quinta-feira, 30 de junho de 2016

Amizades improváveis – ou como emocionar sem manipular

Então, temos esta singela pérola de 2016, recentemente lançada pela Netflix (you go, Netflix!) que, até o momento, não tem causado grande alarde no meio cinéfilo e ainda não é consideravelmente popular, porém já traz consigo uma muito boa receptividade por parte da crítica, uma nota 7.4 no IMDB e 75% de aprovação no Rotten Tomatoes, o que é bom para uma produção pequena em forma e desenvolvimento, mas com um coração gigante e pulsante que coloca um sorriso no rosto de qualquer um que confira o longa.

As amizades improváveis citadas no título dado na distribuição nacional se referem às das seguintes personagens: Trevor, Ben, Dot e Peaches. Vamos falar um pouquinho de cada um deles por partes e fazer as ligações. Trevor (Craig Roberts) é um rapaz jovem que sofre de uma grave doença chamada Distrofia muscular de Duchenne, que reduz sua expectativa de vida ao máximo de cerca de 30 anos de idade e o impede de realizar atividades banais e corriqueiras, como até mesmo ir ao banheiro sozinho. Trevor necessita, então, de um cuidador disposto a atendê-lo todo o tempo. É aí que temos Ben. Ben (Paul Rudd) é um adulto já em seus 45 anos totalmente afundado em problemas pessoais e profissionais, sem qualquer esperança ou perspectiva de vida, que vive num constante estado de latência após uma tragédia passada alguns anos antes do desenrolar do filme, que decide, por vários fatores que se relacionam a esta tragédia, ser um cuidador. Após seis meses de treinamento, recebe seu diploma e sua primeira experiência profissional é justamente com Trevor.




A relação entre ambos, que deveria, num primeiro momento, ser estritamente profissional (segundo a filosofia da escola de treinamento, cuidadores devem cuidar e dar atenção, mas mantendo uma separação saudável com seus clientes por motivos de autoproteção) se desenvolve em uma forte amizade à medida que a personalidade forte, o constante sarcasmo e todas as manias (que aos poucos vão sendo desconstruídas) de Trevor são muito bem manejados por Ben. Numa de suas tentativas de tornar a vida do jovem mais interessante e lhe proporcionar realmente uma experiência de vida real, os dois decidem fazer uma road trip pelos EUA com destino ao poço mais profundo do mundo (sim.) – idéia originada de uma estranho interesse de Trevor por coisas curiosas e gigantes espalhadas pelos EUA – passando por várias outras atrações pelo caminho. Parece algo simples, mas para uma pessoa que em toda sua vida nunca havia passado nada mais que uma hora longe da segurança e previsibilidade de sua casa é um passo gigantesco. No caminho, eles agregam à viagem as duas outras personagens de maior importância para o enredo: Dot (Selena Gomez), uma jovem com ares de mistério, muito atraente, com um passado familiar também conturbado e que busca uma nova guinada em sua vida na cidade de Denver e Peaches (Megan Fergussson), uma carismática grávida muito perto de dar à luz que viaja a caminho da casa de sua mãe. Quatro personagens que aparentemente não guardam nada em comum além de complicados passados marcados por perdas e danos se juntam nesse carro e ao longo do caminho criam uma conexão interessantíssima e saudável, que, de maneira sutil, acaba efetivamente mudando a vida de todos.




Amizades improváveis (The fundamentals of caring, 2016) é um filme totalmente adorável. Tentando falar de forma técnica, porém, obviamente não é perfeito. É fato notável que o roteiro, apesar de leve e de ter doses adequadas de drama e comicidade, não tem elementos de grande genialidade. O filme é todo e completamente previsível, não guarda grandes surpresas ao espectador e parte de suas reviravoltas são fáceis de ser antecipadas e não trazem grande choque ao serem reveladas. Também é fato que os elementos doença e tragédia familiar são usados de forma maçante pela indústria cinematográfica, especialmente nas produções que tem um caráter “tearjerker”, que numa tradução adequada seria algo como aqueles filmes que são feitos única e exclusivamente para arrancar lágrimas do espectador. A questão é que, apesar de ter tudo para ser mais um desses filmes, Amizades improváveis não é. Os dramas, apesar de serem bastante sérios, não são tratados de forma manipulativa em nenhum momento. São orgânicos, simples, diretos, pontuais e nunca exageradamente prolongados. O filme, aliás, aposta muito mais em momentos de comicidade sarcástica para garantir o carisma que o torna recomendável para aqueles que buscam um divertimento leve e otimista, mas que ao mesmo tempo disponha os lugares comuns de forma tolerável e apreciável. Somado a estes fatores, também temos uma excelência de atuações com destaque à presença sempre interessante (e muitas vezes apaixonante) de Paul Rudd em mais uma de uma longa sucessão de interpretações adoráveis (e muitas vezes clichês), uma atuação de mestre de Craig Roberts (os dois juntos tem uma ótima química) e trabalhos muito competentes de Selena Gomez (esqueçam o passado de estrela da Disney de Selena Gomez. Ela está provando que é uma artista de cinema válida. Um filme de cada vez.) e Megan Fergusson. 

É isso. Amizades improváveis. Uma sucessão de clichês funcionais, graças ao elenco super competente e ao não exagero dramático, que montam uma experiência satisfatória.


Nota: 8/10

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Lucas Moura

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Filmes pro final de semana - 17/06

1. Intriga Internacional (North by northwest, 1959)
 Depois de Um corpo que cai, que não foi bem recebido por público e crítica, Alfred Hitchcock lança aquele que veio a ser um de seus maiores sucessos: o intenso Intriga Internacional. Cary Grant, assíduo colaborador de Hitchcock, é o publicitário Roger O. Thornhill, executivo de publicidade confundido com um agente secreto que a partir do infeliz mal entendido precisa fugir de um lado pra outro dos Estados Unidos, muitas vezes atrás da misteriosa loira Eve Kendall (Eve marie Saint), que tem uma estranha relação com aqueles que querem sua cabeça. Um filme cheio de ação, que lembra muito 007 (tanto que Hitchcock se recusou a dirigir o primeiro 007 afirmando que era plágio de sua obra), mas que eu esperava mais. Desculpa, Hitch.
Nota: 8,5/ 10
2. Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957)

Um dos melhores e mais conhecidos filmes de Ingmar Bergman também é um dos mais influentes. Em filmes como Desconstruindo Harry de Woody Allen podemos ver traços da imortal história de um médico e professor universitário, Isak Borg (Victor Sjöström), que viaja de Estocolmo a sua cidade natal de carro para receber uma homenagem. Um dia na estrada junto de sua nora e uns jovens caroneiros fazem o velho Isak relembrar sua juventude, seu amor por uma prima e pensar em sua vida, mergulhada no trabalho, cheia de decepções, além de pensar na própria mortalidade - tema que inicia o filme, quando Isak tem um sonho sombrio. Coroado no Festival de Berlim com Urso de Ouro (melhor filme) e prêmio de melhor ator para Sjöström, Morangos Silvestres permanece atual e vivo entre sua enorme legião de fãs.
Nota: 10
3. Disque M para matar (Dial M for murder, 1954)
Ray Milland, grande ator do cinema clássico e vencedor do Oscar de melhor ator por Farrapo humano (1945) vive aqui um ex-tenista chamado Tony Wendice, um cara cujo dinheiro se foi há algum tempo junto com a carreira no esporte. O alto padrão que ele ostenta é patrocinado por sua bela esposa Margot (ninguém menos que Grace Kelly), mas o casamento dos dois não vai bem e ele descobre que ela pretende deixá-lo para viver com um amante. Para não perder a boa vida - aliás, melhorar a vida financeira - Tony decide matar a esposa e ficar com todo seu dinheiro. Contrata um amigo para matá-la, mas o tiro sai pela culatra e no momento de desespero, Margot reage e mata o criminoso. Final feliz? Calma, nem chegamos à metade do filme. Tony elabora rapidamente um plano B e... só assistindo pra saber. Hitchcock, do jeito que só ele sabia fazer, conduz cenas muito tensas segurando os mistérios da macabra trama do marido ambicioso. Show de direção.
Nota: 9,5/ 10
4. Sabrina (1954)
Depois de sua triunfante estreia no cinema em A princesa e o plebeu, dirigido por William Wyler, que de cara lhe deu um Oscar de melhor atriz, Audrey Hepburn trabalhou com outro grande diretor, Billy Wilder. Na pele da protagonista Sabrina, Audrey interpreta a jovem filha do motorista de uma das famílias mais ricas de Nova York, que é apaixonada por um dos filhos do patrão. Decepcionada pelo fato do amado David (William Holden) ser um cafajeste, Sabrina viaja para a Europa para estudar, e volta anos depois transformada numa elegante mulher. A nova Sabrina vai voltar a mexer com o mulherengo David mas também com seu irmão mais velho, o austero Linus (Humphrey Bogart). Filme simples, mas prato cheio de elegância e do humor ácido de Billy Wilder.
Nota: 8,5/ 10
5. Crepúsculo dos Deuses (Sunset boulevard, 1950)
Crepúsculo dos deuses é uma grande crítica à própria indústria do cinema e do entretenimento, um mundo que pode num momento elevar uma pessoa ao céu e, em questão de minutos, lançá-lo no total ostracismo quando não lhes é mais conveniente. É isso que ocorre com a Norma Desmond interpretada por Gloria Swanson. Uma musa do cinema mudo largada no esquecimento após o advento do cinema falado e que sofre com sua loucura e suas obsessões ao mesmo tempo em que alimenta fantasias megalomaníacas de uma volta ao estrelato que jamais ocorrerá. O roteiro de Wilder é fantástico. A forma como amarra as diferentes circunstâncias que culminam para o grande final, que é revelado já no início do filme, é de uma inteligência incrível. O filme é ácido, maldoso e as coisas se desenrolam de uma maneira ironicamente cruel para todas as personagens. Wilder não se importa de vê-las sofrer e as castiga pelos seus erros.  Filme não só obrigatório como essencial para os amantes do bom cinema.
Nota: 10

domingo, 12 de junho de 2016

Namorados para sempre - you always hurt the one you love

Que os tradutores brasileiros devem fumar uma pesada, todos nós suspeitamos. E é em traduções como "Namorados para sempre", do original Blue Valentine (dia dos namorados triste) que a gente começa a ter certeza sobre a falta de lógica. Além disso, o filme foi lançado em às vésperas do dia dos namorados, cinco anos atrás - aí imagine quantos casais foram aos cinemas atraídos pelo título de um romance e ficaram decepcionados sobre o filme que trata sobre a crise de um casal.
Vamos à história: o casal Cindy (Michelle) e Dean (Ryan Gosling) está passando por um momento muito difícil em seu casamento. Juntos há cinco anos e pais de uma linda garotinha, eles se veem diante de uma situação onde mal conseguem manter uma conversa sem iniciar uma briga, o que em nada lembra o início do namoro deles. E é fazendo uma comparação do presente com o começo da relação que o filme consegue apresentar melhor suas personagens e explicar como elas se apaixonaram e o motivo da crise. Somos apresentados então a uma Cindy jovem, na universidade, que ajudava a cuidar de sua avó no asilo, onde conhece Dean, então um carregador de móveis metido a charmoso que com insistência e muito carisma consegue conquistá-la. O casal recém formado é adorável: jovens, bonitos, gente boa e com todo um futuro pela frente.
Cinco anos depois, Cindy é enfermeira e Dean, pintor. Ela tem um bom emprego numa clínica, onde é muito querida pelo chefe, enquanto ele depende do ofício instável, onde muitas vezes fica sem trabalho. Não é difícil perceber que a questão financeira é um agravante dos problemas da relação. Apesar das dificuldades, eles se esforçam para manter o casamento, em memória dos bons tempos e pela felicidade da filha Frances. É na luta pela salvação do relacionamento que eles vão para um motel no dia dos namorados, onde se passam as cenas com os diálogos mais tensos do filme. Aí podemos perceber que o título nacional pode fazer sentido: o voto de "namorados para sempre" é a promessa de fidelidade que se transformou numa obrigação penosa, difícil de cumprir. No caso das personagens, talvez seja mais difícil para Cindy, que chega a ver o marido como um peso que a impede de progredir profissional e pessoalmente.
A carga emocional transmitida pelo filme é impressionante. Tecnicamente falando, ele tem vários elementos para isso. A trilha sonora, a iluminação mais sóbria nas cenas mais tensas, a qualidade do roteiro - emocionante mas nunca apelativo. Por fim e mais importante, a atuação da dupla de personagens. Michelle Williams e Ryan Gosling carregam o filme juntos, mergulhados nas alegrias e frustrações de suas personagens, que por mais duronas que tentem parecer, são sensíveis e profundas. Os dois, que são alguns dos melhores exemplos do grande talento da nova geração de atores americanos, se dedicam totalmente ao filme, transparecendo o cansaço do desgaste de um casamento e a tristeza diante de uma provável separação. A tristeza de ter que aprender a lidar com a perda - tema tão antigo, tão trabalhado, mas que ainda rende excelentes filmes, como esse.

Nota: 9,5/10

Luís F. Passos

sábado, 14 de maio de 2016

Sagaranando recomenda: Esta terra selvagem

Um romance tenso e curto, capaz de prender o leitor do início ao fim. A história se passa em São Paulo e perpassa pela vida de João, jornalista policial que investiga crimes hediondos na cidade. Tudo se inicia quando ele conhece umas das vítimas, a qual lhe dá pistas sobre os crimes. A história se desenvolve na busca de novas pistas, que levam a um grupo composto, principalmente, por jovens. Esses cometem crimes de cunho xenófobos, racistas e homofóbicos.

Um livro para se apreciar uma leitura em poucas horas, já que possui apenas 112 páginas. De leitura fácil e muito bem escrito, a obra conta com excelentes diálogos e cenas de arrepiar e ficar horrorizado com tanto ódio. Infelizmente, algo não tão distante de nossa realidade. Eu gostei bastante do livro, por ser um assunto que incomoda bastante. Por ser um tema de suma importância, poderia ser melhor debatido e aprofundado, porém poderia perder a sensação de que você está descendo uma ladeira ao ler, de tão fácil que é a leitura.

O texto foi escrito por Isabel Moustakas, que vive em São Paulo e é formada em direito. Não se sabe muito sobre ela, porém há boatos que sejam apenas um pseudônimo de um escritor experiente. 

Luís Filipe Oliveira é médico.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Filmes pro final de semana - 13/05

1. What Happened, miss Simone? (2015)
Um documentário do Netflix que todo mundo deve assistir. Uma história de vida dramática que todos devem conhecer. A vida de Eunice Waymon, consagrada com o nome artístico de Nina Simone, se confunde com a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Nascida nos anos 30 em uma pequena cidade da Carolina do Norte, a pobre menina negra aprendeu a tocar piano na igreja com apenas quatro anos. Aos sete, numa apresentação, chamou a atenção de uma senhora branca, que passou a lhe ensinar os maiores mestres da música clássica. Na mesma ocasião, conheceu o preconceito - seus pais tiveram de se sentar na última fila. Recusada por um conservatório, ela acabou tocando e cantando em bares, onde foi descoberta e a partir de então projetada como uma estrela. O casamento conturbado, a difícil relação com os filhos, a forte presença no movimento negro e a luta contra os próprios demônios são os grandes elementos muito bem abordados pelo filme que ajuda a preservar a memória de quem foi uma artista única e uma mulher mais singular ainda.
Nota: 9,5/ 10
2. A Bela e a Fera (The Beauty and the Beast, 1991)
Uma das poucas animações a concorrer ao Oscar de melhor filme (e salvo engano, a primeira), esse querido clássico conto de fadas figura entre os maiores sucessos da Disney. A história dispensa apresentação, mas caso algum ET leia isso... França, século XVIII. Num pequeno vilarejo vive o inventor Maurice com sua linda filha Bela. Certa vez, numa viagem, Maurice se perde numa floresta e acaba encontrando um castelo habitado por móveis encantados e uma horrível fera, que o faz prisioneiro. Bela chega até seu pai com a ajuda do cavalo dele e ao ver o destino de Maurice, se oferece à Fera para ficar no lugar dele. A Fera aceita, e com o passar do tempo os dois aprendem a conviver um com o outro. E blablablá, conto de fadas né amigos? Mas é show de bola. Uma de minhas animações preferidas, e meu conto de fadas preferido. Numa vida tão atribulada e corrida, é bom relembrar os prazeres da infância de vez em quando.
Nota: 9,0/ 10
3. Thelma & Louise (1991)
Um road movie que ganhou, entre muitos elogios, o de feminista, Thelma e Louise é a mal sucedida viagem de fim de semana de duas amigas que toma enormes e complicadas proporções. Thelma (Geena Davis) é uma dona de casa subjugada pelo marido machista e troglodita, que resolve aceitar o convite da amiga Louise (Susan Sarandon), uma animada garçonete, de passar o fim de semana numa casa de campo. No caminho, um incidente com um estuprador em potencial põe as duas amigas no rastro da polícia, enquanto elas fogem pelo interior dos Estados Unidos pensando em ir para o México. São vários os motivos do sucesso do filme, sendo os principais feminilizar um gênero até então exclusivo de personagens masculinas e sensibilizar todos os gêneros, raças e classes ao apresentar duas heroínas cuja grande batalha era sobreviver à realidade diária.
(além disso, temos aqui a selfie mais linda e conhecida do cinema)
Nota: 10
4. Uma linda mulher (Pretty Woman, 1990)
Tem muito tempo que eu quero falar sobre esse filme. Presença constante nas noites de sexta da Tela de sucessos do SBT, essa maravilhosa comédia romântica é queridíssima pelos cinéfilos e fez de Richard Gere e principalmente Julia Roberts dois queridinhos do grande público. Vivian (Roberts) é a Cinderela do fim do século XX, uma prostituta de Beverlly Hills que conhece o solitário e milionário Edward (Gere), que lhe faz a oferta de uma semana de companhia, recebendo todos os honorários por isso. A convivência mostra que os dois têm bom coração, bom humor e são bem mais do que os estereótipos sugerem. Embalados pelo clássico Oh, pretty woman, ambos se transformam ao longo do filme. A prostituta consegue se tornar uma dama (recatada e do lar) e o executivo mostra que é capaz de relaxar e ser sensível. Um filme tão irresistível quanto o enorme sorriso de Julia Roberts, capaz de chamar mais atenção que as minúsculas roupas de sua personagem.
Nota: 9,5/ 10
5. Wall Street - Poder e Cobiça (Wall Street, 1987)
Nos bastidores do poderoso mercado financeiro, Buddy Fox (Charlie Sheen) é um jovem e ambicioso corretor da bolsa de valores que tem origem simples mas um futuro muito promissor. Seu sonho é conhecer Gordon Genkko (Michael Douglas), um dos maiores investidores da cidade e implacável nos negócios. Quando surge a oportunidade, Fox mergulha de cabeça e se fascina pelo mundo de luxo e poder propiciado por transações envolvendo informações privilegiadas. Mas nada vem de graça na vida, e a rápida ascensão tem um preço moral muito caro a ser cobrado. Pra quem gostou de O Lobo de Wall Street (2013) ou mesmo de Wall Street: o dinheiro nunca dorme (2010), que é continuação deste, fica reforçada a recomendação.
Nota: 8,5/ 10

Luís F. Passos

sábado, 23 de abril de 2016

Ferrugem e Osso – brutal e frágil


Sou um grande e orgulhoso fã do cinema francês. Na verdade, eu acredito seriamente que, ainda nos dias de hoje, o cinema francês representa uma das melhores indústrias mundiais da sétima arte. Apesar de não viver mais nos tempos de glória e inovação técnica e artística da nouvelle vague e de seus descendentes diretos, ainda consegue nos presentear, de tempos em tempos, com obras de singela singularidade. A descrição de singularidade se encaixa muito bem para Ferrugem e Osso (De rouille et d’os, 2012), um filme que funciona substancialmente como um drama e um romance completamente atípicos. No filme temos Stéphanie (Marion Cotillard) e Alli (Matthias Schoenaerts), que formam um dos casais mais improváveis e, ao mesmo tempo, que melhor se completam do cinema dos últimos anos.
Ferrugem e Osso é um filme marcado por tragédias e pela mais pura e direta brutalidade. A começar pela vida dos protagonistas. Stéphanie costumava trabalhar num parque aquático como domadora (?) de orcas, quando de um grave acidente, termina com ambas as pernas decepadas (brutal. Cruel. Ferrugem e Osso.). Alli, por sua vez, é um brutamontes. Melhor, o estereótipo de um brutamontes. Grosseiro, muito pouco educado, sem grande controle do próprio corpo e de uma completa indelicadeza nas palavras, no pensamento e nos punhos. Além de tudo, é um lutador de luta livre que se envolve com grupos clandestinos de luta livre onde arrisca sua integridade física por alguns trocados e a simples euforia do confronto (brutal. Cruel. Ferrugem e Osso). Até a forma como ambos se encontram pela primeira vez – detalhe: antes do acidente de Stéphanie – envolve um nível basal de violência. Eles se conhecem através de uma briga de bar com muito nariz sangrando e uma mão machucada como saldo, além da conexão inicial das personagens. No meio de todo esse turbilhão, ainda temos o jovem Sam, filho de Alli, que é carregado pelo pai de maneira quase irresponsável e, sem dúvida, descuidada e que, sim, também acaba sofrendo invariavelmente diferentes tipos de agressão física e psicológica ao longo do filme. Nada escapa da brutalidade de Ferrugem e Osso.
Todo este aspecto brutal dá um tom extremamente seco e pouco melodramático ao filme. Em verdade, até os momentos de maior potencial dramático não são idealizados para arrancar lágrimas do espectador. Compaixão e empatia, sim. Lágrimas forçadas, jamais. Ferrugem e Osso é cercado de muita seriedade durante toda a projeção. Estamos tratando da vida de pessoas completamente disfuncionais. Vidas bastante destruídas, sendo bem direto, e, em nenhum momento, o filme ultrapassa o limite do drama e do exibicionismo. Tudo é muito singelo e o equilíbrio do filme é tão frágil quanto o corpo das personagens. Afinal, apesar de ser um drama com muito machucados e lesões, Ferrugem e Osso abusa da fragilidade dos corpos de todos. Mesmo sendo brutos, não é como se tudo que eles passam não cause sofrimento e desconforto físico e psicológico, e isso é deixado de maneira bastante clara. Apesar de serem durões, eles sentem sim a surra que levam da vida o tempo todo. Em contraponto, a união dos dois em seus momentos de maior fragilidade (mais uma vez, física e mental) é o combustível de onde retiram força para seguir em frente da melhor forma possível e, por fim, vencer seus obstáculos. Tudo isso da forma mais crua e sem firulas possível, algo dificilmente imaginável no contexto cinematográfico hollywoodiano. É desse tipo de coisa que eu gosto.

Nota: 10

Lucas Moura
 
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quinta-feira, 31 de março de 2016

Sonata de Outono - sobre pais e filhos

Diferente do que o sobrenome e a comum naturalidade sueca possam sugerir, a atriz Ingrid Bergman não tinha parentesco com o diretor Ingmar Bergman. Mas chegou o momento em que o talento de uma das maiores estrelas de Hollywood se encontrou com a genialidade do mais cultuado cineasta europeu, no drama familiar Sonata de Outono (Höstsonaten, 1978). De enredo relativamente simples, o filme acompanha o reencontro de Eva (Liv Ullmann) com sua mãe Charlotte (Ingrid Bergman), depois de mais de sete anos sem se verem. O contato inicial já é suficiente para fazer um breve resumo da relação das duas: uma ligação frágil, desconfortável e guiada pelas obrigações sociais entre mãe e filha.
Charlotte é pianista e tinha uma carreira brilhante e promissora quando jovem, viajando bastante e ficando distante de sua família - não só pela obrigação de trabalhar, mas pelo incômodo que sentia em casa. A relação com o marido se desgastara, enquanto que com a filha fora construído um contato débil, reflexo da falta de vontade em desenvolver habilidades maternas e de um amor que queria receber mas não era capaz de dar. A ausência da mãe provocava em Eva, a cada chegada e partida, grande tristeza. Ela chega a afirmar que "não sabia o que odiava mais, se era quando você viajava ou quando estava em casa", indicando que mesmo ficando com a família, o distanciamento emocional equivalia ao físico.
A visita de Charlotte na casa da filha é marcada por uma ansiedade permanente, pelo desconforto que é estar com alguém que em teoria ela deveria conhecer muito bem, mas na verdade é uma completa estranha. Tal desconforto é maior ainda para Eva. Ao mesmo tempo em que ela queria estar junto da mãe, lhe causava dor o contato com ela. Esse confronto traz à tona todas as velhas mágoas, os rancores do crescimento sem o amor e o amparo necessários; a incompreensão mútua, o desejo de agradar uma mãe adorada (pelo próprio papel que a figura materna representa e por ser uma pianista famosa) e ao mesmo tempo odiada pelo mal que causava com sua ausência. Nas palavras de Eva: "eu não podia odiá-la e meu ódio se tornou um medo insano".
A confusão de sentimentos e a tentativa de reprimi-los fez Eva guardar dentro de si, por muitos anos, muita coisa negativa que é extravasada na visita de Charlotte. Em certa altura, o filme vira uma lavagem de roupa suja que só vendo. É nesse ponto que temos as melhores cenas e vemos toda competência de duas grandes atrizes em ação, ambas justificando o grande sucesso de suas carreiras. É um prazer imenso ver Ingrid Bergman, muitos anos depois de sucessos como Casablanca (1942) ainda em plena forma, emocionando (e muito!) os espectadores com sua incrível atuação. E isso em mais um genial trabalho de Ingmar Bergman, que mais uma vez trabalha com psicanálise para chegar ao fundo de suas personagens, abordando aqui um recorrente tema de sua obra: ligações familiares. Em suma: é a soma de enormes talentos. Tudo em Sonata de Outono é bem feito, marcante, memorável. Filme indispensável para amantes da Sétima Arte.

Nota: 10

Luís F. Passos