sexta-feira, 30 de junho de 2017

Filmes pro final de semana - 30/06

1. Aquarius (2016)
Um dos filmes mais falados no ano passado em terras tupiniquins, Aquarius merece ser incessantemente comentado e aplaudido mais ainda. O longa traz Clara (Sonia Braga, rainha da p* toda), uma jornalista aposentada que mora em um velho prédio na praia de Boa Viagem, no Recife, resistindo à pressão de vender seu apartamento para que seja construído um edifício de luxo no lugar. Todos os moradores já haviam vendido suas casas, exceto Clara. Ao longo do filme ela demonstra uma força incrível para defender o lugar em que passou boa parte de sua vida e criou os filhos, lutando conta a construtora, os vizinhos - e a empresa nada mais é do que a representação da opressão que parte dos mais ricos, tão forte em nossa sociedade. Através de um grande elenco liderado por Sonia Braga, um filme excelente sobre a mulher, o passado e o Brasil.
Nota: 10
2. Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2016)
O mais recente filme de Quentin Tarantino segue o anterior, Django Livre, ao abordar superficialmente a questão racial nos Estados Unidos do século XIX. Repito: superficialmente. Que ninguém espere que Tarantino faça as vezes de Steve McQueen, diretor de 12 anos de escravidão e exponha o absurdo da escravidão e segregação racial, mas já que um dos protagonistas é um caçador de recompensas negro no pós Guerra de Secessão, é inevitável a abordagem do tema. Muito resumidamente, Os oito odiados acompanha o encontro do caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson) com o também caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russel), que está transportando a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins). Surpreendidos por uma forte nevasca, eles se juntam a quatro desconhecidos numa pousada no meio do nada, em que a tensão cresce a cada minuto enquanto os segredos desses oito estranhos são revelados. Tarantino aqui deixa de lado a intenção de fazer roteiros mais bem elaborados, como em seus dois excelentes filmes anteriores, e simplesmente faz um espetáculo de balas.
Nota: 8,0/ 10
3. Anna Karenina (2012)
Baseado na obra imortal de Leon Tolstoi, o longa traz a queridíssima Keira Knightley no papel da protagonista que dá nome à obra. Anna é uma bela jovem casada com um importante ministro do Império Russo, Alexei Karenin (Jude Law). Considera-se feliz em seu casamento, tem um filho, e faz parte da refinada alta sociedade de São Petersburgo. As coisas começam a mudar quando ela viaja para a casa de uma cunhada e conhece o charmoso conde Vronsky (Aaron Johnson), que se apaixona por ela e passa a cortejá-la. Inicialmente Anna o repele, apesar da atração que sente, mas o sentimento a vence, e ela deseja separar-se do marido para ficar com o conde. A recusa do ministro é o ponto de partida para o adultério de Anna e o aprofundamento de um drama que fala sobre surgimento de amor inesperado e sobre a crueldade das convenções sociais. Boa adaptação, e um show de imagens - figurino e fotografia impecáveis.
Nota: 8,5/ 10
4. Simplesmente complicado (It's complicated, 2009)
Meryl Streep, dona e proprietária da empresa Cinema, é especialista em participar de filmes bem marrom - marromenos - e dar um destaque especial a eles com seu talento (e sua simples presença, convenhamos). Nesta comédia romântica de 2009, Meryl vive a carismática Jane, dona de uma padaria muito bem sucedida, mãe de três filhos e divorciada. Seu ex-marido, Jake (Alec Baldwin), é um advogado de sucesso que após o divórcio se casou com uma mulher bem mais jovem. Os dois têm uma relação agradável e de respeito, mas depois de um encontro em Nova York, a insatisfação de Jake com seu casamento atual e todo o clima criado em um encontro faz antigos sentimentos surgirem e os ex iniciam um caso,escondidos de todos. Pra complicar, o arquiteto que vai coordenar a reforma da casa de Jane, Adam (Steve Martin), que saiu recentemente de um divórcio traumático, se apaixona por ela e também surge algo entre os dois. Entre encontros e desencontros, uma hilária comédia romântica.
Nota: 8,5/ 10
5. À beira do caminho (2012)
Tá certo que ver Roberto Carlos em especial de Natal todo ano enjoa e que ele já teve dias melhores, mas não dá pra negar que ele tem muita música boa. Imagine então um filme que pega meia dúzia das melhores canções do cara para formar sua trilha sonora. É o caso de À beira do caminho, do diretor Breno Silveira (2 filhos de Francisco), em que o caminhoneiro João (João Miguel) é um homem solitário e amargo que vive em conflito com seu passado. A vida de João começa a mudar quando ele descobre um pequeno garoto no baú de seu caminhão. O menino é um tagarela incessável que tenta aos poucos derreter o gelo do coração de João, que depois de certa relutância decide levar o pequeno até São Paulo, onde ele espera encontrar o pai - a questão da paternidade é recorrente na filmografia do diretor. A boa história, somada às ótimas atuações e às ótimas músicas de Roberto Carlos fazem deste emocionante filme uma boa pedida pra qualquer idade.
Nota: 8,5/ 10

Luís F. Passos

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Corra! – novas abordagens, antigos problemas



Em meio a tanta agitação política e social no mundo, a década de 2010 tem sido marcada pelo crescente aumento da difusão de ideias liberais e maior abertura do diálogo e denúncias relativas a pontos críticos de nossa sociedade, como as questões sociais, o papel da mulher e a diversidade sexual. As artes, em sua obrigação de refletirem a sociedade na qual estão inseridas, não podem ficar de fora de tal movimento. Sendo a sétima arte uma das formas mais queridas de arte em nossa sociedade, sua participação é de vital importância neste processo, especialmente em temos onde a televisão, vivendo uma nova era de ouro, esbanja diversidade e riqueza de personagens em séries que passeiam pelos mais diversos estilos com excelência. A questão racial é um dos pontos que tem ganhado cada vez mais visibilidade no cinema. Do início da década para cá, consigo lembrar facilmente de filmes marcantes sobre o tema como Histórias cruzadas, Fruitvale Station, Selma, Moonlight, entre outros. É um tema que desde o princípio – desde os anos 60 com filmes como Adivinhe quem vem para o jantar? – vem sendo sempre retratado em dois gêneros: drama e comédia (num sentido de sátira e crítica social). Eis que, em meio a tempos de inovações e experimentações, surge um audacioso diretor disposto a abordar o racismo através de um gênero bastante complicado, banalizado e raramente levado a sério: o horror. E o resultado? Genial.
Corra! (Get out, 2017) vem sido aclamado por onde passa desde sua estreia no Festival de Sundance (um poço de maravilhas) e retrata o racismo de uma maneira que, eu tenho certeza, ninguém jamais tinha abordado. Em linhas gerais, Corra! retrata a história de um fotógrafo chamado Chris (performance sensacional de Daniel Kaluuya, protagonista do episódio 15 million merits da série Black Mirror) que vai visitar os pais de sua namorada, Rose (Allisson Williams). A questão é que Chris é negro e sua namorada branca. É o primeiro namorado negro dela e sua família não sabe que ele é negro. O que é algo que realmente não deveria importar acaba importando muitas vezes, mas em teoria não vai ser nenhum problema já que Rose faz questão de frisar sobre como sua família é amorosa e como respeitam a diferença e como são eleitores de Obama, etc. Mesmo assim, o clima de desconfiança já está implantado – imagino que seja difícil ser negro numa sociedade tão racista e não se sentir constantemente num nível basal de tensão.
Chegando à casa dos pais de Allisson, num local isolado onde as únicas pessoas negras são as pessoas que trabalham para a família de Rose, tudo realmente parece que está caminhando bem. No entanto, por baixo da postura de acolhimento, que muitas vezes soa um pouco forçada, existem interesses bastante sombrios que vão se revelando numa trama surpreendente e de clímax final intenso.
Não posso falar muito do roteiro, pois este é um daqueles filmes que não dá para dar muitas informações se não estraga as diversas surpresas que vão acontecendo, mas dá para falar das coisas que me agradaram bastante. Um primeiro ponto que eu achei genial com relação à Corra! é a maneira como o filme mostra Chris sempre numa posição de legítimo desconforto. Estando cercado por pessoas brancas que agem o tempo todo como se nunca tivessem convivido ou dialogado com uma pessoa negra, tratando-o com um ar de admiração, curiosidade e algumas vezes até ultrapassando limites de respeito, o clima de parte do filme não é de horror, mas sim de desconforto e constrangimento. O espectador consegue sentir na pele a sensação de ser diferente e de estar exposto. Isto por si só já vale a sessão. Ainda no início também temos uma metáfora entre Chris e um veado, assumindo uma posição de caça ou de animal abatido, que é bem interessante. No mais, o filme se desenrola de uma maneira tal que a temática da metade final já retrata questões mais relativas à apropriação física e psicológica – o filme traz isso da maneira mais literal possível – que acontece entre raças distintas quando uma tem supremacia sobre outra. Acontece a tomada de atributos desejáveis em negros por uma população branca, rica e inescrupulosa mais interessada em tratá-los como objetos e experimentos que como percebê-los como indivíduos.
No mais, Corra! traz personagens interessantes como os empregados da casa, ambos de certa forma fundamentais com seu comportamento bizarro e mecânico que guarda segredos perturbadores e a mãe de Rose, uma psiquiatra vivida por Catherine Keener, que trabalha com hipnose e cujos procedimentos rendem as cenas mais claustrofóbicas do longa. Outro ponto alto da trama é a presença do melhor amigo de Chris, Rod (LilRel Howery) que traz um alívio cômico perfeito, porque, sim, Corra! não se satisfaz em ser um filme de horror, contendo também muitos elementos de comédia. E, de certa forma, ficção científica ainda no meio.
Existem algumas coisas no filme que não me agradaram tanto, como alguns daqueles momentos de susto pré-fabricado de filmes de horror/terror como pessoas passando pelo corredor do nada ao som de uma música estridente ou fazendo coisas estranhas e que, a meu ver, não adicionam nada ao enredo e só estão presentes para tentar aumentar a abrangência do público e tornar o longa mais palatável trazendo algo que as pessoas estão acostumadas e, de certa forma, estão esperando que venha de um filme do gênero, mas estes são pontos fáceis de relevar quando se percebe o tamanho da criatividade investida numa produção que mistura satisfatoriamente tantos diferentes elementos cinematográficos com harmonia, trazendo um ponto de vista novo e dando importante contribuição para o diálogo a cerca do racismo nos dias atuais. É um filme muito interessante e muito inteligente, feito na medida para quem é fã de coisas inovadoras e que fujam do lugar comum.
Nota: 10
 
Lucas Moura

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Filmes pro final de semana - 26/05

1. Antes do inverno (Avant l'hiver, 2012)
Uma série de buquês de rosas vermelhas entregues na casa, no consultório e no hospital em que o Paul (Daniel Auteuil), respeitado neurocirurgião trabalha levanta um mistério na família do médico. Casado há trinta anos com Lucie (Kristin S. Thomas), ele se vê envolvido com Lou (Leila Bekhti), paciente de muitos anos atrás que está visivelmente interessada nele. Pra piorar, seu casamento está degastado e ele percebe que ele a esposa eram dois estranhos dormindo juntos. O aparecimento das flores e de Lou parece ser a oportunidade de revelar fantasmas do passado, no difícil momento que é a chegada da velhice. É hora então de pôr em prova os velhos laços afetivos, incluindo a amizade com Gérard (Richard Berry), velho amigo do casal, e os próprios filhos. Mais um grande título do cinema francês e outro trabalho ótimo de Kristin Scott Thomas.
Nota: 8,5/ 10
2. Renoir (2012)
A bela Côte d'Azur, no sul da França, é palco para a arte de Pierre-Auguste Renoir, um dos maiores nomes do Impressionismo e das artes em geral entre o fim do século XIX e início do XX. Vemos a rotina de um Renoir já velho, atormentado pelas dores e limitações físicas impostas por uma artrite reumatoide avançada, mas que continua a executar sua arte com a perfeição de sempre. É a chegada da jovem modelo Andrée e o consequente envolvimento da moça com a família que dá início à ação do filme. Mais do que alguém que faz poses, ela se torna inspiração para o artista, que vê na juventude de Andrée alívio para a saudade da falecida esposa e preocupação com os filhos que estão na guerra. A chegada dos filhos de Renoir, em especial o mais velho, Jean (que viria a se tornar um dos maiores cineastas da história), que também se encanta com Andrée, vai ser motivo de atrito: mágoas de família e discussões a respeito do futuro dos jovens Renoir.
Nota: 9,0/ 10
3. Comer Rezar Amar (Eat Pray Love, 2010)
Não subestimem os filmes populares com temas aparentemente clichê! Fui ver Comer Rezar Amar com dois quilos de preconceito e três de desconfiança, e aos trinta minutos de filme já estava desarmado. Liz Gilbert (Julia Roberts) tinha uma vida estável: marido, casa confortável, bom emprego, amigos queridos, até que percebe que durante toda sua vida perseguiu um ideal de felicidade que não era seu e que nunca havia sido bem sucedida em um relacionamento. Ela então larga tudo pra dar uma chance a si mesma e viver intensamente experiências em destinos incríveis: na Itália ela descobre o melhor da gastronomia e do prazer de cozinhar; na Índia se junta aos seguidores de uma guru e explora sua espiritualidade; em Bali encontra finalmente sua paz interior e a possibilidade de ter enfim um grande amor. Simples, um bocado clichê, mas bastante agradável.
Nota: 7,5/ 10
4. Inverno da Alma (Winter's Bone, 2010)
Após ser indicada ao Oscar em 2011, Jennifer Lawrence ganhou muita projeção com Jogos Vorazes e depois com O lado bom da vida, com o qual venceu o Oscar em 2013. Mas seu melhor papel ainda é aquele pelo qual ela recebeu sua primeira indicação - e pra mim, seu melhor filme também. A personagem de Jennifer, Ree, é uma garota de 17 anos que precisa encontrar o pai para que ela, sua mãe e seus irmãos pequenos não sejam despejados de sua casa. O pai, que tinha envolvimento com o crime, havia saído em condicional e deixado a casa como garantia caso fugisse - e estava desaparecido. Para encontrar o pai, Ree precisa ir atrás de gente perigosa, sem escrúpulos nem piedade, que somado à já difícil vida num lugar frio e árido, exige da jovem força e maturidade que ela precisa adquirir sem apoio de ninguém. 
Nota: 8,5/ 10
5. Bonnie e Clyde - uma rajada de balas (Bonnie and Clyde, 1967)
Baseado em fatos reais, Bonnie e Clyde acompanha uma dupla de ladrões de banco que deu muito trabalho à polícia americana nos anos 30. Atacando agências pelo interior do país, Bonnie Parker (Faye Dunaway) e Clyde Barrow (Warren Beatty) eram bandidos de quinta em termos de assalto a banco, pois nunca faturavam altas quantias, mas eram bons de tiros e muito violentos - daí o subtítulo nacional, Uma rajada de balas. Além do casal, a quadrilha é composta pelo irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman), que arrasta sua esposa chorona Blanche (Estelle Parsons), e C. W. Moss (Michael J. Pollard), um zé ninguém achado no caminho. Apesar de não ter a violência mais complexa que a década seguinte traria, Bonnie e Clyde é um marco no cinema americano, uma prévia do fim do superficial e tradicional cinema dos anos 60, além de ter sido um sucesso de bilheteria por todo o mundo. O sucesso do filme também repercutiu nas premiações; foi indicado a dez Oscar, sendo 5 das indicações por seu elenco. Estelle Parsons venceu atriz coadjuvante e a fotografia também foi vencedora.
Nota: 9,0/ 10
Luís F. Passos

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Grande Sertão: Veredas - tudo, nesta vida, é muito cantável

Há exatos seis anos eu começava a escrever este blog, cuja ideia original era de falar sobre literatura, cinema e música a partir de minha experiência pessoal com estas artes, expondo minha opinião e também falando de minha relação com filmes, livros e músicas - o significado que têm para mim. Apesar de várias vezes expor opiniões bastante particulares, acredito que foram poucas as situações em que eu ou os outros colaboradores do blog escrevemos seguindo o objetivo original, exceto em postagens como as de nossos filmes favoritos, por exemplo. Mas hoje, talvez mais do que nunca, a intenção é falar da experiência pessoal com a obra, e por dois bons motivos: se trata de um livro complexo, difícil de ser abordado, e por ser meu livro favorito.
Falando brevemente sobre o enredo, Grande Sertão: Veredas é um monólogo narrado de forma contínua, sem divisão em capítulos ou sem maiores pausas ao longo de mais de seiscentas páginas por um velho Riobaldo, fazendeiro que outrora fora líder de um bando de jagunços, guerreando pelo sertão que se estende pelo norte de Minas Gerais, sul da Bahia e leste de Goiás. Riobaldo fala para um doutor da cidade, um homem letrado que em nenhum momento é identificado, sobre sua vida, desde a infância até o tempo em que atuou como jagunço. A conversa com este tal doutor é em tom de amizade e respeito, visto que se trata de uma pessoa de suma erudição, mas Riobaldo deixa claro que ele próprio também era letrado; enquanto narra sua juventude, fala dos estudos que teve e do ofício de professor. Mesmo de forma modesta, ele afirma sua capacidade intelectual:
"O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo...Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: pra pensar longe, sou cão mestre."
Riobaldo inicia sua narração falando sobre o ponto chave do livro: a questão sobre a existência ou inexistência do diabo. E desde o começo, ele procura negar a existência do demo, debochando da crendice popular, dizendo porque é impossível alguém negociar a própria alma. Além disso, ele divaga muito sobre a vida e sobre o sertão, soltando frases inesquecíveis como "viver é muito perigoso" (repetida diversas vezes ao longo do romance) e "o sertão está em toda parte". É um começo um tanto quanto difícil, pedregoso, mas que prepara muito bem o leitor para o que está por vir. Importante ressaltar que nestas primeiras páginas o autor demonstra os primeiros sinais de universalidade da obra. É claro que ao dizer "O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!" ele nos dá a ideia do sertão local, antigo, violento. Por outro lado, afirmar que "o sertão está em toda parte" sugere que todas as adversidades encontradas por Riobaldo e seus conterrâneos são inerentes ao ser humano e estão diante de qualquer pessoa.
Durante a primeira metade do livro, a narração não segue uma ordem cronológica. O ex-jagunço primeiro fala de dificuldades enfrentadas  durante as lutas, para depois ir para sua adolescência, quando sua mãe morre e ele vai morar com o padrinho rico, Selorico Mendes. Com o padrinho Riobaldo conhece conforto, boa vida, e vai estudar num povoado, além de ter os primeiros contatos com mulheres. Também é na fazenda do padrinho que ele se encontra pela primeira vez com a jagunçagem, quando o grande chefe Joca Ramiro e seus tenentes aparecem numa madrugada. Pra adiantar a estória: Riobaldo percebe sua semelhança física com Selorico, e ao pensar nos cuidados que o padrinho tinha com ele, suspeita de ser filho dele, não apenas afilhado. Foge, e é enviado por seu antigo professor a uma fazenda, onde passa a dar aulas a um fazendeiro no mínimo excêntrico, Zé Bebelo. Mais do que ser letrado, Zé Bebelo queria botar ordem no sertão e combater os jagunços - inicialmente Riobaldo o acompanha, mas depois foge dele também.
É a partir do encontro com Reinaldo, um jagunço de sua idade, que Riobaldo decide se tornar jagunço ao lado do grande bando de Joca Ramiro. E por que essa mudança de lado? Convém explicar o encontro que Riobaldo, então um menino de 14 anos, tivera com um menino da mesma idade que ele, de feições muito bonitas e  profundos olhos verdes; encontro que o marcaria para sempre. Depois de fugir de Zé Bebelo, ele encontra alguns jagunços, e entre eles reconhece o tal menino - Reinaldo, que mais tarde revela em segredo a Riobaldo que seu verdadeiro nome é Diadorim. Começa então uma nova fase de sua vida, marcada por um sentimento confuso; carinho e amor sinceros mal ocultos em amizade.
"E desde que ele apareceu, moço e igual, no portal da porta, eu não podia mais, por meu próprio querer, ir me separar da companhia dele, por lei nenhuma; podia? O que entendi em mim: direito como se, no reencontro aquela hora aquele Menino-Moço, eu tivesse acertado de encontrar, para o todo sempre, as regências de uma alguma a minha família."
Novamente vamos resumir: Riobaldo se integra ao bando, conhece os chefes que lideram o grupo de Joca Ramiro, combate ao lado deles - lutando contra Zé Bebelo, inclusive - e depois da traição de dois desses chefes, Ricardão e Hermógenes, que matam covardemente Joca Ramiro, inicia uma jornada de vingança junto de Diadorim e de todos os que permaneceram leais ao líder morto e juraram perseguir os dois traidores - a partir de então chamados judas.
O enredo é enorme e não dá pra falar de tudo, até porque, apesar do livro ser um clássico e como tal, ser extremamente passível de spoilers, vamos evitar entregar fatos mais decisivos. Falemos então da relação de Riobaldo e Diadorim - pra mim, a mais bela e triste estória de amor de nossa literatura. Riobaldo não consegue entender seus sentimentos; inicialmente apenas se surpreendia com a dimensão da amizade e do carinho mútuo:
"Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Direitinho declaro o que, durando todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adição nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava."

Com o passar do tempo, não dá mais para negar pra si mesmo o amor que sente:

"Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. (...) O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. 'Diadorim, meu amor...' Como era que eu podia dizer aquilo? (...) Um Diadorim só pra mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim – que não era de verdade."
Daí, o esperado: um amor impossível. Um amor que Riobaldo sabia, de alguma forma, ser correspondido, mas um amor que não era compreendido e que ficou oculto em seu coração. É muito discutida a questão da sexualidade dele, o fato de se apaixonar por um jagunço, igual a ele em roupas e armas. Questão importante? Sim. Mas não me detenho muito nisso - havia um desejo físico, mas na leitura o que chama mais atenção é o sentimento, a vontade de querer estar perto, o bem querer mútuo. 
"Diadorim deixou de ser nome e virou sentimento meu".
Por fim, o mais importante: através do regionalismo, de uma estória passada nos confins do sertão, Guimarães Rosa elabora uma literatura universal do mais refinado nível. As angústias de Riobaldo, no norte mineiro, são as angústias de qualquer homem em qualquer lugar do mundo: o que é o bem? O que é o mal? Deus existe? O diabo existe? É possível selar pacto com o demo? "...o diabo na rua, no meio do redemoinho...". Hermógenes, o cruel inimigo e traidor, supostamente era pactário. Seria esse o motivo dele levar vantagem na luta contra os remanescentes do bando de Joca Ramiro? Riobaldo faz o pacto - realmente faz? Ele não acredita, mas o seu pacto acaba sendo um marco para mudanças no decorrer dos fatos. Seria o sobrenatural ou apenas uma ideia psicanalítica de renascimento, para enfrentar com mais força de vontade os desafios? Aliás, o poder da vontade é fator decisivo no livro, em vários momentos, sob vários aspectos, especialmente nos momentos finais.
Eu li Grande Sertão: Veredas pela primeira vez com dezessete, quase dezoito anos, meses antes da criação do Sagaranando. Antes dele, o único livro que tinha lido de Guimarães Rosa fora Sagarana; se eu já havia me fascinado com os contos do livro de estreia do autor, ler o seu único romance foi uma verdadeira experiência. Até hoje não li nada tão completo, tão diferente, tão ímpar ao unir amor e ódio, físico e metafísico, certeza e mistérios, numa perfeita reunião de ambiguidades. Mesmo tendo forte tendência universal, o livro não deixa de ser regional, descrevendo tão bem fauna, flora e geografia do sertão e dos Gerais - há quem diga que a maior parte dos lugares descritos existe de verdade, e dá pra apontar com mapa na mão. Honestamente, pra mim não importa. Claro que eu tenho vontade de conhecer o interior mineiro, as trilhas que Guimarães Rosa percorreu nas viagens que fazia para coletar informações sobre o sertão, e sua cidade natal, Codisburgo, mas essas precisões geográficas são totalmente dispensáveis diante do que o livro tem de melhor, que são as características universais. Recentemente reli o romance, tanto por sentir saudade da estória, quanto porque tinha vontade de escrever sobre ele hoje, no aniversário do blog. Desafio grande, dada a complexidade do livro e até mesmo seu grande número de páginas. Ao mesmo tempo, escrever sobre algo que me desperta tantas emoções é algo bastante satisfatório. Relê-lo foi extremamente prazeroso, e depois de anos, ele segue como meu favorito. Alguma chance de deixar de ser? Nonada.


Luís F. Passos