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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Filmes pro final de semana - 07/08

1. Oito mulheres e um segredo (Oceans'8, 2018)
Spin-off da aclamada trilogia Ocean's - no Brasil, 11 homens e um segredo e aí por diante -, liderada por George Clooney, o filme traz Sandra Bullock no papel de irmã do personagem de Clooney. Debbie Ocean (Bullock) sai da cadeia e encontra sua parceira de longa data, Lou (Cate Blanchett), e as duas começam a acertar os detalhes de um plano que Debbie elaborou durante os anos em que ficou presa: o roubo de um lendário colar de diamantes que vale centenas de milhões de dólares. Para isso, montam um grupo que envolve uma hacker (Rihanna), uma estilista falida (Helena Bonham Carter), uma ladra profissional (Awkwafina), uma fabricante de joias (Mindy Kaling) e uma contrabandista (Sarah Paulson). Mirando a atriz Daphne Kugler (Anne Hathaway), que usará o colar num jantar de gala, a quadrilha liderada por Debbie nos dá um filme que não é apenas uma versão feminina da trilogia protagonizada por George Clooney, apesar de usar e abusar da mesma fórmula. Ser mulher faz parte do plano: "Se for ELE, é notado. Se for ELA, é ignorada. E pela primeira vez, queremos ser ignoradas", diz Debbie às suas companheiras.
Nota: 8,0/ 10
2. O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017)
Um filme que traz a assinatura de Sofia Coppola a cada cena - assim, podemos resumir a essência de O estranho que nós amamos, o que é suficiente para dar motivo para este longa ser visto, considerando a sólida obra que a diretora produziu nos últimos vinte e poucos anos. Ambientado no estado da Virgínia em plena  Guerra Civil, o filme se passa num casarão onde funciona uma escola para moças, dirigida por Martha Farnsworth (Nicole Kidman); as outras ocupantes da escola são a professora Edwina (Kirsten Dunst) e cinco alunas de diferentes idades. A tediosa rotina da escola muda quando um soldado ianque (Colin Farrell) é encontrado nas proximidades da propriedade gravemente ferido e é acolhido pelas sete mulheres. A intenção inicial é salvar o militar para entregá-lo às tropas sulistas assim que ele estivesse recuperado, mas com o passar do tempo surgem desejos e interesses pelo estranho - uns inocentes, outros nem tanto. Num clima introspectivo, sóbrio e repressivo, Sofia Coppola conduz uma parábola sobre desejo e manipulação, demonstrando talento de sobra na direção - trabalho reconhecido com o Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes.
Nota: 9,5/ 10
3. Spotlight - segredos revelados (Spotlight, 2015)
O ano é 2001 e o jornal The Boston Globe tem um novo editor-chefe, Marty Baron (Liev Schreiber). Logo em seus primeiros dias após assumir o comando do jornal, Baron se interessa por uma coluna assinada pelo excêntrico advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci), a qual dizia que o arcebispo de Boston tinha conhecimento de casos de abuso sexual praticados por padres e não fazia nada a respeito - apenas mudava os padres de paróquias. Baron convoca a equipe Spotlight, especializada em jornalismo investigativo, para assumir o tema. Liderados por Walter Robinson (Michael Keaton), os jornalistas da Spotlight enfrentam a difícil tarefa de encontrar vítimas e extrair depoimentos, e o desafio ainda maior de ter conseguir provas contra membros da poderosa e influente Igreja Católica de Boston. Neste filme intenso e despretensioso, o espectador é colocado dentro da redação do jornal, nos bastidores da notícia, presenciando o difícil e minucioso trabalho do jornalismo investigativo - trazendo à lembrança filmes como o maravilhoso Todos os homens do presidente, de 1976. Spotlight venceu os Oscar de melhor filme e melhor roteiro original.
Nota: 9,5/ 10
4. Quincas Berro d'Água (2010)
Quando Quincas Berro d'Água (Paulo José), o rei dos vagabundos da Bahia, foi encontrado morto no dia do próprio aniversário, uma nuvem de tristeza pairou sobre o Pelourinho e pelos cais de Salvador. Sendo muito bem quisto pelos bêbados, prostitutas, pescadores e jogadores, sua morte pôs de luto todos os marginalizados e personagens da noite que o conheciam. A notícia da partida de Quincas promove o inusitado encontro dos dois lados de sua vida: seus amigos pobres e boêmios, que dividiram com ele os últimos anos, e a família de classe média que ele largou por não suportar mais a pacata e hipócrita vida de funcionário público e cidadão exemplar. Depois de os amigos vagabundos conseguirem se livrar dos familiares do defunto, uma série de fatos estranhos os faz acreditar que Quincas estava vivo e pregando uma peça neles. A turma então percorre as vielas e becos, por bares, terreiros de candomblé e prostíbulos, fazendo algazarra enquanto os parentes e a polícia tentam encontrá-los e sua filha Vanda (Mariana Ximenes) mergulha em lembranças da infância com o pai exemplar e sua posterior transformação em pária da família. Baseado numa das mais conhecidas novelas de Jorge Amado, o filme é fiel à obra ao retratar tão bem arquétipos da noite e dos problemas sociais da Bahia.
Nota: 9,0/ 10
5. O segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos, 2009)
Argentina, 2009. Benjamín Esposito (Ricardo Darín) é um oficial de justiça (meio delegado, meio investigador) recém aposentado que decide ocupar o tempo livre escrevendo um livro a partir das memórias de um caso marcante que ele investigara vinte e cinco anos antes. Era 1974 e a Argentina vivia sob um governo ditatorial, uma época de bastante violência, não apenas relacionada à política. O departamento de Esposito recebeu a missão de investigar o estupro seguido de morte de uma jovem; um crime bárbaro que ganhou repercussão. Durante a investigação ele conhece o marido da vítima, Ricardo (Pablo Rago), por quem desperta empatia e passa a ter uma relação cordial, chegando a prometer encontrar o culpado. A difícil missão de Esposito conta com a ajuda de seu parceiro alcoólatra Pablo Sandoval (Guillhermo Francella) e de Irene Hastings (Soledad Villamil), sua chefe imediata - por quem Esposito nutre uma paixão secreta. O filme tem o mérito de unir investigação policial, romance e análise histórica numa história muito intensa e envolvente, vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio Goya.
Nota: 10


Luís F. Passos

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Filmes pro final de semana - 09/09

1. Hoje eu quero voltar sozinho (2014)
Vamos começar com algo bem leve, bonito. Inspirado no curta-metragem Eu não quero voltar sozinho (2010), do mesmo diretor, o filme é centrado em Leonardo, jovem cego que convive com o bullying e a distância dos colegas de classe, contando com a amizade de apenas uma delas, Giovana. A chegada de um novo aluno, Gabriel, é o ponto de partida pra um processo de mudança, em que Leonardo toma consciência de sua sexualidade e passa a desejar a superação de barreiras que lhe são impostas devido a sua deficiência visual. O resultado é um filme muito bacana e sensível, reconhecido até no Festival de Berlim.
Nota: 8,0/ 10
2. Tudo pelo poder (The Ides of March, 2011)
Sou muito fã deste que é o quarto filme dirigido por George Clooney. Ambientado no famigerado e complexo sistema político estadunidense, Tudo pelo poder acompanha a pré-candidatura do governador Mike Morris à presidência dos Estados Unidos, mais exatamente os bastidores da campanha, onde trabalham o coordenador Paul Zara (Philip Seymour-Hoffman) e seu subordinado, o idealista diretor de comunicação Stephen Myers (Ryan Gosling). Stephen acredita na retidão de seu candidato, mas vai descobrir que não há espaço para inocência no cenário político. Às vésperas das primárias de Iowa, primeiro e mais importante passo da corrida presidencial, descobertas feitas por Stephen provocarão reviravoltas na equipe de campanha e nele mesmo - afinal, o jogo não é para amadores.
Nota: 9,5/ 10
3. Histórias cruzadas (The Help, 2011)
Um dos mais queridos filmes da corrida ao Oscar de seu ano, Histórias Cruzadas traz o a questão racial na época da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos nos anos 60. Aibileen (Viola Davis) é a empregada da família de Elizabeth Leefolt, que teve depressão pós-parto e por isso deixou a criação da filha a cargo da empregada. Além do serviço pesado e da discriminação racial, Aibileen sofre a dor da perda de um filho que faleceu num acidente de trabalho. Sua melhor amiga é Minny (Octavia Spencer), empregada da família Holbrook, que tem como patroas uma senhora gentil e sua filha mimada e racista. Paralelo a elas, retorna à cidade a jovem Skeeter Phelan (Emma Stone), recém saída da faculdade e idealista, que ao perceber o drama das empregadas negras na cidade e motivada por uma ideia absurda de Hilly Holbrook decide escrever um livro com histórias contadas pelas empregadas. Skeeter se torna amiga de Aibileen e Minny, que serão suas maiores parceiras no desafio de reunir as outras domésticas negras da cidade. A bela história de luta (sim, por mais que não seja tão profunda) é contada de maneira leve, tem seus ótimos momentos de humor e também um lado mais emotivo. O grande mérito do filme está no elenco, liderado pela excepcional Viola Davis (indicada ao Oscar de melhor atriz) e pela igualmente talentosa Octavia Spencer (vencedora do Oscar de atriz coadjuvante).
Nota: 8,5/ 10
4. Um divã para dois (Hope Springs, 2012) 
A atriz mais amada dos Estados Unidos num filme feito para as senhoras que já passaram da meia-idade. Meryl Streep é Kay, dona de casa que depois de trinta anos de casamento com Arnold (Tommy Lee Jones) se vê preocupada por seu casamento estar numa permanente e fatal zona de conforto. Os filhos já estão criados e já saíram de casa, Arnold ainda trabalha como contador e ela cuida da casa. Dormem em quartos separados e há algum tempo já não sabem o que é o contato mais íntimo. Insatisfeita com a situação, ela junta as economias para pagar uma viagem ao Maine, onde se consultarão com um terapeuta. Esta agradável comédia romântica da melhor idade tem em Meryl Streep seu maior trunfo: nenhuma outra atriz seria tão perfeita para o papel já que além do talento que não é novidade, Meryl já interpretou outras mulheres com problemas conjugais em filmes muito populares, como As pontes de Madison.
Nota: 7,5/ 10
5. Rebecca, a mulher inesquecível (Rebecca, 1940)
Sim, essa é uma das mais ridículas adaptações de filmes estrangeiros. De um simples Rebecca,o clássico de Htichcock ganha um título de filme pornô. Mas vamos à história: Joan Fontaine dá vida a uma jovem que conhece o viúvo e milionário Maximillian de Winter (Laurence Olivier) e depois de um namoro breve, casa-se com ele. O conto de fadas começa a mudar quando eles vão morar juntos em Manderley, a imponente mansão à beira mar do ricaço. A governanta, sra Denvers, não demonstra nenhuma simpatia pela patroa, além de exibir a adoração pela falecida dona da casa, Rebecca. As visitas constantes do primo de Rebecca, Jack, também incomodam a jovem recém casada. A pressão dentro da casa e alguns fatos estranhos tornam o ambiente cada vez mais tenso, e a presença de Rebecca passa a assombrar a personagem de Fontaine - fenômeno paranormal, paranoia ou conspiração de inimigos? É o que Hitchcock revela aos poucos, neste seu inesquecível primeiro filme realizado nos Estados Unidos - e ÚNICO a ganhar Oscar de melhor filme. Como não era produtor, não teve seu nome na estatueta. Infelizmente, o Oscar que Hithcock ganhou foi honorário, no fim de sua carreira.
Nota: 9,5/ 10

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Filmes pro final de semana - 01/08

1. O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 2013)
Love is blindness. A nova adaptação do imortal romance de Scott Fitzgerald (há três anteriores, senso a mais conhecida a dos anos 70 dirigida por Coppola) há muito era aguardada, e foi lançada em maio do ano passado em Cannes. Como não era de se estranhar, o diretor Baz Luhrmann usou e abusou da extravagância para contar a história do misterioso e extravagante Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), a partir da narração de seu vizinho Nick Carraway (Tobey Maguire). Morando em um verdadeiro palácio em Long Island, Gatsby é quase uma lenda viva, um desafio à imaginação de suas centenas de convidados que todas as semanas lotam sua mansão em festas inacreditáveis regadas a rios de bebidas alcoólicas - isso em plena época da Proibição. Mas por trás da ostentação e futilidade, lembranças do passado que envolvem a linda prima de Nick, Daisy (Carrey Mulligan). O filme peca pelo excesso e é mais uma tentativa de chegar à profundidade do livro que não dá certo, mas não deixa de ser uma boa opção.
Nota: 8,5/ 10
2. Drive (2011)
Drive é uma fábula moderna de ação, suspense e romance, guiados por uma direção aguçada e atores muito competentes. O filme centra-se na relação entre um homem misterioso, o qual nem sabemos o nome, interpretado por Ryan Gosling , que se encontra perdidamente apaixonado por sua jovem vizinha de modo a se dispor a protegê-la de todos os perigos que a envolvem, relacionados a seu marido recém saído da prisão e da máfia que os cercam. Tecnicamente falando, Drive é impecável. A fotografia é belíssima e acompanha as grandes mudanças de tom pelas quais o filme passa. Se num primeiro momento tudo é a magia da descoberta do amor, com paisagens bucólicas e ensolaradas ao entardecer, a metade final é negra, escura, sórdida e violenta. A violência é elevada aos limites conforme o conto torna-se cada vez mais perigoso e envolvente. A relação amorosa entre Ryan Gosling e Carey Mulligan é de uma pureza e uma sensibilidade que contrasta a todo o momento com o extremismo da violência onde aqueles personagens se encontram, tendo este antagonismo alcançado o ápice na já clássica cena do elevador. É quase um conto de fadas na verdade, onde um “príncipe encantado” luta a qualquer preço para defender sua “donzela” em perigo. A diferença é que no lugar de uma armadura de metal temos uma jaqueta prateada e em vez de cavalos brancos, carros envenenados dispostos a intensas cenas de perseguições. Méritos também para a trilha sonora.
Nota: 10
3. Não se preocupe, estou bem! (Je vais bien, ne t'en fais pas, 2006)
Filme simples pelo qual até hoje tenho um especial carinho. Quando Lili (Mélanie Laurant) volta de um curto intercâmbio na Espanha, descobre que seu irmão gêmeo, a quem é muito apegada, fugiu de casa. Aparentemente, por causa de uma séria briga com o pai. Preocupada com a falta de notícias e com a saudade apertando, Lili fica sem comer, adoece e acaba internada num hospital. É a súbita chegada de cartões postais do irmão, cada vez de uma cidade diferente, que dá ânimos à garota e a faz retomar a vida aos poucos, com ajuda dos amigos. Um filme sobre família e autoconhecimento que é coroado pela ótima trilha sonora.
Nota: 8,5/ 10
4. A Escolha de Sofia (Sophie's Choice, 1982)
Pobre, pobre Sofia (Meryl Streep). Até hoje me pergunto quais outras personagens em filmes sofreram mais ou tanto quanto a imigrante polonesa que mora no Estados Unidos e facilmente demonstra que há algo de muito perturbador em seu passado - o que exatamente, só é revelado no fim do filme. A mágoa de Sofia aparenta ser imensa e é difícil de ser escondida. O que é sabido é que ela fora prisioneira num campo de concentração nazista, mas seria o trauma vivido o motivo de tamanha tristeza? Coube a Meryl Streep a interpretação que se tornou ícone entre as vencedoras do Oscar de melhor atriz, pra mim um dos mais merecidos da premiação.
Nota: 8,5/ 10
5. Psicose (Psycho, 1960)
Quando Marion Craine (Janet Leigh) rouba uma fortuna de seu patrão e foge em direção à Califórnia, não poderia imaginar o peso de seus atos ao seu futuro - ou o efeito de tal ação ao cinema mundial. Mesmo com um orçamento limitado e diversas adversidades, Alfred Hitchcock conseguiu fazer de Psicose seu mais bem sucedido filme, chocando plateias onde era exibido ao mostrar uma violência praticamente inédita e os lobos em peles de cordeiro que estão em todo lugar. A parada de Marion num motel de beira de estrada, seu breve contato com o dono do lugar, Norman Bates e seu repentino e sangrento assassinato inauguraram uma nova era no terror, mostrando o homem tão cruel quanto qualquer fera sobrenatural.
Nota: 10

sábado, 2 de novembro de 2013

Filmes pro final de semana - 01/11

 1. Disque M para matar (Dial M for murder, 1954)
Ray Milland, grande ator do cinema clássico e vencedor do Oscar de melhor ator por Farrapo humano (1945) vive aqui um ex-tenista chamado Tony Wendice, um cara cujo dinheiro se foi há algum tempo junto com a carreira no esporte. O alto padrão que ele ostenta é patrocinado por sua bela esposa Margot (ninguém menos que Grace Kelly), mas o casamento dos dois não vai bem e ele descobre que ela pretende deixá-lo para viver com um amante. Para não perder a boa vida - aliás, melhorar a vida financeira - Tony decide matar a esposa e ficar com todo seu dinheiro. Contrata um amigo para matá-la, mas o tiro sai pela culatra e no momento de desespero, Margot reage e mata o criminoso. Final feliz? Calma, nem chegamos à metade do filme. Tony elabora rapidamente um plano B e... só assistindo pra saber. Hitchcock, do jeito que só ele sabia fazer, conduz cenas muito tensas segurando os mistérios da macabra trama do marido ambicioso. Show de direção.
Nota: 9,0/ 10
2. Namorados para sempre (Blue Valentine, 2010)
Malditos tradutores. Malditos. Transformar o título de um sério e triste drama num título de filme adaptação de Nicholas Spark é o fim. Isso porque Namorados para sempre não é, nem de longe, uma história de amor em que todos serão felizes para sempre e blablablá. O que temos aqui é o registro do fim de um casamento, mostrando desde o começo do namoro até o início da ruína do relacionamento. Cindy (Michelle Williams) trabalha num hospital, tem um emprego estável e com chances de crescimento, enquanto Dean (Ryan Gosling) está desempregado e faz bicos - um dos motivos do desgaste da relação. Muitas cenas são ambientadas num motel, para onde eles vão no dia dos namorados para tentar salvar o casamento, mas lá se demonstra ao máximo o quanto tudo está perdido; são momentos de muita tensão em que se vê o grande talento de dois jovens atores, alguns dos maiores nomes dessa nova geração.
Nota: 9,5/ 10
3. Tootsie (1982)
Michael Dorsey (Dustin Hoffman) é um ator perfeccionista, muito talentoso, mas que há algum tempo está fora dos holofotes. Desesperado por emprego, Michael se veste de mulher e tenta um papel numa novela. De vestido, peruca e maquiagem ele se transforma em Dorothy Michaels... e consegue o papel! Chega no estúdio, começa a gravar e simplesmente ignora o roteiro e inventa falas dando opinião sobre tudo, transformando a personagem secundária no maior sucesso da novela e seu alter-ego artístico numa mulher símbolo da geração dos anos 80. O desafio de esconder a verdade se torna muito pior por causa do sucesso de Dorothy e pela atração que ele sente por uma colega, Julie (Jessica Lange), a qual sente profunda amizade e admiração por Dorothy. Tootsie marcou época por dar início a uma sucessão de filmes que propunham a troca de lugar com outra pessoa para entender as dificuldades e passar a simpatizar com ela - no caso, com o sexo feminino. Além disso, o filme inova por dar destaque a atuações e elementos secundários e alusões pop, tendo também curtas e rápidas sequências que conduzem muito bem a história até o fim.
Nota: 9,0/ 10
4. Preciosa - uma história de esperança (Precious, 2009)
Harlem, NY, década de 80.  Claireece Jones (Gabourey Sidibe), mais conhecida como Preciosa, é um poço de problemas. Com apenas 16 anos, a menina carrega o trauma de ser estuprada pelo pai, estar grávida do segundo filho dele, ser soropositiva, obesa, negra, e ter uma mãe (Mo'Nique) pra madrasta de Cinderela nenhuma botar defeito. A cereja em cima desse bolo de desgraças é o fato da coitada ser analfabeta. Apesar de tudo, ela não deixa de sonhar e às vezes se imagina rica, magra, famosa e desejada, mas isso não parece nada além de um sonho impossível. Felizmente Preciosa encontra em seu caminho algumas pessoas decentes, como sua professora miss Rain (Paula Patton), a assistente social sra Weiss (Mariah Carey) e o enfermeiro do hospital em que tem seu segundo filho, John (Lenny Kravitz). Como diz o título nacional, apesar dos pesares, é um título de esperança.
Nota:  9,0/ 10

5. Cantando na chuva (Singin'in the rain, 1952)
A não ser que você seja um alienígena nascido e criado em Saturno que chegou recentemente à Terra, você deve conhecer a cena em que Gene Kelly canta e sapateia por uma rua enquanto uma chuva cai sem piedade. A tão famosa cena, em que a personagem de Kelly, o ator Don Lockwood mal cabe em si de tanta felicidade e dá um show na chuva, resume bem o espírito do filme: um tributo à alegria. Sim, o filme é feliz demais, tanto que às vezes você pensa: tomara que aconteça uma desgraça! A feliz história se passa em 1927, quando a Warner lança O cantor de jazz e dá início à era do cinema falado e mudando a indústria cinematográfica. Don e sua desagradável parceira Lina Lamont (Jean Hagen) são os rostos mais queridos do cinema mudo e precisam se adaptar à nova realidade de Hollywood, sempre com a ajuda do amigo de infância de Don, Cosmo Brown (Donald O'Connor) e pra balançar o mundo deles, a chegada da jovem corista Kathy Selden (Debbie Reynolds), que sonha em ser atriz e mostra ter muito mais talento que figuras como Lina. Um clássico inesquecível - você pode até esquecer da história, mas não das músicas grudentas.
Nota: 10

Luís F. Passos

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Top 30: filmes preferidos - Lucas (3)

10. Os bons companheiros (Goodfellas, 1990)
Direção: Martin Scorsese
Com: Robert De Niro, Ray Liotta, Joe Pesci, Paul Sorvino e Lorraine Bracco
A escória da máfia. Ao mundo que antes havia idolatrado o alto escalão dos mafiosos ítalo-americanos apresentados pela trilogia de Coppola, Scorsese nos mostra o baixo escalão desta mesma instituição, dando um novo ponto de vista de algo já muito familiar. Os bons companheiros desenvolve-se na relação entre Henry Hill (Ray Liotta) e sua vida na máfia. Uma vida toda preparada para fazer parte disto, algo que sempre foi julgado como algo maior. No meio da confusão e da pobreza dos bairros suburbanos violentos, ser da máfia representava ser alguém. Scorsese desenvolve desta forma, a ascensão de Henry para a máfia e como ele construiu destruir-se totalmente uma vez tendo abusado de todos os privilégios e riqueza que lhe beneficiaram e ultrapassado qualquer limite e senso de moralidade. Violento do começo ao fim, Os bons companheiros é ironicamente cômico. Situações absurdas acontecem o tempo todo e risos são inevitáveis. O desenrolar da trama segue uma sequência não muito imprevisível, mas muito interessante de ser acompanhada. Representa, também, a terceira derrota mais amarga de Scorsese ao Oscar de direção. Afinal, temos aqui o terceiro melhor filme do diretor, perdendo apenas para Taxi Driver e Touro indomável.


9. Psicose (Psycho, 1960)
Direção: Alfred Hitchcock
Com: Anthony Perkins, Janet Leigh,
O filme mais reconhecido de Alfred Hitchcock. Apesar de Um corpo que cai ter sido escolhido ano passado como o melhor filme de todos os tempos pela revista Sight and sound, Psicose é o trabalho mais popular e perturbador do diretor. Hitchcock se dispôs a assumir um risco pessoal altíssimo ao decidir trabalhar com uma história tão sórdida, violenta e desagradável quanto à de Psicose. Afinal, nunca antes na história do cinema um monstro era alguém de carne osso, um ser humano aparentemente comum e normal que sai de sua banalidade e se transforma no maior psicopata da história do cinema. O choque das plateias de 1960 era algo inevitável, mas dificilmente foi imaginado que o filme tomaria a proporção que adquiriu. Enredo inovador, temática assustadora, técnica perfeita. Estas são as três principais marcas de Psicose. A cena do chuveiro é um ícone. A trilha sonora, inesquecível. Matar a protagonista antes da metade do filme? Pura ousadia. E as reviravoltas? Uma melhor que a outra, mais intensa que a anterior. Ainda se dispõe a análise da mente perturbada do assassino, a qual não é totalmente elucidada, permanecendo, assim um ar de mistério que é muito importante para manter o clima do filme. Norman Bates virou uma lenda e o momento mais arriscado da carreira de Hitchcock tornou-se sua maior consagração. Filme indispensável.

8. Persona (1966)
Direção: Ingmar Bergman
Com: Bibi Andersson, Liv Ullman
Uma experiência cinematográfica sem igual, Persona é, para mim, o melhor trabalho de Ingmar Bergman e o melhor filme europeu. Em pouco mais de 90 minutos, Bergman nos mostra quase totalmente através de imagens a complexa relação entre duas personagens, uma enfermeira e uma paciente, que num curto espaço de tempo criam uma forte conexão e passam por um processo simbiótico de personalidades, onde é impossível determinar onde a mente de uma começa e a da outra termina. A noção de individualidade é totalmente perdida e o que vemos é, literalmente (quem viu sabe o porquê do literalmente) a fusão de duas pessoas. Conforme o filme avança, as duas mulheres vão se despindo de todos os artifícios sociais e vão mostrando todos seus defeitos, medos, arrependimentos. A máscara, a persona, que usam cai e só sobram a verdadeira Alma (a enfermeira, interpretada por Bibi Anderson) e Elisabeth Vogler (a paciente, uma atriz vivida por Liv Ullman). Com sua temática complexa e psicológica, Persona não se importa muito com se fazer entender. O prólogo inicial são apenas imagens aparentemente desconexas que o próprio diretor chamou de “poema visual”. O visual é o forte de Persona. A fotografia é a alma do filme. Não se importe em entender absolutamente tudo que está se passando, apenas aproveite o que pode ser absorvido e questione-se pelo que não é totalmente elucidado.

7. O poderoso chefão, pt 2 (The Godfather II, 1974)
Direção: Francis Ford Coppola
Com: Al Pacino, Robert De Niro, Robert Duvall, Diane Keaton, Talia Shire, John Cazale e Lee Strasberg.
Raramente uma continuação é boa. Mais raramente ainda uma continuação consegue ser tão boa quanto, para alguns até melhor, que seu filme de origem. O exemplo maior desta raridade é O poderoso chefão pt 2, que consegue se igualar ao primeiro capítulo da trilogia e, em alguns aspectos, até superá-lo. É de fato conhecido que em O poderoso chefão pt 2 Coppola conseguiu ter uma liberdade de criação bem maior que no primeiro filme, o que facilitou o processo e tornou o filme ainda mais pessoal. Neste capítulo, já temos Michael Corleone (Al Pacino) definido em sua posição de chefe da máfia e da família Corleone. Então, vamos acompanhar sua trajetória, passando também por contextos históricos que servem como um interessante acessório para a narrativa.  A personagem de Michael vai se transformando ao longo do filme, mostrando novas faces que não haviam sido apresentadas no filme anterior. Aqui também é mostrada a juventude de Don Vito, desde sua saída da vida de pobreza na Itália a sua estabilização na sociedade ítalo-americana dos bairros suburbanos de Nova York. A cargo da caracterização da juventude de uma personagem já imortalizada pelo trabalho de Marlon Brando, está Robert De Niro, no primeiro dos maiores trabalhos de sua carreira.

6. O poderoso chefão (The Godfather, 1972)
Direção: Frances Ford Coppola
Com: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale
O primeiro capítulo da trilogia de mafiosos é um filme inesquecível. Mais que tecnicamente falando, é um dos filmes mais estilosos que existe. Aqui nos é apresentada a família Corleone, liderada pelo Don Vito (Marlon Brando), uma das principais famílias de mafiosos da cidade de Nova York, homens tão charmosos quanto perigosos, capazes de fazer tudo para cuidar de seus protegidos, mas que também não demonstram qualquer tipo de piedade em destruir inimigos. O filme apresenta traços de cinema noir e de drama, tendo este um centro muito fundamentado na própria relação familiar estranhamente próxima em que a família é mostrada como o bem maior que se pode ter como também pela dualidade entre Don Vito e seu filho Michael (Al Pacino), que num primeiro momento não se apresenta adequado a ocupar a posição do pai, mas que, aos poucos, vai se transformando. A interpretação de Marlon Brando é icônica e Al Pacino mostrou-se um dos maiores atores do cinema americano do dia para a noite. A mágica de assistir O poderoso chefão permanece inabalável já há mais de 40 anos. Assisti-lo ainda é uma oferta irrecusável.

5. Chinatown (1974)
Direção: Roman Polanski
Com: Jack Nicholson, Faye Dunaway, Diane Ladd, Roman Polanski, John Houston
Dentre os filmes do meu top 10, provavelmente Chinatown é o menos cultuado e simplesmente não sei por quê. Afinal, temos aqui um dos maiores filmes dos anos 70 e isto não é pouca coisa. A maior obra-prima de Polanski (sim, estou colocando-o acima de Repulsa ao sexo e O bebê de Rosemary) é uma repaginada no gênero antigo do cinema noir. O cinema noir, basicamente falando, é um estilo imortalizado pela figura de um investigador que se envolve em algum crime, geralmente relacionado a uma femme fatale, e conforme a história se desenvolve vamos tendo noção da profundidade dos problemas, da tortuosidade das tramas e de que as aparências, como sempre, enganam. Esta definição simples pode muito bem ser aplicada ao cerne de Chinatown, mas o filme vai muito além. O detetive J. J. Guittes de Jack Nicholson é contratado por uma rica femme fatale para investigar uma suspeita de adultério por parte de seu marido. Um caso aparentemente fácil de resolver acaba transformando-se numa história de grande abrangência, com incontáveis reviravoltas capazes de intrigar o espectador do começo ao fim do filme. Grande parte dos mistérios envolve a Sra. Murray (Faye Dunaway), uma mulher misteriosa e extremamente sensual, que guarda segredos inimagináveis que realmente chocam nossa mente ingênua de simples observador. A sujeira, a podridão e a amoralidade que cercam as personagens de Chinatown convergem todas para um legítimo gran finale, que se passa justamente no bairro chinês de mesmo nome. Um bairro que assombra Guittes desde seus tempos como policial da Polícia de Los Angeles e que remete a mais pura incapacidade. Um lugar onde nem tudo é o que realmente aparenta ser e onde tudo foge de nosso controle, sendo sintetizado por uma frase curta e grossa: “Esqueça, Jake. É Chinatown”. O maior problema de Chinatown é ter caído justamente no mesmo ano de O Poderoso chefão pt2. Desta forma, foi massacrado no Oscar e deixado quase em segundo plano. Mesmo assim, ainda arrebatou o prêmio de melhor roteiro e, para os bons fãs de cinema, é uma oferta tão irrecusável quanto.

4. Taxi driver (1976)
Direção: Martin Scorsese
Com: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepperd, Harvey Keitel
Se Woody Allen romantiza a cidade de Nova York em seus filmes, Scorsese está mais que satisfeito em mostrá-la como o retrato de toda a imundície humana. E assim o faz. Nos diversos retratos da cidade que aparecem em seu filme, nenhum se compara ao mostrado em Taxi driver. Aqui, a cidade é mostrada como um verdadeiro inferno de ruas lotadas de marginais, viciados, criminosos e prostitutas que vagam na noite como zumbis sem qualquer tipo de propósito. Uma cidade dominada pela mais pura sujeira moral, uma imundície que só uma chuva de verdade poderia varrer das ruas. É nesse cenário que fervilha a mente instável de Travis Brickle (Robert De Niro), mergulhada em insônia, solidão e obsessão. Travis é a representação mais clássica possível de um anti-herói. Uma protagonista que simplesmente não conhece ou impõe qualquer tipo de valor moral e funciona exclusivamente em função de seus desejos obscuros. Sua maior ambição: transformar a cidade. Limpá-la, melhor dizendo. Para isso, tenta de diversas formas interagir com a sociedade que uma vez o isolou. Estas tentativas são as mais infrutíferas possíveis, tratando-se de alguém que pouco sabe de qualquer tipo de interação social e, conforme a história vai avançando, Travis vai se transformando. Neste caminho, envolve-se com uma bela funcionária de campanha política (Cybill Shepperd) e uma jovem prostituta que não quer ser salva (Jodie Foster), os grandes alvos de sua loucura e obsessão. O final, um dos melhores do cinema, ainda reserva um bom questionamento: quais são os limites entre o herói e o vilão? A resposta cabe a cada um.


3. Touro indomável (Raging Bull, 1980)
Direção: Martin Scorsese
Com: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci
De todos os muitos – muitos mesmo – filmes americanos que abordam o boxe como plano de fundo ou até mesmo personagem, Touro indomável de Scorsese é de longe o melhor. Sua beleza estética e sua perfeição técnica o elevam da categoria dos filmes “comuns” e o colocam na posição dos maiores clássicos do cinema mundial. Já se passaram três décadas e a qualidade artística de Touro indomável não diminui nem um pouco. Numa era em que os protagonistas eram simbolizados pela figura do anti-herói, Scorsese brinda o cinema com um dos maiores destes. Um homem agressivo e violento que não consegue exprimir suas emoções e suas insatisfações através de palavras, usando, para tal, os próprios punhos. O filme acompanha a vida do boxeador Jake La Mota (Robert De Niro), sua escalada para o sucesso e seu declínio para o fracasso, numa descida pontuada por erros em simplesmente todas as áreas de sua vida, sem que em nenhum momento ele aprendesse com esses erros. La Mota não se torna uma pessoa melhor e o filme não caminha para um final feliz de qualquer maneira. Aliás, a obra poética de Scorsese tem um caráter praticamente documental. Afinal, Jake La Mota é uma figura lendária e real do mundo do boxe. O preto e branco da fotografia torna-o ainda mais interessante visualmente, e recursos como as mudanças de nuances na imagem conforme as circunstâncias vividas dentro dos ringues realmente ativam os sentidos. No auge de uma grande obra-prima, o melhor trabalho de um grande ator. Aqui De Niro desenvolve uma das melhores personagens masculinas da história do cinema. Uma interpretação vencedora do Oscar de melhor ator e que é categorizada por todos que já assistiram Touro indomável como uma das melhores de todos os tempos.


2. Apocalypse now (1979)
Direção: Francis Ford Coppola
Com: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall e Dennis Hooper
De todos os filmes americanos sobre guerras nenhum é tão forte e visceral quanto a obra-prima de Coppola, Apocalyse Now. Dentre a amplitude de filmes que retratam ou se baseiam na Guerra de Vietnã nenhum conseguiu captar a áurea quase mística de insanidade física e mental quanto este aqui. Apocalypse Now retrata não apenas os horrores da guerra, mas principalmente a forma como esta se manifesta na deterioração da alma do homem. Um estudo complexo sobre a forma como a mentalidade dos indivíduos definha em meio às manifestações do mais puro horror. O filme tem uma áurea quase mística e retrata a trágica e perigosa jornada de um soldado americano (Martin Sheen) pelo coração das trevas e pela alma da guerra, em caminhos e viagens longas e insuportáveis pela selva que nos mostra as diversas atrocidades cometidas neste tipo de situação. A viagem dos soldados tem um destino final. Seu objetivo é alcançar e deter um antigo oficial do exército americano que tornou-se líder de um culto secreto no meio da floresta. A interpretação deste líder é garantida pela presença marcante de um transformado e amedrontador Marlon Brando. Apocalypse Now foi realizado no fim dos anos 70, mantendo uma conexão direta com as características de choque e pessimismo tão vigentes no cinema da época. Sua derrota ao Oscar de melhor filme também pode ser percebida como um dos maiores indícios do declínio daquela geração cinematográfica, mas isso não tem grandes implicações. Afinal, temos aqui não apenas o melhor filme de guerra como também um dos maiores filmes da história. A quantidade técnica, de atuação, de direção e de roteiro são magnéticas e assistir Apocalyse Now é uma experiência cinematográfica o mais intenso o possível. Um filme que pode não agradar a todos, mas que é inegavelmente inesquecível.

1. Annie Hall (1977)
Direção: Woody Allen
Com: Diane Keaton, Woody Allen, Tony Roberts, Carol Kane e Shelley Duvall
Considero Annie Hall um dos filmes mais importantes de minha vida. Afinal, o vi pela primeira vez quando ainda começa a me interessar mais por cinema e tê-lo visto foi um fator decisivo para continuar me interessando cada vez mais por ele. Alem disso, trata-se do melhor e mais consistente filme de Woody Allen. A história simples sobre o amor e sobre a inexplicável importância que este possui na vida das pessoas tornou-se uma das comédias mais importantes da história do cinema americano, tendo sido responsável por uma verdadeira revolução na maneira de se fazer comédia romântica. O trabalho ácido, irônico e altamente romântico do comediante Woody Allen é uma grande declaração de amor, não apenas a sua companheira (na época eram apenas amigos) Diane Keaton – a qual baseou a personagem título – como também ao cinema, a cultura e a cidade de Nova York. Os elementos técnicos de Annie Hall também foram inovadores e recursos que viriam a se tornar comuns nas comédias românticas foram inicialmente implantados aqui.  Muitos fatores presentes em filmes modernos como por exemplo 500 dias com ela tem a assinatura inegável da influência de Annie Hall. Também funciona como uma análise comportamental do homem moderno e de todas as neuroses que vêm acompanhadas pelo complicado e tenso estilo de vida vigente. As interpretações de Woody Allen e Diane Keaton são muito divertidas de se assistir e a parceria dos dois, com certeza, é uma das melhores e mais produtivas do cinema. Particularmente, tenho um grande interesse particular por este filme, tanto que já o vi mais de 10 vezes. Deixo aqui, dentre estas 30 recomendações, uma dica especial com relação a ele. Garanto que o divertimento é inevitável.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Um corpo que cai - vertigem, amor e obsessão

Ao contrário de Janela indiscreta (1954) ou Psicose (1960), filmes que obtiveram imenso reconhecimento junto ao grande público, Um corpo que cai (Vertigo, 1958) não obteve boa bilheteria e ainda foi esmagado pela crítica. Na época foi considerado muito complexo e sustentado em planos diabólicos quase impossíveis - como isso não fosse o seu grande diferencial. Por um lado, não é de se estranhar a rejeição ao filme, já que se trata de um suspense um tanto longe do convencional; mas eu não vejo o motivo que leve alguém a não se envolver com um clima de mistério de tão elevada qualidade.
A excelente abertura  começa com um close num rosto feminino: primeiro o queixo, depois o meio, por fim os olhos, em que aparece o título Vertigo e espirais numa sequência de efeitos especiais inovadores para a época; espirais estas que acompanham o problema do protagonista do filme, o detetive Scottie (James Stewart, parceria recorrente de Hitchcock), que sofre de vertigem.  Na primeira cena vemos Scottie, então policial, numa perseguição a um criminoso por telhados de prédios de San Francisco, quando ele escorrega e fica pendurado numa calha, daí um colega tenta ajudá-lo, cai e morre. O acidente traumatiza Scottie e o leva a se aposentar da polícia e se ocupar como detetive particular.
Algum tempo depois Scottie é contratado por um colega de muitos anos atrás para seguir sua esposa, que segundo ele vinha apresentando um comportamento muito estranho, e ele chegou a desconfiar que ela estava possuída pelo fantasma de sua bisavó, com quem tinha uma impressionante semelhança física. O detetive então passa a investigar a linda e elegante Madeleine (Kim Novak, que se tornou uma das mais lindas loiras Hitchcock), que realmente era idêntica a sua antepassada, e parecia estar em outro mundo: ia a vários lugares apenas para fixar o olhar no vazio ou andar em círculos. Durante todo o tempo em que é seguida, a moça não pronuncia uma só palavra, e só ouvimos sua voz aos quarenta e cinco minutos de filme. Toda esta primeira parte é marcada pelo suspense tão primoroso de Hitchcock, que aqui beira o sobrenatural. O espectador se vê diante de uma incógnita assim como Scottie. E quando parece que a investigação tomará algum rumo, nos deparamos com uma das melhores e mais radicais reviravoltas do cinema, que põe fim à primeira parte.
A partir da metade do filme, Hitchcock passa a explorar mais a fundo a mente de Scottie, suas manias, neuroses e obsessões. Não posso falar mais nada sobre o enredo, pois fazer spoiller de Um corpo que cai é estragar as surpresas garantidas por um dos melhores filmes de todos os tempos, mas me permito dizer que quando a história parece estável e nos arriscamos a prever o final, o mestre do suspense novamente surpreende, mudando bruscamente o destino das personagens. Repito: não sei onde as pessoas da época viram defeitos nesse filme. Antes de mais nada, Um corpo que cai é marcado pelo perfeccionismo de seu diretor, afinal, Hitchcock podia não ser um maníaco como Kubrick (que chegou a fazer 140 tomadas da mesma cena em O iluminado), mas também era muito rigoroso com a técnica. Dá pra perceber isso na abertura, no delicado clima sobrenatural da primeira parte, no jogo de cores usado para relacionar cenas da primeira metade com a segunda e na bela fotografia em cores. Grande destaque para dois colabores assíduos de Hitchcock: a estilista Edith Head, que assina as lindas roupas usadas por Kim Novak, e o compositor Bernard Herrman, cuja música é elemento chave para o clima de suspense de todo o filme, e que não deve nada para a música de Psicose, também composta por ele. Se a música do filme de 1960 é perfeita para o terror dos violentos assassinatos do Bates Motel, a de Vertigo é perfeita para a permanente tensão diante dos mistérios que Scottie tenta desvendar.
O que mais posso falar? Que este é um filme envolvente, maravilhoso, perturbador, friamente romântico e capaz de ser interpretado de tantas outras formas. É daqueles que basta assistir uma vez para entrar na lista de preferidos - o que aconteceu comigo. E apesar da rejeição enfrentada há cinquenta e cinco anos atrás, a partir dos anos 80 Vertigo foi ganhando espaço junto à crítica, e ganhou tal fôlego que ano passado subiu para o primeiro lugar na lista de melhores filmes da Sight and Sound, tirando Cidadão Kane de um lugar que fora dele desde a primeira edição da lista, em 1962. E mesmo sendo grande fã dessa obra prima, tenho minhas dúvidas se ela merece ocupar tal posição. De todo jeito, é um filme obrigatório para cinéfilos e uma ótima experiência que só gênios do quilate de Alfred Hitchcok poderiam produzir.

Nota: 10

Leia também:
Interlúdio
Psicose
Sombra de uma dúvida

Luís F. Passos

domingo, 7 de julho de 2013

Top 30: Filmes preferidos - Luís (2)

20. Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959)
Direção: François Truffaut. Com Jean-Piere Léaud.
Gosto de Nouvelle vague. De seus filmes e principalmente da revolução que ela espalhou pelo mundo cinematográfico. E se olharmos para o início de tudo, vemos Truffaut e seu excelente filme de estreia, Os incompreendidos, que deu a ele o Prêmio de direção em Cannes. Início de uma longa e muito produtiva parceria com Jean-Pierre Léaud, o filme traz o jovem ator como Antoine Doinel, garoto parisiense esnobado pela família, desacreditado pelos professores e que se vê totalmente desajustado às instituições tradicionais. Antoine para de ir às aulas, foge de casa e é mandado para um internato. Fica a dúvida de quão autobiográfica é a personagem, já que é sabido que muitos dos atos de Antoine são inspirados em episódios da juventude do próprio Truffaut.

19. Tempos Modernos (Modern Times, 1936)
Direção (e roteiro e música): Charles Chaplin. Com: Charles Chaplin, Paulette Goddard e Henry Bergman.
Unanimidade entre professores de história, Tempos Modernos é o mais conhecido e um dos melhores filmes de Chaplin. Interpretando mais uma vez seu carismático vagabundo, Chaplin mostra o dilema de trabalhar em fábricas segundo o modelo fordista, em que surge a linha de produção e o operário se aliena do processo geral de produção, tendo apenas uma função; a de Carlitos era apertar parafusos - que Chaplin satiriza ao mostrar que ele não conseguia parar de mover os braços depois de horas repetindo o movimento. Após um surto psicótico, Carlitos se vê desempregado e conhece uma órfã que também era vítima do mundo automatizado; juntos eles tentam sobreviver à miséria e a todos os problemas causados pela Depressão econômica. A principal crítica aqui é à automação da indústria. Segundo Chaplin, máquinas deveriam ajudar os trabalhadores, e não lhes roubar o emprego.

18. Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950)
Direção: Billy Wilder. Com Gloria Swanson, William Holden, Erich von Strohein e Nancy Olson.
Eu já estava cansado de ouvir que Billy Wilder fora um dos melhores roteiristas de Hollywood. Seja em dramas tensos como Farrapo humano ou comédias engraçadísimas como Quanto mais quente melhor, roteiro bem estruturado e diálogos sagazes eram marca registrada de Wilder. E quando eu vi Crepúsculo dos deuses, vi que todo e qualquer elogio aos roteiros do cara ainda são poucos.
Joe Jills (Holden) é um roteirista desempregado e endividado que acaba se refugiando na mansão da outrora estrela Norma Desmond (Swanson), atriz que encontrou a decadência com o surgimento do cinema falado. Norma sonha com a volta às telas, e contrata Joe para revisar o roteiro de um filme que ela estrelaria, acreditando que teria as portas dos estúdios novamente abertas para ela. A atriz se apaixona pelo roteirista, mas ele ama secretamente uma revisora chamada Betty (Nancy Olson), com quem passa a se encontrar para escrever um roteiro - sozinhos, ele não conseguiam muita coisa, mas juntos estavam escrevendo um excelente texto. A partir de Norma, Billy Wilder mostra a ferocidade da indústria cinematográfica, que utiliza seus empregados, especialmente os atores, como marionetes e fontes de lucro para depois descartá-los. Há uma cena em especial, em que Norma visita seu antigo amigo e diretor Cecil B. DeMille em que fica mais visível que não importa a contribuição que um artista tenha dado ao cinema, ele pode ser facilmente substituído e esquecido.
Para mim, este é o melhor filme de Billy Wilder, apesar de não ser meu favorito. E recentemente seu roteiro foi eleito um dos dez melhores do cinema americano pelo sindicato de roteiristas, muito merecidamente.

17. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)
Direção: Stanley Kubrick. Com Malcom McDowell.
Nada como um pouco da boa e velha ultraviolência... na melhor fase de sua carreira e três anos depois da maravilha chamada 2001: Uma odisseia no espaço, Stanley Kubrick deixou meio mundo boquiaberto ao adaptar para o cinema o livro de Anthony Burgess. O filme é passado numa Inglaterra futurística em que um jovem chamado Alex DeLarge (McDowell) lidera uma gangue de "drugues" que sai toda noite para praticar uma violência que ultrapassa os limites daquela que conhecemos: é violência física, sexual e psicológica a um nível que ultrapassa a bizarrice, como cometer um estupro diante do marido da vítima enquanto canta alegremente Singin'in the rain. Quando é preso, Alex passa por um tratamento no mínimo surreal em que seu corpo é treinado a rejeitar toda forma de crime e prazeres como sexo, em cenas chocantes que o mostram amarrado e impossibilitado de fechar os olhos.  De volta à sociedade, parece que todos aqueles a quem Alex causou mal têm a chance de se vingar - vingança e perversidade são algumas das muitas questões levantadas por Kubrick. Uma das mais importantes é: o bem-estar comum é um argumento forte o suficiente para destruir personalidades individuais? E Kubrick apresenta tudo isso de forma espetacular, visual e sonoramente - impossível esquecer a 9ª Sinfonia de Beethoven, de quem Alex é fã e que o diretor sabe explorar muito bem, afinal uma sinfonia tem longa direção e Kubrick soube casar cada trecho da música a cada cena. Por mais que cause certo desconforto, o filme provoca como poucos a satisfação de estar diante de uma pura obra de arte.

16. Os Bons Companheiros (Good Fellas, 1990)
Direção: Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Joe Pesci, Ray Liotta e Paul Sorvino.
Dentre os ótimos filmes de Scorsese, a cada década há um que se destaca: Taxi driver nos anos 70, Touro Indomável nos anos 80 e Os bons companheiros na década de 90. Retomando um estilo apresentado no início de sua carreira, antes do estouro que foi Taxi driver em 1976, Scorsese traz uma máfia diferente daquela eternizada por Coppola na trilogia O Poderoso Chefão. Sem o charme e cavalheirismo de mafiosos milionários da década de 50,  os gângsteres aqui são do subúrbio e nem todos têm descendência italiana. 
A figura central do filme é Henry Hill (Liotta), que cresce admirando os gângsteres e ingressa no mundo deles através de Paulie (Sorvino). Inicialmente fiscaliza venda de mercadorias roubadas, mas evolui para sequestro de aviões, assaltos a aeroportos, extorsões, lesões corporais graves e tráfico de drogas - este último foi sua maior ascensão e perdição. O acompanham seus melhores amigos Jimmy (De Niro) e Tommy (Pesci), um baixinho esquentado e violentíssimo que não hesita em bater, esfaquear ou atirar, até mesmo por alguém lembrar que ele fora engraxate na infância - atuação marcante que deu o Oscar de coadjuvante a Pesci. A empolgante história é contada através do controle de câmera que Scorsese tem  como poucos, que a faz ficar ainda mais veloz e envolvente. Outro mérito para o diretor é a trilha sonora marcada pelo pop.

15. Psicose (Psycho, 1960)
Direção: Alfred Hitchcock. Com Janet Leigh, Anthony Perkins e Vera Miles.
Ultimamente falei tanto em Psicose que provavelmente vou me repetir. Então é melhor dizer que o porquê dele ser um de meus preferidos: primeiro, porque é bom. E não é bom de bonzinho, de mediano, é bom de insuperável em seu gênero. E segundo, porque é feito de surpresas  de deixar qualquer um boquiaberto, aí fica quase impossível não se envolver.
Pra quem ainda não conhece a história: uma secretária chamada Marion Crane (Leigh) rouba uma pequena fortuna de seu patrão e foge no intuito de encontrar seu amante casado. No caminho, para em um motel de beira de estrada de propriedade do jovem tímido e charmoso chamado Norman Bates (Perkins). No meio da noite, Marion é assassinada no chuveiro, uma das cenas mais conhecidas de todo o cinema. Sua morte é só o início do clima de mistério e tensão que toma conta do filme até o fim. Hitchcock, que sofrera para fazer Psicose, obteve seu reconhecimento junto ao público, que fazia filas para ver o filme, e anos depois junto à crítica; atualmente Psicose ocupa a 34ª posição na lista de melhores filmes da Sight and Sound.

14. Touro Indomável (Raging Bull, 1980)
Direção: Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Joe Pesci e Cathy Moriarty.
Alguém pode descobrir a fórmula da Coca-Cola, descobrir o que aconteceu ao ET de Varginha ou mesmo a idade de Glória Maria, mas duvido que consigam um argumento definitivo que esclareça qual o melhor filme de Scorsese, Taxi driver ou Touro indomável. Mas não é tão difícil ver qual dos dois é o mais bem feito, e a resposta é Touro. Filmado em um preto e branco belíssimo, o longa acompanha a vida do lutador Jake LaMota, o touro do Bronx, desde sua ascensão meteórica até sua queda causada pelo seu gênio imprevisível e autodestrutivo. A personalidade egocêntrica e violenta de LaMota é o centro de um filme que surpreende pela poesia e beleza em meio a tantos socos e explosões de fúria. Como conseguiram isso? Com o talento de um diretor em sua melhor forma, que lapidou minuciosamente uma joia, escolhendo ângulos perfeitos, pondo flashes em câmera lenta e explosões de sangue e suor que parecem compor uma dança em meio às personagens. E Touro indomável não seria o mesmo sem a dedicação de Robert De Niro, que se entregou a LaMota de espírito e corpo - inclusive ganhando 25 quilos para fazer a parte final, em que o outrora musculoso lutador se torna um obeso apresentador de shows em bares baratos. Sem dúvida, um dos melhores trabalhos de vencedores do Oscar de melhor ator.

13. Anticristo (Antichrist, 2009)
Direção: Lars von Trier. Com Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe.
 Não sabia se Anticristo entraria nesta lista, ainda não tinha certeza se ele tinha ficado em minha mente por eu gostar muito dele ou só pelos motivos óbvios. O filme é muito forte, muito tenso. Inicia com um prólogo em preto e branco e câmera lentíssima em que um casal transa e seu filho pequeno sofre um acidente e cai da janela do apartamento ao som de uma ópera que diz "deixe que eu chore minha cruel sorte". E é esse o principal tema do filme: o sofrimento. A personagem de Charlotte (que não tem nome, assim como o marido) entra num processo de culpa e sofrimento sem fim que começa a destruir sua razão, enquanto o marido (Dafoe), que é psicólogo, tenta ajudá-la. Os dois então vão para uma cabana numa floresta convenientemente chamada Éden, e a partir daí Anticristo põe em questão vários temas religiosos, filosóficos e psicanalíticos. E tudo isso junto a cenas chocantes de sexo, masturbação e violência física. Uma experiência tanto incômoda quanto construtiva - Trier é mais uma vez um sádico que sufoca seus espectadores, mas também se volta para dentro de si, ajustando contas com um episódio de seu passado. É pra quem tem nervos fortes, mas também pra quem quer apreciar uma obra que é tão trágica quanto bela.

12. Apocalypse Now (1979)
Direção: Francis Ford Coppola. Com Martin Sheen, Marlon Brando e Robert Duvall.
O nome Francis Ford Coppola começa a se destacar no início dos anos 70 com a vitória de Patton por melhor roteiro original e alcança um patamar ímpar com O poderoso chefão 1 e 2, alguns dos melhores filmes de todos os tempos, dirigidos e escritos por Coppola. Também nessa época A conversação, do diretor, vence a Palma de Ouro em Cannes. Coppola então se joga num projeto grandioso e arriscado: rodar nas Filipinas um filme sobre a Guerra do Vietnã. Como já falei aqui no blog anteriormente, tudo conspirou contra ele, de um ataque cardíaco do protagonista a um tufão que destruiu os sets. Mas o produto foi aquilo com o que Coppola sonhava, ou ainda melhor. Não há filme de guerra que se compare a Apocalypse Now, nem mesmo Kubrick ou Oliver Stone chegaram perto.
O capitão Willard (Sheen), das Operações Especiais do Exército recebe a missão de matar o coronel Kurtz (Brando), oficial brilhante que enlouquecera e desertara para criar no Camboja uma sociedade bizarra em que é adorado como um deus e mata sem piedade. Na viagem, Willard vê a verdadeira face da guerra e seus efeitos nas pessoas - o medo, a loucura, o horror. Depois de uma epopeia para descer o Vietnã vivenciando coisas que chegam a ser bizarras, como a "Cavalgada das Valquírias" em que um coronel surfista (Duvall) distribui morte pelos ares e diz adorar o cheiro de napalm pela manhã, Willard enfim chega ao Camboja e vê sua vida mudada pelo que tem de enfrentar para terminar sua missão. Um final ambíguo e perturbador para a mais fiel das histórias sobre a Guerra do Vietnã.

11. Dr Fantástico (Dr Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and love the bomb, 1964)
Direção: Stanley Kubrick. Com: Peter Sellers, George C. Scott e Sterling Hayden.
Entre o fim do ano passado e começo deste, me veio a vontade de conhecer melhor a filmografia de Kubrick, sendo a principal razão a forte impressão ao ver 2001: Uma odisseia no espaço. Nessa época devo ter visto cinco filme do diretor, e o que mais gostei foi Dr Fantástico, comédia de humor negro lançada em plena Guerra Fria e que satiriza a tensão nuclear existente por causa da bipolarização EUA-URSS. No filme, um general neurótico americano ordena um ataque nuclear contra a URSS sem saber que estava condenando o mundo à destruição total por causa de um sistema de defesa atômico criado pelos soviéticos, em que a denotação de uma bomba atômica provoca a explosão de centenas de outras, e as explosões teriam força para devastar a vida na Terra.
Boa parte do sucesso do filme se deve à tripla atuação de Peter Sellers, como oficial da OTAN, presidente dos EUA e Dr Fantástico, especialista em tecnologia nuclear, ex-nazista e dono de um braço direito problemático que parece ter vida própria e ainda dever obediência ao Führer. Mais uma obra-prima de Kubrick, que foi derrotada no Oscar pelo musical água com açúcar Minha linda dama.

Leia também:
Anticristo/ Dr Fantástico/ Os incompreendidos
Psicose/ Taxi driver/ Touro indomável

Luís F. Passos

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Top 30: Filmes preferidos - Luís (1)

Os filmes fazem parte de nossas vidas, isso não é novidade e é inquestionável. É como sempre digo, o cinema nos mostra um mundo em que cabem os nossos sonhos - e como disse a Academia ano passado, "nós te mostramos como sonhar". E alguns filmes se aproximam mais de nós do que outros, os favoritos. Tá aí a diferença de uma lista de filmes favoritos de alguém e os melhores filmes que alguém viu. Enquanto os últimos têm a ver com a qualidade  (de elenco, de roteiro, trilha sonora, direção etc) os favoritos não precisam ser reconhecidamente ótimos (ou mesmo bons) para caírem no nosso gosto.
Particularmente, acho difícil elaborar uma seleção com filmes preferidos; primeiro por ter que selecionar um número limitado entre muitos, e mais difícil ainda ordená-los. Quanto mais eu penso em quais são meus filmes favoritos, mais títulos quero por na lista e mais confuso eu fico na hora de ordenar, então na preparação desse texto eu resolvi fazer tudo de vez e o que saísse seria publicado. A maior dificuldade foi excluir alguns, já que havia planejado fazer uma lista com trinta e na hora eram trinta e quatro os candidatos. Mas depois de alguns cortes, o top 30 ficou pronto:

30. Um corpo que cai (Vertigo, 1958)
Direção: Alfred Hitchcock. Com James Stewart e Kim Novak.
Eleito recentemente o melhor filme de todos os tempos e tirando Cidadão Kane de um lugar que ocupava há 50 anos, Um corpo que cai não foi bem recebido por público e crítica na época de seu lançamento, e só vinte anos depois passou a ser visto como uma das obras-primas de Alfred Hitchcock; francamente, não vejo o porquê de tal rejeição inicial. O filme tem uma das melhores reviravoltas do cinema, e aparenta não ter só um clímax, e sim um clímax principal que sucede e precede outros dois secundários. Na trama, James Stewart, que foi um dos mais frequentes parceiros de Hitchcock, interpreta um detetive que investiga a esposa de um antigo colega que aparentemente está possuída pelo espírito da bisavó. O filme é marcado pelo medo de altura da personagem de Stewart, que num acidente no alto de um prédio viu um colega da polícia morrer ao cair do telhado. Um suspense complexo e muito bem elaborado que envolve o espectador como poucos.

29. O demônio das onze horas (Pierrot le fou, 1965)
Direção: Jean-Luc Godard. Com Anna Karina e Jean-Paul Belmondo.
Dentre os poucos filmes de Godard que já vi, talvez Pierrot le fou seja o mais complexo, mas é de longe o que eu mais gosto. A história se desenvolve a partir da fuga de Ferdinand (Belmondo), um professor universitário que deixa pra trás a vida burguesa para cair na estrada com sua amante Marianne (Anna Karina). Se a Nouvelle vague queria quebrar princípios e reinventar o cinema, é só ver Pierrot para saber que eles conseguiram. A linearidade da história, marcada pela narração dos protagonistas, que se revezam  nos contando seus fatos e pensamentos, é quebrada várias vezes. Como bom filme de estrada, o que não falta aqui é filosofia e interrogações, até porque Godard mantém o padrão de diálogos que mais parecem interrogatórios. O casal de fugitivos é feliz? O que eles esperam do futuro? Afinal, Marianne corresponde aos sentimentos de Ferdinand? E mesmo sendo tantas as perguntas, as deixamos de lado porque parece que eles querem apenas seguir em frente, vendo beleza onde ninguém mais vê e estando lado a lado na jornada.
Obs: o título brasileiro não é mais uma viagem dos tradutores; é o nome do livro no qual se baseia o filme.

28. Tropa de Elite 2 - o inimigo agora é outro (2010)
Direção: José Padilha. Com Wagner Moura, Irandhir Santos, Milhem Cortaz, Sandro Rocha e Seu Jorge.
Nem Central do Brasil, nem Cidade de Deus (que aliás eu nem vi): o filme brasileiro tem lugar entre meus preferidos é a continuação do forte e polêmico Tropa de Elite. Trazendo um Nascimento que agora é tenente coronel, mais eficiente, solitário, consciente e que agora comanda todo o BOPE, o filme mostra que o problema da segurança pública vai muito além do tráfico dos morros e da corrupção dos policiais ligados a traficantes. Depois de assumir a subsecretaria de Inteligência e apertar o cerco contra o tráfico, Nascimento vê o surgimento das milícias, organizações formadas por policiais e bombeiros para dominar favelas antes ocupadas por traficantes e fornecer serviços clandestinos e "proteção" mediante pagamento. Uma forma de crime muito mais lucrativa e mais difícil de ser combatida - semelhante à máfia, são criminosos legitimando seu poder. A ação do primeiro filme deixa espaço para os conflitos do coronel com sua família, sua profissão e sua incansável luta pela honestidade daqueles que ocupam cargos públicos.

27. Luzes da cidade (City lights, 1931)
Direção (e roteiro, produção, música e edição): Charles Chaplin. Com Charles Chaplin, Virginia Cherril e Harry Myers.
Enquanto Hollywood se lançava na produção de filmes falados, muitos grandes artistas como Chaplin ainda achavam que a moda seria passageira e que a voz humana era desnecessária nas salas de cinema. Chaplin pode ter errado em relação à moda, mas tinha uma certa razão quanto à necessidade de se falar - e Luzes da cidade prova isso. A simplicidade e carisma desse filme provam que gestos e olhares são mais que suficientes para transmitir aquilo que o diretor e seu elenco propõem.
Mais uma vez, o mestre do cinema mudo trabalha  a solidariedade e a bondade inatas do ser humano com muito bom humor e cenas geniais. Em Luzes da cidade ele vive novamente o vagabundo Carlitos, que dessa vez conhece uma florista cega, que por uma série de mal entendidos, acha que ele era um milionário. Paralelamente, ele mantém uma estranha amizade com um milionário alcoólatra que se esquece dele quanto está sóbrio. Ao descobrir que pode ajudar sua amiga florista a recuperar a visão, o vagabundo se mete em inusitadas situações para conseguir pagar uma cirurgia. Na última cena, o emocionante reencontro com a florista, que o vê pela primeira vez, dá razão à Chaplin: a ausência de voz não o impedia de fazer cinema da mais alta qualidade.

26. V de Vingança (V for vendeta, 2006)
Direção: James McTeigue. Com Natalie Portman e Hugo Weaving.
Com a onda de protestos que está levando o povo às ruas, uma das coisas que mais se vê é máscara de Guy Fawkes, que tentou explodir o parlamento britânico no século XVII. A figura de Fawkes ficou mundialmente conhecida depois de V de Vingança, filme baseado nos HQ de Alan Moore publicados originalmente na década de 1980. Ambientada numa Inglaterra futurística dominada por um governo autoritário de extrema direita, a história acompanha a jovem Evey (Portman), funcionária da tv estatal que testemunha o primeiro ato do terrorista conhecido apenas por V (Weaving), que se esconde sob a máscara de Fawkes. Evey acaba se envolvendo com V, com quem aprende sobre arte e entende melhor os crimes e a repressão do governo. V na verdade não é um terrorista, diferente do que diz o governo, é um defensor ferrenho da justiça (que segundo ele traiu o povo) e da liberdade da qual se tornou símbolo.

25. Manhattan (1979)
Direção: Woody Allen. Com: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway e Meryl Streep.
Na primeira vez que vi, não gostei. Na segunda, percebi que era um bom filme. Na terceira, fiquei apaixonado. Homenageando sua amada Nova York, Woody Allen conta a história de um judeu nova iorquino "que não funciona fora de sua cidade" e sua relação com as três mulheres de sua vida: a ex-esposa que se assumiu lésbica, a namorada de 17 anos e a amante pedante (que é ex-amante de seu melhor amigo). Usando uma bela fotografia em preto e branco, Woody mostra diversos cartões postais de Nova York, inclusive a ponte da rua 52, que foi escolhida como pôster principal do filme, que é cheio de referências psicanalíticas, cinematográficas e literárias - e as referências muitas vezes vêm acompanhadas de tiradas ácidas. É como dizem em um dos melhores diálogos: em algum lugar, Nabokov está sorrindo.

24. Não se preocupe, estou bem! (Je vais bien, ne t'en fais pas, 2006)
Direção: Phillipe Lioret. Com: Mélanie Laurent, kad Merad, Isabelle Renauld e Julien Boisselier.
Nada como ver um filme bom sem saber nada sobre ele - não criar expectativas faz com que o que vier seja lucro. Neste caso, o lucro é uma história simples mas muito bem construída de uma garota que chega de viagem e descobre que seu irmão gêmeo, a quem é muito apegada, fugiu de casa. Lili (Melanie), a partir do sumiço do irmão, entra num processo de autoconhecimento e muda o rumo de sua vida. Ótimo filme sobre relações familiares, com direito a uma excelente música tema. E o melhor de tudo, o típico final surpreendente que atualmente os franceses sabem fazer como ninguém.
(Falei pouco porque o mínimo detalhe pode ser spoiller. E se não argumentei... é porque eu adoro o filme e ponto final.)

23. Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008)
Direção:Christopher Nolan. Com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie  Gyllenhall, Gary Oldman, Michael Caine e Morgan Freeman.
O segundo filme da trilogia Batman de Christopher Nolan se consagrou como um dos melhores da década de 2000. Dando continuidade à luta de Batman/ Bruce Wayne (Bale) para resgatar Gotham do crime, o diretor nos apresenta um vilão sádico, genial e imprevisível: o Coringa (Ledger). Atuação excepcional e incrivelmente popular junto ao público que deixou no chinelo até mesmo o Coringa de Jack Nicholson (que riu quando o jovem Ledger morreu em 2008). A presença do vilão e a técnica usada por Nolan deixam o filme sombrio, sem esperanças e dotado de um magnetismo que prende o espectador do começo ao fim. Para mim é uma bênção um filme de ação ter tanto conteúdo, numa era em que o que mais importa são explosões e heróis de corpo definido.
22. Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009)
Direção: Quentin Tarantino. Com: Brad Pitt, Christoph Waltz, Mélanie Laurent e Michael Fassbender
Na França ocupada pelos nazistas, um pequeno pelotão americano formado apenas por judeus e comandado pelo tenente Aldo "o Apache" (Pitt) desembarca com um único objetivo: matar nazistas. O terror espalhado pelos Bastardos Inglórios se espalha pelas fileiras alemãs e chega ao próprio Hitler. Paralelamente, há uma jovem dona de cinema (Mélanie) que anos antes viu sua família ser morta pelo genial e sádico coronel da SS Hans Landa (Waltz), que tem a chance de vingar seus parentes e todos os judeus mortos pelos nazistas. Utilizando a violência típica de seus filmes, enchendo a tela de sangue e fazendo referências cinematográficas e à  cultura pop, Tarantino cria uma história que é considerada por muitos a melhor dos anos 2000. O roteiro é excelente, envolvente e divertido; e também merece toda a glória Christoph Waltz, até então um desconhecido ator austríaco, que levou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo maravilhoso trabalho como Hans Landa. Bingo! (entendedores entenderão).
21. Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)
Direção: Woody Allen. Com: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams e Carla Bruni.
Se arrependimento matasse, eu morreria por não ter visto Meia-noite em Paris no cinema. O filme de 2011 de Woody Allen se tornou sua maior bilheteria, ganhou Oscar de melhor roteiro original (o que não acontecia em 25 anos), foi indicado por direção (o que não acontecia em 17 anos) e também a melhor filme (antes disso as únicas indicações foram Annie Hall em 1977, que saiu vitorioso, e Hannah e suas irmãs em 1986).
A partir de um roteirista de Hollywood que queria ser escritor de romances (Wilson), Woody nos leva à Paris dos anos 20 onde escritores, músicos, cineastas, fotógrafos e artistas plásticos promoviam uma efervescência cultural como poucas vezes a cidade luz viu. Tudo isso pra dizer que é besteira achar que seria mais feliz vivendo em outra época; o importante é aproveitar o presente e buscar a felicidade - uma coisa impressionante, partindo da cabeça de um homem que na época tinha 75 anos. Mais que um gigante cartão-postal, Paris é personagem, influenciando e inspirando os artistas do passado e do presente.
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