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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Filmes pro final de semana - 05/05

1. O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 2013)
Love is blindness. A nova adaptação do imortal romance de Scott Fitzgerald (há três anteriores, sendo a mais conhecida a dos anos 70 dirigida por Coppola) há muito era aguardada, e foi lançada em maio de 2013 em Cannes. Como não era de se estranhar, o diretor Baz Luhrmann usou e abusou da extravagância para contar a história do misterioso e extravagante Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), a partir da narração de seu vizinho Nick Carraway (Tobey Maguire). Morando em um verdadeiro palácio em Long Island, Gatsby é quase uma lenda viva, um desafio à imaginação de suas centenas de convidados que todas as semanas lotam sua mansão em festas inacreditáveis regadas a rios de bebidas alcoólicas - isso em plena época da Proibição. Mas por trás da ostentação e futilidade, lembranças do passado que envolvem a linda prima de Nick, Daisy (Carrey Mulligan). O filme peca pelo excesso e é mais uma tentativa de chegar à profundidade do livro que não dá certo, mas não deixa de ser uma boa opção.
Nota: 8,5/ 10
2. O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998)
Jeff Lebowski (Jeff Bridges), mais conhecido como The Dude (o Cara), é um beberrão folgado cuja maior paixão é o boliche. A vida do Dude dá uma sacudida quando traficantes o confundem com um milionário que tem o mesmo nome que ele, pois a mulher do ricaço era viciada. É quando o rico Lebowski, chamado de Big, chama seu xará pobre que as coisas ficam feias pro jogador de boliche: o plano era o Dude negociar com os criminosos o regaste da mulher do Big Lebowski, mas graças à ajuda dos amigos idiotas do Dude, nada dá certo. São os Irmãos Coen mais uma vez trabalhando com figuras fracassadas e tirando situações hilárias e violentas. As mirabolantes tentativas do Dude de sair da enrascada misturam competições de boliche, veteranos neuróticos do Vietnã e até mesmo prêmios do cinema pornô. Impossível não rolar de rir.
Nota: 8,5/ 10
3. Chinatown (1974) 
Um dos melhores filmes de Roman Polanski é mais uma prova da genialidade do cinema dos anos 70. Ambientado na Los Angeles dos anos 30, Chinatown traz Jack Nicholson como um detetive que se vê no meio de uma trama que quanto mais se aprofunda, mais complexa se mostra. Ao lado de uma femme fatale vivida por Faye Dunaway, a personagem de Nicholson tentará decifrar o mistério que envolve desde a guerra de águas da Califórnia até terríveis segredos familiares. Eis um filme maravilhoso - sério, dá raiva de quão bom ele é - que foi lançado no ano errado. 1974 foi apenas o ano de O Poderoso Chefão parte II, que ofuscou todos seus rivais. O que não tira em nada o mérito de Chinatown. O roteiro é perfeito, a direção é de mestre, o elenco é sensacional. Além disso, aqui estão algumas das melhores reviravoltas do cinema americano.São várias cenas marcantes, a começar pelo detetive vivido por Nicholson ter seu nariz cortado por um bandido interpretado pelo próprio diretor Polanski e dizer "por pouco não perco o meu nariz. E eu gosto dele. Gosto de respirar por ele", passando por uma sucessão de tapas que Nicholson dá no rosto de Dunaway (dizer o conteúdo do diálogo é spoiler pesado) e claro, a inesquecível frase final (que também seria spoiler, então assista ao filme
Nota: 10 + 1 por ser excelente e não tão conhecido
4. Lolita (1962)
Há quem diga que Lolita é o primeiro filme realmente 'de Kubrick', pois é o primeiro que dá pra saber que nenhum outro diretor filmaria. Afinal, haja ousadia para adaptar a polêmica obra de Vladimir Nabovok, que fora censurada em vários países quando lançada. Lolita acompanha o professor universitário Humbert Humbert (James Mason) e seu desejo doentio por uma adolescente de catorze anos, Lolita, que o levou a se casar com a mãe desta só para se aproximar dela. Com olhares furtivos e escrevendo em seu diário, Humbert guarda para si a obsessão pela menina, enquanto a mãe se atira sobre ele sem algum pudor. Reviravoltas no filme parecem contribuir para o sucesso,de suas intenções, mas outras reviravoltas deixam a história ainda mais interessante, e surpreendentemente fresca mesmo cinquenta e poucos anos depois de seu lançamento.
Nota: 10
 5. A Malvada (All about Eve, 1950)
Um clássico importante e interessantíssimo, A Malvada é mais um dos títulos que ficaram infelizes depois de traduzidos. Mas esse detalhe não é nada comparado ao roteiro inesquecível e às atuações ainda mais inesquecíveis, começando pelas protagonistas Bette Davis e Anne Baxter. Bette é Margo Channing, atriz veterana da Broadway, ícone entre os colegas e queridinha dos diretores, que vê sua vida mudar com o aparecimento de Eve Harrigton (Baxter), contratada por ela como assessora. Mas a aparentemente inocente Eve de boba não tem nada, se mostrando um poço de inveja e esperteza, fazendo de tudo para se tornar uma atriz do mesmo nível e prestígio de Margo. Os diálogos são ora ácidos, ora sagazes, mas sempre geniais, como o "apertem os cintos, esta será uma noite turbulenta!" proferido por Margo diante da tensão de uma festa de aniversário.
Nota: 10

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Filmes pro final de semana - 20/11

1. Para sempre Alice (Still Alice, 2011)
A vencedora do Oscar de melhor atriz desse ano saiu mais uma vez um filme de elenco, ou seja, uma história boa - apenas boa, nada inesquecível ou revolucionário - que se destaca pelo elenco. Estamos falando de Juliane Moore, que interpreta a professora universitária Alice Howland. Alice construiu uma respeitosa carreira através de muito estudo e da linguística, sua especialidade, e foi após se atrapalhar numa palestra, ao esquecer a palavra léxico, que ela atenta para o esquecimento, cada vez mais presente em sua vida. Ao consultar um neurologista, ela é diagnosticada com o mal de Alzheimer, numa forma precoce e agressiva por se tratar de uma mutação genética herdada de seu pai. Ao longo de dois anos vemos a vida de uma mulher independente mudar radicalmente, ao ponto de não conseguir amarrar os próprios cadarços. O filme, por seu roteiro e direção, se assemelha à uma evolução clínica de uma paciente, mas a atuação de Moore é tão marcante, tão vívida, incorporando as debilidades físicas e psíquicas de Alice, que escapa de qualquer crítica e salva o conjunto final.
Nota: (10 de Juliane Moore + 6 do filme /2=) 8,0/ 10
2. O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005)
Um filme muito sólido, emocionante e nem um pouco apelativo. A história do amor proibido dos cowboys Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) se passa nos anos 60, a partir do primeiro contato, quando foram contratados para tomar conta de um rebanho nos arredores de uma montanha. O tempo passa, ambos constituem família em suas respectivas cidades, se reencontrando raras vezes mas mantendo o sentimento que os uniu. Sentimento transmitido pelas grandes atuações dos protagonistas, em especial Heath Ledger, que se mostrou uma revelação. Tímido e introspectivo, Ennis Del Mar esconde seus sentimentos por trás de uma carapaça de músculos e brutalidade. Tudo isso apresentado como um western pra John Ford ou Sergio Leone nenhum botar defeito - a não ser que eles não deixassem de lado alguns preconceitos.
Nota: 9,5/ 10
3. Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988)
Italianos... ô povinho pra saber fazer filme bom! A Itália é um dos países que mais venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro, além de ser berço de alguns dos maiores cineastas da história, como Fellini, Antonioni, De Sicca, Leone, entre outros. Ente os italianos vencedores do Oscar, um dos mais queridos é o emocionante Cinema Paradiso, a bela história de Salvatore, um pobre garoto do interior apaixonado por cinema que cria uma forte amizade com Antonio, o projetor do pequeno cinema local. Salvatore, conhecido como Totó quando pequeno, costumava espiar da sala de projeção enquanto o padre censurava as cenas de beijo, e assim nasceu sua paixão pelo cinema. O brilho nos olhos de Totó é o mesmo brilho de qualquer criança (ou alguém que preserve o fascínio de uma criança) diante de um telona - e é apenas um de muitos aspectos positivos e emocionantes do filme. Um filme recente que se assemelha a Cinema Paradiso é A invenção de Hugo Cabret, especialmente seu protagonista, quase uma personificação da infância de Scorsese.
Nota: 9,5/ 10
4. A Cor Púrpura (The color purple, 1985)
Um Steven Spielberg, rei da fantasia e aventura, que poucos conhecem. Uma Whoopi Goldberg, rainha da comédia (e da sessão da tarde) que poucos conhecem. Ambos se aventuraram, trinta anos atrás, num drama sólido e emocionante sobre opressão social, de raça e gênero. Baseado no livro homônimo, A cor púrpura é ambientado na pobreza do sul americano, onde as irmãs Celle e Nettie encontram uma na outra o amor para suportar sua difícil realidade. Após sofrer abuso pelo próprio pai, Celle é dada a um homem mais velho, já viúvo e pai de vários filhos. Ao longo de décadas, Celle (Whoopi Goldberg, na fase adulta) tenta aliviar seu sofrimento através de cartas, inicialmente sem destinatário, depois à sua irmã, que se torna missionária, e à engajada nora de seu esposo, Sofia (Oprah Winfrey). O filme recebeu diversas indicações ao Oscar, sendo a de Whoopi ao prêmio de melhor atriz a que até hoje repercute - até então, nenhuma negra havia vencido na categoria, o que só ocorreu em 2002, quando Halle Berry faturou a estatueta, e em seu discurso homenageou o trabalho da colega, 17 anos antes.
Nota: 10
5. Adorável Pecadora (Let's make love, 1960)
Talvez seja no seu penúltimo filme que Marilyn Monroe aparece mais linda do que nunca -  mas menos sexy que no filme anterior, Quanto mais quente melhor (1959). A queridinha da América aparece aqui como a atriz e dançarina Amanda, que trabalha numa pobre companhia de teatro do segundo escalão da Broadway, que prepara uma peça que pretende parodiar figuras poderosas e famosas, como o cantor Elvis Presley e o bilionário Jean-Marc Clément (Yves Montand). Acontece que Clément se irrita com o uso de sua imagem e resolve aparecer num ensaio para acabar com a festa, mas ao chegar encontra Amanda de collant dançando e fica caidinho. Depois de um pequeno mal entendido, ele acaba no elenco interpretando a si próprio, se passando por um pobre ator imigrante chamado Alexandre Dumas. A comédia musicada (mas não um musical) se abrilhanta pelas músicas e pela estonteante presença de Marilyn, que nessa altura do campeonato dispensa comentários do Sagaranando.
Nota: 8,0/ 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Filmes pro final de semana - 01/05

1. Os sonhadores (The dreammers, 2003) 

Que Bernardo Bertolucci é um diretor polêmico, nem preciso dizer; basta lembrar de filmes como O último tango em Paris. E um de seus mais conhecidos trabalhos dos últimos anos (e consequentemente, polêmicos) foi Os sonhadores, de 2003, que acompanha um jovem americano que estuda em Paris, Matthew (Michael Pitt) que conhece os irmãos gêmeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green), ambos apaixonados por cinema como eles. Os irmãos são filhos de um casal de intelectuais que parte numa viagem, e Matthew é convidado para passar um tempo na casa deles. Não preciso dizer que a estadia de Matthew é marcada por eventos no mínimo estranhos, que são um misto de cinefilia, filosofia e sexo – não exatamente relações sexuais, mas várias formas de expressão do sexo. Por trás da sexualidade e eventuais bizarrices, temos aqui um ótimo filme sobre o cinema antigo das décadas de 20 e 30 e a nouvelle vague nos anos 60, além de acompanhar o espírito juvenil durante a inquietação política que marcou a França no ano de 68.  
Nota: 9,0/ 10 

2. Moulin Rouge - amor em vermelho (Moulin Rouge!, 2002)
O cabaré mais famoso do mundo chegou às telonas nesse inesquecível filme do habilidoso e extravagante diretor Baz Luhrmann. Na Paris do fim do século XIX, uma geração de jovens e pobres artistas buscava deixar sua marca na cultura da época, visando uma arte que girasse em torno da beleza, da verdade, da liberdade e do amor. Entre esses artistas há o escritor Christian (Ewan McGregor), que se apaixona pela mais bela das cortesãs do Moulin Rouge, Satine (Nicole Kidman) - mas entre os dois havia os planos de transformar o cabaré num teatro, um rico e maléfico barão e a doença que era o mal do século. Moulin Rouge fascina pelo exagero, brilho, beleza, músicas (apesar de não ter nenhuma música original, usando clássicos como Diamonds are the girls best friends e Like a virgin) e tem o grande mérito de ressuscitar o decrépito gênero dos musicais, sendo o primeiro musical em mais de vinte anos indicado ao Oscar de melhor filme.
Nota: 9,5/ 10
3. O Pianista (The pianist, 2002)
O diretor Roman Polanski apresenta uma visão do Holocausto diferente da comumente mostrada nos filmes, dos campos de concentração, e foca no gueto de Varsóvia através do pianista Władysław Szpilman (Adrien Brody), famoso músico polonês que assiste à invasão de seu país pelas tropas nazistas em setembro de 1939 e a implantação das absurdas leis contra os judeus, que culminou na implantação dos guetos. É impressionante a realidade do filme ao acompanhar a perda da dignidade de um homem na busca pela sobrevivência, e parece que os obstáculos não param de surgir. E no filme, a representação de um dos pontos altos do Holocausto: o levante do Gueto de Varsóvia, quando operários deram início a uma revolta contra os soldados que resistiu por mais de vinte dias até ser totalmente esmagada pelos alemães. A emocionante história de Polanski foi vencedora da Palma de Ouro, além dos Oscar de melhor direção, ator e roteiro adaptado.
Nota: 9,5/ 10
4. Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999)
Este longa de 1999 é centrado em Manuela (Cecilia Roth), enfermeira que perde seu único filho num acidente depois de assistir à peça Uma rua chamada pecado. Ela então vai à Barcelona em busca do pai do garoto para dar a notícia, mas não o encontra; quem ela reencontra é a travesti Agrado (Antonia San Juan), sua amiga de muitos anos atrás, e através de quem conhece a freira Rosa (Penélope Cruz), que descobre estar grávida e soropositiva. Manuela se vê mantendo Rosa sob seus cuidados e responsabilidade ao mesmo tempo em que se aproxima do elenco de Uma rua chamada pecado, cuja protagonista Huma (Marisa Paredes) vive Blanche DuBois dentro e fora dos palcos. Com referências ao cinema clássico, Almodóvar mais uma vez constrói perfis femininos através da ótica de um homem crescido entre mulheres, especialmente a figura materna simbolizada por Manuela. O resultado é um filme maravilhoso, vencedor do Prêmio de direção de Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Nota: 10
5. O pecado mora ao lado (The seven year itch, 1955)
Verão, Nova York, calor dos infernos e famílias em férias. Mas muitos maridos permanecem na cidade por causa dos empregos; é o caso de Richard Scherman (Tom Ewell), editor que se vê sozinho em casa e ganha uma vizinha loira, sensual e meio burra, uma modelo cujo nome é ignorado (Marilyn Monroe). Cria-se uma tensão sexual engraçadíssima entre os dois; Richard sente-se muito atraído, mas ao mesmo tempo temeroso de trair a esposa, enquanto a garota parece desconhecer o efeito que tem sobre o pobre Richard, perseguido por delírios de infidelidade. Em meio aos divertidos diálogos muito bem construídos, temos a cena em que o vestido de Marilyn levanta com o sopro do respiradouro do metrô, uma das mais famosas do cinema - e que apesar de toda a popularidade, não dura mais que poucos segundos.
Nota: 9,0/ 10 

Luís F. Passos

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Filmes pro final de semana - 11/07

1. Inside Llewyn Davis (2013)
Até agora o filme que mais gostei nesse ano. Os Irmãos Coen contam a história de Llewyn Davis (Oscar Isaac), cantor fracassado que não conseguiu emplacar sucesso, viu seu parceiro e melhor amigo falecer, a família lhe virar as costas e estragou um relacionamento com a mulher que amava (amava mesmo?) Ambientado no Greenwich Village dos anos 60, de onde saíram astros do quilate de ninguém menos de Bob Dylan, Inside Llewyn Davis é um tanto influenciado pela história real do cantor Dave Von Ronk, cuja problemática personalidade era digna de fama. Llewyn é um pobre coitado que sabe que é um coitado ao mesmo tempo que mantém um desdém por tudo e todos, inclusive Jean (Carey Mulligan), com quem teve um caso, Jim (Justin Timberlake), marido de Jean e cantor bem sucedido, além dos vários outros personagens. Mais um filmaço dos Coen sobre figuras fracassadas, dessa vez abrilhantado por uma excelente trilha sonora.
Nota: 10
2. Vicky Cristina Barcelona (2008)
Sem dúvidas um dos mais queridos entre os últimos filmes de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona esbanja sensualidade através de seus quatro protagonistas e beleza e encanto de seu cenário, a cidade de Barcelona e a região da Catalunha. Quando Vicky (Rebeca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) chegam à cidade, não imaginavam que em meio à rica cultura espanhola iriam encontrar o amor na figura do provocante pintor Juan Antonio (Javier Bardem), que as convida para um fim de semana cheio de lugares lindos, bons vinhos, pratos deliciosos e muito sexo. O inusitado convite é o ponto de partida para um breve contato entre Vicky e Juan Antonio e o início da relação do artista com Cristina - que será sacudido com a volta da ex mulher dele, Maria Elena (Penélope Cruz). Os cenários, o idioma, a música, a fotografia e o elenco são ingredientes que fazem deste um filme intenso, sexy e carismático, mostrando a versatilidade de Woody mesmo depois dos setenta anos, além de sua capacidade de criar grandes personagens femininas que presenteiam suas intérpretes com Oscar - Penélope Cruz foi vencedora na categoria atriz coadjuvante.
Nota: 9,0/ 10
3. Os Bons Companheiros (GoodFellas, 1990)
Violento, brutal, e estranhamente carismático. Um dos melhores filmes de Scorsese aborda a escória da máfia, gângsters nascidos no subúrbio que em nada lembram a elegante e cavalheiresca máfia romantizada em outras obras. Henry (Ray Liotta) desde garoto sabia que queria entrar na máfia e ter todos privilégios que o crime lhe proporcionaria, e ao lado de seus amigos Tommy (Joe Pesci) e Jimmy (Robert De Niro) ganha experiência e uma extensa ficha criminal que inclui agressão, extorsão, assassinato e tráfico de drogas. A amizade dos três beira a fraternidade, as famílias se dão muito bem, mas nem mesmo uma organização criminosa com base tão sólida pode ser resitente a tudo. A ascensão social a partir da máfia, o status que representa a gangue, as relações entre as personagens e a forte violência são mostradas com magestria e por incrível que pareça, com um humor um tanto irônico. (Funny? Funny how, motherfucker?)
Nota: 10
4. Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987)
Um filme sobre a Guerra do Vietnã de arrepiar: além de mostrar soldados no campo de batalha, Nascido para matar se dedica a tratar da formação deles. O filme começa em solo americano, numa base de recrutas dos Fuzileiros Navais, onde um sargento terrorista afirma para seus comandados que a partir daquele momento até seus rabos pertenciam à pátria. Metade do longa é ambientada na base, mostrando o rígido treinamento e a disciplina de ferro do sargento, e a outra metade se passa em solo vietnamita, onde se prova que no fundo não há muita diferença entre soldados, sargentos ou oficiais: todos são vítimas da alienação da guerra, treinados apenas para matar, sem saber por que ou para quem. Um filme único, e sem dúvidas um dos melhores já feitos sobre guerra.
Nota: 10
5. Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959)
Dois músicos pobretões que precisam fugir da máfia de Chicago, uma banda feminina bem assanhadinha, uma cantora loira de parar o trânsito e milionários na Flórida. Tudo isso, sob a direção de um mestre da comédia, vira um clássico que permanece incólume num pódio há mais de cinquenta anos. Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon) são amigos que testemunham um massacre promovido pela máfia e precisam fugir da cidade, e o disfarce perfeito é encontrado junto a uma banda feminina que partia em direção à Flórida. Vestidos de mulher, passam a ser Josephine e Daphne. Mas na banda da controladora Sweet Sue, eles conhecem Sugar Kane (Marilyn Monroe), uma cantora que tenta esquecer seus amores fracassados com ajuda do uísque e da esperança de encontrar um milionário sensível que a ame. Enfim, tudo pode acontecer na Flórida, e quase de tudo acontece - romance, fugas e principalmente comédia escrachada. Ingredientes perfeitos pra uma obra-prima.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Filmes pro final de semana - 15/11

1. Ilha do medo (Shutter Island, 2010)
Mais uma parceria de sucesso entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, Ilha do medo acompanha o investigador do FBI Edward Daniels (DiCaprio) e seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo) chegam a um hospital psiquiátrico localizado numa pequena ilha em que estão internados pacientes condenados pela justiça - um manicômio judiciário. Os agentes estão investigando a fuga de uma paciente, a única fuga na história do hospital, e totalmente inexplicável, pois cada canto do hospital é vigiado e o litoral da ilha é cheio de rochedos, havendo apenas um pier. À medida em que Daniels tenta aprofundar seu trabalho, encontra resistência do diretor e de outros funcionários, além de se ver diante de situações que vão contra a ética médica e outras que o atingem em cheio, por estarem relacionadas à morte de sua família. Ilha do medo é um filme cheio de suspense e tensão como poucos, aflitivo na medida certa e com reviravoltas de arrepiar. Palmas para Scorsese, palmas para DiCaprio.
Nota: 9,0/ 10
2. Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006)
Quando Sofia Coppola lançou Maria Antonieta no Festival de Cannes dividiu opiniões; enquanto uns se levantaram para aplaudir, outros vaiaram o filme. Mas a opinião do público é quase unânime: genial. Deixando de lado o contexto político que antecedeu a Revolução Francesa, o filme foca a vida pessoal da polêmica rainha, desde o acordo firmado por sua família (os Habsburgo, soberanos da Áustria) com a França que arrumou seu casamento com Luís, príncipe herdeiro. Os medos diante do casamento, a distância de seu marido, a demora em engravidar e a vida dentro do ninho de cobras que era a Corte em Versalhes atormentam a jovem princesa, que aos poucos vai criando uma vida em paralelo às obrigações reais: dias inteiros dedicados à escolha de vestidos, chapéus e sapatos, a paixão por doces finos, passeios no campo e pequenas festas regadas a muito vinho e champanhe. Em poucas palavras: é As patricinhas de Beverly Hills do século XVIII. Elogiado pela fotografia que realça os cenários deslumbrantes, pelo figurino vencedor do Oscar e pela trilha sonora composta por rock, Maria Antonieta é mais um grande filme da nova geração dos Coppola.
Nota: 8,5/ 10
3. Platoon (1986)
A emblemática frase no pôster e na capa do DVD já diz tudo - na guerra, a primeira vítima é a inocência. Para provar isso, nada melhor do que um jovem soldado no Vietnã. Charlie Sheen é Chris, garoto de classe média, branco, que se recruta ao Exército por idealismo e ignorando os horrores que iria encontrar. Duas figuras que ele logo encontra e marcam sua permanência na guerra são os sargentos Elias (Willem Dafoe) e Barnes (Tom Berenger), figuras antagonistas que parecem disputar a admiração dos recrutas e a alma de Chris; enquanto Elias é meio hippie, pacifista e usuário de drogas que o afastam um pouco da realidade bélica, Barnes é um assassino nato que só precisa ver um par de olhos estreitos para puxar o gatilho. As cartas que Chris escreve para a família vão ganhando um tom mais sombrio e negativo com o passar do tempo, reflexo da mudança sofrida pelo garoto diante da barbárie da guerra. O diretor Oliver Stone dá início aqui a uma série de bem sucedidos filmes de guerra, merecendo este especial atenção por ser baseado em algumas experiências dele próprio, que é veterano do Vietnã; aliás, Platoon é considerado um dos melhores filmes de guerra já feitos, perdendo apenas para Apocalypse now (e para alguns, para Nascido para matar).
Nota: 9,5/ 10
4. O pecado mora ao lado (The seven year itch, 1955)
Verão, Nova York, calor dos infernos e famílias em férias. Mas muitos maridos permanecem na cidade por causa dos empregos; é o caso de Richard Scherman (Tom Ewell), editor que se vê sozinho em casa e ganha uma vizinha loira, sensual e meio burra, uma modelo cujo nome é ignorado (Marilyn Monroe). Cria-se uma tensão sexual engraçadíssima entre os dois; Richard sente-se muito atraído, mas ao mesmo tempo temeroso de trair a esposa, enquanto a garota parece desconhecer o efeito que tem sobre o pobre Richard, perseguido por delírios de infidelidade. Em meio aos divertidos diálogos muito bem construídos, temos a cena em que o vestido de Marilyn levanta com o sopro do respiradouro do metrô, uma das mais famosas do cinema - e que apesar de toda a popularidade, não dura mais que poucos segundos.
Nota: 9,0/ 10
5. A regra do jogo (La règle du jeu, 1939)
Desde o início de sua carreira o diretor francês Jean Renoir mostrou talento invejável pelo domínio da técnica de filmar e pelos temas inovadores de seus filmes. Em A regra do jogo, temos o que o próprio diretor chamou de uma descrição exata da burguesia de seu tempo, não só dos ricos como também dos trabalhadores que o servem. Tudo começa quando o aviador André Jurieux cruza o Atlântico e causa agitação, mas se diz decepcionado por não ter uma certa dama o aguardando. A dama é Christine, casada com o rico colecionador de aviões Robert; este, por sua vez, mantém um caso de longa data com Geneviève. Por trás do luxo dos salões da burguesia, na cozinha, vemos que os empregados também aprontam das suas: a acompanhante de Christine, Lisette, é casada com o caseiro Schumacher mas se deixa levar pela lábia de Marceau, ladrão contratado por Robert como criado. Na casa de campo de Robert, encontros e desencontros dos protagonistas e dos amigos de Robert, incluindo Octave, vivido pelo próprio Renoir e figura chave na história. Um filme excelente e muito agradável que critica muito sagazmente o mundo de aparências, mentiras e hipocrisia dos ricos.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Filmes pro final de semana - 11/10

1. 127 horas (127 hours, 2010)
Um dos maiores destaques entre os grandes filmes do Oscar 2010/ 2011 foi o longa estrelado por James Franco e baseado na história real do alpinista Aron Ralston, que sofreu um acidente e ficou preso por uma pedra por mais de cinco dias numa fenda no Grand Canyon, tendo como companhia apenas uma câmera com a qual gravou pequenos depoimentos de seu infortúnio, um pequeno cantil com cada vez menos água e uma faca quase cega, com a qual seria quase impossível fazer o ato desesperado que poderia tirá-lo dali: cortar o próprio braço. Ao longo de noventa minutos de filme, vemos o ótimo trabalho de James Franco, que leva praticamente sozinho a história e transmite todos os sentimentos de Aron, principalmente o medo de morrer num buraco no meio do deserto. Excelente atuação que rendeu ao ator tudo que foi indicação, ao Oscar, Globo de Ouro, SAG, etc... mas tinha um Colin Firth em O discurso do rei no meio do caminho.
Nota: 9,0/ 10
2. Reencontrando a felicidade (Rabbit Hole, 2010)
Só quem já perdeu alguém próximo, seja parente, amigo ou outro ente querido sabe a dor que a morte pode causar. E essa dor tem fim? É essa a pergunta que Reencontrando a felicidade levanta a partir de um casal, Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart), que perdeu o pequeno filho num acidente de carro. Enquanto Howie tenta tocar a vida pra frente com o apoio de grupos e da fé, Becca parece rejeitar qualquer tipo de ajuda, ansiando apenas ficar sozinha com sua dor - a não ser pena estranha amizade que inicia com Jason, o garoto que dirigia o carro que atropelou seu filho. E ainda há a mãe de Becca, Nat (Dianne Wiest), que tenta ajudar a filha, já que também perdera um filho, apesar da relutância dela. E talvez, a dor nunca acabe, mas se torne possível de conviver. Ótimo filme, com maturidade e sensibilidade na medida certa, além de marcar a volta dos grandes trabalhos de Nicole Kidman.
Nota: 8,5/ 10
3. Forrest Gump - O contador de histórias (Forrest Gump, 1994)
Eu definitivamente não sou fã de Forrest Gump, mas não posso discordar de que é uma interessante e bem feita história. Tudo começa num ponto de ônibus, onde um homem se senta... e claro, conta histórias. Mais exatamente as histórias de sua vida. Forrest Gump (Tom Hanks) é um simpático débil mental com QI de 75 e uma habilidade inacreditável para jogar pingue-pongue e correr (Run, Forrest, run!!). Forrest consegue a proeza de participar de alguns dos maiores acontecimentos do mundo entre as décadas de 50 e 80, como a Guerra do Vietnã e o Festival de Woodstock e conheceu figuras como John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon. A vida de Forrest também é marcada por uma amizade/ paixonite de infância, Jenny, que não convence muito a quem assiste. Lembrando que Tom Hanks saiu vencedor do Oscar de melhor ator, seu segundo, e o filme ainda venceu melhor filme, roteiro adaptado, diretor, efeitos especiais e edição. De novo: venceu melhor filme e diretor. Derrotou quem? Pulp fiction e Tarantino. Mais um motivo pra eu não gostar dele.
Nota: 7,0/ 10
4. Os homens preferem as loiras (Gentlemen prefer blondes, 1953)
Cuidado ao dizer que Diamonds are a girl's best friend é coisa de Moulin Rouge ou mesmo da Madonna. A canção foi imortalizada por Marilyn Monroe nesse filme de 1953 em que ela interpreta Lorelei, uma showgirl que faz dupla com Dorothy (Jane Russell) e é noiva do jovem milionário Gus (Tommy Noonam). Quando as coristas precisam ir à Europa por trabalho, Gus dá a Lorelei uma carta de crédito razoável, mas seu pai, que desconfia da moça, manda investigá-la e acaba porvocando o fim do noivado. As duas moças então precisam se virar em Paris, e o jeito é fazer o que elas sabem melhor: cantar e dançar. O resultado é um misto de musical e comédia romântica muito bacana com uma certa acidez ao criticar a caça a fortunas e com muito glamour de duas grandes estrelas da época.
Nota: 8,0/ 10
5. Era uma vez em Tóquio (Tokyo Monogatari, 1953)
Um casal de idosos deixa sua filha mais jovem em casa, no campo, e vai visitar seus outros filhos na capital Tóquio, cidade que eles não conheciam. Porém os filhos já tinham suas próprias vidas e famílias e mal escondiam estar evitando os pais, na dura e atarefada vida do Japão pós-guerra. A única que parecia estar sempre disposta a fazer companhia e dar atenção aos velhos era a nora viúva que perdera o marido na guerra. Não que o casal reclamasse, tampouco a nora. Durante duas horas acompanhamos os idosos e suas constatações sobre velhice e relações familiares, inclusive a dolorosa mas talvez inevitável certeza do abandono dos mais jovens em relação aos mais velhos. O filme é muito sutil, delicado, discretamente lento, e essa leveza parece perfeita para acompanhar os gentis costumes japoneses e a melancólica saga do casal de idosos. Difícil aqui só é diferenciar todas as personagens... desculpem a piada.
Nota: 10

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Quanto mais quente melhor - we wanna be loved by Marilyn


A ideia de dois homens que têm que se vestir de mulher para salvar suas vidas não é muito atraente num filme por ser um pouco clichê. Mas se eu disser que esses dois homens são Tony Curtis e Jack Lemmon? E que a direção e roteiro são do genial Billy Wilder? E principalmente, se eu disser que a outra protagonista do filme é Marilyn Monroe? Aí eu tenho certeza que a coisa fica muito mais interessante.
Joe (Curtis) e Jerry (Lemmon) são dois músicos sem eira nem beira, dois pobres coitados que tocam respectivamente sax e contrabaixo. Numa noite em que se preparavam para fazer uma apresentação numa cidade próxima a Chicago, eles presenciam o massacre de uma gangue feita por um criminoso famoso chamado Spats Colombo (George Raft). Claro que gângsters não gostam de testemunhas, e é por pura sorte que Joe e Jerry conseguem fugir, decidindo ir para o lugar mais longe possível. A oportunide aparece quando eles descobrem que uma banda precisava de alguém pra tocar sax  contrabaixo em Miami - mas tinham de ser mulheres.
Os dois músicos se disfarçam de mulheres; Joe se torna Josephine e Jerry, Daphne. Logo no trem para a Flórida eles conhecem Sugar (Marilyn), uma loira escultural que toca guitarra havaiana e canta. Sugar é meio cabeça oca, e sonha encontrar um cavalheiro milionário que a faça feliz, já que suas experiências amorosas se resumem a músicos, principalmente saxofonistas, que prometem o mundo mas fogem na primeira oportunidade. Essa má sorte no amor faz com que ela tenha um carinho especial por uísque, e é numa situação muito engraçada envolvendo a bebida que ela se torna amiga de Josephine e Daphne.
Enquanto Joe parece aceitar bem o disfarce, Jerry, na primeira oportunidade, se veste como um milionário e usando o nome Shell Jr passa a seduzir Sugar. Enquanto isso, Josephine passa a ser cortejada por um milionário setentão muito animadinho, que mesmo com a rejeição da "moça" não desiste de conquistá-la.
Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959) é considerado a melhor comédia de todos os tempos desde que foi lançado, e não é pra menos. Não tenho dúvida de que é um dos filmes mais engraçados que já vi. Billy Wilder soube alternar muito bem o humor pastelão com os diálogos brilhantes, que são sua marca registrada. É impossível não rir da cena em que Jerry, vestido como Daphne, tenta seduzir Sugar no meio de várias mulheres que estavam numa só cama, ou quando o mesmo diz a Joe que está noivo do milionário tarado.  Jack Lemmon era tão bom que só de ver Daphne tocando contrabaixo dá vontade de rir.
E quanto a Marilyn... ah, Marilyn! Aqui ela está muito mais sedutora que em O pecado mora ao lado (1955). Primeiro porque aqui temos a famosa passagem em que ela canta "I wanna be loved by you",  deixando qualquer um boquiaberto. Além disso, Sugar é intencionalmente sexy, doida pra casar com um milionário. Mesmo estando grávida e com o peso acima do normal -mal dá pra perceber- Marilyn tá um pitel, com aquele misto de ingenuidade e sensualidade que não tem igual.
O primeiro filme de Billy Wilder que vi foi The apartment (1960), tambem com Jack Lemmon, que foi vencedor do Oscar de Melhor filme. É uma comédia de costumes incrível, que foi automaticamente pra lista de meus filmes preferidos. Eu achava que era o melhor filme de Wilder, mas depois de ver Quanto mais quente melhor, fiquei em dúvidas. Só me resta recomendar ambos, com a garantia da satisfação diante do legado de um dos melhores diretores da história de Hollywood.

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Luís F. Passos

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O pecado mora ao lado - fiufiu, Marilyn!

Imagine que é verão, a cidade está um forno e aparentemente todas as mulheres casadas e seus filhos foram viajar de férias, deixando seus maridos em casa com seus empregos. Agora imagine um cara cujos vizinhos do andar de cima vão passar o verão na Europa e alugam o apartamento a uma jovem loira de parar o trânsito, nnguém menos que Marilyn Monroe. Bem, essa é a situação de Richard Sherman, editor novaiorquino casado há sete anos e pai de um menino. Sua esposa Helen viaja para o interior e no mesmo dia aparece uma loira que lhe tira o fôlego e quase o mata com um vaso de plantas acidentalmente.
Richard perde a razão por causa de sua nova vizinha, que é a representação do estereótipo da vizinha loira, burra e sedutora. O pior é que ela sabe o efeito que tem sobre o cara, mas mantém um ar de inocência que só aumenta seu efeito sobre Richard. Ele busca se aproximar dela, mas quanto mais o faz, mais fica nervoso e maior é seu desejo. Temendo cometer adultério, ele se consulta com um psiquiatra, que diz que ele está com a "coceira dos sete anos" (que é o nome original do filme), um mal que aflige 90% dos homens que completa sete anos de  casamento. Segundo o médico, a doença é um protesto interior contra a estabilidade do casamento, e é agravada quando há a tentação - no caso, o pecado do apartamento de cima (o pecado mora em cima, não ao lado!).
Basicamente O pecado mora ao lado (The seven year itch, 1955) é isso. Só isso? Não é "só isso". Esse curto enredo tem muita coisa nas entrelinhas. A começar pela personagem de Marilyn Monroe. Percebeu que não tem nome? É porque a mulher aparece apenas como a personificação do desejo. É loira, é linda, seu corpo é sensacional. Pra quê nome e inteligência, se o desejo físico já foi suprido?
O filme também trata de outros temas, apesar da censura vigente na época: racismo, traição (os homens mandavam as mulheres viajarem para se comportar como solteiros), homossexualismo (dois decoradores moram juntos no último andar) e claro, o machismo e a visão da mulher apenas como objeto. Algumas coisas saíram do filme por causa da censura, como cenas em que se comprovaria o adultério de Sherman. Mas a gente nem se importa, porque ficaram as cenas com os ótimos diálogos entre os vizinhos, e claro, a cena mais notória do filme: na saída do cinema, a loira pára na calçada e seu vestido levanta com o vento - quem nunca viu essa cena?
E é Marilyn quem domina o filme. Não só pelo papel de destaque, mas pelo fato de que ela era capaz de seduzir até as câmeras, mostrando muita sensualidade com um ar de inocência, coisa que poucas atrizes coseguem fazer, além de ter muito carisma, responsável em parte por sua legião de fãs. Quero dizer, inclusive, que agora que conheço seu trabalho sei que foi bom ela ter recusado o papel de Holly Golightly em Bonequinha de luxo. Marilyn era muito sensual, diferente de Audrey Hepburn, que fazia mais o tipo lady inglesa e soube tornar Holly meiga e ingênua.
Ah, vale lembrar que o filme é baseado numa peça homônima de George Axerold, que é co-roteirista do longa junto com o diretor Billy Wilder, que manteve o aspecto teatral usando praticamente apenas um cenário, que é o apartamento de Sherman.

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Luís F. Passos