sexta-feira, 31 de março de 2017

Filmes pro final de semana - 31/03

Este é um post especial de dicas pro final de semana. Recentemente parei pra pensar nos filmes favoritos e alterei a lista feita há mais de três anos e que foi publicada aqui no blog, comentando sobre os 30 filmes que eu mais gostava. Hoje não vou falar sobre trinta, mas escolhi dez dentre eles para recomendar para aquela dose semanal de Sétima Arte. Ao lado do título original, a posição de cada um na minha singela lista de favoritos.


1. A estrada da vida (La Strada, 1954 - 22º)
Absolutamente fascinado pelo cinema italiano (e reconheço que deveria ver mais), especialmente de Fellini. Em seu quarto filme (e primeiro de projeção internacional) o diretor se afasta do neorrealismo tão frequente desde o pós-guerra e conta, num tom fabulista, a história da miserável Gelsomina (Giuletta Masina, esposa de Fellini), que é comprada pelo artista circense Zampanò (Anthony Quinn). Zampanò faz um truque banal quebrando correntes, e Gelsomina passa a ser sua assistente, atuando como palhaça, quase uma caricatura de Chaplin. A relação dos dois é marcada pela brutalidade do artista e pela simplicidade das emoções de ambos, quase primitivas. Amor e ciúme guiam o enredo que explora a dualidade de suas personagens: a teatralidade que esconde vidas interiores inexploradas.
Nota: 10
2. Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958 - 17º)
Eleito há cinco anos o melhor filme de todos os tempos e tirando Cidadão Kane de um lugar que ocupava há 50 anos, Um corpo que cai não foi bem recebido por público e crítica na época de seu lançamento, e só vinte anos depois passou a ser visto como uma das obras-primas de Alfred Hitchcock; francamente, não vejo o porquê de tal rejeição inicial. O filme tem uma das melhores reviravoltas do cinema, e aparenta não ter só um clímax, e sim um clímax principal que sucede e precede outros dois secundários. Na trama, James Stewart, que foi um dos mais frequentes parceiros de Hitchcock, interpreta um detetive que investiga a esposa de um antigo colega que aparentemente está possuída pelo espírito da bisavó. O filme é marcado pelo medo de altura da personagem de Stewart, que num acidente no alto de um prédio viu um colega da polícia morrer ao cair do telhado. Um suspense complexo e muito bem elaborado que envolve o espectador como poucos.
Nota: 10
3. Taxi Driver (1976 - 8º)
Scorsese já tinha algum nome em Hollywood depois de dirigir Caminhos Perigosos (1973) e Alice não mora mais aqui (1974), mas foi em 1976 que ele cresceu de vez e marcou seu nome na história do cinema. É apresentada a história de Travis Bickle (Robert De Niro), um veterano da guerra do Vietnã que sofre de insônia e começa a trabalhar como taxista para aproveitar melhor suas noites em claro. Travis não só traz consigo sequelas psicológicas da guerra, como também é produto de uma sociedade doentia, corrupta e violenta, e é contra ela que ele se volta, desejando uma "chuva" que lavasse toda aquela imundície. Ele até tenta se integrar à comunidade, apoiando um candidato político - por quem criou obsessão, além de ser obcecado por uma moça do comitê dele; além de tentar fazer algo para melhorar - e fica obcecado por uma garota que se prostituía (Jodie Foster). Através do talento incomparável de Scorsese e De Niro, um dos mais crus e viscerais retratos do subúrbio nova-iorquino.
Nota: 10
4. Ligações Perigosas (Dangerous Liaisosons, 1988 - 19º)
Esqueça a ideia de que filmes de época devem retratar belas histórias de amor ou intensos conflitos políticos, ou mesmo guerras. O negócio aqui é bem mais sujo. A Marquesa de Merteuil (Glenn Close), ícone de riqueza e beleza, é miserável em termos de escrúpulos. Junto do igualmente charmoso e mau caráter Visconde de Valmont (John Malkovich), ela se diverte seduzindo corações inocentes visando roubar-lhes a virtude e a honra, humilhando as vítimas depois de usá-las. A sordidez do hobby dessa desprezível dupla é posta à prova quando eles escolhem como vítima a jovem Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), cujo marido partiu numa longa viagem de trabalho. O filme serve como uma rica fonte de estudo comportamental e psicológico de suas personagens, abrindo espaço para o espectador observar os costumes e vícios da nobresa francesa no século 18, no seu mesquinho jogo de aparências e interesse.
Nota: 10
5. Manhattan (1979 - 23º)
Cara, como eu adoro esse filme. Numa época em que cineastas mostravam os subúrbios e a imundície social de Nova York, sendo Scorsese e seu Taxi driver o melhor exemplo, Woody Allen realiza seu maior tributo à cidade em que nasceu, viveu, realizou boa parte de sua obra e pela qual é apaixonado. Manhattan mostra a Big apple através de um preto e branco que a romantiza, embalado pelo jazz constante na filmografia de Woody. Na trama, o diretor mais uma vez vive o protagonista, que aqui é um roteirista de um programa de televisão que se demite por odiar o emprego e a má qualidade da programação e sua relação com a namorada de dezessete anos, a ex-mulher que o largou para morar com outra mulher e a amante, uma jornalista pedante. E claro, a cidade, que além de cenário é quase uma personagem e fonte constante de inspiração para a personagem de Woody - "ele adorava Nova York. Ele a idolatrava". Da mesma forma, é difícil não adorar essa encantadora história.
Nota: 10
6. Pulp fiction (1994 - 29º)
O segundo filme de Quentin Tarantino lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes e o consolidou como novo talento do cinema. Passados mais de 20 anos, ele produziu muitas outras obras de peso e mostrou ser capaz de manter o alto nível. Mas Pulp Fiction realmente merece destaque em sua obra: Tarantino conseguiu sacudir a indústria mostrando um novo jeito de narrar uma história, construindo um enredo através de vários personagens em momentos e lugares diversos que estão atrelados por um elo de drogas e violência. Direção e roteiro brilhantes ficam ainda melhores com a volta triunfal de John Travolta dançando o melhor twist do cinema com Uma Thurman, os sermões bíblicos de Samuel L. Jackson e a dedicação de todo o ótimo elenco.
Nota: 10
7. Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004 - 27º)
O amor visto de um ângulo incomum em Hollywood: a desilusão amorosa e o fim de um relacionamento. Como curar um amor fracassado? A melhor alternativa seria simplesmente esquecer tudo. E se fosse possível? Brilho eterno responde a esta pergunta (e levanta tantas outras) ao mostrar o término do namoro de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) e o tratamento a que ela se submete para apagar Joel de sua mente depois de perceber que não era feliz ao seu lado. Amargurado, Joel decide fazer o mesmo tratamento, mas à medida em que vê sua ex-amada sendo apagada de suas lembranças, descobre que é melhor sofrer ao lembrar dos bons momentos ao lado de Clementine do que não ter memória alguma. A trama, que parece meio impossível ao se ler sobre, na verdade se mostra totalmente plausível ao ser vista - graças ao excelente roteiro, vencedor do Oscar, das atuações de Carrey e Winslet e de um time de coadjuvantes que inclui Kirsten Dunst, Elijah Wood e Tom Wilkinson.
Nota: 10
8. Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011 - 28º)
Tem como não amar? A história de amor e fantasia na Cidade Luz se tornou a maior bilheteria de Woody Allen e é um dos filmes bons mais pop do século (digo isso porque o que mais tem por aí é filme ruim e amado). O escritor e roteirista Gil Pender (Owen Wilson) vai para Paris com a noiva e os sogros, e em meio à fascinação pela cidade romântica e cheia de história, viaja no tempo a bordo de um velho carro. Nos anos 20, que ele considera ser a Era de Ouro de Paris, conhece Hemingway, Cole Porter, o casal Fitzgerald, Picasso, outros gênios da arte e a bela Adriana (Marion Cotillard), por quem se apaixona. Com muito bom humor e referências culturais excelentes, Woody nos fala sobre a importância de prestigiar o passado, mas sem deixar de viver o presente - afinal, a verdadeira Era de Ouro é agora, quando podemos realizar nossos objetivos. Admirável, ainda mais pra um jovem que na época tinha 75 anos.
Nota: 10
9. As Horas (The Hours, 2002 - 7º)
"Sempre os anos entre nós. Sempre os anos, sempre o amor, sempre as horas". Baseado (em um livro que se baseia) na obra de Virginia Woolf, o complexo e introspectivo As Horas acompanha um dia na vida de três mulheres distintas que vivem em épocas distintas: a escritora Virgina Woolf (Nicole Kidman) nos anos 20, a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore) nos anos 50 e a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep) em 2002. O que une as três é o romance Mrs Dalloway, escrito por Virginia, lido por Laura e cuja protagonista se assemelha a Clarissa (tendo, inclusive, o mesmo nome). Ambas as personagens tentam esconder e lidar com a angústia que as sufoca, mesmo as que aparentemente levam uma vida perfeita. Ambas as três terão seus mundos transformados ao longo de um único dia.
Nota: 10
10. Melancolia (Melancholia, 2011)
O tempo passa e ele segue como o preferido. Transformar o fim do mundo numa obra de arte de beleza singular- foi o que Lars von Trier fez em Melancolia. Dividido em duas partes, o filme acompanha duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), na iminência do choque de um planeta gigante com a Terra. A primeira parte, intitulada Justine, mostra o casamento desta no castelo de seu cunhado, John. A festa luxuosa é o ponto de partida para o desencadeamento da severa depressão que se abate sobre Justine. Já na segunda parte, surge o misterioso planeta Melancholia, que em sua rota gravitacional passaria próximo à Terra, se bem que para muitos ele colidiria. O filme aborda as diferentes reações diante do fim do mundo, a pequenez do homem diante do universo e outros temas amplos de forma brilhante. Um espetáculo de imagens e sentimentos que ainda consegue me fazer suar pelos olhos.
Nota: 10
 
Luís F. Passos

sexta-feira, 17 de março de 2017

Filmes pro final de semana - 17/03

1. Café Society (2016)
Los Angeles, década de 30. O inocente Bobby (Jesse Eisenberg) deixa a vida simples em Nova York e vai para a Hollywood buscando emprego com um tio com o qual não tem contato, mas que é um dos maiores produtores do cinema da época. Seu tio Phil (Steve Carell) lhe dá um emprego simples e Bobby é apresentado ao mundo de dinheiro e brilho das estrelas de Hollywood, e também à encantadora secretária dele, Vonnie (Kristen Stewart). Bobby se apaixona pela colega, mas ela diz ter um namorado, e aceita apenas a amizade dele. A amizade cresce, e pouco depois de Vonnie ficar solteira, evolui para algo mais. O problema é que o namorado misterioso não era uma pessoa qualquer, e muita coisa ainda podia acontecer. Mais um filme bom de Woody Allen (melhor que os dois anteriores), abrilhantado por um bom elenco, com destaque para Jesse Eisenberg, muito convincente encarnando os tiques do inesquecível protótipo de protagonista que o diretor criou.
Nota: 8,5/ 10
2. A hora e a vez de Augusto Matraga (2015)
Baseado no conto homônimo de João Guimarães Rosa, e um dos mais importantes da obra do autor, este filme notável repete o feito do filme de 1966 A Hora e Vez de Augusto Matraga, que foi uma ótima versão do clássico rosiano. Augusto Matraga (João Miguel) é um fazendeiro falido, um valentão e mulherengo odiado por muitos homens da região. Depois de sua esposa Diodóra (Vanessa Gerbelli) fugir com um rival, Matraga entra em conflito com outro inimigo, o major Consilva (Chico Anysio), leva a pior e é jogado em um penhasco. Dado como morto, ele é encontrado por um pobre casal de velhos que cuida dele, e após sua recuperação, o ensina a palavra de Deus e o põe no caminho de uma vida simples e santa. Porém sua alma é inquieta e angustiada, e ao conhecer o chefe de jagunços Joãozinho Bem-Bem (José Wilker) ele percebe o quanto anseia pela chegada de sua hora e sua vez.
Nota: 9,5/ 10
3. Ensaio sobre a cegueira (Blindness, 2008)
Um homem para no sinal de trânsito. O sinal abre, mas ele não sai do lugar. Os outros motoristas começam a buzinar, alguns pedestres vão até ele para saber o que há de errado. O homem afirma que ficara subitamente cego, como se uma luz branca inundasse seus olhos. Mais tarde ele é avaliado por um médico (Mark Ruffalo), que não vê nenhuma alteração no exame e fica perplexo diante da cegueira. Antes de dormir, o médico também fica cego - assim como todas as pessoas com quem o primeiro homem teve contato. A doença é contagiosa e atinge a todos gradativamente, exceto a mulher do médico (Julianne Moore), que esconde este fato e finge também estar cega. Os cegos então são levados para um hospital desativado para ficarem de quarentena, e lá aos poucos eles vão sendo guiados pelos instintos de sobrevivência e deixam de lado ética, compaixão e dignidade, perdendo o que outrora os caracterizava como humanidade e civilização. Excelente adaptação de Fernando Meirelles da obra imortal de José Saramago.
Nota: 10
4. Jackie Brown (1997)
O terceiro filme de Quentin Tarantino traz a simpática Jackie Brown (Pam Grier), aeromoça de uma pequena empresa aérea que viaja semanalmente dos Estados Unidos ao México, de onde contrabandeia dinheiro para um traficante de armas, Ordell (Samuel L. Jackson). Presa no aeroporto portando um saco de dinheiro e cocaína, Jackie tem a oportunidade de se resolver com a justiça colaborando com a polícia contra Ordell, mas ela sabe o perigo que corre ao fazer isso. Nossa heroína passa a se equilibrar no fio de uma navalha, lutando pra salvar a própria pele tanto do perigoso chefe quanto da polícia - e além disso, se envolve emocionalmente com um dos policiais. Mais um filme ótimo de Tarantino, e que certamente merece ser mais conhecido.
Nota: 9,5/ 10.
5. Terra de ninguém (Badlands, 1973)
Jovens, entediados e perigosos. O primeiro filme do diretor Terrence Malick se passa no meio-oeste americano, onde o gari Kit (Martin Sheen) sonha em ser uma versão criminosa de James Dean. Kit conhece e se apaixona por Holly, menina vazia e passiva de 15 anos criada por um pai severo que proíbe a menina de se aproximar de Kit. O jovem então mata o pai de Holly com ajuda dela, e o casal foge pelo interior do estado praticando crimes, numa versão de Bonnie e Clyde bem menos romantizada que o filme de 1967. O filme tem uma beleza austera é consegue ser ao mesmo tempo fascinante e terrível; é frio e sem esperanças - bastante fatalista - mas é extremamente interessante e atrai o espectador nessa incrível história em que uma menina supostamente ingênua é atraída por um sociopata e junto dele pratica crimes sem nenhum motivo exceto não ter nada melhor para fazer. Pode não ser tão parecido com os filmes revolucionários dos anos 70, mas se equipara aos mais conhecidos por sua igual genialidade.
Nota: 10

domingo, 5 de março de 2017

Livros para Março

1. Aos meus amigos (Maria Adelaide Amaral, 2002)
Livro que inspirou uma das minisséries da Globo que mais gostei, Aos meus amigos acompanha um grupo de amigos que foram afastados pelo tempo e pelos acontecimentos políticos dos anos 80 e acabam se reencontrando após a morte de um deles, que cometera suicídio e planejara usar a própria morte para reaproximar aqueles que outrora eram uma verdadeira família. Acontece que depois de quase uma década de distância muita coisa havia mudado: grandes amigos se tornaram inimigos, casais se separaram ou estavam em crise, artistas em potencial abandonaram seus sonhos. As transformações sofridas pelo grupo de amigos é reflexo das grandes mudanças que estavam acontecendo no mundo com o fim da Guerra Fria e no Brasil da redemocratização. Em meio a tantas mágoas e lavagem de roupa suja, uma história cuja beleza não é nem um pouco diminuída pela tristeza.
Nota: 9,5/ 10
2. Incidente em Antares (Erico Verissimo, 1971)
Vou me segurar pra não falar demais, afinal este é um dos meus livros preferidos. O genial Erico Verissimo narra o surgimento de uma pequena cidade do interior gaúcho que recebe o nome de estrela, cresce sob a rivalidade de duas poderosas famílias e é palco de uma história que mistura o absurdo, política e o sobrenatural. Em meio a uma greve geral na cidade, os coveiros cruzam os braços e os trabalhadores impedem os enterros de serem realizados em Antares. Devido a isso, sete caixões são deixados às portas do cemitério, esperando o momento de irem para a cova. Os sete defuntos são figuras conhecidas da cidade, das mais variadas classes sociais: desde a rica matriarca de uma das duas famílias fundadoras até um bêbado e uma prostituta. O que ninguém esperava era que seus ocupantes se levantassem e ocupassem a praça principal para exigir um enterro digno, e pra isso eles ameaçam contar os segredos mais podres de seus conterrâneos.
Nota: 10
3. O Espelho dos Nomes (Marcos Bagno, 2002)
Das várias boas lembranças que carrego da escola, uma é este livro genial que utiliza da fantasia para conduzir o leitor por um mundo de desafios e encantos que representam as disciplinas escolares mais básicas, acompanhando Abel (ou Gabriel, Isabel, Miguel... que não gosta de seu nome - e por isso o nome muda a cada capítulo) e seu companheiro Tomenota, que passam por diferentes níveis de desafios atravessando espelhos. São muitas as semelhanças com Alice no País das Maravilhas, com a clara vantagem de ser escrito em nossa língua (as rimas são rimas e os trocadilhos fazem sentido!) e tendo a diferença de se aproximar mais do universo escolar. Em resumo (e cheio de nostalgia): o livro é uma graça, é envolvente, divertido, e é o tipo de leitura que toda criança (mas não só criança!) deveria fazer.
Nota: 10

Luís F. Passos

Leia também:
Aos meus amigos
Incidente em Antares
O Espelho dos nomes