivos e emocionantes do filme. Um filme recente que se assemelha a Cinema Paradiso é A invenção de Hugo Cabret, especialmente seu protagonista, quase uma personificação da infância de Scorsese.
Nota: 9,5/ 10
4. A Cor Púrpura (The color purple, 1985)
Um Steven Spielberg, rei da fantasia e aventura, que poucos conhecem. Uma Whoopi Goldberg, rainha da comédia (e da sessão da tarde) que poucos conhecem. Ambos se aventuraram, trinta anos atrás, num drama sólido e emocionante sobre opressão social, de raça e gênero. Baseado no livro homônimo, A cor púrpura é ambientado na pobreza do sul americano, onde as irmãs Celle e Nettie encontram uma na outra o amor para suportar sua difícil realidade. Após sofrer abuso pelo próprio pai, Celle é dada a um homem mais velho, já viúvo e pai de vários filhos. Ao longo de décadas, Celle (Whoopi Goldberg, na fase adulta) tenta aliviar seu sofrimento através de cartas, inicialmente sem destinatário, depois à sua irmã, que se torna missionária, e à engajada nora de seu esposo, Sofia (Oprah Winfrey). O filme recebeu diversas indicações ao Oscar, sendo a de Whoopi ao prêmio de melhor atriz a que até hoje repercute - até então, nenhuma negra havia vencido na categoria, o que só ocorreu em 2002, quando Halle Berry faturou a estatueta, e em seu discurso homenageou o trabalho da colega, 17 anos antes.
Nota: 10
5. Adorável Pecadora (Let's make love, 1960)
Talvez seja no seu penúltimo filme que Marilyn Monroe aparece mais linda do que nunca -  mas menos sexy que no filme anterior, Quanto mais quente melhor (1959). A queridinha da América aparece aqui como a atriz e dançarina Amanda, que trabalha numa pobre companhia de teatro do segundo escalão da Broadway, que prepara uma peça que pretende parodiar figuras poderosas e famosas, como o cantor Elvis Presley e o bilionário Jean-Marc Clément (Yves Montand). Acontece que Clément se irrita com o uso de sua imagem e resolve aparecer num ensaio para acabar com a festa, mas ao chegar encontra Amanda de collant dançando e fica caidinho. Depois de um pequeno mal entendido, ele acaba no elenco interpretando a si próprio, se passando por um pobre ator imigrante chamado Alexandre Dumas. A comédia musicada (mas não um musical) se abrilhanta pelas músicas e pela estonteante presença de Marilyn, que nessa altura do campeonato dispensa comentários do Sagaranando.
Nota: 8,0/ 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Filmes pro final de semana - 11/07

1. Inside Llewyn Davis (2013)
Até agora o filme que mais gostei nesse ano. Os Irmãos Coen contam a história de Llewyn Davis (Oscar Isaac), cantor fracassado que não conseguiu emplacar sucesso, viu seu parceiro e melhor amigo falecer, a família lhe virar as costas e estragou um relacionamento com a mulher que amava (amava mesmo?) Ambientado no Greenwich Village dos anos 60, de onde saíram astros do quilate de ninguém menos de Bob Dylan, Inside Llewyn Davis é um tanto influenciado pela história real do cantor Dave Von Ronk, cuja problemática personalidade era digna de fama. Llewyn é um pobre coitado que sabe que é um coitado ao mesmo tempo que mantém um desdém por tudo e todos, inclusive Jean (Carey Mulligan), com quem teve um caso, Jim (Justin Timberlake), marido de Jean e cantor bem sucedido, além dos vários outros personagens. Mais um filmaço dos Coen sobre figuras fracassadas, dessa vez abrilhantado por uma excelente trilha sonora.
Nota: 10
2. Vicky Cristina Barcelona (2008)
Sem dúvidas um dos mais queridos entre os últimos filmes de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona esbanja sensualidade através de seus quatro protagonistas e beleza e encanto de seu cenário, a cidade de Barcelona e a região da Catalunha. Quando Vicky (Rebeca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) chegam à cidade, não imaginavam que em meio à rica cultura espanhola iriam encontrar o amor na figura do provocante pintor Juan Antonio (Javier Bardem), que as convida para um fim de semana cheio de lugares lindos, bons vinhos, pratos deliciosos e muito sexo. O inusitado convite é o ponto de partida para um breve contato entre Vicky e Juan Antonio e o início da relação do artista com Cristina - que será sacudido com a volta da ex mulher dele, Maria Elena (Penélope Cruz). Os cenários, o idioma, a música, a fotografia e o elenco são ingredientes que fazem deste um filme intenso, sexy e carismático, mostrando a versatilidade de Woody mesmo depois dos setenta anos, além de sua capacidade de criar grandes personagens femininas que presenteiam suas intérpretes com Oscar - Penélope Cruz foi vencedora na categoria atriz coadjuvante.
Nota: 9,0/ 10
3. Os Bons Companheiros (GoodFellas, 1990)
Violento, brutal, e estranhamente carismático. Um dos melhores filmes de Scorsese aborda a escória da máfia, gângsters nascidos no subúrbio que em nada lembram a elegante e cavalheiresca máfia romantizada em outras obras. Henry (Ray Liotta) desde garoto sabia que queria entrar na máfia e ter todos privilégios que o crime lhe proporcionaria, e ao lado de seus amigos Tommy (Joe Pesci) e Jimmy (Robert De Niro) ganha experiência e uma extensa ficha criminal que inclui agressão, extorsão, assassinato e tráfico de drogas. A amizade dos três beira a fraternidade, as famílias se dão muito bem, mas nem mesmo uma organização criminosa com base tão sólida pode ser resitente a tudo. A ascensão social a partir da máfia, o status que representa a gangue, as relações entre as personagens e a forte violência são mostradas com magestria e por incrível que pareça, com um humor um tanto irônico. (Funny? Funny how, motherfucker?)
Nota: 10
4. Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987)
Um filme sobre a Guerra do Vietnã de arrepiar: além de mostrar soldados no campo de batalha, Nascido para matar se dedica a tratar da formação deles. O filme começa em solo americano, numa base de recrutas dos Fuzileiros Navais, onde um sargento terrorista afirma para seus comandados que a partir daquele momento até seus rabos pertenciam à pátria. Metade do longa é ambientada na base, mostrando o rígido treinamento e a disciplina de ferro do sargento, e a outra metade se passa em solo vietnamita, onde se prova que no fundo não há muita diferença entre soldados, sargentos ou oficiais: todos são vítimas da alienação da guerra, treinados apenas para matar, sem saber por que ou para quem. Um filme único, e sem dúvidas um dos melhores já feitos sobre guerra.
Nota: 10
5. Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959)
Dois músicos pobretões que precisam fugir da máfia de Chicago, uma banda feminina bem assanhadinha, uma cantora loira de parar o trânsito e milionários na Flórida. Tudo isso, sob a direção de um mestre da comédia, vira um clássico que permanece incólume num pódio há mais de cinquenta anos. Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon) são amigos que testemunham um massacre promovido pela máfia e precisam fugir da cidade, e o disfarce perfeito é encontrado junto a uma banda feminina que partia em direção à Flórida. Vestidos de mulher, passam a ser Josephine e Daphne. Mas na banda da controladora Sweet Sue, eles conhecem Sugar Kane (Marilyn Monroe), uma cantora que tenta esquecer seus amores fracassados com ajuda do uísque e da esperança de encontrar um milionário sensível que a ame. Enfim, tudo pode acontecer na Flórida, e quase de tudo acontece - romance, fugas e principalmente comédia escrachada. Ingredientes perfeitos pra uma obra-prima.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Filmes pro final de semana - 04/07

1. Nebraska (2013)
Vi só alguns dos filmes que estiveram na corrida pelo Oscar esse ano, e sem dúvida foi Nebraska o meu preferido. A leve comédia familiar dirigida por Alexander Payne, diretor de Os Descendentes, acompanha a saga do velho e senil Woody Grant (Bruce Dern) em busca do suposto prêmio de 1 milhão de dólares que ganhou, na verdade uma propaganda que chegou pelo correio. Para receber sua fortuna, Woody deve ir até Lincoln, Nebraska, mas como ninguém quer levá-lo, ele decide ir a pé. Seu filho David (Will Forte) é o único que percebe que o pai não vai desistir por nada e resolve levá-lo de carro. No caminho, muita estrada, parentes há muito não vistos e outros de olho no prêmio de Woody. E acima de tudo, a relação entre um pai meio lunático e seu filho que viu a vida sufocar parte de seus sonhos. É a competência de Payne dedicada a um tema que ele provou que domina.
Nota: 9,0/ 10
2. Kill Bill vol. 2 (2004)
A segunda parte da sangrenta história de vingança da Noiva (Uma Thurman) pode não ser tão estilizada quanto a primeira (opinião minha), mas compensa com mais ódio, intensidade e tem o mérito de abordar os momentos que precederam o massacre na capela do Texas e também mostra como a Noiva se tornou uma máquina de matar sob o treinamento do milenar Pai Mei (Gordon Liu). A lista de vingança está mais curta, e falta o acerto de contas com Elle Driver (Daryl Hannah), Budd (Michael Madsen) e claro, Bill (David Carradine), o motivo de tudo acontecer. Mas a Noiva vai ver que nada é tão simples quanto pode parecer, e algo inesperado pode mudar seus planos. Um final de mestre pra um dos mais populares filmes de Tarantino.
Nota: 9,0/ 10
3. Cabo do Medo (Cape Fear, 1991)
Muitos dizem que foi em Cabo do Medo, última parceria De Niro e Scorsese, que o ator fez seu último trabalho notável em vinte anos, até O lado bom da vida (2012). De fato, a sucessão de papéis menores ou filmes de comédia no fim dos anos 90 e durante o ano 2000 nada condiziam com o grande ator que conquistou o mundo nos anos 70 e 80. Cabo do Medo é um filme de suspense em que Max Cady (De Niro) é um psicopata que ficou preso por estupro por 14 anos e atribui a culpa da prisão ao fracasso de seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte). Libertado, Cady passa a perseguir o advogado e sua família, além de seduzir a filha adolescente dele. Inteligente e muito violento, Cady transforma a vida da família Bowden num inferno.
Nota: 8,5/ 10
4. Rebeldia Indomável (Cool Hand Luke, 1967)
Mesmo antes da onda de filmes inovadores e icônicos dos anos 70, vez ou outra Hollywood presenteava o mundo com obras inconformistas. Esse é um dos melhores exemplos: Paul Newman interpreta Lucas Johnhon, mais conhecido como Luke, que ganha ainda a alcunha de Cool Hand, que foi parar na cadeia por vandalizar parquímetros. Uma vez preso, Luke se vê dentro de um sistema ainda mais rígido e opressor, e seu espírito rebelde traz punições cada vez mais graves. A atuação de Newman é impressionante, desde os olhares fixos e o magnetismo emanado de seus profundos olhos azuis, até sua presença e a personificação da personagem, através de discursos tensos. Diálogos ricos, cenas marcantes, um ótimo time de coadjuvantes e a direção ambiciosa são os outros ingredientes que fazem deste um filme imperdível.
Nota: 10
5. Sabrina (1954)
Depois de sua triunfante estreia no cinema em A princesa e o plebeu, dirigido por William Wyler, que de cara lhe deu um Oscar de melhor atriz, Audrey Hepburn trabalhou com outro grande diretor, Billy Wilder. Na pele da protagonista Sabrina, Audrey interpreta a jovem filha do motorista de uma das famílias mais ricas de Nova York, que é apaixonada por um dos filhos do patrão. Decepcionada pelo fato do amado David (William Holden) ser um cafajeste, Sabrina viaja para a Europa para estudar, e volta anos depois transformada numa elegante mulher. A nova Sabrina vai voltar a mexer com o mulherengo David mas também com seu irmão mais velho, o austero Linus (Humphrey Bogart). Filme simples, mas prato cheio de elegância e do humor ácido de Billy Wilder.
Nota: 8,5/ 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Filmes pro final de semana - 30/05

1. O Artista (The Artist, 2011)
O som chegou ao cinema em 1927; o primeiro Oscar ocorreu em 1928, único ano em que um filme mudou ganhou o prêmio principal - até 2012, quando O Artista venceu melhor filme. O longa franco-belga trata justamente da chegada do som às telonas e do impacto causado a muitos atores, no caso o protagonista, George Valentin (Jean Dujardin), maior astro de Hollywood e totalmente averso ao cinema falado. O filme acompanha a queda brusca de Valentin, ao mesmo tempo em que um novo rosto, Peppy Miller (Bérénice Bejo) faz sucesso nos inovadores talkies. Talvez o maior mérito de O Artista seja não caricaturar os filmes antigos, mas imitá-los com perfeição: desde as interpretações cheias de caras e bocas com legendas expressando os diálogos até a trilha sonora jazzística, além de várias referências ao cinema clássico.
Nota: 8,5/ 10
2. As virgens suicidas (The Virgin Suicides, 1999)
O surgimento do nome Sofia Coppola na direção de um filme antes de mais nada disse duas coisas ao mundo: Sofia não era só filha de um grande diretor e seu talento na direção era bem superior ao seu desempenho como atriz nove anos antes em O Poderoso Chefão pt. III. Logo em sua estreia, ficam evidentes suas características: a sensibilidade de um olhar feminino sem os excessos do feminismo raivoso e com um carinho especial pela condição humana. Assim, Sofia acompanha as cinco irmãs Lisbon, filhas de um casal católico e conservador; todas bonitas, loiras e encantadoras, cujo caso de suicídio múltiplo chocou a pequena cidade em que viviam. O primeiro suicídio, as relações familiares envolvidas, o isolamento e superproteção das meninas são esmiuçados pelo sólido roteiro, que também é da jovem Coppola. Uma estreia muito segura de uma carreira brilhante e muito promissora.
Nota: 8,5/ 10
3. Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992)
Em meio ao clima de comodismo dos anos 90, eis que explode nas telas a novidade. O original e visceral trabalho de Quentin Tarantino encontrou no público de sua época o espectador perfeito para seus exageros de sangue, risos nervosos e tensão. Tudo para que possamos nos deliciar com a forma divertida e fora de qualquer padrão convencional com a qual o diretor trabalha seus personagens e seus conflitos, ambos igualmente numerosos. Seu trabalho de estréia, Reservoir dogs, é tão impactante quanto os tiros e os palavrões lançados durante toda a duração do filme. Um genuíno choque. Audácia e originalidade sem fim cercam este conto sobre um grupo de homens perigosos envolvidos com um crime furado e suas tentativas desesperadas de escaparem imunes, ou pelo menos vivos, da confusão violenta em que se envolveram. E que violência. Litros de sangue se misturam a piadas corriqueiras, dancinhas “simpáticas”, orelhas decepadas e, sim, Like a Virgin de Madonna. Apesar de abusar de referências a grandes cineastas, Tarantino é um diretor genuinamente pop, e seu universo é muito bem pontuado por este elemento. 
Nota: 10
4. The Rocky Horror Picture Show (1975)
Science fiction, double feature... o singular musical que combina uma bizarra ficção científica e horror se tornou cult com o passar das décadas e tem uma imensa legião de fãs apaixonados por todo o mundo. Quando o inocente casal Brad (Barry Botswick) e Janet (Susan Sarandon) encontra um castelo à beira da estrada numa noite chuvosa não podiam imaginar o que encontrariam: seu proprietário, o dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), um "doce travesti da transsexual Transylvania", seus estranhos criados e também estranhos convidados, prestes a presenciar a criação de um Frankstein moderno e musculoso. Mais que um festival de músicas que grudam, The Rocky Horror Picture Show é uma mistura de sexualidade escancarada, frases irônicas ou de duplo sentido e figurino alucinante, que o que tem de estranho, tem duas vezes mais de qualidade. Let's do the time-warp again!
Nota: 9,5/ 10
5. Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960)
Lembrei desse filme incrível porque já faz um tempo que o vi e não seria nada mal revê-lo (vou seguir minha própria recomendação). Escrito e dirigido por Billy Wilder, o filme acompanha o simpático C. C. Baxter (Jack Lemmon), funcionário de uma seguradora que caiu nas graças dos chefes por emprestar a eles seu pequeno apartamento ocasionalmente, por algumas horas, para que eles se encontrassem com suas amantes. As coisas se complicam quando Baxter se apaixona por uma dessas amantes, que também era sua colega de trabalho (Shirley MacLaine), e pela primeira vez questiona sua amoralidade diante dos favores que fazia a seus superiores - devidamente recompensados com promoções. Comédia imortal vencedora de cinco Oscars, incluindo melhor filme, roteiro e direção.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Filmes pro final de semana - 15/11

1. Ilha do medo (Shutter Island, 2010)
Mais uma parceria de sucesso entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, Ilha do medo acompanha o investigador do FBI Edward Daniels (DiCaprio) e seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo) chegam a um hospital psiquiátrico localizado numa pequena ilha em que estão internados pacientes condenados pela justiça - um manicômio judiciário. Os agentes estão investigando a fuga de uma paciente, a única fuga na história do hospital, e totalmente inexplicável, pois cada canto do hospital é vigiado e o litoral da ilha é cheio de rochedos, havendo apenas um pier. À medida em que Daniels tenta aprofundar seu trabalho, encontra resistência do diretor e de outros funcionários, além de se ver diante de situações que vão contra a ética médica e outras que o atingem em cheio, por estarem relacionadas à morte de sua família. Ilha do medo é um filme cheio de suspense e tensão como poucos, aflitivo na medida certa e com reviravoltas de arrepiar. Palmas para Scorsese, palmas para DiCaprio.
Nota: 9,0/ 10
2. Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006)
Quando Sofia Coppola lançou Maria Antonieta no Festival de Cannes dividiu opiniões; enquanto uns se levantaram para aplaudir, outros vaiaram o filme. Mas a opinião do público é quase unânime: genial. Deixando de lado o contexto político que antecedeu a Revolução Francesa, o filme foca a vida pessoal da polêmica rainha, desde o acordo firmado por sua família (os Habsburgo, soberanos da Áustria) com a França que arrumou seu casamento com Luís, príncipe herdeiro. Os medos diante do casamento, a distância de seu marido, a demora em engravidar e a vida dentro do ninho de cobras que era a Corte em Versalhes atormentam a jovem princesa, que aos poucos vai criando uma vida em paralelo às obrigações reais: dias inteiros dedicados à escolha de vestidos, chapéus e sapatos, a paixão por doces finos, passeios no campo e pequenas festas regadas a muito vinho e champanhe. Em poucas palavras: é As patricinhas de Beverly Hills do século XVIII. Elogiado pela fotografia que realça os cenários deslumbrantes, pelo figurino vencedor do Oscar e pela trilha sonora composta por rock, Maria Antonieta é mais um grande filme da nova geração dos Coppola.
Nota: 8,5/ 10
3. Platoon (1986)
A emblemática frase no pôster e na capa do DVD já diz tudo - na guerra, a primeira vítima é a inocência. Para provar isso, nada melhor do que um jovem soldado no Vietnã. Charlie Sheen é Chris, garoto de classe média, branco, que se recruta ao Exército por idealismo e ignorando os horrores que iria encontrar. Duas figuras que ele logo encontra e marcam sua permanência na guerra são os sargentos Elias (Willem Dafoe) e Barnes (Tom Berenger), figuras antagonistas que parecem disputar a admiração dos recrutas e a alma de Chris; enquanto Elias é meio hippie, pacifista e usuário de drogas que o afastam um pouco da realidade bélica, Barnes é um assassino nato que só precisa ver um par de olhos estreitos para puxar o gatilho. As cartas que Chris escreve para a família vão ganhando um tom mais sombrio e negativo com o passar do tempo, reflexo da mudança sofrida pelo garoto diante da barbárie da guerra. O diretor Oliver Stone dá início aqui a uma série de bem sucedidos filmes de guerra, merecendo este especial atenção por ser baseado em algumas experiências dele próprio, que é veterano do Vietnã; aliás, Platoon é considerado um dos melhores filmes de guerra já feitos, perdendo apenas para Apocalypse now (e para alguns, para Nascido para matar).
Nota: 9,5/ 10
4. O pecado mora ao lado (The seven year itch, 1955)
Verão, Nova York, calor dos infernos e famílias em férias. Mas muitos maridos permanecem na cidade por causa dos empregos; é o caso de Richard Scherman (Tom Ewell), editor que se vê sozinho em casa e ganha uma vizinha loira, sensual e meio burra, uma modelo cujo nome é ignorado (Marilyn Monroe). Cria-se uma tensão sexual engraçadíssima entre os dois; Richard sente-se muito atraído, mas ao mesmo tempo temeroso de trair a esposa, enquanto a garota parece desconhecer o efeito que tem sobre o pobre Richard, perseguido por delírios de infidelidade. Em meio aos divertidos diálogos muito bem construídos, temos a cena em que o vestido de Marilyn levanta com o sopro do respiradouro do metrô, uma das mais famosas do cinema - e que apesar de toda a popularidade, não dura mais que poucos segundos.
Nota: 9,0/ 10
5. A regra do jogo (La règle du jeu, 1939)
Desde o início de sua carreira o diretor francês Jean Renoir mostrou talento invejável pelo domínio da técnica de filmar e pelos temas inovadores de seus filmes. Em A regra do jogo, temos o que o próprio diretor chamou de uma descrição exata da burguesia de seu tempo, não só dos ricos como também dos trabalhadores que o servem. Tudo começa quando o aviador André Jurieux cruza o Atlântico e causa agitação, mas se diz decepcionado por não ter uma certa dama o aguardando. A dama é Christine, casada com o rico colecionador de aviões Robert; este, por sua vez, mantém um caso de longa data com Geneviève. Por trás do luxo dos salões da burguesia, na cozinha, vemos que os empregados também aprontam das suas: a acompanhante de Christine, Lisette, é casada com o caseiro Schumacher mas se deixa levar pela lábia de Marceau, ladrão contratado por Robert como criado. Na casa de campo de Robert, encontros e desencontros dos protagonistas e dos amigos de Robert, incluindo Octave, vivido pelo próprio Renoir e figura chave na história. Um filme excelente e muito agradável que critica muito sagazmente o mundo de aparências, mentiras e hipocrisia dos ricos.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Filmes pro final de semana - 20/09

1. Bastardos Inglórios (Inglorious Bastards, 2009)
Na França ocupada pelos nazistas, um pequeno pelotão americano formado apenas por judeus e comandado pelo tenente Aldo "o Apache" ( Brad Pitt) desembarca com um único objetivo: matar nazistas. O terror espalhado pelos Bastardos Inglórios se espalha pelas fileiras alemãs e chega ao próprio Hitler. Paralelamente, há uma jovem dona de cinema (Mélanie Laurent) que anos antes viu sua família ser morta pelo genial e sádico coronel da SS Hans Landa (Cristoph Waltz), que tem a chance de vingar seus parentes e todos os judeus mortos pelos nazistas. Utilizando a violência típica de seus filmes, enchendo a tela de sangue e fazendo referências cinematográficas e à  cultura pop, Tarantino cria uma história que é considerada por muitos a melhor dos anos 2000. O roteiro é excelente, envolvente e divertido; e também merece toda a glória Christoph Waltz, até então um desconhecido ator austríaco, que levou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo maravilhoso trabalho como Hans Landa. Bingo! (entendedores entenderão).
 Nota: 9/ 10
2. Volver (2006) 
Voltando a trabalhar com fortes personagens femininas, Almodóvar dirige a história das irmãs Raimunda (Penélope Cruz) e  Sole (Lola Dueñas), que perderam os pais num trágico incêndio. O maior destaque da história vai para Raimunda, que logo no início do filme se vê diante da morte do marido pela sua própria filha, que o matara para se defender de abuso sexual. Mãe protetora, Raimunda decide esconder o cadáver para proteger sua filha. Na mesma noite, Sole viaja para o enterro de sua tia Paula, uma idosa debilitada que quando viva jurava para as duas irmãs que era a falecida mãe delas, Irene, quem cuidava dela na velhice - e as irmãs achavam que a tia estava ficando caduca. Mas acontece o impensável: Sole encontra sua falecida mãe mais viva do que nunca no porta-malas de seu carro. Estamos diante do sobrenatural? É a indagação que Almodóvar conduz pelo filme, com sua habilidade única de revelar aos poucos os mistérios de suas obras. Além das marcas do diretor espanhol, Volver tem como principal mérito as atuações de suas protagonistas, vencedoras do prêmio de atuação feminina em Cannes (foram cinco vencedoras empatadas), e talvez a melhor atuação da carreira de Penélope Cruz.
Nota: 8,5/ 10
3. Fargo (1996)

Tudo pode acontecer no meio do nada. Meu filme preferido dos singulares irmãos Coen, Fargo nos traz uma tragicomédia que envolve sequestro, roubo, assassinato, medo, arrependimento, piadas, uma policial grávida e muitos, muitos erros. O subtítulo recebido em sua distribuição nacional, Uma comédia de erros, na verdade é bem conveniente. Um filme sobre erros que simplesmente acerta em tudo. Assistir Fargo é uma experiência divertida, sendo um prazer inestimável sentar e ver aquelas pessoas se destruindo pelas próprias bobagens que foram largando pela mais pura incompetência. Dentro de seu universo particular de filmes bizarros, Fargo pode até ser o que não bate mais nesta tecla, mas é de longe o trabalho mais sólido e mais competente dos irmãos Coen. Uma das coisas que mais gosto aqui é que toda a comédia, não são gags estúpidas, mas sequências de ironias e exageros tratadas como algo extremamente natural. Não se força a barra, tudo simplesmente flui. É como se dissessem: este aqui é nosso mundo, e no nosso mundo coisas assim acontecem a qualquer momento. A atuação de Frances McDormand é a cereja do bolo.
Nota: 10
4. Os bons companheiros (GoodFellas, 1990)
A escória da máfia. Diferente do alto escalão dos mafiosos ítalo-americanos apresentados pela trilogia de Coppola, Scorsese nos mostra o baixo escalão desta mesma instituição, dando um novo ponto de vista de algo já muito familiar. Os bons companheiros desenvolve-se na relação entre Henry Hill (Ray Liotta) e sua vida na máfia. Uma vida toda preparada para fazer parte disto, algo que sempre foi julgado como algo maior. No meio da confusão e da pobreza dos bairros suburbanos violentos, ser da máfia representava ser alguém. Scorsese desenvolve desta forma, a ascensão de Henry para a máfia e como ele construiu destruir-se totalmente uma vez tendo abusado de todos os privilégios e riqueza que lhe beneficiaram e ultrapassado qualquer limite e senso de moralidade. Violento do começo ao fim, Os bons companheiros é ironicamente cômico. Situações absurdas acontecem o tempo todo e risos são inevitáveis. O desenrolar da trama segue uma sequência não muito imprevisível, mas muito interessante de ser acompanhada. Representa, também, a terceira derrota mais amarga de Scorsese ao Oscar de direção. Afinal, temos aqui o terceiro melhor filme do diretor, perdendo apenas para Taxi Driver e Touro indomável.
Nota: 10

5. Farrapo humano (The lost weekend, 1945) 
Primeiro filme a retratar o alcoolismo como o grande problema que é, Farrapo humano é uma abordagem adulta, inteligente e impiedosa da degradação daqueles que sofrem desse mal. No filme Ray Milland dá vida a Don Birnam, escritor que vem lutando contra a bebida e que enfrenta um final de semana crítico em que está sozinho, sem sua namorada e seu irmão, que o incentivam a ficar longe do álcool. Na solidão, a falta de dinheiro para comprar whisky leva Don a mentir, trair, roubar e até mesmo tentar vender sua máquina de escrever, numa sucessão de cenas tensas e humilhantes para o protagonista - e a excelente direção de Billy Wilder nos leva para junto de Don a todo o tempo, sofrendo com ele e vendo sua triste história a partir de seu ponto de vista. Filme ícone dos anos 40, vencedor dos Oscar de melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator.
Nota: 10

Lucas Moura e Luís F. Passos