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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Filmes pro final de semana - 24/09


 1. Drive (2011)
Drive  centra-se na relação entre um homem misterioso, o qual nem sabemos o nome, interpretado por Ryan Gosling, que se encontra perdidamente apaixonado por sua jovem vizinha de modo a se dispor a protegê-la de todos os perigos que a envolvem, relacionados a seu marido recém saído da prisão e da máfia que os cercam. Tecnicamente falando, Drive é impecável. A fotografia é belíssima e acompanha as grandes mudanças de tom pelas quais o filme passa. Se num primeiro momento tudo é a magia da descoberta do amor, com paisagens bucólicas e ensolaradas ao entardecer, a metade final é negra, escura, sórdida e violenta. A violência é elevada aos limites conforme o conto torna-se cada vez mais perigoso e envolvente. A relação amorosa entre Ryan Gosling e Carey Mulligan é de uma pureza e uma sensibilidade que contrasta a todo o momento com o extremismo da violência onde aqueles personagens se encontram, tendo este antagonismo alcançado o ápice na já clássica cena do elevador. É quase um conto de fadas na verdade, onde um “príncipe encantado” luta a qualquer preço para defender sua “donzela” em perigo. A diferença é que no lugar de uma armadura de metal temos uma jaqueta prateada e em vez de cavalos brancos, carros envenenados dispostos a intensas cenas de perseguições.
Nota: 10

2. Namorados para sempre (Blue Valentine, 2010)
Malditos tradutores. Malditos. Transformar o título de um sério e triste drama num título de filme adaptação de Nicholas Spark é o fim. Isso porque Namorados para sempre não é, nem de longe, uma história de amor em que todos serão felizes para sempre e blablablá. O que temos aqui é o registro do fim de um casamento, mostrando desde o começo do namoro até o início da ruína do relacionamento. Cindy (Michelle Williams) trabalha num hospital, tem um emprego estável e com chances de crescimento, enquanto Dean (Ryan Gosling) está desempregado e faz bicos - um dos motivos do desgaste da relação. Muitas cenas são ambientadas num motel, para onde eles vão no dia dos namorados para tentar salvar o casamento, mas lá se demonstra ao máximo o quanto tudo está perdido; são momentos de muita tensão em que se vê o grande talento de dois jovens atores, alguns dos maiores nomes dessa nova geração.
Nota: 10

3. 
Closer - perto demais (Closer, 2004)
É impressionante a qualidade e a capacidade de impactar de Closer. Dirigido por ninguém menos que Mike Nichols, veterano diretor de A primeira noite de um homem e Quem tem medo de Virginia Woolf?Closer aborda quatro pessoas em Londres e suas relações de amor, ciúme e ódio entre elas. A primeira é a fotógrafa Anna (Julia Roberts), por quem o escritor frustrado Dan (Jude Law) se apaixona e cria uma certa obsessão. Indiretamente graças a Dan, Anna conhece o médico Larry (Clive Owen), com quem se casa, mas mais tarde mantém um caso com Dan. Nesse vai e vem, há também a stripper Alice (Natalie Portman), com quem Dan mantinha um relacionamento, e que também vai se aproximar de Larry. Um drama sólido e intenso que vai muito além da questão de relacionamentos e traições; uma grande produção coroada com a música The blower's daughter.
Nota: 10


4. 
O profissional (Leon, 1994)
A violenta jornada da jovem Mathilda (Natalie Portman) na companhia de seu amigo (?) Leon (Jean Reno), um assassino profissional, em busca de uma vingança quase impossível contra a polícia corrupta que matou toda sua família pontua um dos filmes mais interessantes dos anos 90. Intenso do começo ao fim, O profissional representa um filme de ação de qualidade, com algumas doses esporádicas de drama, que inclui um relacionamento incomum entre as personagens e culmina com uma conclusão épica. Também marcante por ser a estreia de Natalie Portman nos cinemas, numa personagem juvenil que disputa com a Iris de Jodie Foster em Taxi Driver pelo posto de mais complexa. Altamente recomendável.
Nota: 10

5. Tubarão (Jaws, 1975)
Anos antes de Alien, Steven Spielberg já trabalhara com a ideia do monstro que não pode ser visto - neste caso, que passa boa parte do filme oculto. Estamos em Amity Island, tranquila cidade de veraneio da Costa Leste, prestes a ser invadida por turistas na estação mais quente do ano. Quando o policial Martin Brody ((Roy Scheider) decide investigar com mais atenção a morte de banhistas, passa a acreditar que as praias representem um perigo para seus frequentadores. Desacreditado pelas autoridades locais, Brody busca a ajuda do especialista Matt Hooper (Richard Dreyfuss) e do insano pescador Quint (Robert Shaw), um velho lobo do mar, e juntos os três vão juntando evidências, à medida em que novos ataques vão acontecendo. A luta contra um inimigo poderoso e gigantesco é comparável à história de Moby Dick, graças à criatividade e competência de Spielberg, nesse primeiro de seus muitos sucessos. E assim como suas personagens, o próprio diretor enfrentou desafios imensos para produzir o filme - o mais conhecido deles foi o problema com o tubarão, que teve vários defeitos ao ser posto na água e por isso acabou ficando tão oculto nas filmagens. Mas verdade seja dita, o fato do monstro permanecer escondido na maior parte do tempo tornou o longa muito mais interessante e assustador.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Filmes pro final de semana - 04/09


1. Bravura Indômita
 (True grit, 2010)
Primeiro filme totalmente de cowboys dos Irmãos Coen, Bravura indômita é a segunda adaptação para o cinema do romance homônimo, sendo a primeira de 1969 com John Wayne, que ganhou um Oscar por sua atuação. No longa, Mattie Ross (Hallee Steinfeld) é a filha de um homem morto covardemente por um de seus ajudantes, Tom Chaney (Josh Brolin) e deseja fazer justiça, por mais difícil que seja sua missão. Para isso ela contrata Rooster Cogburn(Jeff Bridges), um caçador de recompensas velho, beberrão e mal humorado. A contragosto de Cogburn, Mattie o acompanha na busca do bandido, apesar de ter apenas 14 anos; a eles se junta LaBoeuf (Matt Damon), um patrulheiro texano que também tem bons motivos para perseguir Chaney. Não surpreendentemente, o trio vai criando afeto aos poucos e acabam se dando bem, unidos na árdua tarefa. Também não surpreendentemente, este é um filmaço. Por ser a segunda versão de um filme tão bem sucedido como foi o de 1969 e ter à frente os talentosos Coen, criou-se uma expectativa imensa e ninguém saiu decepcionado. O elenco é ótimo, o modo como é mostrada a dura realidade do velho Oeste é incrível e o desfecho (que aliás é diferente do filme de 69) é digno de aplausos.
Nota: 9,0/ 10

2. Amor sem escalas
 (Up in the air, 2009)
Ryan (George Clooney) é um profissional de uma empresa que é contratada por outras empresas para demitir seus empregados. Todos os dias ele fica de frente a dezenas de pessoas que nunca viu na vida e diz "seus serviços não são mais necessários". E de um trabalho para outro, Ryan viaja de avião, seu maior prazer. A cada ano ele passa quase trezentos dias fora de casa - aliás, onde é realmente sua casa? Para ele, seu lar são os aeroportos, as salas de espera, as confortáveis poltronas executivas da American Airlines. Tudo na vida de Ryan é emprego, voo, e a meta de acumular dez milhões de milhas aéreas. Para mudar isso, surge o casamento de sua irmã caçula, uma nova colega de trabalho que tem ideias que podem mudar radicalmente seu estilo de vida e uma misteriosa mulher que parece ser sua versão feminina. Uma ótima reflexão sobre a vida que cada um quer levar e sobre a crise econômica de 2008/09.
Nota: 10

3. Beleza Americana
 (American Beauty, 1999)
Um verdadeiro tapa na cara da classe média americana. Lester Burnhan (Kevin Spacey), o protagonista, é um pai de família cansado e entediado na monótona vida de típico trabalhador, com um emprego medíocre e muitas frustrações na vida profissional e pessoal. É casado com a famigerada Carolyn (Annette Bening), uma corretora de imóveis ambiciosa que se esforça para manter as aparências de família feliz, apesar do casamento desgastado, e sufoca a filha adolescente Jane (Thora Birch) com exigências, na tentativa de transformá-la numa garota prodígio. A história pega impulso com o surgimento de Angela (Mena Suvari), colega de Jane, por quem Lester se apaixona no auge de sua crise de meia-idade. A partir daí, a relação da família Burnhan com Angela, com os vizinhos Fitts e consigo mesma se torna uma sátira sobre beleza e satisfação pessoal, apunhalando sem piedade o desgastado sonho americano. O filme é cínico, dinâmico, provocante e envolvente. Merecidamente vencedor de cinco Oscar, incluindo melhor filme, diretor e ator (Spacey).
Nota: 10

4. A Época da Inocência
 (The Age of Innocence, 1993)
Maiores desafios mostram maiores talentos. No cinema não é diferente; filmes complexos ou que precisam de maior cuidado, quando bem feitos, revelam o talento de seu diretor. A Época da Inocência é um exemplo, no caso mais um exemplo, da competência de Martin Scorsese. Fazer um filme de época sem que tudo pareça um baile de fantasias é tarefa árdua, e Scorsese não desapontou. A trama ambientada na aristocracia novaiorquina do século 19 acompanha o jovem casal Newland Archer (Daniel Day-Lewis) e May Welland (Winona Ryder), apaixonados e de casamento marcado. O surgimento da condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), recentemente divorciada de um nobre europeu balança os sentimentos de Newland, que fica dividido entre a noiva angelical e a condessa sedutora. O fato de ser um amor impossível só aumenta o desejo do jovem. As angústias de Newland e Ellen são mostradas através do domínio de câmera que é velho conhecido dos fãs de Scorsese, que também retrata os costumes, vícios e esqueletos no armário de uma sociedade moralista que também tem seu teto de vidro.
Nota: 9,0/ 10

5. Psicose (Psycho, 1960)
Quando Marion Craine (Janet Leigh) rouba uma fortuna de seu patrão e foge em direção à Califórnia, não poderia imaginar o peso de seus atos ao seu futuro - ou o efeito de tal ação ao cinema mundial. Mesmo com um orçamento limitado e diversas adversidades, Alfred Hitchcock conseguiu fazer de Psicose seu mais bem sucedido filme, chocando plateias onde era exibido ao mostrar uma violência praticamente inédita e os lobos em peles de cordeiro que estão em todo lugar. A parada de Marion num motel de beira de estrada, seu breve contato com o dono do lugar, Norman Bates e seu repentino e sangrento assassinato inauguraram uma nova era no terror, mostrando o homem tão cruel quanto qualquer fera sobrenatural.
Nota: 10
 
Luís F. Passos

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Filmes pro final de semana - 21/08

1. Sergio (2020)

Produzido e estrelado por Wagner Moura, esse original da Netflix mostra parte da carreira do diplomata Sergio Vieira de Mello (Moura), Alto Comissário de Direitos Humanos que vai para Bagdá na Guerra do Iraque para coordenar a equipe que planejava a reconstrução e redemocratização do país. Vítima fatal de um atentado à bomba, Sergio tinha uma carreira brilhante e altas chances de ser o próximo Secretário-Geral das Nações Unidas. O filme mostra sua permanência no Iraque e momentos importantes de sua carreira, como a atuação na independência do Timor Leste, além de detalhes de sua vida pessoal - a distante relação com os filhos e o namoro com a colega da ONU Carolina Larriera (Ana de Armas), que após sua morte foi reconhecida como sua esposa. Pouco documental e emocionante na medida certa, o filme tem um ótimo elenco, capitaneado pelo sempre excelente Wagner Moura.
Nota: 8,0/ 10
2. Brooklyn (2015)
Essa carismática comédia romântica é centrada em Ellis (Saoirse Ronan), uma jovem irlandesa que deixa sua terra natal porque sonhava com algo diferente de casar e ser dona de casa - destino de todas as moças de sua cidade. Ela então se muda para os Estados Unidos e vai morar no Brooklyn, onde arruma emprego e começa a conhecer novas pessoas. Quando conhece o simpático e divertido bombeiro Tony (Emory Cohen), descente de italianos, Ellis acredita ter conhecido o amor de sua vida e que todo seu futuro está definido, mas acontecimentos na Irlanda põem a garota numa encruzilhada para decidir entre o amor e o dever familiar.
Nota: 8,0/ 10
3. Tim Maia (2014)
A cinebiografia do genial e autodestrutivo cantor brasileiro é baseado em livro do crítico Nelson Motta. Vemos a infância pobre, o início da carreira na adolescência (tendo Robson Nunes como intérprete)- ao lado de Roberto Carlos, que seguiu caminhos diferentes - , a ida aos Estados Unidos e o retorno ao Brasil (já interpretado por Babu Santana) trazendo uma imensa influência do soul e do funk. Ótimo compositor e extraordinário cantor, Tim Maia surfou em ondas de sucesso que quebravam devido à sua personalidade forte e pavio curto, além de acontecimentos bizarros como sua participação na seita da Cultura Racional, que rendeu três discos com letras estranhas mas com melodias e arranjos sensacionais. Apesar das críticas negativas de familiares e amigos, que apontaram algumas incoerências no longa, o filme tem seus méritos e merece ser assistido.
Nota: 8,5/ 10 
4. A lista de Schindler (Schindler's list, 1993)
Talvez seja o mais aclamado filme de Steven Spielberg, e é um dos que mais gosto (meu preferido dele é A cor púrpura). Quase todo mundo já viu, e quem não viu deve ver. Baseado na história real do empresário alemão que salvou milhares de vidas, A lista de Schindler é um filme que emociona sem ser apelativo. Mostra como Schindler (Liam Neeson), um industrial que empregava judeus de um gueto, consegue se esquivar da máquina mortífera da SS e livrar os moradores do gueto de serem enviados a Auschwitz, onde a morte era quase inevitável. O filme traz cenas inesquecíveis como a do oficial psicopata Amön Goth (Ralph Fiennes) praticando tiro ao alvo em pessoas e a marcha dos judeus saindo do gueto, com uma pequena garota vestida de vermelho (único elemento colorido do filme, que é em preto e branco) andando à frente.
Nota: 10
5. Ladrão de casaca (To Catch a Thief, 1955)
Um dos filmes mais elegantes de Alfred Hitchcock traz Cary Grant como o bon vivant John Robie, ex-ladrão de joias conhecido como Gato, devido a suas habilidades em invadir apartamentos e fugir por telhados. O bonitão corre o risco de ser preso quando começa uma onda de roubos de joias na Riviera Francesa, já que o estilo dos crimes é idêntico ao seu. Para provar sua inocência ele tenta seguir o rastro dos crimes, contando com a ajuda da charmosa e mimada Frances Stevens (Grace Kelly), filha de uma milionária que é um alvo em potencial do novo Gato. Charmoso e intenso, este é mais um bom representante da obra do Mestre do suspense.
Nota: 9,5/ 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Filmes pro final de semana - 14/08

1. O Impossível (Lo impossible, 2012)
Baseado em fatos reais e com um imenso apelo emocional, O impossível acompanha uma família que estava passando férias na Tailândia quando o país foi atingindo por tsunami no fim de 2004. O casal Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) é separado: ela vai para um lado com o filho mais velho, enquanto ele está com os dois mais novos. Gravemente feridos, famintos e desidratados, eles vagam por um país destruído, repleto de ruínas e amontoados de corpos. O filme relembra uma tragédia que marcou não apenas seus sobreviventes, mas todo o mundo que assistiu perplexo à destruição causada pela força da natureza. Eu já disse que é emocionante? É muito. Muito. Naomi Watts faz aqui seu melhor trabalho, numa atuação antológica que injustamente perdeu o Oscar para Jennifer Lawrence - apenas verdades.
Nota: 8,0/ 10
2. As vantagens de ser invisível (The perks of being a wallflower, 2012)
Esse filme é um presente do circuito independente ou semi-independente para o mundo. Baseado num livro homônimo escrito pelo diretor e roteirista do filme, Stephen Chbosky, o longa é centrado em Charlie (Logan Lerman), um adolescente solitário  de 16 anos que está entrando no ensino médio, tentando lidar com a pressão típica da fase ao mesmo tempo em que é assombrado por terríveis traumas do passado, que aos poucos são revelados. A solidão de Charlie diminui quando ele conhece os irmãos Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), ambos veteranos prestes a concluir o ensino médio. Patrick é muito extrovertido e descolado, meio porra-louca; Sam, a bela colegial, é gentil e simpática, cheia de vida - e logo percebe-se que Charlie se apaixona por ela. Através dos dois, que se tornam seus melhores amigos, o protagonista conhece gente nova, novos ambientes, novas experiências, ganhando um sopro de vida em seu cotidiano mórbido. Mas nem tudo são flores, e aos poucos as fragilidades, medos, inseguranças e segredos dos outros também vêm à tona, e vemos que Charlie não é o único perdido e em busca de formar uma identidade pessoal - um dos temas centrais deste emocionante, carismático e incrível filme.
Nota: 10
3. O Vencedor (The fighter, 2010)
Micky Ward (Mark Wahlberg) é um lutador muito esforçado, que tem como exemplo e treinador seu irmão mais velho, Dicky Eklund (Christian Bale). Dicky é um ex-lutador de boxe profissional, atualmente no fundo do poço devido ao seu vício em crack, que é tido como  herói de sua cidade por ter vencido uma luta importante anos atrás. O problema é que Dicky é tão desequilibrado e inconsequente que acaba puxando pra baixo a carreira de seu irmão. As outras duas figuras chave na vida de Micky são sua mãe possessiva Alice (Melissa Leo) e sua namorada Charlene (Amy Adams), que vê a família de Micky como um grande empecilho para seu sucesso. O pior é que Charlene tem uma certa razão, e ao perceber isso o lutador se afasta um pouco da mãe, do irmão e das sete irmãs barangas decidido a impulsionar sua carreira; aos poucos, Dicky também percebe o mar de lama em que está mergulhado e decide que precisa mudar sua vida. Nessa muito bem elaborada trama familiar, três atuações se destacam: as de Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams, sendo as duas primeiras vencedoras do Oscar de ator e atriz coadjuvante, respectivamente. Mais uma vitória desse filme sobre fracassados.
Nota: 9,0/ 10
4. Babel (2006)
Qual a relação existente entre crianças numa aldeia remota no Marrocos, um casal de turistas americanos, uma menina deficiente auditiva japonesa e uma mexicana que trabalha nos Estados Unidos? A bem amarrada série de tramas que é Babel vai mostrar isso. A partir de um infeliz acidente nas montanhas marroquinas, onde um tiro de rifle atinge uma americana que viajava num ônibus, tem início uma crise diplomática entre o Marrocos e os Estados Unidos, que acreditam se tratar de um atentado terrorista. Por outro lado, a investigação vai buscar a origem de tal rifle, que remonta ao Japão; da mesma forma, na América, a família da mulher ferida, cuja babá é mexicana, também será atingida, numa mal aventurada breve viagem ao México. Direção de Alejandro González Iñarritu e participação de grande elenco.
Nota: 9,0/ 10
5. Ghost - do outro lado da vida (Ghost, 1990)
A estória todo mundo conhece: Sam (Patrick Swayze) é noivo de Molly (Demi Moore) e é vítima fatal de um assalto, mas depois de morto recusa-se a deixar o plano terreno e a sua amada. Acompanhando Molly, ele descobre que sua morte não fora um crime ao acaso e que os responsáveis agora são uma ameaça à sua viúva. Ele, então, procura ajuda da médium Oda Mae Brown (Whoopi Goldberg), uma vigarista que acreditava não ter poderes paranormais, mas que os descobre com a presença de Sam. Esse clássico da Sessão da Tarde sobre um amor tão grande que nem a morte foi capaz de separar é piegas e tem lugar cativo no coração de quem se emocionou ao som de Unchained melody (oooh my love, my darling...) e vendo as cenas ora comoventes, ora engraçadas - créditos para a personagem de Whoopi Goldberg, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo hilário papel de Oda Mae.
Nota: 10


Luís F. Passos

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Filmes pro final de semana - 07/08

1. Oito mulheres e um segredo (Oceans'8, 2018)
Spin-off da aclamada trilogia Ocean's - no Brasil, 11 homens e um segredo e aí por diante -, liderada por George Clooney, o filme traz Sandra Bullock no papel de irmã do personagem de Clooney. Debbie Ocean (Bullock) sai da cadeia e encontra sua parceira de longa data, Lou (Cate Blanchett), e as duas começam a acertar os detalhes de um plano que Debbie elaborou durante os anos em que ficou presa: o roubo de um lendário colar de diamantes que vale centenas de milhões de dólares. Para isso, montam um grupo que envolve uma hacker (Rihanna), uma estilista falida (Helena Bonham Carter), uma ladra profissional (Awkwafina), uma fabricante de joias (Mindy Kaling) e uma contrabandista (Sarah Paulson). Mirando a atriz Daphne Kugler (Anne Hathaway), que usará o colar num jantar de gala, a quadrilha liderada por Debbie nos dá um filme que não é apenas uma versão feminina da trilogia protagonizada por George Clooney, apesar de usar e abusar da mesma fórmula. Ser mulher faz parte do plano: "Se for ELE, é notado. Se for ELA, é ignorada. E pela primeira vez, queremos ser ignoradas", diz Debbie às suas companheiras.
Nota: 8,0/ 10
2. O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017)
Um filme que traz a assinatura de Sofia Coppola a cada cena - assim, podemos resumir a essência de O estranho que nós amamos, o que é suficiente para dar motivo para este longa ser visto, considerando a sólida obra que a diretora produziu nos últimos vinte e poucos anos. Ambientado no estado da Virgínia em plena  Guerra Civil, o filme se passa num casarão onde funciona uma escola para moças, dirigida por Martha Farnsworth (Nicole Kidman); as outras ocupantes da escola são a professora Edwina (Kirsten Dunst) e cinco alunas de diferentes idades. A tediosa rotina da escola muda quando um soldado ianque (Colin Farrell) é encontrado nas proximidades da propriedade gravemente ferido e é acolhido pelas sete mulheres. A intenção inicial é salvar o militar para entregá-lo às tropas sulistas assim que ele estivesse recuperado, mas com o passar do tempo surgem desejos e interesses pelo estranho - uns inocentes, outros nem tanto. Num clima introspectivo, sóbrio e repressivo, Sofia Coppola conduz uma parábola sobre desejo e manipulação, demonstrando talento de sobra na direção - trabalho reconhecido com o Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes.
Nota: 9,5/ 10
3. Spotlight - segredos revelados (Spotlight, 2015)
O ano é 2001 e o jornal The Boston Globe tem um novo editor-chefe, Marty Baron (Liev Schreiber). Logo em seus primeiros dias após assumir o comando do jornal, Baron se interessa por uma coluna assinada pelo excêntrico advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci), a qual dizia que o arcebispo de Boston tinha conhecimento de casos de abuso sexual praticados por padres e não fazia nada a respeito - apenas mudava os padres de paróquias. Baron convoca a equipe Spotlight, especializada em jornalismo investigativo, para assumir o tema. Liderados por Walter Robinson (Michael Keaton), os jornalistas da Spotlight enfrentam a difícil tarefa de encontrar vítimas e extrair depoimentos, e o desafio ainda maior de ter conseguir provas contra membros da poderosa e influente Igreja Católica de Boston. Neste filme intenso e despretensioso, o espectador é colocado dentro da redação do jornal, nos bastidores da notícia, presenciando o difícil e minucioso trabalho do jornalismo investigativo - trazendo à lembrança filmes como o maravilhoso Todos os homens do presidente, de 1976. Spotlight venceu os Oscar de melhor filme e melhor roteiro original.
Nota: 9,5/ 10
4. Quincas Berro d'Água (2010)
Quando Quincas Berro d'Água (Paulo José), o rei dos vagabundos da Bahia, foi encontrado morto no dia do próprio aniversário, uma nuvem de tristeza pairou sobre o Pelourinho e pelos cais de Salvador. Sendo muito bem quisto pelos bêbados, prostitutas, pescadores e jogadores, sua morte pôs de luto todos os marginalizados e personagens da noite que o conheciam. A notícia da partida de Quincas promove o inusitado encontro dos dois lados de sua vida: seus amigos pobres e boêmios, que dividiram com ele os últimos anos, e a família de classe média que ele largou por não suportar mais a pacata e hipócrita vida de funcionário público e cidadão exemplar. Depois de os amigos vagabundos conseguirem se livrar dos familiares do defunto, uma série de fatos estranhos os faz acreditar que Quincas estava vivo e pregando uma peça neles. A turma então percorre as vielas e becos, por bares, terreiros de candomblé e prostíbulos, fazendo algazarra enquanto os parentes e a polícia tentam encontrá-los e sua filha Vanda (Mariana Ximenes) mergulha em lembranças da infância com o pai exemplar e sua posterior transformação em pária da família. Baseado numa das mais conhecidas novelas de Jorge Amado, o filme é fiel à obra ao retratar tão bem arquétipos da noite e dos problemas sociais da Bahia.
Nota: 9,0/ 10
5. O segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos, 2009)
Argentina, 2009. Benjamín Esposito (Ricardo Darín) é um oficial de justiça (meio delegado, meio investigador) recém aposentado que decide ocupar o tempo livre escrevendo um livro a partir das memórias de um caso marcante que ele investigara vinte e cinco anos antes. Era 1974 e a Argentina vivia sob um governo ditatorial, uma época de bastante violência, não apenas relacionada à política. O departamento de Esposito recebeu a missão de investigar o estupro seguido de morte de uma jovem; um crime bárbaro que ganhou repercussão. Durante a investigação ele conhece o marido da vítima, Ricardo (Pablo Rago), por quem desperta empatia e passa a ter uma relação cordial, chegando a prometer encontrar o culpado. A difícil missão de Esposito conta com a ajuda de seu parceiro alcoólatra Pablo Sandoval (Guillhermo Francella) e de Irene Hastings (Soledad Villamil), sua chefe imediata - por quem Esposito nutre uma paixão secreta. O filme tem o mérito de unir investigação policial, romance e análise histórica numa história muito intensa e envolvente, vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio Goya.
Nota: 10


Luís F. Passos

terça-feira, 12 de maio de 2020

Crepúsculo dos deuses - Billy Wilder, 1950

Um dos temas preferidos de Hollywood é falar sobre si, sobre o processo criativo e os bastidores da indústria do cinema. É um tópico bastante recorrente desde a chamada época de ouro do cinema clássico até os filmes contemporâneos. Um dos filmes que mais se aprofunda nos aspectos psicológicos envolvidos com a fama e a idolatria que cerca as grandes estrelas é Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950), clássico indispensável para qualquer amante de cinema.
O filme traz o relacionamento complexo entre um jovem e falido roteirista chamado Joe (Willian Holden) e uma antiga estrela do cinema chamada Norma Desmond (Gloria Swanson). Os dois se conhecem por um acaso quando ele acaba escondendo na mansão da atriz enquanto fugia de funcionários do banco que lhe perseguiam para tomar seu carro por falta de pagamento. Na interação entre os dois, parece se formar uma relação bem simples e até vantajosa para Joe. Em troca de um abrigo (quase um esconderijo) e um bom salário, Joe trabalharia junto com Norma fazendo revisões em um roteiro escrito pela atriz como sua tentativa de voltar ao estrelato.
Temos aqui duas figuras vivendo momentos completamente diferentes em suas vidas, mas ambos no limite. Joe é jovem, mas a situação financeira que ele vive é tão séria que não parece haver grandes opções para ele que não voltar para sua cidade natal e desistir do sonho de uma carreira dentro do cinema. Esta é uma das faces de Hollywood que o filme traz: a difícil jornada para o estrelato. Apesar da grande propaganda de terra de oportunidades, fazer uma carreira dentro do cinema é extremamente difícil. Mesmo que tenha tido um aparente bom começo, Joe encontra-se desempregado e num difícil processo artístico, visto que não consegue encontrar o balanço entre tornar sua arte relevante e ao mesmo tempo comercial. A mesma cidade que se maquia de cidade dos sonhos é bastante cruel com sonhadores. Joe é, então, um homem cínico e cético que não tem muito a perder – e quem não tem nada a perder está disposto a muitas coisas.
Norma Desmond não é uma atriz qualquer, mas sim uma das maiores estrelas do cinema mudo. A maior de todas (como gosta de frisar), mas seus dias de glória há muito ficaram para trás com a mudança na maneira de fazer cinema que veio com o advento da fala e com a extinção do cinema mudo. A mesma indústria que alimentava o ego de suas estrelas, e que as elevava ao status de deuses, simplesmente virou as costas para eles, jogando-os ao esquecimento e a lembranças e ilusões de um passado glorioso e distante. A maneira como o estrelato e a exclusão são capazes de perverter a mente humana é o grande foco do filme. Norma é completamente desconectada com a realidade, agarrada fielmente a um passado que não vai voltar e a crenças cegas de que o público e a indústria não a descartaram. Sua negação é tão grande que ela demonstra profundo desprezo pelo cinema falado, quase como se esta fosse uma forma inferior de arte e como se a culpa pelo seu sofrimento fosse o áudio e não as pessoas que se aproveitaram de sua imagem. Em suas próprias palavras: eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos. A maneira como ela se agarra à grandiosidade é digna de pena (inclusive por parte de Joe) e reverbera na manutenção de hábitos do passado, em relações pontuais com antigos amigos também envolvidos no cinema mudo e no apego a bens materiais decadentes, mas com toda a extravagância digna de Gatsby e dos anos 20. Quando a realidade torna-se inevitável, Norma demonstra toda sua fragilidade emocional e deixa à mostra grande tristeza e vulnerabilidade.
Outro aspecto que o filme aborda de maneira bem pertinente é o processo de envelhecimento diante das telas e de como isso é um problema para as atrizes. ATRIZES, não atores. Quando acredita que seu projeto realmente vai sair do papel, Norma entra em um processo obsessivo de “embelezamento”, se submetendo a diversos e desconfortáveis tipos de tratamento para tentar aparentar ser mais jovem. Esse é um problema que atrizes vivenciam até hoje. É muito comum que atrizes tenham seus anos mais prolíficos no cinema em torno de seus 20 a 30 anos de idade e que a partir de certa idade o número de ofertas de papéis interessantes diminui consideravelmente, além de muitas acabarem sendo encaixadas em personagens engessados ou figuras específicas como a mãe, a esposa ou a professora. Mesmo hoje, poucas atrizes conseguem quebrar com frequência os estereótipos que vêm com a idade, o que não se vê na mesma intensidade com os homens. Em certo momento, Joe critica – e até ridiculariza – Norma pelo seu desespero em tentar parecer uma mulher de 25 anos, mas não parece se atentar muito à origem do problema, o que também é algo que fazemos com frequência nos dias de hoje, com uma mídia focada em apontar “falhas” e criticar a aparência de atrizes e de mulheres em evidência no geral.
Em um toque de genialidade na escolha do elenco, Gloria Swanson vive Norma. É genial, pois no sentido mais íntimo da questão Gloria e Norma são até certo ponto a mesma pessoa, visto que a atriz Gloria Swanson, assim como a personagem Norma Desmond, foi uma atriz de reconhecimento gigante no cinema mudo que teve sua carreira arrasada pelo envelhecimento e pelo crescimento do cinema falado.
Crepúsculo dos deuses vai fundo na ferida e critica a maneira hollywoodiana de tratar pessoas como bens materiais descartáveis de uma forma que o torna relevante mesmo hoje, 70 anos após seu lançamento. É um dos melhores filmes do Billy Wilder (isso não é pouca coisa) e um dos melhores clássicos do cinema estadunidense.

Nota: 10

Lucas Moura

Leia também:

sexta-feira, 13 de março de 2020

Filmes pro final de semana - 13/03

1. Jojo Rabbit (2019)
Um dos destaques do Oscar deste ano, Jojo Rabbit é uma deliciosa comédia nada convencional centrada no garoto Johannes, conhecido como Jojo (Roman Griffin), um alemão entusiasta do nazismo que tem como amigo imaginário o próprio führer (Taika Waititi). O ponto de partida do filme é a entrada de Jojo na Juventude Hitlerista, comandada por um capitão doido de pedra que fora tirado da linha de frente por perder um olho após ser ferido. Logo no primeiro dia Jojo ganha o apelido de Jojo Rabbit por não conseguir estrangular um coelho. Depois de ser envergonhado pelos colegas, ele tenta demonstrar bravura explodindo uma granada, mas acaba ferido e ganha algumas cicatrizes no rosto e uma lesão na perna que o deixa mancando. Depois da recuperação, obrigado a passar mais tempo em casa, Jojo descobre que sua mãe (Scarlett Johansson) escondia uma menina judia (Thomasin McKenzie) no sótão, e sem a mãe saber, inicia uma estranha amizade com ela. O ódio que foi ensinado a ter e os mitos absurdos sobre judeus (chifres escondidos, beber sangue, devorar bebês" vão dando lugar a um carinho fraterno. Filme sensacional, uma sátira que oscila entre comédia caótica e drama. 
Nota: 10
2. O Lobo atrás da porta (2013)
 O desaparecimento de uma menina na escola é o pontapé inicial para uma trama que quanto mais avança, mais fica sombria. Na sala de um desbocado delegado (Juliano Cazarré), uma mãe desesperada (Fabiula Nascimento) chora até a chegada de seu marido Bernardo (Milhem Cortaz), que ao ouvir o depoimento da professora de sua filha dá as primeiras pistas ao suspeitar do envolvimento de sua ex-amante, Rosa (Leandra Leal), no sumiço da filha. Através de depoimentos e flashblacks é montado o quebra cabeça do caso que Bernardo  e Rosa mantiveram, e a personalidade forte e misteriosa dela, que se manifesta através de olhar decidido e fala mansa, mas sabendo bem seduzir e dominar. Tenso e um pouco aflitivo graças ao trabalho de direção, o filme é abrilhantado pelo ótimo trabalho de seu elenco, em especial de Leandra Leal, vencedora do Prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio.
Nota: 9,0/ 10
3. Ray (2004)
Estrelado pelo brilhante Jamie Foxx, o filme mostra boa parte da vida do super astro Ray Charles, desde a infância pobre até o estrelato absoluto. Nascido na Geórgia e criado no interior da Flórida em meio à pobreza e racismo, Ray ficou cego aos sete anos. Sua mãe Aretha o ensinou a ser forte e nunca ser um pobre coitado. A voz e o talento no piano o levaram longe - inicialmente tocando em bares, depois saindo em turnês simples, até ser descoberto por uma gravadora. Em meio à ascensão, memórias perturbadoras de um trauma que choca ao ser revelado - trauma que leva ao caminho do vício em heroína, que marcou a vida do artista. Um filme muito bem construído, no ritmo de um gênio que revolucionou a música, e carregado pelo talento imenso de Jamie Foxx, cuja atuação memorável foi vencedora do Oscar.
Nota: 9,0/ 10
4. Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995)
Esse é um filme imperdível - afinal, foi-se o tempo em que Nicolas Cage fazia ótimos trabalhos. Vivendo o alcoólatra Ben Sanderson, Cage mostra a que ponto um homem pode chegar por causa do alcoolismo: viver na solidão, perder o emprego, e quando a esperança de dias melhores parece acabar, resolve ir a Las Vegas para beber até morrer. Simples, trágico e chocante. Em Las Vegas, Ben conhece a prostituta Sera (Elizabeth Shue), com quem inicia um estranho relacionamento baseado num acordo: ela não reclamaria da bebida e ele não reclamaria da profissão dela. O problema é que mesmo que Ben tente sair de seu deplorável estado, ele já parece irreversível.
Nota: 9,5/ 10
5. O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940)
Um barbeiro judeu (Charles Chaplin) ferido na I Guerra passa quase vinte anos numa clínica de repouso após perder a memória. Ao sair ele encontra seu país, Tomânia, dominado pelo ditador Adenoid Hynkel (também Chaplin), que havia instituído a perseguição aos judeus como uma das principais políticas de Estado. O antigo bairro do barbeiro se tornou um gueto judeu, onde membros do exército e da SS vivem agredindo os moradores. Do outro lado da estória está Hynkel, ditador perverso e ao mesmo tempo bastante caricato - sua grande vaidade o torna ridículo, além do fato de ser muito desastrado. Associando cenas do mais puro humor pastelão à delicada questão do holocausto, Charles Chaplin cria uma de suas melhores obras-primas.
Nota: 10

Luís F. Passos

domingo, 31 de dezembro de 2017

Sobre 2017, seus altos e baixos e alguns filmes

Vou começar este texto de fim de ano com sinceridade: eu não sei sobre o que escrever. Não assisti a Retrospectiva 2017 da Globo, minha memória anda ruim, então eu espero que à medida em que escrevo, vá lembrando de coisas importantes desse ano de muitas emoções. Muitas. De todos os tipos.
Conforme esperado, a crise político-financeira de nosso País piorou. Piorou muito. Maldito seja Tiririca e seu "pior do que tá não fica". O que já era errado ficou nojento de tão escancarado, explícito e sem vergonha nenhuma. Assistimos perplexos à delação dos Irmãosley - Wesley e Joesley - Batista, mostrando até onde chegava a corrupção do governo Temer e de seus principais aliados. Malas de dinheiro destinadas ao mais alto escalão do executivo, do legislativo e a crápulas já presos, como o embuste-mor da República, Eduardo Cunha, que estaria recebendo milhões da JBS para manter a boca fechada e não delatar o ninho de cobras de Brasília. Enquanto o povo esperava que alguém voasse, a única coisa que voou foi o dinheiro público, já que centenas de deputados foram comprados duas vezes para impedir a autorização da investigação do presidente e de alguns de seus ministros pelo Supremo Tribunal Federal. Relembrando áudios de Sérgio Machado gravados no ano passado, onde ele dizia que "o primeiro a ser comido" seria Aécio Neves, não foi bem assim que a coisa aconteceu. O senador, gravado pedindo 2 milhões de reais e afirmando que quem deveria buscar o dinheiro era alguém que fosse morto antes de fazer delação, teve o mandato suspenso mas foi posteriormente absolvido por seus pares do Senado.
Aproveitando o tema STF... quanta decepção. Claro que a gente só podia lembrar do "grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo" ao ver ministros da suprema corte livrando tão facilmente algumas das piores caras de nossa política. Merece destaque aquele que teve tantos jantares particulares com Temer, que recentemente soltou ex-governadores do RJ e que levou um belo chega-pra-lá do ministro Barroso, que categoricamente afirmou que seu colega tem "parceria com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco". Além disso, o Supremo fez o favor de liberar ensino religioso no Brasil, e de uma forma que não garante que várias religiões sejam debatidas, como seria mais correto; podemos afirmar que será uma imposição de cristianismo. Vá embora de vez, estado laico.
Pois é, gente. Apanhamos, e a porrada veio de todos os lados. Corrupção, piora dos serviços públicos, aumento abusivo de impostos, enquanto isenções eram concedidas a grandes empresas - o que falar de 1 trilhão em isenção ao longo de 25 anos pras exploradoras do pré-sal? Ao mesmo tempo, o gás de cozinha ficou cada vez mais caro, prejudicando principalmente os mais pobres. Que seja lembrado o caso de um senhor em Pernambuco que comprou um botijão em um vendedor clandestino para não pagar tão caro, mas houve um vazamento seguido de explosão que matou três pessoas e feriu os demais moradores na residência. Reflexos do golpe de 2016. Afinal, não foi um golpe só contra Dilma, mas contra os pobres, os trabalhadores, os negros, as mulheres e os LGBT.
E num ano com tantos desafios, cada oportunidade de rir era aproveitada. Deus abençoe o menino que gerou o meme do "caindo ao som de sweet dreams", um dos melhores dos últimos anos, e a dona e proprietária da internet, Gretchen, que zerou a rede ao estrelar um clipe de Katy Perry (que é muito melhor que o clipe oficial. Amém). E por falar em música, teve Anitta e Pabllo Vittar pra mostrar porque se deve lutar por representatividade - algumas vitórias contra o conservadorismo, né? E por falar em luta, nossos aplausos e nosso respeito às mulheres que denunciaram assédio e abuso na indústria de Hollywood e também na televisão brasileira. Respeita as mina!
Pra encerrar, meu maior conselho pra 2018: se cuidem, galera. Do corpo e da mente. Em um ano de tantas histórias tristes envolvendo saúde mental e desfechos trágicos como suicídio, a minha mensagem é um pedido pra que vocês não deixem passar suas próprias necessidades por priorizarem outras coisas como estudos, trabalho ou algum problema. São importantes? Claro que sim. Mas nada é mais importante que cuidar de si mesmo, e depois disso, cuidar das pessoas que nos cercam. Pessoalmente falando, esse foi um ano realmente cheio de altos e baixos,e com uns baixos que me fizeram tremer. Talvez eu tenha passado pelo pior momento de minha vida, mas com tempo, fé e pessoas queridas, a vida segue em frente. E alegria nesse ano também não faltou. FORMEI, GENTE! Depois de seis anos de faculdade (e desse querido blog que me deu uma baita ajuda nesse tempo), sou médico. Muita coisa boa aconteceu na contagem regressiva pro final do curso, muitas festas, lágrimas de alegria, e a formatura foi uma semana positivamente inesquecível.
Talvez este seja o último post de nosso blog. Ou não, mas sei que ficarei um bom tempo sem escrever por aqui. Então me despeço agradecendo a companhia ao longo dos últimos seis anos neste projeto que muitas vezes me fez esquecer problemas, além de tirar minha cabeça das obrigações cotidianas e me distrair ao escrever sobre cinema, literatura, música e algumas besteiras. Um 2018 de muita paz, saúde e realizações pra todos.
E pra não perder a prática, a recomendação de cinco filmes pra ver no fim de semana, no meio da semana, em qualquer hora. Filmes excelentes que o Sagaranando aprova, recomenda e assina embaixo.


1. Que horas ela volta? (2015)
A história é centrada em Val (Regina Casé), empregada doméstica numa casa de classe média alta em São Paulo que há mais de dez anos deixou sua família em Pernambuco em busca de trabalho que lhe permitisse dar melhores condições ao futuro de sua filha. Val praticamente criou Fabinho (Michel Joesas), filho de seus patrões, que nunca tinham tempo para o menino. Quando a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), chega em São Paulo para fazer o vestibular e fica na casa da família rica, acaba o sossego de Val e da patroa. O interesse que ela desperta nos homens da casa e a insubordinação diante da mãe, que considera uma estranha, cria uma tensão que perdura por boa parte do filme, que trata de maneira brilhante de temas como migração motivada por pobreza, relações familiares e a íntima e complexa relação entre patrões e empregados domésticos (mostrando que casa grande e senzala ainda perduram no País).
Nota: 10
2. O Escafandro e a Borboleta (Le scaphandre et le pappillon, 2007)
Uma nova definição de filme lindo. Sensibilidade é a palavra chave da história de Dominique Bauby (Mathieu Amaric), que depois de sofrer um derrame é vitimado pela raríssima síndrome do encarceramento, em que todo o seu corpo fica paralisado, exceto os olhos - sendo que todas as faculddes mentais ficaram preservadas. Para completar, seu olho direito precisa ser ocluído para evitar um ferimento na córnea, e ele fica dependente apenas do esquerdo. Com a ajuda de uma fonoaudióloga, Dominique aprende a se comunicar através de um sistema lento, mas eficiente, a partir do piscar de seu olho. Através da narração de Dominique, vemos como foi sua vida, os diversos erros que ele cometeu com seus entes queridos, a rua relação com seu pai e seus filhos, a amante que nunca o visitou depois da doença e a sua obstinação em compor um livro que se tornaria best-seller. Baseado em fatos reais.
Nota: 10
3. A vida dos outros (Das Leven der Anderen, 2006)
Pense duas vezes antes de dizer que o cinema não é mais o mesmo e que já não se produzem inesquecíveis obras-primas. A vida dos outros tá aí pra provar que o cinema de alta qualidade ainda resiste. Com roteiro e direção de Florian Henckel von Donnersmarck, um desconhecido até então, o filme é ambientado nos anos 80 na Alemanha Oriental, onde a Stasi, uma das mais controladoras polícias secretas da Cortina de ferro tocava o terror numa época em que não havia o menor indício de abertura política. O capitão da Stasi Gerd Weisler (Urich Müher) recebe a missão de espionar um dramaturgo e sua esposa, que é atriz, e se instala no mesmo prédio em que o casal mora, no andar de cima, ouvindo tudo o que se passa na casa deles. O que inicialmente era apenas uma missão e encarado com escárnio se transforma numa relação unilateral de solidariedade, levando o espião a duvidar de toda sua ética e crença no partido totalitário e questionar um estilo de vida sem liberdade e sem direito à individualidade. Em poucas palavras: um filme excepcional. Infinitos elogios ao roteiro, à direção e à atuação de Mührer, que era um experiente ator de teatro na Alemanha (inclusive fora espionado durante a Guerra Fria) e que infelizmente faleceu um ano após o lançamento do filme.
Nota: 10
4. Cabaret (1972)
Pra um público que viu o festival de alegria que é Catando na chuva na década de 50 e a fofura bonitinha demais que é Minha linda dama nos anos 60, imagine o choque ao chegar em 72 e ver Cabaret, que sai de cenários elegantes e vai para o subúrbio da Berlim dos anos 30, onde um país arrasado pela Guerra e pela Depressão era campo fértil para a disseminação das ideias totalitaristas e racistas de Hitler. Nesse rebuliço, Brian Roberts (Michael York), jovem americano, chega em Berlim para dar aulas de inglês, e logo conhece Sally Bowles (Liza Minelli), estrela do Kit Kat Club, a casa de shows mais animada da cidade. Sally é uma dançarina que sonha em ser uma grande atriz - típico, não? Mas a história do diretor Bob Fosse consegue ser surpreendentemente original, com seus ótimos números musicais que floreiam amores incompreendidos e ambição; é como diz uma das músicas: "money makes the world go round!". Cabaret também se destaca por dividir os holofotes do Oscar de seu ano com O Poderoso Chefão, faturando os prêmios de direção, atriz, ator coadjuvante (Joey Grey, mestre de cerimônias do Kit Kat e figura essencial no filme), entre outros. 
Nota: 10
5. Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960)
Lembrei desse filme incrível porque já faz um tempo que o vi e não seria nada mal revê-lo (vou seguir minha própria recomendação). Escrito e dirigido por Billy Wilder, o filme acompanha o simpático C. C. Baxter (Jack Lemmon), funcionário de uma seguradora que caiu nas graças dos chefes por emprestar a eles seu pequeno apartamento ocasionalmente, por algumas horas, para que eles se encontrassem com suas amantes. As coisas se complicam quando Baxter se apaixona por uma dessas amantes, que também era sua colega de trabalho (Shirley MacLaine), e pela primeira vez questiona sua amoralidade diante dos favores que fazia a seus superiores - devidamente recompensados com promoções. Comédia imortal vencedora de cinco Oscars, incluindo melhor filme, roteiro e direção.
Nota: 10
Luís F. Passos

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Filmes pro final de semana - 01/12

1. Um limite entre nós (Fences, 2016)
Por mais que eu não acompanhe as novidades do cinema como antes, me esforço pra ver um ou outro filme que foi destaque no Oscar. Nesse ano minha ansiedade era pra ver o filme estrelado por Viola Davis e Denzel Washinton, dois nomes que despertam e muito a atenção para qualquer longa. Viola interpreta Rose, uma dona de casa casada com o gari Troy (Washington) há dezoito anos e mãe do jovem Cory, que sonha em ser atleta, a contragosto do pai. Cory tem o mesmo talento para o beisebol que seu pai tivera na juventude, porém Troy carrega uma frustração muito grande com o esporte por não ter conseguido consolidar uma carreira devido ao racismo. Tal discordância é motivo de conflito entre pai e filho, assim como eventos corriqueiros do dia a dia são motivos para outros conflitos na família. E quando junta conflitos e atores excelentes, o resultado não podia ser outro: atuações memoráveis. O filme tem o defeito de ser lento, mas diante de um roteiro tão sólido e de interpretações fantásticas, a gente supera. Viola rainha, o resto nadinha.
Nota: 9,5/ 10
2. Moonlight: sob a luz do luar (Moonlight, 2016)
O grande vencedor do Oscar desse ano - depois daquela gafe com La La Land - merece nosso respeito. Moonlight é um filme sóbrio, denso, pesado. Acompanha três momentos da vida de Chiron, primeiro a infância (com atuação de Alex Hibbert), marcada pelo bullying, depois a adolescência (assume Ashon Sanders) repleta de bullying, problemas com a mãe viciada em crack e a questão da auto descoberta, e por fim a idade adulta (interpretada por Trevante Rhodes), quando, agora com o nome Black, ele chefia o tráfico local. O filme é muito bom, apesar de ter uns defeitos como falhas no enredo, que não é tão coeso como se espera; além disso ele peca por não se aprofundar o suficiente nas angústias de seu protagonista. Beleza, o cara é fechado, reservado, mas o filme não deve fechá-lo para o espectador. Falhas à parte, tem o mérito de tocar temas como racismo, pobreza, sexualidade e preconceitos de uma forma bem sensível, leve, sem ser superficial ou clichê.
Nota: 9,0/ 10
3. Nise: O coração da loucura (2016)
Sem dúvida um dos maiores sucessos do cinema nacional do ano passado pra cá, Nise mostra a vida profissional da psiquiatra Nise da Silveira, pioneira da reforma psiquiátrica muito antes da reforma acontecer. Nise (Glória Pires) é contratada pelo Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, onde atrocidades, então consideradas modernos tratamentos, eram cometidas, tais como eletrochoques e lobotomias. Por se opor a tais condutas, Nise é transferida para o setor de Terapia Ocupacional, onde alguns pacientes faziam trabalhos de limpeza. A médica começa um trabalho árduo utilizando pintura, outras formas de arte e também a presença de cachorros para estimular a socialização e a comunicação de seus pacientes. Os resultados são ótimos, mas ela ainda é vista com bastante preconceito por seus colegas que seguiam a psiquiatria clássica e violenta. E claro, ela precisa enfrentar o machismo, já que era a única mulher psiquiatra do hospital (e havia sido a única mulher a se formar na faculdade, ao lado de 156 homens). Filme muito bacana que trata de um tema tão importante e tão pouco debatido pelo grande público, que é a saúde mental.
Nota: 9,0/ 10
4. Dúvida (Doubt, 2008)
Nova York, 1964. Numa tradicional e rigorosa escola católica do Bronx, a diretora, irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), controla com mãos de ferro a educação de seus alunos. A escola é vinculada à igreja local, e consequentemente o pároco padre Brendan Flynn (Phillip Seymour Hoffman) também tem algum poder na administração escolar, além de dar aulas de educação física. A partir de um comentário feito pela irmã James (Amy Adams) sobre o excesso de atenção dada pelo padre ao único aluno negro da escola, Donald Miller, a irmã Aloysius começa uma verdadeira cruzada buscando a verdade por trás do padre, cujo comportamento liberal irrita a conservadora freira. Além do drama denso e muito bem elaborado, o filme é sustentado pelas excelentes atuações de seus três protagonistas, ambos os três indicados ao Oscar, e de quebra traz um fator adicional: Viola Davis, na época não muito conhecida, que aparece menos de dez minutos do filme mas é responsável por uma cena excelente junto a Meryl Streep (aliás, o trabalho de Meryl aqui é um dos que mais gosto na carreira dela) e também foi indicada a melhor atriz coadjuvante.
Nota: 8,5/ 10

5. Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, 1948)
Ô coisas lindas são esses filmes antigos restaurados. Deus abençoe as fundações e os grandes estúdios que trabalham recuperando filmes para que não se percam no tempo, como metade de todos os filmes feitos antes de 1950. O primeiro filme restaurado que assisti foi Os Sapatinhos Vermelhos, a maravilhosa história de uma garota, Victoria (Moria Shearer) que por ter parentesco com a aristocracia inglesa teve de dar duro para mostrar seu valor no ballet, em especial para o diretor Boris Lemontov (Anton Walbrook). Quando enfim consegue a atenção do brilhante e exigente diretor, ganha o papel principal no novo espetáculo do grupo, Os sapatinhos vermelhos, baseado no conto de Andersen, sobre uma garota que calça sapatilhas mágicas e dança até morrer de exaustão. Um filme sobre amor, ciúmes e dedicação extrema que é muito belo e pra mim é um dos melhores filmes de dança já feitos.
Nota: 10

Luís F. Passos