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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Filmes pro final de semana - 17/06

1. Intriga Internacional (North by northwest, 1959)
 Depois de Um corpo que cai, que não foi bem recebido por público e crítica, Alfred Hitchcock lança aquele que veio a ser um de seus maiores sucessos: o intenso Intriga Internacional. Cary Grant, assíduo colaborador de Hitchcock, é o publicitário Roger O. Thornhill, executivo de publicidade confundido com um agente secreto que a partir do infeliz mal entendido precisa fugir de um lado pra outro dos Estados Unidos, muitas vezes atrás da misteriosa loira Eve Kendall (Eve marie Saint), que tem uma estranha relação com aqueles que querem sua cabeça. Um filme cheio de ação, que lembra muito 007 (tanto que Hitchcock se recusou a dirigir o primeiro 007 afirmando que era plágio de sua obra), mas que eu esperava mais. Desculpa, Hitch.
Nota: 8,5/ 10
2. Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957)

Um dos melhores e mais conhecidos filmes de Ingmar Bergman também é um dos mais influentes. Em filmes como Desconstruindo Harry de Woody Allen podemos ver traços da imortal história de um médico e professor universitário, Isak Borg (Victor Sjöström), que viaja de Estocolmo a sua cidade natal de carro para receber uma homenagem. Um dia na estrada junto de sua nora e uns jovens caroneiros fazem o velho Isak relembrar sua juventude, seu amor por uma prima e pensar em sua vida, mergulhada no trabalho, cheia de decepções, além de pensar na própria mortalidade - tema que inicia o filme, quando Isak tem um sonho sombrio. Coroado no Festival de Berlim com Urso de Ouro (melhor filme) e prêmio de melhor ator para Sjöström, Morangos Silvestres permanece atual e vivo entre sua enorme legião de fãs.
Nota: 10
3. Disque M para matar (Dial M for murder, 1954)
Ray Milland, grande ator do cinema clássico e vencedor do Oscar de melhor ator por Farrapo humano (1945) vive aqui um ex-tenista chamado Tony Wendice, um cara cujo dinheiro se foi há algum tempo junto com a carreira no esporte. O alto padrão que ele ostenta é patrocinado por sua bela esposa Margot (ninguém menos que Grace Kelly), mas o casamento dos dois não vai bem e ele descobre que ela pretende deixá-lo para viver com um amante. Para não perder a boa vida - aliás, melhorar a vida financeira - Tony decide matar a esposa e ficar com todo seu dinheiro. Contrata um amigo para matá-la, mas o tiro sai pela culatra e no momento de desespero, Margot reage e mata o criminoso. Final feliz? Calma, nem chegamos à metade do filme. Tony elabora rapidamente um plano B e... só assistindo pra saber. Hitchcock, do jeito que só ele sabia fazer, conduz cenas muito tensas segurando os mistérios da macabra trama do marido ambicioso. Show de direção.
Nota: 9,5/ 10
4. Sabrina (1954)
Depois de sua triunfante estreia no cinema em A princesa e o plebeu, dirigido por William Wyler, que de cara lhe deu um Oscar de melhor atriz, Audrey Hepburn trabalhou com outro grande diretor, Billy Wilder. Na pele da protagonista Sabrina, Audrey interpreta a jovem filha do motorista de uma das famílias mais ricas de Nova York, que é apaixonada por um dos filhos do patrão. Decepcionada pelo fato do amado David (William Holden) ser um cafajeste, Sabrina viaja para a Europa para estudar, e volta anos depois transformada numa elegante mulher. A nova Sabrina vai voltar a mexer com o mulherengo David mas também com seu irmão mais velho, o austero Linus (Humphrey Bogart). Filme simples, mas prato cheio de elegância e do humor ácido de Billy Wilder.
Nota: 8,5/ 10
5. Crepúsculo dos Deuses (Sunset boulevard, 1950)
Crepúsculo dos deuses é uma grande crítica à própria indústria do cinema e do entretenimento, um mundo que pode num momento elevar uma pessoa ao céu e, em questão de minutos, lançá-lo no total ostracismo quando não lhes é mais conveniente. É isso que ocorre com a Norma Desmond interpretada por Gloria Swanson. Uma musa do cinema mudo largada no esquecimento após o advento do cinema falado e que sofre com sua loucura e suas obsessões ao mesmo tempo em que alimenta fantasias megalomaníacas de uma volta ao estrelato que jamais ocorrerá. O roteiro de Wilder é fantástico. A forma como amarra as diferentes circunstâncias que culminam para o grande final, que é revelado já no início do filme, é de uma inteligência incrível. O filme é ácido, maldoso e as coisas se desenrolam de uma maneira ironicamente cruel para todas as personagens. Wilder não se importa de vê-las sofrer e as castiga pelos seus erros.  Filme não só obrigatório como essencial para os amantes do bom cinema.
Nota: 10

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Filmes pro final de semana - 04/07

1. Nebraska (2013)
Vi só alguns dos filmes que estiveram na corrida pelo Oscar esse ano, e sem dúvida foi Nebraska o meu preferido. A leve comédia familiar dirigida por Alexander Payne, diretor de Os Descendentes, acompanha a saga do velho e senil Woody Grant (Bruce Dern) em busca do suposto prêmio de 1 milhão de dólares que ganhou, na verdade uma propaganda que chegou pelo correio. Para receber sua fortuna, Woody deve ir até Lincoln, Nebraska, mas como ninguém quer levá-lo, ele decide ir a pé. Seu filho David (Will Forte) é o único que percebe que o pai não vai desistir por nada e resolve levá-lo de carro. No caminho, muita estrada, parentes há muito não vistos e outros de olho no prêmio de Woody. E acima de tudo, a relação entre um pai meio lunático e seu filho que viu a vida sufocar parte de seus sonhos. É a competência de Payne dedicada a um tema que ele provou que domina.
Nota: 9,0/ 10
2. Kill Bill vol. 2 (2004)
A segunda parte da sangrenta história de vingança da Noiva (Uma Thurman) pode não ser tão estilizada quanto a primeira (opinião minha), mas compensa com mais ódio, intensidade e tem o mérito de abordar os momentos que precederam o massacre na capela do Texas e também mostra como a Noiva se tornou uma máquina de matar sob o treinamento do milenar Pai Mei (Gordon Liu). A lista de vingança está mais curta, e falta o acerto de contas com Elle Driver (Daryl Hannah), Budd (Michael Madsen) e claro, Bill (David Carradine), o motivo de tudo acontecer. Mas a Noiva vai ver que nada é tão simples quanto pode parecer, e algo inesperado pode mudar seus planos. Um final de mestre pra um dos mais populares filmes de Tarantino.
Nota: 9,0/ 10
3. Cabo do Medo (Cape Fear, 1991)
Muitos dizem que foi em Cabo do Medo, última parceria De Niro e Scorsese, que o ator fez seu último trabalho notável em vinte anos, até O lado bom da vida (2012). De fato, a sucessão de papéis menores ou filmes de comédia no fim dos anos 90 e durante o ano 2000 nada condiziam com o grande ator que conquistou o mundo nos anos 70 e 80. Cabo do Medo é um filme de suspense em que Max Cady (De Niro) é um psicopata que ficou preso por estupro por 14 anos e atribui a culpa da prisão ao fracasso de seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte). Libertado, Cady passa a perseguir o advogado e sua família, além de seduzir a filha adolescente dele. Inteligente e muito violento, Cady transforma a vida da família Bowden num inferno.
Nota: 8,5/ 10
4. Rebeldia Indomável (Cool Hand Luke, 1967)
Mesmo antes da onda de filmes inovadores e icônicos dos anos 70, vez ou outra Hollywood presenteava o mundo com obras inconformistas. Esse é um dos melhores exemplos: Paul Newman interpreta Lucas Johnhon, mais conhecido como Luke, que ganha ainda a alcunha de Cool Hand, que foi parar na cadeia por vandalizar parquímetros. Uma vez preso, Luke se vê dentro de um sistema ainda mais rígido e opressor, e seu espírito rebelde traz punições cada vez mais graves. A atuação de Newman é impressionante, desde os olhares fixos e o magnetismo emanado de seus profundos olhos azuis, até sua presença e a personificação da personagem, através de discursos tensos. Diálogos ricos, cenas marcantes, um ótimo time de coadjuvantes e a direção ambiciosa são os outros ingredientes que fazem deste um filme imperdível.
Nota: 10
5. Sabrina (1954)
Depois de sua triunfante estreia no cinema em A princesa e o plebeu, dirigido por William Wyler, que de cara lhe deu um Oscar de melhor atriz, Audrey Hepburn trabalhou com outro grande diretor, Billy Wilder. Na pele da protagonista Sabrina, Audrey interpreta a jovem filha do motorista de uma das famílias mais ricas de Nova York, que é apaixonada por um dos filhos do patrão. Decepcionada pelo fato do amado David (William Holden) ser um cafajeste, Sabrina viaja para a Europa para estudar, e volta anos depois transformada numa elegante mulher. A nova Sabrina vai voltar a mexer com o mulherengo David mas também com seu irmão mais velho, o austero Linus (Humphrey Bogart). Filme simples, mas prato cheio de elegância e do humor ácido de Billy Wilder.
Nota: 8,5/ 10

Luís F. Passos

domingo, 2 de março de 2014

Oscar - grandes erros

Sandra Bullock – melhor atriz por Um sonho possível (2009/2010)
Melhor opção: Carey Mulligan por Educação / Gabourey Sidibe por Preciosa / Hellen Mirren por A última estação / Meryl Streep por Julie e Julia
NÃO. Simplesmente NÃO. Não é que eu tenha algo contra Sandra Bullock. Muito pelo contrário, a considero uma excelente atriz de comédias. Muito consistente, muito simpática, muito divertida. De uns tempos pra cá, até venho apostando mais no seu talento como atriz dramática (viram Gravidade? Ela está excelente e mereceu sua indicação), mas dar o prêmio por sua atuação sem sal nesse filme moralista, comportado, irritantemente bonzinho e politicamente correto é o cúmulo. Não é que ela esteja ruim, isso não é o caso. O caso é que o filme não abre margem para uma interpretação de verdade. Algo impactante, que realmente chame atenção. O máximo que Um sonho possível faz é arrancar algumas lágrimas de algumas pessoas mais emotivas. Para quem realmente quer ver algo de diferente, de original e de sensacional num filme através de uma atuação, Um sonho possível só arrancou bocejos. Ao contrário das demais indicadas ao prêmio neste ano que trouxeram atuações fantásticas. A principal concorrente de Bullock na categoria foi Meryl Streep por Julie e Julia. Se Meryl tivesse levado o prêmio não seria ruim, mas, para mim, também não seria de longe a melhor opção. Estávamos diante de três atuações sensacionais da lendária Helen Mirren e, principalmente, das quase estreantes Carey Mulligan e Gabourey Sidibe. Carey, em Educação, traz à tona o espírito feminino, da juventude e de toda uma época num filme belíssimo sobre amadurecimento. Gabby nos trouxe a história mais dramaticamente pesada dos últimos anos. É praticamente um filme de terror na base do sofrimento, carregado quase que totalmente nas suas costas. Apesar de qualquer uma das quatro serem mais merecedoras que Bullock, eu deixaria o prêmio entre estas duas últimas, sobretudo com Carey, por quem virei um completo fã, que conseguiu firmar uma carreira relativamente sólida emplacando excelência atrás de excelência.

Gwyneth Paltrow – melhor atriz por Shakespeare apaixonado (1998/ 99)
Melhor opção: Cate Blanchett por Elizabeth / Fernanda Montenegro por Central do Brasil / Emily Watson por Hillary e Jackie  
Caso clássico de gafe do Oscar. Clássico! Há mais de 15 anos a Academia escolheu premiar a atuação bonitinha e simpática da bonitinha e simpática queridinha dos anos 90 em vez de premiar atrizes de verdade – sem ofensas. Na competição, amargaram uma derrota nada a ver atrizes que realmente deram um espetáculo em cena. Não falo apenas por Fernanda Montenegro, mas todas as outras – com exceção, talvez, de Meryl Streep e seu Um amor verdadeiro bonitinho, mas whatever – trouxeram papéis bem mais impactantes. Quase todos aqui já devem ter visto Central do Brasil, então não preciso falar muito deste nem explicar o porquê de Fernanda ter sido indicada e ter sido merecedora do prêmio. Mas vocês, por acaso, já viram Elizabeth? Cate Blanchett é um monstro em cena nesse filme. De uma força incrível. E Hillary e Jackie? Esse, muitos podem nem ter ouvido falar, mas é um trabalho magistral da excelentíssima Emily Watson que transforma em ouro – apesar de não ter levado tantos prêmios quanto merecia – qualquer papel que toca. Sou fã de Fernanda Montenegro, de Cate Blanchett e de Emily Watson, então a vitória de qualquer uma das três teria sido algo fenomenal e muito mais admirável que a bobinha aí.

Crash – melhor filme (2005/ 2006)
Melhor opção: O segredo de Brokeback Mountain
Sabe quando qualquer outra opção é melhor? Pois é. Até dar o prêmio para filmes que nem tinham sido indicados seria uma opção mais interessante que premiar o esquecível – talvez não por ter uma cena muito bonita – longa sobre o choque entre diferentes pessoas de diferentes mundos, mas confinadas numa mesma cidade e entrelaçadas por conexões das mais próximas às mais distantes, através de ligações que só podem ser explicadas por destino ou coincidências. Enfim, esse é um resumo total do filme. Não é que Crash seja totalmente ruim, mas ele não tem exatamente nada de muito extraordinário, vindo de um ano em que havia filmes fantásticos na competição. Capote, Boa noite e boa sorte e Munique são grandes trabalhos, mas inaceitável mesmo é a derrota de O segredo de Brokeback Mountain, filme bem mais emotivo, bem mais delicado, bem mais inovador (apesar de usar uma fórmula base de amor trágico que é mais velha que o mundo) e bem mais memorável. Memorável não apenas por ser um conto sobre cowboys gays, mas por ser um dos filmes mais honestos sobre o amor feito nos anos 2000. Muito triste, muito melancólico, mas muito bem realizado, O segredo de Brokeback Mountain é um filme muito sóbrio e respeitoso sobre o relacionamento ao longo dos anos de um casal cujo grande impedimento à felicidade é o preconceito (social e internalizado) e o medo. Deveras mais interessante, inteligente, impactante e polêmico que Crash, do qual eu só consigo lembrar que tem uma bala de festim, um assédio sexual que tem alguma ligação com um carro capotado (???) e Sandra Bullock caindo da escada e sendo socorrida por uma mexicana (!!!).
O melhor de Crash sem dúvida foi na hora da premiação - a cara de Jack Nicholson ao anunciar o vencedor. Ponha em 1'32 e boa risada.


Sinfonia em Paris - melhor filme (1951/ 52)
Melhor opção: Uma rua chamada pecado / Um lugar ao sol
Hollywood vivia uma das épocas áureas dos musicais e a Academia resolveu coroar o insosso Sinfonia em Paris, estrelado por Gene Kelly, que vive um veterano da 2ª guerra que resolvera viver em Paris para tentar viver como pintor, se apaixona por uma bailarina, sai dançando e cantando por qualquer besteira e bla-blça-blá. Um filme fraco cuja única boa lembrança é a piadinha no começo do filme em que a personagem de Kelly diz: "Nos Estados Unidos diziam que eu não tinha talento... aqui também dizem isso, mas em francês soa mais bonito". Mesmo assim, o filme venceu o interessantíssimo e imortal Uma rua chamada pecado, com as inesquecíveis atuações do quarteto Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden, além do carismático drama Um lugar ao sol, famoso pela presença da então jovem e já promissora Elizabeth Taylor.

Minha linda dama - melhor filme (1964/ 65)
Melhor opção: Dr Fantástico
MAIS UM. Mais um ano em que um musical simplório vence - e olhe que se estamos nos anos 60, o musical tem 95% de chance de ser mais enjoativo que um saco de marshmallow. O pior é que nesse ano, dos cinco filmes indicados, apenas um merecia de fato o prêmio: a comédia de humor negro de Kubrick, o mais divertido e ácido trabalho do diretor que é ícone quando se fala de gênios do cinema e injustiçados do Oscar. O astuto filme sobre apocalipse nuclear perdeu para o ingênuo e irritante filme de três horas em que Audrey Hepburn sapateia e saltita pelas ruas e palacetes de Londres, num diferente tipo de plebeia que vira princesa (na verdade trata-se de um experimento social feito por um professor) que seria melhor indicado para casos crônicos de insônia. Amamos Audrey, mas Minha linda dama não dá pra engolir.

A noviça rebelde – melhor filme (1965/66)
Melhor opção: Doutor Jivago / Darling
Cara, eu odeio esse filme. É tão bobo, entediante e bem comportado que me dá vontade de vomitar. Já estávamos bem avançados nos anos 60 para dar tanta ênfase a este filme sem sal quando já se tinha uma grande quantidade de produções muito mais apropriadas a sua época e ao novo estilo de pensar e agir que viriam com tanta força alguns anos depois e, principalmente, nos anos 70. Filmes indicados como Darling – a que amou demais traziam um conteúdo muito mais sério e muito mais apropriado para a nova geração crítica e ácida que surgia. Não estou dizendo que naquele ano as pessoas já estavam prontas para Perdidos na noite (vencedor de melhor filme em 1970), mas também não se pode dizer que a história de uma freira cantora e um bando de pirralhos louros fugindo de nazistas e cantando músicas entediantes fosse o mais apropriado. Porque não os meios termos? Caso ainda quisessem apostar no caminho mais tradicional, vale lembrar que o clássico universal Doutor Jivago também é do mesmo ano e acredito que seria uma opção melhor. Menos tola, pelo menos.

Apocalypse Now (1979) e Touro Indomável (1980) perderem o Oscar de melhor filme
Dois erros gritantes e consecutivos - apesar de serem de certa forma compreensíveis. A brilhante e revolucionária geração da década de 70 estava perdendo força e essas duas derrotas são o marco do fim da Nova Hollywood. Não sei qual dos dois revolta mais os cinéfilos; no primeiro caso, a odisseia de Francis Ford Coppola no Vietnã, sem dúvida um dos dez melhores filmes americanos já feitos, perdeu para o drama familiar Kramer vs Kramer, um ótimo filme abrilhantado pelas grandes atuações de Dustin Hoffmann (que venceu por melhor ator) e Meryl Streep (que venceu como atriz coadjuvante). Kramer é bom, mas a superioridade de Apocalypse now é indiscutível.
No caso de Touro indomável, o vencedor foi Gente como a gente, outro drama familiar muito bom, mas a diferença de qualidade entre os dois é muito evidente. Touro é muito mais profundo, infinitas vezes melhor dirigido (talvez o melhor trabalho de direção de Scorsese) e tem como grande destaque a atuação monstruosa de Robert De Niro, uma das melhores atuações masculinas vencedoras de Oscar.

O discurso do rei – melhor filme (2010/ 2011)
Melhor opção: A rede social/ Cisne negro
Mesmo com a ideia idiota de colocar 10 indicados na categoria de melhor filme, o Oscar ainda conseguiu premiar um dos piores! Sim. Num ano cheio de produções criativas como Cisne negro, A origem e A rede social, a Academia, como de costume, optou pelo caminho mais seguro ao premiar uma história sobre gagueira. Não é nem sobre um grande homem, pois seus feitos não importam, é apenas sobre um gago. A questão é que esse gago é o Rei George, cuja única função na sua figura representativa da realeza britânica é fazer um discurso eloquente. Como fazê-lo sendo gago? And it’s gone. É basicamente isso. Claro que é um filme bom, com atuações excelentes, mas não chega aos pés de pelo menos sete dos outros indicados. Apesar de ter uma preferência pessoal por Cisne negro, acho até que A rede social sairia como um vencedor mais apropriado para o prêmio. Um filme totalmente antenado que cumpre muito bem uma das funções básicas do cinema que aprendemos com a geração dos anos 70: falar sobre seu tempo. É um filme moderno, um conto arrojado sobre a dinâmica do poder e dos fenômenos culturais na geração atual. Muito interessante, muito inteligente e muitíssimo bem feito pelo sempre perfeccionista David Fincher. Particularmente, ainda prefiro Cisne negro por ser tão visceral. Outras opções muito boas seriam A origem, 127 horas e, sim, Toy Story 3 (porque é emocionante até dizer chega).

Roberto Benigni – melhor ator por A vida é bela (1998/1999)
Melhor opção: Edward Norton por A outra história americana
Tudo bem, esse filme é bonitinho, mas também é bem enjoativo, concordam? De todos os filmes sobre o holocausto – que são muitos – A vida é bela consegue ser um dos mais emocionalmente apelativos. O filme usa praticamente de todos os artifícios possíveis para tentar conseguir uma conexão emotiva com o espectador, e até consegue. O problema é que o longa definitivamente não resiste a uma segunda sessão, ou muito menos ao tempo. O considero ultrapassado e comportado demais para levá-lo a sério. Além do mais, Roberto Benigni faz uma atuação bacana, mas tão caricata e exagerada que é até forçada, sinceramente. Não vejo nada de extraordinário em seu trabalho como ator neste filme e, principalmente, quem viu ele recebendo o prêmio sabe que sua reação à notícia foi no mínimo tosca. Enfim, como se não bastassem os pontos negativos de Benigni, o ano de 1998 trazia atuações espetaculares de Tom Hanks em O resgate do soldado Ryan e principalmente de Edward Norton no notório A outra história americana que com certeza é um dos melhores filmes dos anos 90 e com certeza é um dos melhores filmes já feitos sobre conflitos raciais no mundo moderno. Edward Norton é um excelente ator que com certeza mereceria uma maior visibilidade por parte do Oscar e A outra história americana foi a melhor oportunidade para isto. Não importa, pois ele tem uma verdadeira legião de fãs, sempre ansiosos pelos seus próximos trabalhos. 

Art Carney – melhor ator por Harry, o amigo de Tonto (1974/75)
Melhor opção: Jack Nicholson por Chinatown / Al Pacino por O poderoso chefão II
Quem é Art Carney? Não sei. Que filme é Harry, o amigo de Tonto? Não faço a menor ideia. Mesmo assim, num ano em que Al Pacino trouxe seu Michael Corleone em O poderoso chefão II e Jack Nicholson deixou meio mundo surpreso com a potência de seu noir em Chinatown, um ator que caiu em completo esquecimento por um filme o qual ninguém ouviu falar saiu vencedor do prêmio. Não importa que eu não tenha visto o filme, mas é óbvio que Pacino e Nicholson, que trouxeram dois dos melhores personagens da história do cinema, eram opções muito mais corretas. Pura questão de bom senso – o que a Academia mostra, várias vezes, que não tem.  

Rod Steiger – melhor ator por No calor da noite (1967/68)
Melhor opção: Paul Newman por Rebeldia indomável / Dustin Hoffman por A primeira noite de um homem
Longe de mim dizer que No calor da noite é um filme ruim ou que o trabalho de Rod Steiger no filme seja ruim, mas é mais um daqueles casos em que o vencedor caiu em quase esquecimento enquanto que indicados só fizeram crescer mais e mais. No caso, o ano era 1967 e os filmes já traziam muitas temáticas novas para o cinema. Apesar de ter, em sua origem, uma proposta mais inovadora, No calor da noite não chega aos pés de seus concorrentes neste quesito. O mesmo vale para suas personagens. Apesar de uma atuação correta, Rod Steiger ficou longe de fazer uma atuação icônica, algo desenvolvido muito bem por Dustin Hoffman em A primeira noite de um homem, e, meu preferido, Paul Newman em Rebeldia indomável. Em termos de filme, prefiro A primeira noite de um homem, mas em termos de atuação protagonista, prefiro a de Newman. Apesar de seu personagem não ter virado um símbolo tão grande quanto o de Hoffman, aqui o ator traz um de seus melhores papéis – melhor inclusive que aquele que lhe rendeu o prêmio em A cor do dinheiro de Martin Scorsese. O filme é tão bom, tão cheio de força e liberdade que esboça muito bem o espírito livre posteriormente imortalizado em Um estranho no ninho, longa que deve muito à Rebeldia indomável e que, nos dias atuais, carrega um renome consideravelmente maior.

Chicago – melhor filme (2002/ 2003)
Melhor opção: O pianista / Gangues de Nova York / O Senhor dos anéis: as duas torres
Hollywood adora um musical. O Oscar já cansou de dar prêmios a musicais que não mereciam, e com Chicago não foi diferente. Mais uma vez, este não é um caso de filme ruim, mas um caso de uma competição muito melhor. No ano, concorriam diretamente a emoção de O pianista, a voracidade de Gangues de Nova York e a excelência de As duas torres. Com essas três opções ótimas, a Academia foi por fora e deu o prêmio para Chicago. Não satisfeito, ainda deu o prêmio de melhor atriz coadjuvante para Catherine Zeta-Jones, em mais um caso de uma atuação boa, porém com concorrência muito melhor. Apesar de ser um grande fã de Gangues de Nova York, não o considero um dos melhores trabalhos de Scorsese – lembrando que seus melhores filmes não ganharam o Oscar – dessa forma, a melhor opção ficaria a cargo do emocionante e muito bem realizado (dramático, mas não muito apelativo) drama sobre o holocausto de Roman Polanski.

Uma mente brilhante – melhor filme (2001/ 2002)
Melhor opção: Assassinato em Gosford Park
Mais um caso em que o vencedor era o pior dentre os indicados. Muito bom, uma atuação fantástica de Russel Crowe e uma tão boa quanto de Jennifer Connely. Porém, a concorrência vinha com tudo naquele ano. É deste ano o primeiro capítulo da saga do Senhor dos Anéis, foi neste ano que Moulin Rouge! ressuscitou os tão amados por Hollywood musicais com sua explosão de cor, som e paixão, foi neste ano que Sissy Spacek e um talentoso elenco adentrou nos dramas particulares de uma família como qualquer outra, mostrando o que está escondido e criando uma fantástica relação causa-consequência (frisando, mais uma vez, a excelência da atuação de Sissy Spacek e dos demais atores do filme) e, principalmente, é deste ano um dos melhores filmes de Robert Altman: Assassinato em Gosford Park. Não que Gosford Park seja o melhor filme do diretor, mas aqui temos seus elementos básicos de histórias que se cruzam, elenco gigantesco e roteiro complexo e intrincado, mas com um toque de clássico típico de cinema antigo, qualidade técnica impecável e um elenco que inclui a realeza do cinema mundial, contando com nomes como Hellen Mirren e Maggie Smith (ambas indicadas ao Oscar de melhor atriz coadjuvante). Mais uma vez, Gosford Park não é o melhor filme de Robert Altman, mas foi a melhor chance que o diretor teve, visto que só venceu um prêmio honorário, de ganhar o prêmio (Mash e Nashville são melhores, mas não fazem o perfil da premiação de forma alguma).

 Shakespeare apaixonado – melhor filme (1998/ 99)
Melhor opção: A outra história americana – que não foi nem indicado / O resgate do soldado Ryan
Certo. Como se não bastasse ter dado o prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow, o Oscar, não satisfeito, ainda deu o prêmio de melhor filme para Shakespeare apaixonado. Um filme ruim? Longe disso. Muito divertido, muito agradável e muito bonitinho, isso é fato. Porém, em ano nenhum um filme desse porte deveria levar o prêmio de melhor filme. Teoricamente, o vencedor da principal estatueta tem que ser inovador, arrebatador, surpreendente, ousado e tantas outras qualidades que muitos dos vencedores não têm nas doses perfeitas. Esse é o caso de Shakespeare apaixonado. É clássico, com uns toques modernos, passeia por diferentes gêneros, mas não consegue ir muito além do bom. É todo perfeitinho, mas não chega a ser ótimo. Enfim, não vale o prêmio. Como concorrente direto, o filme enfrentou o clássico sobre a Segunda Guerra e uma das principais obras-primas de Spielberg, O resgate do soldado Ryan. Não é um filme que eu goste muito – acho muito forçado no patriotismo e um pouco irritante às vezes – mas devo admitir que é um filme extremamente bem realizado, de uma destreza técnica fantástica e que conta com os 15 primeiros minutos mais intensos do cinema. Enfim, uma opção mais viável. Merecedor mesmo, a meu ver, era o nem indicado A outra história americana, um filme simplesmente fenomenal em tudo o que propõe.

O paciente inglês – melhor filme (1996/ 97)
Melhor opção: Fargo
O que esperar de um filme consagrado pela série Seinfeld como longo e entediante? Exatamente isso. O paciente inglês é um romance estilo clássico, daqueles bem melosos e cheios de paixão e sofrimento. O problema do filme é que ele é simplesmente chato. Chato e longo. Chato, longo e entediante. Chato, longo, entediante e cansativo. Enfim, não é um filme que eu fosse recomendar a ninguém porque não acho que ele valha as pouco mais de 3hrs de sua duração. Sim, são 3hrs de um homem desfigurado por queimaduras morrendo no deserto enquanto conta sua história de amor com uma mulher lá de quem não lembro nada (só lembro que é interpretada pela excelente Kristin Scott Thomas). Filme totalmente dispensável. Algo muito diferente de dois de seus concorrentes, o empático Jerry Maguire e principalmente o ousadíssimo Fargo, uma das maiores incursões dos irmãos Coen pelo humor negro. Um filme que mistura sequestros, assassinatos, criminosos toscos e violentos, uma cidade no meio do nada e uma policial grávida vivida por Frances McDormand parecem uma combinação muito improvável, mas vira uma programação cinematográfica imperdível e uma grande diversão. O Oscar adora os irmãos Coen, tendo os indicado algumas vezes e até dado o prêmio de melhor filme para Onde os fracos não tem vez (ótimo filme, mas Sangue negro é bem melhor), mas falhou feio ao não consagrá-los por essa que é uma das poucas pérolas dos anos 90.

Rocky, um lutador – melhor filme (1976/ 77)
Melhor opção: Taxi driver
Esse é um pouco complicado pra mim, pois sou um fã do filme Rocky. No entanto, isso não tira meu bom senso de saber que Rocky é muito inferior a três de seus concorrentes diretos ao prêmio: Taxi driver, Rede de intrigas e Todos os homens do presidente. Taxi driver tornou-se um dos filmes mais importantes do cinema, sendo considerado por muitos a maior obra-prima de Martin Scorsese e também um dos melhores estudos sobre a obscuridade da mente humana e os caminhos que percorre quando em situações de extrema pressão; Rede de intrigas é um relato ácido do jogo de manipulação e sensacionalismo que cerca a mídia televisiva, num esquema de interesses e alienação guiado por pessoas inescrupulosas, instáveis e tão podres quanto o sistema que mantêm; Todos os homens do presidente é um drama político tenso e muito ousado que joga o caso Watergate e o clima de tensão e fobia americana dos anos 70. Enquanto isso, Rocky é só um filme sobre um boxeador e seu caminho em busca de uma vitória dentro e fora dos ringues. Qual dos quatro parece ser mais interessante? Se há de haver dúvidas, com certeza estará entre os três primeiros. Como melhor opção, com certeza seria o próprio Taxi driver – hoje em dia está até na lista dos 50 melhores filmes da revista Sight and Sound.

Jennifer Lawrence - melhor atriz por O lado bom da vida (2012/13)
Deixei pro final porque é um dos mais polêmicos. Afinal, Lawrence merecia ganhar ou não? Não. Naomi Watts, indicada por O impossível, e Emanuelle Riva por Amor, estavam muito melhores. Não há dúvida de que Jennifer é uma das melhores atrizes de sua geração, terá uma carreira incrível pela frente, mas a decisão de lhe dar o Oscar foi mais política do que artística. Naomi Watts sendo levada por uma onda gigante e se arrastando por um lamaçal infinito com o tendão calcâneo rompido pra mim foi a melhor atuação do ano passado, melhor até que a de Emanuelle Riva, no inesquecível Amor, enquanto mudava de elegante e ativa senhora para uma enferma que murchava a olhos vistos. Enfim, na comédia de David O. Russel Jennifer mostrou muito carisma e talento de sobra - prova de Hollywood sofre da falta de ideias, não de elenco - mas a Academia deveria esperar um trabalho mais sério e consistente.

Lucas Moura e Luís F. Passos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Filmes pro final de semana - 21/02

1. Os amantes passageiros (Los amantes pasajeros, 2013)
Em A pele que habito (2011) Almodóvar misturou drama e terror numa história tensa e surpreendente. Seu filme seguinte é bem diferente, voltado para o lado noveleiro do diretor, além de retomar as divertidas personagens gays - aqui mais divertidas como nunca, pois é uma comédia das boas. Os amantes passageiros é uma história passada nas alturas, num voo que sai de Madri para o México mas que por problemas no trem de pouso precisa ficar sobrevoando a Espanha enquanto não se descobre uma solução. A tripulação dá soníferos a todos da classe econômica, mas os da primeira classe ficam acordados e se transformam em personagens de uma louca comédia: a cafetina de luxo que guarda segredos de homens poderosos, a mulher com poderes sobrenaturais que se apaixona por uma ereção, um pai que há muito tempo não vê a filha que fugiu de casa, o chefe dos comissários de bordo que é amante do comandante casado. Uma história novelesca e impagável que se afasta um pouco dos dramalhões envolvendo gays e aborda a temática de um modo muito mais leve e divertido. Prova do talento e versatilidade de Almodóvar.
Nota: 8,0/ 10
2. VIPs (2011)
As histórias passadas na cabeça de Marcelo (Wagner Moura) sempre foram dignas de virar filme, especialmente porque ele conseguia transformar quase todas em realidade, às graças a um dom excepcional de mentir e fazer com que todos acreditassem - na verdade, uma doença que o impedia de encarar sua vida e o fazia encarnar as mais diversas personagens. VIPs é baseado na história real de Marcelo Nascimento da Rocha, estelionatário cuja maior proeza foi se passar por Henrique Constantino, filho do dono da Gol, durante uma micareta em Recife, com direito a ser entrevistado ao vivo por Amaury Jr. A história foi um escândalo, Marcelo está preso até hoje, mas tão cedo não será esquecido, ainda mais depois de ser vivido (muito bem, diga-se de passagem) por Wagner Moura. Esse é o trabalho que enche os olhos de qualquer ator, pois a palavra chave é versatilidade. Numa personagem que divide sua personalidade em centenas, praticamente um homem camaleão que se adapta a qualquer realidade criando um universo de mentiras. Mais um sucesso de nosso cinema.
Nota: 8,5/ 10
3. Mary e Max - uma amizade diferente (Mary and Max, 2009)
Esqueça as animações bonitinhas, alegres, coloridas. Mary e Max dá alguns passos à frente para retratar a estranha amizade entre uma menina australiana e um judeu de meia-idade novaiorquino. Criada num ambiente nada politicamente correto, Mary resolve escrever para o primeiro endereço que ela achasse num catálogo telefônico dos Estados Unidos, e assim ela manda uma carta para Max contando sobre sua vida, sua paixão por doces, especialmente leite condensado e sua teoria de que as crianças vêm em canecas de chope. Max responde, e os dois vão mantendo contato por anos a fio - e como toda amizade que se preze, esta é cheia de altos e baixos. Max sofre da síndrome de Asperger, um tipo de fobia social caracterizada pela dificuldade em expressar e entender emoções.Sua doença às vezes abala a relação com a menina, mas acaba sendo de grande importância na vida profissional e pessoal de Mary. Impressionante como as simpáticas figuras de massinha de modelar ilustram na verdade como a vida pode ser triste, pois o filme é realista de um modo sombrio; interessante a relação de cores: o mundo de Mary é sépia, o de Max é cinzento, cada um revelando um tom de sofrimento - assunto que é especialidade de seu diretor.
Nota: 9,0/ 10
4. Dr Fantástico (Dr Strangelove or: How I leanerd to stop worrying and love the bomb, 1964)
Em meio à tensão criada pelo bipolarismo mundial que se dividia entre o capitalismo norte-americano o socialismo soviético, agravado pela questão nuclear, Stanley Kubrick decidiu quebrar o gelo em plena Guerra Fria e satirizar o militarismo e o risco de uma guerra atômica capaz de mandar a humanidade para os ares. Dr. Fantástico começa com um general neurótico que ordena um ataque nuclear à União Soviética sem o consentimento do presidente ou do Estado-Maior, desencadeando uma complicada e quase impossível tentativa de parar os aviões, pois só ele poderia ordenar o abortamento da missão e havia isolado sua base aérea. Como uma história assim pode ser uma comédia? Contando com Peter Sellers numa tripla atuação fenomenal, fazendo as vezes d oficial da OTAN que está junto do general maluco e tenta mudar seus planos, de presidente preocupado e de Dr Fantástico, brilhante físico nuclear alemão cujo braço direito tem vida própria e parece atender ainda às ordens do 3º Reich. Além de Sellers, atores como George C. Scott, que interpreta um general tarado, abrilhantam esse filme cujo principal mérito é a direção impecável de Kubrick. Observador e ilustrador da condição humana, o diretor mostra nesses que é um de seus maiores trabalhos o medo, a ambição pelo poder e a fragilidade do homem diante daquilo que ele próprio criou.
Nota: 10
5. Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's, 1961)
Costumo dizer que aquilo que é bom de verdade consegue não se tornar clichê. No caso de Bonequinha de luxo, a beleza, a elegância e o espírito de Audrey Hepburn são os fatores que ainda impedem que um dos clássicos mais queridos de Hollywood permaneça fresco, apesar da legião de meninas cabeça oca que nunca viram (ou virão) o filme (ou viram e mal entenderam) mas exibem a imagem de Audrey em frente à joalheria e afirmam se identificar (aham, Cláudia.)
Baseado no romance de Truman Capote, o filme acompanha Holly Golightly (Audrey), acompanhante de luxo que mora em Manhattan cujo maior sonho é conquistar um milionário. Holly divide um pequeno apartamento com um gato sem nome, é uma carismática cabecinha oca e no fundo é só uma solitária buscando seu lugar no mundo. Logo no início do filme Holly conhece seu novo vizinho, Paul, um escritor mal sucedido sustentado por uma dama da alta sociedade - sim, as personagens não são exemplos de moral. Desde que conhece Holly, Paul se encanta por ela, e o carinho é mútuo. O escritor vai ver sua vida mudar depois da simpática moça, e vai tentar mudar a dela também. Tarefa fácil? Não. Tão difícil quanto não se encantar com Audrey cantando Moon River no batente da janela do banheiro
Nota: 9,0/ 10

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Um Clarão nas Trevas - Audrey como você nunca viu

O mundo está muito acostumado com a visão adocicada de atriz de romances e comédias românticas com a qual Audrey Hepburn sustentou sua carreira. No entanto, é importante salientar que a atriz era mais versátil do que o que parece e, ao longo de sua carreira, buscou alguns trabalhos que fugiam totalmente de sua zona de conforto. Trabalhos menos conhecidos e menos populares que àqueles que a imortalizaram, mas que também mostram uma interessante faceta do talento artístico da atriz.
De seus trabalhos menos usuais, o de maior destaque é mesmo Um clarão nas trevas (Wait until dark, 1967). Neste filme, Audrey interpreta uma dona de casa cega chamada Susy Hendrix que, por um simples acaso envolvendo seu marido, uma mulher tão misteriosa quanto perigosa, e uma boneca aparentemente inofensiva, acaba sendo lançada numa grande confusão criminosa, envolvendo homens perigosos relacionados a assassinatos e tráfico de drogas.
O resumo do enredo do filme está muito curto, eu sei, mas sobre este realmente não posso falar nada. As peças do quebra-cabeça que compõe Um clarão nas trevas não são difíceis de serem decifradas, muito pelo contrário. Na verdade elas são dadas ao espectador. No entanto, revelar qualquer uma destas já é um verdadeiro banho de água fria para quem for acompanhar a história. Apesar de muito simples, o roteiro de Um clarão nas trevas é consideravelmente particular e muito bem realizado. A partir de uma premissa banal, o filme desenvolve uma história relativamente ousada para os anos 60 (visto que temáticas relacionadas tão explicitamente a drogas ainda eram raras no cinema da época) que conta com inúmeros momentos memoráveis. Todos eles, logicamente, relacionados com o grande elemento diferencial do filme: sua protagonista. 
A escolha de uma protagonista tão supostamente incapaz é simplesmente genial. Ao tornar a vítima e nossa heroína uma cega, o roteiro propõe uma variedade muito maior de limitações à personagem, tornando-a aparentemente muito mais vulnerável perante a ferocidade velada (que se revela feroz) de seus inimigos disfarçados. Essa vulnerabilidade, no entanto, é apenas uma impressão passageira, pois a maneira como a personagem pensa e luta é fenomenal. Se suas limitações físicas aliadas a seu temperamento bondoso e agradável a tornam, de imediato, uma personagem empática, a surpreendente força que esta mostra ao longo da trama, sobretudo nos momentos mais arriscados e perigosos, permite que qualquer um torne-se seu fã. Torcemos por Susy e acompanhamos atentamente todos os seus passos. Por traz da figura frágil e sensível que a imagem de Audrey Hepburn nos mostra, está escondida uma personagem de grande determinação, o que torna tudo muito mais interessante.
Um clarão nas trevas também sabe como criar momentos de tensão. O filme passa quase toda sua duração num nível baixo de tensão, que não é exatamente um suspense ou sequer um thriller. À medida que Susy vai montando as peças do que para nós é algo extremamente óbvio de ser percebido, o clima do filme vai mudando. De clareza, passa para um estado de confusão que culmina com a excelente conclusão da trama. Um dos elementos muito bem utilizados durante o impasse final entre Susy e os criminosos em busca da boneca é o uso da escuridão. O apartamento onde praticamente toda a trama se desenrola é levado à total escuridão e, desta forma, por poucos minutos somos levados ao mundo sombrio e indecifrável em que Susy vive. Se durante quase todo o filme nós, espectadores, estávamos cientes de absolutamente tudo que estava acontecendo enquanto a pobre protagonista lutava para somar as pequenas evidências que explicariam o acontecimento de tantas improbabilidades, nesses poucos minutos é proposta uma inversão de papéis, em que nós somos colocados na escuridão. São os momentos áureos do filme.

Nota: 8/ 10

Leia também:
A princesa e o plebeu
Bonequinha de luxo
Sabrina

Lucas Moura

sábado, 4 de maio de 2013

Sabrina - apaixonados por Audrey

Quando assisti a Bonequinha de luxo (1961) e a A princesa e o plebeu (1953) tive certeza absoluta de que não houve atriz de beleza, elegância e carisma como Audrey Hepburn. Quando em cena, é impossível tirar os olhos dela e sua presença é capaz de tornar todo (ou quase todo) filme amável.
Sua estréia foi estrondosa com o sucesso de A princesa e o plebeu, que até lhe rendeu o Oscar. Apesar de já mostrar grande talento e empatia, não acredito que este seja o melhor papel de Audrey e até considero sua vitória não muito merecida. Ao analisar Bonequinha de luxo, que é quase uma década mais novo que A princesa e o plebeu, pode-se perceber claramente que a atriz passou por uma evolução artística interessante, adicionando camadas a sua caracterização da personagem. Estes dois filmes são os principais longas da atriz, que, junto a Sabrina (1954), formam uma tríade perfeita de comédias românticas clássicas.
Em Sabrina, Audrey vive a inocente filha do chofer dos Larrabee, rica família de industriais do plástico que, após um período de dois anos em Paris onde estudou num curso de culinária, volta para casa totalmente diferente. De menina arredia, tornou-se uma mulher de presença, imponência e elegância capazes de chamar a atenção de qualquer homem. Mas precisamente de dois homens: David e Linus Larrabee. David (William Holden) é o irmão mais novo e boa vida. Típico cafajeste, dedica toda sua ociosidade para dedicar mulheres, as quais são facilmente atraídas por ele. Uma deles é justamente Sabrina, que tem em David sua paixão de infância e que agora pode finalmente chamar sua atenção, após anos passando despercebida. Linus (Humphrey Bogart), o irmão mais velho e grande nome a frente do futuro das empresas Larrabee tem, inicialmente, uma função muito clara: impedir que David e Sabrina fiquem juntos, evitando assim o término do casamento arranjado entre seu irmão e uma rica herdeira de um império de cana-de-açúcar, pondo, assim, fim a uma fusão milionária entre duas grandes multinacionais. Acho que não preciso dizer o que acontece a seguir, mas para ficar bem claro, o próprio Linus acaba se encantando pela presença de Sabrina e deve decidir se vai seguir seus sentimentos ou continuar fixado aos números e gráficos de seu escritório. A questão é: com quem Sabrina deve ficar?  
Nada demais, né? Mas mesmo assim, de um charme particular que o torna um filme muito agradável. As presenças marcantes de Audrey, Bogart, e Holden, por si só, já são a chave do sucesso para qualquer produção do cinema clássico, tendo em vista que os três se tratam de alguns dos mais populares e elogiados atores de sua época e, no momento em que Sabrina foi feito, já tinham até vencido o Oscar nas categorias de atuação protagonista. Bogart e Holden, os quais eu não tinha montado uma imagem mais humorística, são muito divertidos em cena. Muito diferentes dos papéis sérios que os imortalizaram em filmes como Casablanca (no caso de Bogart) e Crepúsculo dos deuses (no caso de Holden.). William Holden como o caricato David, principalmente, mostra um talento para o humor que eu definitivamente jamais poderia imaginar vindo dele.
Roteiro e direção são assinados pelo mestre Billy Wilder que cria piadas simples, mas suficientemente divertidas e bem colocadas, gerando alguns momentos impagáveis, bons diálogos e ainda imprime um ritmo que torna tudo uma grande diversão a ser acompanhada.


Nota: 8/10

Leia também:
A princesa e o plebeu
Bonequinha de luxo
O pecado mora ao lado


Lucas Moura

domingo, 23 de setembro de 2012

A Princesa e o Plebeu - a grande estreia de Audrey Hepburn

Ann (Audrey Hepburn) é uma princesa de um país europeu que está visitando as principais capitais da Europa. Em público, aparenta sempre ser uma jovem séria, gentil e dedicada aos compromissos reais. No entanto, em sua intimidade, ela se mostra uma pessoa totalmente diferente. Ao contrário da figura correta que é obrigada a mostrar, Ann é infeliz e está constantemente entediada pelos enfadonhos compromissos reais. Apesar de ser uma vida de luxo, a vida da realeza é incrivelmente previsível e, de várias maneiras, fútil e quase desnecessária. Por essas razões ela está tão cansada de tudo aquilo e quer sair pelo mundo, conhecendo pessoas e lugares novos e aproveitando pequenos prazeres da vida.
Em sua visita à capital italiana, após uma crise histérica, ela resolve fugir do palácio e ir para a cidade como uma pessoa normal. No entanto, antes de fugir, ela havia sido medicada para que sua histeria fosse controlada. No fim das contas, acaba dormindo em praça pública no meio da cidade. É aí que ela conhece Joe Bradley (Gregory Peck), que acaba levando-a para sua casa por ela não ter condições de se cuidar sozinha estando entorpecida pela medicação.
Bradley é um jornalista de um jornal qualquer que, ao descobrir que a moça de quem é obrigado a cuidar, é na verdade a princesa, percebe que ali está uma verdadeira mina de ouro. Decide, então, aproveitar a oportunidade e tentar arrancar de Ana detalhes de sua vida pública e privada e publicá-los num jornal pelo valor de cinco mil dólares (ou mais), contando com a ajuda de seu melhor amigo, Irving (Eddie Albert), que vai tirar fotografias da princesa.
Sem ela desconfiar de nada, os três passam a percorrer as ruas de Roma, visitando belos pontos turísticos da cidade, onde a moça vai fazer todas as coisas corriqueiras feitas por gente comum que ela jamais teve a oportunidade de fazer e se divertem em situações das  mais banais às mais improváveis. Obviamente, um não sabe a verdade sobre o outro. Ana se passa por uma estudante de um colégio interno e Bradley por um trabalhador da indústria de produtos químicos.
A química entre Ann e Bradley é nítida desde as primeiras cenas e, obviamente, ao longo do dia os dois acabam se apaixonando e vão viver intensamente cada minuto juntos, sabendo que seu relacionamento sofre impedimentos gigantes.
O grande mérito desta simples e simpática comédia romântica é o da revelação da própria Audrey Hepburn. Se sua personagem Ann resolve sair da elite para experimentar a vida de plebéia, Audrey fez o caminho inverso: saiu do quase anonimato e se lançou de cabeça no topo de Hollywood, conquistando inclusive, o Oscar de melhor atriz, e se firmou lá de tal maneira que é, até hoje, uma das atrizes americanas mais reconhecidas. O fenômeno Audrey Hepburn, logicamente, não é inexplicável. Ann é a personagem perfeita para a atriz que fez da delicadeza a marca principal de suas personagens (até mesmo da própria Holly Golightly).
Por mais que deva muito à presença de Audrey, A princesa e o plebeu (Roman Holiday, 1953) também conta com um excelente elenco, um bom roteiro (é previsível, mas o final foge um pouco do padrão dos finais felizes dos filmes de romance) e conta com a direção de William Wyller, um dos principais diretores de sua época.

Leia também: Bonequinha de luxo

Lucas Moura

terça-feira, 12 de junho de 2012

Bonequinha de luxo - Audrey, o gato e um clássico

Manhattan, 5 horas da manhã. Um táxi percorre a 5ª Avenida até parar na esquina com a rua 57, sede da joalheria Tiffany & Co. Do táxi desce uma mulher muito elegante, que vai até a vitrine e começa a tomar um copo de café. A mulher é Holly Golightly, acompanhante de luxo decidida a se casar com um milionário e se tornar atriz em Hollywood. Holly vive de festa em festa enchendo a cara e ganhando 50 dólares dos homens para ir ao toalete - mas só isso, e se alguém tentar passar disso, ela sai correndo. Num pequeno apartamento, ela mora com um gato sem nome - segundo ela, porque o gato não pertence a ela, e no mundo ninguém pertence a ninguém. Holly vive perdendo as suas chaves e atormentando seu vizinho, o fotógrafo japonês Yunioshi, que jura que um dia ainda prenderia a sua jovem vizinha.
O pontapé inicial do filme é a chegada de Paul Varjak ao prédio em que Holly mora. Escritor malsucedido, Paul vive às custas de sua amante milionária. Paul e Holly se conhecem e logo se tornam amigos; a moça fica fascinada com a semelhança entre seu irmão mais novo, Fred, e o escritor. Um dia depois de Paul se mudar, Holly oferece uma festa, e ele passa a conhecê-la melhor. A festa é uma coisa de louco - e a cena mais engraçada do filme, regada a muita bebida e com pessoas nada normais. Nessa festa Paul conhece O.J. Berman, velho amigo de Holly, que conta sua história, desde que ela saiu do interior e foi até a Califórnia, e depois a Nova York. O ponto alto da festa é a chegada da modelo Meg Wildwood, que leva com ela o milionário Rusty Trawler e um certo José da Silva Pereira, brasileiro que está em Nova York para aprender sobre a cultura norte-americana.
Holly não conseguiu nada com Trawler, mas descobriu que José era um fazendeiro muito rico, e os dois começam um romance. Paralelamente, aparece na cidade um tal Dr. Golightly, que revela a Paul ser o marido de Holly e tenta levá-la de volta para casa. Holly  diz ainda amá-lo, mas com um amor fraterno, e ele volta ao Texas sozinho. Paul observa tudo como um bom amigo, mas seus sentimentos por Holly passam de uma simples amizade; mas a paixão despertada no escritor esbarra nos interesses da desajuizada bonequinha de luxo.
Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's, 1961) é baseado no livro homônimo de Truman Capote. No livro, Holly é uma prostituta. Ao vender sua história para o cinema, Capote desejou que Marilyn Monroe fizesse o papel de Holly, mas a loira recusou porque fazer uma prostituta não seria bom para sua imagem. A escolhida então foi Audrey Hepburn, o que exigiu uma mudança na personagem principal, que passou a ser apenas uma moça sem muito juízo, já que era inconcebível a ideia de Audrey interpretando uma prostituta. Além disso, um filme com prostituição seria vetado pela censura do governo (claro que se Marilyn Monroe fosse a intérprete, o governo faria vistas grossas). Mas atualmente a ideia de uma Holly que não fosse Audrey Hepburn é no mínimo impensável. A atriz belga conseguiu dar à personagem ingenuidade e carisma que conquistam qualquer um que veja o filme.
Aliás, Bonequinha é inteiramente Holly. Não só por ser a protagonista e estar em 90% do filme, mas  por ser tão complexa em uma história relativamente simples. A moça que parece ser apenas uma vida louca ou uma caça milionários na verdade é uma pessoa que vive em conflito consigo mesma e com seu passado, numa busca por um lugar/ alguém que a faça feliz (a cena do Moon river reflete bem isso). São essas características que fazem do filme um clássico, e um dos mais queridos de Hollywood. Claro que o charme e tom comédia também pesam para o sucesso do filme. Isso porque excetuando Holly e suas ações, o longa é meio simples, mas sem perder a qualidade. Outro motivo de sua notoriedade é que ele é um filme romântico original e muito bom - o que não temos visto muito nas últimas décadas.