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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Sobre alguns livros em 2021


 A
qui estamos mais um dia, sob o olhar... ano pra comentar sobre os livros de que mais gostei no último ano, e também, por que não, falar um pouco sobre os últimos 365 dias que vivemos e aos quais sobrevivemos. 2021 foi intenso, foi uma verdadeira montanha russa, não foi fácil, mas foi mais um ano para ficar na memória. Começamos a nos vacinar contra a COVID-19, nos protegemos dessa praga, enquanto víamos a praga presidencial atrasar a vacinação e boicotar de tudo quando foi forma a imunização dos brasileiros contra o coronavírus. Uma CPI foi um dos maiores espetáculos do ano, enquanto eram descobertos crimes praticados pelo Governo Federal, com denúncias de tentativa de cobrança de propina na compra de vacinas de qualidade duvidosa, até hoje não aprovadas pela ANVISA. A segunda onda da pandemia foi implacável no Brasil e chegou a levar mais de três mil vidas por dia. Mortes, caos, sistema de saúde colapsado e cenas que até então eram inimagináveis, como a falta de oxigênio em Manaus e a falta de sedativos por todo o País. Enquanto isso, muito pouco foi feito em termos de isolamento social - os governos estaduais e municipais decretavam toques de recolher, enxugando gelo para evitar lockdowns - e o que nos salvou mesmo foi a vacinação, que após alguns meses avançando lentamente, conseguiu ser massiva no segundo semestre. Alívio, esperança. Fé na sobrevivência, na ciência, no SUS.
Em 2021 vi muito menos filmes do que queria, mas vi alguns ótimos, sobre os quais espero poder falar por aqui em outra ocasião. Por outro lado, consegui manter um bom ritmo de leitura, apesar do tempo escasso, muito consumido pela necessidade de estudar. Ao todo, foram treze livros concluídos e três abandonados, sendo que desejo concluí-los no próximo ano. Gostei muito dos treze, sendo um deles Sagarana, lido pela terceira vez (motivo de não colocá-lo na lista de preferidos, já que ele já foi muito comentado neste blog), e outro, Primeiras estórias, encerrado depois de quase dez anos lendo seus contos em suaves parcelas. Por fim, antes de discorrer sobre os cinco livros de que mais gostei nesse ano, quero desejar um feliz ano novo, cheio de saúde, realizações, paz de espírito, leveza e FORA BOLSONARO.

5. Crônica de uma morte anunciada (Gabriel García Márquez, 1981)
Eita Gabo... Gabo é necessário, Gabo é imortal, Gabo é único. O realismo fantástico do colombiano que conquistou um Nobel e a admiração de meio mundo é excelente, independentemente do tema abordado, do tamanho do livro ou da época em que se ambiente a narração. Nesse livro relativamente curto, de menos de 200 páginas, inicialmente temos apenas o cruzamento de informações sobre um crime motivado por desonra, informações ora confiáveis, ora confusas, enquanto o leitor tenta montar o quebra-cabeças para entender como ocorreu o assassinato de Santiago Nasar. Mas aqui não temos apenas um romance construído com rigor jornalístico, mas também uma narração envolvente, cheia de poesia e sensualidade, que transborda através de personagens típicas da literatura de García Márquez.
Nota: 10
4. Há uma lápide com o seu nome (Camilla Canuto, 2021)
Fiquei muito feliz ao ver uma autora sergipana, jovem, lançar seu primeiro livro. Não conheço Camilla pessoalmente, só por interações em redes sociais, mas vibrei com o lançamento de seu livro como se fosse um amigo íntimo. Mais feliz ainda fiquei quando enfim li o romance, que devorei em um dia, mas ruminei por quase uma semana, tamanho seu impacto. A estória da protagonista Adelaide poderia ser a de incontáveis mulheres, seja em Sergipe ou qualquer canto do Brasil ou do mundo: depois de uma gravidez muito precoce na adolescência, se torna mãe de família e abdica de si e de seus sonhos, apagada pelo patriarcado e pela imposição de ocupar o papel de mãe e esposa. Além da narração habilidosa que gera um texto fluido e delicioso de ser lido, o livro me conquistou pela alegria de reconhecer todas as referências locais de Aracaju - como é bom ter conterrâneo escritor.  Em resumo: esse livro deve e merece ser lido por muita gente. Sem mais.
Nota: 10
3. Primeiras estórias (João Guimarães Rosa, 1962)
O quarto livro de Guimarães Rosa (quinto, se contar o livro de poemas Magma, e sétimo, se contar a divisão sofrida por Corpo de Baile) é o livro ideal para ser introduzido na obra rosiana. São 21 contos, a maioria variando entre oito e dez páginas, e consideravelmente mais simples e fáceis do que as estórias presentes nos livros anteriores - sério, não aconselho a ninguém começar a ler Guimarães Rosa por Grande sertão: veredas. Dentre os 21 contos, temos aqui A terceira margem do rio, que deve ser o seu mais conhecido (talvez empatado com A hora e a vez de Augusto Matraga, que está em Sagarana) e traz a mítica narrativa de um homem que larga tudo para passar a vida numa canoa estreita, remando de cima a baixo um curto trecho de rio, sem que ninguém saiba o motivo. Rosa sendo Rosa: as poucas páginas do conto se abrem para inúmeros significados e possibilidades.
Nota: 10
2. A festa do bode (Mario Vargas Llosa, 2000)
Esse incrível romance de Vargas Llosa trata do fim de uma das ditaduras mais longevas e cruéis da América Latina, comandada pelo generalíssimo Rafael Trujillo na República Dominicana entre 1930 e 1961. O livro acompanha três frentes: a do próprio Trujillo, em seu cotidiano metodicamente planejado, a do grupo que planeja um atentado contra o ditador e a de Urania Cabral, filha de um dos homens mais leais a Trujillo, que caíra em desgraça antes mesmo da queda do regime. Ao longo de 450 páginas somos guiados pela narração magistral de Vargas Llosa, que mistura ficção e fatos históricos sem deixar de ser coeso ou coerente em nenhum momento, além de conseguir entrelaçar sutilmente as três frentes narrativas do romance. Não é difícil perceber porque A festa do bode é um dos livros mais importantes de Vargas Llosa: preciosa pesquisa histórica fundamentando a criatividade de uma das mais brilhantes figuras da literatura contemporânea.
Nota: 10
1. Os vivos e os outros (José Eduardo Agualusa, 2020)
O queridinho entre os queridinhos de 2021 foi uma agradável surpresa. Ganhei esse livro de presente de uma amiga muito querida e o li há pouco mais de um mês. Terminado no fim de 2019, poucos meses antes do início da pandemia de COVID-19, o romance parece prever o cenário de isolamento que se impôs em todo o mundo a partir de março do ano passado. Os vivos e os outros se passa na Ilha de Moçambique, onde renomados escritores de alguns países africanos estão reunidos para um festival literário. Um dia antes de começar o festival uma tempestade sem proporções atinge a região, deixando a ilha totalmente isolada, sem eletricidade, sem sinal de telefone ou internet, e sem possibilidade de atravessar a ponte que liga a ínsula ao continente. Sem o contato com o mundo exterior, todos mergulham em reflexões coletivas sobre literatura, arte, o continente e mesmo a vida, mas também descobrem que é preciso olhar para dentro de si, na tentativa de resolver questões pessoais - principalmente quando surgem "os outros". Como assim? Prefiro que a descoberta seja feita com a leitura do livro, e não com meus comentários. Esse livro é incrível, sério. É prosa, mas é tão poético que apenas isso seria suficiente pra justificar o quanto ele é encantador. Mas há mais ainda. Muito mais.
Nota: 10



Luís F. Passos

sábado, 2 de outubro de 2021

Livros pra outubro


Lituma nos Andes
(Mario Vargas Llosa, 1993)
O cabo Lituma, velho conhecido dos apreciadores da literatura de Vargas Llosa, aparece novamente, dessa vez em missão em altas altitudes. Trabalhando apenas com seu subordinado, o guarda Tomás Carreño, num posto com estrutura débil, que fica num acampamento de operários da construção civil, Lituma está diante de um caso complicado que mistura investigação criminal com histórias sobrenaturais: o desaparecimento seriado de homens do acampamento e da região. Seriam vítimas de crimes comuns, da guerrilha socialista Sendero Luminoso, que aterrorizava a região, ou de míticas criaturas que habitam as montanhas? O cabo enfrenta diversas dificuldades: a falta de pessoal, falta de recursos e de colaboração dos trabalhadores, que não confiam na Guarda Civil. Quase todos os capítulos do livro são trazidos em três partes: a primeira acompanhando Lituma e suas investigações, a segunda mostrando ataques dos guerrilheiros e a terceira narrando as desventuras amorosas do guarda Carreño com uma mulher que marcou sua vida - e assim vemos mais uma vez a maestria da escrita de Mario Vargas Llosa, conduzindo o leitor com bastante naturalidade entre diferentes épocas e locais, construindo o quebra-cabeças dos mistérios de Lituma nos Andes.
Nota: 10


A morte e a morte de Quincas Berro D'água
(Jorge Amado, 1961)
Esse pequeno, porém delicioso e pitoresco livro de Jorge Amado nos mostra os estranhos eventos que envolvem as duas mortes de Quincas Berro D'água, o rei dos vagabundos da Bahia. Outrora um funcionário público exemplar e cidadão da respeitosa classe média soteropolitana, Quincas vivia numa zona de Salvador em meio a pescadores, estivadores, bêbados, malandros e prostitutas. Mandou a família e as convenções sociais para os ares e passou a vadiar e se embebedar a todo o tempo - só bebia álcool, e ganhou o apelido Berro D'água depois de se assustar por beber água e dar um grito que estremeceu a Cidade Alta. No dia de seu aniversário, Quincas é encontrado morto por seus amigos bêbados, e a família decide fazer um enterro digno para enterrá-lo como o respeitável Joaquim Soares da Cunha; mas com umas doses de cachaça e outras tantas de loucura, os companheiros de malandragem carregam o defunto por vielas escuras, numa aventura onírica onde se confunde o que é real e o que é efeito do álcool. Livro que se tornou um filme maravilhoso com o inesquecível Paulo José no papel de Quincas. 
Nota: 10

Morte e vida severina
(João Cabral de Melo Neto, 1956)
"O meu nome é Severino, não tenho outro de pia...". Assim o retirante Severino (que é Severino de Maria, sendo Maria a Maria do finado Zacarias) se apresenta a quem ouve a narração de sua saga partindo do interior para o Recife, fugindo da seca e da miséria. Através da poesia rica de João Cabral, temos o engajamento social sobre a vida brasileira, padecendo pelo descaso dos poderosos e sucumbindo de modo cruel e dramático, tendo a morte como companhia constante. Chamada pelo autor de "auto de Natal pernambucano", a obra faz convergências com o nascimento do menino Jesus, numa releitura laica em que a redenção se daria não pela fé, mas pelo trabalho. Apesar disso, a esperança parece distante: "Essa cova em que estás / com palmos medidas / é a conta menor / que tiraste em vida (...) é a parte que te cabe deste latifúndio". O magistral poema se tornou peça de teatro em 1965, musicado por um jovem de 21 anos chamado Francisco Buarque de Holanda. Conhecem?
Nota: 10

Noites do Sertão
(João Guimarães Rosa, 1956)
Em 1956, meses antes de lançar Grande sertão: Veredas, Guimarães Rosa havia publicado seu segundo livro, uma coleção de sete novelas chamada Corpo de Baile. Entre 1964 e 1965, o autor dividiu a obra em três livros: Manuelzão e Miguilim, com duas novelas, No Urubuquaquá, no Pinhém, com três, e por fim Noites do Sertão, com duas. Este último traz duas estórias grandes, densas e que se destacam na obra roseana por abordarem a sexualidade das personagens, mostrada como força arrebatadora que vai de encontro a preconceitos e sobrepuja convenções sociais. Tanto Lão-Dalalão quanto Buriti, títulos das duas novelas, são inesquecíveis. Recheadas de todos os bons ingredientes que Guimarães Rosa gostava de usar: neologismos, arcaísmos, frases de efeito e as marcas culturais e geográficas do sertão mineiro - em Buriti, uma árvore de quase 70 metros de altura dá nome à estória e ao local em que se passa. Uma personagem vegetal envolta por mistérios e segredos, tal como todo o universo do Corpo de baile.
Nota: 10

Luís F. Passos

terça-feira, 1 de junho de 2021

Livros para junho

 Saudações aos navegantes, meninos e meninas e menines. Depois de meses, voltamos, mesmo que não seja com uma frequência constante e certa, mas estamos aqui para um sinal de vida, recomendações de livros bons e o desejo de que você, seja quem for que esteja lendo, esteja bem. Se estiver no Brasil, sabemos que estar bem é um termo muito forte e difícil de ser totalmente sincero. Mas espero que esteja bem, que goste das recomendações, e fique à vontade para me recomendar algo também. Se cuide e até logo mais.


1. Ninguém escreve ao coronel (Gabriel García Márquez, 1969)
Um dos primeiros livros do nosso vencedor de Nobel preferido é relativamente curto, mas inesquecível. A novela que acompanha um coronel reformado e decadente, que vive com sua velha e asmática esposa e um galo de brigas magrelo deixado por seu filho falecido é capaz de despertar vários sentimentos no leitor: pena, indignação, mas também arranca umas boas risadas. O magro coronel vive à espera de correspondências do exército com a resposta ao seu pedido de pensão por sua carreira militar, sob olhares compadecidos dos vizinhos e conhecidos. O livro é narrado de modo bastante realista - ainda não era o realismo fantástico tão bem desenvolvido por Gabo - mostrando pobreza e a história repleta de guerras e revoluções da Colômbia, que poderia ser de vários outros países latinos. A estória é deliciosa, fluida e com um final espetacular com uma palavra inesperada. Leia e descubra.
Nota: 10

2. 
O Poderoso Chefão (Mario Puzo, 1969)
O  grande romance da máfia. A grande estória da máfia. Livro que inspirou um dos melhores e mais queridos filmes de todos os tempos, O Poderoso Chefão acompanha a Família Corleone, a mais poderosa das famílias sicilianas que dominam a máfia de Nova York. Ambientada no fim da década de 40, pós 2ª Guerra Mundial, mostra a transformação dos negócios da família com a velhice de Don Vito, a presença de seus filhos nos negócios e a constante tensão com as outras famílias e a polícia - sim, praticamente igual ao primeiro filme da trilogia. Para quem assistiu aos filmes, o livro contém basicamente todo o primeiro filme e uma parte do segundo. A fidelidade dos filmes ao livro é imensa, afinal o autor Mario Puzo foi coautor dos roteiros dos filmes. E o romance é bom. Deus do céu, que livro bom!
Nota: 10

3. Contos vol. 1 (Ernest Hemingway, publicados originalmente entre 1927 e 1961)
Há pouco que eu possa falar sobre essa reunião de contos de Hemingway - desnecessário dizer o excelente contista que ele era. Esse primeiro volume (de três lançados no Brasil pela editora Bertrand) inicia com contos protagonizados por Nick Adams, célebre personagem autobiográfico de Hemingway, mas percorre diversos cenários recorrentes na obra do autor: Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e África, desfilando por temas também recorrentes: caça, pesca, bebedeira, amores intensos. É impossível dissociar a escrita de Hemingway de sua vida pessoal, logo esses contos são relatos fieis da época, da juventude do escritor, de parte de seu exílio junto à brilhante geração perdida dos anos 1920.
Nota: 9,5/ 10

4. O Primo Basílio (Eça de Queiroz, 1878)
O motivo que me levou a ler uma das principais obras de Eça de Queiroz foi deveras aleatório: o encanto pelo trecho do livro que é citado por Arnaldo Antunes no meio da música "Amor, I love you" de Marisa Monte. Mas eu estou dizendo isso só porque eu gosto de um rolê aletório. Vamos ao enredo: o livro é centrado na figura de Luísa, a jovem esposa do engenheiro e funcionário público Jorge. O típico casal de classe média, respeitado na pobre vizinhança e por amigos distintos e leais, é bem visto aos olhos da sociedade. Porém, como estamos falando de um romance realista, tem que ter algo de podre no reino da Dinamarca (de Portugal, no caso): o motor que propulsiona a estória é a chegada de Basílio, o charmoso primo de Luísa, que chega do Brasil muitos anos depois de se despedir da prima, com quem tivera um breve romance. Basílio volta a Lisboa justamente quando Jorge está numa longa viagem ao interior, e aproveita a ausência do marido da prima para seduzir Luísa, que vai descobrindo em si uma nova pessoa: seu interior, antes preenchido pelo pacato casamento, é ocupado pela abrasante paixão proibida que sente por Basílio. A aventura inconsequente se mostra cara demais quando Juliana, a amargurada empregada de Luísa, descobre a traição da patroa e passa a chantageá-la. Ao longo desta inesquecível estória de adultério, Eça de Queiroz constrói um sólido e ácido retrato da sociedade lisboeta do fim do século XIX.
Nota: 10

Luís F. Passos

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Sobre 2020, o alçapão do inferno e alguns livros


D
urante o ano eu e outros tantos dissemos, em tom de brincadeira: "coitado de quem tiver que fazer a retrospectiva 2020...". Bem, se eu dizia isso, não sou eu que vou fazer uma retrospectiva aqui. Mas, porém, contudo, no entanto e todavia, senti a necessidade de manter o hábito, abandonado apenas em 2018, de falar sobre o ano que se encerra. E esse 2020... ah, esse menino maroto que foi 2020... esse peste que parece aqueles pirralhos que o pai puxa pela orelha e a mãe bota no colo pra esquentar o traseiro. 366 dias, 366 vezes em que nosso corpo celeste que temos como casa deu a volta ao redor de si mesmo enquanto corria para dar uma volta ao redor do astro rei. Bem, pega a pipoca, o lenço de papel, a água e vamos juntos rir e chorar um pouco falando sobre um ano que não vamos conseguir esquecer.
Obviamente o grande assunto de 2020 foi a pandemia. Mas vamos tentar lembrar do que teve antes: nosso presidente querendo treta com Irã e alguns dias de piadas na internet sobre a possibilidade de guerra. "O que esse homem ainda vai inventar?" Eita, gente, não faltou coisa. Enquanto se cavava a sujeira do miliciano e seus filhos, eles começaram a incentivar os apoiadores em atos antidemocráticos que pediam fechamento do Congresso, do STF e outras barbaridades. Aí, em fevereiro, o tal vírus descoberto na China começou a se espalhar pelo mundo. E a gente aqui fazendo piada, achando que isso não chegaria aqui. Quantas referências ao corona e à cerveja Corona no carnaval? Mas no fim de fevereiro, ele chegou. Chegou com força, e duas semanas depois os governadores e prefeitos iniciaram as medidas de isolamento social para tentar conter a doença que foi oficialmente classificada como pandemia pela OMS no dia 11 de março. Bolsonaro, que já tinha dito que o medo do vírus era um histeria, foi à televisão no dia 24 de março para dizer que a Covid-19 é uma gripezinha - marco inicial da sabotagem promovida pelo presidente contra as ações do Ministério da Saúde e dos Estados. A partir daí os índices de isolamento começam a cair e percebemos que vinha um inferno pela frente. E como diz um amigo meu, o inferno tem alçapão: você acha que não dá pra piorar, mas a situação piora, e muito. Ataques à democracia, avanço do ataque à natureza com Amazônia e Pantanal em chamas, atraso na liberação do auxílio emergencial, desemprego, fome, desespero. E como não lembrar daquela reunião ministerial denunciada por Moro, o rato que pulou do navio que parecia prestes a naufragar? Era reunião ministerial ou de quadrilha?
Milhões de doentes, quase duas centenas de milhares de vidas perdidas - números que sabemos ser bem maiores, tamanha a subnotificação da Covid no Brasil. Aos poucos os números começaram a ganhar rostos conhecidos. Vi vários colegas e amigos adoecerem. Vi amigos perderem familiares. Atendi e continuo atendendo casos de Covid. Acabou que aprendi - todos aprendemos - a lidar não só com a doença mas também com o clima desesperador na pandemia. Em março, a incerteza, o medo de adoecer ou de contaminar alguém da família me fizeram chorar, assim como muitos outros profissionais que chegaram a sair de casa para proteger os seus. Sentimos medo da doença, perplexidade e raiva diante do mau comportamento de quem parecia ignorar o caos, e ódio de lideranças políticas que negavam e seguem negando a gravidade de uma doença capaz de matar e de deixar graves sequelas. Diziam que as pessoas iriam sair melhores da pandemia. Como? Indo pra festa e cagando e andando pra quem tava morrendo? 
O fato é que 2020 foi bizarro. Não só pela Covid, mas por muitos outros motivos. O que dizer de um ano que trouxe o rolê mais aleatório de Ronaldinho Gaúcho (a prisão!)? O ano da naja de Brasília, da chance do vira-lata caramelo ir pra nota de 200 reais. Um ano de muitos memes, óbvio, porque o brasileiro não deixa de rir da própria desgraça. Um ano de muitas perdas, não só para Covid, mas para outras doenças também. 2020 conseguiu levar até a imortal Olivia de Havilland, de 104 anos, última atriz viva do elenco de E o vento levou. Perdemos pessoas brilhantes da música, da literatura, do cinema, do esporte. Sentiremos falta de Flávio Migliaccio, Chadwick Boseman, Sean Connery, Diego Maradona, Quino, Kirk Douglas, Aldir Blanc, Moraes Moreira, Nicette Bruno, Tom Veiga, entre tantos outros. Pessoas tão necessárias nesses tempos difíceis, afinal, a arte sempre teve e terá a nobre função de deixar a vida mais leve, de nos distrair dos problemas, de nos fazer enxergar os problemas de um modo diferente. Precisamos e precisaremos ainda mais de arte para nos apoiar, afinal, todo o sufoco pelo qual passa o Brasil deve se manter por algum tempo e piorar nos próximos meses, já que as crises econômica e sanitária não têm previsão de resolução. É, gente, pelo visto vamos continuar descendo por alçapões, chegando ainda mais fundo no inferno ou no poço. Encerro aqui desejando saúde física e mental, força, amor, paz e dias cheios de sorrisos para todos. Que venha a vacina para que possamos nos ver e nos abraçar, e que venha o impeachment de Bolsonaro para que tenhamos motivo para comemorar por dias e dias seguidos. Fiquem com a lista dos cinco livros que mais gostei dentre os treze que li no ano de 2020.



5. 2001: uma odisseia no espaço, Arthur C. Clarke
Quando Stanley Kubrick se inspirou em um conto do escritor e cientista Arthur C. Clarke, os dois gênios se uniram para escrever as bases do que se tornaria um marco na ficção científica: eles começaram a trabalhar juntos e depois se separaram; Kubrick terminou o roteiro do filme e Clarke foi terminar seu livro. 2001 inicia na pré-história, há milhões de anos, quando um misterioso monólito surge num deserto e parece ser o catalisador da evolução de primatas humanoides. Milhões de anos depois, na era espacial, um monólito semelhante é encontrado sob a superfície lunar, motivando uma missão espacial que rumava a Júpiter e posteriormente a Saturno. Os cientistas David Bowman e Frank Poole comandam a nave Discovery, junto ao super computador HAL 9000, enquanto outros três tripulantes permanecem em um tipo de hibernação em máquinas especiais, para serem acordados apenas quando chegarem ao destino. Fatos extraordinários abalam a missão, justificando a palavra odisseia do título. O que temos aqui é uma obra incrível, sem paralelo, mostrando como poucas o poder da imaginação humana, a vontade humana de conhecer o que tem para dentro e além de nós, de nosso mundo, de nossa concepção de universo. Me cativou da mesma forma que o filme.
Nota: 10

4. O amor nos tempos do cólera, Gabriel Garcia Márquez
Livro muito comentado e lido em 2020, além de seu título ser usado no trocadilho "o amor nos tempos do corona" (eu mesmo usei bastante). Esse é um dos romances mais conhecidos do mestre Gabo, escrito nos anos 80 logo depois do ano sabático que o escritor se deu após ganhar o Nobel de literatura em 1982. Baseado numa história verdadeira - de seus pais - em que um rapaz apaixonado usava a rede de telégrafos para se comunicar com a amada, cujos pais se opunham ao romance, García Márquez narra uma história de amor e devoção que atravessou décadas. O telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza é um pobre rapaz que se apaixona por Fermina Daza, moça de família rica (apesar dos negócios de seu pai serem obscuros), e passa a se comunicar com ela por cartas durante alguns anos, até que pede sua mão em casamento - carta que demora 4 meses a ter resposta. Depois que o pai de Fermina descobre o namoro epistolar, manda a filha para a casa de parentes em lugares distantes, e é aí que a rede telegráfica é usada para a comunicação do casal. Fermina acaba se casando com um médico aristocrata, mas nem a distância e nem o tempo são capazes de pôr fim ao amor de Florentino. A magistral escrita de Gabriel García Márquez nos proporciona um romance interessante, bonito e até mesmo pitoresco - afinal, estamos falando do mestre do realismo fantástico.
Nota: 10

3. Sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk
Certamente minha maior e melhor surpresa literária, já que eu nunca ouvira falar do livro ou da autora, esse romance polonês me foi dado de presente em meu aniversário e me conquistou logo nas primeiras páginas. Nossa protagonista, Janina Dusheiko, é uma professora de inglês aposentada que vive numa região distante e pouco habitada da Polônia, marcada por invernos rigorosos, solidão e temporadas de caça agitadas. Dusheiko, entusiasta de astrologia e poesia inglesa, abomina a caça e é conhecida na vizinhança pela defesa dos animais - inclusive, é vegana, não consumindo nada de origem animal. Quando pessoas ligadas à caça começam a aparecer mortas, em crimes brutais e difíceis de serem explicados, Dusheiko levanta a suspeita de que os animais da região podem estar envolvidos nas mortes, já que sempre havia animais silvestres nas cenas dos crimes. Ao longo do livro a autora explora, além do tema da relação humana com os animais, temas como machismo, preconceito e pessoas que vivem à margem da sociedade. Com um texto fluido e muito envolvente, a obra prende o leitor do começo ao fim.
Nota: 10

2. Hibisco roxo, Chimamanda Ngozi Adiche
Agridoce é uma boa palavra para falar sobre esse romance incrível. A deliciosa narração de Chimamanda nos traz a jovem Kambili, uma adolescente nigeriana, filha de um dos homens mais ricos e poderosos do país. Seu pai, Eugene, é dono de jornal e empresário, e está ainda mais em destaque porque a Nigéria atravessa um delicado período político com a chegada de militares ao poder - a quem ele faz oposição. Mas o principal tema do livro é o impacto da chegada do catolicismo ao país; o pai de Kambili se converteu à Igreja Católica, abandonando as tradições locais, as quais chama de pagãs, chegando ao ponto de cortar todas as relações com seu pai. Seguimos com Kambili enquanto ela conhece a vida para além dos altos muros da mansão da família e do rígido controle do seu pai, especialmente quando ela passa a manter contato com uma tia professora e seus primos que não têm a mesma vida de conforto que ela. Livro denso, rico, muito emocionante. Imperdível.
Nota: 10

1. Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway
Provavelmente o melhor livro de Hemingway, esse foi o primeiro livro que li em 2020 e nenhum dos que vieram depois lhe tirou a posição de melhor livro lido no ano. Ao longo de mais de 600 páginas acompanhamos o americano Robert Jordan, combatente da Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, que recebe a missão de explodir uma ponte na região de Segóvia. A narração acompanha poucos dias na vida do rebelde, mas são dias suficientes para que ocorra uma mudança importante em seu interior - uma pessoa seca, objetiva, calculista, alcançando a humanidade. Além de Jordan, outras personagens marcantes são apresentadas, todas elas fundamentais para o processo de mudança sofrido pelo protagonista. Esse livro maravilhoso é marcado pela sempre presente sinceridade do autor, e aqui, num nível ainda mais elevado que nas outras obras. Hemingway trabalhou como jornalista cobrindo a Guerra Civil Espanhola, e deixa transparecer em seu livro a crueza e horrores da guerra, e o que ela provoca nos corações dos homens.
Nota: 10

Luís F. Passos

quinta-feira, 5 de março de 2020

Livros para Março

1. Essa gente (Chico Buarque, 2019)
O mais novo livro de Chico Buarque talvez seja o melhor dele - pelo menos é o melhor entre os que eu li. Escrito intercalando a forma de diário com a forma epistolar, Essa gente é centrado em Manuel Duarte, escritor decadente que em seus dias áureos foi um dos mais vendidos autores do Brasil. Falido, em crise constante com suas duas ex-mulheres e pai de um adolescente com quem não consegue manter uma conversa trivial, Duarte é mais um fracassado da obra literária de Chico. Através das andanças de Duarte por bairros nobres, praias e favelas da zona sul carioca, vemos a sociedade sangrar por feridas históricas muitas vezes defendidas orgulhosamente por pessoas ditas diferenciadas - claras referências ao atual contexto social e político de nosso país. Atual, mas vigente há séculos. O romance não poupa aspereza e tem seu toque de enigma. É sensacional. É cru, é intenso, é pulsante, mesmo sendo apresentado com o distanciamento emocional com que Duarte vê e trata da decadência de valores humanos. É Chico Buarque em sua melhor forma.
Nota: 10
2. Memorial de Aires (Machado de Assis, 1908)
Depois de inaugurar o Realismo no Brasil e lançar quatro livros imortais nessas características, Machado de Assis muda o estilo ao escrever seu último romance, o emocionante Memorial de Aires, em que fica visível o caráter pessoal. O livro mostra um casal de idosos, Aguiar e Carmo, que apesar de muito felizes, não têm filhos. Mas Tristão, afilhado deles, e Fidélia, uma jovem viúva, são tratados pelo casal Aguiar como se fossem filhos deles.
A história é narrada pelo conselheiro José Aires, diplomata aposentado, amigo dos Aguiar e que acompanha o surgimento do amor entre Tristão e Fidélia. No final do livro, a tristeza e solidão sentida pelo casal Aguiar é reflexo do sofrimento do autor, que anos antes havia perdido sua esposa Carolina, o grande amor de sua vida.
Nota: 10
3. O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo, 1831)
Um dos melhores e mais conhecidos romances do grande escritor francês se passa no fim da idade média. Numa época em que o poder da Igreja Católica era absoluto, soldados sonhavam com glória e a maior parte da população lutava contra a fome e a miséria, acompanhamos a estória do pobre Quasímodo, o tocador dos sinos da catedral de Notre Dame. Corcunda, caolho, deformado, surdo e coxo, Quasímodo fora abandonado e frente à igreja ainda bebê, e criado pelo rígido padre Claude Frollo, arquidiácono de Notre Dame. Do alto das torres da catedral, Quasímodo observa apaixonadamente a bela e jovem cigana Esmeralda, que também desperta a paixão do arquidiácono Frollo - no entanto, Esmeralda é apaixonada pelo capitão da guarda Phoebus Châteaupers, que não corresponde seu amor, mas apenas tem por ela desejo sexual. Victor Hugo nos apresenta com maestria uma estória de amor, ódio, preconceito e injustiças.
Nota: 10

Luís F. Passos

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Cinco livros em 2019

Bem, amigos do Sagaranando, este corpo celeste azul que chamamos de lar está completando mais uma volta ao redor do astro rei, e é hora de relembrar alguns pontos deste menino maroto chamado 2019. Um ano em que apanhamos na cultura, na educação, no meio ambiente, nos movimentos sociais... e ainda tem mais três anos, taokey? O Brasil mergulhando cada vez mais nas águas turbulentas do autoritarismo e da intolerância, se tornando mais desigual e gradativamente mais deslumbrado perante o absurdo que se tornou nosso cotidiano. Mas também foi ano de alegrias, de conquistas pessoais, mas isto é assunto para mais tarde, talvez. Hoje vamos falar de livros! Consegui ler uma quantidade boa, a maior desde 2014, e quase todos eles de ótima qualidade. Antes de falar dos cinco melhores, quero dizer que Vá, coloque um vigia de Harper Lee, a continuação do maravilhoso O Sol é para todos, foi uma decepção. Mas estas serão cenas de próximos capítulos.  Desejo a todos um 2020 de paz, saúde, conquistas, ótimos livros e filmes maravilhosos. Tentarei (Ten-ta-rei!) retomar, mesmo que em pequenas doses, as atividades do blog no próximo ano.
Vamos aos cinco livros que mais me cativaram em 2019.
5. Me chame pelo seu nome, André Aciman
Livro que inspirou um dos mais destacados filmes de 2017, Me chame pelo seu nome nos leva à Riviera Italiana dos anos 80, onde um professor universitário abre as portas de sua casa todos os anos no verão a algum jovem acadêmico, oferecendo orientação em troca de ajuda com seu trabalho científico. O escolhido da vez é o americano Oliver, uma figura carismática, sedutora e um tanto quanto enigmática. Oliver imediatamente conquista a todos, mas é com Elio, filho do professor, que ele desenvolve uma relação especial - e aí temos a temática do amor, da insegurança, da descoberta da sexualidade (por parte de Elio). Uma estória tocante, bonita, despretensiosa. Do tipo de livro que a gente lembra com carinho.
Nota: 9.0/ 10

4. Este lado do paraíso, Francis Scott Fitzgerald
Esses tolos sonhadores... o primeiro romance de Scott Fitzgerald nos leva aos Estados Unidos do fim da década de 1910. Amory Blaine, o protagonista, é filho de uma família de quem recebeu bastante conforto, mas pouco afeto - apesar de sua mãe Beatrice o adorar. Tendo um pai distante e uma mãe mergulhada em melancolia e ilusões, quando adolescente Amory decide ir para um colégio interno de elite. De lá, vai para a Universidade de Princeton, onde desenvolve ambições literárias, se envolve em diversas e sucessivas paqueras, até conhecer o amor e a desilusão. Em certo ponto Amory se dá conta do castelo de cartas que era sua vida, bem como a sociedade em que vivia, superficial e mantida por aparências. Este livro, cuja primeira edição esgotou em três dias, definiu uma época e uma geração que tanto se identificou com ele. O mundo então sabia: nascia um gênio literário. Nota: 10

3. Ter e não ter, Ernest Hemingway
Mais um livro de Hemingway e mais um motivo pra ele ser um de meus autores preferidos. O protagonista é um típico personagem que o escritor americano adorava retratar: um homem durão, devotado à família e com a vida intrinsicamente ligada ao mar. Harry Morgan, vivendo entre Havana e a Flórida, convive diariamente com pescadores, bêbados, arruaceiros, prostitutas, mas também com comandantes de navios de luxo e milionários alienados que queimam dinheiro no litoral - uma fauna humana tão recorrente no trabalho de Hemingway, e que sabemos que guarda diversas semelhanças com pessoas que conviveram bastante com ele. O livro traz uma ação forte e faz menção a questões políticas, o que fica perfeito com o diálogo contundente que é marca registrada de Ernest Hemingway, combinado com uma prosa direta, enxuta, sem muitos rodeios. Legítimo e brutal como a propria vida do escritor.
Nota: 10

2. Fahrenheit 451, Ray Bradbury
Uma das distopias mais conhecidas e mais importantes, a obra-prima de Ray Bradbury apresenta um mundo horrível em que livros são inimigos e incinerados pelos bombeiros, as pessoas se comportam como zumbis diante das televisões (que são as coisas mais importantes dentro de uma casa) e podem se distrair da apatia da vida cotidiana dirigindo a 200 km/h. Neste cenário futurístico desolador vive o bombeiro Guy Montag, desolado pelo tédio de sua vida e pela convivência com sua mulher, que vive inerte frente a uma televisão. A partir do contato com Clarisse, uma jovem vizinha, Montag passa a refletir e se indignar com a doentia ordem vigente - claro que isso trará graves consequências. Um livro duro, sufocante, essencial em tempos sombrios como os que vivemos.
Nota: 10
1. Travessuras da menina má, Mario Vargas Llosa
Que livro! Senhoras e senhores, que romance. Algo que só um escritor do quilate de Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010, pode conceber. Acompanhamos aqui a nada convencional estória de amor entre Ricardo e Lily - ele, peruano que vai morar em Paris ainda jovem e trabalha como intérprete e tradutor; ela, uma aventureira que surge a cada década em uma cidade diferente com uma identidade diferente e vivendo uma vida completamente diferente da anterior. Ricardo conhecera Lily ainda na infância no tradicional bairro limenho de Miraflores, e a reencontrou novamente na revolucionária Paris dos anos 60, na Londres libertária dos anos 70, na cosmopolita Tóquio, e na Madri pós ditadura franquista nos anos 80. Este estranho amor cresce e se transforma ao longo dos anos,  cada vez que a menina má aparece e some na vida do bom menino Ricardo; ela envolvida em cenários de poder e riqueza, enquanto ele só tentava viver sua vida pacata. O enredo deste intrépido casal tem como plano de fundo as transformações sociais da Europa e a turbulenta política da América Latina (incluindo Revolução Cubana, golpes de estado na América do Sul e grupos de guerrilha. Numa dança de encontros e desencontros, a narração magistral de um dos maiores escritores do século XX.
Nota: 10

Luís F. Passos

sábado, 30 de dezembro de 2017

Cinco livros em 2017

Bem amigos do Sagaranando, mais um ano se vai e aqui estamos mais um dia sob o olhar sanguinário do vigia pra comentar algumas coisas desta última volta da Terra ao redor do sol. Neste primeiro de dois posts sobre essa montanha russa chamada 2017, vamos comentar sobre alguns livros que tive o prazer de ler - além da alegria de ter lido um pouco mais nesse ano. Apesar do tempo curto na maior parte do ano, da correria da faculdade e da ocupação pré - formatura (formei, mas isso é assunto pra amanhã), 2017 rendeu ótimas leituras, e em um número um pouco maior do que nos últimos dois anos. Vamos às cinco obras que mais gostei:

5. O velho e o mar, Hernest Hemingway
Uma das maiores obras de Hemingway, este livro de menos de cem páginas figura entre os livros mais importantes do século. O velho e experiente pescador Santiago, depois de fixar 85 dias sem pescar um único peixe, se lança ao mar e se vê diante de um dos maiores desafios de sua vida. Ele pesca um marlin gigantesco que arrasta seu barco por dias, ao longo dos quais é estabelecida uma relação de respeito, ao mesmo tempo em que o pescador enfrenta seus próprios limites num enorme esforço de dominar sua presa. Essa é a essência do livro: a luta do homem contra a natureza e também contra sua própria natureza e sua própria essência. Um livro incrível,  exemplo do que o bom e velho Hemingway conseguia fazer de melhor.
Nota: 10
4. Cândido ou O Otimismo, Voltaire
Acho que posso dizer que este livro define genialidade. Usando de um sarcasmo aguçado, Voltaire narra a história do jovem Cândido, que morava em um castelo e era aprendiz do sábio Pangloss, que o instruiu sobre ser otimista a respeito das situações e das pessoas - claramente puro veneno para criticar Rousseau, a quem Voltaire se opunha. Cândido, seu mestre e sua amada Cunegundes comem o pão que o diabo amassou em diversas circunstâncias e em vários lugares diferentes. Apesar disso, nosso intrépido herói insiste em permanecer otimista e esperar o melhor das pessoas ao seu redor. Uma obra magistral em que não faltam críticas à filosofia, a monarquias, religiões,  exércitos e diversos setores da sociedade. Cinismo e sarcasmo do jeito que a gente gosta.
Nota: 10
3. Olhai os lírios do campo, Erico Verissimo
O primeiro romance de um dos mais queridos escritores gaúchos foi um sucesso imediato, e não é difícil imaginar o motivo. A vida de Eugênio Fontes é marcada pela pobreza, ascensão social e conflitos de consciência. Nascido na pobreza, Eugênio sofre humilhações pelas roupas velhas e remendadas, pela submissão e passividade dos pais, pela diferença de suas condições de vida e de seus colegas. Com muito esforço,  Eugênio se forma em medicina e se apaixona por uma colega de turma, Olívia,  mas acaba se casando por interesse com Eunice Cintra, herdeira de uma rica herança. Eventos inesperados fazem Eugênio repensar sua vida, sua trajetória e o verdadeiro significado de felicidade. Uma história um pouco triste, mas sensível, bela e envolvente.
Nota: 10
2. O sol é para todos, Harper Lee
O clássico de Harper Lee é um dos livros mais amados pelos leitores dos Estados Unidos e é conhecido e querido em todo o mundo. A bela estória de Atticus Finch, advogado de uma pequena cidade do Alabama, é narrada pelo olhar de sua filha Scout, que era uma criança na época dos acontecimentos da narrativa. Nos anos 1930, quando os direitos civis para os negros ainda eram um sonho distante, Atticus assume a defesa de um homem negro acusado de estupro, em um caso cheio de falhas, onde o que mais pesava para a acusação era a cor da pele do réu. Além do desafio no tribunal, o advogado ainda enfrenta o preconceito e o ódio de várias pessoas da cidade que abominavam o fato dele representar um cliente negro, acusado de um crime de tal gravidade. O enredo é conduzido com uma delicadeza singular e carrega um pouco da inocência que Scout tinha na infância, fase cheia de descobertas e aprendizado, em que ela e seu irmão têm a oportunidade de descobrir a importância de se livrar de preconceitos e dar valor às pessoas pelo que são, e não pelo que aparentam ser. Obra fundamental em tempos de tanta intolerância, como o que vivemos atualmente.
Nota: 10
1. Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa
Depois de anos, reli meu livro favorito, por dois motivos: vontade de reler e vontade de escrever sobre ele no aniversário de seis anos do blog. Seis anos depois da primeira vez que o li, a emoção foi praticamente a mesma, e a satisfação foi ainda maior. Neste (único) romance de Guimarães Rosa acompanhamos a narrativa do ex jagunço Riobaldo, já idoso, sobre sua vida: breve relato da infância e adolescência e um extenso relato sobre seus anos na jagunçagem no grande grupo de Joca Ramiro, a morte deste pelas mãos de traidores, os desafios para obter a vingança e a confusão de sentimentos para com Diadorim, companheiro de bando, grande amigo, e no meio de tantos conflitos internos, seu grande amor.
A genialidade de João Guimarães Rosa usa um jagunço do sertão mineiro para examinar as profundezas da mente do homem e a partir daí elaborar uma estória da mais ampla universalidade. Os dilemas de Riobaldo atravessam tempo e espaço: amor e ódio, o que é o bem e o que é mal, a existência ou não de Deus e do diabo, a ideia psicanalítica do poder da vontade, entre outros. Tudo isso, associado à beleza da narração sobre a natureza local e principalmente do amor de Riobaldo por Diadorim ("Diadorim deixou de ser nome e virou sentimento meu") fazem deste um livro único, maravilhoso e inesquecível. Deixou de ser meu preferido? Nonada.
Nota: 10

Luís F. Passos

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Grande Sertão: Veredas - tudo, nesta vida, é muito cantável

Há exatos seis anos eu começava a escrever este blog, cuja ideia original era de falar sobre literatura, cinema e música a partir de minha experiência pessoal com estas artes, expondo minha opinião e também falando de minha relação com filmes, livros e músicas - o significado que têm para mim. Apesar de várias vezes expor opiniões bastante particulares, acredito que foram poucas as situações em que eu ou os outros colaboradores do blog escrevemos seguindo o objetivo original, exceto em postagens como as de nossos filmes favoritos, por exemplo. Mas hoje, talvez mais do que nunca, a intenção é falar da experiência pessoal com a obra, e por dois bons motivos: se trata de um livro complexo, difícil de ser abordado, e por ser meu livro favorito.
Falando brevemente sobre o enredo, Grande Sertão: Veredas é um monólogo narrado de forma contínua, sem divisão em capítulos ou sem maiores pausas ao longo de mais de seiscentas páginas por um velho Riobaldo, fazendeiro que outrora fora líder de um bando de jagunços, guerreando pelo sertão que se estende pelo norte de Minas Gerais, sul da Bahia e leste de Goiás. Riobaldo fala para um doutor da cidade, um homem letrado que em nenhum momento é identificado, sobre sua vida, desde a infância até o tempo em que atuou como jagunço. A conversa com este tal doutor é em tom de amizade e respeito, visto que se trata de uma pessoa de suma erudição, mas Riobaldo deixa claro que ele próprio também era letrado; enquanto narra sua juventude, fala dos estudos que teve e do ofício de professor. Mesmo de forma modesta, ele afirma sua capacidade intelectual:
"O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo...Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: pra pensar longe, sou cão mestre."
Riobaldo inicia sua narração falando sobre o ponto chave do livro: a questão sobre a existência ou inexistência do diabo. E desde o começo, ele procura negar a existência do demo, debochando da crendice popular, dizendo porque é impossível alguém negociar a própria alma. Além disso, ele divaga muito sobre a vida e sobre o sertão, soltando frases inesquecíveis como "viver é muito perigoso" (repetida diversas vezes ao longo do romance) e "o sertão está em toda parte". É um começo um tanto quanto difícil, pedregoso, mas que prepara muito bem o leitor para o que está por vir. Importante ressaltar que nestas primeiras páginas o autor demonstra os primeiros sinais de universalidade da obra. É claro que ao dizer "O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!" ele nos dá a ideia do sertão local, antigo, violento. Por outro lado, afirmar que "o sertão está em toda parte" sugere que todas as adversidades encontradas por Riobaldo e seus conterrâneos são inerentes ao ser humano e estão diante de qualquer pessoa.
Durante a primeira metade do livro, a narração não segue uma ordem cronológica. O ex-jagunço primeiro fala de dificuldades enfrentadas  durante as lutas, para depois ir para sua adolescência, quando sua mãe morre e ele vai morar com o padrinho rico, Selorico Mendes. Com o padrinho Riobaldo conhece conforto, boa vida, e vai estudar num povoado, além de ter os primeiros contatos com mulheres. Também é na fazenda do padrinho que ele se encontra pela primeira vez com a jagunçagem, quando o grande chefe Joca Ramiro e seus tenentes aparecem numa madrugada. Pra adiantar a estória: Riobaldo percebe sua semelhança física com Selorico, e ao pensar nos cuidados que o padrinho tinha com ele, suspeita de ser filho dele, não apenas afilhado. Foge, e é enviado por seu antigo professor a uma fazenda, onde passa a dar aulas a um fazendeiro no mínimo excêntrico, Zé Bebelo. Mais do que ser letrado, Zé Bebelo queria botar ordem no sertão e combater os jagunços - inicialmente Riobaldo o acompanha, mas depois foge dele também.
É a partir do encontro com Reinaldo, um jagunço de sua idade, que Riobaldo decide se tornar jagunço ao lado do grande bando de Joca Ramiro. E por que essa mudança de lado? Convém explicar o encontro que Riobaldo, então um menino de 14 anos, tivera com um menino da mesma idade que ele, de feições muito bonitas e  profundos olhos verdes; encontro que o marcaria para sempre. Depois de fugir de Zé Bebelo, ele encontra alguns jagunços, e entre eles reconhece o tal menino - Reinaldo, que mais tarde revela em segredo a Riobaldo que seu verdadeiro nome é Diadorim. Começa então uma nova fase de sua vida, marcada por um sentimento confuso; carinho e amor sinceros mal ocultos em amizade.
"E desde que ele apareceu, moço e igual, no portal da porta, eu não podia mais, por meu próprio querer, ir me separar da companhia dele, por lei nenhuma; podia? O que entendi em mim: direito como se, no reencontro aquela hora aquele Menino-Moço, eu tivesse acertado de encontrar, para o todo sempre, as regências de uma alguma a minha família."
Novamente vamos resumir: Riobaldo se integra ao bando, conhece os chefes que lideram o grupo de Joca Ramiro, combate ao lado deles - lutando contra Zé Bebelo, inclusive - e depois da traição de dois desses chefes, Ricardão e Hermógenes, que matam covardemente Joca Ramiro, inicia uma jornada de vingança junto de Diadorim e de todos os que permaneceram leais ao líder morto e juraram perseguir os dois traidores - a partir de então chamados judas.
O enredo é enorme e não dá pra falar de tudo, até porque, apesar do livro ser um clássico e como tal, ser extremamente passível de spoilers, vamos evitar entregar fatos mais decisivos. Falemos então da relação de Riobaldo e Diadorim - pra mim, a mais bela e triste estória de amor de nossa literatura. Riobaldo não consegue entender seus sentimentos; inicialmente apenas se surpreendia com a dimensão da amizade e do carinho mútuo:
"Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Direitinho declaro o que, durando todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adição nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava."

Com o passar do tempo, não dá mais para negar pra si mesmo o amor que sente:

"Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. (...) O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. 'Diadorim, meu amor...' Como era que eu podia dizer aquilo? (...) Um Diadorim só pra mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim – que não era de verdade."
Daí, o esperado: um amor impossível. Um amor que Riobaldo sabia, de alguma forma, ser correspondido, mas um amor que não era compreendido e que ficou oculto em seu coração. É muito discutida a questão da sexualidade dele, o fato de se apaixonar por um jagunço, igual a ele em roupas e armas. Questão importante? Sim. Mas não me detenho muito nisso - havia um desejo físico, mas na leitura o que chama mais atenção é o sentimento, a vontade de querer estar perto, o bem querer mútuo. 
"Diadorim deixou de ser nome e virou sentimento meu".
Por fim, o mais importante: através do regionalismo, de uma estória passada nos confins do sertão, Guimarães Rosa elabora uma literatura universal do mais refinado nível. As angústias de Riobaldo, no norte mineiro, são as angústias de qualquer homem em qualquer lugar do mundo: o que é o bem? O que é o mal? Deus existe? O diabo existe? É possível selar pacto com o demo? "...o diabo na rua, no meio do redemoinho...". Hermógenes, o cruel inimigo e traidor, supostamente era pactário. Seria esse o motivo dele levar vantagem na luta contra os remanescentes do bando de Joca Ramiro? Riobaldo faz o pacto - realmente faz? Ele não acredita, mas o seu pacto acaba sendo um marco para mudanças no decorrer dos fatos. Seria o sobrenatural ou apenas uma ideia psicanalítica de renascimento, para enfrentar com mais força de vontade os desafios? Aliás, o poder da vontade é fator decisivo no livro, em vários momentos, sob vários aspectos, especialmente nos momentos finais.
Eu li Grande Sertão: Veredas pela primeira vez com dezessete, quase dezoito anos, meses antes da criação do Sagaranando. Antes dele, o único livro que tinha lido de Guimarães Rosa fora Sagarana; se eu já havia me fascinado com os contos do livro de estreia do autor, ler o seu único romance foi uma verdadeira experiência. Até hoje não li nada tão completo, tão diferente, tão ímpar ao unir amor e ódio, físico e metafísico, certeza e mistérios, numa perfeita reunião de ambiguidades. Mesmo tendo forte tendência universal, o livro não deixa de ser regional, descrevendo tão bem fauna, flora e geografia do sertão e dos Gerais - há quem diga que a maior parte dos lugares descritos existe de verdade, e dá pra apontar com mapa na mão. Honestamente, pra mim não importa. Claro que eu tenho vontade de conhecer o interior mineiro, as trilhas que Guimarães Rosa percorreu nas viagens que fazia para coletar informações sobre o sertão, e sua cidade natal, Codisburgo, mas essas precisões geográficas são totalmente dispensáveis diante do que o livro tem de melhor, que são as características universais. Recentemente reli o romance, tanto por sentir saudade da estória, quanto porque tinha vontade de escrever sobre ele hoje, no aniversário do blog. Desafio grande, dada a complexidade do livro e até mesmo seu grande número de páginas. Ao mesmo tempo, escrever sobre algo que me desperta tantas emoções é algo bastante satisfatório. Relê-lo foi extremamente prazeroso, e depois de anos, ele segue como meu favorito. Alguma chance de deixar de ser? Nonada.


Luís F. Passos