sexta-feira, 26 de maio de 2017

Filmes pro final de semana - 26/05

1. Antes do inverno (Avant l'hiver, 2012)
Uma série de buquês de rosas vermelhas entregues na casa, no consultório e no hospital em que o Paul (Daniel Auteuil), respeitado neurocirurgião trabalha levanta um mistério na família do médico. Casado há trinta anos com Lucie (Kristin S. Thomas), ele se vê envolvido com Lou (Leila Bekhti), paciente de muitos anos atrás que está visivelmente interessada nele. Pra piorar, seu casamento está degastado e ele percebe que ele a esposa eram dois estranhos dormindo juntos. O aparecimento das flores e de Lou parece ser a oportunidade de revelar fantasmas do passado, no difícil momento que é a chegada da velhice. É hora então de pôr em prova os velhos laços afetivos, incluindo a amizade com Gérard (Richard Berry), velho amigo do casal, e os próprios filhos. Mais um grande título do cinema francês e outro trabalho ótimo de Kristin Scott Thomas.
Nota: 8,5/ 10
2. Renoir (2012)
A bela Côte d'Azur, no sul da França, é palco para a arte de Pierre-Auguste Renoir, um dos maiores nomes do Impressionismo e das artes em geral entre o fim do século XIX e início do XX. Vemos a rotina de um Renoir já velho, atormentado pelas dores e limitações físicas impostas por uma artrite reumatoide avançada, mas que continua a executar sua arte com a perfeição de sempre. É a chegada da jovem modelo Andrée e o consequente envolvimento da moça com a família que dá início à ação do filme. Mais do que alguém que faz poses, ela se torna inspiração para o artista, que vê na juventude de Andrée alívio para a saudade da falecida esposa e preocupação com os filhos que estão na guerra. A chegada dos filhos de Renoir, em especial o mais velho, Jean (que viria a se tornar um dos maiores cineastas da história), que também se encanta com Andrée, vai ser motivo de atrito: mágoas de família e discussões a respeito do futuro dos jovens Renoir.
Nota: 9,0/ 10
3. Comer Rezar Amar (Eat Pray Love, 2010)
Não subestimem os filmes populares com temas aparentemente clichê! Fui ver Comer Rezar Amar com dois quilos de preconceito e três de desconfiança, e aos trinta minutos de filme já estava desarmado. Liz Gilbert (Julia Roberts) tinha uma vida estável: marido, casa confortável, bom emprego, amigos queridos, até que percebe que durante toda sua vida perseguiu um ideal de felicidade que não era seu e que nunca havia sido bem sucedida em um relacionamento. Ela então larga tudo pra dar uma chance a si mesma e viver intensamente experiências em destinos incríveis: na Itália ela descobre o melhor da gastronomia e do prazer de cozinhar; na Índia se junta aos seguidores de uma guru e explora sua espiritualidade; em Bali encontra finalmente sua paz interior e a possibilidade de ter enfim um grande amor. Simples, um bocado clichê, mas bastante agradável.
Nota: 7,5/ 10
4. Inverno da Alma (Winter's Bone, 2010)
Após ser indicada ao Oscar em 2011, Jennifer Lawrence ganhou muita projeção com Jogos Vorazes e depois com O lado bom da vida, com o qual venceu o Oscar em 2013. Mas seu melhor papel ainda é aquele pelo qual ela recebeu sua primeira indicação - e pra mim, seu melhor filme também. A personagem de Jennifer, Ree, é uma garota de 17 anos que precisa encontrar o pai para que ela, sua mãe e seus irmãos pequenos não sejam despejados de sua casa. O pai, que tinha envolvimento com o crime, havia saído em condicional e deixado a casa como garantia caso fugisse - e estava desaparecido. Para encontrar o pai, Ree precisa ir atrás de gente perigosa, sem escrúpulos nem piedade, que somado à já difícil vida num lugar frio e árido, exige da jovem força e maturidade que ela precisa adquirir sem apoio de ninguém. 
Nota: 8,5/ 10
5. Bonnie e Clyde - uma rajada de balas (Bonnie and Clyde, 1967)
Baseado em fatos reais, Bonnie e Clyde acompanha uma dupla de ladrões de banco que deu muito trabalho à polícia americana nos anos 30. Atacando agências pelo interior do país, Bonnie Parker (Faye Dunaway) e Clyde Barrow (Warren Beatty) eram bandidos de quinta em termos de assalto a banco, pois nunca faturavam altas quantias, mas eram bons de tiros e muito violentos - daí o subtítulo nacional, Uma rajada de balas. Além do casal, a quadrilha é composta pelo irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman), que arrasta sua esposa chorona Blanche (Estelle Parsons), e C. W. Moss (Michael J. Pollard), um zé ninguém achado no caminho. Apesar de não ter a violência mais complexa que a década seguinte traria, Bonnie e Clyde é um marco no cinema americano, uma prévia do fim do superficial e tradicional cinema dos anos 60, além de ter sido um sucesso de bilheteria por todo o mundo. O sucesso do filme também repercutiu nas premiações; foi indicado a dez Oscar, sendo 5 das indicações por seu elenco. Estelle Parsons venceu atriz coadjuvante e a fotografia também foi vencedora.
Nota: 9,0/ 10
Luís F. Passos

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Grande Sertão: Veredas - tudo, nesta vida, é muito cantável

Há exatos seis anos eu começava a escrever este blog, cuja ideia original era de falar sobre literatura, cinema e música a partir de minha experiência pessoal com estas artes, expondo minha opinião e também falando de minha relação com filmes, livros e músicas - o significado que têm para mim. Apesar de várias vezes expor opiniões bastante particulares, acredito que foram poucas as situações em que eu ou os outros colaboradores do blog escrevemos seguindo o objetivo original, exceto em postagens como as de nossos filmes favoritos, por exemplo. Mas hoje, talvez mais do que nunca, a intenção é falar da experiência pessoal com a obra, e por dois bons motivos: se trata de um livro complexo, difícil de ser abordado, e por ser meu livro favorito.
Falando brevemente sobre o enredo, Grande Sertão: Veredas é um monólogo narrado de forma contínua, sem divisão em capítulos ou sem maiores pausas ao longo de mais de seiscentas páginas por um velho Riobaldo, fazendeiro que outrora fora líder de um bando de jagunços, guerreando pelo sertão que se estende pelo norte de Minas Gerais, sul da Bahia e leste de Goiás. Riobaldo fala para um doutor da cidade, um homem letrado que em nenhum momento é identificado, sobre sua vida, desde a infância até o tempo em que atuou como jagunço. A conversa com este tal doutor é em tom de amizade e respeito, visto que se trata de uma pessoa de suma erudição, mas Riobaldo deixa claro que ele próprio também era letrado; enquanto narra sua juventude, fala dos estudos que teve e do ofício de professor. Mesmo de forma modesta, ele afirma sua capacidade intelectual:
"O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo...Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: pra pensar longe, sou cão mestre."
Riobaldo inicia sua narração falando sobre o ponto chave do livro: a questão sobre a existência ou inexistência do diabo. E desde o começo, ele procura negar a existência do demo, debochando da crendice popular, dizendo porque é impossível alguém negociar a própria alma. Além disso, ele divaga muito sobre a vida e sobre o sertão, soltando frases inesquecíveis como "viver é muito perigoso" (repetida diversas vezes ao longo do romance) e "o sertão está em toda parte". É um começo um tanto quanto difícil, pedregoso, mas que prepara muito bem o leitor para o que está por vir. Importante ressaltar que nestas primeiras páginas o autor demonstra os primeiros sinais de universalidade da obra. É claro que ao dizer "O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!" ele nos dá a ideia do sertão local, antigo, violento. Por outro lado, afirmar que "o sertão está em toda parte" sugere que todas as adversidades encontradas por Riobaldo e seus conterrâneos são inerentes ao ser humano e estão diante de qualquer pessoa.
Durante a primeira metade do livro, a narração não segue uma ordem cronológica. O ex-jagunço primeiro fala de dificuldades enfrentadas  durante as lutas, para depois ir para sua adolescência, quando sua mãe morre e ele vai morar com o padrinho rico, Selorico Mendes. Com o padrinho, Riobaldo conhece, conforto, boa vida, e vai estudar num povoado, além de ter os primeiros contatos com mulheres. Também é na fazenda do padrinho que ele se encontra pela primeira vez com a jagunçagem, quando o grande chefe Joca Ramiro e seus tenentes aparecem numa madrugada. Pra adiantar a estória: Riobaldo percebe sua semelhança física com Selorico, e ao pensar nos cuidados que o padrinho tinha com ele, suspeita de ser filho dele, não apenas afilhado. Foge, e é enviado por seu antigo professor a uma fazenda, onde passa a dar aulas a um fazendeiro no mínimo excêntrico, Zé Bebelo. Mais do que ser letrado, Zé Bebelo queria botar ordem no sertão e combater os jagunços - inicialmente Riobaldo o acompanha, mas depois foge dele também.
É a partir do encontro com Reinaldo, um jagunço de sua idade, que Riobaldo decide se tornar jagunço ao lado do grande bando de Joca Ramiro. E por que essa mudança de lado? Convém explicar o encontro que Riobaldo, então um menino de 14 anos, tivera com um menino da mesma idade que ele, de feições muito bonitas e  profundos olhos verdes; encontro que o marcaria para sempre. Depois de fugir de Zé Bebelo, ele encontra alguns jagunços, e entre eles reconhece o tal menino - Reinaldo, que mais tarde revela em segredo a Riobaldo que seu verdadeiro nome é Diadorim. Começa então uma nova fase de sua vida, marcada por um sentimento confuso, carinho e amor sinceros mal ocultos em amizade.
"E desde que ele apareceu, moço e igual, no portal da porta, eu não podia mais, por meu próprio querer, ir me separar da companhia dele, por lei nenhuma; podia? O que entendi em mim: direito como se, no reencontro aquela hora aquele Menino-Moço, eu tivesse acertado de encontrar, para o todo sempre, as regências de uma alguma a minha família."
Novamente vamos resumir: Riobaldo se integra ao bando, conhece os chefes que lideram o grupo de Joca Ramiro, combate ao lado deles - lutando contra Zé Bebelo, inclusive - e depois da traição de dois desses chefes, Ricardão e Hermógenes, que matam covardemente Joca Ramiro, inicia uma jornada de vingança junto de Diadorim e de todos os que permaneceram leais ao líder morto e juraram perseguir os dois traidores -a partir de então chamados judas.
O enredo é enorme e não dá pra falar de tudo, até porque, apesar do livro ser um clássico e como tal, ser extremamente passível de spoilers, vamos evitar entregar fatos mais decisivos. Falemos então da relação de Riobaldo e Diadorim - pra mim, a mais bela e triste estória de amor de nossa literatura. Riobaldo não consegue entender seus sentimentos; inicialmente apenas se surpreendia com a dimensão da amizade e do carinho mútuo:
"Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Direitinho declaro o que, durando todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adição nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava."

Com o passar do tempo, não dá mais para negar pra si mesmo o amor que sente:

"Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. (...) O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. “Diadorim, meu amor...” Como era que eu podia dizer aquilo? (...) Um Diadorim só pra mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim – que não era de verdade."
Daí, o esperado: um amor impossível. Um amor que Riobaldo sabia, de alguma forma, ser correspondido, mas um amor que não era compreendido e que ficou oculto em seu coração. É muito discutida a questão da sexualidade dele, o fato de se apaixonar por um jagunço, igual a ele em roupas e armas. Questão importante? Sim. Mas não me detenho muito nisso - havia um desejo físico, mas na leitura o que chama mais atenção é o sentimento, a vontade de querer estar perto, o bem querer mútuo. 
"Diadorim deixou de ser nome e virou sentimento meu".
Por fim, o mais importante: através do regionalismo, de uma estória passada nos confins do sertão, Guimarães Rosa elabora uma literatura universal do mais refinado nível. As angústias de Riobaldo, no norte mineiro, são as angústias de qualquer homem em qualquer lugar do mundo: o que é o bem? O que é o mal? Deus existe? O diabo existe? É possível selar pacto com o demo? "...o diabo na rua, no meio do redemoinho...". Hermógenes, o cruel inimigo e traidor, supostamente era pactário. Seria esse o motivo dele levar vantagem na luta contra os remanescentes do bando de Joca Ramiro? Riobaldo faz o pacto - realmente faz? Ele não acredita, mas o seu pacto acaba sendo um marco para mudanças no decorrer dos fatos. Seria o sobrenatural ou apenas uma ideia psicanalítica de renascimento, para enfrentar com mais força de vontade os desafios? Aliás, o poder da vontade é fator decisivo no livro, em vários momentos, sob vários aspectos, especialmente nos momentos finais.
Eu li Grande Sertão: Veredas pela primeira vez com dezessete, quase dezoito anos, meses antes da criação do Sagaranando. Antes dele, o único livro que tinha lido de Guimarães Rosa fora Sagarana; se eu já havia me fascinado com os contos do livro de estreia do autor, ler o seu único romance foi uma verdadeira experiência. Até hoje não li nada tão completo, tão diferente, tão ímpar ao unir amor e ódio, físico e metafísico, certeza e mistérios, numa perfeita reunião de ambiguidades. Mesmo tendo forte tendência universal, o livro não deixa de ser regional, descrevendo tão bem fauna, flora e geografia do sertão e dos Gerais - há quem diga que a maior parte dos lugares descritos existe de verdade, e dá pra apontar com mapa na mão. Honestamente, pra mim não importa. Claro que eu tenho vontade de conhecer o interior mineiro, as trilhas que Guimarães Rosa percorreu nas viagens que fazia para coletar informações sobre o sertão, e sua cidade natal, Codisburgo, mas essas precisões geográficas são totalmente dispensáveis diante do que o livro tem de melhor, que são as características universais. Recentemente reli o romance, tanto por sentir saudade da estória, quanto porque tinha vontade de escrever sobre ele hoje, no aniversário do blog. Quero inclusive, antes de encerrar, pedir perdão pelo texto extenso e pelos muitos defeitos dele, mas acontece que além de ser difícil falar sobre um livro tão grande (em extensão e conteúdo), é difícil escrever objetivamente sobre algo que me desperta tantas emoções. Relê-lo foi extremamente satisfatório, e depois de anos, ele segue como meu favorito. Alguma chance de deixar de ser? Nonada.


Luís F. Passos

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Filmes pro final de semana - 05/05

1. O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 2013)
Love is blindness. A nova adaptação do imortal romance de Scott Fitzgerald (há três anteriores, sendo a mais conhecida a dos anos 70 dirigida por Coppola) há muito era aguardada, e foi lançada em maio de 2013 em Cannes. Como não era de se estranhar, o diretor Baz Luhrmann usou e abusou da extravagância para contar a história do misterioso e extravagante Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), a partir da narração de seu vizinho Nick Carraway (Tobey Maguire). Morando em um verdadeiro palácio em Long Island, Gatsby é quase uma lenda viva, um desafio à imaginação de suas centenas de convidados que todas as semanas lotam sua mansão em festas inacreditáveis regadas a rios de bebidas alcoólicas - isso em plena época da Proibição. Mas por trás da ostentação e futilidade, lembranças do passado que envolvem a linda prima de Nick, Daisy (Carrey Mulligan). O filme peca pelo excesso e é mais uma tentativa de chegar à profundidade do livro que não dá certo, mas não deixa de ser uma boa opção.
Nota: 8,5/ 10
2. O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998)
Jeff Lebowski (Jeff Bridges), mais conhecido como The Dude (o Cara), é um beberrão folgado cuja maior paixão é o boliche. A vida do Dude dá uma sacudida quando traficantes o confundem com um milionário que tem o mesmo nome que ele, pois a mulher do ricaço era viciada. É quando o rico Lebowski, chamado de Big, chama seu xará pobre que as coisas ficam feias pro jogador de boliche: o plano era o Dude negociar com os criminosos o regaste da mulher do Big Lebowski, mas graças à ajuda dos amigos idiotas do Dude, nada dá certo. São os Irmãos Coen mais uma vez trabalhando com figuras fracassadas e tirando situações hilárias e violentas. As mirabolantes tentativas do Dude de sair da enrascada misturam competições de boliche, veteranos neuróticos do Vietnã e até mesmo prêmios do cinema pornô. Impossível não rolar de rir.
Nota: 8,5/ 10
3. Chinatown (1974) 
Um dos melhores filmes de Roman Polanski é mais uma prova da genialidade do cinema dos anos 70. Ambientado na Los Angeles dos anos 30, Chinatown traz Jack Nicholson como um detetive que se vê no meio de uma trama que quanto mais se aprofunda, mais complexa se mostra. Ao lado de uma femme fatale vivida por Faye Dunaway, a personagem de Nicholson tentará decifrar o mistério que envolve desde a guerra de águas da Califórnia até terríveis segredos familiares. Eis um filme maravilhoso - sério, dá raiva de quão bom ele é - que foi lançado no ano errado. 1974 foi apenas o ano de O Poderoso Chefão parte II, que ofuscou todos seus rivais. O que não tira em nada o mérito de Chinatown. O roteiro é perfeito, a direção é de mestre, o elenco é sensacional. Além disso, aqui estão algumas das melhores reviravoltas do cinema americano.São várias cenas marcantes, a começar pelo detetive vivido por Nicholson ter seu nariz cortado por um bandido interpretado pelo próprio diretor Polanski e dizer "por pouco não perco o meu nariz. E eu gosto dele. Gosto de respirar por ele", passando por uma sucessão de tapas que Nicholson dá no rosto de Dunaway (dizer o conteúdo do diálogo é spoiler pesado) e claro, a inesquecível frase final (que também seria spoiler, então assista ao filme
Nota: 10 + 1 por ser excelente e não tão conhecido
4. Lolita (1962)
Há quem diga que Lolita é o primeiro filme realmente 'de Kubrick', pois é o primeiro que dá pra saber que nenhum outro diretor filmaria. Afinal, haja ousadia para adaptar a polêmica obra de Vladimir Nabovok, que fora censurada em vários países quando lançada. Lolita acompanha o professor universitário Humbert Humbert (James Mason) e seu desejo doentio por uma adolescente de catorze anos, Lolita, que o levou a se casar com a mãe desta só para se aproximar dela. Com olhares furtivos e escrevendo em seu diário, Humbert guarda para si a obsessão pela menina, enquanto a mãe se atira sobre ele sem algum pudor. Reviravoltas no filme parecem contribuir para o sucesso,de suas intenções, mas outras reviravoltas deixam a história ainda mais interessante, e surpreendentemente fresca mesmo cinquenta e poucos anos depois de seu lançamento.
Nota: 10
 5. A Malvada (All about Eve, 1950)
Um clássico importante e interessantíssimo, A Malvada é mais um dos títulos que ficaram infelizes depois de traduzidos. Mas esse detalhe não é nada comparado ao roteiro inesquecível e às atuações ainda mais inesquecíveis, começando pelas protagonistas Bette Davis e Anne Baxter. Bette é Margo Channing, atriz veterana da Broadway, ícone entre os colegas e queridinha dos diretores, que vê sua vida mudar com o aparecimento de Eve Harrigton (Baxter), contratada por ela como assessora. Mas a aparentemente inocente Eve de boba não tem nada, se mostrando um poço de inveja e esperteza, fazendo de tudo para se tornar uma atriz do mesmo nível e prestígio de Margo. Os diálogos são ora ácidos, ora sagazes, mas sempre geniais, como o "apertem os cintos, esta será uma noite turbulenta!" proferido por Margo diante da tensão de uma festa de aniversário.
Nota: 10

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Livros para maio

1. 1984 (George Orwell, 1948)
Qual o melhor instrumento de dominação? Dinheiro? Armas? Não. O pensamento. É isso o que nos propõe George Orwell em 1984, livro ambientado numa sociedade futurística onde o totalitarismo é extremo e impõe o medo, a alienação e a repressão a níveis inimagináveis. Nessa sociedade vive Winston, funcionário do governo que mantém dentro da própria mente uma luta contra o Partido, e acha que é um dos poucos a praticar o pensamento-crime e claro, esconde isso para proteger sua vida. Winston tenta entender e de alguma forma lutar contra a dominação do Estado, em que tudo é feito coletivamente mas na verdade todos estão sozinhos. 1984, escrito na época da Guerra Fria, é uma crítica aberta aos regimes totalitários (principalmente o governo de Stálin na URSS), mas serve também como alerta para o caminho pelo qual segue a humanidade, podendo perder suas características mais humanas sem se dar conta disso.
Nota: 10 
2. Do amor e outros demônios (Gabriel García Márquez, 1994)
Ao acompanhar as escavações em um antigo convento prestes a ser demolido, Gabriel García Márquez se depara com um pequeno cadáver que o faz lembrar de lendas contadas por sua avó sobre uma menina milagreira de enorme de cabelo. A partir de então é narrada uma história passada no período colonial da América Latina centrada na jovem Sierva Maria, filha de um marquês, totalmente negligenciada pelo pai apático e pela mãe sem caráter, que acaba sendo criada na senzala com os escravos, e aprende a língua e a cultura dos servos. Após ser mordida por um cão raivoso, Sierva Maria é apontada como possuída pelo demônio, disparate corroborado por seu comportamento rebelde e conhecimento de línguas africanas. A história da colonização americana é plano de fundo desse romance sobre amor, ódio e fé.
Nota: 10
3. A menina que roubava livros (Markus Zusak, 2005)
O futuro clássico de Markus Zusak é narrado pela Morte, baseado nos três encontros que ela teve com a protagonista, a pequena Liesel. A história se passa na Alemanha nazista em 1942, quando a garota vai morar com uma nova família numa pequena cidade e tem sua vida completamente mudada com a nova família, o vizinho que se torna seu melhor amigo e o judeu que os pais adotivos abrigam em seu porão. E claro, os livros, mudam sua vida. A menina que era analfabeta no começo do enredo rouba livros (dã!), primeiro um que cai do bolso de um coveiro, depois um que salva de uma pilha de livros incendiados pelos soldados de Hitler. Um hábito que ajuda a construir sua história pessoal e a aproxima da história de outras pessoas, e se tornou um dos melhores e mais populares livros em mais de dez anos por todo o mundo.
Nota: 10
 
Luís F. Passos

sexta-feira, 31 de março de 2017

Filmes pro final de semana - 31/03

Este é um post especial de dicas pro final de semana. Recentemente parei pra pensar nos filmes favoritos e alterei a lista feita há mais de três anos e que foi publicada aqui no blog, comentando sobre os 30 filmes que eu mais gostava. Hoje não vou falar sobre trinta, mas escolhi dez dentre eles para recomendar para aquela dose semanal de Sétima Arte. Ao lado do título original, a posição de cada um na minha singela lista de favoritos.


1. A estrada da vida (La Strada, 1954 - 22º)
Absolutamente fascinado pelo cinema italiano (e reconheço que deveria ver mais), especialmente de Fellini. Em seu quarto filme (e primeiro de projeção internacional) o diretor se afasta do neorrealismo tão frequente desde o pós-guerra e conta, num tom fabulista, a história da miserável Gelsomina (Giuletta Masina, esposa de Fellini), que é comprada pelo artista circense Zampanò (Anthony Quinn). Zampanò faz um truque banal quebrando correntes, e Gelsomina passa a ser sua assistente, atuando como palhaça, quase uma caricatura de Chaplin. A relação dos dois é marcada pela brutalidade do artista e pela simplicidade das emoções de ambos, quase primitivas. Amor e ciúme guiam o enredo que explora a dualidade de suas personagens: a teatralidade que esconde vidas interiores inexploradas.
Nota: 10
2. Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958 - 17º)
Eleito há cinco anos o melhor filme de todos os tempos e tirando Cidadão Kane de um lugar que ocupava há 50 anos, Um corpo que cai não foi bem recebido por público e crítica na época de seu lançamento, e só vinte anos depois passou a ser visto como uma das obras-primas de Alfred Hitchcock; francamente, não vejo o porquê de tal rejeição inicial. O filme tem uma das melhores reviravoltas do cinema, e aparenta não ter só um clímax, e sim um clímax principal que sucede e precede outros dois secundários. Na trama, James Stewart, que foi um dos mais frequentes parceiros de Hitchcock, interpreta um detetive que investiga a esposa de um antigo colega que aparentemente está possuída pelo espírito da bisavó. O filme é marcado pelo medo de altura da personagem de Stewart, que num acidente no alto de um prédio viu um colega da polícia morrer ao cair do telhado. Um suspense complexo e muito bem elaborado que envolve o espectador como poucos.
Nota: 10
3. Taxi Driver (1976 - 8º)
Scorsese já tinha algum nome em Hollywood depois de dirigir Caminhos Perigosos (1973) e Alice não mora mais aqui (1974), mas foi em 1976 que ele cresceu de vez e marcou seu nome na história do cinema. É apresentada a história de Travis Bickle (Robert De Niro), um veterano da guerra do Vietnã que sofre de insônia e começa a trabalhar como taxista para aproveitar melhor suas noites em claro. Travis não só traz consigo sequelas psicológicas da guerra, como também é produto de uma sociedade doentia, corrupta e violenta, e é contra ela que ele se volta, desejando uma "chuva" que lavasse toda aquela imundície. Ele até tenta se integrar à comunidade, apoiando um candidato político - por quem criou obsessão, além de ser obcecado por uma moça do comitê dele; além de tentar fazer algo para melhorar - e fica obcecado por uma garota que se prostituía (Jodie Foster). Através do talento incomparável de Scorsese e De Niro, um dos mais crus e viscerais retratos do subúrbio nova-iorquino.
Nota: 10
4. Ligações Perigosas (Dangerous Liaisosons, 1988 - 19º)
Esqueça a ideia de que filmes de época devem retratar belas histórias de amor ou intensos conflitos políticos, ou mesmo guerras. O negócio aqui é bem mais sujo. A Marquesa de Merteuil (Glenn Close), ícone de riqueza e beleza, é miserável em termos de escrúpulos. Junto do igualmente charmoso e mau caráter Visconde de Valmont (John Malkovich), ela se diverte seduzindo corações inocentes visando roubar-lhes a virtude e a honra, humilhando as vítimas depois de usá-las. A sordidez do hobby dessa desprezível dupla é posta à prova quando eles escolhem como vítima a jovem Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), cujo marido partiu numa longa viagem de trabalho. O filme serve como uma rica fonte de estudo comportamental e psicológico de suas personagens, abrindo espaço para o espectador observar os costumes e vícios da nobresa francesa no século 18, no seu mesquinho jogo de aparências e interesse.
Nota: 10
5. Manhattan (1979 - 23º)
Cara, como eu adoro esse filme. Numa época em que cineastas mostravam os subúrbios e a imundície social de Nova York, sendo Scorsese e seu Taxi driver o melhor exemplo, Woody Allen realiza seu maior tributo à cidade em que nasceu, viveu, realizou boa parte de sua obra e pela qual é apaixonado. Manhattan mostra a Big apple através de um preto e branco que a romantiza, embalado pelo jazz constante na filmografia de Woody. Na trama, o diretor mais uma vez vive o protagonista, que aqui é um roteirista de um programa de televisão que se demite por odiar o emprego e a má qualidade da programação e sua relação com a namorada de dezessete anos, a ex-mulher que o largou para morar com outra mulher e a amante, uma jornalista pedante. E claro, a cidade, que além de cenário é quase uma personagem e fonte constante de inspiração para a personagem de Woody - "ele adorava Nova York. Ele a idolatrava". Da mesma forma, é difícil não adorar essa encantadora história.
Nota: 10
6. Pulp fiction (1994 - 29º)
O segundo filme de Quentin Tarantino lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes e o consolidou como novo talento do cinema. Passados mais de 20 anos, ele produziu muitas outras obras de peso e mostrou ser capaz de manter o alto nível. Mas Pulp Fiction realmente merece destaque em sua obra: Tarantino conseguiu sacudir a indústria mostrando um novo jeito de narrar uma história, construindo um enredo através de vários personagens em momentos e lugares diversos que estão atrelados por um elo de drogas e violência. Direção e roteiro brilhantes ficam ainda melhores com a volta triunfal de John Travolta dançando o melhor twist do cinema com Uma Thurman, os sermões bíblicos de Samuel L. Jackson e a dedicação de todo o ótimo elenco.
Nota: 10
7. Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004 - 27º)
O amor visto de um ângulo incomum em Hollywood: a desilusão amorosa e o fim de um relacionamento. Como curar um amor fracassado? A melhor alternativa seria simplesmente esquecer tudo. E se fosse possível? Brilho eterno responde a esta pergunta (e levanta tantas outras) ao mostrar o término do namoro de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) e o tratamento a que ela se submete para apagar Joel de sua mente depois de perceber que não era feliz ao seu lado. Amargurado, Joel decide fazer o mesmo tratamento, mas à medida em que vê sua ex-amada sendo apagada de suas lembranças, descobre que é melhor sofrer ao lembrar dos bons momentos ao lado de Clementine do que não ter memória alguma. A trama, que parece meio impossível ao se ler sobre, na verdade se mostra totalmente plausível ao ser vista - graças ao excelente roteiro, vencedor do Oscar, das atuações de Carrey e Winslet e de um time de coadjuvantes que inclui Kirsten Dunst, Elijah Wood e Tom Wilkinson.
Nota: 10
8. Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011 - 28º)
Tem como não amar? A história de amor e fantasia na Cidade Luz se tornou a maior bilheteria de Woody Allen e é um dos filmes bons mais pop do século (digo isso porque o que mais tem por aí é filme ruim e amado). O escritor e roteirista Gil Pender (Owen Wilson) vai para Paris com a noiva e os sogros, e em meio à fascinação pela cidade romântica e cheia de história, viaja no tempo a bordo de um velho carro. Nos anos 20, que ele considera ser a Era de Ouro de Paris, conhece Hemingway, Cole Porter, o casal Fitzgerald, Picasso, outros gênios da arte e a bela Adriana (Marion Cotillard), por quem se apaixona. Com muito bom humor e referências culturais excelentes, Woody nos fala sobre a importância de prestigiar o passado, mas sem deixar de viver o presente - afinal, a verdadeira Era de Ouro é agora, quando podemos realizar nossos objetivos. Admirável, ainda mais pra um jovem que na época tinha 75 anos.
Nota: 10
9. As Horas (The Hours, 2002 - 7º)
"Sempre os anos entre nós. Sempre os anos, sempre o amor, sempre as horas". Baseado (em um livro que se baseia) na obra de Virginia Woolf, o complexo e introspectivo As Horas acompanha um dia na vida de três mulheres distintas que vivem em épocas distintas: a escritora Virgina Woolf (Nicole Kidman) nos anos 20, a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore) nos anos 50 e a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep) em 2002. O que une as três é o romance Mrs Dalloway, escrito por Virginia, lido por Laura e cuja protagonista se assemelha a Clarissa (tendo, inclusive, o mesmo nome). Ambas as personagens tentam esconder e lidar com a angústia que as sufoca, mesmo as que aparentemente levam uma vida perfeita. Ambas as três terão seus mundos transformados ao longo de um único dia.
Nota: 10
10. Melancolia (Melancholia, 2011 - 1º)
O tempo passa e ele segue como o preferido. Transformar o fim do mundo numa obra de arte de beleza singular- foi o que Lars von Trier fez em Melancolia. Dividido em duas partes, o filme acompanha duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), na iminência do choque de um planeta gigante com a Terra. A primeira parte, intitulada Justine, mostra o casamento desta no castelo de seu cunhado, John. A festa luxuosa é o ponto de partida para o desencadeamento da severa depressão que se abate sobre Justine. Já na segunda parte, surge o misterioso planeta Melancholia, que em sua rota gravitacional passaria próximo à Terra, se bem que para muitos ele colidiria. O filme aborda as diferentes reações diante do fim do mundo, a pequenez do homem diante do universo e outros temas amplos de forma brilhante. Um espetáculo de imagens e sentimentos que ainda consegue me fazer suar pelos olhos.
Nota: 10
Luís F. Passos