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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Sobre alguns livros em 2021


 A
qui estamos mais um dia, sob o olhar... ano pra comentar sobre os livros de que mais gostei no último ano, e também, por que não, falar um pouco sobre os últimos 365 dias que vivemos e aos quais sobrevivemos. 2021 foi intenso, foi uma verdadeira montanha russa, não foi fácil, mas foi mais um ano para ficar na memória. Começamos a nos vacinar contra a COVID-19, nos protegemos dessa praga, enquanto víamos a praga presidencial atrasar a vacinação e boicotar de tudo quando foi forma a imunização dos brasileiros contra o coronavírus. Uma CPI foi um dos maiores espetáculos do ano, enquanto eram descobertos crimes praticados pelo Governo Federal, com denúncias de tentativa de cobrança de propina na compra de vacinas de qualidade duvidosa, até hoje não aprovadas pela ANVISA. A segunda onda da pandemia foi implacável no Brasil e chegou a levar mais de três mil vidas por dia. Mortes, caos, sistema de saúde colapsado e cenas que até então eram inimagináveis, como a falta de oxigênio em Manaus e a falta de sedativos por todo o País. Enquanto isso, muito pouco foi feito em termos de isolamento social - os governos estaduais e municipais decretavam toques de recolher, enxugando gelo para evitar lockdowns - e o que nos salvou mesmo foi a vacinação, que após alguns meses avançando lentamente, conseguiu ser massiva no segundo semestre. Alívio, esperança. Fé na sobrevivência, na ciência, no SUS.
Em 2021 vi muito menos filmes do que queria, mas vi alguns ótimos, sobre os quais espero poder falar por aqui em outra ocasião. Por outro lado, consegui manter um bom ritmo de leitura, apesar do tempo escasso, muito consumido pela necessidade de estudar. Ao todo, foram treze livros concluídos e três abandonados, sendo que desejo concluí-los no próximo ano. Gostei muito dos treze, sendo um deles Sagarana, lido pela terceira vez (motivo de não colocá-lo na lista de preferidos, já que ele já foi muito comentado neste blog), e outro, Primeiras estórias, encerrado depois de quase dez anos lendo seus contos em suaves parcelas. Por fim, antes de discorrer sobre os cinco livros de que mais gostei nesse ano, quero desejar um feliz ano novo, cheio de saúde, realizações, paz de espírito, leveza e FORA BOLSONARO.

5. Crônica de uma morte anunciada (Gabriel García Márquez, 1981)
Eita Gabo... Gabo é necessário, Gabo é imortal, Gabo é único. O realismo fantástico do colombiano que conquistou um Nobel e a admiração de meio mundo é excelente, independentemente do tema abordado, do tamanho do livro ou da época em que se ambiente a narração. Nesse livro relativamente curto, de menos de 200 páginas, inicialmente temos apenas o cruzamento de informações sobre um crime motivado por desonra, informações ora confiáveis, ora confusas, enquanto o leitor tenta montar o quebra-cabeças para entender como ocorreu o assassinato de Santiago Nasar. Mas aqui não temos apenas um romance construído com rigor jornalístico, mas também uma narração envolvente, cheia de poesia e sensualidade, que transborda através de personagens típicas da literatura de García Márquez.
Nota: 10
4. Há uma lápide com o seu nome (Camilla Canuto, 2021)
Fiquei muito feliz ao ver uma autora sergipana, jovem, lançar seu primeiro livro. Não conheço Camilla pessoalmente, só por interações em redes sociais, mas vibrei com o lançamento de seu livro como se fosse um amigo íntimo. Mais feliz ainda fiquei quando enfim li o romance, que devorei em um dia, mas ruminei por quase uma semana, tamanho seu impacto. A estória da protagonista Adelaide poderia ser a de incontáveis mulheres, seja em Sergipe ou qualquer canto do Brasil ou do mundo: depois de uma gravidez muito precoce na adolescência, se torna mãe de família e abdica de si e de seus sonhos, apagada pelo patriarcado e pela imposição de ocupar o papel de mãe e esposa. Além da narração habilidosa que gera um texto fluido e delicioso de ser lido, o livro me conquistou pela alegria de reconhecer todas as referências locais de Aracaju - como é bom ter conterrâneo escritor.  Em resumo: esse livro deve e merece ser lido por muita gente. Sem mais.
Nota: 10
3. Primeiras estórias (João Guimarães Rosa, 1962)
O quarto livro de Guimarães Rosa (quinto, se contar o livro de poemas Magma, e sétimo, se contar a divisão sofrida por Corpo de Baile) é o livro ideal para ser introduzido na obra rosiana. São 21 contos, a maioria variando entre oito e dez páginas, e consideravelmente mais simples e fáceis do que as estórias presentes nos livros anteriores - sério, não aconselho a ninguém começar a ler Guimarães Rosa por Grande sertão: veredas. Dentre os 21 contos, temos aqui A terceira margem do rio, que deve ser o seu mais conhecido (talvez empatado com A hora e a vez de Augusto Matraga, que está em Sagarana) e traz a mítica narrativa de um homem que larga tudo para passar a vida numa canoa estreita, remando de cima a baixo um curto trecho de rio, sem que ninguém saiba o motivo. Rosa sendo Rosa: as poucas páginas do conto se abrem para inúmeros significados e possibilidades.
Nota: 10
2. A festa do bode (Mario Vargas Llosa, 2000)
Esse incrível romance de Vargas Llosa trata do fim de uma das ditaduras mais longevas e cruéis da América Latina, comandada pelo generalíssimo Rafael Trujillo na República Dominicana entre 1930 e 1961. O livro acompanha três frentes: a do próprio Trujillo, em seu cotidiano metodicamente planejado, a do grupo que planeja um atentado contra o ditador e a de Urania Cabral, filha de um dos homens mais leais a Trujillo, que caíra em desgraça antes mesmo da queda do regime. Ao longo de 450 páginas somos guiados pela narração magistral de Vargas Llosa, que mistura ficção e fatos históricos sem deixar de ser coeso ou coerente em nenhum momento, além de conseguir entrelaçar sutilmente as três frentes narrativas do romance. Não é difícil perceber porque A festa do bode é um dos livros mais importantes de Vargas Llosa: preciosa pesquisa histórica fundamentando a criatividade de uma das mais brilhantes figuras da literatura contemporânea.
Nota: 10
1. Os vivos e os outros (José Eduardo Agualusa, 2020)
O queridinho entre os queridinhos de 2021 foi uma agradável surpresa. Ganhei esse livro de presente de uma amiga muito querida e o li há pouco mais de um mês. Terminado no fim de 2019, poucos meses antes do início da pandemia de COVID-19, o romance parece prever o cenário de isolamento que se impôs em todo o mundo a partir de março do ano passado. Os vivos e os outros se passa na Ilha de Moçambique, onde renomados escritores de alguns países africanos estão reunidos para um festival literário. Um dia antes de começar o festival uma tempestade sem proporções atinge a região, deixando a ilha totalmente isolada, sem eletricidade, sem sinal de telefone ou internet, e sem possibilidade de atravessar a ponte que liga a ínsula ao continente. Sem o contato com o mundo exterior, todos mergulham em reflexões coletivas sobre literatura, arte, o continente e mesmo a vida, mas também descobrem que é preciso olhar para dentro de si, na tentativa de resolver questões pessoais - principalmente quando surgem "os outros". Como assim? Prefiro que a descoberta seja feita com a leitura do livro, e não com meus comentários. Esse livro é incrível, sério. É prosa, mas é tão poético que apenas isso seria suficiente pra justificar o quanto ele é encantador. Mas há mais ainda. Muito mais.
Nota: 10



Luís F. Passos

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Sobre 2020, o alçapão do inferno e alguns livros


D
urante o ano eu e outros tantos dissemos, em tom de brincadeira: "coitado de quem tiver que fazer a retrospectiva 2020...". Bem, se eu dizia isso, não sou eu que vou fazer uma retrospectiva aqui. Mas, porém, contudo, no entanto e todavia, senti a necessidade de manter o hábito, abandonado apenas em 2018, de falar sobre o ano que se encerra. E esse 2020... ah, esse menino maroto que foi 2020... esse peste que parece aqueles pirralhos que o pai puxa pela orelha e a mãe bota no colo pra esquentar o traseiro. 366 dias, 366 vezes em que nosso corpo celeste que temos como casa deu a volta ao redor de si mesmo enquanto corria para dar uma volta ao redor do astro rei. Bem, pega a pipoca, o lenço de papel, a água e vamos juntos rir e chorar um pouco falando sobre um ano que não vamos conseguir esquecer.
Obviamente o grande assunto de 2020 foi a pandemia. Mas vamos tentar lembrar do que teve antes: nosso presidente querendo treta com Irã e alguns dias de piadas na internet sobre a possibilidade de guerra. "O que esse homem ainda vai inventar?" Eita, gente, não faltou coisa. Enquanto se cavava a sujeira do miliciano e seus filhos, eles começaram a incentivar os apoiadores em atos antidemocráticos que pediam fechamento do Congresso, do STF e outras barbaridades. Aí, em fevereiro, o tal vírus descoberto na China começou a se espalhar pelo mundo. E a gente aqui fazendo piada, achando que isso não chegaria aqui. Quantas referências ao corona e à cerveja Corona no carnaval? Mas no fim de fevereiro, ele chegou. Chegou com força, e duas semanas depois os governadores e prefeitos iniciaram as medidas de isolamento social para tentar conter a doença que foi oficialmente classificada como pandemia pela OMS no dia 11 de março. Bolsonaro, que já tinha dito que o medo do vírus era um histeria, foi à televisão no dia 24 de março para dizer que a Covid-19 é uma gripezinha - marco inicial da sabotagem promovida pelo presidente contra as ações do Ministério da Saúde e dos Estados. A partir daí os índices de isolamento começam a cair e percebemos que vinha um inferno pela frente. E como diz um amigo meu, o inferno tem alçapão: você acha que não dá pra piorar, mas a situação piora, e muito. Ataques à democracia, avanço do ataque à natureza com Amazônia e Pantanal em chamas, atraso na liberação do auxílio emergencial, desemprego, fome, desespero. E como não lembrar daquela reunião ministerial denunciada por Moro, o rato que pulou do navio que parecia prestes a naufragar? Era reunião ministerial ou de quadrilha?
Milhões de doentes, quase duas centenas de milhares de vidas perdidas - números que sabemos ser bem maiores, tamanha a subnotificação da Covid no Brasil. Aos poucos os números começaram a ganhar rostos conhecidos. Vi vários colegas e amigos adoecerem. Vi amigos perderem familiares. Atendi e continuo atendendo casos de Covid. Acabou que aprendi - todos aprendemos - a lidar não só com a doença mas também com o clima desesperador na pandemia. Em março, a incerteza, o medo de adoecer ou de contaminar alguém da família me fizeram chorar, assim como muitos outros profissionais que chegaram a sair de casa para proteger os seus. Sentimos medo da doença, perplexidade e raiva diante do mau comportamento de quem parecia ignorar o caos, e ódio de lideranças políticas que negavam e seguem negando a gravidade de uma doença capaz de matar e de deixar graves sequelas. Diziam que as pessoas iriam sair melhores da pandemia. Como? Indo pra festa e cagando e andando pra quem tava morrendo? 
O fato é que 2020 foi bizarro. Não só pela Covid, mas por muitos outros motivos. O que dizer de um ano que trouxe o rolê mais aleatório de Ronaldinho Gaúcho (a prisão!)? O ano da naja de Brasília, da chance do vira-lata caramelo ir pra nota de 200 reais. Um ano de muitos memes, óbvio, porque o brasileiro não deixa de rir da própria desgraça. Um ano de muitas perdas, não só para Covid, mas para outras doenças também. 2020 conseguiu levar até a imortal Olivia de Havilland, de 104 anos, última atriz viva do elenco de E o vento levou. Perdemos pessoas brilhantes da música, da literatura, do cinema, do esporte. Sentiremos falta de Flávio Migliaccio, Chadwick Boseman, Sean Connery, Diego Maradona, Quino, Kirk Douglas, Aldir Blanc, Moraes Moreira, Nicette Bruno, Tom Veiga, entre tantos outros. Pessoas tão necessárias nesses tempos difíceis, afinal, a arte sempre teve e terá a nobre função de deixar a vida mais leve, de nos distrair dos problemas, de nos fazer enxergar os problemas de um modo diferente. Precisamos e precisaremos ainda mais de arte para nos apoiar, afinal, todo o sufoco pelo qual passa o Brasil deve se manter por algum tempo e piorar nos próximos meses, já que as crises econômica e sanitária não têm previsão de resolução. É, gente, pelo visto vamos continuar descendo por alçapões, chegando ainda mais fundo no inferno ou no poço. Encerro aqui desejando saúde física e mental, força, amor, paz e dias cheios de sorrisos para todos. Que venha a vacina para que possamos nos ver e nos abraçar, e que venha o impeachment de Bolsonaro para que tenhamos motivo para comemorar por dias e dias seguidos. Fiquem com a lista dos cinco livros que mais gostei dentre os treze que li no ano de 2020.



5. 2001: uma odisseia no espaço, Arthur C. Clarke
Quando Stanley Kubrick se inspirou em um conto do escritor e cientista Arthur C. Clarke, os dois gênios se uniram para escrever as bases do que se tornaria um marco na ficção científica: eles começaram a trabalhar juntos e depois se separaram; Kubrick terminou o roteiro do filme e Clarke foi terminar seu livro. 2001 inicia na pré-história, há milhões de anos, quando um misterioso monólito surge num deserto e parece ser o catalisador da evolução de primatas humanoides. Milhões de anos depois, na era espacial, um monólito semelhante é encontrado sob a superfície lunar, motivando uma missão espacial que rumava a Júpiter e posteriormente a Saturno. Os cientistas David Bowman e Frank Poole comandam a nave Discovery, junto ao super computador HAL 9000, enquanto outros três tripulantes permanecem em um tipo de hibernação em máquinas especiais, para serem acordados apenas quando chegarem ao destino. Fatos extraordinários abalam a missão, justificando a palavra odisseia do título. O que temos aqui é uma obra incrível, sem paralelo, mostrando como poucas o poder da imaginação humana, a vontade humana de conhecer o que tem para dentro e além de nós, de nosso mundo, de nossa concepção de universo. Me cativou da mesma forma que o filme.
Nota: 10

4. O amor nos tempos do cólera, Gabriel Garcia Márquez
Livro muito comentado e lido em 2020, além de seu título ser usado no trocadilho "o amor nos tempos do corona" (eu mesmo usei bastante). Esse é um dos romances mais conhecidos do mestre Gabo, escrito nos anos 80 logo depois do ano sabático que o escritor se deu após ganhar o Nobel de literatura em 1982. Baseado numa história verdadeira - de seus pais - em que um rapaz apaixonado usava a rede de telégrafos para se comunicar com a amada, cujos pais se opunham ao romance, García Márquez narra uma história de amor e devoção que atravessou décadas. O telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza é um pobre rapaz que se apaixona por Fermina Daza, moça de família rica (apesar dos negócios de seu pai serem obscuros), e passa a se comunicar com ela por cartas durante alguns anos, até que pede sua mão em casamento - carta que demora 4 meses a ter resposta. Depois que o pai de Fermina descobre o namoro epistolar, manda a filha para a casa de parentes em lugares distantes, e é aí que a rede telegráfica é usada para a comunicação do casal. Fermina acaba se casando com um médico aristocrata, mas nem a distância e nem o tempo são capazes de pôr fim ao amor de Florentino. A magistral escrita de Gabriel García Márquez nos proporciona um romance interessante, bonito e até mesmo pitoresco - afinal, estamos falando do mestre do realismo fantástico.
Nota: 10

3. Sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk
Certamente minha maior e melhor surpresa literária, já que eu nunca ouvira falar do livro ou da autora, esse romance polonês me foi dado de presente em meu aniversário e me conquistou logo nas primeiras páginas. Nossa protagonista, Janina Dusheiko, é uma professora de inglês aposentada que vive numa região distante e pouco habitada da Polônia, marcada por invernos rigorosos, solidão e temporadas de caça agitadas. Dusheiko, entusiasta de astrologia e poesia inglesa, abomina a caça e é conhecida na vizinhança pela defesa dos animais - inclusive, é vegana, não consumindo nada de origem animal. Quando pessoas ligadas à caça começam a aparecer mortas, em crimes brutais e difíceis de serem explicados, Dusheiko levanta a suspeita de que os animais da região podem estar envolvidos nas mortes, já que sempre havia animais silvestres nas cenas dos crimes. Ao longo do livro a autora explora, além do tema da relação humana com os animais, temas como machismo, preconceito e pessoas que vivem à margem da sociedade. Com um texto fluido e muito envolvente, a obra prende o leitor do começo ao fim.
Nota: 10

2. Hibisco roxo, Chimamanda Ngozi Adiche
Agridoce é uma boa palavra para falar sobre esse romance incrível. A deliciosa narração de Chimamanda nos traz a jovem Kambili, uma adolescente nigeriana, filha de um dos homens mais ricos e poderosos do país. Seu pai, Eugene, é dono de jornal e empresário, e está ainda mais em destaque porque a Nigéria atravessa um delicado período político com a chegada de militares ao poder - a quem ele faz oposição. Mas o principal tema do livro é o impacto da chegada do catolicismo ao país; o pai de Kambili se converteu à Igreja Católica, abandonando as tradições locais, as quais chama de pagãs, chegando ao ponto de cortar todas as relações com seu pai. Seguimos com Kambili enquanto ela conhece a vida para além dos altos muros da mansão da família e do rígido controle do seu pai, especialmente quando ela passa a manter contato com uma tia professora e seus primos que não têm a mesma vida de conforto que ela. Livro denso, rico, muito emocionante. Imperdível.
Nota: 10

1. Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway
Provavelmente o melhor livro de Hemingway, esse foi o primeiro livro que li em 2020 e nenhum dos que vieram depois lhe tirou a posição de melhor livro lido no ano. Ao longo de mais de 600 páginas acompanhamos o americano Robert Jordan, combatente da Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, que recebe a missão de explodir uma ponte na região de Segóvia. A narração acompanha poucos dias na vida do rebelde, mas são dias suficientes para que ocorra uma mudança importante em seu interior - uma pessoa seca, objetiva, calculista, alcançando a humanidade. Além de Jordan, outras personagens marcantes são apresentadas, todas elas fundamentais para o processo de mudança sofrido pelo protagonista. Esse livro maravilhoso é marcado pela sempre presente sinceridade do autor, e aqui, num nível ainda mais elevado que nas outras obras. Hemingway trabalhou como jornalista cobrindo a Guerra Civil Espanhola, e deixa transparecer em seu livro a crueza e horrores da guerra, e o que ela provoca nos corações dos homens.
Nota: 10

Luís F. Passos

domingo, 31 de dezembro de 2017

Sobre 2017, seus altos e baixos e alguns filmes

Vou começar este texto de fim de ano com sinceridade: eu não sei sobre o que escrever. Não assisti a Retrospectiva 2017 da Globo, minha memória anda ruim, então eu espero que à medida em que escrevo, vá lembrando de coisas importantes desse ano de muitas emoções. Muitas. De todos os tipos.
Conforme esperado, a crise político-financeira de nosso País piorou. Piorou muito. Maldito seja Tiririca e seu "pior do que tá não fica". O que já era errado ficou nojento de tão escancarado, explícito e sem vergonha nenhuma. Assistimos perplexos à delação dos Irmãosley - Wesley e Joesley - Batista, mostrando até onde chegava a corrupção do governo Temer e de seus principais aliados. Malas de dinheiro destinadas ao mais alto escalão do executivo, do legislativo e a crápulas já presos, como o embuste-mor da República, Eduardo Cunha, que estaria recebendo milhões da JBS para manter a boca fechada e não delatar o ninho de cobras de Brasília. Enquanto o povo esperava que alguém voasse, a única coisa que voou foi o dinheiro público, já que centenas de deputados foram comprados duas vezes para impedir a autorização da investigação do presidente e de alguns de seus ministros pelo Supremo Tribunal Federal. Relembrando áudios de Sérgio Machado gravados no ano passado, onde ele dizia que "o primeiro a ser comido" seria Aécio Neves, não foi bem assim que a coisa aconteceu. O senador, gravado pedindo 2 milhões de reais e afirmando que quem deveria buscar o dinheiro era alguém que fosse morto antes de fazer delação, teve o mandato suspenso mas foi posteriormente absolvido por seus pares do Senado.
Aproveitando o tema STF... quanta decepção. Claro que a gente só podia lembrar do "grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo" ao ver ministros da suprema corte livrando tão facilmente algumas das piores caras de nossa política. Merece destaque aquele que teve tantos jantares particulares com Temer, que recentemente soltou ex-governadores do RJ e que levou um belo chega-pra-lá do ministro Barroso, que categoricamente afirmou que seu colega tem "parceria com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco". Além disso, o Supremo fez o favor de liberar ensino religioso no Brasil, e de uma forma que não garante que várias religiões sejam debatidas, como seria mais correto; podemos afirmar que será uma imposição de cristianismo. Vá embora de vez, estado laico.
Pois é, gente. Apanhamos, e a porrada veio de todos os lados. Corrupção, piora dos serviços públicos, aumento abusivo de impostos, enquanto isenções eram concedidas a grandes empresas - o que falar de 1 trilhão em isenção ao longo de 25 anos pras exploradoras do pré-sal? Ao mesmo tempo, o gás de cozinha ficou cada vez mais caro, prejudicando principalmente os mais pobres. Que seja lembrado o caso de um senhor em Pernambuco que comprou um botijão em um vendedor clandestino para não pagar tão caro, mas houve um vazamento seguido de explosão que matou três pessoas e feriu os demais moradores na residência. Reflexos do golpe de 2016. Afinal, não foi um golpe só contra Dilma, mas contra os pobres, os trabalhadores, os negros, as mulheres e os LGBT.
E num ano com tantos desafios, cada oportunidade de rir era aproveitada. Deus abençoe o menino que gerou o meme do "caindo ao som de sweet dreams", um dos melhores dos últimos anos, e a dona e proprietária da internet, Gretchen, que zerou a rede ao estrelar um clipe de Katy Perry (que é muito melhor que o clipe oficial. Amém). E por falar em música, teve Anitta e Pabllo Vittar pra mostrar porque se deve lutar por representatividade - algumas vitórias contra o conservadorismo, né? E por falar em luta, nossos aplausos e nosso respeito às mulheres que denunciaram assédio e abuso na indústria de Hollywood e também na televisão brasileira. Respeita as mina!
Pra encerrar, meu maior conselho pra 2018: se cuidem, galera. Do corpo e da mente. Em um ano de tantas histórias tristes envolvendo saúde mental e desfechos trágicos como suicídio, a minha mensagem é um pedido pra que vocês não deixem passar suas próprias necessidades por priorizarem outras coisas como estudos, trabalho ou algum problema. São importantes? Claro que sim. Mas nada é mais importante que cuidar de si mesmo, e depois disso, cuidar das pessoas que nos cercam. Pessoalmente falando, esse foi um ano realmente cheio de altos e baixos,e com uns baixos que me fizeram tremer. Talvez eu tenha passado pelo pior momento de minha vida, mas com tempo, fé e pessoas queridas, a vida segue em frente. E alegria nesse ano também não faltou. FORMEI, GENTE! Depois de seis anos de faculdade (e desse querido blog que me deu uma baita ajuda nesse tempo), sou médico. Muita coisa boa aconteceu na contagem regressiva pro final do curso, muitas festas, lágrimas de alegria, e a formatura foi uma semana positivamente inesquecível.
Talvez este seja o último post de nosso blog. Ou não, mas sei que ficarei um bom tempo sem escrever por aqui. Então me despeço agradecendo a companhia ao longo dos últimos seis anos neste projeto que muitas vezes me fez esquecer problemas, além de tirar minha cabeça das obrigações cotidianas e me distrair ao escrever sobre cinema, literatura, música e algumas besteiras. Um 2018 de muita paz, saúde e realizações pra todos.
E pra não perder a prática, a recomendação de cinco filmes pra ver no fim de semana, no meio da semana, em qualquer hora. Filmes excelentes que o Sagaranando aprova, recomenda e assina embaixo.


1. Que horas ela volta? (2015)
A história é centrada em Val (Regina Casé), empregada doméstica numa casa de classe média alta em São Paulo que há mais de dez anos deixou sua família em Pernambuco em busca de trabalho que lhe permitisse dar melhores condições ao futuro de sua filha. Val praticamente criou Fabinho (Michel Joesas), filho de seus patrões, que nunca tinham tempo para o menino. Quando a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), chega em São Paulo para fazer o vestibular e fica na casa da família rica, acaba o sossego de Val e da patroa. O interesse que ela desperta nos homens da casa e a insubordinação diante da mãe, que considera uma estranha, cria uma tensão que perdura por boa parte do filme, que trata de maneira brilhante de temas como migração motivada por pobreza, relações familiares e a íntima e complexa relação entre patrões e empregados domésticos (mostrando que casa grande e senzala ainda perduram no País).
Nota: 10
2. O Escafandro e a Borboleta (Le scaphandre et le pappillon, 2007)
Uma nova definição de filme lindo. Sensibilidade é a palavra chave da história de Dominique Bauby (Mathieu Amaric), que depois de sofrer um derrame é vitimado pela raríssima síndrome do encarceramento, em que todo o seu corpo fica paralisado, exceto os olhos - sendo que todas as faculddes mentais ficaram preservadas. Para completar, seu olho direito precisa ser ocluído para evitar um ferimento na córnea, e ele fica dependente apenas do esquerdo. Com a ajuda de uma fonoaudióloga, Dominique aprende a se comunicar através de um sistema lento, mas eficiente, a partir do piscar de seu olho. Através da narração de Dominique, vemos como foi sua vida, os diversos erros que ele cometeu com seus entes queridos, a rua relação com seu pai e seus filhos, a amante que nunca o visitou depois da doença e a sua obstinação em compor um livro que se tornaria best-seller. Baseado em fatos reais.
Nota: 10
3. A vida dos outros (Das Leven der Anderen, 2006)
Pense duas vezes antes de dizer que o cinema não é mais o mesmo e que já não se produzem inesquecíveis obras-primas. A vida dos outros tá aí pra provar que o cinema de alta qualidade ainda resiste. Com roteiro e direção de Florian Henckel von Donnersmarck, um desconhecido até então, o filme é ambientado nos anos 80 na Alemanha Oriental, onde a Stasi, uma das mais controladoras polícias secretas da Cortina de ferro tocava o terror numa época em que não havia o menor indício de abertura política. O capitão da Stasi Gerd Weisler (Urich Müher) recebe a missão de espionar um dramaturgo e sua esposa, que é atriz, e se instala no mesmo prédio em que o casal mora, no andar de cima, ouvindo tudo o que se passa na casa deles. O que inicialmente era apenas uma missão e encarado com escárnio se transforma numa relação unilateral de solidariedade, levando o espião a duvidar de toda sua ética e crença no partido totalitário e questionar um estilo de vida sem liberdade e sem direito à individualidade. Em poucas palavras: um filme excepcional. Infinitos elogios ao roteiro, à direção e à atuação de Mührer, que era um experiente ator de teatro na Alemanha (inclusive fora espionado durante a Guerra Fria) e que infelizmente faleceu um ano após o lançamento do filme.
Nota: 10
4. Cabaret (1972)
Pra um público que viu o festival de alegria que é Catando na chuva na década de 50 e a fofura bonitinha demais que é Minha linda dama nos anos 60, imagine o choque ao chegar em 72 e ver Cabaret, que sai de cenários elegantes e vai para o subúrbio da Berlim dos anos 30, onde um país arrasado pela Guerra e pela Depressão era campo fértil para a disseminação das ideias totalitaristas e racistas de Hitler. Nesse rebuliço, Brian Roberts (Michael York), jovem americano, chega em Berlim para dar aulas de inglês, e logo conhece Sally Bowles (Liza Minelli), estrela do Kit Kat Club, a casa de shows mais animada da cidade. Sally é uma dançarina que sonha em ser uma grande atriz - típico, não? Mas a história do diretor Bob Fosse consegue ser surpreendentemente original, com seus ótimos números musicais que floreiam amores incompreendidos e ambição; é como diz uma das músicas: "money makes the world go round!". Cabaret também se destaca por dividir os holofotes do Oscar de seu ano com O Poderoso Chefão, faturando os prêmios de direção, atriz, ator coadjuvante (Joey Grey, mestre de cerimônias do Kit Kat e figura essencial no filme), entre outros. 
Nota: 10
5. Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960)
Lembrei desse filme incrível porque já faz um tempo que o vi e não seria nada mal revê-lo (vou seguir minha própria recomendação). Escrito e dirigido por Billy Wilder, o filme acompanha o simpático C. C. Baxter (Jack Lemmon), funcionário de uma seguradora que caiu nas graças dos chefes por emprestar a eles seu pequeno apartamento ocasionalmente, por algumas horas, para que eles se encontrassem com suas amantes. As coisas se complicam quando Baxter se apaixona por uma dessas amantes, que também era sua colega de trabalho (Shirley MacLaine), e pela primeira vez questiona sua amoralidade diante dos favores que fazia a seus superiores - devidamente recompensados com promoções. Comédia imortal vencedora de cinco Oscars, incluindo melhor filme, roteiro e direção.
Nota: 10
Luís F. Passos

sábado, 31 de dezembro de 2016

Sobre 2016, o asteroide que deveria ter vindo e alguns poucos livros

Aqui estamos mais um dia sob o olhar sanguinário do vigia pra falar do ano que se encerra, esmiuçando alguns aspectos que mais nos alegraram ou incomodaram. Adianto logo que vamos falar mais de incômodos.
Então, queridxs leitorxs, como vão? Como passaram esse ano maroto e saliente chamado 2016? Espero que bem, apesar de tudo. Se não foi tão bem assim, então respira fundo, vamos chorar algumas mágoas e sacudir a poeira porque um novo ano tá na porta.
Eu sei que reclamei de 2015, mas analisando hoje, nem foi um ano tão ruim. A questão é que eu vinha numa maré muito boa no ano anterior, e 2015 foi um puxão de volta à realidade. Mas 2016... vamo respeitar, né?
Pessoalmente falando, o ano começou mal, com a perda de meu avô. Falando pelo mundo, o ano mostrou logo que sofreríamos grandes perdas com a morte do cantor David Bowie ainda no dia 10 de janeiro. E foram muitas as perdas de gente famosa e muito boa. Nomes como Prince, George Michael, Domingos Montagner, Cauby Peixoto, Elke Maravilha, Rubén Aguirre (Professor Girafales), Alan Rickman, Umberto Eco, Muhammad Ali, Fidel Castro e mais recentemente Debbie Reynolds e Carrie Fischer. Sem falar em tragédias de grandes proporções como a queda do avião da Chapecoense.
Quem também foi pro além foi a democracia brasileira. Mais de 54 milhões de votos foram jogados no lixo por um Congresso corrupto e sem moral, que num processo de impeachment que durou cerca de cinco meses, afastou de vez a presidenta Dilma, pondo em seu lugar o golpista Temer. Na sessão da câmara que aprovou a abertura do processo no Senado, tivemos a cena mais grotesca da política em décadas, quando a corja votou "pela família, pelo Brasil, contra a corrupção" - inclusive a deputada que elogiou o marido, prefeito de Montes Claros, e no outro dia a Polícia Federal prendeu o dito cujo por corrupção. Eduardo Cunha caiu, alguns ministros caíram, e Temer está derrubando os direitos da classe trabalhadora, reformando a Previdência e congelando gastos públicos, ao mesmo tempo em que autoriza aumento de 41% para o judiciário e passa a mão na cabeça de toda a bandidagem da política nacional.
A esquerda está em maus lençóis. As eleições municipais desse ano são prova disso. O ódio ao PT e aos seus aliados continua vivo, levando a cenários bizarros como a eleição de João Dória em primeiro turno em São Paulo. Mas pior que a derrota de algumas legendas é a desorganização da esquerda e sua falta de proximidade das massas, que assistem passivamente o Brasil se tornar uma republiqueta das bananas e voltando a ser um conjunto de oligarquias. Mas não é só por aqui. Lembrem que Trump foi eleito, e só Deus pode nos ajudar.
Sério, 2016 foi palco de muita coisa que nos faz refletir se a humanidade não se cansa de aprofundar ainda mais o fundo do poço. Seja em casos de burrice e estupidez como o caso da mulher que invadiu o Congresso e disse que a bandeira japonesa era o símbolo do comunismo na bandeira brasileira ou no recente caso grotesco em que um trabalhador ambulante foi morto espancado por defender uma travesti. A vida humana parece ter perdido de vez o valor. Ao mesmo tempo em que as vozes mais conservadoras gritam serem contra o aborto por serem a favor da vida, clamam pela pena de morte e bradam que bandido bom é bandido morto - por mais que se intitulem cristãs, pelo visto não aprenderam nada com Jesus. "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei", e dois mil anos depois os seguidores do cara querem sair matando LGBT e criminoso. Nunca vi brincadeira de telefone sem fio mais deturpada. Na última semana, o filósofo Leandro Karnal perguntou em sua página na internet se o cometa do filme Melancolia estaria muito longe. Apenas corrijo o brilhante pensador com a observação de que no filme não havia um cometa, e sim um planeta chamando Melancholia. Mas sim, Karnal, passei o ano me perguntando onde estaria um corpo celeste errante pra pôr um fim nessa baderna.
Antes que eu me prolongue mais ainda e antes que digam que tô reclamando demais, preciso dizer que 2016 também teve seus bons momentos. Muitos, até. Agradeço a Deus e aos familiares e amigos que me propiciaram tais bons momentos, tanto na esfera pessoal como acadêmica. Eu estava separando umas fotos desse ano e percebi que por mais difícil que ele tenha sido, estive cercado de gente que me motivou a ir em frente e que fazem o mundo não merecer um asteroide. Outra coisa: próximo ano vou me formar (!!!), e nosso blog terá cumprido a missão de me servir como válvula de escape durante a faculdade. Se ele continuará atualizado a partir de novembro de 2017, é outra história, da qual ainda não sei nada. Por enquanto vamos falar dos cinco (e únicos) livros que li durante esse ano, por ordem de preferência.

5. Grande Sertão: Veredas - versão HQ (João Guimarães Rosa; arte de Rodrigo Rosa e roteiro de Guazzelli)
Comentei sobre meu livro favorito com um grande amigo meu, e dias depois ele acha numa livraria a versão em quadrinhos da mais bela e triste história de amor de nossa literatura e me deu de presente. A história da vida do ex-jagunço Riobaldo nos sertões de Minas Gerais ("o sertão é do tamanho do mundo") é contada de uma maneira bem resumida em comparação ao original, que tem mais de 600 páginas, mas é ótima para atrair novos leitores para a obra rosiana ou para matar a saudade dos que já são fãs. Amor, guerra, vingança, reflexões sobre a vida e o sobrenatural são os temas centrais desse clássico da literatura repaginado, vencedor do prêmio HQMix 2015 de melhor adaptação para os quadrinhos.
4. No Urubuquaquá, no Pinhém (João Guimarães Rosa)
O enorme livro Corpo de baile, lançado em 1956 dividido em dois volumes, foi dividido em três livros distintos em sua terceira edição: Manuelzão e Miguilim, Noites do sertão e No Urubuquaquá, no Pinhém. Este último é composto de três novelas um tanto extensas e de ótima qualidade, especialmente A estória de Lélio e Lina, minha preferida do livro e uma das mais conhecidas de Corpo de baile. A narração fala de um certo vaqueiro Lélio, que chega a um lugar chamado Pinhém depois de ter saído de sua terra por uma desilusão amorosa, e arruma emprego e logo faz várias amizades. A principal delas, a de uma senhora de mais de setenta anos, que o chama carinhosamente de "meu mocinho", e parece o conhecer como ninguém. Uma estória leve, muito bonita, apresentando o amor na forma materna/ fraterna; um carinho puro e comovente que em várias passagens é capaz de encher os olhos de qualquer um.
3. Mrs Dalloway (Virginia Woolf)
"Mrs Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores". A frase famosíssima que abre um dos primeiros romances de Virginia Woolf é o ponto de partida para uma viagem pela Londres da década de vinte através da mente de Clarissa Dalloway, mulher de um deputado conservador que está prestes a dar uma festa. Ao longo de um dia acompanhamos Clarissa, algumas pessoas que a rodeiam, além de um veterano de guerra cuja história aparentemente corre paralela à da aristocrata. Reencontros com velhos conhecidos e passeios pela cidade são a chave para momentos de profunda introspecção e análise da sociedade londrina da época, com todos seus costumes e futilidades. Não foi a primeira vez que eu li Mrs Dalloway (e não é a primeira vez que ele aparece numa lista aqui no blog), mas garanto que a satisfação ao relê-lo foi a mesma de ler pela primeira vez.
2. O Guia do Mochileiro das Galáxias (Douglas Adams)
 Outro livro que reli nesse ano, outro livro queridíssimo. Douglas Adams constroi um dos melhores e mais queridos livros de ficção científica através da amizade de um britânico, Arthur Dent, com o alienígena Ford Prefect, do distante planeta de Betelgeuse. Quando a Terra é destruída por uma frota espacial Vogon, Ford consegue fugir na frota Vogon, carregando consigo um Arthur perplexo por saber que existe vida fora da Terra, por ver seu planeta destruído e por saber que seu amigo na verdade é um colaborador do Guia do Mochileiro das Galáxias, o livro mais fantástico que existe, que contém informações sobre qualquer coisa do universo. A frase "não entre em pânico, contida na capa do Guia, é totalmente apropriada ao momento. A história é uma sátira genial sobre o quanto somos insignificantes diante da imensidão espacial, sobre o quanto os humanos conseguem fazer besteira com o planeta, nas relações interpessoais e especialmente na política. Absolutamente genial.
1. O Herói Discreto (Mário Vargas Llosa)
Desde que Mário Vargas Llosa venceu o Nobel de literatura em 2010 eu tenho vontade de ler algum livro dele, o que só fiz nesse ano. Se a primeira impressão é a que fica, então minha impressão sobre ele é a melhor possível. O herói discreto segue em dois ambientes distintos. Na capital peruana, Lima, o executivo Rigoberto vê com preocupação o casamento de seu patrão e amigo, Ismael Carrera, com sua ex-empregada, uma mulher com idade para ser sua neta, devido à exposição na mídia e aos filhos sem caráter de Ismael, que do pai só querem a herança. Já no interior, o empresário Felícito Yanaqué, dono de uma empresa de transportes, começa a receber cartas anônimas que oferecem proteção e segurança em troca de pagamento, possivelmente enviada por um grupo de milicianos. Mas Felícito não é de se dobrar a ninguém, e decide resistir aos bandidos. O fato é que tanto Felícito quanto Ismael terão a ajuda de fiéis amigos, e em algum ponto as histórias se cruzam, o enredo fica melhor do que já estava e o leitor percebe que acabou de ler uma obra sensacional.


No mais, meu povo, feliz ano novo. Continuaremos juntos em 2017, espero. Agradeço por mais um ano acompanhando esse singelo blog, e desejo de coração que o ano que chega traga infinita felicidade para todos.
We'll meet again, don't know where...

Luís F. Passos

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Sobre 2015, suas mazelas e seus poucos livros

Olá mundo, como vai?
Ou melhor: pessoas do mundo, como vão? Porque o mundo eu sei que não vai lá muito bem.
Vão levando? Sei como é. Há algum tempo a resposta que eu mais costumo dar é essa. Vou indo. Vou levando. Marrom - marromenos.
Enfim, não precisamos entrar em maiores detalhes, até porque o mundo não precisa e não quer saber do porquê de eu estar tão prolongadamente no modo marromenos. Eventualmente, se alguém quiser saber, deixa um comentário, manda uma mensagem, marca um café que a gente fala sobre. Mas vamos ao objetivo da vez que é falar sobre o ano que (graças a Deus) está acabando, essa criança marota chamada 2015.
2015 começou com um puto atentado à liberdade de expressão no coração da Cidade Luz que fez meio mundo de gente dizer que era Charlie. Aqui pelo Brasil o turbulento, emotivo e irracional período eleitoral do ano passado deu à luz uma crise política (que se analisarmos bem é só uma exacerbação e consequência dos últimos anos) que se somou à crise econômica, resultando numa impopularidade do governo que foi a maior desde a redemocratização, além de dar poder a uma podre ala do Congresso - que é o mais conservador desde a ditadura. Trabalhadores, negros, indígenas, LGBTs e mulheres foram o alvo das chamadas bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia, capitaneadas por canalhas da mesma estirpe do presidente da Casa.
Pois é, gente. 2015 foi tão nefasto na política que chegamos ao ponto de aplaudir Kátia Motosserra Abreu por jogar vinho na cara de José Serra. Também foi o ano em que ninguém menos que Luciana Gimenez defendeu a laicidade do Estado diante de Marco Feliciano (que puxou um Pai Nosso junto com a bancada da Bíblia no plenário da Câmara). Se não bastasse, o glorioso e tão criticado Tiririca, 5º na linha sucessória presidencial, lamentou em carta ser o único político ficha limpa da lista.
Depois da crise econômica, a crise política foi o assunto mais falado ao longo do ano. Crise política por ter um governo fraco, impopular e escravo da aglomeração de podridão chamada PMDB, a base aliada menos aliada de que se tem ouvido falar. Mas isso se trata, na verdade, de uma crise institucional. Crise política é o que vivemos desde sempre, perpetuando uma sociedade doente que despreza direitos humanos, culpabiliza as vítimas, pratica a barbárie cotidiana que é a falta de empatia e que idolatra aberrações políticas, éticas e cognitivas.
Sem mais reflexões revoltadas, vamos falar do blog. 2015 foi, de longe, o ano menos produtivo do Sagaranando. Caímos de mais de cem publicações em 2013 pra quarenta e poucas em 2014 e enfim, 20 nesse ano. Culpa da faculdade na maior parte do ano, culpa de minha preguiça no restante, já que desfrutei de bons cinco meses de férias (obrigado greve das federais). Não só o blog foi mal como eu mesmo deixei muito a desejar em termos de livros e filmes. Pela primeira vez em cinco anos não vi a cerimônia do Oscar, já que tinha visto apenas um filme da competição. Li a menor quantidade de livros em anos, tendo, inclusive, passado sete meses com um só (sobre os quais falarei mais tarde).
Antes de comentar sobre os escassos livros desse ano (mas em ordem de preferência pra relembrar os bons Top 5 do blog) eu queria dar um conselho que há algum tempo eu pratico. Não parem de ler. Nunca. Por mais ocupados e cansados que estejam, nunca deixem de praticar um dos mais saudáveis e construtivos hábitos. Que leiam cem ou cinco páginas num dia, que leiam todo dia ou três vezes na semana. Não deixem de ler. O mundo precisa de leitores, pessoas ávidas por histórias, emoção, drama e conflitos; gente que gosta de mergulhar nas palavras de alguém, na imaginação de alguém, e usar a própria para dar um toque pessoal à história que lhe apresenta. Em tempos difíceis como esses, é de fundamental importância lembrar quão essenciais são as artes para a manutenção da humanidade enquanto civilização, quer dizer, para que evitemos o colapso e a barbárie. Mais importante até que a medicina e as ciências médicas (que só existem como as conhecemos hoje há cerca de duzentos anos, enquanto as artes acompanham o homem desde sua Aurora), precisamos das artes para suavizar os problemas da vida e tornar mais simples o conflito constante que são as relações interpessoais. Conselho dado (e apelo feito), vamos aos cinco melhores (e únicos) livros que li em 2015:
5. Guerra e Paz (vol. 1) - Leon Tolstói
O principal livro que faz muitos considerarem Leon Tolstói o maior de todos os romancistas é um verdadeiro tesouro do povo russo e toda a humanidade por seu valor literário e histórico. Mas pelo menos nesse primeiro volume, ele não é exatamente um exemplo de texto fluido. Claro que é compreensível, já que nesse início é necessário apresentar as famílias Bezukov, Kuraguine, Bolkonski e Rostov, protagonistas e membros da aristocracia russa, tarefa não muito grata. O livro acompanha o Império Russo prestes a enfrentar o exército de Napoleão e o início da guerra, com clara vantagem francesa. Amor, ambição e coragem são os principais ingredientes dessa primeira parte, narrados muito bem por seu imortal autor.
Nota: 9,0/ 10
4. O Último Magnata - Francis Scott Fitzgerald
Depois de três anos juntando poeira na estante, o último romance de Fitzgerald foi lido. Mais experiente e maduro do que em O Grande Gatsby, Fitzgerald apresenta a impressionante e faminta indústria cinematográfica de Hollywood através da narração de Cecília Brady, filha de um grande produtor. Cecília relembra seus tempos na faculdade, quando se apaixonou por Monroe Stahr, sócio de seu pai e um dos maiores figurões da cidade, e com isso mostra um mundo extravagante que nos bastidores é competitivo e desgastante. Stahr é o retrato dessa Hollywood: workaholic, o sucesso de sua vida amorosa é justamente o contrário da profissional. Fechado e totalmente dedicado ao trabalho nos estúdios, ele vai encontrar numa desconhecida a chance de mudar sua vida e reencontrar o amor.
Importante: Fitzgerald morreu antes de concluir o romance, mas faltando bem pouco. O crítico e amigo Edmund Wilson 'finalizou' a obra, descrevendo como poderia ser o final segundo as anotações do autor. Infelizmente tal forma de conclusão quebra o clima do que poderia ser um fim incrível.
Nota: 9,0/ 10
3. As Ligações Perigosas - Chordelos de Laclos
Romance que abalou as estruturas da sociedade (e aristocracia) francesa no fim do século XVIII, chegando a ser banido do País décadas depois, As Ligações Perigosas foi inspiração de várias adaptações para o teatro e cinema, sendo a mais conhecida delas a estrelada por Glenn Close e John Malkovich em 1988. Apresentado através de cartas trocadas pelas personagens, o livro é centrado nas figuras do Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, que ocupam a rica e tediosa vida na nobreza seduzindo pessoas inocentes para depois colocá-las em desgraça. Na trama, eles escolhem como alvo uma mulher casada, conhecida por sua rígida moral e religiosidade. Ao longo da tentativa de seduzir tal mulher e das consequências de tal ato, é feita um minucioso retrato da sociedade, principalmente da hipocrisia que cerca o poder.
Nota: 10
2. Do amor e outros demônios - Gabriel García Márquez
 Ao acompanhar as escavações em um antigo convento prestes a ser demolido, Gabriel García Márquez se depara com um pequeno cadáver que o faz lembrar de lendas contadas por sua avó sobre uma menina milagreira de enorme de cabelo. A partir de então é narrada uma história passada no período colonial da América Latina centrada na jovem Sierva Maria, filha de um marquês, totalmente negligenciada pelo pai apático e pela mãe sem caráter, que acaba sendo criada na senzala com os escravos, e aprende a língua e a cultura dos servos. Após ser mordida por um cão raivoso, Sierva Maria é apontada como possuída pelo demônio, disparate corroborado por seu comportamento rebelde e conhecimento de línguas africanas. A história da colonização americana é plano de fundo desse romance sobre amor, ódio e fé.
Nota: 10
1. Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago
Um certo dia um homem está parado no sinal vermelho quando de repente perde a visão. Mas em vez de trevas, seus olhos estão ofuscados por uma forte e permanente luz branca. Ele procura um médico, que não percebe nenhuma alteração em seus olhos. A cegueira rapidamente se espalha para aqueles com quem o primeiro cego teve contato, e os doentes são levados para um sanatório desativado na tentativa de controlar a epidemia. Entre eles, há alguém que não perdeu a visão: a esposa do médico que examinou o primeiro cego. Ela esconde o fato dos companheiros para não se tornar escrava dos cegos, mas a dependência deles para com ela é maior a cada dia. O número de internos aumenta, e a epidemia parece não ter controle. É através dessa brilhante parábola que Saramago aborda o problema das pessoas não enxergarem umas as outras e não enxergarem bem a si próprias, além das reações do ser humano diante de necessidades, impotência e desamparo. A falta de moral, ética e desprezo pelos valores estabelecidos em sociedade são abordados à medida em que o sanatório vai enchendo e os internos vão perdendo a dignidade e o que anteriormente os caracterizava como humanidade e civilização. Uma leitura essencial para todos.
Nota: 10

Bom, that's all, folks! Nos vemos em 2016. Feliz ano novo pra todos, com muita saúde, felicidade, livros, filmes e muita música. Continuaremos a sagaranar (?) por aqui.

Luís F. Passos

domingo, 23 de agosto de 2015

Pelo Direito de Andar Nu

Na semana passada eu fui ao Detran, resolver cá meus problemas, quando me deparei com a seguinte cena: duas senhoras na casa dos seus 50 anos sendo impedidas de realizar a prova teórica exigida durante o processo de habilitação para dirigir porque, pasmem, estavam com suas saias uns dois dedos acima do joelho... E o doce – suave como um paquiderme – funcionário do Detran de Sergipe alegou o seguinte: “vocês não estão vestidas decentemente”! Quer dizer... Era algo tão surreal, tão inimaginável (e olhem que eu não estou nem entrando nas outras dezenas de assuntos que podem ser debatidos aqui...) que, sinceramente, eu quase não acreditei nisso.
Logicamente, é manifesto que – talvez porque não saibamos lidar com nossa libido e com as questões referentes à sexualidade, e a internet e o whatsapp estão aí pra contar a história... , ou talvez porque ainda não sejamos tão civilizados quanto achamos que somos, ou talvez por ambos os motivos – a exposição pública do próprio corpo ainda é uma questão bastante polêmica no Brasil em muitos contextos sociais, mas sinceramente ainda é de impressionar como uma coisa que deveria ser tão natural e que você faz todo dia, como ficar pelado, (logicamente, nem sempre com a presença de muitos expectadores...) ainda seja um tabu e que atrapalhe bastante ainda a vida de muitas pessoas ainda em nossos dias... E, infelizmente, o exemplo do parágrafo acima é apenas mais um exemplo possível.
Não é, portanto, de admirar que constatemos com espanto que, em pleno século XXI, num país onde a exposição do próprio corpo é, em muitos contextos sociais, até lugar-comum, as pessoas ainda não se dão conta que dignidade e demais valores morais não tem relação de causa e efeito com as roupas que se usa! Aliás... Moramos num país tropical, quente pra cacete, e não é difícil encontrar muita gente muito mais decente que o Silas Malafaia (que anda de terno e que é ‘religioso’) andando de shortinho e mostrando a barriga. Não é à toa que já dizia o Ferreira Gullar: “Obscenidades maiores são praticadas de terno, hein? De terno!!! E não pelado!”
E nessa vibe, prezados colegas, embora precisemos admitir – logicamente não somos tão cegos assim – que as roupas tenham sua função, como por exemplo, proteger o corpo, do frio ou do sol, ou mesmo nos permite expressar também a nossa subjetividade, nossa identidade, nossa maneira de viver e ser no mundo (à guisa de exemplo lembremo-nos nos Geeks (me included) que adoram vestir camisetas de vídeo-games e afins... Da turma ‘Zen’, que tem uma forma mais ‘descolada’ de se vestir e até mesmo do Playboy, que também tem suas vestimentas características...) a exigência de ter que se andar vestido, principalmente se de forma A ou B específica, serve mais como uma máscara social que se nos apresenta em tom ainda mais alto quando nos lembramos que as roupas servem justamente como um marco de distinção social: anda vestido de forma A, é bom, bonito e bacana, não anda, é ‘ralé’. Sem maiores discussões. E isso sem esquecer a nossa questão central debatida aqui: anda vestida assim, é piranha. Sentença: execração pública ou estupro – o que for mais conveniente. Sem direito a recursos.
Não imaginem, por favor, que estou defendendo aqui que, a partir de agora, teremos todos que andar todos pelados! Tiremos as roupas para um mundo mais justo! Risos! Vejam bem, não é bem isso que estou falando (embora não tenha nada contra)... Mas fica difícil não perceber que a exigência (eu disse EXIGÊNCIA) de andar vestido, ainda mais de maneiras específicas (como dito no parágrafo acima), é uma puta hipocrisia, uma vez que para o bem do comércio e, ou sob quaisquer outros pretextos, a grande senhora mídia, esperança dos que mais nada podem esperar, utiliza-se do corpo nu para promoverem quase qualquer coisa que seja “vendível”.
E vejam mais: a grande mídia não é a única culpada. Pessoas comuns fazem ‘swing’ na calada da noite, em lugares escondidos, compram ‘Playboy’, mostram a bunda na praia, adoram ver cenas picantes na novela da Globo, tratam ‘o outro’ como um pedaço de carne, mas não em público! Em público e na vida cotidiana comum, em nome da civilização, dos princípios éticos normatizados (e, além do mais, ficar nu em público é crime(!) – contravenção penal prevista no Código Penal Brasileiro, artigos 215-216 – daí é que se pode deduzir que a norma é andar vestido com alguma coisa) defendem que não se pode ficar pelado, sob pena de ser rechaçado, ultrajado, ofendido, humilhado, e até preso. Afinal de contas, tratar o outro como objeto não é imoral! Imoral é andar nu...
À guisa de exemplo, pra justificar meu ponto de vista, trago de volta aqui aquele caso da menina da UNIBAN, a Geyse Arruda: num espaço acadêmico (onde as pessoas deveriam, em tese, pensar, ou ao menos ter algo de bom na cuca... Mas tudo isso em tese...) e numa sociedade na qual a nudez tem um relativamente grande espaço na arte, cinema, teatro, pinturas, esculturas , fotografias, e até mesmo na moda, na MODA!, as vestes da ÚLTIMA MODA que adornavam parte do corpo da aluna da UNIBAN foram motivo suficiente para que a turba ensandecida a ultrajasse, humilhasse, xingasse, em suma, a escorraçasse de tal forma pela sua nudez presumida, que não poderia eu relatar aqui metade do furor e celeuma que se pode ver no You Tube. Logicamente (?), como se isso ainda fosse pouco, a ‘vagina da discórdia’ de Geyse ainda lhe rendeu uma expulsão, a qual a Universidade procedeu – mas depois voltou atrás, em parte pressionada pelo advogado de Geyse, em parte pela opinião pública – no dia imediatamente posterior ao ‘acontecido’. Claramente esse caso ilustra com precisão milimétrica a que ponto chega a hipocrisia social – e que não exagero em falar nas humilhações às quais estamos sujeitos – nessas questões que envolvem a nudez, e principalmente a nudez feminina.
Enfim... Por fim, como se não faltasse mais nada para completar a orgia da hipocrisia social, a parte humilhada, Geyse Arruda, que se disse extremamente abalada e coisa e tal, negociou, pouco tempo após o episódio, tirar – dessa vez, totalmente – a roupa para as revistas masculinas Sexy e Playboy. Com o dinheiro e a ‘oportunidade’ que a sua nudez proporcionou, a ex-estudante de turismo decolou uma carreira na televisão... Com efeito, existem muitas questões a serem discutidas aqui, mas, como queríamos demonstrar, o fato é que a nudez, que é castigada, é também ferramenta de ‘distinção’ social, mas, atenção: não pode ser exibida em público, exceto se somente em certos lugares autorizados por lei e tacitamente pelos hábitos e costumes (como na TV, por exemplo...).
Neste contexto, o que toda essa ‘moralidade’ que regulamenta o DEVER de andar devidamente vestido conforme a ocasião normatiza é, na verdade, a legalização da hipocrisia e de mais ferramentas de dominação social dos sans-cullote pelos abastados; é apenas mais uma mediatização (isso mesmo, mEdiatização) das relações entre os homens e que constitui numa eficiente forma de fazer-nos conhecer pelos outros de uma maneira que queremos, nos passando, muitas vezes, por algo que não somos, construindo barreiras que limitam a possibilidade reconhecer o outro como meu semelhante, não somente no que tange à animalidade natural da espécie, mas em posição social, em moralidade e dignidade.
E para aqueles que pensam que eu estou meio abilolado, deixo um último exemplo de modo a evitar que tais proposições assumam na cabeça do leitor uma visão tal qual uma miragem ou devaneio teórico: uma empresa de marketing da Inglaterra, visando promover o bem-estar da equipe e melhorar as relações entre os funcionários, propôs a sua equipe que todos os funcionários trabalhassem pelados por um dia. O evento, batizado de “Naked Friday”, não foi imediatamente aceito, contudo, paulatinamente os funcionários da empresa renderam-se ao convite e, de todos os funcionários, apenas dois não trabalharam totalmente pelados – mas ainda trabalharam trajando somente peças íntimas. Daqueles que se dispuseram a mostrar para todos como vieram ao mundo, todos aprovaram a experiência, e, de uma forma geral, assumiram que a perda das roupas os fez derrubar as barreiras que existiam entre eles melhorando o relacionamento no trabalho e aumentando a produtividade (Joguem “Naked Friday” e “The Telegraph” no Google que vocês acham a notícia).
Aí, depois de tudo isso, vocês vêm me dizer que é ‘moral’ e ‘decente’ uma regra que determine que uma mulher não pode fazer uma prova numa repartição pública porque está ‘indecente’? Com todo o respeito do mundo, é mais que inadmissível, em qualquer contexto, e em qualquer repartição, que a falta de quaisquer vestimentas que sejam te impeça de ter acesso a um serviço público PELO QUAL VOCÊ PAGA INDECENTES IMPOSTOS todo santo dia. INDECENTE é essa LEI IMORAL que diz que homem só pode entrar em repartição pública de calça, que terno é que é decente e deputado ganhe auxílio, vindo do bolso do contribuinte, pra comprar Hugo Boss e Giorgio Armani.
Não! A nudez NÃO é, necessariamente, indecente. A nudez NÃO é barbarismo. A exposição do corpo não é (necessariamente) falta de decoro ou desvio de conduta... Em uma sociedade esquizofrênica como a nossa, em muitos casos a exposição, a nudez, a naturalidade é uma oposição frontal à civilização e uma crítica a uma organização social tal que, como herdeira da religião, possui uma visão criminalizante acerca da própria natureza do corpo do homem, e, como curral dos dominantes, impõe uma vida numa coletividade de máscaras que são a antítese, literalmente, da honestidade e transparência.
E, para jogar a pá de cal, como se não bastasse de indecência e para minar o último ‘argumento’ dos caretas, é impossível provar que fazer uma prova de calça ou saia abaixo do joelho vai me fazer mais ou menos inteligente. Aliás, na Inglaterra a nudez fez foi aumentar a produtividade. A única conclusão que posso tirar, portanto, disso tudo, além daquele que me força a achar uma excrescência as leis que me OBRIGAM a não andar nu, é, talvez, meus amigos, que os nossos deputados e vereadores devessem trabalhar pelados. Quem sabe assim, finalmente, eles fariam alguma coisa decente pela sociedade, porque de indecência os caros bolsos dos seus ternos Armani já estão cheios...


 Guilherme Fernandes é mestre em Filosofia e acadêmico de Medicina.