Queria iniciar
essa postagem com um pedido: mundo, valorize mais Paul Thomas Anderson (PTA
para os íntimos). Apesar de ser um nome
querido entre os críticos e um seleto grupo de fãs cinéfilos, o diretor não tem
uma popularidade tão expressiva quanto deveria ter. Seus trabalhos são uma
sequência de filmes incríveis, que seguem um padrão constante de qualidade com
pequenas variações entre muito bons e excelentes. Na pequena lista do diretor,
figuram nomes como Boogie Nights, Magnólia, Embriagado de amor, Sangue
negro e O Mestre. Todos eles
grandes trabalhos, mas nenhum com a popularidade merecida. Bom, é fato que as
grandes massas de um modo geral não costumam ter um olhar muito aguçado pra
esse tipo de coisa, mas para aqueles que se acham “Cult” só por terem visto Encontros e desencontros e aqueles que
não param de falar que não há nada no cinema atual de qualidade só por terem
assistido a trilogia Godfather e se
configuram como os cinéfilos mais irritantes que existem, sugiro ver um filme
de PTA. Qualquer um deles denota qualidades técnica e artística impecáveis e
são uma prova contundente de que o cinema pode até não estar nos seus melhores
dias, mas também não está morto – não só de Bergman vive o homem.
Bom, deixando
as divagações de lado, vamos nos focar no trabalho de PTA. Dentre todos seus
filmes excepcionais um consegue se destacar, impondo presença como um potencial
clássico americano dos anos 2000. Este filme é Sangue Negro (There will be
blood, 2007), uma produção impecável.
O cinema
americano vem trabalhando muito com a temática da crise e do ciclo vicioso de
violência e destruição imposto pelo petróleo e todo o dinheiro e política
envolvidos desde sua retirada até sua comercialização. Vários são os filmes que
esbarram direta ou indiretamente nesta problemática (queria deixar como
destaque o filme Syriana de 2005).
Fugindo do convencional, PTA baseia sua história no início do século XX, quando
o comércio do petróleo começava a se difundir e o ouro negro firmava-se cada
vez mais como a maneira mais eficaz de alcançar poder e sucesso. No centro de
tudo, um homem: Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis). Na base de seu suor e
sangue, um homem que conseguiu sair do nada e construir um grande império. O
que é verdadeiramente interessante é como PTA constrói essa personagem. Se por
um lado Daniel é um gênio dos negócios e um homem que, de um ponto de vista
historicamente bem comportado, poderia ser construído como um grande visionário
e um homem a frente de seu tempo, PTA prefere o ponto de vista dos bastidores.
De tudo que acontece por trás dos panos e de toda a discreta maquinaria
envolvida por trás de negócios exclusos de corrupção e destruição. Genial sim,
mas ao mesmo tempo um legítimo sociopata que não mede esforços para alcançar
seus objetivos e cujo alimento é cobiça e ambição.
Com o rosto lavado de
petróleo e a mão suja do sangue de todos que pareceram na perigosa empreitada
pelos subsolos pedregosos do meio-oeste americano, Daniel não poupa ninguém,
nem a si mesmo, em prol de seu objetivo final de sucesso. Destrói tudo e todos
a seu caminho, desde propriedades rurais de pobres coitados a sua própria
relação familiar com seu filho. O diretor gosta muito de trabalhar com a figura
clássica do anti-herói e seus filmes geralmente são liderados por protagonistas
complexos e cheios de defeitos, mas sempre muito empáticos. Por este papel,
Daniel Day-Lewis recebeu seu segundo Oscar de melhor ator.
Além da figura
emblemática de um homem que por si só representa a agressividade envolvida ao
petróleo, Sangue Negro ainda reserva
boas doses de críticas a outro elemento bastante polêmico: a igreja. Num
segundo plano, tão importante e presente quanto o petróleo, o filme trata da
corrupção e da falta de princípios morais que rege a comercialização da fé,
mostrando a construção de uma igreja por um pastor de moral extremamente
questionável chamado Eli (interpretação marcante de Paul Dano). Para os que se
interessam pelo tema e queiram vê-lo retratado de uma forma ainda mais concisa,
recomendo O Mestre, do próprio PTA,
lançado ano passado nos cinemas.
Desta forma, Sangue Negro consegue ir fundo nas
feridas dos EUA, desenvolvendo-se na escória que o próprio país criou com o
tempo. Como se não
bastasse elenco, direção e roteiro impecáveis, o filme ainda é tecnicamente
genial. Os grandes silêncios espalhados entre as sequências de diálogos
geralmente não muito longos são preenchidos por imagens vastas do meio-oeste
americano com sua beleza árida para filme de John Ford nenhum botar defeito. Ou
seja: uma fotografia que já vale por um filme inteiro. Além disso, ainda dá pra
acrescentar uma boa edição que impede que o filme longo e às vezes lento
torne-se monótono e uma boa trilha sonora, grandiosa como tudo aqui.
Nota: 10
Leia também: O Mestre
Lucas Moura
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