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terça-feira, 1 de junho de 2021

Livros para junho

 Saudações aos navegantes, meninos e meninas e menines. Depois de meses, voltamos, mesmo que não seja com uma frequência constante e certa, mas estamos aqui para um sinal de vida, recomendações de livros bons e o desejo de que você, seja quem for que esteja lendo, esteja bem. Se estiver no Brasil, sabemos que estar bem é um termo muito forte e difícil de ser totalmente sincero. Mas espero que esteja bem, que goste das recomendações, e fique à vontade para me recomendar algo também. Se cuide e até logo mais.


1. Ninguém escreve ao coronel (Gabriel García Márquez, 1969)
Um dos primeiros livros do nosso vencedor de Nobel preferido é relativamente curto, mas inesquecível. A novela que acompanha um coronel reformado e decadente, que vive com sua velha e asmática esposa e um galo de brigas magrelo deixado por seu filho falecido é capaz de despertar vários sentimentos no leitor: pena, indignação, mas também arranca umas boas risadas. O magro coronel vive à espera de correspondências do exército com a resposta ao seu pedido de pensão por sua carreira militar, sob olhares compadecidos dos vizinhos e conhecidos. O livro é narrado de modo bastante realista - ainda não era o realismo fantástico tão bem desenvolvido por Gabo - mostrando pobreza e a história repleta de guerras e revoluções da Colômbia, que poderia ser de vários outros países latinos. A estória é deliciosa, fluida e com um final espetacular com uma palavra inesperada. Leia e descubra.
Nota: 10

2. 
O Poderoso Chefão (Mario Puzo, 1969)
O  grande romance da máfia. A grande estória da máfia. Livro que inspirou um dos melhores e mais queridos filmes de todos os tempos, O Poderoso Chefão acompanha a Família Corleone, a mais poderosa das famílias sicilianas que dominam a máfia de Nova York. Ambientada no fim da década de 40, pós 2ª Guerra Mundial, mostra a transformação dos negócios da família com a velhice de Don Vito, a presença de seus filhos nos negócios e a constante tensão com as outras famílias e a polícia - sim, praticamente igual ao primeiro filme da trilogia. Para quem assistiu aos filmes, o livro contém basicamente todo o primeiro filme e uma parte do segundo. A fidelidade dos filmes ao livro é imensa, afinal o autor Mario Puzo foi coautor dos roteiros dos filmes. E o romance é bom. Deus do céu, que livro bom!
Nota: 10

3. Contos vol. 1 (Ernest Hemingway, publicados originalmente entre 1927 e 1961)
Há pouco que eu possa falar sobre essa reunião de contos de Hemingway - desnecessário dizer o excelente contista que ele era. Esse primeiro volume (de três lançados no Brasil pela editora Bertrand) inicia com contos protagonizados por Nick Adams, célebre personagem autobiográfico de Hemingway, mas percorre diversos cenários recorrentes na obra do autor: Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e África, desfilando por temas também recorrentes: caça, pesca, bebedeira, amores intensos. É impossível dissociar a escrita de Hemingway de sua vida pessoal, logo esses contos são relatos fieis da época, da juventude do escritor, de parte de seu exílio junto à brilhante geração perdida dos anos 1920.
Nota: 9,5/ 10

4. O Primo Basílio (Eça de Queiroz, 1878)
O motivo que me levou a ler uma das principais obras de Eça de Queiroz foi deveras aleatório: o encanto pelo trecho do livro que é citado por Arnaldo Antunes no meio da música "Amor, I love you" de Marisa Monte. Mas eu estou dizendo isso só porque eu gosto de um rolê aletório. Vamos ao enredo: o livro é centrado na figura de Luísa, a jovem esposa do engenheiro e funcionário público Jorge. O típico casal de classe média, respeitado na pobre vizinhança e por amigos distintos e leais, é bem visto aos olhos da sociedade. Porém, como estamos falando de um romance realista, tem que ter algo de podre no reino da Dinamarca (de Portugal, no caso): o motor que propulsiona a estória é a chegada de Basílio, o charmoso primo de Luísa, que chega do Brasil muitos anos depois de se despedir da prima, com quem tivera um breve romance. Basílio volta a Lisboa justamente quando Jorge está numa longa viagem ao interior, e aproveita a ausência do marido da prima para seduzir Luísa, que vai descobrindo em si uma nova pessoa: seu interior, antes preenchido pelo pacato casamento, é ocupado pela abrasante paixão proibida que sente por Basílio. A aventura inconsequente se mostra cara demais quando Juliana, a amargurada empregada de Luísa, descobre a traição da patroa e passa a chantageá-la. Ao longo desta inesquecível estória de adultério, Eça de Queiroz constrói um sólido e ácido retrato da sociedade lisboeta do fim do século XIX.
Nota: 10

Luís F. Passos

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Sobre 2020, o alçapão do inferno e alguns livros


D
urante o ano eu e outros tantos dissemos, em tom de brincadeira: "coitado de quem tiver que fazer a retrospectiva 2020...". Bem, se eu dizia isso, não sou eu que vou fazer uma retrospectiva aqui. Mas, porém, contudo, no entanto e todavia, senti a necessidade de manter o hábito, abandonado apenas em 2018, de falar sobre o ano que se encerra. E esse 2020... ah, esse menino maroto que foi 2020... esse peste que parece aqueles pirralhos que o pai puxa pela orelha e a mãe bota no colo pra esquentar o traseiro. 366 dias, 366 vezes em que nosso corpo celeste que temos como casa deu a volta ao redor de si mesmo enquanto corria para dar uma volta ao redor do astro rei. Bem, pega a pipoca, o lenço de papel, a água e vamos juntos rir e chorar um pouco falando sobre um ano que não vamos conseguir esquecer.
Obviamente o grande assunto de 2020 foi a pandemia. Mas vamos tentar lembrar do que teve antes: nosso presidente querendo treta com Irã e alguns dias de piadas na internet sobre a possibilidade de guerra. "O que esse homem ainda vai inventar?" Eita, gente, não faltou coisa. Enquanto se cavava a sujeira do miliciano e seus filhos, eles começaram a incentivar os apoiadores em atos antidemocráticos que pediam fechamento do Congresso, do STF e outras barbaridades. Aí, em fevereiro, o tal vírus descoberto na China começou a se espalhar pelo mundo. E a gente aqui fazendo piada, achando que isso não chegaria aqui. Quantas referências ao corona e à cerveja Corona no carnaval? Mas no fim de fevereiro, ele chegou. Chegou com força, e duas semanas depois os governadores e prefeitos iniciaram as medidas de isolamento social para tentar conter a doença que foi oficialmente classificada como pandemia pela OMS no dia 11 de março. Bolsonaro, que já tinha dito que o medo do vírus era um histeria, foi à televisão no dia 24 de março para dizer que a Covid-19 é uma gripezinha - marco inicial da sabotagem promovida pelo presidente contra as ações do Ministério da Saúde e dos Estados. A partir daí os índices de isolamento começam a cair e percebemos que vinha um inferno pela frente. E como diz um amigo meu, o inferno tem alçapão: você acha que não dá pra piorar, mas a situação piora, e muito. Ataques à democracia, avanço do ataque à natureza com Amazônia e Pantanal em chamas, atraso na liberação do auxílio emergencial, desemprego, fome, desespero. E como não lembrar daquela reunião ministerial denunciada por Moro, o rato que pulou do navio que parecia prestes a naufragar? Era reunião ministerial ou de quadrilha?
Milhões de doentes, quase duas centenas de milhares de vidas perdidas - números que sabemos ser bem maiores, tamanha a subnotificação da Covid no Brasil. Aos poucos os números começaram a ganhar rostos conhecidos. Vi vários colegas e amigos adoecerem. Vi amigos perderem familiares. Atendi e continuo atendendo casos de Covid. Acabou que aprendi - todos aprendemos - a lidar não só com a doença mas também com o clima desesperador na pandemia. Em março, a incerteza, o medo de adoecer ou de contaminar alguém da família me fizeram chorar, assim como muitos outros profissionais que chegaram a sair de casa para proteger os seus. Sentimos medo da doença, perplexidade e raiva diante do mau comportamento de quem parecia ignorar o caos, e ódio de lideranças políticas que negavam e seguem negando a gravidade de uma doença capaz de matar e de deixar graves sequelas. Diziam que as pessoas iriam sair melhores da pandemia. Como? Indo pra festa e cagando e andando pra quem tava morrendo? 
O fato é que 2020 foi bizarro. Não só pela Covid, mas por muitos outros motivos. O que dizer de um ano que trouxe o rolê mais aleatório de Ronaldinho Gaúcho (a prisão!)? O ano da naja de Brasília, da chance do vira-lata caramelo ir pra nota de 200 reais. Um ano de muitos memes, óbvio, porque o brasileiro não deixa de rir da própria desgraça. Um ano de muitas perdas, não só para Covid, mas para outras doenças também. 2020 conseguiu levar até a imortal Olivia de Havilland, de 104 anos, última atriz viva do elenco de E o vento levou. Perdemos pessoas brilhantes da música, da literatura, do cinema, do esporte. Sentiremos falta de Flávio Migliaccio, Chadwick Boseman, Sean Connery, Diego Maradona, Quino, Kirk Douglas, Aldir Blanc, Moraes Moreira, Nicette Bruno, Tom Veiga, entre tantos outros. Pessoas tão necessárias nesses tempos difíceis, afinal, a arte sempre teve e terá a nobre função de deixar a vida mais leve, de nos distrair dos problemas, de nos fazer enxergar os problemas de um modo diferente. Precisamos e precisaremos ainda mais de arte para nos apoiar, afinal, todo o sufoco pelo qual passa o Brasil deve se manter por algum tempo e piorar nos próximos meses, já que as crises econômica e sanitária não têm previsão de resolução. É, gente, pelo visto vamos continuar descendo por alçapões, chegando ainda mais fundo no inferno ou no poço. Encerro aqui desejando saúde física e mental, força, amor, paz e dias cheios de sorrisos para todos. Que venha a vacina para que possamos nos ver e nos abraçar, e que venha o impeachment de Bolsonaro para que tenhamos motivo para comemorar por dias e dias seguidos. Fiquem com a lista dos cinco livros que mais gostei dentre os treze que li no ano de 2020.



5. 2001: uma odisseia no espaço, Arthur C. Clarke
Quando Stanley Kubrick se inspirou em um conto do escritor e cientista Arthur C. Clarke, os dois gênios se uniram para escrever as bases do que se tornaria um marco na ficção científica: eles começaram a trabalhar juntos e depois se separaram; Kubrick terminou o roteiro do filme e Clarke foi terminar seu livro. 2001 inicia na pré-história, há milhões de anos, quando um misterioso monólito surge num deserto e parece ser o catalisador da evolução de primatas humanoides. Milhões de anos depois, na era espacial, um monólito semelhante é encontrado sob a superfície lunar, motivando uma missão espacial que rumava a Júpiter e posteriormente a Saturno. Os cientistas David Bowman e Frank Poole comandam a nave Discovery, junto ao super computador HAL 9000, enquanto outros três tripulantes permanecem em um tipo de hibernação em máquinas especiais, para serem acordados apenas quando chegarem ao destino. Fatos extraordinários abalam a missão, justificando a palavra odisseia do título. O que temos aqui é uma obra incrível, sem paralelo, mostrando como poucas o poder da imaginação humana, a vontade humana de conhecer o que tem para dentro e além de nós, de nosso mundo, de nossa concepção de universo. Me cativou da mesma forma que o filme.
Nota: 10

4. O amor nos tempos do cólera, Gabriel Garcia Márquez
Livro muito comentado e lido em 2020, além de seu título ser usado no trocadilho "o amor nos tempos do corona" (eu mesmo usei bastante). Esse é um dos romances mais conhecidos do mestre Gabo, escrito nos anos 80 logo depois do ano sabático que o escritor se deu após ganhar o Nobel de literatura em 1982. Baseado numa história verdadeira - de seus pais - em que um rapaz apaixonado usava a rede de telégrafos para se comunicar com a amada, cujos pais se opunham ao romance, García Márquez narra uma história de amor e devoção que atravessou décadas. O telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza é um pobre rapaz que se apaixona por Fermina Daza, moça de família rica (apesar dos negócios de seu pai serem obscuros), e passa a se comunicar com ela por cartas durante alguns anos, até que pede sua mão em casamento - carta que demora 4 meses a ter resposta. Depois que o pai de Fermina descobre o namoro epistolar, manda a filha para a casa de parentes em lugares distantes, e é aí que a rede telegráfica é usada para a comunicação do casal. Fermina acaba se casando com um médico aristocrata, mas nem a distância e nem o tempo são capazes de pôr fim ao amor de Florentino. A magistral escrita de Gabriel García Márquez nos proporciona um romance interessante, bonito e até mesmo pitoresco - afinal, estamos falando do mestre do realismo fantástico.
Nota: 10

3. Sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk
Certamente minha maior e melhor surpresa literária, já que eu nunca ouvira falar do livro ou da autora, esse romance polonês me foi dado de presente em meu aniversário e me conquistou logo nas primeiras páginas. Nossa protagonista, Janina Dusheiko, é uma professora de inglês aposentada que vive numa região distante e pouco habitada da Polônia, marcada por invernos rigorosos, solidão e temporadas de caça agitadas. Dusheiko, entusiasta de astrologia e poesia inglesa, abomina a caça e é conhecida na vizinhança pela defesa dos animais - inclusive, é vegana, não consumindo nada de origem animal. Quando pessoas ligadas à caça começam a aparecer mortas, em crimes brutais e difíceis de serem explicados, Dusheiko levanta a suspeita de que os animais da região podem estar envolvidos nas mortes, já que sempre havia animais silvestres nas cenas dos crimes. Ao longo do livro a autora explora, além do tema da relação humana com os animais, temas como machismo, preconceito e pessoas que vivem à margem da sociedade. Com um texto fluido e muito envolvente, a obra prende o leitor do começo ao fim.
Nota: 10

2. Hibisco roxo, Chimamanda Ngozi Adiche
Agridoce é uma boa palavra para falar sobre esse romance incrível. A deliciosa narração de Chimamanda nos traz a jovem Kambili, uma adolescente nigeriana, filha de um dos homens mais ricos e poderosos do país. Seu pai, Eugene, é dono de jornal e empresário, e está ainda mais em destaque porque a Nigéria atravessa um delicado período político com a chegada de militares ao poder - a quem ele faz oposição. Mas o principal tema do livro é o impacto da chegada do catolicismo ao país; o pai de Kambili se converteu à Igreja Católica, abandonando as tradições locais, as quais chama de pagãs, chegando ao ponto de cortar todas as relações com seu pai. Seguimos com Kambili enquanto ela conhece a vida para além dos altos muros da mansão da família e do rígido controle do seu pai, especialmente quando ela passa a manter contato com uma tia professora e seus primos que não têm a mesma vida de conforto que ela. Livro denso, rico, muito emocionante. Imperdível.
Nota: 10

1. Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway
Provavelmente o melhor livro de Hemingway, esse foi o primeiro livro que li em 2020 e nenhum dos que vieram depois lhe tirou a posição de melhor livro lido no ano. Ao longo de mais de 600 páginas acompanhamos o americano Robert Jordan, combatente da Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, que recebe a missão de explodir uma ponte na região de Segóvia. A narração acompanha poucos dias na vida do rebelde, mas são dias suficientes para que ocorra uma mudança importante em seu interior - uma pessoa seca, objetiva, calculista, alcançando a humanidade. Além de Jordan, outras personagens marcantes são apresentadas, todas elas fundamentais para o processo de mudança sofrido pelo protagonista. Esse livro maravilhoso é marcado pela sempre presente sinceridade do autor, e aqui, num nível ainda mais elevado que nas outras obras. Hemingway trabalhou como jornalista cobrindo a Guerra Civil Espanhola, e deixa transparecer em seu livro a crueza e horrores da guerra, e o que ela provoca nos corações dos homens.
Nota: 10

Luís F. Passos

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Cinco livros em 2019

Bem, amigos do Sagaranando, este corpo celeste azul que chamamos de lar está completando mais uma volta ao redor do astro rei, e é hora de relembrar alguns pontos deste menino maroto chamado 2019. Um ano em que apanhamos na cultura, na educação, no meio ambiente, nos movimentos sociais... e ainda tem mais três anos, taokey? O Brasil mergulhando cada vez mais nas águas turbulentas do autoritarismo e da intolerância, se tornando mais desigual e gradativamente mais deslumbrado perante o absurdo que se tornou nosso cotidiano. Mas também foi ano de alegrias, de conquistas pessoais, mas isto é assunto para mais tarde, talvez. Hoje vamos falar de livros! Consegui ler uma quantidade boa, a maior desde 2014, e quase todos eles de ótima qualidade. Antes de falar dos cinco melhores, quero dizer que Vá, coloque um vigia de Harper Lee, a continuação do maravilhoso O Sol é para todos, foi uma decepção. Mas estas serão cenas de próximos capítulos.  Desejo a todos um 2020 de paz, saúde, conquistas, ótimos livros e filmes maravilhosos. Tentarei (Ten-ta-rei!) retomar, mesmo que em pequenas doses, as atividades do blog no próximo ano.
Vamos aos cinco livros que mais me cativaram em 2019.
5. Me chame pelo seu nome, André Aciman
Livro que inspirou um dos mais destacados filmes de 2017, Me chame pelo seu nome nos leva à Riviera Italiana dos anos 80, onde um professor universitário abre as portas de sua casa todos os anos no verão a algum jovem acadêmico, oferecendo orientação em troca de ajuda com seu trabalho científico. O escolhido da vez é o americano Oliver, uma figura carismática, sedutora e um tanto quanto enigmática. Oliver imediatamente conquista a todos, mas é com Elio, filho do professor, que ele desenvolve uma relação especial - e aí temos a temática do amor, da insegurança, da descoberta da sexualidade (por parte de Elio). Uma estória tocante, bonita, despretensiosa. Do tipo de livro que a gente lembra com carinho.
Nota: 9.0/ 10

4. Este lado do paraíso, Francis Scott Fitzgerald
Esses tolos sonhadores... o primeiro romance de Scott Fitzgerald nos leva aos Estados Unidos do fim da década de 1910. Amory Blaine, o protagonista, é filho de uma família de quem recebeu bastante conforto, mas pouco afeto - apesar de sua mãe Beatrice o adorar. Tendo um pai distante e uma mãe mergulhada em melancolia e ilusões, quando adolescente Amory decide ir para um colégio interno de elite. De lá, vai para a Universidade de Princeton, onde desenvolve ambições literárias, se envolve em diversas e sucessivas paqueras, até conhecer o amor e a desilusão. Em certo ponto Amory se dá conta do castelo de cartas que era sua vida, bem como a sociedade em que vivia, superficial e mantida por aparências. Este livro, cuja primeira edição esgotou em três dias, definiu uma época e uma geração que tanto se identificou com ele. O mundo então sabia: nascia um gênio literário. Nota: 10

3. Ter e não ter, Ernest Hemingway
Mais um livro de Hemingway e mais um motivo pra ele ser um de meus autores preferidos. O protagonista é um típico personagem que o escritor americano adorava retratar: um homem durão, devotado à família e com a vida intrinsicamente ligada ao mar. Harry Morgan, vivendo entre Havana e a Flórida, convive diariamente com pescadores, bêbados, arruaceiros, prostitutas, mas também com comandantes de navios de luxo e milionários alienados que queimam dinheiro no litoral - uma fauna humana tão recorrente no trabalho de Hemingway, e que sabemos que guarda diversas semelhanças com pessoas que conviveram bastante com ele. O livro traz uma ação forte e faz menção a questões políticas, o que fica perfeito com o diálogo contundente que é marca registrada de Ernest Hemingway, combinado com uma prosa direta, enxuta, sem muitos rodeios. Legítimo e brutal como a propria vida do escritor.
Nota: 10

2. Fahrenheit 451, Ray Bradbury
Uma das distopias mais conhecidas e mais importantes, a obra-prima de Ray Bradbury apresenta um mundo horrível em que livros são inimigos e incinerados pelos bombeiros, as pessoas se comportam como zumbis diante das televisões (que são as coisas mais importantes dentro de uma casa) e podem se distrair da apatia da vida cotidiana dirigindo a 200 km/h. Neste cenário futurístico desolador vive o bombeiro Guy Montag, desolado pelo tédio de sua vida e pela convivência com sua mulher, que vive inerte frente a uma televisão. A partir do contato com Clarisse, uma jovem vizinha, Montag passa a refletir e se indignar com a doentia ordem vigente - claro que isso trará graves consequências. Um livro duro, sufocante, essencial em tempos sombrios como os que vivemos.
Nota: 10
1. Travessuras da menina má, Mario Vargas Llosa
Que livro! Senhoras e senhores, que romance. Algo que só um escritor do quilate de Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010, pode conceber. Acompanhamos aqui a nada convencional estória de amor entre Ricardo e Lily - ele, peruano que vai morar em Paris ainda jovem e trabalha como intérprete e tradutor; ela, uma aventureira que surge a cada década em uma cidade diferente com uma identidade diferente e vivendo uma vida completamente diferente da anterior. Ricardo conhecera Lily ainda na infância no tradicional bairro limenho de Miraflores, e a reencontrou novamente na revolucionária Paris dos anos 60, na Londres libertária dos anos 70, na cosmopolita Tóquio, e na Madri pós ditadura franquista nos anos 80. Este estranho amor cresce e se transforma ao longo dos anos,  cada vez que a menina má aparece e some na vida do bom menino Ricardo; ela envolvida em cenários de poder e riqueza, enquanto ele só tentava viver sua vida pacata. O enredo deste intrépido casal tem como plano de fundo as transformações sociais da Europa e a turbulenta política da América Latina (incluindo Revolução Cubana, golpes de estado na América do Sul e grupos de guerrilha. Numa dança de encontros e desencontros, a narração magistral de um dos maiores escritores do século XX.
Nota: 10

Luís F. Passos

sábado, 30 de dezembro de 2017

Cinco livros em 2017

Bem amigos do Sagaranando, mais um ano se vai e aqui estamos mais um dia sob o olhar sanguinário do vigia pra comentar algumas coisas desta última volta da Terra ao redor do sol. Neste primeiro de dois posts sobre essa montanha russa chamada 2017, vamos comentar sobre alguns livros que tive o prazer de ler - além da alegria de ter lido um pouco mais nesse ano. Apesar do tempo curto na maior parte do ano, da correria da faculdade e da ocupação pré - formatura (formei, mas isso é assunto pra amanhã), 2017 rendeu ótimas leituras, e em um número um pouco maior do que nos últimos dois anos. Vamos às cinco obras que mais gostei:

5. O velho e o mar, Hernest Hemingway
Uma das maiores obras de Hemingway, este livro de menos de cem páginas figura entre os livros mais importantes do século. O velho e experiente pescador Santiago, depois de fixar 85 dias sem pescar um único peixe, se lança ao mar e se vê diante de um dos maiores desafios de sua vida. Ele pesca um marlin gigantesco que arrasta seu barco por dias, ao longo dos quais é estabelecida uma relação de respeito, ao mesmo tempo em que o pescador enfrenta seus próprios limites num enorme esforço de dominar sua presa. Essa é a essência do livro: a luta do homem contra a natureza e também contra sua própria natureza e sua própria essência. Um livro incrível,  exemplo do que o bom e velho Hemingway conseguia fazer de melhor.
Nota: 10
4. Cândido ou O Otimismo, Voltaire
Acho que posso dizer que este livro define genialidade. Usando de um sarcasmo aguçado, Voltaire narra a história do jovem Cândido, que morava em um castelo e era aprendiz do sábio Pangloss, que o instruiu sobre ser otimista a respeito das situações e das pessoas - claramente puro veneno para criticar Rousseau, a quem Voltaire se opunha. Cândido, seu mestre e sua amada Cunegundes comem o pão que o diabo amassou em diversas circunstâncias e em vários lugares diferentes. Apesar disso, nosso intrépido herói insiste em permanecer otimista e esperar o melhor das pessoas ao seu redor. Uma obra magistral em que não faltam críticas à filosofia, a monarquias, religiões,  exércitos e diversos setores da sociedade. Cinismo e sarcasmo do jeito que a gente gosta.
Nota: 10
3. Olhai os lírios do campo, Erico Verissimo
O primeiro romance de um dos mais queridos escritores gaúchos foi um sucesso imediato, e não é difícil imaginar o motivo. A vida de Eugênio Fontes é marcada pela pobreza, ascensão social e conflitos de consciência. Nascido na pobreza, Eugênio sofre humilhações pelas roupas velhas e remendadas, pela submissão e passividade dos pais, pela diferença de suas condições de vida e de seus colegas. Com muito esforço,  Eugênio se forma em medicina e se apaixona por uma colega de turma, Olívia,  mas acaba se casando por interesse com Eunice Cintra, herdeira de uma rica herança. Eventos inesperados fazem Eugênio repensar sua vida, sua trajetória e o verdadeiro significado de felicidade. Uma história um pouco triste, mas sensível, bela e envolvente.
Nota: 10
2. O sol é para todos, Harper Lee
O clássico de Harper Lee é um dos livros mais amados pelos leitores dos Estados Unidos e é conhecido e querido em todo o mundo. A bela estória de Atticus Finch, advogado de uma pequena cidade do Alabama, é narrada pelo olhar de sua filha Scout, que era uma criança na época dos acontecimentos da narrativa. Nos anos 1930, quando os direitos civis para os negros ainda eram um sonho distante, Atticus assume a defesa de um homem negro acusado de estupro, em um caso cheio de falhas, onde o que mais pesava para a acusação era a cor da pele do réu. Além do desafio no tribunal, o advogado ainda enfrenta o preconceito e o ódio de várias pessoas da cidade que abominavam o fato dele representar um cliente negro, acusado de um crime de tal gravidade. O enredo é conduzido com uma delicadeza singular e carrega um pouco da inocência que Scout tinha na infância, fase cheia de descobertas e aprendizado, em que ela e seu irmão têm a oportunidade de descobrir a importância de se livrar de preconceitos e dar valor às pessoas pelo que são, e não pelo que aparentam ser. Obra fundamental em tempos de tanta intolerância, como o que vivemos atualmente.
Nota: 10
1. Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa
Depois de anos, reli meu livro favorito, por dois motivos: vontade de reler e vontade de escrever sobre ele no aniversário de seis anos do blog. Seis anos depois da primeira vez que o li, a emoção foi praticamente a mesma, e a satisfação foi ainda maior. Neste (único) romance de Guimarães Rosa acompanhamos a narrativa do ex jagunço Riobaldo, já idoso, sobre sua vida: breve relato da infância e adolescência e um extenso relato sobre seus anos na jagunçagem no grande grupo de Joca Ramiro, a morte deste pelas mãos de traidores, os desafios para obter a vingança e a confusão de sentimentos para com Diadorim, companheiro de bando, grande amigo, e no meio de tantos conflitos internos, seu grande amor.
A genialidade de João Guimarães Rosa usa um jagunço do sertão mineiro para examinar as profundezas da mente do homem e a partir daí elaborar uma estória da mais ampla universalidade. Os dilemas de Riobaldo atravessam tempo e espaço: amor e ódio, o que é o bem e o que é mal, a existência ou não de Deus e do diabo, a ideia psicanalítica do poder da vontade, entre outros. Tudo isso, associado à beleza da narração sobre a natureza local e principalmente do amor de Riobaldo por Diadorim ("Diadorim deixou de ser nome e virou sentimento meu") fazem deste um livro único, maravilhoso e inesquecível. Deixou de ser meu preferido? Nonada.
Nota: 10

Luís F. Passos

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Por Quem os Sinos Dobram - Eles dobram por ti



Ernest Hemingway, um dos mais aclamados escritores norte-americanos, dispensa apresentações e seu nome fala por si só. Escritor de clássicos com O Velho e o Mar e O Sol Também Se Levanta, alcança em Por Quem Os Sinos Dobram sua primazia, mais do que merecendo o Nobel de Literatura em 1954. E é sobre esse último livro que discorro afinal, uma leitura tão incrível merece ser comentada.
O livro retrata a missão do americano Robert Jordan de dinamitar uma ponte estratégica na região da Segóvia, durante a Guerra Civil Espanhola, na qual lutou ao lado dos Republicanos, contra o exército fascista. Na verdade o livro apenas inicia-se como uma missão, mas seu verdadeiro conteúdo transcende uma simples ordem militar. Explico. Robert Jordan começa o livro como um soldado modelo, daqueles que põe a própria vida em segundo plano ante um objetivo maior.
 “Você não existe e não existem as pessoas que não devem enfrentar isso ou aquilo. Nem você nem este velho são nada. Vocês são apenas instrumentos de sua missão. Vocês não têm culpa dessas ordens, elas são necessárias, e existe uma ponte, uma ponte que pode ser o vértice onde a mudança do futuro da raça humana irá acontecer. Assim como de repente tudo pode mudar nesta guerra. Você tem apenas uma coisa para fazer, e você deve fazê-la” 
A beleza do livro está em ver uma pessoa tão objetiva, tão seca, tão calculista alcançando o que podemos chamar de humanidade. Recheado de monólogos internos, acompanhamos a mudança da percepção do protagonista com relação à guerra, sua relação com as pessoas, sobre a própria vida, sobre a Espanha. A estória passa-se apenas em 3 dias e 3 noites, mas não é a toa que o livro possui mais de 500 páginas. E ao final dele, nós mesmos nos sentimos mais maduros e mais sábios. Como o próprio personagem reconhece, em 4 dias viveu uma vida inteira. Logo antes de executar a missão, sua mudança de perspectiva é patente:

“Quão pouco sabemos do que há para saber. Gostaria de ter uma vida longa, em vez de morrer hoje, pois aprendi tanto sobre a vida nestes últimos quatro dias, muito mais, eu acho, do que em todos os anteriores. Gostaria de me tornar um homem velho e verdadeiramente sábio. Tenho curiosidade de saber se a gente segue aprendendo, ou se há um certo limite de aprendizagem para cada homem. Pensei que soubesse tantas coisas e na verdade não sei nada. Queria ter mais tempo".
É claro que durante esse período várias personagens marcantes contribuíram para seu autoconhecimento. Para trabalhar na sua missão, teve de recorrer a alguns guerrilheiros espanhóis que viviam nas montanhas e o acolheram prontamente ávidos por ajudar a República. Personagens incríveis como o decadente líder Pablo, a sempre forte Pilar, a ingênua Maria, o fiel Anselmo, entre outros tantos que em conjunto despertam uma sensação de respeito mais profundo por um povo tão lutador, não só no sentido combativo. Aliás, seu romance com Maria marca uns dos pontos mais sensíveis da obra e tem especial significado para Robert, que de tão objetivo, nunca tinha amado. 
“Ele estava deitado na relva, de lado, a cabeça afundada nas urzes, sentindo o seu cheiro e o cheiro da terra, e o sol derramava-se, e ele sentia coceira nos ombros nus arranhados e ao longo de seu corpo, o corpo da garota deitada de frente para ele, com os olhos ainda fechados, e então ela os abriu e sorriu para ele, que lhe disse exausto, distante, mas amigável, “Olá, coelhinha”. (...) “Maria, eu te amo, você é tão encantadora, tão maravilhosa e linda, fazes-me coisas para ficar contigo que eu sinto como se quisesse morrer quando estou te amando”.— Oh, eu morro a cada vez. Você não morre?"
Uma das maiores qualidades desse livro é a sinceridade da obra. Hemingway foi correspondente em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola, e toda crueza de sua vivência nesse período transparece na leitura. Na verdade a guerra é inspiração de outros livros do autor, as touradas por exemplo vão inspirar o enredo de O Sol Também se Levanta, mas em uma dimensão muito menos densa, o que reitera opiniões de que Por Quem os Sinos Dobram é realmente sua obra prima. Livro este que é belo desde o início, com a mençãodo sábio poema de John Donne, o qual dará título ao livro. 
“Nenhum homem é uma Ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da terra. Se um Pequeno Torrão carregado pelo Mar deixa menor a Europa, como se todo um Promontório fosse, ou a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque Eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.”
Encerro essa resenha com um trecho do final do livro, na minha opinião das partes mais comoventes da obra. Aos que não gostam de spoillers, não leiam, apesar de o final ser um tanto previsível, o que não diminui em nada a qualidade do livro.

"Lutei durante um ano pelo que acredito. Se vencermos aqui, venceremos em todos os lugares. O mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele, e odeio ter que deixá-lo. Você teve muita sorte por ter uma vida tão boa. Teve uma vida tão boa quanto a do seu avô, apenas não tão longa. Teve uma vida boa como outra pessoa qualquer, por causa desses últimos dias. Você não vai querer reclamar, justo quando teve tanta sorte. Mas eu gostaria de passar à frente o que aprendi. Cristo, eu aprendi rápido no final.”