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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Filmes pro final de semana - 04/09


1. Bravura Indômita
 (True grit, 2010)
Primeiro filme totalmente de cowboys dos Irmãos Coen, Bravura indômita é a segunda adaptação para o cinema do romance homônimo, sendo a primeira de 1969 com John Wayne, que ganhou um Oscar por sua atuação. No longa, Mattie Ross (Hallee Steinfeld) é a filha de um homem morto covardemente por um de seus ajudantes, Tom Chaney (Josh Brolin) e deseja fazer justiça, por mais difícil que seja sua missão. Para isso ela contrata Rooster Cogburn(Jeff Bridges), um caçador de recompensas velho, beberrão e mal humorado. A contragosto de Cogburn, Mattie o acompanha na busca do bandido, apesar de ter apenas 14 anos; a eles se junta LaBoeuf (Matt Damon), um patrulheiro texano que também tem bons motivos para perseguir Chaney. Não surpreendentemente, o trio vai criando afeto aos poucos e acabam se dando bem, unidos na árdua tarefa. Também não surpreendentemente, este é um filmaço. Por ser a segunda versão de um filme tão bem sucedido como foi o de 1969 e ter à frente os talentosos Coen, criou-se uma expectativa imensa e ninguém saiu decepcionado. O elenco é ótimo, o modo como é mostrada a dura realidade do velho Oeste é incrível e o desfecho (que aliás é diferente do filme de 69) é digno de aplausos.
Nota: 9,0/ 10

2. Amor sem escalas
 (Up in the air, 2009)
Ryan (George Clooney) é um profissional de uma empresa que é contratada por outras empresas para demitir seus empregados. Todos os dias ele fica de frente a dezenas de pessoas que nunca viu na vida e diz "seus serviços não são mais necessários". E de um trabalho para outro, Ryan viaja de avião, seu maior prazer. A cada ano ele passa quase trezentos dias fora de casa - aliás, onde é realmente sua casa? Para ele, seu lar são os aeroportos, as salas de espera, as confortáveis poltronas executivas da American Airlines. Tudo na vida de Ryan é emprego, voo, e a meta de acumular dez milhões de milhas aéreas. Para mudar isso, surge o casamento de sua irmã caçula, uma nova colega de trabalho que tem ideias que podem mudar radicalmente seu estilo de vida e uma misteriosa mulher que parece ser sua versão feminina. Uma ótima reflexão sobre a vida que cada um quer levar e sobre a crise econômica de 2008/09.
Nota: 10

3. Beleza Americana
 (American Beauty, 1999)
Um verdadeiro tapa na cara da classe média americana. Lester Burnhan (Kevin Spacey), o protagonista, é um pai de família cansado e entediado na monótona vida de típico trabalhador, com um emprego medíocre e muitas frustrações na vida profissional e pessoal. É casado com a famigerada Carolyn (Annette Bening), uma corretora de imóveis ambiciosa que se esforça para manter as aparências de família feliz, apesar do casamento desgastado, e sufoca a filha adolescente Jane (Thora Birch) com exigências, na tentativa de transformá-la numa garota prodígio. A história pega impulso com o surgimento de Angela (Mena Suvari), colega de Jane, por quem Lester se apaixona no auge de sua crise de meia-idade. A partir daí, a relação da família Burnhan com Angela, com os vizinhos Fitts e consigo mesma se torna uma sátira sobre beleza e satisfação pessoal, apunhalando sem piedade o desgastado sonho americano. O filme é cínico, dinâmico, provocante e envolvente. Merecidamente vencedor de cinco Oscar, incluindo melhor filme, diretor e ator (Spacey).
Nota: 10

4. A Época da Inocência
 (The Age of Innocence, 1993)
Maiores desafios mostram maiores talentos. No cinema não é diferente; filmes complexos ou que precisam de maior cuidado, quando bem feitos, revelam o talento de seu diretor. A Época da Inocência é um exemplo, no caso mais um exemplo, da competência de Martin Scorsese. Fazer um filme de época sem que tudo pareça um baile de fantasias é tarefa árdua, e Scorsese não desapontou. A trama ambientada na aristocracia novaiorquina do século 19 acompanha o jovem casal Newland Archer (Daniel Day-Lewis) e May Welland (Winona Ryder), apaixonados e de casamento marcado. O surgimento da condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), recentemente divorciada de um nobre europeu balança os sentimentos de Newland, que fica dividido entre a noiva angelical e a condessa sedutora. O fato de ser um amor impossível só aumenta o desejo do jovem. As angústias de Newland e Ellen são mostradas através do domínio de câmera que é velho conhecido dos fãs de Scorsese, que também retrata os costumes, vícios e esqueletos no armário de uma sociedade moralista que também tem seu teto de vidro.
Nota: 9,0/ 10

5. Psicose (Psycho, 1960)
Quando Marion Craine (Janet Leigh) rouba uma fortuna de seu patrão e foge em direção à Califórnia, não poderia imaginar o peso de seus atos ao seu futuro - ou o efeito de tal ação ao cinema mundial. Mesmo com um orçamento limitado e diversas adversidades, Alfred Hitchcock conseguiu fazer de Psicose seu mais bem sucedido filme, chocando plateias onde era exibido ao mostrar uma violência praticamente inédita e os lobos em peles de cordeiro que estão em todo lugar. A parada de Marion num motel de beira de estrada, seu breve contato com o dono do lugar, Norman Bates e seu repentino e sangrento assassinato inauguraram uma nova era no terror, mostrando o homem tão cruel quanto qualquer fera sobrenatural.
Nota: 10
 
Luís F. Passos

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Filmes pro final de semana - 28/02

1. O Irlandês (The Irishman, 2019)
O filme que talvez seja o último da brilhante carreira de Martin Scorsese é uma obra prima. Não há outra definição. As mais de 3 horas de duração de O Irlandês são puro deleite para os fãs de Scorsese e para qualquer apreciador do bom cinema. 24 anos depois de Cassino, Scorsese retoma a parceria com o amigo de longa data Robert De Niro, que dá vida a Frank Sheeran, caminhoneiro e veterano de guerra que entra na máfia aos serviços da poderosa família de Russel Bufalino (Joe Pesci), e a partir de então se torna assassino profissional. Frank ganha a alcunha de "o irlandês" e uma bela reputação por sua eficácia e discrição. Algum tempo depois ele entra no mundo dos sindicatos e se aproxima do poderoso Jimmy Hoffa (Al Pacino), o todo poderoso do sindicato de transportes. Disputas por poder e a grande pressão do FBI e do governo sobre o sindicato fazem a figura de Hoffa ser cada vez mais questionada, e cabe a Frank decidir até onde vai sua lealdade ao chefe - o que é decisivo nos momentos mais intensos do filme. 
Nota: 10 
2. O Barato de Iacanga (2019)
Quem imaginaria que uma fazenda no interior paulista, numa região bastante conservadora, ainda mais em pleno regime militar, seria o palco pra hippies andarem nus livremente? O Barato de Iacanga traz a história pouco conhecida por trás do lendário Festival de Águas Claras (que infelizmente não é conhecido como merece), realizado em quatro edições entre 1975 e 1984. Conhecido como Woodstock do Brasil, o Festival evoluiu de um encontro de bandas de rock progressivo, uma coisa mais underground, para uma reunião de artistas consagrados e extremamente populares, como Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Alceu Valença e João Gilberto - momento mostrado no filme como o apogeu do festival, quando João Gilberto cantou Wave junto a uma multidão de 100 mil pessoas na terceira edição, em 1983. Conduzido de uma maneira bastante leve, mesmo ao tratar da repressão da época e de todo o esforço do idealizador Leivinha e sua família para contornar a censura, o filme é uma mistura de cultura, memória e resistência. Dá uma saudade do que a gente não viveu.
Nota: 9,5/10
3. Democracia em vertigem (2019)
Nunca antes na história desse país uma indicação ao Oscar gerou tanta polêmica. O documentário que retrata a ascensão e queda do Partido dos Trabalhadores, com a consequente guinada à direita e extrema direita que o Brasil deu foi indicado ao Oscar e gerou opiniões diametralmente opostas, que vão do amor ao extremo ódio. Dirigido por Petra Lopes, que é filha de militantes de esquerda e neta de empreiteiros, o filme não é uma defesa de Lula ou exaltação aos anos em que o PT presidiu o País. Petra começa pelo fim do mandato de Lula, e a partir das manifestações de junho de 2013 mostra a queda da popularidade de Dilma e de toda a esquerda, passando pelas turbulentas eleições de 2014 e pela chegada de Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados - fato decisivo no conturbado segundo mandato de Dilma. Vemos o rompimento de Cunha com o Planalto, a abertura do processo de Impeachment, a deplorável cena da votação na Câmara em abril de 2016, o julgamento de Dilma no Senado meses depois com a deposição da presidenta e consequente posse de Michel Temer, a podridão por trás daqueles que articularam e executaram o Golpe (os escândalos envolvendo Temer e Aécio com a JBS). Fatos tão conhecidos e que mostram todo o caminho percorrido até chegarmos no delicado momento em que estamos, sob a tutela de um governo iminentemente autoritário que a cada dia ameaça as instituições democráticas.
Nota: 9,5/10
4. Aquarius (2016)
Do mesmo diretor de um dos filmes mais falados no ano passado em terras tupiniquins (claro que tô falando de Bacurau. Aliás, você viu Bacurau?), Aquarius merece ser incessantemente comentado e aplaudido mais ainda. O longa traz Clara (Sonia Braga, rainha da p* toda), uma jornalista aposentada que mora em um velho prédio na praia de Boa Viagem, no Recife, resistindo à pressão de vender seu apartamento para que seja construído um edifício de luxo no lugar. Todos os moradores já haviam vendido suas casas, exceto Clara. Ao longo do filme ela demonstra uma força incrível para defender o lugar em que passou boa parte de sua vida e criou os filhos, lutando conta a construtora, os vizinhos - e a empresa nada mais é do que a representação da opressão que parte dos mais ricos, tão forte em nossa sociedade ("ou você é Cavalcanti ou é Cavalgado"). Através de um grande elenco liderado por Sonia Braga, um filme excelente sobre a mulher, o passado e o Brasil.
Nota: 10
5. Vinícius de Moraes (2005)
Mais um documentário, e o mais delicioso filme da lista de hoje. Não podia ser diferente ao falar de um dos mais populares poetas do Brasil: Vinícius de Moraes, o eterno poetinha. Poeta, cantor, músico, compositor, diplomata e amante inveterado, Vinícius é, sem dúvidas, uma das figuras mais importantes da cultura brasileira do século XX, com grande importância para a cultura mundial. Afinal, estamos falando de um dos pioneiros da Bossa nova e compositor da Garota de Ipanema. O filme é guiado pelas interpretações magistrais de Camila Morgado e Ricardo Blat, declamando poesias e lendo outros textos de Vinícius, e recheados de entrevistas de pessoas que conviveram com ele: uma irmã, filhas, e artistas como Chico Buarque, Toquinho, Edu Lobo, Carlos Lyra, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros. Também participam artistas que interpretam músicas de Vinícius, a exemplo de Zeca Pagodinho, Mart'nália e Adrina Calcanhotto. Acompanhamos a vida do poeta, seu trabalho artístico e no Itamaraty, os amores e seus nove casamentos, as lembranças saudosas dos amigos, a popularização de Vinícius, inclusive s turnês internacionais de sucesso, e o declínio de sua saúde, que levou à sua partida aos 66 anos. Destaco os vários testemunhos bem humorados de Chico Buarque e o emocionante depoimento de Edu Lobo sobre o gradativo adoecimento do parceiro Vinícius. É um documentário imperdível, envolvente, incrivelmente prazeroso de se ver.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Filmes pro final de semana - 20/12

1. Ensaio sobre a cegueira (Blindness, 2008)
Um homem para no sinal de trânsito. O sinal abre, mas ele não sai do lugar. Os outros motoristas começam a buzinar, alguns pedestres vão até ele para saber o que há de errado. O homem afirma que ficara subitamente cego, como se uma luz branca inundasse seus olhos. Mais tarde ele é avaliado por um médico (Mark Ruffalo), que não vê nenhuma alteração no exame e fica perplexo diante da cegueira. Antes de dormir, o médico também fica cego - assim como todas as pessoas com quem o primeiro homem teve contato. A doença é contagiosa e atinge a todos gradativamente, exceto a mulher do médico (Julianne Moore), que esconde este fato e finge também estar cega. Os cegos então são levados para um hospital desativado para ficarem de quarentena, e lá aos poucos eles vão sendo guiados pelos instintos de sobrevivência e deixam de lado ética, compaixão e dignidade, perdendo o que outrora os caracterizava como humanidade e civilização. Excelente adaptação feita por Fernando Meirelles da obra imortal de José Saramago.
Nota: 10
2. J. Edgar (2011)
Nos anos 20, a chamada polícia federal dos Estados Unidos era quase uma piada. Faltava estrutura, funcionários e principalmente o poder de atuação que é tão famoso nos dias de hoje. Tudo mudou com o brilhante e ambicioso John Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) que entrou na agência como assistente do diretor e não tardou a ocupar o cargo do chefe. No comando do FBI, Hoover criou o conceito de uma polícia moderna, investigativa e com a capacidade de cruzar e gerar dados dos cidadãos como nenhuma outra no mundo. Tamanha dedicação lhe rendeu a segurança no cargo por nada menos que 48 anos, só deixando a diretoria da agência no caixão. Em todo esse tempo os Estados Unidos tiveram oito presidentes e mais de vinte secretários de Estado, todos devidamente investigados por Hoover, que encomendou dossiês sobre a vida de quase todas as figuras públicas do país – apesar dos feitos heroicos, o diretor também tinha um lado obscuro que incluía ir contra Martin Luther King e a luta pelos direitos civis. É essa uma das qualidades do filme: a imparcialidade. A direção de Clint Eastwood expõe as várias facetas de Hoover através da atuação fenomenal de DiCaprio, mostrando além de sua trajetória, a fonte de várias contradições da personalidade complexa e fascinante que foi J. Edgar Hoover.
Obs: na minha opinião, a atuação de DiCaprio foi a melhor desse ano, junto com a de Ryan Gosling em Drive. Nenhum dos dois atores foi indicado ao Oscar.
Nota: 9,5/ 10
3. Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999)
Este longa de 1999 é centrado em Manuela (Cecilia Roth), enfermeira que perde seu único filho num acidente depois de assistir à peça Uma rua chamada pecado. Ela então vai à Barcelona em busca do pai do garoto para dar a notícia, mas não o encontra; quem ela reencontra é a travesti Agrado (Antonia San Juan), sua amiga de muitos anos atrás, e através de quem conhece a freira Rosa (Penélope Cruz), que descobre estar grávida e soropositiva. Manuela se vê mantendo Rosa sob seus cuidados e responsabilidade ao mesmo tempo em que se aproxima do elenco de Uma rua chamada pecado, cuja protagonista Huma (Marisa Paredes) vive Blanche DuBois dentro e fora dos palcos. Com referências ao cinema clássico, Almodóvar mais uma vez constrói perfis femininos através da ótica de um homem crescido entre mulheres, especialmente a figura materna simbolizada por Manuela. O resultado é um filme maravilhoso, vencedor do Prêmio de direção de Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Nota: 10
4. Os Bons Companheiros (GoodFellas, 1990)
Violento, brutal, e estranhamente carismático. Um dos melhores filmes de Scorsese aborda a escória da máfia, gângsters nascidos no subúrbio que em nada lembram a elegante e cavalheiresca máfia romantizada em outras obras. Henry (Ray Liotta) desde garoto sabia que queria entrar na máfia e ter todos privilégios que o crime lhe proporcionaria, e ao lado de seus amigos Tommy (Joe Pesci) e Jimmy (Robert De Niro) ganha experiência e uma extensa ficha criminal que inclui agressão, extorsão, assassinato e tráfico de drogas. A amizade dos três beira a fraternidade, as famílias se dão muito bem, mas nem mesmo uma organização criminosa com base tão sólida pode ser resitente a tudo. A ascensão social a partir da máfia, o status que representa a gangue, as relações entre as personagens e a forte violência são mostradas com maestria e com um humor um tanto irônico. (Funny? Funny how, motherfucker?)
Nota: 10
5. O demônio das onze horas (Pierrot le fou, 1965)
Em homenagem a Anna Karina, falecida recentemente, falemos sobre um de seus melhores filmes. A história se desenvolve a partir da fuga de Ferdinand (Belmondo), um professor universitário que deixa pra trás a vida burguesa para cair na estrada com sua amante Marianne (Anna Karina). Se a Nouvelle vague queria quebrar princípios e reinventar o cinema, é só ver Pierrot para saber que eles conseguiram. A linearidade da história, marcada pela narração dos protagonistas, que se revezam  nos contando seus fatos e pensamentos, é quebrada várias vezes. Como bom filme de estrada, o que não falta aqui é filosofia e interrogações, até porque Godard mantém o padrão de diálogos que mais parecem interrogatórios. O casal de fugitivos é feliz? O que eles esperam do futuro? Afinal, Marianne corresponde aos sentimentos de Ferdinand? E mesmo sendo tantas as perguntas, as deixamos de lado porque parece que eles querem apenas seguir em frente, vendo beleza onde ninguém mais vê e estando lado a lado na jornada.
Obs: o título brasileiro não é mais uma viagem dos tradutores; é o nome do livro no qual se baseia o filme.
 Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 31 de março de 2017

Filmes pro final de semana - 31/03

Este é um post especial de dicas pro final de semana. Recentemente parei pra pensar nos filmes favoritos e alterei a lista feita há mais de três anos e que foi publicada aqui no blog, comentando sobre os 30 filmes que eu mais gostava. Hoje não vou falar sobre trinta, mas escolhi dez dentre eles para recomendar para aquela dose semanal de Sétima Arte. Ao lado do título original, a posição de cada um na minha singela lista de favoritos.


1. A estrada da vida (La Strada, 1954 - 22º)
Absolutamente fascinado pelo cinema italiano (e reconheço que deveria ver mais), especialmente de Fellini. Em seu quarto filme (e primeiro de projeção internacional) o diretor se afasta do neorrealismo tão frequente desde o pós-guerra e conta, num tom fabulista, a história da miserável Gelsomina (Giuletta Masina, esposa de Fellini), que é comprada pelo artista circense Zampanò (Anthony Quinn). Zampanò faz um truque banal quebrando correntes, e Gelsomina passa a ser sua assistente, atuando como palhaça, quase uma caricatura de Chaplin. A relação dos dois é marcada pela brutalidade do artista e pela simplicidade das emoções de ambos, quase primitivas. Amor e ciúme guiam o enredo que explora a dualidade de suas personagens: a teatralidade que esconde vidas interiores inexploradas.
Nota: 10
2. Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958 - 17º)
Eleito há cinco anos o melhor filme de todos os tempos e tirando Cidadão Kane de um lugar que ocupava há 50 anos, Um corpo que cai não foi bem recebido por público e crítica na época de seu lançamento, e só vinte anos depois passou a ser visto como uma das obras-primas de Alfred Hitchcock; francamente, não vejo o porquê de tal rejeição inicial. O filme tem uma das melhores reviravoltas do cinema, e aparenta não ter só um clímax, e sim um clímax principal que sucede e precede outros dois secundários. Na trama, James Stewart, que foi um dos mais frequentes parceiros de Hitchcock, interpreta um detetive que investiga a esposa de um antigo colega que aparentemente está possuída pelo espírito da bisavó. O filme é marcado pelo medo de altura da personagem de Stewart, que num acidente no alto de um prédio viu um colega da polícia morrer ao cair do telhado. Um suspense complexo e muito bem elaborado que envolve o espectador como poucos.
Nota: 10
3. Taxi Driver (1976 - 8º)
Scorsese já tinha algum nome em Hollywood depois de dirigir Caminhos Perigosos (1973) e Alice não mora mais aqui (1974), mas foi em 1976 que ele cresceu de vez e marcou seu nome na história do cinema. É apresentada a história de Travis Bickle (Robert De Niro), um veterano da guerra do Vietnã que sofre de insônia e começa a trabalhar como taxista para aproveitar melhor suas noites em claro. Travis não só traz consigo sequelas psicológicas da guerra, como também é produto de uma sociedade doentia, corrupta e violenta, e é contra ela que ele se volta, desejando uma "chuva" que lavasse toda aquela imundície. Ele até tenta se integrar à comunidade, apoiando um candidato político - por quem criou obsessão, além de ser obcecado por uma moça do comitê dele; além de tentar fazer algo para melhorar - e fica obcecado por uma garota que se prostituía (Jodie Foster). Através do talento incomparável de Scorsese e De Niro, um dos mais crus e viscerais retratos do subúrbio nova-iorquino.
Nota: 10
4. Ligações Perigosas (Dangerous Liaisosons, 1988 - 19º)
Esqueça a ideia de que filmes de época devem retratar belas histórias de amor ou intensos conflitos políticos, ou mesmo guerras. O negócio aqui é bem mais sujo. A Marquesa de Merteuil (Glenn Close), ícone de riqueza e beleza, é miserável em termos de escrúpulos. Junto do igualmente charmoso e mau caráter Visconde de Valmont (John Malkovich), ela se diverte seduzindo corações inocentes visando roubar-lhes a virtude e a honra, humilhando as vítimas depois de usá-las. A sordidez do hobby dessa desprezível dupla é posta à prova quando eles escolhem como vítima a jovem Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), cujo marido partiu numa longa viagem de trabalho. O filme serve como uma rica fonte de estudo comportamental e psicológico de suas personagens, abrindo espaço para o espectador observar os costumes e vícios da nobresa francesa no século 18, no seu mesquinho jogo de aparências e interesse.
Nota: 10
5. Manhattan (1979 - 23º)
Cara, como eu adoro esse filme. Numa época em que cineastas mostravam os subúrbios e a imundície social de Nova York, sendo Scorsese e seu Taxi driver o melhor exemplo, Woody Allen realiza seu maior tributo à cidade em que nasceu, viveu, realizou boa parte de sua obra e pela qual é apaixonado. Manhattan mostra a Big apple através de um preto e branco que a romantiza, embalado pelo jazz constante na filmografia de Woody. Na trama, o diretor mais uma vez vive o protagonista, que aqui é um roteirista de um programa de televisão que se demite por odiar o emprego e a má qualidade da programação e sua relação com a namorada de dezessete anos, a ex-mulher que o largou para morar com outra mulher e a amante, uma jornalista pedante. E claro, a cidade, que além de cenário é quase uma personagem e fonte constante de inspiração para a personagem de Woody - "ele adorava Nova York. Ele a idolatrava". Da mesma forma, é difícil não adorar essa encantadora história.
Nota: 10
6. Pulp fiction (1994 - 29º)
O segundo filme de Quentin Tarantino lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes e o consolidou como novo talento do cinema. Passados mais de 20 anos, ele produziu muitas outras obras de peso e mostrou ser capaz de manter o alto nível. Mas Pulp Fiction realmente merece destaque em sua obra: Tarantino conseguiu sacudir a indústria mostrando um novo jeito de narrar uma história, construindo um enredo através de vários personagens em momentos e lugares diversos que estão atrelados por um elo de drogas e violência. Direção e roteiro brilhantes ficam ainda melhores com a volta triunfal de John Travolta dançando o melhor twist do cinema com Uma Thurman, os sermões bíblicos de Samuel L. Jackson e a dedicação de todo o ótimo elenco.
Nota: 10
7. Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004 - 27º)
O amor visto de um ângulo incomum em Hollywood: a desilusão amorosa e o fim de um relacionamento. Como curar um amor fracassado? A melhor alternativa seria simplesmente esquecer tudo. E se fosse possível? Brilho eterno responde a esta pergunta (e levanta tantas outras) ao mostrar o término do namoro de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) e o tratamento a que ela se submete para apagar Joel de sua mente depois de perceber que não era feliz ao seu lado. Amargurado, Joel decide fazer o mesmo tratamento, mas à medida em que vê sua ex-amada sendo apagada de suas lembranças, descobre que é melhor sofrer ao lembrar dos bons momentos ao lado de Clementine do que não ter memória alguma. A trama, que parece meio impossível ao se ler sobre, na verdade se mostra totalmente plausível ao ser vista - graças ao excelente roteiro, vencedor do Oscar, das atuações de Carrey e Winslet e de um time de coadjuvantes que inclui Kirsten Dunst, Elijah Wood e Tom Wilkinson.
Nota: 10
8. Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011 - 28º)
Tem como não amar? A história de amor e fantasia na Cidade Luz se tornou a maior bilheteria de Woody Allen e é um dos filmes bons mais pop do século (digo isso porque o que mais tem por aí é filme ruim e amado). O escritor e roteirista Gil Pender (Owen Wilson) vai para Paris com a noiva e os sogros, e em meio à fascinação pela cidade romântica e cheia de história, viaja no tempo a bordo de um velho carro. Nos anos 20, que ele considera ser a Era de Ouro de Paris, conhece Hemingway, Cole Porter, o casal Fitzgerald, Picasso, outros gênios da arte e a bela Adriana (Marion Cotillard), por quem se apaixona. Com muito bom humor e referências culturais excelentes, Woody nos fala sobre a importância de prestigiar o passado, mas sem deixar de viver o presente - afinal, a verdadeira Era de Ouro é agora, quando podemos realizar nossos objetivos. Admirável, ainda mais pra um jovem que na época tinha 75 anos.
Nota: 10
9. As Horas (The Hours, 2002 - 7º)
"Sempre os anos entre nós. Sempre os anos, sempre o amor, sempre as horas". Baseado (em um livro que se baseia) na obra de Virginia Woolf, o complexo e introspectivo As Horas acompanha um dia na vida de três mulheres distintas que vivem em épocas distintas: a escritora Virgina Woolf (Nicole Kidman) nos anos 20, a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore) nos anos 50 e a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep) em 2002. O que une as três é o romance Mrs Dalloway, escrito por Virginia, lido por Laura e cuja protagonista se assemelha a Clarissa (tendo, inclusive, o mesmo nome). Ambas as personagens tentam esconder e lidar com a angústia que as sufoca, mesmo as que aparentemente levam uma vida perfeita. Ambas as três terão seus mundos transformados ao longo de um único dia.
Nota: 10
10. Melancolia (Melancholia, 2011 - 1º)
O tempo passa e ele segue como o preferido. Transformar o fim do mundo numa obra de arte de beleza singular- foi o que Lars von Trier fez em Melancolia. Dividido em duas partes, o filme acompanha duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), na iminência do choque de um planeta gigante com a Terra. A primeira parte, intitulada Justine, mostra o casamento desta no castelo de seu cunhado, John. A festa luxuosa é o ponto de partida para o desencadeamento da severa depressão que se abate sobre Justine. Já na segunda parte, surge o misterioso planeta Melancholia, que em sua rota gravitacional passaria próximo à Terra, se bem que para muitos ele colidiria. O filme aborda as diferentes reações diante do fim do mundo, a pequenez do homem diante do universo e outros temas amplos de forma brilhante. Um espetáculo de imagens e sentimentos que ainda consegue me fazer suar pelos olhos.
Nota: 10
Luís F. Passos

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Filmes pro final de semana - 08/05

1. Drive (2011)
Drive  centra-se na relação entre um homem misterioso, o qual nem sabemos o nome, interpretado por Ryan Gosling , que se encontra perdidamente apaixonado por sua jovem vizinha de modo a se dispor a protegê-la de todos os perigos que a envolvem, relacionados a seu marido recém saído da prisão e da máfia que os cercam. Tecnicamente falando, Drive é impecável. A fotografia é belíssima e acompanha as grandes mudanças de tom pelas quais o filme passa. Se num primeiro momento tudo é a magia da descoberta do amor, com paisagens bucólicas e ensolaradas ao entardecer, a metade final é negra, escura, sórdida e violenta. A violência é elevada aos limites conforme o conto torna-se cada vez mais perigoso e envolvente. A relação amorosa entre Ryan Gosling e Carey Mulligan é de uma pureza e uma sensibilidade que contrasta a todo o momento com o extremismo da violência onde aqueles personagens se encontram, tendo este antagonismo alcançado o ápice na já clássica cena do elevador. É quase um conto de fadas na verdade, onde um “príncipe encantado” luta a qualquer preço para defender sua “donzela” em perigo. A diferença é que no lugar de uma armadura de metal temos uma jaqueta prateada e em vez de cavalos brancos, carros envenenados dispostos a intensas cenas de perseguições.
Nota: 10
2. Preciosa - uma história de esperança (Precious, 2009)
Harlem, NY, década de 80.  Claireece Jones (Gabourey Sidibe), mais conhecida como Preciosa, é um poço de problemas. Com apenas 16 anos, a menina carrega o trauma de ser estuprada pelo pai, estar grávida do segundo filho dele, ser soropositiva, obesa, negra, e ter uma mãe (Mo'Nique) pra madrasta de Cinderela nenhuma botar defeito. A cereja em cima desse bolo de desgraças é o fato da coitada ser analfabeta. Apesar de tudo, ela não deixa de sonhar e às vezes se imagina rica, magra, famosa e desejada, mas isso não parece nada além de um sonho impossível. Felizmente Preciosa encontra em seu caminho algumas pessoas decentes, como sua professora miss Rain (Paula Patton), a assistente social sra Weiss (Mariah Carey) e o enfermeiro do hospital em que tem seu segundo filho, John (Lenny Kravitz). Como diz o título nacional, apesar dos pesares, é um título de esperança.
Nota:  9,0/ 10
3. Closer - perto demais (Closer, 2004)
And so it is... impressionante a qualidade e a capacidade de impactar deCloser. Dirigido por ninguém menos que Mike Nichols, veterano diretor de A primeira noite de um homem e Quem tem medo de Virginia Woolf?, Closeraborda quatro pessoas em Londres e suas relações de amor, ciúme e ódio entre elas: a fotógrafa Anna (Julia Roberts), por quem o escritor frustrado Dan (Jude Law) se apaixona e cria uma certa obsessão. Indiretamente graças a Dan, Anna conhece o médico Larry (Clive Owen), com quem se casa, mas mais tarde mantém um caso com Dan. Nesse vai e vem, há também a stripper Alice (Natalie Portman), com quem Dan mantinha um relacionamento, e que também vai se aproximar de Larry. Um drama sólido e intenso que vai muito além da questão de relacionamentos e traições; uma grande produção coroada com a música The blower's daughter.
Nota: 9,0/ 10
4. Cassino (1995)
Cinco anos depois do enorme sucesso de Os bons companheiros , Robert De Niro e Joe Pesci se reencontram sob a direção de Martin Scorsese para fazer aquele que é por muitos considerado como a continuação do filme de 1990: Cassino. De Niro interpreta Sam, jogador profissional que cresceu próximo a jogos de azar e todo o tipo de apostas, e é um dos melhores na sua área. Devido a sua reputação, é contratado por mafiosos de Las Vegas para gerir um grande cassino. Pouco tempo depois de se instalar em seu novo emprego, chama seu velho amigo Nicky (Pesci) para ajudá-lo com a segurança. Nicky é muito parecido com Tommy, personagem de Pesci emGoodfellas: muito esquentado e violento. Os negócios prosperam bastante para a dupla, que se estabelece de vez na cidade; fulano monta uma rede de restaurantes (além de ter uma quadrilha de ladrões sob suas ordens) e Jimmy constrói uma família ao lado da ex-prostituta Ginger (Sharon Stone) – figura que aparece para desestabilizar os negócios e a amizade de longa data de Sam e Nicky. Mais um exemplo da primorosa direção de Scorsese, que consegue fazer com que as 2h45 de Cassino passem rápido e deixem um gosto de quero mais.
Nota: 8,5/ 10
5. O Circo (The Circus, 1928)
Há tempo não via filme de Chaplin, e me acertei vendo um que era novo pra mim. Em O Circo temos mais uma vez o Vagabundo, Carlitos, que após um mal entendido com a polícia se mete num espetáculo circense e faz a plateia ir ao delírio com sua performance acidental. Ele é contratado como comediante pelo proprietário, um homem egoísta que vive maltratando a filha, que é corista no circo. Carlitos apieda-se da moça, que vive sendo maltratada pelo pai, e acaba criando um carinho especial por ela - bem especial, chegando a ter ciúmes de um equilibrista contratado. Bem, o filme é mudo e é predominantemente uma comédia, tendo algumas das cenas mais famosas da filmografia de Chaplin, como a que Carlitos fica preso na jaula de um leão. Uma boa pedida pra quem curte as mais clássicas comédias do cinema.
Nota: 8,0/ 10

Lucas Moura e Luís F. Passos

domingo, 11 de janeiro de 2015

TOP 10 - Filmes em 2014


Como em 2014 acabei indo pouco ao cinema e vendo basicamente filmes que eu já tinha assistido (obrigado, Clássicos Cinemark!) ou produções não tão boas assim, acabei fazendo este top 10 – meu primeiro post em 2015 e também em muito tempo aqui no blog – trazendo alguns dos filmes que vi, de modo geral, em 2014. Os únicos critérios de inclusão relacionados a esta seleção são que todos são filmes eu julguei como excelente e assisti pela primeira vez em 2014 (se fosse considerar entre filmes que já vi em anos anteriores, a lista com certeza seria bem diferente). Enfim, aqui vai minha singela seleção:

10. Praia do futuro (2014)


Excelente produção nacional com a assinatura do muito talentoso diretor Karim Ainouz trouxe uma grande polêmica desnecessária e vergonhosa ao cinema nacional, o que o tornou, na mesma medida, um dos filmes mais comentados do ano de 2014. Esses comentários, infelizmente, centraram-se mais no seu conteúdo “polêmico” do que por sua qualidade em si. O fato é que é brilhante a história de autodescobrimento de Donato (Wagner Moura), uma figura tão heroica na visão de seu irmão mais jovem, Ayrton (Jesuíta Barbosa. Ator sensacional) que na verdade encontra-se dividido entre as expectativas e pressões externas e seus desejos, anseios e, principalmente, medos que o levam a tomar guinadas inesperadas e extremistas em sua vida é uma produção bastante intimista e muito forte em sua temática, bem como em seu visual memorável. Filme nacional imperdível de 2014, para mostrar a todos que ainda acreditam que cinema nacional é só baixaria que nosso cinema é muito competente sim.
9. Loucamente apaixonados (Like crazy, 2011)

Meu atual protegido. Loucamente apaixonados centra-se no amor intenso de um jovem casal que parece, simplesmente, perfeito um para o outro. A questão aqui é que este não é um filme de romance tradicional, então, não, o amor não é o bastante. Entre Anna e Jacob existem vários impedimentos que só os afastam cada vez mais. Por mais que seja tentador se render aos desejos pessoais, todos sabemos que o mundo, na maioria das vezes, conspira contra nossa felicidade plena. Então, entre o casal temos impedimentos diversos, mas todos muito aplicáveis à vida real. Impedimentos geográficos, laborais, pessoais e, principalmente, burocráticos (poucas coisas são piores que burocracia excessiva) acabam distanciando bastante o casal. Até quando o amor é capaz de suportar ao tempo, à distância, à solidão e às frustrações? Um filme visualmente muito belo com atores bastante entrosados. Um romance intimista, delicado, simples e bastante palpável. Não tem a força dramática de um Blue Valentine, mas ainda se propõe a caracterizar o amor de uma maneira real e moderna, sem deixar de lado a face bucólica e a melancolia. 

8. Darling – a que amou demais (Darling, 1965)
Passei anos tentando encontrar este filme para download e só consegui fazê-lo em 2014 – foi o primeiro filme que vi no ano. A espera com certeza valeu a pena e, apesar do enredo ser algo totalmente diferente do que eu podia imaginar, Darling se mostrou um filme excepcional. Apesar do título absurdamente dramático, um filme de nuances e cinismo que se centra numa das protagonistas mais egocêntricas e aproveitadoras que já vi. Julie Christie dá vida a sensual e esperta Diana Scott, uma mulher capaz de tudo para conseguir o que ela quer. O único problema é: o que ela quer? Insatisfeita crônica, Diana usa todos a sua volta para conseguir suprir seus desejos frívolos. Enfim, um estudo de personalidade perfeito com a elegância que só o cinema inglês possui, Darling ainda é bastante moderno e ousado para sua época – muitas insinuações sexuais sem qualquer descrição e personagens homossexuais também podem ser observados na trama. Vencedor do Oscar de melhor atriz.
7. Martha Marcy May Marlene (2011)
Desconfortável. Instigante. Ousado. Misterioso. Todos esses adjetivos podem ser aplicados a nebulosa trama de Martha Marcy May Marlene. Num momento inspirado e definidor de carreira, a jovem promissora Elizabeth Olsen (já fez umas bobagens de lá pra cá) nos traz um conto forte e cruel através de um relato pouco preciso da vida dentro de um culto secreto e violento em algum fazenda no meio de lugar nenhum. O filme apresenta seu tema através das memórias confusas da destruída Martha (ou Marcy May? Ou Marlene?) após sua fuga da organização. Tão interessante quanto o retrato cortado do cotidiano no grupo é a relação conturbada e muito mal explicada entre Martha e sua irmã (Sarah Paulson). Um filme que não se preocupa hora nenhuma em dar respostas ao espectador, Martha Marcy May Marlene, como já disse anteriormente no post completo dedicado a este, é como a ponta de um iceberg.

6. Equus (1977)
Fantástica adaptação da peça teatral homônima, Equus alia o talento lendário de Richard Burton como protagonista e o talento lendário de Sidney Lumet na direção. O filme conta a história e a relação intricadas entre um jovem com delírios psicóticos que incluem, principalmente, uma alucinada adoração a cavalos, e seu psiquiatra (Burton), confuso e pessoalmente afetado pela maneira com a qual o rapaz se entrega a seu objeto de adoração e a seus desejos mais profundos. Um mergulho meio perturbador numa mente psicótica, Equus é chocante, mas ao mesmo tempo impossível de desviar os olhos. A trama prende o espectador o tempo todo e também nos leva a refletir sobre temas contundentes. Obra indispensável.

5. O lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013)

Scorsese é Scorsese. Na sua última produção, o diretor retoma a parceria genial com Leonardo DiCaprio para fazer sua obra-prima do exagero. E quanto exagero. Contando a vida e obra de Jordan Belfort, uma figura das finanças que fez sua fortuna por modos muito pouco tradicionais, digamos assim, Scorsese abusa de tudo, principalmente de sua genialidade. A estrutura de edição e técnica do filme remete ao estilo do diretor, assim como pontos na trama que lembram os fãs de obras anteriores como Os bons companheiros e Cassino, mas em O lobo de Wall Street Scorsese bombardeia o espectador com palavrões, sexo, drogas, sexo, drogas, palavrões, drogas, sexo, sexo, drogas, palavrões, palavrões, palavrões e, pra finalizar, mais um pouquinho de sexo e drogas. Ufa. O ponto é que todo esse exagero imoral torna a trama divertidíssima, bastante interessante e muito criativa. Um filme mais cômico que o normal para os padrões de Scorsese que não deixa muito a dever a outros grandes títulos do diretor – sinceramente o vejo como o melhor trabalho de Scorsese dos anos 2000 pra cá (talvez não por causa de Os infiltrados). A cereja e ¾ do bolo é a atuação brilhante de Leonardo DiCpario, mais digna que qualquer Oscar. Digna de respeito e admiração. Parabéns Leo e Martin pelo filme mais divertido dos últimos tempos.

4. A caça (Jagten, 2012)
Um martírio para o espectador. O sofrimento do nosso inocente protagonista, acusado de cometer um crime terrível, é uma crueldade que parece que não vai ter fim. O grande ponto em A caça não é o crime não cometido em si, mas é que nós, como espectadores, sabemos desde o primeiro minuto que tudo aquilo não passou de uma sequência de desentendimentos. Então, durante todos os minutos de sofrimento de Lucas (Mads Mikelsen, genial) sabemos o tamanho da injustiça que ele está sofrendo. E não é pouca. Humilhações, agressão física, tortura psicológica e desprezo social são capazes de destruir qualquer pessoa. Uma genuinamente boa e inocente então, ainda pior. Assistir A caça é quase um exercício de autocontrole, pois ver tal atrocidade chega a ser revoltante. Filme de fortíssimas emoções, não o recomendo para pessoas muito sensíveis, pois até as mais duronas se sensibilizam com Lucas. Porém, devo dizer que aqui está um dos melhores filmes dos últimos cinco anos, e, se o cinema como arte deve nos fazer sentir alguma coisa, A caça nos traz sentimentos bastante fortes pra dizer o mínimo.
3. Através de um espelho (Såsom i en spegel, 1961)
Primeiro capítulo da famosa trilogia do silêncio de Bergman, Através de um espelho é provavelmente um dos melhores filmes do diretor. Com temática ampla e inovadora, traz questionamentos genuínos ao espectador relacionados a um ponto central: comunicação. Mais detalhadamente ainda, a falta de comunicação entre as pessoas e com deus, o nome a que gritamos no escuro esperando ouvir alguma resposta, que, aparentemente, jamais vem. Com apenas quatro personagens confinados numa casa isolados do resto do mundo, Bergman vai os emergindo cada vez mais em seus sofrimentos e suas frustrações. O que no primeiro minuto pareceu uma feliz família, na verdade é composta por um escritor egocêntrico e insensível, seus dois filhos – uma esquizofrênica e um adolescente tragado pela loucura da irmã e distância do pai – e o marido de sua filha, derrotado pela incapacidade de controlar a doença da mesma. Uma obra de arte em todos os sentidos, obrigatória para cinéfilos.

2. O sétimo selo (Det sjunde inseglet, 1957)
É estranho, mas demorei um bom tempo para ver o filme mais famoso de Ingmar Bergman. O sétimo selo é um dos trabalhos mais inovadores do cinema, trazendo para o comodismo dos anos 50 um universo totalmente novo de possibilidades a serem exploradas. Uma trama complexa centrada num dos períodos mais negros da humanidade, é com O sétimo selo que Bergman começa a abranger com maior totalidade sua temática preferida: deus. Mais que deus, o silêncio de deus e o questionamento por sua existência ou não. O jogo de xadrez de vida ou morte é uma marca forte na mente cinéfila e uma metáfora perfeita para nossa relação infelizmente íntima com a mesma. A morte, inclusive, é personagem vital para a trama de O sétimo selo, que nos lembra bem da fragilidade de nossa existência e da ausência de respostas sobre o que há além da vida. Melancólico, pesado e sombrio, também traz momentos de leveza e até uma metáfora à algo como uma família sagrada – Bergman sempre entre a fé cristã e a negação de Deus. Indispensável.
1. A onda (Die Welle, 2008)
Eu devo ter gostado muito desta produção alemã para ter colocado-a acima de dois dos maiores filmes de Bergman. Claro que isso não é sem motivo. Sou um grande fã do cinema alemão e acho que, atualmente, é a indústria cinematográfica mais engajada em instigar o espectador dentro do circuito do cinema europeu. Extremamente ousado e audacioso, A onda é um tapa na cara de nossa petulância de nos acharmos muito superiores ao período mais cruel do século XX – o nazismo. Não necessariamente o nazismo, mas o fascismo em si. De um aparentemente simples trabalho de escola sobre vivência numa organização fascista, a organização estudantil, como uma onda, toma proporções desastrosas e perigosas que só podem levar a um caminho de destruição. Vivemos numa época em que acreditamos termos superado os erros do passado e muitos consideram impensável que algo como o nazismo possa acontecer de novo, mas A onda nos prova o quão próxima a humanidade é do extremismo, seja de qual tipo for. Só precisamos de um pequeno estímulo para romper com esse aparente equilíbrio em que vivemos. Desagradável, porém uma lição que merece ser aprendida. Não, não somos superiores. 

Lucas Moura