Polônia, 1939. Depois da súbita
invasão alemã e rápida derrota do exército polonês, as tropas de Hitler
dominaram a metade oeste do país (a outra parte fora ocupada pela União
Soviética) e deram início ao plano do führer de exterminar a população judia.
Enquanto eram construídos os primeiros campos de concentração e extermínio pelo
interior do país, em muitas cidades os judeus eram concentrados em pequenos
bairros chamados de guetos, em que eram destinados a morar em minúsculos
apartamentos bem diferentes das grandes casas a que muitos deles estavam
acostumados.
É nesse contexto que o empresário
alemão Oskar Schindler (Liam Neeson) se muda para a Polônia com um ambicioso
projeto em mente. Sabendo das restrições impostas aos judeus e que elas só
tendiam a piorar, Oskar busca ricos empresários e banqueiros judeus para obter
capital e montar uma fábrica; eles entrariam com o dinheiro enquanto o alemão
seria o administrador. Apesar de parecer injusto, era a única forma de dinheiro
judeu ser aplicado num investimento e não saqueado pelos nazistas. Para isso ele conta com o apoio de Itzhak Stern (Beng Kingsley), contador e membro influente do conselho judeu, que se torna seu braço direito na indústria.
Ao iniciar as atividades da
fábrica, Schindler negocia com os alemães o uso de mão-de-obra judia que viria
dos guetos e lhe seria bastante barata. A grande vantagem de trabalhar para Schindler?
Não morrer. Não eram raros os casos de pessoas que simplesmente desapareciam ou
eram levadas em caminhões e nunca voltavam. Ter o carimbo comprovando que era
funcionário da fábrica de Schindler era uma garantia (não infalível, mas uma
garantia) de voltar para casa ao anoitecer e não ser levado durante a noite. É
logo nessa época que o empresário começa a salvar vidas, dando emprego a
pessoas que não tinham condições de trabalhar, só para que elas tivessem
documentos de trabalhador e assim salvassem suas vidas. Esse é só o começo do
trabalho de Schindler, que culmina na famosa lista de centenas de pessoas
salvas por ele.
A lista de Schindler (Schindler's List, 1993) para mim é,
antes de tudo, uma rendição a Steven Spielberg. Não sou fã do diretor e seu
único filme do qual eu realmente gostava era A cor púrpura (1985), mas foi
impossível não me curvar diante da qualidade de A lista de Schindler. A
primeira das muitas qualidades desse vencedor dos Oscar de melhor filme,
direção, roteiro adaptado, direção de arte, música e fotografia é justamente a
fotografia em preto-e-branco que por si só é um show a parte e acentua o clima
triste e melancólico da época; tal preto-e-branco só é maculado pelo vermelho
do casaco de uma pequena menina que aparece numa cena em que um gueto é evacuado,
um momento emocionante que marca uma das melhores cenas da carreira de
Spielberg.
É impressionante como o filme
consegue transmitir a tensão que pairava sobre os judeus, seja nos guetos, onde
os abusos por parte dos soldados alemães eram quase obrigatórios, ou nos campos
de concentração, onde estavam sujeitos à figuras como o comandante Amon Göth (Ralph Fiennes), que do alto de sua varanda mirava cabeças com seu rifle e
matava por puro entretenimento. É aqui que eu me surpreendi: Spielberg, que é
um bocado moralista em seus filmes, conseguiu ser bastante fiel à história. A
exceção está na relação de Schindler com a esposa (na importância dela no
salvamento de judeus e nas inúmeras vezes em que ele a traiu) e no fato obscuro
de muitas pessoas conseguirem entrar na lista graças ao pagamento de suborno –
algo que diminuiria a objetividade moral do longa. Enfim, esses pequenos
defeitos não são quase nada comparados aos inúmeros fatores que fazem de A
lista de Schindler um dos melhores filmes sobre o Holocausto, muito superior
aos outros que saem todos os anos às dezenas, como numa linha de produção
patética e sem originalidade.
Nota: 10
Luís F. Passos