sábado, 9 de fevereiro de 2013

As vantagens de ser invisível - as vantagens do cinema independente

 Todo ano temos sempre um ou dois filmes de circuito independente ou semi-independente que conseguem uma representatividade grande e alcançam um público muito maior do que o esperado para seu gênero e sua proposta inicial. Conseguir isso, no entanto, é extremamente difícil. Fazer com que um filme de baixo orçamento que esteja por fora dos grandes estúdios de Hollywood e que não trabalhe com as maiores estrelas do momento torne-se popular é realmente muito difícil, pois, para tal, o filme deve ter no mínimo um roteiro excepcional e um elenco que pode até ter muitos nomes desconhecidos, mas que deve, obrigatoriamente, ser excelente. O caso é que As vantagens de ser invisível (The perks of being a wallflower, 2012) vai muito além disso.

O filme trata, basicamente, da vida de um jovem adolescente de 16 anos que acaba de entrar para o ensino médio. Seu nome é Charlie (Logan Lerman) e ele de fato não tem nenhum amigo e pouca convivência com o mundo a sua volta, já que vive sempre assombrado por distúrbios psicológicos causados por terríveis traumas de sua infância – que vão sendo revelados aos poucos ao longo da trama. No meio de uma multidão de adolescentes que parecem tão vivos ele é um nada. Uma pessoa invisível. 
Sua invisibilidade começa a desaparecer quando ele encontra as duas pessoas que viriam a se tornar seus melhores amigos e confidentes. Patrick (Ezra Miller), um veterano super divertido e descolado que parece estar sempre alegre e disposto a tornar todos a sua volta com o mesmo estado de espírito. Sam (Emma Watson), a bela colegial, super simpática e, aparentemente, igualmente cheia de vida por quem Charlie acaba desenvolvendo uma paixão inegável. Junto a essas duas novas pessoas, o solitário Charlie começa a andar sobre novos caminhos, tomar novas atitudes e passar por novas experiências, das mais banais as mais incomuns, que funcionam como um verdadeiro sopro de vida em sua decepcionante rotina e que acabam o afastando, um pouco, dos seus velhos transtornos que sempre o acompanharam. Entra de cabeça num mundo totalmente novo. Tudo parece ir melhor do que nunca. 
O problema é que as coisas nunca são realmente o que parecem ser. A aparente euforia dos garotos, na verdade, não representa de fato o estado de espírito deles. Seus segredos, suas frustrações, seus medos e suas inseguranças vão, aos poucos, sendo cada vez mais exibidos em momentos naturais da mais franca sensibilidade. As aparências realmente enganam e escondem quem realmente somos. Charlie não é o único perdido ali, todos, em suas próprias maneiras, estão confusos e a procura de uma identidade pessoal ainda em formação.
As vantagens de ser invisível fala justamente disso. Dessa construção de uma identidade própria, da forma como disfarçamos nossos problemas e nossos traumas, da necessidade absurda de conseguir encontrar um lugar e um alguém com quem ser nada mais do que si mesmo (“vamos ser desajustados juntos!”). Fala sobre a importância da amizade e de como nos comportamos perante relacionamentos efetivos (“nós aceitamos o amos que achamos merecer” – frase fantástica essa). Tudo isso com uma sensibilidade e uma franqueza que somente filmes independentes poderiam trazer. Um filme ousado que se propõe a trazer algo genuinamente novo, mesmo que o tema central já tenha sido abordado em outros filmes para adolescentes e jovens. Afinal, As vantagens de ser invisível é sim um filme voltado para tal público. Não há motivos para negar isso. Sua linguagem fala diretamente a pessoas entre seus 15 e 20 anos, mais ou menos, por mais que possa se conectar com qualquer idade. É um filme jovem, feito para jovens, com um elenco quase inteiramente de jovens. E quem disse que filme para jovens é porcaria? Eventualmente temos provas consistentes de que há sim vida inteligente na juventude e que existe uma parcela considerável de espectadores de tal faixa etária mais interessada em questionamentos realmente pertinentes sobre temas diversificados e sérios. Que se preocupa com conteúdo e com uma legítima identificação com uma história, não com uma menina sem graça cuja grande dúvida é se vai transar com um lobisomem ou com um vampiro.
Além disso, para os fãs de boa música, As vantagens de ser invisível conta com uma trilha sonora muito legal e ainda com uma grande reverência ao excêntrico e sexual musical The Rocky Horror Picture Show (1975), que não podia ser metáfora maior ao modo como eles se propõem a serem pessoas diferentes no meio da mesmice. Muito legal.

Não conhecia o ator Logan Lerman, mas definitivamente adorei seu trabalho como o protagonista tão calado quanto complexo. Charlie é uma personagem completo e é impossível não criar empatia imediata com ele. Ezra Miller vive Patrick, o amigo gay e descolado, que garante boa parte dos momentos descontraídos do filme e ainda arrebata alguns dos momentos mais tensos e sentimentais. Ezra ficou conhecido pelo seu papel como Kevin em Precisamos falar sobre o Kevin (2011). E Emma Watson? Incrível. Ela confirma o que qualquer um com bom senso já sabia, que é a melhor coisa que saiu da saga Harry Potter no cinema. Mostra que consegue ir muito além de Hermione Granger e que tem absolutamente tudo que é necessário para se tornar a nova atriz sensação dessas pequenas maravilhas que são os filmes semi-independentes (ainda este ano, estréia no novo filme de Sofia Coppola), território onde nomes como Kirsten Dunst, Jennifer Lawrence e Ellen Page conseguiram firmar seus talentos alguns anos atrás.

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Lucas Moura

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O lado bom da vida - e o lado humano também

No Globo de Ouro desse ano uma atriz venceu Meryl Streep, Judi Dench e Maggie Smith. Quem? Natalie Portman? Glenn Close? Nicole Kidman? Não. Jennifer Lawrence. Um rosto desconhecido até o fim de 2010, quando foi indicada ao Oscar de melhor atriz por Inverno da alma (Winter bone, 2010), filme alternativo que concorreu ao Oscar de melhor filme pra preencher tabela (mas que nem por isso deixa de ser ótimo). Jennifer, inclusive, concorreu com Natalie Portman, Nicole Kidman, Michelle Williams e Annette Bening, só feras. Ano passado ela saiu do circuito alternativo estrelando o baladíssimo Jogos vorazes, e agora ganha mais destaque ainda com a comédia O lado bom da vida (Silver Linings Playbook, 2012).
O filme começa quando Dolores Solitano (Jacki Weaver) vai buscar seu filho Pat (Bradley Cooper) na clínica psiquiátrica onde ele esteve por oito meses.Pat está na pior: a mulher o traiu e o largou, ele foi diagnosticado como bipolar, perdeu a casa e o emprego, tendo que voltar a morar com os pais, que são um casal normal, com qualidades e defeitos. Sua mãe é um doce de pessoa, e seu pai Patrizio (Robert DeNiro) é um cara meio fechado, que teve pouca proximidade com seu filho na infância dele, e é um supersticioso e apostador profissional. Durante o filme há uma certa tensão entre pai e filho, que o próprio Patizio tenta por de lado.
Na noite em que é convidado para jantar na casa de um dos poucos amigos que lhe restaram (esqueci o nome da personagem), Pat conhece Tiffany (Jenniffer Lawrence), cunhada de seu amigo. Tiffany é uma jovem viúva que ainda sofre com a morte precoce do marido, é muito sensível, cheia de problemas - que ela faz questão de não ignorar e os abraça - e muito realista e sincera, chegando a ser agressiva. A partir daí o filme gira em torno das tentativas de Tiffany de se aproximar de Pat, que incluem a participação num concurso de dança, e os esforços de Dolores e Patrizio para ajudar o filho e rearranjar a família, isso porque Pat ainda acredita que conseguirá reconquistar a esposa, sua vida antiga, sem se tocar que sua felicidade tá bem embaixo de seu nariz.
O lado bom da vida é uma agradável surpresa. Muito bom saber que uma comédia romântica ainda é capaz de trazer um bom roteiro, ser dirigida por alguém de peso e trazer um grande elenco. Certo que o final é meio previsível, mas o filme é muito interessante, com ótimos diálogos e arranca risos sutilmente. A direção e roteiro são de David O. Russel, diretor de O vencedor (2010), filme que eu gosto muito. E quanto ao elenco... Bradley Cooper surpreendendo como Pat, Robert DeNiro voltando à sua glória depois de vinte anos sem fazer uma grande atuação (a última foi em Cabo do Medo, 1991), e aparecendo muito bem como um velho pai de família, cheio de rugas e carismático - capaz de ganhar seu terceiro Oscar! - e claro, Jenniffer Lawrence, o nome do momento. Lawrence faz um ótimo trabalho interpretando uma jovem problemática, uma personagem que aparentemente não exige muito mas que ganha destaque pela peformance da atriz, que provavelmente levará o Oscar de melhor atriz. Bacana saber que se Hollywood tá em crise de ideias, o mesmo não pode se dizer de seus atores, já que a nova geração é cheia de talento, o suficiente pra competir em pé de igualdade com os titãs do cinema. E fãs da comédia romântica, comemorem. O gênero ainda tem muito a oferecer.

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Luís F. Passos

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Oscar nos anos 2000 (1): 2000 a 2003

2000
Melhor Filme
Chocolate
Erin Brockovich – uma mulher de talento
O tigre e o dragão
Gladiador
Traffic

Tá aí um ano do Oscar que não gosto muito. Dos cinco indicados a Melhor Filme, nenhum está na minha lista pessoal de filme preferidos, apesar de realmente gostar de alguns deles. O vencedor da cerimônia foi o filme Gladiador e, realmente, não poderia ser diferente. A super produção do diretor Ridley Scott arrastou multidões para os cinemas, pessoas afoitas por ver a perfeita caracterização da Roma antiga, a dualidade entre um Joaquin Phoenix sádico e um Russel Crowe (vencedor do Oscar de melhor ator) que é a personificação do termo guerreiro e horas de ação e entretenimento por um já clássico filme épico. Filmaço indiscutível. Mais destaques vão para a produção de Steven Soderbergh (vencedor do Oscar de melhor diretor) sobre o mundo das drogas, Traffic, e a aventura de Ang Lee pelo estilo clássico de filmes de lutas orientais com O tigre e o dragão. Não faz muito sentido nessa lista a presença de Erin Brockovich e Chocolate. Erin Brockovich tem seus méritos e Julia Roberts (vencedora do Oscar de melhor atriz) faz um grande trabalho, mas o filme em si não é grande coisa. Enquanto Chocolate... bem, reza a lenda que sua indicação foi comprada. Isso já fala muito sobre a qualidade – baixa – do filme. Uma boa opção que não consta na lista: Réquiem para um sonho, do diretor Darren Aronofsky, que deveria ter saído da premiação com no mínimo o Oscar de melhor atriz para Ellen Burstyn. Se você gostou de Cisne Negro, vai adorar Réquiem para um sonho.

2001

Melhor Filme
Uma mente brilhante
Assassinato em Gosford Park
O senhor dos anéis: a sociedade do anel
Moulin Rouge
Entre quatro paredes

Ano de fortes emoções e grandes produções para o Oscar. Ano da consagração do ator infantil que virou diretor renomado, Ron Howard, que conseguiu levar os dois principais prêmios da noite para sua brilhante película que retrata uma história fantástica desenvolvida na cabeça de um homem genial: Uma mente brilhante, grande sucesso dos anos 2000 com Russel Crowe e Jennifer Connely (vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante) liderando um grande elenco. Todos os outros quatro indicados são filmes excelentes. Assassinato em Gosford Park marca a volta do diretor Robert Altman, caminhando por terrenos distantes de tudo o que já havia produzido sem deixar, no entanto, sua marca única e seu estilo pessoal de fazer filmes. Entre quatro paredes é um drama intenso, sentimental e surpreendente. Moulin Rouge marca a volta dos musicais, gênero quase extinto na época que, pelas cores e sons vibrantes de Baz Luhrman, ganhou nova vida. A sociedade do anel é o primeiro capítulo de uma das trilogias mais lucrativas e bem sucedidas da história do cinema. Vencedor de melhor ator: Denzel Washington por Dia de treinamento (muito bom!). Vencedora de melhor atriz: Halle Berry por A última ceia (atuação legal, filme mais ou menos), primeira atriz negra a vencer na categoria – particularmente, preferia a vitória para Sissy Spacek (Entre quatro paredes). Quem poderia ser, então, a primeira atriz negra a vencer o Oscar de melhor atriz? Em minha opinião, Whoopi Goldberg por A cor púrpura, 1985.
Ah, a cerimônia desse ano, que aconteceu em fevereiro de 2002, foi a única que contou com a presença de Woody Allen. Todos sabem que o diretor não se importa com premiações, mas compareceu nesse ano para homenagear sua amada Nova York, que ainda sofria com as lembranças do 11 de setembro anterior.

Charlize Theron, melhor atriz em 2003
2002
Melhor Filme
O senhor dos anéis: As duas torres
Chicago
Gangues de Nova York
O pianista
As horas

Ano no mínimo estranho. Chicago saiu vencedor da noite. Se for analisado separadamente, percebe-se que Chicago é sim um grande filme. Porém, é impossível não associar o sucesso estrondoso de Chicago à abertura das portas para os musicais permitida no ano anterior por Moulin Rouge e mais difícil ainda é evitar a comparação entre Chicago e outras produções musicais, como o próprio Moulin Rouge e principalmente Cabaret (1972), que é mais parecido com seu estilo, porém muito melhor. Além disso, Chicago concorria diretamente com filmes fantásticos que eram melhores em elenco, direção, roteiro e elementos técnicos, sobretudo o filme que provavelmente mais merecia o prêmio, O pianista de Roman Polanski (vencedor de melhor diretor – Polanski – e melhor ator – Adrien Brody). Destaque também para a passagem de Virginia Woolf dos livros às telas através do intrincado e introspectivo As horas (vencedor de melhor atriz – Nicole Kidman) e para a viagem de Scorsese à formação de sua amada cidade através do violento Gangues de Nova York. Ano marcado também por um grande erro do Oscar, que deu o prêmio de coadjuvante para Catherine Zeta-Jones, Chicago, no lugar de uma Meryl Streep melhor que o de costume em Adaptação.

2003
Melhor Filme
O senhor dos anéis: O retorno do rei
Mestre dos mares
Sobre meninos e lobos
Seabiscuit
Encontros e desencontros


O ano basicamente se resumiu a uma produção: O retorno do rei. A conclusão da trilogia de Frodo e cia. levou nada mais nada menos que 11 prêmios para casa (igualando os recordes de Titanic e Ben-Hur), levando consigo melhor filme e melhor diretor (Peter Jackson) e fazendo uma limpeza nas categorias técnicas. Os outros indicados – ofuscados – realmente não têm a mesma força de O retorno do rei. Confesso que nunca assisti Mestre dos mares e que acho Seabiscuit muito sem graça. Sobre meninos e lobos é um drama intenso, surpreendente e muito bem dirigido por Clint Eastwood e com um elenco fantástico (Sean Penn – vencedor de melhor ator; Tim Robbins – vencedor de melhor ator coadjuvante). Encontros e desencontros é a simpática e sentimental incursão de Sofia Coppola através da solidão e do companheirismo do homem moderno em meio ao caos e a multidão do mundo atual. Quem conseguiu desviar um pouco os holofotes de O retorno do rei foi a vencedora do Oscar de melhor atriz, Charlize Theron. Seu papel em Monster é o mais visceral possível, sua caracterização física e psicológica é difícil de esquecer e impossível de ser ignorada, e seu trabalho é considerado por muitos uma das melhores atuações de vencedoras do Oscar da categoria (lembrando que já estamos com mais de oito décadas de prêmios). Na premiação, senti falta da presença de Evan Rachel Wood na categoria de melhor atriz, por seu papel dificílimo em Aos treze. Destaque também para a presença da produção brasileira Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles, que alcançou uma representatividade enorme no cinema internacional e conseguiu cinco indicações ao Oscar, incluindo melhor diretor para Fernando Meirelles (muitos acham que ele é que deveria ter levado a estatueta).

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Lucas Moura 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Acossado - “viva perigosamente até o fim”

Filme de estréia do diretor francês Jean-Luc Godard, Acossado (À bout de souffle, 1959) é consideravelmente modesto, configurando-se como um dos filmes mais simples e diretos de seu diretor. Ao mesmo tempo, sua narrativa moderna e arrojada e sua técnica de filmagem o colocaram (e o mantém) em posição de destaque não apenas na filmografia do diretor como também no cinema mundial.
O enredo gira exclusivamente em torno de um casal: Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo), um criminoso perseguido pela polícia por um assassinato, e Patricia Franchine (Jean Senberg), uma americana vivendo em Paris. A partir desses dois personagens principais, Acossado dança entre diferentes gêneros. Tendo um casal como protagonista, é inegável a temática do amor. No entanto, o amor aqui não é tratado de forma convencional, mas sim, quase como um jogo, como uma competição entre os dois, que estão sempre questionando o quanto amam (ou se realmente amam) um ao outro, de forma que em um momento não podem viver separados e em outro estão tomando atitudes quase inconseqüentes (definitivas para o final) apenas para buscar essa certeza.
Ao lidar com um criminoso, Acossado também passeia pelo gênero do filme noir (marcado, tecnicamente falando, pela trilha sonora), mostrando, paralelamente ao relacionamento entre Michel e Patricia, gângsteres e mafiosos, com suas armas e malas de dinheiro. A conclusão do filme, que combina perfeitamente com o desenrolar da trama, remete nitidamente a esse gênero, envolvendo uma perseguição policial e uma traição.
Outro aspecto marcante e inevitável é a nítida divergência entre o comportamento do homem americano para o do homem europeu. Culturalmente falando, essa oposição é constante. Em muitos momentos, evidencia-se pelo simples fato de Patricia não entender determinados termos usados por Michel (evidenciando uma dificuldade de comunicação que vai muito além da fala). Referências a ícones pop e culturais também são evidentes. Desses ganchos feitos ao longo do filme, os mais interessantes são uma fotografia do ator Humphrey Bogart, a qual é encarada por alguns segundos por Michel, e uma revista do “Cahier du cinéma”. O rosto de Bogart não está ali por acaso. Ele é um ator icônico e imortal do cinema clássico e, o fato de estar presente em uma obra tão vanguardista quanto Acossado, mostra certo comprometimento com o passado. Por mais que o filme, bem como outras obras da época, quisesse se libertar dos padrões antigos e moldar um futuro para a sétima arte, a presença deste passado era extremamente notável e difícil de ser ignorada. Além disso, Godard vivia uma espécie de dualidade amor e ódio com o cinema americano. Com relação ao “Cahier du cinéma”, para quem não sabe, foi uma revista de cinema francesa onde eram publicadas críticas de jovens escritores que, num futuro próximo, viriam a criar o movimento da nouvelle vague.
Um ponto bastante positivo de Acossado é também a qualidade de seu roteiro. Apesar de simples, é repleto de frase curtas, porém altamente reflexivas sobre amor, medo, vida e morte, bem como o comportamento social do homem moderno dos anos 60 (vivendo a explosão da cultura pop e o pós-guerra). Muitos dos diálogos entre Michel e Patricia são totalmente descompromissados e ágeis, o que os torna tremendamente naturais. De todas essas jóias deixadas por Acossado, merece destaque uma frase curta e grossa que eu acredito que traduza o significado do trabalho do gênio Godard para a história do cinema. Enquanto Patricia, que trabalha para um jornal local, entrevista um artista e o pergunta qual seria sua maior ambição, ele simplesmente responde: tornar-me imortal e depois morrer. Bem, Godard ainda está vivo, mas sua obra já o tornou, há muito tempo, imortal. 

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Lucas Moura 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Lincoln - humanização do mito

De todos os heróis estadunidenses, sejam eles fictícios ou não, o mais importante, o mais querido e o mais respeitado no país é o político e ex-presidente Abraham Lincoln, o principal responsável por uma fatia importantíssima da história dos EUA, e, de certa forma, do mundo, por ter sido o presidente que permitiu a abolição da escravidão em solo estadunidense e foi durante seu mandato que se deflagrou a Guerra de Secessão, sangrento conflito armado baseado em interesses políticos, culturais e principalmente econômicos, que iam muito além da questão racial, entre o Norte abolicionista e o Sul escravocrata do país. Conflito este que demorou muitos anos e levou milhares de vítimas diretas e indiretas. Todos sabem que o Norte industrial e economicamente mais forte e melhor estruturado, levou a melhor sobre o Sul rural. Nesse contexto histórico, ainda havia a formação do que viria a se tornar a democracia americana como a temos hoje em dia.
Lincoln, a mais nova super produção de Steven Spielberg, mergulha neste fatídico e importantíssimo ano de 1865. Escancara as portas da Casa Branca e do Congresso para nos mostrar toda a sequência de fatos, debates, conspirações, alianças e, até mesmo, chantagem e corrupção por trás da sanção da chamada 13ª emenda. Esta emenda, que viria a ser incluída a até então intocada constituição do país, viria a pôr em modos legais que todos os homens são iguais perante a lei. Ou seja, que não havia sentido manter o opressivo e desumano sistema escravocrata. No meio de tantos homens envolvidos, um, obviamente, era a cabeça e a alma de tudo: Abraham Lincoln. Se a lei foi sancionada foi devido a seu envolvimento pessoal e sua determinação em fazer o que acreditava ser o melhor para a “América” e para os “americanos”, indo de encontro a uma oposição política e social que se posicionava impassível a tal transformação, seja por motivos econômicos, culturais e até mesmo religiosos (“como tratar com igualdade a quem Deus criou desigual?”).
O filme apresenta-se com excelência em diversos pontos. Aqui, Spielberg saiu quase totalmente dos campos de guerra, onde já mostrou ser mestre, e fixou-se nos debates. Nas discussões. Na vida política dos EUA do século XIX e na mentalidade do homem da época, gerando momentos que vão dos mais tensos aos mais cômicos. Seu trabalho de caracterização da figura legendária de Abraham obviamente é nacionalista. Não tem como evitar. Por mais que o filme não traga, a nós brasileiros, um caráter efetivamente emocional, imagino que tenha um grande significado para os estadunidenses, pois se trata de uma figura extremamente presente na vida do país mesmo após um século e meio de sua morte (assassinado num teatro após a legalização da 13ª emenda) e Spielberg não tem como fugir dessa influência maciça. De certa forma, o filme faz parecer que o interesse pelo fim da escravidão foi mais baseado em valores morais que em valores econômicos, sendo que não é assim que as coisas funcionam. Desde que o mundo é mundo, quem manda é o dinheiro.
De qualquer forma, o maior mérito da produção é a humanização de Lincoln. Ele nos é apresentado em seus mínimos detalhes pessoais que vão muito além de discursos eloqüentes, mas de pequenos detalhes, inseguranças, medos, motivações e de toda a construção de seu relacionamento familiar, principalmente em relação a esposa Molly (Sally Field). A sua interpretação coube ao sempre fantástico e sempre excelente Daniel Day-Lewis, que transformou uma dificílima personagem em alguém por quem se interessar pessoalmente. Não pelos seus feitos, e sim pela sua pessoa. Sensibilidade sem perder uma força gigante.

Obs: Day-Lewis caminha a passos largos para seu terceiro Oscar.

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Julie e Julia
Johnny e June
O destino mudou sua vida

Lucas Moura

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

À beira do caminho

2012 foi um bom ano para o cinema nacional. Mesmo começando mal com o infame As aventuras de Agamenon, o repórter, que apesar de ser uma porcaria teve boa bilheteria e ficou metade do ano em exibição no Cinemark, algumas produções brasileiras ganharam destaque ao longo do ano.  Como sempre, comédia foi o gênero mais produtivo e mais visto, a exemplo de E ai, comeu?, que apesar do título e do roteiro assinado por Bruno Mazeo é bom sim! Chamo a atenção pra três diretores: Fernando Meirelles, Walter Salles e Breno Silveira. Meirelles e Salles são os diretores brasileiros mais bem conceituados no mundo atualmente, e nesse ano ambos lançaram ótimos filmes: Walter Salles lançou Na estrada, produzido por ninguém menos que Francis Ford Coppola, e Fernando Meirelles lançou 360, produção de vários países europeus. E Breno Silveira foi o cara que mais se destacou por aqui: no meio do ano, com À beira do caminho, e em novembro com Gonzaga de pai para filho, que despontou como uma das maiores bilheterias do ano no Brasil.
Em À beira do caminho temos um caminhoneiro chamado João (João Miguel), amargo e em conflito com seu passado. Enquanto viajava pelo sertão da Bahia, João encontra um menino no baú de seu caminhão, e o menino não queria sair de lá. Isso porque ele quer encontrar o pai, agora que sua mãe falecera e segundo ela seu pai havia ido para São Paulo antes dele nascer. João promete deixá-lo em Petrolina, Pernambuco, e de lá ele que se virasse, mas acaba ficando com pena, e por pegar uma carga para São Paulo, decide dar carona ao guri, que se chama Duda (Vinícius Nascimento).
Durante a viagem o menino, que é um tagarela incansável, vai tentando descobrir como é a vida de João, que tá sempre de cara amarrada, mas vai se rendendo aos poucos ao carisma de Duda. As chaves pra descobrir os mistérios que o caminhoneiro esconde são umas fotos que ele guarda de duas mulheres e um cd de Roberto Carlos que ele sempre ouve, principalmente umas quatro músicas específicas.
À beira do caminho foi de longe a maior surpresa que eu tive nos cinemas ano passado. Não imaginava que um filme nacional com a trilha sonora só de músicas de Roberto Carlos - na verdade, o filme foi inspirado por tais músicas, depois é que o diretor correu atrás da autorização de Roberto - pudese ser tão bom; tão bonito, emotivo sem ser apelativo. A história é bem simples, é uma fórmula aparentemente muito usada, mas que tem todas as características do toque do diretor. Em Dois filhos de Francisco Breno Silveira usou muito bem a questão da paternidade, e aqui repetiu o feito, mostrando o desejo de Duda de conhecer o pai, um cara que mesmo sem conhecer o ama, e espera que ele o ame da mesma forma; também há os sentimentos paternos que João desenvolve por ele ao longo do filme. A temática de pais e filhos foi repetida em Gonzaga de pai pra filho, lançado pelo diretor ainda em 2012.
Além do que já foi citado, eu atribuo a qualidade do filme a dois fatores: elenco e trilha sonora. No elenco temos João Miguel, mais uma vez brilhante e mostrando porque é um dos maiores nomes do cinema nacional, e Vinícius Nacimento, que é uma grande revelação. O menino é um ator nato; sabe comover sem precisar chamar a atenção da câmera, tem uma vivacidade enorme e faz um trabalho que é exatamente o que se espera de Duda. Acho que desde Central do Brasil que uma criança não se destaca tanto num filme. E em relação à trilha sonora, não há contestação: as músicas de Roberto Carlos fazem parte da vida dos brasileiros de tal forma que é impossível não se emocionar com Amigo, A distância, Como é grande o meu amor por você ou mesmo O portão, que é minha favorita e é a que mais tem a ver com o longa.

Leia também:
As aventuras de Agamenon
Tropa de Elite

Luís F. Passos

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Morangos Silvestres - uma vida em um dia

Milhares de filmes já repetiram a fórmula clássica da “viagem de autoconhecimento”. Uma pessoa, confusa, acaba encontrando-se e aceitando uma determinada condição em sua vida quando resolve botar o pé a estrada e seguir para um lugar novo. Muitos filmes usam disso, mas poucos conseguem elevar essa questão para algo mais significativo, com uma análise realmente pungente sobre questionamentos diversos que afetam não apenas a vida íntima da personagem em questão, mas também problemáticas e dúvidas inerentes ao ser humano. Morangos silvestres (Smultronstället, 1957) consegue fazer isso de forma magistral, numa viagem que não envolve apenas um deslocamento geográfico pela Suécia, como também um mergulho no passado de um velho solitário, a aceitação de sua condição como mortal, a compreensão de sua frieza e até o achado de certo tipo de compaixão aparentemente velada e que pode ser determinante na vida de um jovem casal. 
O velho solitário em questão é Isak Borg (Victor Sjöström) que resolve viajar de carro de sua casa até a cidade de Lund para receber um prêmio na universidade na qual lecionou por mais de 50 anos. No caminho, ele leva consigo sua nora, Marianne (Ingrid Thulin), com quem tem pouco contato e que está numa encruzilhada entre decidir largar ou não seu marido, filho de Isak, por este ser tão frio e distante quanto o pai; três jovens, uma deles chamada Sara (Bibi Andersson), uma garota bonita e entusiasmada que lembra o primeiro e verdadeiro amor de Isak, sua prima de mesmo nome que casou com seu irmão mais velho; um casal de meia idade que não se entende de forma alguma e que remete não apenas ao antigo relacionamento de Isak com sua falecida esposa como também a perspectiva para o futuro do relacionamento de Marianne e seu marido; e muitas, muitas lembranças. 
No período de um dia, Isak corre de encontro ao seu passado. Dizem que para entendermos nossa vida presente devemos buscar as respostas em nossas raízes, ou seja, em nossa infância. É por esse caminho que Freud construiu seu trabalho e também é a esse caminho que Ingmar Bergman recorreu em toda a sua extensa filmografia. Em meio a devaneios, sonhos e simples recordações, Isak viaja para seus anos de juventude, onde encontra a gênese de todo seu conflito. Sua vida de frustrações e solidão tem como semente uma grande desilusão amorosa, uma vida voltada exclusivamente para o trabalho, negando o contato social, e uma relação fria e distante com os pais, que transmitiram essa falta de afeto como se fosse um fator genético.
Morangos silvestres vai levantar ainda vários outros questionamentos. Além do encontro com o passado, temos aqui a clássica dicotomia entre ciência e religião. Tema recorrente na filmografia de Bergman, o cético cientista Isak acompanha a dualidade entre essas duas correntes pela oposição dos dois jovens rapazes que acompanham a alegre Sara, e disputam a atenção desta. Aliás, a relação entre juventude e velhice também é tema do longa. Essa relação não é tratada apenas de forma conflituosa, mostrando divergências de gerações, mas aparece de maneira harmoniosa, onde Isak e os rapazes se entendem de fato. Dialogam, trocam experiências, respeitam-se e estão dispostos a ouvir e aprender uns com os outros. A relação entre a vida e a morte também não poderia ficar de fora. Obviamente, Isak teme a morte e a sente muito próxima a ele a todo o momento, mas passa por todo um processo de aceitação da presença desta.

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Lucas Moura