sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Filmes pro final de semana - 01/09 - Especial Grandes frases

1. Apocalypse Now (1979)
Não há filme de guerra que se compare a Apocalypse Now, nem mesmo Kubrick ou Oliver Stone chegaram perto. O capitão Willard (Martin Sheen), das Operações Especiais do Exército recebe a missão de matar o coronel Kurtz (Marlon Brando), oficial brilhante que enlouquecera e desertara para criar no Camboja uma sociedade bizarra em que é adorado como um deus e mata sem piedade. Na viagem, Willard vê a verdadeira face da guerra e seus efeitos nas pessoas - o medo, a loucura, o horror. Depois de uma epopeia para descer o Vietnã vivenciando coisas que chegam a ser bizarras, como a "Cavalgada das Valquírias" em que um coronel surfista (Robert Duvall) distribui morte pelos ares e se delicia com o cheiro de morte e destruição, Willard enfim chega ao Camboja e vê sua vida mudada pelo que tem de enfrentar para terminar sua missão. Um final ambíguo e perturbador para a mais fiel das histórias sobre a Guerra do Vietnã.
Frase memorável: "Adoro o cheiro de napalm pela manhã".
Nota: 10
2. Gata em teto de zinco quente (Cat on a Tin Hoof, 1958) 
Um clássico cheio de diálogos tensos, a maioria entre o casal Maggie (Elizabeth Taylor) e Brick (Paul Newman), jogador de futebol americano entregue à bebida após um incidente no trabalho envolvendo um amigo - coisa que não é totalmente esclarecida e que dá brecha para a suspeita de um caso gay. E por que tanta briga entre Maggie e o esposo? É porque Brick simplesmente despreza a mulher, assim como toda a família, em especial o pai, "Big Daddy" Harvey (Burl Ives), com quem nunca teve boa relação. Bid Daddy está com câncer, não há perspectiva de cura e se preocupa com a possibilidade de deixar toda sua fortuna para o filho mais velho, Gooper, que é uma lesma e casado com uma mulher gorda e chata, e tem vários filhos gordos e chatos. A tensão entre Brick e Maggie e Brick e Big Daddy abre espaço para discussões diálogos brilhantes - afinal, o filme é baseado numa peça de Tennessee Williams, influente dramaturgo da Broadway. Também chama a atenção as espetaculares atuações de Paul Newman e Liz Taylor e claro, a beleza inesquecível da atriz.
Frase memorável:  "Nós não vivemos juntos, apenas dividimos a mesma jaula"
Nota: 9,5/ 10
3. Uma rua chamada pecado (A streetcar named desire, 1951)
Desejo e loucura. Duas palavras que descrevem muito bem a potência desse clássico marcado por personagens à flor da pele e interpretações monstruosas de quatro atores de duelam com ferocidade em cena para ver quem mostra mais força. São eles: Karl Malden (vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante), Kim Hunter (vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante) e, principalmente, dois dos maiores nomes do cinema mundial, Marlon brando (indicado a melhor ator) e Vivien Leigh (vencedora de melhor atriz) como uma das personagens mais ricas não apenas do cinema, como do teatro (esta obra é baseada numa peça homônima de Tennessee Williams). As relações intrincadas de atração e repulsa entre essas personagens são o motor deste intenso e inovador clássico. 
Frases memoráveis: "Sempre dependi da bondade de estranhos" e "STEELLAAAAAAAAA!"
Nota: 10
4. Crepúsculo dos Deuses (Sunset boulevard, 1950)
Crepúsculo dos deuses é uma grande crítica à própria indústria do cinema e do entretenimento, um mundo que pode num momento elevar uma pessoa ao céu e, em questão de minutos, lançá-lo no total ostracismo quando não lhes é mais conveniente. É isso que ocorre com a Norma Desmond interpretada por Gloria Swanson. Uma musa do cinema mudo largada no esquecimento após o advento do cinema falado e que sofre com sua loucura e suas obsessões ao mesmo tempo em que alimenta fantasias megalomaníacas de uma volta ao estrelato que jamais ocorrerá. O roteiro de Wilder é fantástico. A forma como amarra as diferentes circunstâncias que culminam para o grande final, que é revelado já no início do filme, é de uma inteligência incrível. O filme é ácido, maldoso e as coisas se desenrolam de uma maneira ironicamente cruel para todas as personagens. Wilder não se importa de vê-las sofrer e as castiga pelos seus erros.  Filme não só obrigatório como essencial para os amantes do bom cinema.
Frase memorável: "Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos".
Nota: 10
 5. ...E o vento levou (Gone with the wind, 1939) 
Tan tan tan taaan... A música tema da personagem Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) é quase tão icônica quando a heroína, uma das mais queridas figuras de todo o cinema. Scarlett é filha de um rico fazendeiro da Geórgia que vê seu mundo virar ao avesso com o início da Guerra Civil (Guerra de Secessão). A moça, que tinha dezenas de admiradores aos seus pés e era apaixonada por Ashley Wilkes vê seus fãs irem para a guerra e seu amado se casar e também ir para a luta. Ao longo de quatro horas de filme, vemos as mudanças de Scarlett: de rica à pobre, de dondoca a mulher forte; de ingênua a ser capaz de matar para proteger a si e a sua família -versatilidade mostrada graças ao enorme talento de Vivien Leigh, que fez dessa uma das maiores atuações vencedoras de Oscar. Do outro lado da história, o cafajeste Rhett Butler (Clark Gable) apaixonado por Scarlett e que tem um enorme coração por trás da cara de canalha, que luta pelo coração da jovem, teimosa e ambiciosa O'Hara. Uma dupla que o mundo vê e ama há mais de setenta anos.
Frase memorável: "Frankly, my dear, I don't give a damn" (Tem que ser em inglês senão perde o efeito)
Nota: 9,5/ 10


Bônus: De pernas pro ar (2010)
Em defesa das comédias nacionais, vamos falar desse filme que todo mundo viu, mas não custa nada rever.  Alice (Ingrid Guimarães) é uma executiva cuja carreira brilhante contrasta muito com seu casamento. Seu marido João (Bruno Garcia) reclama da falta de atenção à família e também da falta de sexo. A vida (aparentemente) sob controle dá uma reviravolta quando, no mesmo dia, ela perde o emprego graças a uma confusão de caixas e João sai de casa, pedindo um tempo na relação. É depois de se aproximar da sensual vizinha Marcela, dona de uma sex shop decadente, que Alice encontra novas ideias para reestruturar sua vida profissional e também pessoal, derrubando vários tabus a respeito de sexo. Claro que o filme apela muito para as cenas engraçadas relacionadas a  situações e  produtos eróticos, mas também tem um lado romântico bem bonito, embalado pelo som de Tim Maia.
Frase memorável: "Às vezes eu acho que o mundo é uma imensa suruba e eu não fui convidada".
Nota: 8,0/ 10

domingo, 20 de agosto de 2017

Jackie – ao lado de todo grande homem, uma grande mulher



Produção de 2016 do chileno Pablo Larrain, responsável pelo excelente No, Jackie traz os dias que sucederam o assassinato do presidente Kennedy em 1963 pelo ponto de vista de outra pessoa extremamente importante para a história do século XX: Jackie Kennedy, sua esposa, aqui vivida por Natalie Portman. O filme transcorre desde o assassinato do presidente em si até o período de mais ou menos uma semana após o ocorrido, dias nos quais Jackie tinha como responsabilidade a organização do velório e sepultamento do marido, além de uma entrevista para a imprensa numa tentativa final de tentar manter a imponência e importância do breve império do casal que ruiu de maneira tão trágica, repentina e aos olhos de milhões de pessoas em todo o mundo. Além da grande responsabilidade, Jackie deve fazer tudo isso com o peso do luto, do remorso, da incredulidade e do sofrimento pela experiência traumática e a drástica mudança em sua vida. 

Por si só, Jackie já é um filme interessante só por sua proposta. Raramente temos uma oportunidade tão boa de observar um pouco a vida nos bastidores da história. Mesmo tendo estado no centro de um furacão político do momento em que John Kennedy assumiu a presidência até o momento em que foi atingido pela bala, Jackie sempre ocupou uma posição secundária, como uma simples coadjuvante que servia muito mais como um modelo de moda e comportamento feminino do que como uma figura de importância política. Eternamente famosa por sua elegância, bom gosto e dignidade, em Jackie vemos um lado mais profundo da primeira dama e descobrimos o quão intelectual, corajosa e forte aquela mulher realmente é. Suas aflições, sua resistência e a maneira como se impõe com firmeza enquanto tudo desmorona é admirável. Coroando tudo, temos a atuação perfeita (não tem outro adjetivo mesmo) de uma Natalie Portman em seu melhor trabalho junto à Cisne Negro. Através de suas expressões, conseguimos captar toda a complexidade e confusão de sentimentos que passam pela cabeça de Jackie e sentir todo seu poder independente do quão adocicada seja sua voz e o quão delicada seja sua aparência.

Nota: 9,0/ 10

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Lucas Moura

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Para sempre Alice – sobre o Alzheimer



O filme Para sempre Alice (Still Alice, 2014) fala sobre a vida de uma talentosa e intelectual professora universitária de lingüística chamada Alice (Julianne Moore) que, ainda jovem ao redor dos 50 anos de idade, recebe o diagnóstico de ser portadora de uma forma rara, genética e precoce de doença de Alzheimer. O filme, então, recorre o período após este diagnóstico e a forma como Alice, gradativa e inevitavelmente, vai perdendo quase que por completo a pessoa que ela era pelo curso trágico da doença. No meio do caminho, há muito sofrimento pessoal e familiar. Pessoal pela consciência de Alice do quão forte para ela é perder controle da própria mente com a qual literalmente fez sua vida, seu trabalho e construiu seu legado e familiar por toda a crise que um problema como esses numa pessoa central causa, desconcertando, de certa forma, a dinâmica da vida de todos.

Eu, particularmente, não gostei muito de Para sempre Alice. É um filme muito simples e que atinge seus objetivos, mas não me resta muito a dizer sobre ele além do que o que disse acima. Sendo assim, apesar de ser um filme bastante emocional e humano, ele é bastante esquecível, pois não existe nenhum elemento no roteiro ou na direção que consigam destacar totalmente este de dezenas de outros filmes do gênero e assim ele me parece mais um filme genérico sobre doença. O único ponto que dá destaque a Para sempre Alice e que fez com que ele fosse tão bem recebido e falado quando do lançamento é a atuação impecável de Julianne Moore, mas dizer que ela é excelente e uma das melhores atrizes do século XXI é como dizer que o mar é molhado ou que açúcar é doce. É algo inquestionável. O elenco de apoio liderado por Kristen Stewart e Alec Baldwin também está muito bom e em sintonia.

Outro problema que eu tive, pessoalmente, é que eu não conseguia parar de evitar comparações com outros filme sobre doença, mas que não usam a doença do protagonista como único ponto, mas sim como a base para a construção de uma história muito mais ampla e que abre margem para mais análises ou diferentes emoções que não apenas a constatação da nossa fragilidade e o quão difícil e sofrido é o processo da morte. Um exemplo muito bom e que vinha a minha mente o tempo todo é Longe dela (Away from her, 2007), filme em que a protagonista também sofre de Alzheimer, mas no qual a doença é a base para um roteiro que fala muito sobre a quebra de vínculo e o quão difícil é o processo de afastamento em vida quando duas pessoas unidas por décadas passam a ser estranhas. Para sempre Alice não se aprofunda a esse nível. Outros exemplos de filmes que usaram doenças para criar enredos mais amplos podem ser Filadélfia, que através da AIDS falou sobre a homofobia, o preconceito e a falta de informação na sociedade estadunidense dos anos 90 ou até mesmo Melancolia, que faz uma metáfora entre depressão e o fim do mundo. 
Enfim, os caminhos existem, são muitos, e não foram percorridos em Para sempre Alice. Não é necessariamente um problema do filme, mas é algo que eu sinto falta.
Ps: a atuação de Julianne Moore é ótima e foi com ela que venceu o Oscar de melhor atriz. Não dá para dizer que não seja merecido, mas naquele ano havia concorrentes tão boas quanto em filmes muito mais interessantes. Rosamund Pike por Garota exemplar, Marion Cotillard por Dois dias, uma noite e Reese Witherspoon por Livre são opções que me agradariam mais. Moore poderia facilmente ter vencido como atriz coadjuvante naquele ano por Mapa para as estrelas, com o qual venceu o prêmio de atuação feminina em Cannes, mas não foi nem indicada ao Oscar pelo filme, numa sequência de injustiças para um atriz que deveria ter vencido o Oscar de melhor atriz por Longe do paraíso há 15 anos atrás.

Nota: 6/10

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