sexta-feira, 18 de abril de 2014

Filmes pro final de semana - 18/04

1. Antes do inverno (Avant l'hiver, 2012)
 Uma série de buquês de rosas vermelhas entregues na casa, no consultório e no hospital em que o Paul (Daniel Auteuil), respeitado neurocirurgião trabalha levanta um mistério na família do médico. Casado há trinta anos com Lucie (Kristin S. Thomas), ele se vê envolvido com Lou (Leila Bekhti), paciente de muitos anos atrás que está visivelmente interessada nele. Pra piorar, seu casamento está degastado e ele percebe que ele a esposa eram dois estranhos dormindo juntos. O aparecimento das flores e de Lou parece ser a oportunidade de revelar fantasmas do passado, no difícil momento que é a chegada da velhice. É hora então de pôr em prova os velhos laços afetivos, incluindo a amizade com Gérard (Richard Berry), velho amigo do casal, e os próprios filhos. Mais um grande título do cinema francês e outro trabalho ótimo de Kristin Scott Thomas.
Nota: 8,5/ 10
2. O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005)
Por mais que já tivesse ouvido mil elogios ou o quão injusta foi a vitória de Crash no Oscar de 2005, me surpreendi com a qualidade de Brokeback Mountain. Um filme muito sólido, emocionante e nem um pouco apelativo. A história do amor proibido dos cowboys Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) se passa nos anos 60, a partir do primeiro contato, quando foram contratados para tomar conta de um rebanho nos arredores de uma montanha. O tempo passa, ambos constituem família em suas respectivas cidades, se reencontrando raras vezes mas mantendo o sentimento que os uniu. Sentimento transmitido pelas grandes atuações dos protagonistas, em especial Heath Ledger, que se mostrou uma revelação. Tímido e introspectivo, Ennis Del Mar esconde seus sentimentos por trás de uma carapaça de músculos e brutalidade. Tudo isso apresentado como um western pra John Ford ou Sergio Leone nenhum botar defeito - a não ser que eles não deixassem de lado alguns preconceitos.
Nota: 9,5/ 10
3. O Leopardo (Il Gattopardo, 1963)
Eu tava planejando um especial de filmes antigos que receberam restaurações incríveis pra esse mês, mas não deu pra fazer por enquanto. Um dos escolhidos era O leopardo, um dos épicos italianos mais conhecidos e aclamados pelo mundo. Centrado no príncipe italiano Fabrizio di Salina, conhecido como Il Gattopardo, a trama acontece na Sicília dos anos 1860, em meio à luta de Garibaldi pela Reunificação Italiana. O que se vê é uma verdadeira transformação na sociedade, já que várias pequenas monarquias deram lugar à uma grande monarquia onde a burguesia sobrepujava a nobreza. Essa mudança é vista a partir de Tancredi Falconeri (Alan Delon), rico comerciante que de repende se torna figura de prestígio e cuja filha (Claudia Cardinale) se torna el de ligação com a família Salina. Ao longo de três horas de filme o espectador se delicia com uma história monumental e inesquecível que ficou ainda melhor com sua perfeita restauração.
Nota: 10
4. All that Jazz (1979)
Se tem um diretor que me surpreendeu, esse cara é Bob Fosse. O ex-coreógrafo  que logo em sua estreia derrotou ninguém menos que Francis Ford Coppola no Oscar de direção de 1972 é o responsável por dois dos melhores musicais que já vi, Cabaret e All that Jazz. Este último, uma versão descontraída e politicamente incorreta de 8 1/2 de Fellini, acompanha o renomado coreógrafo Joe Gideon (Roy Scheider) atravessando uma crise de criatividade enquanto tenta criar um novo show, ao mesmo tempo em que começa a sentir dores no peito - e claro, as ignora, tomando doses e mais doses e whisky e pílulas de anfetamina. Joe, alter-ego de Fosse, rouba a cena nesse vibrante e imaginativo filme, seja bolando coreografias, gritando com toda sua equipe ou flertando com todas as mulheres que vê, até mesmo numa mesa de cirurgia. Tão inesquecível quanto o épico Apocalypse now, do mesmo ano, All that Jazz também foi ofuscado na premiação por Krammer vs Krammer, mas ainda hoje persiste como um dos mais criativos filmes dos anos 70.
Nota: 10
5. Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957)
Um dos melhores e mais conhecidos filmes de Ingmar Bergman também é um dos mais influentes. Em filmes como Desconstruindo Harry de Woody Allen podemos ver traços da imortal história de um médico e professor universitário, Isak Borg (Victor Sjöström), que viaja de Estocolmo a sua cidade natal de carro para receber uma homenagem. Um dia na estrada junto de sua nora e uns jovens caroneiros fazem o velho Isak relembrar sua juventude, seu amor por uma prima e pensar em sua vida, mergulhada no trabalho, cheia de decepções, além de pensar na própria mortalidade - tema que inicia o filme, quando Isak tem um sonho sombrio. Coroado no Festival de Berlim com Urso de Ouro (melhor filme) e prêmio de melhor ator para Sjöström, Morangos Silvestres permanece atual e vivo entre sua enorme legião de fãs.
Nota: 10

Luís F. Passos

terça-feira, 8 de abril de 2014

A Árvore da Vida - genial ou prepotente?

De tanto falar de Melancolia (2011) aqui no blog acabei falando algumas vezes da polêmica criada por Lars von Trier em Cannes em seu lançamento, na consequente expulsão do diretor do festival e na talvez consequente vitória de A Árvore da Vida, que faturou a Palma de Ouro. Mas hoje vou tentar ao máximo evitar esse assunto, já que sou muito suspeito pra falar dele pois Melancolia ainda é meu filme favorito, e me prender ao filme de Terrence Malick.
A Árvore da Vida muito resumidamente traz Jack (Sean Penn), um homem de meia-idade que provavelmente é empresário provavelmente lembrando sua infância no seio de uma família conservadora liderada por um pai rígido (Bradd Pitt), que demonstrava o imenso amor que tinha pela esposa e pelos três filhos de um jeito que ele achava certíssimo - opinião completamente diferente da de  Jack, que era o mais velho. A ideia de "o homem da casa", ao lado de comportamento estritamente católico, visto por todos como exemplo de pai de família, traz consigo a figura autoritária e quase despótica, que é a mais forte e traumática lembrança da infância do primogênito.
Mallick traz aqui imagens lindas, numa fotografia de tirar o fôlego, acompanhando o crescimento de Jack e seus irmãos. Mas aí vem o início do problema. As imagens são uma coisa soberba, mas falta elos entre cenas - se é que se pode chamar de cenas. É quase uma bagunça. Mas bagunçado mesmo parece o corte aos 17 minutos de filme, quando é mostrado (supostamente) o big bang, surgimento da Terra, asteroides caindo às centenas no planeta, o esfriamento deste e consequente surgimento das primeiras moléculas, células e depois primeiros seres pluricelulares, os primeiros animais terrestres, dinossauros... enfim, o que me levanta a dúvida se tô vendo um filme ou documentário da BBC que a Globo ama exibir. Acontece que há a proposta de se incluir muitos temas no filme, mas todos são tratados com excessiva superficialidade, exceto talvez a relação entre Jack e o pai. Porque boa parte das duas horas do longa são árvores a partir de câmeras que giram, a leveza de tecidos esvoaçando ao vento, a mãe (Jessica Chastain) e seus filhos rodopiando na grama (que parece ser uma fixação constante na obra do diretor) e outras coisas que o deixam etéreo e tiram a paciência de boa parte dos que o viram. Claro, muitos o adoraram, viram nele reflexões sobre a vida, infância, a condição humana dentro do universo... mas francamente, é difícil ver assim logo de cara. Isso porque A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011) não tem consistência suficiente para tanto. Pra mim ele é demasiadamente pretensioso, muito vago e não chega a lugar nenhum, porque nem mesmo o Jack adulto vivido por Sean Penn é consistente; apenas a tristeza e o cansaço são aparentes em seu rosto.
Mas nem tudo é deficiente no filme. Além da fotografia extraordinária, Bradd Pitt faz um ótimo trabalho, dentro das limitações da personagem, e Jessica Chastain foi lançada depois desse filme - estrelando, um ano depois, A hora mais escura, pelo qual foi indicada a melhor atriz no Oscar.
E respondendo à pergunta do subtítulo: o filme é prepotente. Mais parece alguém tentando abraçar o mundo com as pernas e falar de tudo... sem chegar a nada.

Nota: 6,0/ 10

Leia também: Terra de ninguém

Luís F. Passos

segunda-feira, 31 de março de 2014

Inside Llewyn Davis - a odisseia de um fracassado

Quando Cannes anunciou seus vencedores no fim de maio passado, todos os olhares se voltaram para Azul é a cor mais quente, que até hoje tem grande repercussão e aparentemente lançou uma estrela, Adèle Exarchopoulos. Mas quem mais me chamou a atenção foi o "segundo lugar", o vencedor do Grande Prêmio do Júri, Inside Llewyn Davis - tanto pelo título pra lá de cool tanto pelos roteiristas e diretores, Ethan e Joen Coen. Os irmãos que mudaram a cara do cinema dos anos 80 e que de lá pra cá fizeram a alegria de muitos fãs com filmes como Barton Fink (vencedor da Palma de Ouro), Fargo (melhor direção em Cannes) e Onde os fracos não têm vez (Oscar de melhor filme), além de outros grandes sucessos e alguns outros não tão bons assim. O fato é que desde a exibição de Inside Llewy Davis no festival ano passado, o novo trabalho dos Coen fez barulho e não foi surpresa o destaque na premiação.
Llewyn Davis (Oscar Isaac) é um músico que vaga pelo Village, tradicional bairro da boemia novaiorquina, sem destino, sem dinheiro e sem perspectivas, voltando vez ou outra a se apresentar num pequeno bar buscando alguns trocados. Em suma, ele é um fracassado, figura que os Coen sempre souberam criar muito bem. A fotografia marcada por tons sombrios é um convite à introspecção no passeio pelo interior de Llewyn, que é representado pelas várias personagens do filme. A começar por Jean (Carrey Mulligan), que nutre por ele um ódio imenso e desprezo maior ainda, e é um reflexo da rejeição que Llewyn sente por si próprio e pelos outros; Jim (Justin Timberlake), seu marido, possui o que o outro não tem: um teto, um contrato, e a própria Jean. Outras figuras são um caipira militar que tem o talento folk que Llewyn jamais terá e seu idoso e caquético empresário, que está tão decadente quanto seu pobre cliente.
Apesar de ser um zé ninguém, Llewyn Davis não deixa de lado uma arrogância que somada ao desdém de quem parece sempre estar incomodado com o lugar em que se encontra é a fórmula perfeita para ser desagradável até a quem lhe estende a mão, como o casal Gorfein, seus amigos que são como uma mostra de seu lado intelectual, além de serem pais de seu falecido parceiro de trabalho. 
O maior destaque do filme é a música, mesmo tendo outros tantos ótimos atributos. Por exemplo, apesar de não ser um musical, algumas músicas parecem substituir diálogos, como na cena em que ele visita seu velho pai num asilo ou quando fica de frente a um importante produtor e canta algo não muito vendável. Além, claro, do fato das músicas serem ótimas, principalmente Hang me, oh hang me, cantada por Llewyn no início do filme (e desde já se anunciando um fracassado) e Five hundred miles, cantada por Jean, Jim e Troy (o caipira), quase um hino sobre a solidão de Llweyn e uma mostra dos múltiplos talentos de Carrey Mulligan.
Mas o que até hoje me intriga sobre Inside Llewyn Davis: Balada de um homem só (Inside Llewyn Davis, 2013), é como ele consegue ser tão bom  e tão aprofundo por trás da aparente simplicidade. A solidez do roteiro é notória e a direção dispensa comentários, assim como o elenco, em especial Oscar Isaac. O ator que já fora cantor abrilhanta essa homenagem ao folk baseada em Dave Von Rock, guru de ícones como Bob Dylan e Joan Baez que acabou não atingindo fama internacional como seus pupilos mas soube deixar sua marca no Village. Muitos dizem que a semelhança entre Llewyn e Von Rock vai pouco além da música, enquanto alguns poucos destoam e afirmam que o cantor real também possuía o dom de ser desagradável e pouco confiável. Mas o fato é que Llewyn consegue ser carismático (e seu fracasso rende boas doses de humor) para o espectador, apesar de seu maior vínculo no filme ser com um gato laranja, praticamente o único elemento de cor viva na atmosfera lúgubre desta balada de um solitário.

Nota: 10

Luís F. Passos

quarta-feira, 26 de março de 2014

O Sétimo Selo - Bergman para a imortalidade

O filme que inicialmente imortalizou Ingmar Bergman como um dos melhores e mais criativos cineastas de todos os tempos representou uma grande mudança na temática e na postura dos filmes à época de seu lançamento. Em 1957, o cinema europeu ainda não havia chegado a seu ápice de criatividade e o cinema americano vivia num comodismo quase irritante – lembrando que a década de 50 não traz, necessariamente, nada de muito novo quando em comparação ao que havia sido apresentado na década interior – e foi neste cenário que o diretor propôs uma temática jamais trabalhada pelos grandes cineastas da época: a questão da mortalidade.
Um filme genuinamente mórbido e sombrio, O sétimo selo literalmente propõe um jogo de morte e vida, não apenas materializado na óbvia referência que é o jogo de xadrez entre um cavaleiro em suas últimas (Max Von Sydom) e, literalmente, a morte em sua personificação mais obscura e, ao mesmo tempo, humana o possível. A Morte (vamos colocar maiúsculo mesmo, interpretada pelo grande Bengt Ekerot) literalmente segue todas as personagens do longa, acompanha seus passos e espera pacientemente seu momento de levá-los em sua dança sombria. Para intensificar essa questão da presença opressiva da mortalidade e nossa incapacidade de driblá-la, Bergman transporta sua história para um dos cenários mais terríveis da história da humanidade: o período da Peste Negra que assolou todo o continente europeu. Desta forma, personagens principais, coadjuvantes ou mesmo figurantes são figuras extremamente melancólicas, temerosas e tensas que tem total percepção de seu fim eminente e de sua incapacidade de evitá-lo. Sendo assim, o filme ainda adquire um caráter bem apocalíptico, com uma visão muito reforçada de: o fim está próximo. Para mim, para você e para todos nós.
Além de colocar em foco seu próprio medo do desconhecido enfrentado pelo processo de morrer, Bergman também abusa de uma de suas temáticas preferidas: religião. Este também não é um tema muito fácil de tratar e pouquíssimos filmes do período ousavam esboçar críticas ou questionamentos à presença divina. Pois Bergman o faz. O filme é uma mistura entre uma visão extremamente religiosa (cristã) de vida e morte, de pecados e sacrifícios com a audácia de propor um contraponto: e se nossa existência em vida for a única coisa que temos? E se o nome que entoamos como Deus for apenas uma súplica a algo que não existe? Se não há um significado espiritual para nossa existência, qual a razão de viver em si? Uma visão muito amarga de um ponto de vista que, em termos de atualidade, faz-se muito presente nas artes em geral, mas que até então não havia sido muito bem difundido na sétima arte. O ponto de vista cristão é tão esmiuçado quanto em todos seus aspectos, tanto os mais agressivos e negativos quanto os mais esperançosos. Da mesma forma que as figuras religiosas são cruéis e ignorantes e há tantas pessoas se castigando em seu desespero por uma salvação (que não vai vir) também há a religiosidade de uma forma mais pura. Há até uma referência ao que poderia ser uma Sagrada Família, digamos assim, que, não por acaso, aparenta ser a mais próxima de uma salvação num sentido mais concreto da palavra. Bergman é famoso por ter passado por uma rigorosa e opressiva educação religiosa e a temática cristã faz-se valer em outros filmes de sua filmografia. Em A fonte da donzela ele literalmente usa tons alegóricos não tão discretos para narrar a passagem de uma Suécia pagã para a doutrina cristã nos períodos iniciais da Idade Média.
Nem tudo é depressão em O sétimo selo e o filme estranhamente tem muitos momentos leves e descontraídos. Também não por acaso, estes momentos provavelmente estão aqui para tornar a temática central ainda mais séria e profunda, dando um contraste interessante. Falando em contraste, este também traz inovações técnicas notáveis, sobretudo no que diz respeito à bela e pesada fotografia que em muitos momentos altera entre escuros profundos de perdição e iluminações precisas de salvação. Detalhe, não é assinada por Sven Nykvist, o fotógrafo imortal da obra de Bergman que participou de filmes reconhecidos por sua fotografia, entre muitos outros fatores, como Gritos e sussurros e Fanny e Alexander.

Nota: 10

Leia também:
Morangos silvestres
Persona

Lucas Moura

domingo, 23 de março de 2014

A Caverna - a indústria das sombras

A escolha de hoje foi muito especial, porque se trata de um dos meus livros favoritos, do igualmente favorito José Saramago. Dispensa apresentações esse que foi um grande escritor, ensaísta, poeta, dramaturgo, contista, um dos maiores responsáveis pelo destaque da literatura portuguesa. Publicada no ano 2000, A Caverna é apenas uma pincelada no grande mural composto por suas obras.
De modo sucinto, trata-se da vida de um oleiro, Cipriano Algor, sua filha e ajudante Marta e seu genro Marçal. Logo no começo da trama, o Centro, uma espécie de shopping-cidade, para quem Cipriano fornecia as louças, cancela as encomendas, uma vez que os clientes preferem as de plástico, deixando sem emprego a terceira geração de oleiros e deixando Marçal, funcionário do Centro, responsável pela família. A partir daí, temos a tentativa de salvar a olaria, a possibilidade de promoção de Marçal, com a consequente mudança da família para dentro do Centro, e todos os dramas existenciais acerca da relação de pais e filhos, marido e mulher, o ser e sua função, a morte, a vida.
“Então não percebo porque foram precisos tantos rodeios, Porque gosto de conversar consigo como se não fosse meu pai, gosto de fazer de conta, como diz, de que somos simplesmente duas pessoas que se querem muito, pai e filha, que se amam porque o são, mas que igualmente se quereriam com amor de amigos se o não fossem.” 
“A véspera é o que trazemos a cada dia que vamos vivendo, a vida é acarretar vésperas como quem acarreta pedras, quando já não podemos com a carga acabou-se a transportação, o último dia é o único a que não se pode chamar véspera.” 
“Diz-se que cada pessoa é uma ilha, e não é certo, cada pessoa é um silêncio, isso sim, um silêncio, cada uma com o seu silêncio, cada uma com o silêncio que é.”
Pessoas simples, estamos falando de gente que tem apelidos por sobrenomes, que vivem em um lugar pardo do campo, longe da cidade, que tem uma amoreira a dar sombra no meio do quintal e que faz da lama o sustento. Sobre o local onde vivem, vale a pena destacar o trecho que o retrata:
“Diz-se que a paisagem é um estado de alma, que a paisagem de fora a vemos com os olhos de dentro, será porque esses extraordinários órgãos interiores de visão não souberam ver estas fábricas e estes hangares, estes fumos que devoram o céu, estas poeiras tóxicas, estas lamas eternas, estas crostas de fuligem, o lixo de ontem varrido para cima do lixo de todos os dias, o lixo de amanhã varrido para cima do lixo de hoje, aqui seriam suficientes os simples olhos da cara para convencer a mais satisfeita das almas a duvidar da ventura em que supunha-se comprazer-se”
E a beleza do livro jaz principalmente nesse ponto, pois ao mesmo tempo temos as discussões mais elevadas, tudo em tom muito poético, mostrando toda a sabedoria que nasce da humildade.
“Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a te mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação da aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa improvável de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida (...) Puro engano de inocentes e desprevenidos, o princípio nunca foi a ponta nítida e precisa de uma linha, o princípio é um processo lentíssimo, demorado, que exige tempo e paciência para se perceber em que direção quer ir, que tenteia o caminho como um cego, o princípio é só o princípio, o que fez vale tanto como nada.”
Logo na epígrafe, lemos o que seria um resumo das sensações provocadas pelo livro:
“Que estranhas cenas descreves e que estranhos prisioneiros, São iguais a nós.”
Realmente não dá para não se identificar com esses simples personagens, para não se sensibilizar com seus dramas, para não se angustiar com o crescente papel do Centro a determinar as suas vidas. Afinal, não somos todos reféns de algo/alguém?
Aliás, o Centro funciona como um personagem a parte. Nas palavras do autor, é mais bem definido como “uma cidade dentro da cidade”. Com 48 andares, cresce todos os dias “senão para os lados, para cima, senão para cima, para baixo” possui, além de lojas, tudo de montanha russa a cassino, praias a teatros. E é sufocante a influência exercida por ele sobre a cidade, de modo tão arbitrário e demagógico, é menos um local que uma entidade. Algo que fica perfeitamente claro nesse diálogo entre Cipriano e o gerente de compras do Centro:
“Será o caso de proclamar que o Centro escreve direito por linhas tortas, se alguma vez lhe sucede ter de tirar com uma mão, logo acode a compensar com a outra, Se bem me lembro, isso da linhas tortas e de escrever direito por elas era o que se dizia de Deus, observou Cipriano Algor, Nos tempos de hoje vai dar praticamente no mesmo, não exagerarei nada afirmando que o Centro, como perfeito distribuidor de bens materiais e espirituais que é, acabou por gerar de si mesmo e em si mesmo, por necessidade pura, algo que, ainda que isto possa chocar certas ortodoxias mais sensíveis, participa da natureza do divino.”
Essa associação com a Criação é feita, ainda, com o próprio Cipriano. Depois de perder o contrato das louças, passará a fabricar estatuetas e tal qual a história bíblica, a partir do barro, à sua imagem e semelhança. O mesmo sopro que deu vida às narinas humanas, retiraria o pó dos bonecos saídos do forno e as mesmas mãos que os fizeram, também os destruiria. Uma das passagens mais bonitas se encontra no final, quando também aos bonecos o Centro rejeita e finalmente Marçal é promovido, com a consequente mudança da família ao Centro, Cipriano arruma todos as centenas de bonecos em frente à casa, não só para proteger a esta mas para devolver à terra o que dela foi originado:
“Com a chuva, tornar-se-ão em lama, e depois em pó quando o sol a secar, mas esse é o destino de qualquer um de nós” 
“Então, como se estivesse a um nascimento, segurou entre o polegar e os dedos indicador e médio a cabeça ainda oculta de um boneco e puxou para cima. Calhou ser a enfermeira. Sacudiu-lhe as cinzas do corpo, soprou-lhe na cara, parecia que estava a dar-lhe uma espécie de vida, a passar para ela o hausto dos seus pulmões, o pulsar de seu próprio coração.”
Essa relação de hierarquia e outras mais vão ser sempre retomadas no livro: os bonecos e Cipriano, este com o sub-chefe do departamento de compras, este com o chefe do departamento, mas acima de todos, o Centro. É fácil compreender a angústia do nosso herói, afinal, é uma pessoa cuja função se confunde com o seu próprio ser. Com 74 anos, perde seu papel de provedor e ainda tem de viver sob o teto de quem o subjugou.
“Como tudo na vida, o que deixou de ter serventia deita-se fora, Incluindo as pessoas, Exatamente, incluindo as pessoas, eu próprio serei atirado fora quando já não servir, O senhor é um chefe, Sou um chefe, de facto, mas só para aqueles que estão abaixo de mim, acima há outros juízes, O Centro não é um tribunal, Engana-se, é um tribunal, e não conheço outro mais implacável, Na verdade, senhor, não sei porque gasta seu precioso tempo a falar destes assuntos com um oleiro sem importância, Observo-lhe que está a repetir palavras que ouviu de mim ontem, Creio recordar que sim, mais ou menos, A razão é que há coisas que só podem ser ditas para baixo, E eu estou em baixo, Não fui eu quem lá o pôs, mas está, Ao menos  ainda tenho essa utilidade, mas se a sua carreira progredir, como certamente sucederá, muitos mais irão ficar abaixo de si, Se tal acontecer, o senhor Cipriano Algor, para mim, tornar-se-á invisível, Como o senhor disse há pouco, assim é a vida”
Dois personagens ainda merecem destaque, qual sejam Isaura Estudiosa, uma vizinha viúva com quem Cipriano se envolverá emocionalmente da maneira mais terna e profunda, e o cão Achado. Menos um cão que um humano, a sensibilidade desse animal transcende sua natureza. É interessante ver por sua perspectiva como a natureza humana pode ser confusa, incoerente ou pelo menos complicada.
“Decerto por estar no tenro verdor da mocidade, Achado não teve ainda tempo de adquirir opiniões formadas, claras e definitivas sobre a necessidade e o significado das lágrimas no ser humano, no entanto, considerando que esses humores líquidos persistem em manifestar-se no estranho caldo de sentimento, razão e crueldade de que o dito ser humano é feito, pensou que talvez não fosse desacerto grave chegar-se à chorosa dona e pousar-lhe docemente a cabeça nos joelhos. Um cão mais idoso, e por essa razão, supondo que a idade está obrigada a suportar culpas duplicadas, mais cínico do que o cinismo que não pode evitar ter, comentaria com sarcasmo o afectuoso gesto, mas isso deveria ser porque o vazio da velhice o teria feito esquecer-se de que, em assuntos do coração e do sentir, sempre o demasiado foi melhor que o diminuído. (..). A partir deste dia, Marta vai querer tanto ao cão Achado como sabemos que já lhe quer Cipriano.”
Já morando no Centro, vai-se desenrolar o estranho enredo em que se baseará o título do livro, com inspiração no Mito da Caverna, de Platão. Em um mundo de vitrines, envolver-se-ão com o Centro a tão ponto de confundir a realidade com seu reflexo: respirando apenas o ar do sistema refrigeração, frequentando praias artificiais, chuva apenas a gerada por simuladores. Sem spoillers, o que acontecerá obrigará a família Algor a repensar suas vidas e nós, as nossas. Apenas um teaser:
“Que foi que viu, quem são essas pessoas, Essas pessoas somos nós, disse Cipriano Algor, Que quer dizer, Que somos nós, eu, tu, o Marçal, o Centro todo, provavelmente o mundo”
Quem não é familiarizado com a escrita de Saramago, deve estar a estranhar um pouco os trechos. Sem pontos, travessões, os diálogos ocorrem em linha contínua, sendo marcados pela presença de uma primeira letra maiúscula. Longe de ser confuso, torna o texto fluido; isso facilitado pelo encadeamento perfeito de ideias. O livro todo ocorre como a melhor conversa que você jamais vai travar.
Primeiro livro depois de vencer o Nobel de Literatura de 1998, é o ideal para quem procura um enredo com forte cunho filosófico, a discutir a humanidade, as relações sociais, o consumo, a economia, a espiritualidade. Nas palavras do autor, não tenha pressa, mas não perca tempo.

Nota: 10

Marcelle Vieira Freire

sexta-feira, 21 de março de 2014

Filmes pro final de semana - 21/03

1. 12 anos de escravidão (12 years a slave, 2013)
Terceiro ano seguido em que a seleção de filmes que disputaram a categoria principal do Oscar não me entusiasmou muito. Dos nove filmes desse ano, poucos tinham força suficiente para dar a impressão de que serão lembrados por mais uns anos, dentre eles o vencedor, 12 anos de escravidão. Acompanhando Solomon Northup, negro livre que fora sequestrado e vendido como escravo, o filme consegue ser mais que outra história sobre o trabalho escravo nos Estados Unidos. Primeiro, pelo seu realismo que chega a ser impressionante, como nas cenas de castigos com chicotes ou até mesmo quando um pesado pote de vidro é jogado na testa de uma personagem. Além disso, a história é muito bem amarrada e a direção igualmente boa, coroada com o desempenho formidável do elenco, cujo maior destaque é a coadjuvante Lupita Nyong'o, vencedora do Oscar e (Deus queira!) mais uma promessa da nova geração.
Nota: 9,0/ 10
2. A rede social (The social network, 2010)
Falando em Oscar, lembrei do ano que talvez foi o mais forte do século 21 no que diz respeito à lista de indicados a melhor filme - apesar de um dos mais fracos ter vencido. Entre as melhores opções, A rede social, talvez o melhor trabalho de David Fincher desde Clube da luta (1999). Pra quem ainda não viu, uma frase resume tudo: não é só um filme sobre a criação do Facebook. Na verdade, o nascimento de um dos maiores sites do mundo é só o plano de fundo para Fincher explorar o que se passa na mente dos jovens de uma geração brilhante que soube muito cedo o que é fama, poder, dinheiro, mas obviamente pagou um preço por isso. É como diz um dos mais conhecidos pôsteres do longa: você não ganha quinhentos milhões de amigos sem fazer alguns inimigos. É fato conhecido a briga entre Mark Zuckerberg e o brasileiro Eduardo Saverin, co-criadores do site, antes colegas de quarto em Harvard, depois que o Facebook ganhou fama e começou a render dinheiro. Fim de uma grande amizade, início de uma era. A era Facebook.
Nota: 9,5/ 10
3. Ligações Perigosas (Dangerous Liaisosons, 1988)
Esqueça a ideia de que filmes de época devem retratar belas histórias de amor ou intensos conflitos políticos, ou mesmo guerras. O negócio aqui é bem mais sujo. A Marquesa de Merteuil (Glenn Close), ícone de riqueza e beleza, é miserável em termos de escrúpulos. Junto do igualmente charmoso e mau caráter Visconde de Valmont (John Malkovich), ela se diverte seduzindo corações inocentes visando roubar-lhes a virtude e a honra, humilhando as vítimas depois de usá-las. A sordidez do hobby dessa desprezível dupla é posta à prova quando eles escolhem como vítima a jovem Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), cujo marido partiu numa longa viagem de trabalho. O filme serve como uma rica fonte de estudo comportamental e psicológico de suas personagens, abrindo espaço para o espectador observar os costumes e vícios da nobresa francesa no século 18, no seu mesquinho jogo de aparências e interesse.
Nota: 10
4. Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988)
Italianos... ô povinho pra saber fazer filme bom! A Itália deve ser a maior vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro (depois confiro a informação), além de ser berço de alguns dos maiores cineastas da história, como Fellini, Antonioni, De Sicca, Leone, entre outros. Ente os italianos vencedores do Oscar, um dos mais queridos é o emocionante Cinema Paradiso, a bela história de Salvatore, um pobre garoto do interior apaixonado por cinema que cria uma forte amizade com Antonio, o projetor do pequeno cinema local. Salvatore, conhecido como Totó quando pequeno, costumava espiar da sala de projeção enquanto o padre censurava as cenas de beijo, e assim nasceu sua paixão pelo cinema. O brilho nos olhos de Totó é o mesmo brilho de qualquer criança (ou alguém que preserve o fascínio de uma criança) diante de um telona - e é apenas um de muitos aspectos positivos e emocionantes do filme. Um filme recente que se assemelha a Cinema Paradiso é A invenção de Hugo Cabret, especialmente seu protagonista, quase uma personificação da infância de Scorsese.
Nota: 9,5/ 10
5. O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1941)
Humphrey Bogart, um dos maiores símbolos do cinema clássico e astro de Casablanca dá vida ao detetive Sam Spade, nesse que é considerado o pioneiro do cinema noir. Procurado por Brigid O'Shaughnessy (Mary Astor), que afirma procurar sua irmã caçula, Sam acaba entrando numa caçada milionária em busca de uma misteriosa estátua de ouro e pedras preciosas que havia sido dada pelos Templários ao rei espanhol Carlos V e que nunca encontrou seu dono. Desaparecido por quatrocentos anos, o valioso Falcão Maltês estaria em posse de alguém próximo a Brigid, e também na mira de pessoas como Joel Cairo e Kasper Gutman, que não medem esforços para conseguir a estátua nem se preocupam com quem se interpuser em seu caminho. Cabe a Sam julgar quem mente e quem fala a verdade, além de se equilibrar na instável corda bamba que é o jogo de interesses daqueles que querem o falcão. Cinema clássico de primeiro nível.
Nota: 9,5/ 10

Luís F. Passos

sábado, 15 de março de 2014

Livros para Março

1. Leite derramado (Chico Buarque, 2010)
Não sei porque, mas sempre que penso em Leite derramado lembro de Olhos nos olhos, música que também é da autoria de Chico. As duas não têm relação alguma, a não ser que o "quando você me deixou, meu bem" seja por parte da família no narrador protagonista falando ao dinheiro e poder que tinha. Eulálio Assumpção narra, de seu leito num hospital público, na caduquice de seus cem anos, como o prestígio social de sua família se acabou ao longo de décadas, apesar de uma longa tradição que conta com um ancestral conselheiro de D. Maria I, o avô senador do Império e o pai, outro importante parlamentar na República Velha. Mas a partir de Eulálio, que não mostrou aptidão alguma na política, os bens e o status se esvaíram e quase tudo permaneceu apenas nas memórias incertas de uma mente vítima do Alzheimer. A narração feita em primeira pessoa é muitas vezes repetitiva ou confusa, artifícios de Chico Buarque para intensificar a senilidade de seu protagonista, nesse que é um dos maiores trabalhos sobre decadência social e perda de valores.
Nota: 9,5/ 10
2. O vendedor de armas (Hugh Laurie, 1996)
Quem lê O vendedor de armas pensa que o narrador é o lendário médico Gregory House, imortalizado na pele do britânico Hugh Laurie - mas o livro foi lançado oito anos antes do início da série. Digo isso porque a obra, narrada em primeira pessoa por um ex-militar de elite, é um mar de sarcasmo e de tiradas engraçadíssimas, do jeito que o médico mais antipático do mundo gosta. Thomas Lang, o ex-militar em questão, resolve fazer uma boa ação e salvar a vida de um cara que ele nunca viu, mas descobre que isso era apenas uma isca que o prendeu num plano mirabolante pra teoria conspiratória nenhuma botar defeito. Uma história meio impossível que conquista o leitor por ser tão brilhante, envolvente e pelo humor muito aguçado (ou mesmo pouco ortodoxo) do protagonista.
Nota: 9,5/ 10
3. O Tempo e o Vento - O Continente (Erico Verissimo, 1949)
Aproveitando que estou falando de livros que estão entre meus favoritos (e que já foram temas de textos aqui no blog), muito oportuno eu recomendar o primeiro livro (dividido em dois volumes) da trilogia de Erico Verissimo que se tornou uma cartilha da história do povo gaúcho. Em O Continente, atravessamos quase duzentos anos de história, desde as missões jesuíticas de Sete Povos, extintas depois do Tratado de Madri (1715), até a Revolução Federalista no fim do século 19, passando pelas inesquecíveis figuras de Ana Terra, do capitão Rodrigo Cambará e sua esposa Bibiana, ícones dos pampas; a mulher que passa a vida a trabalhar e esperar pelos homens da família (quase sempre esperando que eles voltassem das guerras) e o homem valente que dá um boi para entrar numa guerra e uma boiada para não sair dela enquanto não restasse pedra sobre pedra. Estruturado de uma forma que une permanentemente o passado ao presente (no caso, a Revolução), o livro prende o leitor à saga da família Terra-Cambará e prepara o terreno para os dois livros seguintes, que acompanham o bisneto de Rodrigo e Bibiana, que também se chama Rodrigo.
Nota: 10

Luís F. Passos