sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Filmes pro final de semana - 13/09

1. Encontros e desencontros (Lost in translation, 2003)
Em seu segundo filme, Sofia Coppola provou ao mundo que não se firmaria em Hollywood apenas com o poderoso sobrenome, mas com o enorme talento que é comum à família (pai, avô e primo vencedores de Oscar, só pra resumir). Em Encontros e desencontros Sofia une a história de um ator de meia-idade que está em Tóquio para gravar comerciais de uísque (Bill Murray) à de uma bela jovem (Scarlett Johansson) que está na cidade porque seu marido fotógrafo está trabalhando em um filme. Os dois se sentem solitários e, a partir do momento em que estão numa terra tão diferente de seu país de origem, perdidos não só na cultura e língua japonesas como no rumo que a vida tomou - ele, vivendo um casamento de 25 anos que perdeu a força e ela casada com um workaholic que a deixa de lado por causa do trabalho. Filme excelente (para muitos o melhor de Sofia) que foi indicado aos Oscar de melhor filme, direção, ator e roteiro original, este último o único faturado pela jovem e promissora Coppola.
Nota: 9,0/ 10
2. O concerto (Le concert, 2009)
Um dos meus primeiros filmes franceses - e primeiro filme comentado pelo Sagaranando! - foi a comédia francesa de 2009 cujo maior destaque é a presença de Mélanie Laurent, conhecida mundialmente a partir de Bastardos Inglórios. O concerto acompanha a trajetória de Andrei Filipov (Aleksei Gustov), que fora um dos maiores maestros do mundo mas teve sua carreira destruída pelo governo autoritário da URSS, que na época era liderada por Brejnev. A partir de um convite feito por um teatro francês à Orquestra do Bolshoi, Andrei reúne seus antigos amigos, que haviam largado a música, tenta formar uma nova orquestra e parte para Paris se passando pelo verdadeiro Bolshoi. Paralelamente, há a misteriosa relação entre o ex-maestro e a violinista Anne-Marie Jaquet (Mélanie), a número um da Europa - e peça chave para desvendar o misterioso e triste passado de Andrei.
Nota: 8,5/ 10
3. O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969)
Usando elementos da nouvelle vague, do faroeste italiano e de John Ford, entre outros, Glauber Rocha mostra mais uma história de Antônio das Mortes (Maurício do Valle), matador do sertão nordestino. O pistoleiro é contratado por um fazendeiro para matar um certo cangaceiro que aparece na cidade e desafia o poder local com promessas messiânicas para a grande população que vive na miséria. Com muita metalinguagem, Rocha narra de forma muito alegórica a história relativamente simples mas que acaba bastante rebuscada graças à poderosa música, que é um pilar fundamental do filme e se mostra um importante elemento da narração e graças à brilhante direção - digo isso pela fotografia, pela posição das câmeras, pela edição. Através de diversos rituais, o longa se mostra antropofágico (lembre da Semana de 22), um dos fatores que o fez conquistar seletas plateias por todo o mundo, como a do Festival de Cannes, em que foi indicado à Palma de Ouro e saiu vencedor do Prêmio de direção.
Nota: 10

4. O iluminado (The shining, 1980)
Se pegarmos a brilhante carreira de Jack Nicholson e a perfeita carreira de Stanley Kubrick veremos que há um ponto de interseção:  O iluminado, filme de terror baseado no livro homônimo de Stephen King. Na trama Nicholson vive Jack Torrance, professor e escritor que passa por um momento difícil e aceita o emprego de zelador no Hotel Overlook, um refúgio nas Montanhas Rochosas do Colorado que passa o inverno fechado devido ao difícil acesso. Jack leva consigo a mulher Wendy (Shelley Duval mais feia que o cão chupando limão) e o pequeno filho Danny (Danny Lloyd), que aparenta ter poderes psíquicos. No gigantesco hotel, os três ficam sozinhos - será mesmo? Kubrick leva por todo o filme a dúvida do que é loucura e do que é sobrenatural sobre os estranhos acontecimentos que pairam a família, especialmente o pai e o filho. A partir de um roteiro simples, o diretor faz um de seus melhores trabalhos através do jogo de cores, da sensação de estar sempre percorrendo labirintos e da tensão constante que deixa o espectador arrepiado com cenas como a famosa do triciclo no corredor ou faz pular da cadeira com coisas simples como a palavra terça-feira sobre o fundo negro. Uma obra-prima.
Nota: 10
5. O exorcismo de Emily Rose (The exorcism of Emily Rose, 2005)
Pra quem quer aproveitar bem a sexta-feira 13, além do clássico citado acima, tem um dos melhores filmes de terror dos últimos anos. A partir do julgamento do padre Richard Moore (Tom Wilkinson), acusado de omissão e homicídio doloso da jovem Emily Rose (Jennifer Carpenter), vemos através de flashbacks uma história de arrepiar: Emily, jovem católica, começa a sofrer alucinações e acredita estar possuída por demônios, enquanto os médicos afirmam ser um caso raro de associação de esquizofrenia, psicose e epilepsia - mas é claro que o filme não é imparcial e se desloca para o argumento sobrenatural. Emily é aconselhada pelo padre a abandonar o tratamento psiquiátrico e se dedicar a um tratamento religioso conduzido por ele, que tenta realizar um exorcismo. O resultado... só vendo. É um filme muito, muito assustador, muito tenso, que gela fácil o sangue de quem o assiste. E o melhor de tudo: baseado em fatos reais.
Nota: 8/ 10

Leia também: O concerto

Luís F. Passos

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Barbarella – um mix dos anos 60

 Filme que eternizou Jane Fonda como sex symbol e ajudou a alavancar sua carreira já relativamente estável (que já se iniciou relativamente estável pelo simples fato de ser filha de Henry Fonda), Barbarella (1968) é uma grande reunião de muito do que ocorria na esfera cultural e social no mundo nos últimos anos da década de 60.
Navegante espacial, a sexy Barbarella é recrutada pelo presidente da República da Terra para caçar e trazer de volta um louco cientista, chamado Duran Duran, há muito tempo perdido pelos confins do universo, que é um homem perigoso que desenvolveu uma arma letal. Afinal, tratando-se do futuro fictício em que a história se desenvolve, a violência já estava abolida há séculos da civilização terráquea – bem utópica essa ideia, não?
Barbarella sai em sua busca e no meio do caminho encontra com vários tipos estranhos. Alguns dispostos a ajudar, como o anjo Pygar, e outros no maior estilo tradicional de vilão, como a Grande Tirana, governante do perdido planeta em que Barbarella é levada em sua busca por Duran Duran. Um planeta que segue regras e costumes estranhos e malignos, sendo regido pelo chamado mathmos. O mathmos é uma substância líquida composta de energia vital que se alimenta de pensamentos negativos. Em termos terráqueos, o mathmos representaria a materialização do que conhecemos como “mal” – que viagem.
O enredo plenamente fantasioso de Barbarella deixa brecha para que o filme transcorra metaforicamente sobre muitos pontos culturais dos anos 60. O primeiro deles diz respeito à própria protagonista. Afinal, a simples escolha de uma mulher para liderar uma ficção científica que denota muita coragem, liderança e determinação de sua protagonista é uma forma muito direta de mostrar todo o poder da onda feminista vigente na época, sobretudo pela escalação de Jane Fonda como protagonista. Jane, como muitos sabem, foi e ainda é uma grande defensora dos diretos humanos, atuando avidamente em prol da igualdade entre os sexos, as raças, as diferentes crenças religiosas e as diferentes opções sexuais (uma grande mulher).
Outro aspecto patente é o da sexualidade. É um filme muito sexualizado. A figura de Barbarella com seus figurinos ousados e muito rebeldes para a época tornam este um filme propositalmente erotizado. A forma de retratar o sexo e de falar sobre o tema já se mostra diferente. Nada de tabu, uma proposta a maior liberdade sexual e uma participação ativa das mulheres neste aspecto, visto que o cinema clássico as mostrava muito passivas neste sentido. Não só o sexo é preconizado em Barbarella, como também o amor. O amor pelo próximo, pela vida, pelo corpo e pela paz de espírito. De uma forma divertida, é como se tivessem transportado a filosofia de Woodstock (inclui algumas insinuações a uso de drogas) para a nave cor-de-rosa com paredes internas revestidas de pele em que a heroína viaja pelas galáxias.
O fato de ela ser uma viajante espacial também pode ser diretamente interligado ao contexto histórico da época. Em tempos de corrida espacial, o homem voltava seus olhos para o espaço. Uma nova fronteira havia sido determinada e um novo foco para o cinema estava sendo traçado.
Isso é Barbarella. Não é um filme fantástico, mas é uma obra consideravelmente curiosa que abre espaço para uma boa contextualização de uma época muito particular de efervescência no mundo. Pop, divertido, sensual, ousado, moderno e corajoso. Além de tudo isso, ainda conta com uma Jane Fonda no auge de sua beleza e abre o caminho para uma sequência invejável de grandes trabalhos da atriz, que incluem filmes sérios como A noite dos desesperados, Klute – o passado condena e Amargo regresso. Cinéfilos, podem ver sem medo. Barbarella psicodélica sabe deixar sua marca. 

Nota: 7/10

Lucas Moura

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Filmes pro final de semana - 06/09

1. Orgulho e preconceito (Pride and prejudice, 2005)
Uma das melhores e mais queridas adaptações para o cinema de clássicos literários, Orgulho e preconceito traz a linda Keira Knightley como a jovem Elizabeth Bennet, uma das poucas cabeças sensatas em meio a uma família de cinco irmãs do interior da Inglaterra. Diferente dela e de sua irmã mais velha, Jane, as três mais novas são desmioladas que só pensam em casar, graças à influência de sua mãe. O que muda o destino das irmãs Bennet é a chegada do rico sr. Bingley à cidade, acompanhado de suas irmãs e do antipático sr Darcy (Matthew Mcfadyen). Enquanto a relação de Jane e Bingley promete seguir um belo caminho, a de Elizabeth e Darcy é cheia de discussões. Mas nada que um enredo não possa mudar.
Nota: 9,0/ 10
2. Desconstruindo Harry (Desconstricting Harry, 1997)
Woody Allen tem uma vasta obra, repleta de filmes excelentes e bem conhecidos como Annie Hall, Manhattan e Hannah e suas irmãs, e também outros não tão bons e conhecidos, mas também ótimos filmes meio desconhecidos - é o caso de Desconstruindo Harry. Seguindo um pouco o estilo de Bergman e Fellini, Woody vive Harry, escritor que passa por uma crise criativa, e nessa época é homenageado pela universidade em que estudou e foi expulso. Sem ter ninguém para acompanhá-lo, Harry leva consigo um amigo doente, uma prostituta e o filho que teve com uma de suas ex-esposas. Ao longo do filme vemos como Harry levou para sua obra pequenos problemas e episódios de sua vida, inclusive transformando amigos e parentes em personagens problemáticas, o que causou o afastamento de muitos deles.  Engraçado do começo ao fim, conta ainda com a participação de Billy Cristal, Mariel Hemingway, Tobey Maguire, entre outros.
Nota:  9/ 10
3. Último tango em Paris (Ultimo tango a Parigi, 1972)
Com certeza você já deve ter visto/ ouvido alguma piada sobre Marlon Brando e manteiga. O porquê vem do filme de 1972 de Bernardo Bertolucci, imaginado a partir de fantasias sexuais do polêmico diretor. Muito sucintamente, Marlon Brando interpreta um americano de meia-idade que vive em Paris e passa a se encontrar com uma jovem (Maria Schneider) num apartamento e eles passam a manter um estranho relacionamento baseado em sexo e com o mínimo de contato que não seja sexual: eles não sabiam o nome um do outro, nem profissão, endereço, nada. Uma sequência de diálogos e cenas tensas, como as famosas cenas de sodomia por parte da personagem de Brando, mas que apesar da polêmica foi sucesso mundial, apesar de ser censurado em vários países.
Nota: 8/ 10
4. Ferrugem e osso (De rouille et d'os, 2012) 
Mais uma afirmação da grande qualidade do cinema francês, Ferrugem e Osso pode ser caracterizado simplesmente como uma história de superação. No entanto, não espere nada de emocionalmente apelativo. Este é um filme muito seco e muito direto em sua proposta. Nada de romantismo, apenas a frieza da realidade. As duas personagens em questão devem passar por profundas mudanças, mas nunca soam emocionalmente manipulativas. O envolvimento que temos com o filme é garantido graças a estranha empatia criada pelas personagens e, principalmente, ao talento indiscutível dos atores, tendo Marion Cotillard como o grande nome da produção – e também a segunda melhor atuação feminina do ano passado (perdendo apenas para Naomi Watts em O impossível).
Nota: 10

5. A outra história americana (American History X, 1997) 
Um filme muito audacioso, A outra história americana explora a questão da intolerância patente na sociedade moderna. Afinal, centra-se seu foco num violento grupo de jovens neonazistas com aspirações de grandiosidade que baseiam todas suas atitudes em um ódio que lhes parece justificável, mas que de forma alguma pode soar aceitável. O filme é contado pela visão do irmão mais novo e do endeusamento que este faz pelo irmão mais velho (Edward Norton em seu melhor papel), que de figura emblemática do submundo neonazista da Califórnia passa ao que poderíamos chamar de bom moço. Um filme intenso e interessante, inclusive em termos técnicos. Uma grande marco do cinema americano dos anos 90.
Nota: 9,5/ 10 


Lucas Moura e Luis F. Passos

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças - would you erase me?

Um dos fatores que leva um filme a se tornar popular é a abrangência de seu tema, e nesse quesito poucas coisas se destacam mais que o amor. Isso é, se houver algo mais abrangente que o amor. E falando de amor, consequentemente a gente acaba falando em desilusão. Quem nunca sofreu uma, é porque nunca amou. E é abordando desilusões amorosas que Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004) se tornou um dos mais cultuados filmes da década passada.
Surpreendendo meio mundo por fazer um filme dramático, Jim Carrey vive Joel, um sujeito tímido e reservado que conhece uma garota muito diferente dele chamada Clementine (Kate Winslet), impulsiva e brincalhona. Os dois começam a namorar e se apegam um ao outro rapidamente, até o dia em que Joel descobre que Clementine fizera um tratamento para removê-lo de sua mente. Conturbado e incapaz de aceitar que o amor dela se acabara, Joel decide se submeter ao mesmo tratamento para esquecê-la. Mas em meio ao processo, quando revivia cada momento com a namorada, ele descobre que tão doloroso quanto lembrar dela e da mágoa consequente, também é apagar da mente todos os bons momentos vividos com ela. Joel então tenta desesperadamente esconder Clementine em lembranças de sua infância e adolescência que ele reprimira, quase todos momentos constrangedores. À medida em que percorre o labirinto de sua mente, só aumenta a certeza de que junto da amada ou não, ele precisa que ela exista.
O roteiro complexo de se explicar mas que é fácil de entender ao assistir é mérito de Charlie Kaufman, roteirista de filmes como Quero ser John Malkovich e especialista em passear pelas confusas cabeças de seus protagonistas. A qualidade do roteiro (associado à ótima direção, claro) nos fazem ignorar o absurdo da ideia de deletar pensamentos e focarmos em Joel e nas redescobertas que ele faz de si mesmo em cada situação do passado que tenta esconder Clementine. Ou seja, nada de ficção científica. Brilho eterno é um filme sobre o amor, romântico, surpreendente, divertido e com um apelo psicanalítico que exalta o valor do sentimento (independente de ser alegria ou tristeza) sobre uma vida vazia a base de pílulas. É necessário amor, ódio, ressentimento, saudade e arrependimento. É necessário tudo, menos esquecer. Por mais tentadora que seja a ideia de se livrar da decepção e das mágoas, é preciso guardar as lembranças, pelo menos por aquilo que foi bom. E já dizia o açougueiro da esquina, o que não mata fortalece.

Obs:
1. Brilho eterno faturou o Oscar de melhor roteiro original, muito merecidamente, e para muitos, deveria levar também o de melhor filme, prêmio para o qual ele nem foi indicado.
2. Outro trunfo do filme é o elenco: seis nomes de muito peso. Jim Carrey e Kate Winslet fazem um trabalho incrível, ambos fora das áreas que costumam atuar - mas quem percebe? Ficaram perfeitos e muito bem entrosados. Além deles, estrelam o filme Kirsten Dunst, Elijah Wood, Tom Wilkinson e Mark Rufallo.
3. Texto pequeno pra um filme tão bom, eu sei. Mas quis evitar spoiler, e também acho que cada pessoa que assista ao filme pode tirar algumas conclusões sobre ele. As que descrevi acima são as mais gerais, às que todo mundo chega. Quem quiser compartilhar conosco suas opiniões, sinta-se a vontade para comentar.

Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Filmes pro final de semana - 30/08

1. Muita calma nessa hora (2010)
Três amigas cariocas estão num momento tenso de suas vidas. Tita (Andréia Horta) flagrou o noivo com outra e passou a se lamentar por ter gasto toda sua adolescência e idade adulta até então num relacionamento fracassado; Mari (Gianni Albertoni) está cheia de seu chefe tarado e da fama de pegadora, e quer esquecer que os homens existem; e Aninha (Fernanda Souza) se sente perdida no mundo, já que nunca consegue escolher algo, e já trancou a faculdade várias vezes. Para relaxar, as três vão passar um feriado em Búzios, onde conhecerão um argentino de araque dono de uma creperia (Nelson Freitas), um(a) tequileiro(a) muito louco(a) (Luis Miranda), uma hippie que sonha conhecer o pai (Débora Lamm), um chicleteiro sem noção (Lúcio Mauro Filho) e uma trupe de beberrões que não pega ninguém. Comédia engraçadíssima com seu tanto de beleza e surpreendentemente nada abusiva. Digo isso porque em tempos de Bruno Mazzeo, qualquer comédia de qualidade é lucro.
Nota: 7,5/ 10
 2. O voo (Flight, 2012)
A volta triunfante do diretor Robert Zemeckis (Forrest Gump) deu-se no início deste ano com o thriller empolgante sobre um piloto de aviões que oscila entre herói por ter evitado uma grande catástrofe aérea e vilão, pela acusação de ter sido o culpado pelo acidente por estar bêbado enquanto pilotava. A questão é que ele não estava simplesmente bêbado, mas sim que ele é um alcoólatra convicto. O filme que se inicia extremamente intenso com a queda do avião começa a passear por águas mais calmas, retratando o cotidiano do vício do protagonista, interpretação de Denzel Washington indicada ao Oscar, analisando todo seu passado e propondo perspectivas a seu futuro. Nota: 8.5/10


3. O profissional (Leon, 1994)
A violenta jornada da jovem Mathilda (Natalie Portman) na companhia de seu amigo (?) Leon (Jean Reno), um assassino profissional, em busca de uma vingança quase impossível contra a polícia corrupta que matou toda sua família pontua um dos filmes mais interessantes dos anos 90. Intenso do começo ao fim, O profissional representa um filme de ação de qualidade, com algumas doses esporádicas de drama, que inclui um relacionamento incomum entre as personagens e culmina com uma conclusão épica. Também marcante por ser a estreia de Natalie Portman nos cinemas, numa personagem juvenil que disputa com a Iris de Jodie Foster em Taxi Driver pelo posto de mais complexa. Altamente recomendável. Nota: 10


4. Amor sem escalas (Up in the air, 2009)
 Ryan (George Clooney) é um profissional de uma empresa que é contratada por outras empresas para demitir seus empregados. Todos os dias ele fica de frente a dezenas de pessoas que nunca viu na vida e diz "seus serviços não são mais necessários". E de um trabalho para outro, Ryan viaja de avião, seu maior prazer. A cada ano ele passa quase trezentos dias fora de casa - aliás, é realmente sua casa? Para ele, seu lar são os aeroportos, as salas de espera, as confortáveis poltronas executivas da American Airlines. Tudo na vida de Ryan é emprego, voo, e a meta de acumular dez milhões de milhas aéreas. Para mudar isso, surge o casamento de sua irmã caçula e uma nova colega de trabalho que tem ideias que podem mudar radicalmente seu estilo de vida. Uma ótima reflexão sobre a vida que cada um quer levar e sobre a crise econômica de 2008/09.
Nota: 9,5 / 10
5. O desprezo (Le mépris, 1963)
Para o público mais exigente, a dica é um dos melhores filmes de Godard, e de todos os tempos. O desprezo acompanha a ruína de um casamento a partir de um ato repugnante do marido Paul (Michel Picoli) em relação à sua bela esposa Camille (Brigitte Bardot). Paul, que é convidado a escrever o roteiro de um filme de Fritz Lang, faz vista grossa às investidas do chefe, o produtor Jeremy (Jack Palance) sobre sua esposa - e quando ela percebe, passa a desprezá-lo. Enredo interessante, diálogos tensos e imagens deslumbrantes são alguns dos ingredientes que fazem deste um clássico universal.
Nota: 10

Leia também: O desprezo

Lucas Moura e Luís F. Passos

sábado, 24 de agosto de 2013

A menina que roubava livros - futuro clássico

Tem livros que pegam a gente de jeito, num forte impacto. Alguns pela beleza, outros pela acidez, outros pela violência. Independente do gênero, muitos livros têm a capacidade de prender o leitor durante o tempo de leitura e de ficar em sua mente enquanto não está lendo ou depois que a leitura é finalizada. Não sei se tenho a sorte de encontrar livros assim ou se sou facilmente conquistado, mas o fato é que já me deparei com muitos dotados de tal habilidade (livros ou autores de tal habilidade?). Dentre eles, um no qual eu penso com especial carinho é A menina que roubava livros, futuro clássico da literatura internacional - digo isso baseado em alguns motivos que listarei abaixo, entre eles a impressionante popularidade alcançada, demonstrada nas muitas semanas consecutivas em que ficou nas listas de mais vendidos; aqui no Brasil foram quase dois anos entre os maiores sucessos de venda.
Se há pessoas que compram livros pela capa - e sim, há muitas - A menina que roubava livros já leva uma boa vantagem sobre seus concorrentes. Como não gostar da capa em que uma figura sob um guarda-chuva caminha na neve, e da contra-capa com a frase "Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler"? Muito bacana. E sim, essa é uma história contada pela Morte. A dama mais temida pelos homens é a narradora que nos conduz através das mais de quatrocentas e cinquenta páginas da história de uma menina alemã que, assim como milhões de outras, teve a infelicidade de viver durante o regime nazista e a 2ª Guerra Mundial, e foi nessa época que teve dois dos três encontros com a narradora de sua vida. Seu nome, Liesel Meminger. No início do livros conhecemos a menina, seu irmão e sua mãe, que são toda a sua família; e se já não parece muita coisa, mal começa  a descrição deles e é revelado que seu irmão está morto. A mãe então a deixa com um pobre casal da cidade de Molching, próximo a Munique. Rosa e Hans Hubermann são, respectivamente, dona de casa e pintor de paredes, e Rosa lava roupa para fora para ajudar na renda doméstica. Aparentemente, têm comportamento muito diferente; enquanto Hans fala baixo, é gentil e evita confusões, Rosa vive gritando, tem a boca cheia de palavras começadas por saus (porco em alemão, e nenhuma delas quer dizer boa coisa) e é adepta da boa e velha palmada - na verdade, vale qualquer coisa que estiver ao alcance de sua mão.
Liesel logo vai se acostumando à vida em Molching, aos vizinhos, especialmente o pequeno Rudy Steiner, que apesar das típicas diferenças entre meninos e meninas se torna seu melhor amigo, e às atividades da Juventude Hitlerista, à qual a menina tem de se unir. E em meio a suas atividades, brincadeiras e ajuda que prestava à mãe adotiva com as entregas, Liesel se dedica a uma paixão: livros. Mas uma menina pobre, que chegara à Molching analfabeta, obviamente não os tinha. Acontece que no enterro de seu irmão a pequena vira que o coveiro deixara cair um pequeno livro chamado O manual do coveiro e discretamente o pegou e guardou para si. O segundo, meses depois, fora tirado de uma enorme fogueira ("alemães adoram fogueiras!") em que os nazistas queimaram livros considerados perigosos. Ao longo da história, outros exemplares se somam à pequena coleção de Liesel, assim como acontecimentos interessantes vão lhe acontecendo. A chegada de um inesperado amigo e suas consequências, além de todas as experiências que uma guerra e o furto de livros pode proporcionar. Fui vago? Talvez. Me defendo com o argumento de que já faz cinco anos que li A menina que roubava livros (The book thief, 2005) e não tive a oportunidade de relê-lo - mas assim que o filme sair, estarei no cinema. Lembro que na época o livro já era um enorme sucesso, e que estava na lista de livros mais vendidos há dezenas de semanas, e sempre entre os cinco primeiros. Não é difícil ver o motivo. Markus Zusak, escritor australiano que eu admiro muito, é um exímio narrador, dono de um texto muito fluido e que atrai como poucos o leitor. Ele sabe dosar muito bem humor e momentos tristes no enredo comovente que, apesar de ser ambientado na 2ª Guerra, não é nem um pouco clichê ou apelativo. A emoção aqui é pura como a criança que temos como protagonista. E por falar em apelativo, me perdoem os fãs de O menino do pijama listrado, mas esse aqui dá uma surra no livro de John Boyne.

Nota: 10

Leia também:
A cidade do sol
Eu sou o mensageiro

Luís F. Passos

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Top 30: filmes preferidos - Lucas (3)

10. Os bons companheiros (Goodfellas, 1990)
Direção: Martin Scorsese
Com: Robert De Niro, Ray Liotta, Joe Pesci, Paul Sorvino e Lorraine Bracco
A escória da máfia. Ao mundo que antes havia idolatrado o alto escalão dos mafiosos ítalo-americanos apresentados pela trilogia de Coppola, Scorsese nos mostra o baixo escalão desta mesma instituição, dando um novo ponto de vista de algo já muito familiar. Os bons companheiros desenvolve-se na relação entre Henry Hill (Ray Liotta) e sua vida na máfia. Uma vida toda preparada para fazer parte disto, algo que sempre foi julgado como algo maior. No meio da confusão e da pobreza dos bairros suburbanos violentos, ser da máfia representava ser alguém. Scorsese desenvolve desta forma, a ascensão de Henry para a máfia e como ele construiu destruir-se totalmente uma vez tendo abusado de todos os privilégios e riqueza que lhe beneficiaram e ultrapassado qualquer limite e senso de moralidade. Violento do começo ao fim, Os bons companheiros é ironicamente cômico. Situações absurdas acontecem o tempo todo e risos são inevitáveis. O desenrolar da trama segue uma sequência não muito imprevisível, mas muito interessante de ser acompanhada. Representa, também, a terceira derrota mais amarga de Scorsese ao Oscar de direção. Afinal, temos aqui o terceiro melhor filme do diretor, perdendo apenas para Taxi Driver e Touro indomável.


9. Psicose (Psycho, 1960)
Direção: Alfred Hitchcock
Com: Anthony Perkins, Janet Leigh,
O filme mais reconhecido de Alfred Hitchcock. Apesar de Um corpo que cai ter sido escolhido ano passado como o melhor filme de todos os tempos pela revista Sight and sound, Psicose é o trabalho mais popular e perturbador do diretor. Hitchcock se dispôs a assumir um risco pessoal altíssimo ao decidir trabalhar com uma história tão sórdida, violenta e desagradável quanto à de Psicose. Afinal, nunca antes na história do cinema um monstro era alguém de carne osso, um ser humano aparentemente comum e normal que sai de sua banalidade e se transforma no maior psicopata da história do cinema. O choque das plateias de 1960 era algo inevitável, mas dificilmente foi imaginado que o filme tomaria a proporção que adquiriu. Enredo inovador, temática assustadora, técnica perfeita. Estas são as três principais marcas de Psicose. A cena do chuveiro é um ícone. A trilha sonora, inesquecível. Matar a protagonista antes da metade do filme? Pura ousadia. E as reviravoltas? Uma melhor que a outra, mais intensa que a anterior. Ainda se dispõe a análise da mente perturbada do assassino, a qual não é totalmente elucidada, permanecendo, assim um ar de mistério que é muito importante para manter o clima do filme. Norman Bates virou uma lenda e o momento mais arriscado da carreira de Hitchcock tornou-se sua maior consagração. Filme indispensável.

8. Persona (1966)
Direção: Ingmar Bergman
Com: Bibi Andersson, Liv Ullman
Uma experiência cinematográfica sem igual, Persona é, para mim, o melhor trabalho de Ingmar Bergman e o melhor filme europeu. Em pouco mais de 90 minutos, Bergman nos mostra quase totalmente através de imagens a complexa relação entre duas personagens, uma enfermeira e uma paciente, que num curto espaço de tempo criam uma forte conexão e passam por um processo simbiótico de personalidades, onde é impossível determinar onde a mente de uma começa e a da outra termina. A noção de individualidade é totalmente perdida e o que vemos é, literalmente (quem viu sabe o porquê do literalmente) a fusão de duas pessoas. Conforme o filme avança, as duas mulheres vão se despindo de todos os artifícios sociais e vão mostrando todos seus defeitos, medos, arrependimentos. A máscara, a persona, que usam cai e só sobram a verdadeira Alma (a enfermeira, interpretada por Bibi Anderson) e Elisabeth Vogler (a paciente, uma atriz vivida por Liv Ullman). Com sua temática complexa e psicológica, Persona não se importa muito com se fazer entender. O prólogo inicial são apenas imagens aparentemente desconexas que o próprio diretor chamou de “poema visual”. O visual é o forte de Persona. A fotografia é a alma do filme. Não se importe em entender absolutamente tudo que está se passando, apenas aproveite o que pode ser absorvido e questione-se pelo que não é totalmente elucidado.

7. O poderoso chefão, pt 2 (The Godfather II, 1974)
Direção: Francis Ford Coppola
Com: Al Pacino, Robert De Niro, Robert Duvall, Diane Keaton, Talia Shire, John Cazale e Lee Strasberg.
Raramente uma continuação é boa. Mais raramente ainda uma continuação consegue ser tão boa quanto, para alguns até melhor, que seu filme de origem. O exemplo maior desta raridade é O poderoso chefão pt 2, que consegue se igualar ao primeiro capítulo da trilogia e, em alguns aspectos, até superá-lo. É de fato conhecido que em O poderoso chefão pt 2 Coppola conseguiu ter uma liberdade de criação bem maior que no primeiro filme, o que facilitou o processo e tornou o filme ainda mais pessoal. Neste capítulo, já temos Michael Corleone (Al Pacino) definido em sua posição de chefe da máfia e da família Corleone. Então, vamos acompanhar sua trajetória, passando também por contextos históricos que servem como um interessante acessório para a narrativa.  A personagem de Michael vai se transformando ao longo do filme, mostrando novas faces que não haviam sido apresentadas no filme anterior. Aqui também é mostrada a juventude de Don Vito, desde sua saída da vida de pobreza na Itália a sua estabilização na sociedade ítalo-americana dos bairros suburbanos de Nova York. A cargo da caracterização da juventude de uma personagem já imortalizada pelo trabalho de Marlon Brando, está Robert De Niro, no primeiro dos maiores trabalhos de sua carreira.

6. O poderoso chefão (The Godfather, 1972)
Direção: Frances Ford Coppola
Com: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale
O primeiro capítulo da trilogia de mafiosos é um filme inesquecível. Mais que tecnicamente falando, é um dos filmes mais estilosos que existe. Aqui nos é apresentada a família Corleone, liderada pelo Don Vito (Marlon Brando), uma das principais famílias de mafiosos da cidade de Nova York, homens tão charmosos quanto perigosos, capazes de fazer tudo para cuidar de seus protegidos, mas que também não demonstram qualquer tipo de piedade em destruir inimigos. O filme apresenta traços de cinema noir e de drama, tendo este um centro muito fundamentado na própria relação familiar estranhamente próxima em que a família é mostrada como o bem maior que se pode ter como também pela dualidade entre Don Vito e seu filho Michael (Al Pacino), que num primeiro momento não se apresenta adequado a ocupar a posição do pai, mas que, aos poucos, vai se transformando. A interpretação de Marlon Brando é icônica e Al Pacino mostrou-se um dos maiores atores do cinema americano do dia para a noite. A mágica de assistir O poderoso chefão permanece inabalável já há mais de 40 anos. Assisti-lo ainda é uma oferta irrecusável.

5. Chinatown (1974)
Direção: Roman Polanski
Com: Jack Nicholson, Faye Dunaway, Diane Ladd, Roman Polanski, John Houston
Dentre os filmes do meu top 10, provavelmente Chinatown é o menos cultuado e simplesmente não sei por quê. Afinal, temos aqui um dos maiores filmes dos anos 70 e isto não é pouca coisa. A maior obra-prima de Polanski (sim, estou colocando-o acima de Repulsa ao sexo e O bebê de Rosemary) é uma repaginada no gênero antigo do cinema noir. O cinema noir, basicamente falando, é um estilo imortalizado pela figura de um investigador que se envolve em algum crime, geralmente relacionado a uma femme fatale, e conforme a história se desenvolve vamos tendo noção da profundidade dos problemas, da tortuosidade das tramas e de que as aparências, como sempre, enganam. Esta definição simples pode muito bem ser aplicada ao cerne de Chinatown, mas o filme vai muito além. O detetive J. J. Guittes de Jack Nicholson é contratado por uma rica femme fatale para investigar uma suspeita de adultério por parte de seu marido. Um caso aparentemente fácil de resolver acaba transformando-se numa história de grande abrangência, com incontáveis reviravoltas capazes de intrigar o espectador do começo ao fim do filme. Grande parte dos mistérios envolve a Sra. Murray (Faye Dunaway), uma mulher misteriosa e extremamente sensual, que guarda segredos inimagináveis que realmente chocam nossa mente ingênua de simples observador. A sujeira, a podridão e a amoralidade que cercam as personagens de Chinatown convergem todas para um legítimo gran finale, que se passa justamente no bairro chinês de mesmo nome. Um bairro que assombra Guittes desde seus tempos como policial da Polícia de Los Angeles e que remete a mais pura incapacidade. Um lugar onde nem tudo é o que realmente aparenta ser e onde tudo foge de nosso controle, sendo sintetizado por uma frase curta e grossa: “Esqueça, Jake. É Chinatown”. O maior problema de Chinatown é ter caído justamente no mesmo ano de O Poderoso chefão pt2. Desta forma, foi massacrado no Oscar e deixado quase em segundo plano. Mesmo assim, ainda arrebatou o prêmio de melhor roteiro e, para os bons fãs de cinema, é uma oferta tão irrecusável quanto.

4. Taxi driver (1976)
Direção: Martin Scorsese
Com: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepperd, Harvey Keitel
Se Woody Allen romantiza a cidade de Nova York em seus filmes, Scorsese está mais que satisfeito em mostrá-la como o retrato de toda a imundície humana. E assim o faz. Nos diversos retratos da cidade que aparecem em seu filme, nenhum se compara ao mostrado em Taxi driver. Aqui, a cidade é mostrada como um verdadeiro inferno de ruas lotadas de marginais, viciados, criminosos e prostitutas que vagam na noite como zumbis sem qualquer tipo de propósito. Uma cidade dominada pela mais pura sujeira moral, uma imundície que só uma chuva de verdade poderia varrer das ruas. É nesse cenário que fervilha a mente instável de Travis Brickle (Robert De Niro), mergulhada em insônia, solidão e obsessão. Travis é a representação mais clássica possível de um anti-herói. Uma protagonista que simplesmente não conhece ou impõe qualquer tipo de valor moral e funciona exclusivamente em função de seus desejos obscuros. Sua maior ambição: transformar a cidade. Limpá-la, melhor dizendo. Para isso, tenta de diversas formas interagir com a sociedade que uma vez o isolou. Estas tentativas são as mais infrutíferas possíveis, tratando-se de alguém que pouco sabe de qualquer tipo de interação social e, conforme a história vai avançando, Travis vai se transformando. Neste caminho, envolve-se com uma bela funcionária de campanha política (Cybill Shepperd) e uma jovem prostituta que não quer ser salva (Jodie Foster), os grandes alvos de sua loucura e obsessão. O final, um dos melhores do cinema, ainda reserva um bom questionamento: quais são os limites entre o herói e o vilão? A resposta cabe a cada um.


3. Touro indomável (Raging Bull, 1980)
Direção: Martin Scorsese
Com: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci
De todos os muitos – muitos mesmo – filmes americanos que abordam o boxe como plano de fundo ou até mesmo personagem, Touro indomável de Scorsese é de longe o melhor. Sua beleza estética e sua perfeição técnica o elevam da categoria dos filmes “comuns” e o colocam na posição dos maiores clássicos do cinema mundial. Já se passaram três décadas e a qualidade artística de Touro indomável não diminui nem um pouco. Numa era em que os protagonistas eram simbolizados pela figura do anti-herói, Scorsese brinda o cinema com um dos maiores destes. Um homem agressivo e violento que não consegue exprimir suas emoções e suas insatisfações através de palavras, usando, para tal, os próprios punhos. O filme acompanha a vida do boxeador Jake La Mota (Robert De Niro), sua escalada para o sucesso e seu declínio para o fracasso, numa descida pontuada por erros em simplesmente todas as áreas de sua vida, sem que em nenhum momento ele aprendesse com esses erros. La Mota não se torna uma pessoa melhor e o filme não caminha para um final feliz de qualquer maneira. Aliás, a obra poética de Scorsese tem um caráter praticamente documental. Afinal, Jake La Mota é uma figura lendária e real do mundo do boxe. O preto e branco da fotografia torna-o ainda mais interessante visualmente, e recursos como as mudanças de nuances na imagem conforme as circunstâncias vividas dentro dos ringues realmente ativam os sentidos. No auge de uma grande obra-prima, o melhor trabalho de um grande ator. Aqui De Niro desenvolve uma das melhores personagens masculinas da história do cinema. Uma interpretação vencedora do Oscar de melhor ator e que é categorizada por todos que já assistiram Touro indomável como uma das melhores de todos os tempos.


2. Apocalypse now (1979)
Direção: Francis Ford Coppola
Com: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall e Dennis Hooper
De todos os filmes americanos sobre guerras nenhum é tão forte e visceral quanto a obra-prima de Coppola, Apocalyse Now. Dentre a amplitude de filmes que retratam ou se baseiam na Guerra de Vietnã nenhum conseguiu captar a áurea quase mística de insanidade física e mental quanto este aqui. Apocalypse Now retrata não apenas os horrores da guerra, mas principalmente a forma como esta se manifesta na deterioração da alma do homem. Um estudo complexo sobre a forma como a mentalidade dos indivíduos definha em meio às manifestações do mais puro horror. O filme tem uma áurea quase mística e retrata a trágica e perigosa jornada de um soldado americano (Martin Sheen) pelo coração das trevas e pela alma da guerra, em caminhos e viagens longas e insuportáveis pela selva que nos mostra as diversas atrocidades cometidas neste tipo de situação. A viagem dos soldados tem um destino final. Seu objetivo é alcançar e deter um antigo oficial do exército americano que tornou-se líder de um culto secreto no meio da floresta. A interpretação deste líder é garantida pela presença marcante de um transformado e amedrontador Marlon Brando. Apocalypse Now foi realizado no fim dos anos 70, mantendo uma conexão direta com as características de choque e pessimismo tão vigentes no cinema da época. Sua derrota ao Oscar de melhor filme também pode ser percebida como um dos maiores indícios do declínio daquela geração cinematográfica, mas isso não tem grandes implicações. Afinal, temos aqui não apenas o melhor filme de guerra como também um dos maiores filmes da história. A quantidade técnica, de atuação, de direção e de roteiro são magnéticas e assistir Apocalyse Now é uma experiência cinematográfica o mais intenso o possível. Um filme que pode não agradar a todos, mas que é inegavelmente inesquecível.

1. Annie Hall (1977)
Direção: Woody Allen
Com: Diane Keaton, Woody Allen, Tony Roberts, Carol Kane e Shelley Duvall
Considero Annie Hall um dos filmes mais importantes de minha vida. Afinal, o vi pela primeira vez quando ainda começa a me interessar mais por cinema e tê-lo visto foi um fator decisivo para continuar me interessando cada vez mais por ele. Alem disso, trata-se do melhor e mais consistente filme de Woody Allen. A história simples sobre o amor e sobre a inexplicável importância que este possui na vida das pessoas tornou-se uma das comédias mais importantes da história do cinema americano, tendo sido responsável por uma verdadeira revolução na maneira de se fazer comédia romântica. O trabalho ácido, irônico e altamente romântico do comediante Woody Allen é uma grande declaração de amor, não apenas a sua companheira (na época eram apenas amigos) Diane Keaton – a qual baseou a personagem título – como também ao cinema, a cultura e a cidade de Nova York. Os elementos técnicos de Annie Hall também foram inovadores e recursos que viriam a se tornar comuns nas comédias românticas foram inicialmente implantados aqui.  Muitos fatores presentes em filmes modernos como por exemplo 500 dias com ela tem a assinatura inegável da influência de Annie Hall. Também funciona como uma análise comportamental do homem moderno e de todas as neuroses que vêm acompanhadas pelo complicado e tenso estilo de vida vigente. As interpretações de Woody Allen e Diane Keaton são muito divertidas de se assistir e a parceria dos dois, com certeza, é uma das melhores e mais produtivas do cinema. Particularmente, tenho um grande interesse particular por este filme, tanto que já o vi mais de 10 vezes. Deixo aqui, dentre estas 30 recomendações, uma dica especial com relação a ele. Garanto que o divertimento é inevitável.