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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Top 10 - Filmes em 2016


Em 2016 eu superei meu recorde de mais tempo sem freqüentar salas de cinema – literalmente, fui ao cinema apenas duas vezes ao longo do ano. Assim, como não queria deixar de fazer minha lista pessoal com o que vi de mais interessante no ano (já estou em falta por não ter feito a de 2015), trouxe aqui os dez melhores longas que tive o prazer de ver e me apaixonar nesses últimos meses.
1.       Azul é a cor mais quente (La vie d’Adèle, 2013)
Paixão. Talvez esta seja a melhor palavra para descrever esse filme memorável sobre um relacionamento avassalador entre duas mulheres. Interessante, envolvente e erótico, Azul é a cor mais quente destila doses grandes de amor em toda sua forma, toda sua beleza e toda sua naturalidade, do começo ao fim. Inesquecível.
2.     
  O clube dos cinco (The breakfast club, 1985)
O filme que me deixou fissurado pelos anos 80. O fato de ter demorado tanto tempo sem ter visto O clube dos cinco – tendo perdido a oportunidade de vê-lo quando criança e adolescente – é algo que lamento muito. Isso se deve ao fato de que este aqui talvez seja o filme que melhor dialoga com as peculiaridades e incertezas do universo juvenil. Baseando-se na construção e posterior desconstrução de estereótipos, O clube dos cinco nos leva a reflexões sobre a vida e nossos papeis nela, sobre quem somos e quem gostaríamos de ser. Mais de 30 anos se passaram e este ainda é o melhor filme do gênero e a obra prima máxima de John Hughes.
3.      
Ex-Machina (2015)
Para suprir minha necessidade de sci-fi, Ex-Machina aparece como uma fábula científica incrível, surpreendente e única. Não é simplesmente um filme de robôs e seus criadores, mas sim uma obra que analisa várias camadas da natureza humana (mesmo que artificial). Muito do que há de melhor e o que há de pior no comportamento humano pode ser percebido em Ex-Machina. Curiosidade, atração, dissimulação, traição. É um banquete para quem gosta de um bom filme de personagens muito bem construídos (além de manter um ar de suspense e um clima de tensão o tempo todo).
4.       Que horas ela volta? (2015)
Uma das melhores pérolas do cinema nacional dos últimos anos, Que horas ela volta? retrata de maneira quase desconfortavelmente fiel a realidade de milhares de famílias e trabalhadoras domésticas brasileiras. Um retrato social ácido, e, principalmente, necessário. Na figura de Val (Regina Casé) vemos a luta diária e as pequenas e grandes conquistas de uma pessoa incrivelmente banal no cotidiano do país. Que horas ela volta? dá, então, voz a toda uma classe e, para mim, é filme obrigatório para todo brasileiro. Não é sempre que vemos um filme retratar de maneira tão clara e direta o seu próprio país.
5.       Boyhood (2014)
Obra prima de Richard Linklater e um dos filmes mais comentados dos últimos anos pelos seus longos 12 anos de produção, Boyhood acompanha todas as trivialidades e todos os grandes momentos da vida de um garoto comum, cuja vida não é muito especial, nem muito melhor nem muito pior que a dos outros. Entre suas tragédias e glórias, o mérito de Boyhood é simplesmente o de retratar a vida (e o processo de amadurecimento) como ela é, em toda sua simplicidade, banalidade, repetição, monotonia. Em todos seus altos e baixos e em todos os momentos cotidianos de beleza que escapam a nossos olhos. É um filme muito bonito e muito bem realizado.
6.       Mapas para as estrelas (Maps to the stars, 2014)
Retrato bizarro sobre Hollywood, Mapa para as estrelas é um desfile de personagens sórdidas e de moral totalmente questionável. Superficialidade, violência, arrogância, culpa e desprezo são destilados num universo de entorpecentes, traições e aparências.  Mais uma obra perturbadora de David Cronenberg, recheada de atuações excelentes com destaque para Julianne Moore, que venceu o prêmio de atuação feminina em Cannes pelo seu papel neste filme.
7.       Inside Llewyn Davis (2013)
Filme sobre a vida errante de um solitário cantor de música folk (vivido por Oscar Isaac), entre todos seus altos e baixos. Bom, mais altos que baixos, visto que é um grande lidar com a difícil realidade mantida por erros do passado e as dificuldades da vida como artista. Inside llewyn Davis nos traz de maneira muito interessante o cenário da música folk em NY dos anos 60 e é um filme dotado de grande sensibilidade, com uma boa análise de personagem e bons elementos técnicos, que inclui uma excelente (excelente mesmo) trilha sonora e uma bela e sóbria fotografia.
8.      
Ou tudo ou nada (The full monty, 1997)
Divertidíssimo do começo ao fim, Ou tudo ou nada foi um grande sucesso dos anos 90 e trata sobre um grupo de homens desempregados e sem grandes expectativas de vida que decidem, já que não tem muito mais o que perder, ganhar dinheiro como strippers, mesmo com seus corpos meio caídos de gente comum e suas habilidades nulas de sedução. Não, aqui não rola nenhum Magic Mike, o que, justamente, garante boa parte da diversão. Além disso, é um filme muito legal sobre amizade e companheirismo e um retrato muito mais fiel e melancólico das falidas cidades industriais inglesas no fim do século XX do que se pode imaginar a um olhar mais desatento.
9.  
     Harry e Sally – feitos um para o outro (When Harry met Sally, 1989)
Uma das comédias românticas essenciais da história do cinema. Provavelmente, a melhor comédia romântica dos anos 80. Apesar de não ser nem um pouco imprevisível, Harry e Sally é tão agradável que é irresistível, muito disso graças ao roteiro inteligente cheio de piadas legais e a sintonia perfeita entre Meg Ryan e Billy Crystal. É possível observar alguns traços de Annie Hall na construção do longa, o que é receita de sucesso (500 dias com ela, alguém?). É pra ver, se divertir e relaxar como se estivesse vendo um filme da sessão da tarde em 2002. Tá liberado.
10.  
Jogos Vorazes + Em chamas (The hunger games, 2012 + Catching fire, 2013)
Demorei bastante para ver a saga de Katniss Everdeen e não sei bem o motivo. De fato, tenho de confessar que subestimei bastante Jogos Vorazes. Não é apenas mais uma saga para adolescentes e jovens adultos e muito menos mais um filme sobre um futuro bizarro. Jogos Vorazes é uma análise social muito interessante sobre as desigualdades entre as classes sociais, o aspecto nocivo da mídia em distorcer a realidade, o papel opressor do estado e a banalização da violência e do absurdo. Tudo isso ainda vem acompanhado com um romance guilty pleasure clichê como sobremesa.
 
Lucas Moura

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Filmes pro final de semana - 12/08

1. Django livre (Django Unchained, 2012)
Aula básica de anatomia humana segundo Quentin Tarantino: o corpo é formado de pele e sangue. É impressionante - mas não tanto quando se fala de Tarantino - como o filme é cheio de bang bang e dá um banho de sangue na tela. Mas muito mais que tiroteio, Django tem uma história sólida, com as devidas doses de emoção, comédia e a questão racial nos Estados Unidos. A partir do encontro do escravo Django (Jamie Foxx) com o incomum dentista que na verdade é um caçador de recompensas dr Schultz (Cristoph Waltz) nasce uma parceria capaz de sacudir o velho oeste. Schultz liberta Django e o faz seu sócio, capturando procurados da justiça e acumulando recompensas. O grande desafio da dupla será a libertação da esposa de Django, em posse do arrogante fazendeiro Calvin Caldie (Leonardo DiCaprio), uma missão que exige muito mais de paciência e estratégia do que boa pontaria. Mas como é um filme de Tarantino, a boa pontaria nunca pode ser deixada de lado.
Obs: Django. O D é mudo.
Nota: 9,5/ 10
2. Lincoln (2012)
Lincoln conta a história de um dos maiores presidentes dos Estados Unidos em um momento crucial de seu governo, o iminente fim da Guerra Civil americana e a necessidade de se pensar em como consolidar a abolição da escravatura que causara a guerra. O jeito era outorgar uma emenda à Constituição, a 13ª, tarefa difícil em meio ao difícil terreno que era a Câmara dos representantes. O presidente Lincoln (Daniel Day-Lewis) precisa de aliados fortes como o presidente do partido republicano e o experiente deputado Stevens (Tommy Lee-Jones) para conquistar os votos necessários, além de assessores para comprar os votos não negociados. E mais do que a complicada cena política, Lincoln também precisa lidar com os problemas familiares, com sua esposa Mary Todd-Lincoln (Sally Field) e a distância de seu filho Robert (Joseph Gordon-Levitt). De roteiro sólido e ótima direção, o filme se eleva muito com a espetacular atuação de Daniel Day-Lewis, que lhe rendeu seu terceiro Oscar de melhor ator.
Nota: 9,0/ 10
3. O lado bom da vida (Silver Linings Playbook, 2012)
Uma graça de comédia romântica, este é um filme que faz bem a gente ver. "Mas Luís, tem melhores". Claro que tem melhores, mas nem só de Kubrick vive o homem e a gente precisa de um filme leve pra relaxar. Vamos à história:  Pat (Bradley Cooper) é um professor que ficou desempregado depois de surtar no emprego e tentar agredir a esposa que o estava deixando. De volta pra casa depois de uma temporada internado numa clínica psiquiátrica, Pat conhece a complicada Tiffany (jenniffer Lawrence), uma jovem viúva que luta consigo mesma todos os dias pra pôr sua vida nos trilhos. O filme mostra a tentativa de Tiffany de se aproximar de Pat e o esforços dos pais dele (Jacki Weaver e Robert de Niro) em por um pouco de juízo na cabeça do filho. Divertido e emocionante, rendeu o primeiro (e convenhamos, controverso) Oscar de Jennifer Lawrence.
Nota: 8,0/ 10
4. Os Miseráveis (Les Misérables, 2012)
Talvez o mais aguardado filme de 2012 pelo povão, a nova adaptação da obra imortal de Victor Hugo veio mais uma vez na forma de musical. Dirigido por Tom Hooper (do agradável e insosso O discurso do Rei), o filme é ambientado na França pós-Napoleão, onde o pobre Jean Valjean (Hugh Jackman) é posto em liberdade depois de 19 anos preso e fazendo trabalhos forçados. Passado um tempo, graças à ajuda de um religioso, Valjean ressurge com outro nome e como um rico empresário, prefeito de uma pequena cidade, onde conhece a pobre Fantine (Anne Hathaway), uma operária que após perder o emprego torna-se prostituta para sustentar sua filhinha Cosette. Após sofrer o pão que o diabo amassou, Fantine morre e Valjean promete tomar conta de Cosette, mas sua vida é complicada pela perseguição do inspetor Javert (Russel Crowe), que o reconhece como ex detento e lhe perseguirá por todo o filme. Muito bem feito tecnicamente e com elenco de peso, o filme tem como mérito a presença de Hugh Jackman por todo o filme e a breve mas não menos importante participação de Anne Hathaway, responsável pela cena mais emocionante do longa, cantando I dreamed a dream. Mas aguentar mais de três horas de um musical que não é tão bem amarrado e chega a ser chato em alguns momentos não é fácil. Adaptar para o cinema uma das mais importantes obras literárias da humanidade, que retrata como poucas a difícil realidade da população mais pobre, é tarefa árdua que deveria ser encarada por um diretor melhor. Pronto, falei.
Nota: 8,5/ 10
5. Valente (Brave, 2012)
O décimo terceiro filme da Pixar é o primeiro a ter uma protagonista feminina. A princesa Merida, filha do rei Fergus e da rainha Elinor, é uma habilidosa arqueira que pretende traçar seu próprio destino, diferente de todas as outras princesas. Ela não pretende casar e viver num castelo, mas passar a vida atrás de aventuras. O principal obstáculo: sua mãe. E é por isso que Merida recorre a uma bruxa, mas a ajuda vem na forma de maldição. É justamente aí que Merida vai ter que demonstrar coragem como nunca, para desfazer a maldição enquanto é tempo. O filme é ótimo, muito engraçado e é impossível não se envolver com a história da jovem princesa de cabelos rebeldes e espírito indomável - detalhe pro cabelo ruivo que parece estar pegando fogo e traduz perfeitamente a rebeldia da princesa.
Nota: 8,0/ 10

Luís F. Passos

sábado, 3 de maio de 2014

Filmes pro final de semana - 02/05

1. E ai, comeu? (2012)
Comédia nacional, de Bruno Mazzeo, com esse título, dá pra esperar coisa boa? Não, mas o filme surpreende. Pelo menos dá uma surra no infame Cilada.com, também de Mazzeo. E ai, comeu? é centrado em três amigos que se reúnem quase todo dia num boteco para falar sobre a vida, mulheres e sexo. Honório (Marcos Palmeira) é um jornalista machão que começa a enfrentar problemas no casamento, Fernando (Mazzeo) acabou de se divorciar e ainda sofre com isso - e é perturbado pela vizinha de 17 anos - , e Afonsinho (Emílio Orciollo Neto) é um rico que sonha ser escritor e vive se relacionando com prostitutas. No bar, atendidos pelo sempre presente garçom Jorge (Seu Jorge), os três sempre estão tentando descobrir qual o papel deles num mundo povoado e (segundo eles) dominado pelas mulheres. Hilário e não tão infame.
Nota: 7,5/ 10
2. Inverno da Alma (Winter's Bone, 2010)
Após ser indicada ao Oscar em 2011, Jennifer Lawrence ganhou muita projeção com Jogos Vorazes e depois com O lado bom da vida, com o qual venceu o Oscar ano passado. Mas seu melhor papel ainda é aquele pelo qual ela recebeu sua primeira indicação - e pra mim, seu melhor filme também. A personagem de Jennifer, Ree, é uma garota de 17 anos que precisa encontrar o pai para que ela, sua mãe e seus irmãos pequenos não sejam despejados de sua casa. O pai, que tinha envolvimento com o crime, havia saído em condicional e deixado a casa como garantia caso fugisse - e estava desaparecido. Para encontrar o pai, Ree precisa ir atrás de gente perigosa, sem escrúpulos nem piedade, que somado à já difícil vida num lugar frio e árido, exige da jovem força e maturidade que ela precisa adquirir sem apoio de ninguém. 
Nota: 8,5/ 10
3. Gangues de Nova York (Gangs of New York, 2002)
Sou muito suspeito pra falar de Scorsese, mas é difícil não se render a Gangues de Nova York. Show de sireção, roteiro, efeitos, trilha sonora, elenco. Elenco encabeçado por Daniel Day-Lewis e Leonardo DiCaprio, que vivem rivais nos subúrbios nova-iorquinos da segunda metade do século 19, num misto de vingança e disputa pelo domínio do crime numa grande região da cidade. Day-Lewis vive Bill, "the Butcher", que detém o controle da região de Cinco Pontas desde um memorável combate contra William M. Tweed - e considerava-se inatingível, até que o filho de seu antigo rival (DiCaprio) aparece sedento de vingança. É Scorsese explorando a história de sua cidade por um ângulo não muito conhecido e o talento de dois grandes atores: Day-Lewis, colossal como o açougueiro do crime, e DiCaprio, que faz aqui a primeira das cinco parcerias com o diretor.
Nota: 8,5/ 10
4. Arizona Nunca Mais (Raising Arizona, 1987)
Um clássico na filmografia dos Irmãos Coen e sem dúvidas um clássico contemporâneo. Segundo filme da dupla que sacudiu o cinema nos anos 80, Arizona nunca mais é uma comédia escrachada e caricata que tem em Nicolas Cage um anti-herói atrapalhado, o ex-penitenciário HI, que acaba se casando com uma bela policial da cadeia onde cumpria pena, Ed (Holly Hunter). O casal recém-formado vive num mar de felicidade até descobrir que não podiam ter filhos - e bolam um plano para sequestrar um dos quíntuplos gêmeos de um milionário. As investigações do sumiço do bebê, a contratação de um pistoleiro implacável pelo pai da criança, o aparecimento de dois amigos fugitivos de HI e claro, a maluquice do casal sequestrador são os ingredientes certos para a estranha e exagerada comédia com tons de western que ainda conquista fãs quase trinta anos depois.
Nota: 9,0/ 10
5. Um Estranho no Ninho (One Flew over the Cuckoo's nest, 1975)
Tá aí um filme que consegue me deixar emocionado de verdade. A história do malandro Randle P. McMurphy (Jack Nicholson), que se finge de louco para sair do presídio onde cumpria trabalhos forçados e vai para um hospício é um convite à reflexão sobre a psiquiatria manicomial e principalmente sobre liberdade e desafio ao sistema. Isso porque McMurphy vai encontrar o verdadeiro diabo de saias e touca: a enfermeira chefe Ratched (Louise Fletcher), que odeia toda e qualquer coisa que atrapalhe a disciplina e perfeita harmonia em seu hospital psiquiátrico. Onde esperava encontrar vida mansa, o bandido vai encontrar um ambiente tenso e sufocante, em que regras antigas e rígidas valem mais que a felicidade ou mesmo a vida humana. Filme excelente que faturou os cinco prêmios principais do Oscar, filme, direção, roteiro adaptado, ator (Nicholson) e atriz (Fletcher).
Nota: 10

Luís F. Passos

domingo, 2 de março de 2014

Oscar - grandes erros

Sandra Bullock – melhor atriz por Um sonho possível (2009/2010)
Melhor opção: Carey Mulligan por Educação / Gabourey Sidibe por Preciosa / Hellen Mirren por A última estação / Meryl Streep por Julie e Julia
NÃO. Simplesmente NÃO. Não é que eu tenha algo contra Sandra Bullock. Muito pelo contrário, a considero uma excelente atriz de comédias. Muito consistente, muito simpática, muito divertida. De uns tempos pra cá, até venho apostando mais no seu talento como atriz dramática (viram Gravidade? Ela está excelente e mereceu sua indicação), mas dar o prêmio por sua atuação sem sal nesse filme moralista, comportado, irritantemente bonzinho e politicamente correto é o cúmulo. Não é que ela esteja ruim, isso não é o caso. O caso é que o filme não abre margem para uma interpretação de verdade. Algo impactante, que realmente chame atenção. O máximo que Um sonho possível faz é arrancar algumas lágrimas de algumas pessoas mais emotivas. Para quem realmente quer ver algo de diferente, de original e de sensacional num filme através de uma atuação, Um sonho possível só arrancou bocejos. Ao contrário das demais indicadas ao prêmio neste ano que trouxeram atuações fantásticas. A principal concorrente de Bullock na categoria foi Meryl Streep por Julie e Julia. Se Meryl tivesse levado o prêmio não seria ruim, mas, para mim, também não seria de longe a melhor opção. Estávamos diante de três atuações sensacionais da lendária Helen Mirren e, principalmente, das quase estreantes Carey Mulligan e Gabourey Sidibe. Carey, em Educação, traz à tona o espírito feminino, da juventude e de toda uma época num filme belíssimo sobre amadurecimento. Gabby nos trouxe a história mais dramaticamente pesada dos últimos anos. É praticamente um filme de terror na base do sofrimento, carregado quase que totalmente nas suas costas. Apesar de qualquer uma das quatro serem mais merecedoras que Bullock, eu deixaria o prêmio entre estas duas últimas, sobretudo com Carey, por quem virei um completo fã, que conseguiu firmar uma carreira relativamente sólida emplacando excelência atrás de excelência.

Gwyneth Paltrow – melhor atriz por Shakespeare apaixonado (1998/ 99)
Melhor opção: Cate Blanchett por Elizabeth / Fernanda Montenegro por Central do Brasil / Emily Watson por Hillary e Jackie  
Caso clássico de gafe do Oscar. Clássico! Há mais de 15 anos a Academia escolheu premiar a atuação bonitinha e simpática da bonitinha e simpática queridinha dos anos 90 em vez de premiar atrizes de verdade – sem ofensas. Na competição, amargaram uma derrota nada a ver atrizes que realmente deram um espetáculo em cena. Não falo apenas por Fernanda Montenegro, mas todas as outras – com exceção, talvez, de Meryl Streep e seu Um amor verdadeiro bonitinho, mas whatever – trouxeram papéis bem mais impactantes. Quase todos aqui já devem ter visto Central do Brasil, então não preciso falar muito deste nem explicar o porquê de Fernanda ter sido indicada e ter sido merecedora do prêmio. Mas vocês, por acaso, já viram Elizabeth? Cate Blanchett é um monstro em cena nesse filme. De uma força incrível. E Hillary e Jackie? Esse, muitos podem nem ter ouvido falar, mas é um trabalho magistral da excelentíssima Emily Watson que transforma em ouro – apesar de não ter levado tantos prêmios quanto merecia – qualquer papel que toca. Sou fã de Fernanda Montenegro, de Cate Blanchett e de Emily Watson, então a vitória de qualquer uma das três teria sido algo fenomenal e muito mais admirável que a bobinha aí.

Crash – melhor filme (2005/ 2006)
Melhor opção: O segredo de Brokeback Mountain
Sabe quando qualquer outra opção é melhor? Pois é. Até dar o prêmio para filmes que nem tinham sido indicados seria uma opção mais interessante que premiar o esquecível – talvez não por ter uma cena muito bonita – longa sobre o choque entre diferentes pessoas de diferentes mundos, mas confinadas numa mesma cidade e entrelaçadas por conexões das mais próximas às mais distantes, através de ligações que só podem ser explicadas por destino ou coincidências. Enfim, esse é um resumo total do filme. Não é que Crash seja totalmente ruim, mas ele não tem exatamente nada de muito extraordinário, vindo de um ano em que havia filmes fantásticos na competição. Capote, Boa noite e boa sorte e Munique são grandes trabalhos, mas inaceitável mesmo é a derrota de O segredo de Brokeback Mountain, filme bem mais emotivo, bem mais delicado, bem mais inovador (apesar de usar uma fórmula base de amor trágico que é mais velha que o mundo) e bem mais memorável. Memorável não apenas por ser um conto sobre cowboys gays, mas por ser um dos filmes mais honestos sobre o amor feito nos anos 2000. Muito triste, muito melancólico, mas muito bem realizado, O segredo de Brokeback Mountain é um filme muito sóbrio e respeitoso sobre o relacionamento ao longo dos anos de um casal cujo grande impedimento à felicidade é o preconceito (social e internalizado) e o medo. Deveras mais interessante, inteligente, impactante e polêmico que Crash, do qual eu só consigo lembrar que tem uma bala de festim, um assédio sexual que tem alguma ligação com um carro capotado (???) e Sandra Bullock caindo da escada e sendo socorrida por uma mexicana (!!!).
O melhor de Crash sem dúvida foi na hora da premiação - a cara de Jack Nicholson ao anunciar o vencedor. Ponha em 1'32 e boa risada.


Sinfonia em Paris - melhor filme (1951/ 52)
Melhor opção: Uma rua chamada pecado / Um lugar ao sol
Hollywood vivia uma das épocas áureas dos musicais e a Academia resolveu coroar o insosso Sinfonia em Paris, estrelado por Gene Kelly, que vive um veterano da 2ª guerra que resolvera viver em Paris para tentar viver como pintor, se apaixona por uma bailarina, sai dançando e cantando por qualquer besteira e bla-blça-blá. Um filme fraco cuja única boa lembrança é a piadinha no começo do filme em que a personagem de Kelly diz: "Nos Estados Unidos diziam que eu não tinha talento... aqui também dizem isso, mas em francês soa mais bonito". Mesmo assim, o filme venceu o interessantíssimo e imortal Uma rua chamada pecado, com as inesquecíveis atuações do quarteto Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden, além do carismático drama Um lugar ao sol, famoso pela presença da então jovem e já promissora Elizabeth Taylor.

Minha linda dama - melhor filme (1964/ 65)
Melhor opção: Dr Fantástico
MAIS UM. Mais um ano em que um musical simplório vence - e olhe que se estamos nos anos 60, o musical tem 95% de chance de ser mais enjoativo que um saco de marshmallow. O pior é que nesse ano, dos cinco filmes indicados, apenas um merecia de fato o prêmio: a comédia de humor negro de Kubrick, o mais divertido e ácido trabalho do diretor que é ícone quando se fala de gênios do cinema e injustiçados do Oscar. O astuto filme sobre apocalipse nuclear perdeu para o ingênuo e irritante filme de três horas em que Audrey Hepburn sapateia e saltita pelas ruas e palacetes de Londres, num diferente tipo de plebeia que vira princesa (na verdade trata-se de um experimento social feito por um professor) que seria melhor indicado para casos crônicos de insônia. Amamos Audrey, mas Minha linda dama não dá pra engolir.

A noviça rebelde – melhor filme (1965/66)
Melhor opção: Doutor Jivago / Darling
Cara, eu odeio esse filme. É tão bobo, entediante e bem comportado que me dá vontade de vomitar. Já estávamos bem avançados nos anos 60 para dar tanta ênfase a este filme sem sal quando já se tinha uma grande quantidade de produções muito mais apropriadas a sua época e ao novo estilo de pensar e agir que viriam com tanta força alguns anos depois e, principalmente, nos anos 70. Filmes indicados como Darling – a que amou demais traziam um conteúdo muito mais sério e muito mais apropriado para a nova geração crítica e ácida que surgia. Não estou dizendo que naquele ano as pessoas já estavam prontas para Perdidos na noite (vencedor de melhor filme em 1970), mas também não se pode dizer que a história de uma freira cantora e um bando de pirralhos louros fugindo de nazistas e cantando músicas entediantes fosse o mais apropriado. Porque não os meios termos? Caso ainda quisessem apostar no caminho mais tradicional, vale lembrar que o clássico universal Doutor Jivago também é do mesmo ano e acredito que seria uma opção melhor. Menos tola, pelo menos.

Apocalypse Now (1979) e Touro Indomável (1980) perderem o Oscar de melhor filme
Dois erros gritantes e consecutivos - apesar de serem de certa forma compreensíveis. A brilhante e revolucionária geração da década de 70 estava perdendo força e essas duas derrotas são o marco do fim da Nova Hollywood. Não sei qual dos dois revolta mais os cinéfilos; no primeiro caso, a odisseia de Francis Ford Coppola no Vietnã, sem dúvida um dos dez melhores filmes americanos já feitos, perdeu para o drama familiar Kramer vs Kramer, um ótimo filme abrilhantado pelas grandes atuações de Dustin Hoffmann (que venceu por melhor ator) e Meryl Streep (que venceu como atriz coadjuvante). Kramer é bom, mas a superioridade de Apocalypse now é indiscutível.
No caso de Touro indomável, o vencedor foi Gente como a gente, outro drama familiar muito bom, mas a diferença de qualidade entre os dois é muito evidente. Touro é muito mais profundo, infinitas vezes melhor dirigido (talvez o melhor trabalho de direção de Scorsese) e tem como grande destaque a atuação monstruosa de Robert De Niro, uma das melhores atuações masculinas vencedoras de Oscar.

O discurso do rei – melhor filme (2010/ 2011)
Melhor opção: A rede social/ Cisne negro
Mesmo com a ideia idiota de colocar 10 indicados na categoria de melhor filme, o Oscar ainda conseguiu premiar um dos piores! Sim. Num ano cheio de produções criativas como Cisne negro, A origem e A rede social, a Academia, como de costume, optou pelo caminho mais seguro ao premiar uma história sobre gagueira. Não é nem sobre um grande homem, pois seus feitos não importam, é apenas sobre um gago. A questão é que esse gago é o Rei George, cuja única função na sua figura representativa da realeza britânica é fazer um discurso eloquente. Como fazê-lo sendo gago? And it’s gone. É basicamente isso. Claro que é um filme bom, com atuações excelentes, mas não chega aos pés de pelo menos sete dos outros indicados. Apesar de ter uma preferência pessoal por Cisne negro, acho até que A rede social sairia como um vencedor mais apropriado para o prêmio. Um filme totalmente antenado que cumpre muito bem uma das funções básicas do cinema que aprendemos com a geração dos anos 70: falar sobre seu tempo. É um filme moderno, um conto arrojado sobre a dinâmica do poder e dos fenômenos culturais na geração atual. Muito interessante, muito inteligente e muitíssimo bem feito pelo sempre perfeccionista David Fincher. Particularmente, ainda prefiro Cisne negro por ser tão visceral. Outras opções muito boas seriam A origem, 127 horas e, sim, Toy Story 3 (porque é emocionante até dizer chega).

Roberto Benigni – melhor ator por A vida é bela (1998/1999)
Melhor opção: Edward Norton por A outra história americana
Tudo bem, esse filme é bonitinho, mas também é bem enjoativo, concordam? De todos os filmes sobre o holocausto – que são muitos – A vida é bela consegue ser um dos mais emocionalmente apelativos. O filme usa praticamente de todos os artifícios possíveis para tentar conseguir uma conexão emotiva com o espectador, e até consegue. O problema é que o longa definitivamente não resiste a uma segunda sessão, ou muito menos ao tempo. O considero ultrapassado e comportado demais para levá-lo a sério. Além do mais, Roberto Benigni faz uma atuação bacana, mas tão caricata e exagerada que é até forçada, sinceramente. Não vejo nada de extraordinário em seu trabalho como ator neste filme e, principalmente, quem viu ele recebendo o prêmio sabe que sua reação à notícia foi no mínimo tosca. Enfim, como se não bastassem os pontos negativos de Benigni, o ano de 1998 trazia atuações espetaculares de Tom Hanks em O resgate do soldado Ryan e principalmente de Edward Norton no notório A outra história americana que com certeza é um dos melhores filmes dos anos 90 e com certeza é um dos melhores filmes já feitos sobre conflitos raciais no mundo moderno. Edward Norton é um excelente ator que com certeza mereceria uma maior visibilidade por parte do Oscar e A outra história americana foi a melhor oportunidade para isto. Não importa, pois ele tem uma verdadeira legião de fãs, sempre ansiosos pelos seus próximos trabalhos. 

Art Carney – melhor ator por Harry, o amigo de Tonto (1974/75)
Melhor opção: Jack Nicholson por Chinatown / Al Pacino por O poderoso chefão II
Quem é Art Carney? Não sei. Que filme é Harry, o amigo de Tonto? Não faço a menor ideia. Mesmo assim, num ano em que Al Pacino trouxe seu Michael Corleone em O poderoso chefão II e Jack Nicholson deixou meio mundo surpreso com a potência de seu noir em Chinatown, um ator que caiu em completo esquecimento por um filme o qual ninguém ouviu falar saiu vencedor do prêmio. Não importa que eu não tenha visto o filme, mas é óbvio que Pacino e Nicholson, que trouxeram dois dos melhores personagens da história do cinema, eram opções muito mais corretas. Pura questão de bom senso – o que a Academia mostra, várias vezes, que não tem.  

Rod Steiger – melhor ator por No calor da noite (1967/68)
Melhor opção: Paul Newman por Rebeldia indomável / Dustin Hoffman por A primeira noite de um homem
Longe de mim dizer que No calor da noite é um filme ruim ou que o trabalho de Rod Steiger no filme seja ruim, mas é mais um daqueles casos em que o vencedor caiu em quase esquecimento enquanto que indicados só fizeram crescer mais e mais. No caso, o ano era 1967 e os filmes já traziam muitas temáticas novas para o cinema. Apesar de ter, em sua origem, uma proposta mais inovadora, No calor da noite não chega aos pés de seus concorrentes neste quesito. O mesmo vale para suas personagens. Apesar de uma atuação correta, Rod Steiger ficou longe de fazer uma atuação icônica, algo desenvolvido muito bem por Dustin Hoffman em A primeira noite de um homem, e, meu preferido, Paul Newman em Rebeldia indomável. Em termos de filme, prefiro A primeira noite de um homem, mas em termos de atuação protagonista, prefiro a de Newman. Apesar de seu personagem não ter virado um símbolo tão grande quanto o de Hoffman, aqui o ator traz um de seus melhores papéis – melhor inclusive que aquele que lhe rendeu o prêmio em A cor do dinheiro de Martin Scorsese. O filme é tão bom, tão cheio de força e liberdade que esboça muito bem o espírito livre posteriormente imortalizado em Um estranho no ninho, longa que deve muito à Rebeldia indomável e que, nos dias atuais, carrega um renome consideravelmente maior.

Chicago – melhor filme (2002/ 2003)
Melhor opção: O pianista / Gangues de Nova York / O Senhor dos anéis: as duas torres
Hollywood adora um musical. O Oscar já cansou de dar prêmios a musicais que não mereciam, e com Chicago não foi diferente. Mais uma vez, este não é um caso de filme ruim, mas um caso de uma competição muito melhor. No ano, concorriam diretamente a emoção de O pianista, a voracidade de Gangues de Nova York e a excelência de As duas torres. Com essas três opções ótimas, a Academia foi por fora e deu o prêmio para Chicago. Não satisfeito, ainda deu o prêmio de melhor atriz coadjuvante para Catherine Zeta-Jones, em mais um caso de uma atuação boa, porém com concorrência muito melhor. Apesar de ser um grande fã de Gangues de Nova York, não o considero um dos melhores trabalhos de Scorsese – lembrando que seus melhores filmes não ganharam o Oscar – dessa forma, a melhor opção ficaria a cargo do emocionante e muito bem realizado (dramático, mas não muito apelativo) drama sobre o holocausto de Roman Polanski.

Uma mente brilhante – melhor filme (2001/ 2002)
Melhor opção: Assassinato em Gosford Park
Mais um caso em que o vencedor era o pior dentre os indicados. Muito bom, uma atuação fantástica de Russel Crowe e uma tão boa quanto de Jennifer Connely. Porém, a concorrência vinha com tudo naquele ano. É deste ano o primeiro capítulo da saga do Senhor dos Anéis, foi neste ano que Moulin Rouge! ressuscitou os tão amados por Hollywood musicais com sua explosão de cor, som e paixão, foi neste ano que Sissy Spacek e um talentoso elenco adentrou nos dramas particulares de uma família como qualquer outra, mostrando o que está escondido e criando uma fantástica relação causa-consequência (frisando, mais uma vez, a excelência da atuação de Sissy Spacek e dos demais atores do filme) e, principalmente, é deste ano um dos melhores filmes de Robert Altman: Assassinato em Gosford Park. Não que Gosford Park seja o melhor filme do diretor, mas aqui temos seus elementos básicos de histórias que se cruzam, elenco gigantesco e roteiro complexo e intrincado, mas com um toque de clássico típico de cinema antigo, qualidade técnica impecável e um elenco que inclui a realeza do cinema mundial, contando com nomes como Hellen Mirren e Maggie Smith (ambas indicadas ao Oscar de melhor atriz coadjuvante). Mais uma vez, Gosford Park não é o melhor filme de Robert Altman, mas foi a melhor chance que o diretor teve, visto que só venceu um prêmio honorário, de ganhar o prêmio (Mash e Nashville são melhores, mas não fazem o perfil da premiação de forma alguma).

 Shakespeare apaixonado – melhor filme (1998/ 99)
Melhor opção: A outra história americana – que não foi nem indicado / O resgate do soldado Ryan
Certo. Como se não bastasse ter dado o prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow, o Oscar, não satisfeito, ainda deu o prêmio de melhor filme para Shakespeare apaixonado. Um filme ruim? Longe disso. Muito divertido, muito agradável e muito bonitinho, isso é fato. Porém, em ano nenhum um filme desse porte deveria levar o prêmio de melhor filme. Teoricamente, o vencedor da principal estatueta tem que ser inovador, arrebatador, surpreendente, ousado e tantas outras qualidades que muitos dos vencedores não têm nas doses perfeitas. Esse é o caso de Shakespeare apaixonado. É clássico, com uns toques modernos, passeia por diferentes gêneros, mas não consegue ir muito além do bom. É todo perfeitinho, mas não chega a ser ótimo. Enfim, não vale o prêmio. Como concorrente direto, o filme enfrentou o clássico sobre a Segunda Guerra e uma das principais obras-primas de Spielberg, O resgate do soldado Ryan. Não é um filme que eu goste muito – acho muito forçado no patriotismo e um pouco irritante às vezes – mas devo admitir que é um filme extremamente bem realizado, de uma destreza técnica fantástica e que conta com os 15 primeiros minutos mais intensos do cinema. Enfim, uma opção mais viável. Merecedor mesmo, a meu ver, era o nem indicado A outra história americana, um filme simplesmente fenomenal em tudo o que propõe.

O paciente inglês – melhor filme (1996/ 97)
Melhor opção: Fargo
O que esperar de um filme consagrado pela série Seinfeld como longo e entediante? Exatamente isso. O paciente inglês é um romance estilo clássico, daqueles bem melosos e cheios de paixão e sofrimento. O problema do filme é que ele é simplesmente chato. Chato e longo. Chato, longo e entediante. Chato, longo, entediante e cansativo. Enfim, não é um filme que eu fosse recomendar a ninguém porque não acho que ele valha as pouco mais de 3hrs de sua duração. Sim, são 3hrs de um homem desfigurado por queimaduras morrendo no deserto enquanto conta sua história de amor com uma mulher lá de quem não lembro nada (só lembro que é interpretada pela excelente Kristin Scott Thomas). Filme totalmente dispensável. Algo muito diferente de dois de seus concorrentes, o empático Jerry Maguire e principalmente o ousadíssimo Fargo, uma das maiores incursões dos irmãos Coen pelo humor negro. Um filme que mistura sequestros, assassinatos, criminosos toscos e violentos, uma cidade no meio do nada e uma policial grávida vivida por Frances McDormand parecem uma combinação muito improvável, mas vira uma programação cinematográfica imperdível e uma grande diversão. O Oscar adora os irmãos Coen, tendo os indicado algumas vezes e até dado o prêmio de melhor filme para Onde os fracos não tem vez (ótimo filme, mas Sangue negro é bem melhor), mas falhou feio ao não consagrá-los por essa que é uma das poucas pérolas dos anos 90.

Rocky, um lutador – melhor filme (1976/ 77)
Melhor opção: Taxi driver
Esse é um pouco complicado pra mim, pois sou um fã do filme Rocky. No entanto, isso não tira meu bom senso de saber que Rocky é muito inferior a três de seus concorrentes diretos ao prêmio: Taxi driver, Rede de intrigas e Todos os homens do presidente. Taxi driver tornou-se um dos filmes mais importantes do cinema, sendo considerado por muitos a maior obra-prima de Martin Scorsese e também um dos melhores estudos sobre a obscuridade da mente humana e os caminhos que percorre quando em situações de extrema pressão; Rede de intrigas é um relato ácido do jogo de manipulação e sensacionalismo que cerca a mídia televisiva, num esquema de interesses e alienação guiado por pessoas inescrupulosas, instáveis e tão podres quanto o sistema que mantêm; Todos os homens do presidente é um drama político tenso e muito ousado que joga o caso Watergate e o clima de tensão e fobia americana dos anos 70. Enquanto isso, Rocky é só um filme sobre um boxeador e seu caminho em busca de uma vitória dentro e fora dos ringues. Qual dos quatro parece ser mais interessante? Se há de haver dúvidas, com certeza estará entre os três primeiros. Como melhor opção, com certeza seria o próprio Taxi driver – hoje em dia está até na lista dos 50 melhores filmes da revista Sight and Sound.

Jennifer Lawrence - melhor atriz por O lado bom da vida (2012/13)
Deixei pro final porque é um dos mais polêmicos. Afinal, Lawrence merecia ganhar ou não? Não. Naomi Watts, indicada por O impossível, e Emanuelle Riva por Amor, estavam muito melhores. Não há dúvida de que Jennifer é uma das melhores atrizes de sua geração, terá uma carreira incrível pela frente, mas a decisão de lhe dar o Oscar foi mais política do que artística. Naomi Watts sendo levada por uma onda gigante e se arrastando por um lamaçal infinito com o tendão calcâneo rompido pra mim foi a melhor atuação do ano passado, melhor até que a de Emanuelle Riva, no inesquecível Amor, enquanto mudava de elegante e ativa senhora para uma enferma que murchava a olhos vistos. Enfim, na comédia de David O. Russel Jennifer mostrou muito carisma e talento de sobra - prova de Hollywood sofre da falta de ideias, não de elenco - mas a Academia deveria esperar um trabalho mais sério e consistente.

Lucas Moura e Luís F. Passos