sábado, 6 de abril de 2013

...E o vento levou - a força de um clássico

Não há como falar na Era de Ouro de Hollywood e não falar de ...E o vento levou (Gone with the Wind, 1939), primeiro filme adulto em cores (O Mágico de Oz saiu no mesmo ano, mas um pouco antes). Inspirada no best-seller homônimo de Margaret Mitchell, a super produção criou uma enorme expectativa em torno de seu preparo, graças ao megalomaníaco produtor David O. Selznick, que planejou e supervisionou tudo para fazer de seu filme um ícone que atravessasse décadas incólume como o maior dos filmes americanos. O cara levou a cabo seu projeto e só precisou esperar o Oscar para confirmar sua glória. Pra efeito de comparação, Selznick era James Cameron antes de James Cameron.
A história tem início em Tara, fazenda de médio porte da Geórgia, às vésperas da Guerra Civil americana, onde conhecemos a jovem e fútil Scarlett O'Hara (Vivien Leigh), que coleciona admiradores entre os homens e rivais despeitadas entre as mulheres da região. Scarlett gosta de ter vários homens a seus pés, mas na verdade é apaixonada por Ashley Wildes (Leslie Howard), filho de um fazendeiro vizinho - e mesmo Scarlett sendo a última coca-cola da Geórgia, Ashley prefere a doce Melanie Hamilton (Olivia de Havilland). Ainda no início também conhecemos Gerald O'Hara, pai de Scarlett, sua mulher Ellen, suas filhas Suellen e Carreen, e Mammy (Hattie McDaniel), escrava doméstica da família, que cuidava de Scarlett desde seu nascimento.
A sequência seguinte se passa na fazenda dos Wilkes, onde os poderosos da Geórgia e de outros estados do Sul decidem se separar do restante dos EUA, dando início à Guerra. E Scarlett nem aí. E Ashley anuncia seu casamento com Melanie. Aí Scarlett pira, e por despeito, decide se casar com Charles Hamilton, irmão de sua rival. Nessa bagunça, aparece o misterioso capitão Rhett Butler (Clark Gable), um cavalheiro fantasiado de cafajeste com a cara mais cafajestesca que o cinema já viu. Dá pra perceber que ele gostou de Scarlett desde que a viu, mas ela o despreza. Menos de um mês depois Scarlett fica viúva; Charles pegara pneumonia na Guerra. Ela então vai para Atlanta ficar com Melanie e a tia dela, Pittypat, e é essa a parte mais movimentada do filme - as duas jovens vão trabalhar como voluntárias no hospital durante a guerra; Melanie engravida e dá à luz num parto improvisado feito por Scarlett com o auxílio da estúpida escrava Prissy; e graças a Rhett, que havia se aproximado da protagonista durante os anos de conflito, as moças fogem de Atlanta quando o exército inimigo cerca a cidade.
Esse fim da primeira parte é genial. Além da ação, muito bem corrida, tem coisas muito bacanas como o zoom-out a partir de Scarlett para mostrar um cenário de destruição com milhares de soldados feridos ou o incêndio de Atlanta, em que o diretor George Cukor usou os cenários de King Kong e tocou fogo em tudo. Ah, importante explicar: o único diretor que levou créditos pelo filme e o Oscar por ele foi Victor Fleming, responsável pela segunda parte; A primeira foi dirigida por Sam Wood e Cukor.
Depois de uma verdadeira odisseia, Scarlett, Melanie e seu filho e Prissy chegam a Tara, que assim como todas as fazendas do Sul estava destruída. A casa permanecia de pé, mas a situação não podia ser pior: a mãe de Scarlett estava morta, o pai louco, as lavouras destruídas e não havia nada para comer. Desesperada, a moça corre para o jardim, onde encontra apenas rabanetes e, numa das cenas mais famosas do cinema, jura nunca mais passar fome.
A segunda parte traz uma Scarlett diferente, endurecida pela guerra e pela fome, que põe a frescura de lado e assume o controle da casa, obrigando a todos a trabalhar, matando para proteger sua família, roubando o noivo da irmã e se casando por interesse para salvar a fazenda - ela enfim percebera que amava Tara e que era de lá que tirava suas forças. Ashley volta da guerra e pensa em levar a esposa e o filho para Nova York, mas é impedido por Scarlett, que lhe oferece sociedade na loja do marido. Pra resumir a história: a protagonista fica viúva de novo, casa com Rhett, e a partir daí temos mais romance que drama, apesar da relutância de Scarlett em amar seu marido, que é doido por ela.
Todo esse dramalhão percorre quatro horas, num dos mais longos filmes já feitos - e a longa duração faz com que muitos lhe torçam o nariz. Eu vejo que entre os cinéfilos ...E o vento levou praticamente é respeitado  muito em parte pela sua importância histórica, pela questão da inovação do cinema em cores, pelos efeitos especiais inovadores e pela grandeza, já que até hoje permanece como um dos maiores épicos americanos. Mas eu vejo muito mais que isso, e não é só porque eu gosto dele. Primeiro, aqui temos um elenco formado por gigantes da época: Vivien Leigh excelente como Scarlett, num trabalho muito versátil, que é rica, pobre, boa, má, vítima, algoz, frágil, forte e faz de tudo para ter sua dignidade de volta; Clark Gable, que era uma unanimidade junto ao público e único ator pensado para o papel; Olivia de Havilland (aaah, Olivia! Hoje tem apenas 96 anos) tá uma graça, foi indicada ao Oscar de coadjuvante (aliás, os cinco principais foram indicados) e Hattie McDaniel, a escrava quase mãe, ganhou o Oscar de atriz coadjuvante, primeira pessoa negra a ganhar estatueta. Ah! Apesar do ótimo desempenho juntos, Leigh e Gable se odiavam.
E a história é muito boa. Claro, é cheia de falhas, mostra uma versão romantizada do Sul, os fazendeiros escravistas eram cavalheiros, os escravos eram felizes... bem diferente da realidade. Também há, num trecho, uma pequena organização que nos lembra a Ku Klux Klan, e o filme parece ser indiferente a ela. Mas a história é boa! Legal ver toda a saga de Scarlett, seu amadurecimento lento, sua ambição, sua falsidade para com Melanie que tem raros momentos de sincero afeto, seus casamentos por interesse e claro, o final em aberto, quando ela percebe que perdeu o que realmente importava - Rhett. O casamento deles é meio conturbado, Scarlett parece fazer questão de mostrar que o despreza, enquanto ele fica com cara de besta, exceto numa cena em que ele a arrasta pelas escadas em direção ao quarto, e no outro dia ela acorda toda serelepe. Hummm... Enfim, apesar de parecer estar na pior, nossa heroína não se abala. Afinal, ela tinha Tara. Tara lhe daria forças e ela pensaria numa solução. Amanhã é um novo dia.

Oscar: Melhor filme, diretor (Fleming), roteiro, atriz (Vivien Leigh), atriz coadjuvante (Hattie McDaniel) direção de arte, fotografia, edição, prêmio de inovação técnica e prêmio honorário pelo uso de cor.

Nota: 9/10

Luís F. Passos

Um comentário:

  1. Um clássico de 1939, "E o vento levou", pra mim, é um dos melhores clássicos do cinema! É um filme inesquecível (quase 4 horas de duração é bem difícil de ser esquecido kkkk)tanto por seu drama histórico (guerra civil americana), quanto por sua história de romance entre Scarlett O'hara e Rhett Butler (o tal cavalheiro fantasiado de cafajeste). A cena mais marcante, sem dúvida alguma, é a que Scarlett pega um rabanete e diz que nunca mais irá passar fome. A cada momento, o filme te prende à tela! É, sem dúvidas, o um dos maiores clássicos, não é à toa que até hoje é tão aplaudido e comentado :D:D Amei seu texto, Dr. Luís! :)

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