domingo, 2 de outubro de 2016

Apenas uma noite - fidelidade

Uma vida conjugal pode ser tudo, menos fácil. Apenas uma noite (Last night, 2010) – como o nome já deixa bem claro – se desenvolve basicamente em torno de uma noite que pode mudar completamente a dinâmica de um casamento de quatro anos entre um jovem casal vivendo na cidade de Nova York. Dentro destas poucas horas e separados por quilômetros de distância, Joanna (Keira Knightley) e Michael (Sam Worthington) vão colocar à prova o amor que sentem um pelo outro, valores próprios de lealdade e companheirismo e os pilares que sustentam seu relacionamento quando se encontram – justamente em um momento de leve fragilidade conjugal – envolvidos por tentações fora do matrimônio. Ele, em meio aos encantos de uma atraente companheira de trabalho (Eva Mendes), juntos numa viagem a trabalho. Ela, no surpreendente reencontro com um antigo namorado (Guillaume Canet) que reacende um honesto sentimento.


O filme passeia, então, ao longo de lentos (mas não tediosos) 90 minutos em torno dos sentimentos destas quatro personagens e nos delicados laços que as une. A temática central, dentro do grande espectro de ser um filme de romance sobre o funcionamento de um casamento em si, é mesmo a fidelidade e questões diversas envolvidas no peso que se dá a mesma dentro de um casamento. Sem fazer julgamentos morais, este é um filme mais observador que não propõe nenhuma resposta definitiva, apenas se desenrola em torno das ações de cada personagem.

Lotado de toques de leveza e diálogos corriqueiros, é difícil também não se sentir em nenhum momento próximo ao drama das personagens, especialmente em relação à Joanna, cuja personalidade é a melhor trabalhada na trama e que mantém (de longe) o eixo mais interessante da mesma. Sem que se levante qualquer julgamento, e a depender de quem assiste, o filme é capaz de evocar bastante empatia, identificação e até algumas doses de nostalgia. Não necessariamente dos fatos em si, mas dos sentimentos envolvidos. Seria muito interessante, e acredito que tornaria o filme melhor, se o eixo de Michael fosse bem trabalhado também. Este lado da trama beira o desinteressante e não tem nem metade do aspecto sentimental da outra e acaba enfraquecendo o filme como um todo. Parte disso eu acredito que se deve à interpretação apática de Sam Worthington.

Nota: 7/10

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Lucas Moura

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Filmes pro final de semana - 16/09

1. Amor (Amour, 2012)
Vencedor da Palma de Ouro em 2012 e candidato ao Oscar em diversas categorias principais, Amor chamou mais ainda os holofotes para o cinema francês. Dirigido pelo austríaco Michael Haneke, conhecido pela sobriedade e simplicidade de seus filmes, Amor aborda o mais universal dos temas a partir de um casal de idosos, dois professores de música aposentados, em um amplo e confortável apartamento em Paris - praticamente o único cenário do filme. Quando Anne (Emanuelle Riva) sofre um derrame, em um momento chocante em que fica paralisada, seu companheiro de décadas Georges (Jean-Louis Trintignant) passa a tomar conta dela, num esforço enorme para alguém de sua idade. Anne vai aos poucos definhando, substituindo a outrora expressão viva e alegre por uma máscara mortuária, e ao mesmo tempo o longa se torna tenso a partir dos cuidados obstinados de Georges e sua preocupação com o futuro.
Nota: 10
2. Na Estrada (On the Road, 2012)
Baseado em um dos livros mais inspiradores do século XX, Na estrada acompanha o aspirante a escritor Sal Paradise (Sam Riley) e a sua vida depois de conhecer o vibrante e meio doido Dean Moriarty (Garett Hedlund), um poço de energia e carisma que se torna seu melhor amigo. Juntos e ao lado de outros amigos que compartilham a vontade de experimentar e conhecer o mundo, os dois vão e voltam pelas estradas americanas, muitas vezes de uma costa a outra, presenciando (e contribuindo com) o nascimento na contra cultura no fim da década de 40. Destaque para a presença de Kristen Stewart, que faz Marylou, a namorada de Dean, e que mesmo fumando maconha ou no meio de cenas de sexo continua com a cara de lerda; e Kirsten Dunst, que interpreta a esposa que Dean mantém em algum canto e como sempre é puro talento. Talvez por ser originado de um livro tão especial para quem o leu, dificilmente Na estrada será chamado de perfeito, mas eu reconheço sua alta qualidade.
Nota: 9,0/ 10
3. 127 horas (127 hours, 2010)
Um dos maiores destaques entre os grandes filmes do Oscar 2010/ 2011 foi o longa estrelado por James Franco e baseado na história real do alpinista Aron Ralston, que sofreu um acidente e ficou preso por uma pedra por mais de cinco dias numa fenda no Grand Canyon, tendo como companhia apenas uma câmera com a qual gravou pequenos depoimentos de seu infortúnio, um pequeno cantil com cada vez menos água e uma faca quase cega, com a qual seria quase impossível fazer o ato desesperado que poderia tirá-lo dali: cortar o próprio braço. Ao longo de noventa minutos de filme, vemos o ótimo trabalho de James Franco, que leva praticamente sozinho a história e transmite todos os sentimentos de Aron, principalmente o medo de morrer num buraco no meio do deserto. Excelente atuação que rendeu ao ator tudo que foi indicação, ao Oscar, Globo de Ouro, SAG, etc... mas tinha um Colin Firth em O discurso do rei no meio do caminho.
Nota: 9,0/ 10
4. Reencontrando a felicidade (Rabbit Hole, 2010)
Só quem já perdeu alguém próximo, seja parente, amigo ou outro ente querido sabe a dor que a morte pode causar. E essa dor tem fim? É essa a pergunta que Reencontrando a felicidade levanta a partir de um casal, Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart), que perdeu o pequeno filho num acidente de carro. Enquanto Howie tenta tocar a vida pra frente com o apoio de grupos e da fé, Becca parece rejeitar qualquer tipo de ajuda, ansiando apenas ficar sozinha com sua dor - a não ser pena estranha amizade que inicia com Jason, o garoto que dirigia o carro que atropelou seu filho. E ainda há a mãe de Becca, Nat (Dianne Wiest), que tenta ajudar a filha, já que também perdera um filho, apesar da relutância dela. E talvez, a dor nunca acabe, mas se torne possível de conviver. Ótimo filme, com maturidade e sensibilidade na medida certa, além de marcar a volta dos grandes trabalhos de Nicole Kidman.
Nota: 8,5/ 10
5. Memórias de uma Gueixa (Memoirs of a Gueisha, 2005)
Baseado no best-seller homônimo de Arthur Golden, o filme é extremamente fiel ao livro - e ótimo para ilustrar a beleza do Japão pré-Segunda Guerra, militarista, desenvolvimentista e onde as gueixas tinham importante papel na sociedade (ou a margem dela). Chiyo é uma garota pobre, filha de pescador, que perde a mãe e é vendida para uma casa de gueixas em Kyoto. Lá ela recebe a missão de aprender tudo para se tornar uma gueixa, como escrita, dança, música e etiqueta, e conhece aquela que se tornaria sua maior rival: Hatsumomo, uma linda e famosa gueixa que vê na pequena e desajeitada Chiyo um futuro problema. Mas fora dos problemas dentro da casa, Chiyo conhece um homem elegante e gentil, por quem se apaixona - e cujo destino voltaria a se unir ao dela. Nenhuma obra-prima, mas certamente um agradável e interessante filme sobre amor e a cultura oriental.
Nota: 7,0/ 10
Luís F. Passos

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cabaret - it's time for a holiday

Willkommen, bienvenue, welcome
Fremde, étranger, stranger
Glücklich zu sehen, je suis enchanté, happy to see you
Bleibe, reste, stay
Willkommen, bienvenue, welcome
Im Cabaret, au Cabaret, to Cabaret!
Mais uma vez falando de cinema dos anos 70, mais uma vez falando de musical, mais uma vez falando de musicais dos anos 70. Como falei anteriormente, são musicais ousados, com uma temática mais livre, muitas vezes abordando a sexualidade, principalmente a reprimida - vide The Rocky Horror Picture Show (1975). Mas a ousadia não se manifesta só assim. O fato de sair do ambiente doméstico dos anos 60 (tipo Mary Poppins ou A noviça rebelde) e descer pra zona, pro submundo, ou mesmo pros agitados bastidores de um show (como All that jazz em 1979) já simboliza uma mudança importante, dando um caráter muito mais realista e menos inocente ao cinema.
Leave your troubles outside!
So, life is disappointing?
Forget! In here... life is beautiful
The girls are beautiful
Even the orchestra is beautiful
Berlim, 1931. No delicado período entre guerras, a Alemanha ainda sofre as consequências da derrota na 1ª Guerra Mundial e os efeitos da crise econômica pós queda da bolsa de Nova York dois anos antes. Neste cenário que foi o terreno fértil para a ascensão do nazismo, somos apresentados ao professor inglês Brian Roberts (Michael York), que passará uma temporada na cidade dando aulas particulares de inglês. Brian vai morar numa pensão, onde conhece a dançarina americana Sally Bowles (Liza Minnelli), que canta e dança no Kit Kat Klub, uma das mais agitadas casas de show de Berlim. A pensão é decadente, todos seus moradores estão quebrados ("mas quem não está nos dias de hoje?", diz Sally), mas se mostra ótima devido ao preço e à agradável companhia de Sally.
Bye-Bye, mein Lieber Herr
Farewell, mein Lieber Herr
It was a fine affair,
But now it's over.
And though I used to care,
I need the open air
You're better off without me,
Mein Herr
Sally na verdade é prostituta, além de cantora e dançarina. A casa de shows onde ela trabalha, o Kit Kat Klub, é um espetáculo por si só. Como é descrito na abertura do filme, nele a vida é bela, as garotas são belas, até a orquestra é bela. É animado por um mestre de cerimônias (Joel Grey) que sabe como ninguém reger o show, por cinco cabaret girls ("todas elas virgens", diz o apresentador com um sorriso irônico), por uma banda totalmente feminina e por outros artistas, como malabaristas e ventríloquos. Mas voltando a Sally, seu grande sonho é se tornar atriz de cinema e deixar sua vida pobre e exaustiva para trás. Não que ela reclame do seu emprego e de suas condições; o próprio Brian passa a acreditar que Sally vive num estado de negação para não sofrer com os problemas.
Money makes the world go around
The world go around
The world go around
Money makes the world go around
That clinking clanking sound
Can make the world go 'round
Uma possível solução para os problemas de Sally aparece por acaso numa lavanderia, na forma do barão Maximillian von Heune (Helmut Griem), um milionário que se encanta pela dançarina e por Brian, que não nutre nenhuma simpatia pelo ricaço - pelo menos não no início. Sally entra num sonho regado a champanhe e nutrido por caviar no café, almoço e jantar. Brian aos poucos vai cedendo à gentileza do barão e descobrindo mais sobre sua sexualidade, que a própria Sally já vinha explorando.
Fatherland, fatherland, show us the sign
Your children have waited to see
The morning will come
When the world is mine
Tomorrow belongs to me
Um grande mérito de Cabaret (1972) é expor a ascensão do nazismo, principalmente a conivência do povo alemão, que mesmo discordando das ideias de Hitler, achava que o partido de extrema direita era um bem necessário para a eliminação do comunismo na Alemanha. Poucas vozes sensatas no filme, como Brian, se preocupam com o fortalecimento cada vez maior do nazismo e se perguntavam se o governo e a população seriam mesmo capazes de conter os nazistas depois que eles "cumprissem sua missão" de exterminar o comunismo. Além disso, há uma personagem judia no filme, a bela e rica Natalia Lindauer (Marisa Berenson), aluna de Brian que é seduzida por Fritz Wendel, um amigo de Sally em busca de uma fortuna para se encostar. Natalia sofre perseguições durante o filme, como a morte de seu cachorro ou o preconceito através de frases como "judeus só servem para juntar dinheiro". Acontecimentos inesperados na história já apontam que o nazismo não seria algo fácil de conter, como acreditava a maior parte dos alemães.
Start by admitting
From cradle to tomb
It isn't that a long a stay
Life is a Cabaret, old chum
It's only a Cabaret, old chum
And I love a Cabaret!
Houve quem achasse que Cabaret não seria um sucesso. "Quem quer ver um musical com nazistas?". Mas foi um sucesso, todo mundo quis ver. O filme foi indicado a oito Oscar, venceu seis, incluindo melhor diretor e melhor atriz. Derrotou Francis Coppola no prêmio de direção, no ano de O Poderoso Chefão, como já alardeei dezenas de vezes aqui no blog - mas realmente é algo que merece destaque. Vencer Coppola não é pouca coisa, e foi uma vitória justa (importante ressaltar, já que o Oscar tem suas pérolas), memorável. Basta ver a abertura para perceber quão bem dirigido é o filme, quão bem os números musicais funcionam e a entrega do elenco ao trabalho. Por mais que pareça clichê a história de uma prostituta que sonha em ser atriz, Cabaret não é banal. Sally realmente é talentosa e merece que seu sonho se torne realidade; por trás dela há o talento de Liza Minelli, que cantando e dançando fez um dos maiores trabalhos de atuação feminina da década. O sinistro Mestre de Cerimônias (que não tem nome e nem dialoga) é outro destaque, aparecendo como a personificação do Kit Kat Klub e rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante a Joel Grey. O filme realmente é uma festa, uma celebração da vida e a defesa de que a vida merece ser comemorada mesmo nos momentos difíceis, que é o caso do período entre guerras. After all, life is beautifil. The girls are beautiful. Even the orchestra is beautiful.
Auf Wiedersehen!
À bientôt!
 Nota: 10,0

Luís F. Passos

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Filmes pro final de semana - 09/09

1. Hoje eu quero voltar sozinho (2014)
Vamos começar com algo bem leve, bonito. Inspirado no curta-metragem Eu não quero voltar sozinho (2010), do mesmo diretor, o filme é centrado em Leonardo, jovem cego que convive com o bullying e a distância dos colegas de classe, contando com a amizade de apenas uma delas, Giovana. A chegada de um novo aluno, Gabriel, é o ponto de partida pra um processo de mudança, em que Leonardo toma consciência de sua sexualidade e passa a desejar a superação de barreiras que lhe são impostas devido a sua deficiência visual. O resultado é um filme muito bacana e sensível, reconhecido até no Festival de Berlim.
Nota: 8,0/ 10
2. Tudo pelo poder (The Ides of March, 2011)
Sou muito fã deste que é o quarto filme dirigido por George Clooney. Ambientado no famigerado e complexo sistema político estadunidense, Tudo pelo poder acompanha a pré-candidatura do governador Mike Morris à presidência dos Estados Unidos, mais exatamente os bastidores da campanha, onde trabalham o coordenador Paul Zara (Philip Seymour-Hoffman) e seu subordinado, o idealista diretor de comunicação Stephen Myers (Ryan Gosling). Stephen acredita na retidão de seu candidato, mas vai descobrir que não há espaço para inocência no cenário político. Às vésperas das primárias de Iowa, primeiro e mais importante passo da corrida presidencial, descobertas feitas por Stephen provocarão reviravoltas na equipe de campanha e nele mesmo - afinal, o jogo não é para amadores.
Nota: 9,5/ 10
3. Histórias cruzadas (The Help, 2011)
Um dos mais queridos filmes da corrida ao Oscar de seu ano, Histórias Cruzadas traz o a questão racial na época da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos nos anos 60. Aibileen (Viola Davis) é a empregada da família de Elizabeth Leefolt, que teve depressão pós-parto e por isso deixou a criação da filha a cargo da empregada. Além do serviço pesado e da discriminação racial, Aibileen sofre a dor da perda de um filho que faleceu num acidente de trabalho. Sua melhor amiga é Minny (Octavia Spencer), empregada da família Holbrook, que tem como patroas uma senhora gentil e sua filha mimada e racista. Paralelo a elas, retorna à cidade a jovem Skeeter Phelan (Emma Stone), recém saída da faculdade e idealista, que ao perceber o drama das empregadas negras na cidade e motivada por uma ideia absurda de Hilly Holbrook decide escrever um livro com histórias contadas pelas empregadas. Skeeter se torna amiga de Aibileen e Minny, que serão suas maiores parceiras no desafio de reunir as outras domésticas negras da cidade. A bela história de luta (sim, por mais que não seja tão profunda) é contada de maneira leve, tem seus ótimos momentos de humor e também um lado mais emotivo. O grande mérito do filme está no elenco, liderado pela excepcional Viola Davis (indicada ao Oscar de melhor atriz) e pela igualmente talentosa Octavia Spencer (vencedora do Oscar de atriz coadjuvante).
Nota: 8,5/ 10
4. Um divã para dois (Hope Springs, 2012) 
A atriz mais amada dos Estados Unidos num filme feito para as senhoras que já passaram da meia-idade. Meryl Streep é Kay, dona de casa que depois de trinta anos de casamento com Arnold (Tommy Lee Jones) se vê preocupada por seu casamento estar numa permanente e fatal zona de conforto. Os filhos já estão criados e já saíram de casa, Arnold ainda trabalha como contador e ela cuida da casa. Dormem em quartos separados e há algum tempo já não sabem o que é o contato mais íntimo. Insatisfeita com a situação, ela junta as economias para pagar uma viagem ao Maine, onde se consultarão com um terapeuta. Esta agradável comédia romântica da melhor idade tem em Meryl Streep seu maior trunfo: nenhuma outra atriz seria tão perfeita para o papel já que além do talento que não é novidade, Meryl já interpretou outras mulheres com problemas conjugais em filmes muito populares, como As pontes de Madison.
Nota: 7,5/ 10
5. Rebecca, a mulher inesquecível (Rebecca, 1940)
Sim, essa é uma das mais ridículas adaptações de filmes estrangeiros. De um simples Rebecca,o clássico de Htichcock ganha um título de filme pornô. Mas vamos à história: Joan Fontaine dá vida a uma jovem que conhece o viúvo e milionário Maximillian de Winter (Laurence Olivier) e depois de um namoro breve, casa-se com ele. O conto de fadas começa a mudar quando eles vão morar juntos em Manderley, a imponente mansão à beira mar do ricaço. A governanta, sra Denvers, não demonstra nenhuma simpatia pela patroa, além de exibir a adoração pela falecida dona da casa, Rebecca. As visitas constantes do primo de Rebecca, Jack, também incomodam a jovem recém casada. A pressão dentro da casa e alguns fatos estranhos tornam o ambiente cada vez mais tenso, e a presença de Rebecca passa a assombrar a personagem de Fontaine - fenômeno paranormal, paranoia ou conspiração de inimigos? É o que Hitchcock revela aos poucos, neste seu inesquecível primeiro filme realizado nos Estados Unidos - e ÚNICO a ganhar Oscar de melhor filme. Como não era produtor, não teve seu nome na estatueta. Infelizmente, o Oscar que Hithcock ganhou foi honorário, no fim de sua carreira.
Nota: 9,5/ 10

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Livros para setembro

1. Cem anos de solidão (Gabriel García Márquez, 1967)
O mais famoso livro de Gabriel García Márquez traz a saga da família Buendía, fundadora do povoado de Macondo, através de um século, e acontecimentos como a praga da insônia, o retorno dos mortos, o desaparecimento de um trem cheio de trabalhadores, as chuvas que caíram sem cessar por anos, o tempo paralisado, a destruição da aldeia e toda a saga que estava previsto desde o início, na fundação. Loucura, guerra e amor são temas que se repetem ao longo das gerações da família que costuma repetir os nomes de seus homens (há vários Arcadios e Aurelianos). São raros os livros como Cem anos de solidão: cativante, intenso, apaixonante, e praticamente uma unanimidade pra quem o lê. É sem dúvidas um dos maiores ícones na literatura universal no século XX, sendo o principal responsável pelo prêmio Nobel de García Márquez e um dos maiores sucessos de venda da América Latina: mais de trinta milhões de exemplares traduzidos em trinta e cinco idiomas.
Nota: 10
2. O Guia do Mochileiro da Galáxia (Douglas Adams, 1979)
Um dos maiores títulos das ficção científica em todo o mundo, o primeiro livro de uma série de cinco (e talvez o melhor de todos) nos apresenta suas excêntricas personagens tendo como ponto de partida a demolição da casa de um dos protagonistas, o pacífico inglês Arthur Dent. Mas muito mais dramática que a derrubada de uma casa é a demolição da própria Terra, anunciada por Ford Prefect, que na verdade é um alienígena que está em nosso planeta para colher informações para o Guia dos Mochileiros da Galáxia, a mais completa fonte de informações do universo. A dupla consegue fugir a bordo de uma nave, e depois de mais algumas desventuras se veem no meio de uma crise diplomática interplanetária que envolve o bizarro e corrupto Zaphod Beeblebrox, presidente da Galáxia e primo de Ford, além do deprimido robô Martin e da cientista Trillian, uma terráquea envolvida com Zaphod. Por meio da ficção científica Douglas Adams elabora uma brilhante sátira que debocha da política, da burocracia, da riqueza e da chamada alta cultura. Sensacional é o mínimo que se pode dizer.
Nota: 10
3. Pé na Estrada (Jack Kerouac, 1957)
 A bíblia da geração beat. Escrito em poucas semanas durante uma brainstorm, este clássico tem forte tom autobiográfico e inspirou muitos jovens a fazer o mesmo que os protagonistas Sal Paradise e Dean Moriarty: pegar um carro e rodar os Estados Unidos de costa a costa. Embalados pelo jazz, entorpecidos por álcool e maconha e absorvendo culturas diferentes e pessoas exóticas, os dois amigos voam no asfalto entre Estados Unidos e México, do mesmo jeito que o autor fez durante anos a partir do fim da 2ª Guerra. Dean segue Sal encantado com tamanha energia, vibração e loucura - um carisma que atrai e conquista a todos, ao mesmo tempo que o forte temperamento faz outros se afastarem. Pé na estrada é, antes de tudo, um tributo a uma vida livre. Sexo, drogas, bons livros e bons amigos, num ritmo tão frenético quanto o som de um saxofone.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Filmes pro final de semana - 19/08 - Especial olimpíadas

1. Kill Bill - vol. 1 (2003) ESGRIMA/ KARATÊ
Poucos filmes me surpreenderam tanto quanto Kill Bill, especialmente o vol. 1. A primeira parte da sangrenta vingança da Noiva (cujo nome só é revelado no vol. 2) mostra uma parte dos eventos que a deixaram em coma, seu despertar quatro anos mais tarde e seu plano de cobrar a dívida daqueles que quase a mataram: seus colegas matadores profissionais, o Esquadrão Assassino de Víboras Mortais. Antes de sair em busca deles, a Noiva (Uma Thurman) vai à cidade japonesa de Okinawa buscando de uma lenda viva uma espada de samurai, depois parte para o primeiro grande desafio, que é enfrentar a ex-parceira que se tornara rainha do crime de Tóquio, O-Ren Ishii (Lucy Liu). A história não é lá muito profunda, mas o roteiro, como todos de Tarantino, é bem feito e o filme é muito estilizado, repleto de referências que vão desde o brilhante Bernard Herrman (compositor de inesquecíveis trilhas sonoras como as de Psicose e Taxi driver) ao western spaghetti italiano e filmes japoneses de samurai. Além disso, reforça-se aqui a ideia de que para Tarantino o corpo humano é dividido em pele e sangue. Por que? Assista e descubra.
Nota: 9,0/ 10
2. Forrest Gump - O contador de histórias (Forrest Gump, 1994) ATLETISMO/ MARATONA
Eu definitivamente não sou fã de Forrest Gump, mas não posso discordar de que é uma interessante e bem feita história. Tudo começa num ponto de ônibus, onde um homem se senta... e claro, conta histórias. Mais exatamente as histórias de sua vida. Forrest Gump (Tom Hanks) é um simpático débil mental com QI de 75 e uma habilidade inacreditável para jogar pingue-pongue e correr (Run, Forrest, run!!). Forrest consegue a proeza de participar de alguns dos maiores acontecimentos do mundo entre as décadas de 50 e 80, como a Guerra do Vietnã e o Festival de Woodstock e conheceu figuras como John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon. A vida de Forrest também é marcada por uma amizade/ paixonite de infância, Jenny, que não convence muito a quem assiste. Lembrando que Tom Hanks saiu vencedor do Oscar de melhor ator, seu segundo, e o filme ainda venceu melhor filme, roteiro adaptado, diretor, efeitos especiais e edição. De novo: venceu melhor filme e diretor. Derrotou quem? Pulp fiction e Tarantino. Mais um motivo pra eu não gostar dele.
Nota: 7,0/ 10
3. Touro indomável (Raging bull, 1980) BOXE
Quanto mais eu penso nesse filme, mais eu gosto dele e preciso me segurar pra não revê-lo. De um dos piores momentos da vida do diretor Martin Scorsese saiu seu melhor trabalho de direção, que aliado ao desempenho colossal de Robert De Niro concebeu uma trágica poesia sobre um lutador que tinha dentro de si seu pior inimigo. O talento de Jake LaMotta (De Niro) fez sua carreira ascender como um meteoro, mas seu ego, ciúme e outros demônios pessoais o fizeram cair com a mesma intensidade da subida. Trilha sonora impecável, fotografia em preto e branco deslumbrante e sequências em câmera lenta são alguns dos muitos detalhes que fazem de Touro indomável um filme que vai muito além do boxe e é extremamente competente naquilo que se propõe tratar.
Nota: 10
4. O iluminado (The shining, 1980) CICLISMO
Se pegarmos a brilhante carreira de Jack Nicholson e a perfeita carreira de Stanley Kubrick veremos que há um ponto de interseção:  O iluminado, filme de terror baseado no livro homônimo de Stephen King. Na trama Nicholson vive Jack Torrance, professor e escritor que passa por um momento difícil e aceita o emprego de zelador no Hotel Overlook, um refúgio nas Montanhas Rochosas do Colorado que passa o inverno fechado devido ao difícil acesso. Jack leva consigo a mulher Wendy (Shelley Duval mais feia que o cão chupando limão) e o pequeno filho Danny (Danny Lloyd), que aparenta ter poderes psíquicos. No gigantesco hotel, os três ficam sozinhos - será mesmo? Kubrick leva por todo o filme a dúvida do que é loucura e do que é sobrenatural sobre os estranhos acontecimentos que pairam a família, especialmente o pai e o filho. A partir de um roteiro simples, o diretor faz um de seus melhores trabalhos através do jogo de cores, da sensação de estar sempre percorrendo labirintos e da tensão constante que deixa o espectador arrepiado com cenas como a famosa do triciclo no corredor ou faz pular da cadeira com coisas simples como a palavra terça-feira sobre o fundo negro. Uma obra-prima.
Nota: 10
5. Era uma vez no Oeste (C'Era una Volta Il West, 1968) TIRO AO ALVO
O velho Oeste filmado de um jeito novo, através da tradição da ópera italiana. O diretor Sergio Leone traz uma história de vingança, sonhos e ambição através do misterioso Harmônica (Charles Bronson), da viúva e ex-prostituta Jill (Claudia Cardinale) e do assassino Frank (Henry Fonda). O filme é marcado pela construção de ferrovias liderada pelo milionário Morton (Gabrielle Ferzetti), que contrata Frank e seu bando para expulsar todos os fazendeiros que se puserem em seu caminho, entre eles o marido de Jill, morto no início do filme. Guiado por um ódio antigo que aos poucos é explicado, Harmônica, junto do bandido de quinta Cheyenne, vai proteger a viúva e suas terras da ambição de Morton e dos criminosos de Frank. Seja por cenas memoráveis, como a abertura interminável, seja pela paisagem intrépida, pelo elenco de peso, pelo incrível roteiro ou mesmo pela música que Harmônica toca em sua gaita, o filme de Leone se consagrou imediatamente como um clássico.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Filmes pro final de semana - 12/08

1. Django livre (Django Unchained, 2012)
Aula básica de anatomia humana segundo Quentin Tarantino: o corpo é formado de pele e sangue. É impressionante - mas não tanto quando se fala de Tarantino - como o filme é cheio de bang bang e dá um banho de sangue na tela. Mas muito mais que tiroteio, Django tem uma história sólida, com as devidas doses de emoção, comédia e a questão racial nos Estados Unidos. A partir do encontro do escravo Django (Jamie Foxx) com o incomum dentista que na verdade é um caçador de recompensas dr Schultz (Cristoph Waltz) nasce uma parceria capaz de sacudir o velho oeste. Schultz liberta Django e o faz seu sócio, capturando procurados da justiça e acumulando recompensas. O grande desafio da dupla será a libertação da esposa de Django, em posse do arrogante fazendeiro Calvin Caldie (Leonardo DiCaprio), uma missão que exige muito mais de paciência e estratégia do que boa pontaria. Mas como é um filme de Tarantino, a boa pontaria nunca pode ser deixada de lado.
Obs: Django. O D é mudo.
Nota: 9,5/ 10
2. Lincoln (2012)
Lincoln conta a história de um dos maiores presidentes dos Estados Unidos em um momento crucial de seu governo, o iminente fim da Guerra Civil americana e a necessidade de se pensar em como consolidar a abolição da escravatura que causara a guerra. O jeito era outorgar uma emenda à Constituição, a 13ª, tarefa difícil em meio ao difícil terreno que era a Câmara dos representantes. O presidente Lincoln (Daniel Day-Lewis) precisa de aliados fortes como o presidente do partido republicano e o experiente deputado Stevens (Tommy Lee-Jones) para conquistar os votos necessários, além de assessores para comprar os votos não negociados. E mais do que a complicada cena política, Lincoln também precisa lidar com os problemas familiares, com sua esposa Mary Todd-Lincoln (Sally Field) e a distância de seu filho Robert (Joseph Gordon-Levitt). De roteiro sólido e ótima direção, o filme se eleva muito com a espetacular atuação de Daniel Day-Lewis, que lhe rendeu seu terceiro Oscar de melhor ator.
Nota: 9,0/ 10
3. O lado bom da vida (Silver Linings Playbook, 2012)
Uma graça de comédia romântica, este é um filme que faz bem a gente ver. "Mas Luís, tem melhores". Claro que tem melhores, mas nem só de Kubrick vive o homem e a gente precisa de um filme leve pra relaxar. Vamos à história:  Pat (Bradley Cooper) é um professor que ficou desempregado depois de surtar no emprego e tentar agredir a esposa que o estava deixando. De volta pra casa depois de uma temporada internado numa clínica psiquiátrica, Pat conhece a complicada Tiffany (jenniffer Lawrence), uma jovem viúva que luta consigo mesma todos os dias pra pôr sua vida nos trilhos. O filme mostra a tentativa de Tiffany de se aproximar de Pat e o esforços dos pais dele (Jacki Weaver e Robert de Niro) em por um pouco de juízo na cabeça do filho. Divertido e emocionante, rendeu o primeiro (e convenhamos, controverso) Oscar de Jennifer Lawrence.
Nota: 8,0/ 10
4. Os Miseráveis (Les Misérables, 2012)
Talvez o mais aguardado filme de 2012 pelo povão, a nova adaptação da obra imortal de Victor Hugo veio mais uma vez na forma de musical. Dirigido por Tom Hooper (do agradável e insosso O discurso do Rei), o filme é ambientado na França pós-Napoleão, onde o pobre Jean Valjean (Hugh Jackman) é posto em liberdade depois de 19 anos preso e fazendo trabalhos forçados. Passado um tempo, graças à ajuda de um religioso, Valjean ressurge com outro nome e como um rico empresário, prefeito de uma pequena cidade, onde conhece a pobre Fantine (Anne Hathaway), uma operária que após perder o emprego torna-se prostituta para sustentar sua filhinha Cosette. Após sofrer o pão que o diabo amassou, Fantine morre e Valjean promete tomar conta de Cosette, mas sua vida é complicada pela perseguição do inspetor Javert (Russel Crowe), que o reconhece como ex detento e lhe perseguirá por todo o filme. Muito bem feito tecnicamente e com elenco de peso, o filme tem como mérito a presença de Hugh Jackman por todo o filme e a breve mas não menos importante participação de Anne Hathaway, responsável pela cena mais emocionante do longa, cantando I dreamed a dream. Mas aguentar mais de três horas de um musical que não é tão bem amarrado e chega a ser chato em alguns momentos não é fácil. Adaptar para o cinema uma das mais importantes obras literárias da humanidade, que retrata como poucas a difícil realidade da população mais pobre, é tarefa árdua que deveria ser encarada por um diretor melhor. Pronto, falei.
Nota: 8,5/ 10
5. Valente (Brave, 2012)
O décimo terceiro filme da Pixar é o primeiro a ter uma protagonista feminina. A princesa Merida, filha do rei Fergus e da rainha Elinor, é uma habilidosa arqueira que pretende traçar seu próprio destino, diferente de todas as outras princesas. Ela não pretende casar e viver num castelo, mas passar a vida atrás de aventuras. O principal obstáculo: sua mãe. E é por isso que Merida recorre a uma bruxa, mas a ajuda vem na forma de maldição. É justamente aí que Merida vai ter que demonstrar coragem como nunca, para desfazer a maldição enquanto é tempo. O filme é ótimo, muito engraçado e é impossível não se envolver com a história da jovem princesa de cabelos rebeldes e espírito indomável - detalhe pro cabelo ruivo que parece estar pegando fogo e traduz perfeitamente a rebeldia da princesa.
Nota: 8,0/ 10

Luís F. Passos