sexta-feira, 18 de março de 2016

Filmes pro final de semana - 18/03

1. Inside Llewyn Davis (2013)
Os Irmãos Coen contam a história de Llewyn Davis (Oscar Isaac), cantor fracassado que não conseguiu emplacar sucesso, viu seu parceiro e melhor amigo falecer, a família lhe virar as costas e estragou um relacionamento com a mulher que amava (amava mesmo?) Ambientado no Greenwich Village dos anos 60, de onde saíram astros do quilate de ninguém menos de Bob Dylan, Inside Llewyn Davis é um tanto influenciado pela história real do cantor Dave Von Ronk, cuja problemática personalidade era digna de fama. Llewyn é um pobre coitado que sabe que é um coitado ao mesmo tempo que mantém um desdém por tudo e todos, inclusive Jean (Carey Mulligan), com quem teve um caso, Jim (Justin Timberlake), marido de Jean e cantor bem sucedido, além dos vários outros personagens. Mais um filmaço dos Coen sobre figuras fracassadas, dessa vez abrilhantado por uma excelente trilha sonora.
Nota: 10
2. The Bling Ring - a gangue de Hollywood (The Bling Ring, 2013)
O último e badalado trabalho de Sofia Coppola foi baseado num episódio de anos atrás, quando jovens de classe média foram presos por invadir mansões de famosos em Los Angeles e roubar itens de grife que para eles eram verdadeiros tesouros por causa dos donos. Aparentemente, sem necessidade alguma. Mas é isso que o filme procura debater: a futilidade de uma geração. Remetendo a clássicos como Juventude transviada, Sofia mostra a que ponto pode chegar a falta de personalidade, a perda de valores, a desorientação pessoal e a desvalorização do indivíduo e claro, o culto às celebridades. Todos esses aspectos apresentados num filme com as marcas já conhecidas de Sofia Coppola: roteiro bem elaborado, a delicadeza da fotografia, os diálogos ágeis e a trilha sonora que é, no mínimo, impecável.
Nota: 9,0/ 10
3. (500) dias com ela ((500) days of Summer, 2009)
Não, essa não é uma história de amor. A comédia romântica que foge do besteirol americano e conquistou milhões de fãs logo de cara mostra que o relacionamento de Tom (Joseph Gordon-Levitt) e Summer (Zooey Deschanel) não deu certo. Eles se conhecem no emprego, uma empresa de cartões, em que Tom cria cartões (mesmo sendo formado em arquitetura) e Summer, recém chegada na cidade, é secretária. Ele se apaixona logo por ela, mas é meio difícil saber o que se passa na cabeça dela. O filme vai e volta no tempo, viajando pelos 500 dias em que Summer ficou no pensamento de Tom; os bons momentos, as brigas, as muitas vezes em que ele ficou bêbado sofrendo por ela, as situações engraçadíssimas e o que ele levou da relação com a louquinha de olhos verdes. É pra se divertir - ou sofrer - muito.
Nota: 9,5/ 10
4. Ligações Perigosas (Dangerous Liaisosons, 1988)
Esqueça a ideia de que filmes de época devem retratar belas histórias de amor ou intensos conflitos políticos, ou mesmo guerras. O negócio aqui é bem mais sujo. A Marquesa de Merteuil (Glenn Close), ícone de riqueza e beleza, é miserável em termos de escrúpulos. Junto do igualmente charmoso e mau caráter Visconde de Valmont (John Malkovich), ela se diverte seduzindo corações inocentes visando roubar-lhes a virtude e a honra, humilhando as vítimas depois de usá-las. A sordidez do hobby dessa desprezível dupla é posta à prova quando eles escolhem como vítima a jovem Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), cujo marido partiu numa longa viagem de trabalho. O filme serve como uma rica fonte de estudo comportamental e psicológico de suas personagens, abrindo espaço para o espectador observar os costumes e vícios da nobresa francesa no século 18, no seu mesquinho jogo de aparências e interesse.
Nota: 10
5. Gata em teto de zinco quente (Cat on a Tin Hoof, 1958)
"Nós não vivemos juntos, apenas dividimos a mesma jaula". Ver o filme e esquecer essa frase é mais difícil que ganhar na Mega da virada sozinho.  Tais palavras são ditas por Maggie (Elizabeth Taylor) para seu marido Brick (Paul Newman), jogador de futebol americano entregue à bebida após um incidente no trabalho envolvendo um amigo - coisa que não é totalmente esclarecida e que dá brecha para a suspeita de um caso gay. E por que Maggie disse uma frase tão forte para o esposo? É porque Brick simplesmente despreza a mulher, assim como toda a família, em especial o pai, "Big Daddy" Harvey (Burl Ives), com quem nunca teve boa relação. Bid Daddy está com câncer, não há perspectiva de cura e se preocupa com a possibilidade de deixar toda sua fortuna para o filho mais velho, Gooper, que é uma lesma e casado com uma mulher gorda e chata, e tem vários filhos gordos e chatos. A tensão entre Brick e Maggie e Brick e Big Daddy abre espaço para discussões diálogos brilhantes - afinal, o filme é baseado numa peça de Tennessee Williams, influente dramaturgo da Broadway. Também chama a atenção as espetaculares atuações de Paul Newman e Liz Taylor e claro, a beleza inesquecível da atriz.
Nota: 9,5/ 10

Luís F. Passos

quinta-feira, 3 de março de 2016

Livros para Março

1. Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis, 1881)
Marco fundador do movimento realista na literatura brasileira, a biografia do defunto-autor Brás Cubas é o divisor de águas da obra de Machado de Assis. Dedicado ao verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver, as memórias do falecido milionário Brás Cubas são uma análise sagaz da alta sociedade carioca do século XIX, através das lembranças de um homem cheio de frustrações. Relembrando sua vida com bastante acidez e sem poupar críticas a quem quer que seja, Brás Cubas fala dos amores que não deram certo - "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis" -, da carreira política que não deu certo, da revolução científica que não promoveu por não criar seu milagroso emplastro e claro, do duradouro caso de adultério com Virgínia, que talvez tenha sido seu grande amor. Destaque para o famoso Capítulo das Negativas, em que ele lista as frustrações já citadas, entre muitas outras. Certamente, até hoje é uma das melhores e mais fidedignas análises da personalidade humana de nossa literatura.
Nota: 10
2. O irmão alemão (Chico Buarque, 2014)
O monólogo narrado por um certo Cícero às vezes nos faz parar pra pensar em quão autobiográfico é o mais recente livro de Chico Buarque. Em parte pelo autor revelar a história familiar do filho que seu pai teve na Alemanha, em parte porque a narrativa é envolvente e bastante verossímil. Chico transforma em ficção a história que conheceu a partir de um devaneio de Manuel Bandeira, já idoso, através do qual soube que tinha um irmão alemão, do qual há muito não se sabia nada. A busca feita pela família se tornou material para um romance ambientado na juventude do autor, na época de faculdade, e focada em parte na relação com um pai brilhante, dono de uma das maiores bibliotecas particulares de São Paulo, mas distante de seus filhos. Ao escrever que Cícero tentava se aproximar do pai através da literatura, Chico expõe sua própria tentativa de estreitar o contato com o pai intelectual. Mais uma estrelinha pra carreira de escritor de Chico Buarque.
Nota: 9,5/ 10
3. Orgulho e Preconceito (Jane Austen, 1813)
Eis um livro que foi uma grande surpresa pra mim. Não fazia ideia de como Orgulho e Preconceito é bom até lê-lo. Ambientado numa Inglaterra aristocrática e moralista, o romance acompanha a bela Elizabeth Bennet, segunda de cinco irmãs e de longe a pessoa mais racional da família de um proprietário rural. Diferente da mãe esnobe e das três irmãs caçulas que não têm nada na cabeça, Elizabeth acha que há mais na vida do que bailes, vestidos e belos e ricos pretendentes. A pacata vida no campo ganha agitação quando o jovem, belo e rico Charles Bingley aluga uma propriedade na cidade, junto de sua charmosa e arrogante irmã e do misterioso amigo Fitzwilliam Darcy. Bingley e a irmã mais velha de Elizabeth, Jane, se apaixonam, mas a irmã dele e Darcy se certificam de impedir o romance por achar a moça inferior ao rico rapaz. Decidida a lutar pela felicidade da irmã, Elizabeth enfrenta a arrogância dos supostos oponentes, numa história sobre moralidade e preconceito na austera Inglaterra do século XVIII.
Nota: 10

Luís F. Passos

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Sobre 2015, suas mazelas e seus poucos livros

Olá mundo, como vai?
Ou melhor: pessoas do mundo, como vão? Porque o mundo eu sei que não vai lá muito bem.
Vão levando? Sei como é. Há algum tempo a resposta que eu mais costumo dar é essa. Vou indo. Vou levando. Marrom - marromenos.
Enfim, não precisamos entrar em maiores detalhes, até porque o mundo não precisa e não quer saber do porquê de eu estar tão prolongadamente no modo marromenos. Eventualmente, se alguém quiser saber, deixa um comentário, manda uma mensagem, marca um café que a gente fala sobre. Mas vamos ao objetivo da vez que é falar sobre o ano que (graças a Deus) está acabando, essa criança marota chamada 2015.
2015 começou com um puto atentado à liberdade de expressão no coração da Cidade Luz que fez meio mundo de gente dizer que era Charlie. Aqui pelo Brasil o turbulento, emotivo e irracional período eleitoral do ano passado deu à luz uma crise política (que se analisarmos bem é só uma exacerbação e consequência dos últimos anos) que se somou à crise econômica, resultando numa impopularidade do governo que foi a maior desde a redemocratização, além de dar poder a uma podre ala do Congresso - que é o mais conservador desde a ditadura. Trabalhadores, negros, indígenas, LGBTs e mulheres foram o alvo das chamadas bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia, capitaneadas por canalhas da mesma estirpe do presidente da Casa.
Pois é, gente. 2015 foi tão nefasto na política que chegamos ao ponto de aplaudir Kátia Motosserra Abreu por jogar vinho na cara de José Serra. Também foi o ano em que ninguém menos que Luciana Gimenez defendeu a laicidade do Estado diante de Marco Feliciano (que puxou um Pai Nosso junto com a bancada da Bíblia no plenário da Câmara). Se não bastasse, o glorioso e tão criticado Tiririca, 5º na linha sucessória presidencial, lamentou em carta ser o único político ficha limpa da lista.
Depois da crise econômica, a crise política foi o assunto mais falado ao longo do ano. Crise política por ter um governo fraco, impopular e escravo da aglomeração de podridão chamada PMDB, a base aliada menos aliada de que se tem ouvido falar. Mas isso se trata, na verdade, de uma crise institucional. Crise política é o que vivemos desde sempre, perpetuando uma sociedade doente que despreza direitos humanos, culpabiliza as vítimas, pratica a barbárie cotidiana que é a falta de empatia e que idolatra aberrações políticas, éticas e cognitivas.
Sem mais reflexões revoltadas, vamos falar do blog. 2015 foi, de longe, o ano menos produtivo do Sagaranando. Caímos de mais de cem publicações em 2013 pra quarenta e poucas em 2014 e enfim, 20 nesse ano. Culpa da faculdade na maior parte do ano, culpa de minha preguiça no restante, já que desfrutei de bons cinco meses de férias (obrigado greve das federais). Não só o blog foi mal como eu mesmo deixei muito a desejar em termos de livros e filmes. Pela primeira vez em cinco anos não vi a cerimônia do Oscar, já que tinha visto apenas um filme da competição. Li a menor quantidade de livros em anos, tendo, inclusive, passado sete meses com um só (sobre os quais falarei mais tarde).
Antes de comentar sobre os escassos livros desse ano (mas em ordem de preferência pra relembrar os bons Top 5 do blog) eu queria dar um conselho que há algum tempo eu pratico. Não parem de ler. Nunca. Por mais ocupados e cansados que estejam, nunca deixem de praticar um dos mais saudáveis e construtivos hábitos. Que leiam cem ou cinco páginas num dia, que leiam todo dia ou três vezes na semana. Não deixem de ler. O mundo precisa de leitores, pessoas ávidas por histórias, emoção, drama e conflitos; gente que gosta de mergulhar nas palavras de alguém, na imaginação de alguém, e usar a própria para dar um toque pessoal à história que lhe apresenta. Em tempos difíceis como esses, é de fundamental importância lembrar quão essenciais são as artes para a manutenção da humanidade enquanto civilização, quer dizer, para que evitemos o colapso e a barbárie. Mais importante até que a medicina e as ciências médicas (que só existem como as conhecemos hoje há cerca de duzentos anos, enquanto as artes acompanham o homem desde sua Aurora), precisamos das artes para suavizar os problemas da vida e tornar mais simples o conflito constante que são as relações interpessoais. Conselho dado (e apelo feito), vamos aos cinco melhores (e únicos) livros que li em 2015:
5. Guerra e Paz (vol. 1) - Leon Tolstói
O principal livro que faz muitos considerarem Leon Tolstói o maior de todos os romancistas é um verdadeiro tesouro do povo russo e toda a humanidade por seu valor literário e histórico. Mas pelo menos nesse primeiro volume, ele não é exatamente um exemplo de texto fluido. Claro que é compreensível, já que nesse início é necessário apresentar as famílias Bezukov, Kuraguine, Bolkonski e Rostov, protagonistas e membros da aristocracia russa, tarefa não muito grata. O livro acompanha o Império Russo prestes a enfrentar o exército de Napoleão e o início da guerra, com clara vantagem francesa. Amor, ambição e coragem são os principais ingredientes dessa primeira parte, narrados muito bem por seu imortal autor.
Nota: 9,0/ 10
4. O Último Magnata - Francis Scott Fitzgerald
Depois de três anos juntando poeira na estante, o último romance de Fitzgerald foi lido. Mais experiente e maduro do que em O Grande Gatsby, Fitzgerald apresenta a impressionante e faminta indústria cinematográfica de Hollywood através da narração de Cecília Brady, filha de um grande produtor. Cecília relembra seus tempos na faculdade, quando se apaixonou por Monroe Stahr, sócio de seu pai e um dos maiores figurões da cidade, e com isso mostra um mundo extravagante que nos bastidores é competitivo e desgastante. Stahr é o retrato dessa Hollywood: workaholic, o sucesso de sua vida amorosa é justamente o contrário da profissional. Fechado e totalmente dedicado ao trabalho nos estúdios, ele vai encontrar numa desconhecida a chance de mudar sua vida e reencontrar o amor.
Importante: Fitzgerald morreu antes de concluir o romance, mas faltando bem pouco. O crítico e amigo Edmund Wilson 'finalizou' a obra, descrevendo como poderia ser o final segundo as anotações do autor. Infelizmente tal forma de conclusão quebra o clima do que poderia ser um fim incrível.
Nota: 9,0/ 10
3. As Ligações Perigosas - Chordelos de Laclos
Romance que abalou as estruturas da sociedade (e aristocracia) francesa no fim do século XVIII, chegando a ser banido do País décadas depois, As Ligações Perigosas foi inspiração de várias adaptações para o teatro e cinema, sendo a mais conhecida delas a estrelada por Glenn Close e John Malkovich em 1988. Apresentado através de cartas trocadas pelas personagens, o livro é centrado nas figuras do Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, que ocupam a rica e tediosa vida na nobreza seduzindo pessoas inocentes para depois colocá-las em desgraça. Na trama, eles escolhem como alvo uma mulher casada, conhecida por sua rígida moral e religiosidade. Ao longo da tentativa de seduzir tal mulher e das consequências de tal ato, é feita um minucioso retrato da sociedade, principalmente da hipocrisia que cerca o poder.
Nota: 10
2. Do amor e outros demônios - Gabriel García Márquez
 Ao acompanhar as escavações em um antigo convento prestes a ser demolido, Gabriel García Márquez se depara com um pequeno cadáver que o faz lembrar de lendas contadas por sua avó sobre uma menina milagreira de enorme de cabelo. A partir de então é narrada uma história passada no período colonial da América Latina centrada na jovem Sierva Maria, filha de um marquês, totalmente negligenciada pelo pai apático e pela mãe sem caráter, que acaba sendo criada na senzala com os escravos, e aprende a língua e a cultura dos servos. Após ser mordida por um cão raivoso, Sierva Maria é apontada como possuída pelo demônio, disparate corroborado por seu comportamento rebelde e conhecimento de línguas africanas. A história da colonização americana é plano de fundo desse romance sobre amor, ódio e fé.
Nota: 10
1. Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago
Um certo dia um homem está parado no sinal vermelho quando de repente perde a visão. Mas em vez de trevas, seus olhos estão ofuscados por uma forte e permanente luz branca. Ele procura um médico, que não percebe nenhuma alteração em seus olhos. A cegueira rapidamente se espalha para aqueles com quem o primeiro cego teve contato, e os doentes são levados para um sanatório desativado na tentativa de controlar a epidemia. Entre eles, há alguém que não perdeu a visão: a esposa do médico que examinou o primeiro cego. Ela esconde o fato dos companheiros para não se tornar escrava dos cegos, mas a dependência deles para com ela é maior a cada dia. O número de internos aumenta, e a epidemia parece não ter controle. É através dessa brilhante parábola que Saramago aborda o problema das pessoas não enxergarem umas as outras e não enxergarem bem a si próprias, além das reações do ser humano diante de necessidades, impotência e desamparo. A falta de moral, ética e desprezo pelos valores estabelecidos em sociedade são abordados à medida em que o sanatório vai enchendo e os internos vão perdendo a dignidade e o que anteriormente os caracterizava como humanidade e civilização. Uma leitura essencial para todos.
Nota: 10

Bom, that's all, folks! Nos vemos em 2016. Feliz ano novo pra todos, com muita saúde, felicidade, livros, filmes e muita música. Continuaremos a sagaranar (?) por aqui.

Luís F. Passos

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Filmes pro final de semana - 04/12

1. Blue Jasmine (2013)
Vencedor muito merecido do Oscar de melhor atriz para Cate Blanchett ano passado, Blue Jasmine é um trabalho consideravelmente genial de Woody Allen. À primeira vista, não me atentei muito ao filme em si porque Cate Blanchett chama tanta atenção que é difícil tirar os olhos dos trejeitos, da elegância, da instabilidade e das neuroses que ela cria ao dar vida à sua Jasmine, mas só precisei de 30 segundos para perceber que me deparava com mais um grande trabalho do diretor. O que Woody Allen faz aqui é, sabiamente, transportar o espírito deturpado da figura lendária do cinema e do teatro Blanche Dubois para a realidade atual do país, na esfera social rica e privilegiada dos milionários de NY e ainda adaptá-la a crise financeira mundial que se iniciou com especulação imobiliária há alguns anos atrás e usar isto como estopim para toda a crise psíquica de Jasmine. Assim como Blanche, quando na miséria, Jasmine, mais uma vez, depende da bondade de estranhos, recorre a sua irmã e até sofre com uma atração/repulsa pelo cunhado grosseiro. Assim como Blanche, Jasmine é a personificação da decadência, da negação e do desespero. Claro que Uma rua chamada pecado passeia por territórios muito mais sérios e complexos que Blue Jasmine, e as semelhanças entre os dois ficam por aqui mesmo, mas isso não nos impede de apreciar a forma como Woody Allen reverencia a genialidade de Tennessee Williams.
Nota: 9,0/ 10
2. Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)
25 anos depois de Hannah e suas irmãs, Woody Allen estabelece um novo campeão de bilheteria entre seus filmes. A história do escritor Gil Pender (Owen Wilson), que consegue viajar no tempo na capital francesa e aproveitar a efervescência cultural dos anos 20 encantou milhões de pessoas por todo o mundo. Ao lado de pintores vanguardistas e escritores que guiaram toda a literatura do século, Gil vai descobrir que mais vale viver o presente e tentar ser feliz independente do tempo ou do espaço. Woody passa essa lição ao longo de 1h30 em belos cenários, fazendo a cidade luz e seu espírito serem os protagonistas do longa.
Nota: 9,0/ 10
3. Match Point (2005)
Depois de quase dez anos sem empolgar muito seu público, o grande diretor volta com tudo dirigindo uma trama tensa e sexy (não há palavra melhor para descrever o filme) que se passa em Londres, em meio à aristocracia britânica. Chris Wilton (Jonathan R. Meyers) é um ex-jogador de tênis que passa a dar aulas em um clube de alto padrão, e logo conquista a amizade de um de seus alunos, Tom Hewitt (Matthew Goode), que o leva para conhecer sua família. A irmã de Tom, Chloe, se encanta pelo professor, mas foi a noiva dele que chamou a atenção de Chris. Nola Rice (Scarlett Johanson) é uma aspirante a atriz com atributos físicos de deixar qualquer um doido. Mesmo começando a namorar Chloe e consequentemente sendo cunhado de Tom, Chris se aproxima de Nora e os dois começam um caso. A tensão sexual que existe entre o casal de protagonistas é impressionante e alimenta o clima de suspense que tomará conta do filme no final; não um suspense a la Hitchcock, mas uma questão mais profunda ao estilo de Crime e castigo.
Nota: 8,5/ 10
4. Desconstruindo Harry (Desconstricting Harry, 1997)
Woody Allen tem uma vasta obra, repleta de filmes excelentes e bem conhecidos como Annie Hall, Manhattan e Hannah e suas irmãs, e também outros não tão bons e conhecidos, mas também ótimos filmes meio desconhecidos - é o caso de Desconstruindo Harry. Seguindo um pouco o estilo de Bergman e Fellini, Woody vive Harry, escritor que passa por uma crise criativa, e nessa época é homenageado pela universidade em que estudou e foi expulso. Sem ter ninguém para acompanhá-lo, Harry leva consigo um amigo doente, uma prostituta e o filho que teve com uma de suas ex-esposas. Ao longo do filme vemos como Harry levou para sua obra pequenos problemas e episódios de sua vida, inclusive transformando amigos e parentes em personagens problemáticas, o que causou o afastamento de muitos deles.  Engraçado do começo ao fim, conta ainda com a participação de Billy Cristal, Mariel Hemingway, Tobey Maguire, entre outros.
Nota:  9/ 10
5. Annie Hall (1977)
Diane Keaton é Annie, descontraída, sem rumos traçados pra sua vida, vive fazendo bicos como fotógrafa e cantora em bares, que conhece o comediante Alvy Singer (Woody Allen), um nova-iorquino judeu neurótico, metódico, meio hipocondríaco e chato, apesar de carismático. Os dois se apaixonam e engatam um namoro que logo no início do filme sabemos que não dá certo. Woody Allen conta a história do casal de forma inovadora, alternando momentos do início da relação com momentos de crise ou do cotidiano deles enquanto viviam juntos - fora muitas outras inovações que deram novo fôlego ao gênero da comédia romântica e o Oscar de direção para Woody. É quase uma unanimidade de que este é o melhor filme do diretor, que aqui traçou o esboço de muitos de seus filmes subsequentes, e diferente dos anteriores que eram mais próximos à comédia pastelão; e não é difícil ver que Annie Hall supera até mesmo outros grandes filmes como Manhattan e Hannah e suas irmãs. A naturalidade com que tudo é passado ao espectador e o tema do longa - afinal, Annie é antes de tudo um filme sobre o amor - fazem dele uma fonte inesgotável de satisfação, tornando impossível querer ver uma só vez.
Nota: 10

Bônus:
 6. Woody Allen: Um documentário (Woody Allen: a documentary, 2012)

Woody é um cara tão simples, tão contrário a certas frescuras, que até o título do documentário sobre sua vida e obra faz o estilo "menos é mais". Com a participação do próprio Woody, parentes, amigos e colaboradores de décadas de carreira, o filme resgata a infância no Brooklyn, passa pelo trabalho como escritor e humorista, até chegar à carreira no cinema nos anos 60. Foco para a evolução do trabalho, inicialmente mais voltado para o humor, nos filmes de comédia pastelão, até que em 1977 vem Annie Hall, sua maior obra, trazendo um lado mais romântico e profundo e dando início a uma sucessão de trabalhos tendo como personagem central o alter ego do cineasta, o judeu novaiorquino paranoico, tão presente em sua obra - seja interpretado pelo próprio Woody ou por outros artistas. Destaque para a participação de várias musas do diretor, em especial Diane Keaton, que é sua melhor amiga, e também para a sua polêmica vida pessoal, sendo ressaltada a conturbada história com Mia Farrow.
Nota: 9,0/ 10

Luís F. Passos e Lucas Moura

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Filmes pro final de semana - 20/11

1. Para sempre Alice (Still Alice, 2011)
A vencedora do Oscar de melhor atriz desse ano saiu mais uma vez um filme de elenco, ou seja, uma história boa - apenas boa, nada inesquecível ou revolucionário - que se destaca pelo elenco. Estamos falando de Juliane Moore, que interpreta a professora universitária Alice Howland. Alice construiu uma respeitosa carreira através de muito estudo e da linguística, sua especialidade, e foi após se atrapalhar numa palestra, ao esquecer a palavra léxico, que ela atenta para o esquecimento, cada vez mais presente em sua vida. Ao consultar um neurologista, ela é diagnosticada com o mal de Alzheimer, numa forma precoce e agressiva por se tratar de uma mutação genética herdada de seu pai. Ao longo de dois anos vemos a vida de uma mulher independente mudar radicalmente, ao ponto de não conseguir amarrar os próprios cadarços. O filme, por seu roteiro e direção, se assemelha à uma evolução clínica de uma paciente, mas a atuação de Moore é tão marcante, tão vívida, incorporando as debilidades físicas e psíquicas de Alice, que escapa de qualquer crítica e salva o conjunto final.
Nota: (10 de Juliane Moore + 6 do filme /2=) 8,0/ 10
2. O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005)
Um filme muito sólido, emocionante e nem um pouco apelativo. A história do amor proibido dos cowboys Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) se passa nos anos 60, a partir do primeiro contato, quando foram contratados para tomar conta de um rebanho nos arredores de uma montanha. O tempo passa, ambos constituem família em suas respectivas cidades, se reencontrando raras vezes mas mantendo o sentimento que os uniu. Sentimento transmitido pelas grandes atuações dos protagonistas, em especial Heath Ledger, que se mostrou uma revelação. Tímido e introspectivo, Ennis Del Mar esconde seus sentimentos por trás de uma carapaça de músculos e brutalidade. Tudo isso apresentado como um western pra John Ford ou Sergio Leone nenhum botar defeito - a não ser que eles não deixassem de lado alguns preconceitos.
Nota: 9,5/ 10
3. Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988)
Italianos... ô povinho pra saber fazer filme bom! A Itália é um dos países que mais venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro, além de ser berço de alguns dos maiores cineastas da história, como Fellini, Antonioni, De Sicca, Leone, entre outros. Ente os italianos vencedores do Oscar, um dos mais queridos é o emocionante Cinema Paradiso, a bela história de Salvatore, um pobre garoto do interior apaixonado por cinema que cria uma forte amizade com Antonio, o projetor do pequeno cinema local. Salvatore, conhecido como Totó quando pequeno, costumava espiar da sala de projeção enquanto o padre censurava as cenas de beijo, e assim nasceu sua paixão pelo cinema. O brilho nos olhos de Totó é o mesmo brilho de qualquer criança (ou alguém que preserve o fascínio de uma criança) diante de um telona - e é apenas um de muitos aspectos positivos e emocionantes do filme. Um filme recente que se assemelha a Cinema Paradiso é A invenção de Hugo Cabret, especialmente seu protagonista, quase uma personificação da infância de Scorsese.
Nota: 9,5/ 10
4. A Cor Púrpura (The color purple, 1985)
Um Steven Spielberg, rei da fantasia e aventura, que poucos conhecem. Uma Whoopi Goldberg, rainha da comédia (e da sessão da tarde) que poucos conhecem. Ambos se aventuraram, trinta anos atrás, num drama sólido e emocionante sobre opressão social, de raça e gênero. Baseado no livro homônimo, A cor púrpura é ambientado na pobreza do sul americano, onde as irmãs Celle e Nettie encontram uma na outra o amor para suportar sua difícil realidade. Após sofrer abuso pelo próprio pai, Celle é dada a um homem mais velho, já viúvo e pai de vários filhos. Ao longo de décadas, Celle (Whoopi Goldberg, na fase adulta) tenta aliviar seu sofrimento através de cartas, inicialmente sem destinatário, depois à sua irmã, que se torna missionária, e à engajada nora de seu esposo, Sofia (Oprah Winfrey). O filme recebeu diversas indicações ao Oscar, sendo a de Whoopi ao prêmio de melhor atriz a que até hoje repercute - até então, nenhuma negra havia vencido na categoria, o que só ocorreu em 2002, quando Halle Berry faturou a estatueta, e em seu discurso homenageou o trabalho da colega, 17 anos antes.
Nota: 10
5. Adorável Pecadora (Let's make love, 1960)
Talvez seja no seu penúltimo filme que Marilyn Monroe aparece mais linda do que nunca -  mas menos sexy que no filme anterior, Quanto mais quente melhor (1959). A queridinha da América aparece aqui como a atriz e dançarina Amanda, que trabalha numa pobre companhia de teatro do segundo escalão da Broadway, que prepara uma peça que pretende parodiar figuras poderosas e famosas, como o cantor Elvis Presley e o bilionário Jean-Marc Clément (Yves Montand). Acontece que Clément se irrita com o uso de sua imagem e resolve aparecer num ensaio para acabar com a festa, mas ao chegar encontra Amanda de collant dançando e fica caidinho. Depois de um pequeno mal entendido, ele acaba no elenco interpretando a si próprio, se passando por um pobre ator imigrante chamado Alexandre Dumas. A comédia musicada (mas não um musical) se abrilhanta pelas músicas e pela estonteante presença de Marilyn, que nessa altura do campeonato dispensa comentários do Sagaranando.
Nota: 8,0/ 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Azul é a cor mais quente - sobre o amor e outros demônios

Louvado seja Cannes. Louvado e eterno seja. Num mundo cinematográfico em que a qualidade e a criatividade nem sempre são os principais critérios para glorificar uma obra ou profissional (tô falando de você, Hollywood), Cannes é uma luz de esperança ao lançar e reconhecer tantas obras-primas. Não é o único do mundo a fazer isso, claro, mas dentre os justos, é o maior e mais importante. Nem sempre é assim, já que quase nada na vida é perfeito - claro que vou falar de A Árvore da Vida ganhando a Palma de Ouro em 2011, já que não engulo aquele documentário da BBC. Mas uma coisa é fato: o que Cannes premia vira notícia. No ano de 2013 então...
A Adèle (Adèle Exarchopoulos) que dá nome ao título original é uma garota que está acabando o ensino médio. Estudante um tanto quanto medíocre, é no francês que Adele se destaca, especialmente na literatura. Adèle é membro de uma simples família de trabalhadores, cujo prazer rotineiro é jantar à frente de uma televisão comendo uma boa macarronada acompanhada de vinho. Família comum, uma vida comum, indo à escola, convivendo com suas amigas adolescentes que só falam de garotos, lançando olhares poucos discretos mas inocentes em direção ao colega por quem sente uma leve atração.
Por falar no olhar, é essa a primeira característica marcante da personagem. Uma transparência demonstrada através do olhar, seja pensando na vida, seja ao baixar o rosto tímida ao ver Thomas, seu colega, seja na primeira vez em que vê na rua uma garota de cabelos azuis, breve encontro que lhe causa um certo impacto. Talvez o olhar de Adèle mostre seu encantamento em descobrir o mundo, já que descoberta é o principal tema do filme - mais especificamente, descoberta do amor. Amor que Adèle não encontra no breve relacionamento com Thomas, mas que descobre a partir de um reencontro com a garota de cabelos azuis num bar. Seu nome é Emma (Léa Seydoux), está na faculdade de Belas Artes e é notável seu efeito sobre Adèle. Uma atração mútua que não demora a se tornar um relacionamento sério, forte e intenso.
Boa parte da polêmica em torno de Azul é a cor mais quente (La vie d'Adèle, 2013) é mérito das intensas, longas e explícitas cenas de sexo protagonizadas por Adèle e Emma. Tais cenas, que desde o lançamento em Cannes vinham sendo bastante comentadas, chamaram mais atenção ainda depois de comentários das atrizes, que afirmaram que o diretor Abdellatif Kechiche cobrava demais delas, e do próprio Kechiche, que disse que as imagens "não fariam o público ver o filme com coração limpo". Opinião minha: houve exagero. Claro que de tais cenas se extraiu muito do que o talento de Adèle e Léa tem a mostrar, mas a direção erra ao demorar tanto e ao mostrar de forma tão crua. No entanto, isso não reduz as muitas qualidades do filme que, importante ressaltar, não pretende fazer ativismo dos direitos civis LGBT. O foco é, conforme já dito, as descobertas de uma garota no final da adolescência. A normalidade com que é tratada (e como deve ser vista) a relação das protagonistas é que faz as vezes de defesa de toda forma de amor.
E sobre as atrizes: elas são os grandes pilares sustentadores do filme. A dedicação delas às personagens e à história é tanta que o Júri de Cannes as considerou coautoras do longa, dividindo com o diretor a Palma de Ouro. A interação entre elas é fantástica, seja rindo, na cama, interagindo com outras pessoas ou brigando. Muitas vezes vemos suas personagens como sendo muito parecidas, outras como totalmente diferentes - o que condiz mais com a realidade. Emma vem de uma família de intelectuais que entende de vinhos, literatura e arte, enquanto que os pais de Adèle acham que pintar não é um trabalho de verdade e que se deve ter outra fonte de renda. A própria Emma chega a questionar Adèle, que vai trabalhar como professora num jardim de infância, se ela não gostaria de ter outro emprego, menos simples, para que fosse mais feliz - ao que Adèle responde que já era suficientemente feliz. E além das diferenças socioculturais, há a diferença da experiência. Adèle está acabando o ensino médio, ainda está nas primeiras experiências amorosas (primeira com outra mulher), e seu olhar de constante descoberta junto à boca levemente aberta (opera essa adenoide, criança) dão um ar de inocência e sensualidade muito marcante, diferente da segurança e objetividade que Emma demonstra. Detalhes que nos dão ainda mais certeza da competência desses duas grandes atrizes. Fiquemos de olho em Adèle Exarchopoulos!

Nota: 10


Luís F. Passos

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Filmes pro final de semana - 06/11

1. Que horas ela volta? (2015)
Sem dúvidas o filme do momento. Premiado no Festival de Sundance, deve ser a aposta brasileira pro Oscar do próximo ano. A história é centrada em Val (Regina Casé), empregada doméstica numa casa de classe média alta em São Paulo que há mais de dez anos deixou sua família em Pernambuco em busca de trabalho que lhe permitisse dar melhores condições ao futuro de sua filha. Val praticamente criou Fabinho (Michel Joesas), filho de seus patrões, que nunca tinham tempo para o menino. Quando a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), chega em São Paulo para fazer o vestibular e fica na casa da família rica, acaba o sossego de Val e da patroa. O interesse que ela desperta nos homens da casa e a insubordinação diante da mãe, que considera uma estranha, cria uma tensão que perdura por boa parte do filme, que trata de maneira brilhante de temas como migração motivada por pobreza, relações familiares e a íntima e complexa relação entre patrões e empregados domésticos (mostrando que casa grande e senzala ainda perduram no País).
Nota: 9,5/ 10
2. O Lobo atrás da porta (2013)
 O desaparecimento de uma menina na escola é o pontapé inicial para uma trama que quanto mais avança, mais fica sombria. Na sala de um desbocado delegado (Juliano Cazarré), uma mãe desesperada (Fabiula Nascimento) chora até a chegada de seu marido Bernardo (Milhem Cortaz), que ao ouvir o depoimento da professora de sua filha dá as primeiras pistas ao suspeitar do envolvimento de sua ex-amante, Rosa (Leandra Leal), no sumiço da filha. Através de depoimentos e flashblacks é montado o quebra cabeça do caso que Bernardo  e Rosa mantiveram, e a personalidade forte e misteriosa dela, que se manifesta através de olhar decidido e fala mansa, mas sabendo bem seduzir e dominar. Tenso e um pouco aflitivo graças ao trabalho de direção, o filme é abrilhantado pelo ótimo trabalho de seu elenco, em especial de Leandra Leal, vencedora do Prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio.
Nota: 9,0/ 10
3. O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006)
Esse filme do tipo que eu não sei muito o que falar, além de: assistam. Uma das mais queridas obras do grande Guilhermo del Toro, O labirinto do Fauno é uma encantadora viagem junto de uma garotinha, Ofelia, que na década de 40 viaja com a mãe grávida para o norte da Espanha, onde o padrasto comanda uma base do exército. Ofelia vive incomodada com o autoritário padrasto, mas vai encontrar refúgio nos bosques ao redor da casa, onde seres fantásticos a levam para um mundo subterrâneo, em que descobre que precisa cumprir três difíceis missões para conquistar um trono que supostamente era dedicado a ela. Pra mim o melhor é que o filme, em sua ambiguidade, deixa livre para o espectador a decisão do que é real e do que é onírico.
Nota: 8,5/ 10
4. Babel (2006)
Qual a relação existente entre crianças numa aldeia remota no Marrocos, um casal de turistas americanos, uma menina deficiente auditiva japonesa e uma mexicana que trabalha nos Estados Unidos? A bem amarrada série de tramas que é Babel vai mostrar isso. A partir de um infeliz acidente nas montanhas marroquinas, onde um tiro de rifle atinge uma americana que viajava num ônibus, tem início uma crise diplomática entre o Marrocos e os Estados Unidos, que acreditam se tratar de um atentado terrorista. Por outro lado, a investigação vai buscar a origem de tal rifle, que remonta ao Japão; da mesma forma, na América, a família da mulher ferida, cuja babá é mexicana, também será atingida, numa mal aventurada breve viagem ao México. Direção de Alejandro González Iñarritu e participação de grande elenco.
Nota: 9,0/ 10
5. Má Educação (La mala educación, 2004)
O que falar desse Almodóvar que quanto mais conheço, mais admiro pacas (obrigado Orkut)? Quando enfim vi o tão polêmico Má Educação, constatei o que já suspeitava: que a polêmica era proporcional à qualidade. Dessa vez o diretor espanhol aborda a transexualidade, mas com a competência de sempre. Através de Ignacio, uma criança que na escola se envolve com um colega, Enrique, e também com o professor de literatura, o padre Manolo. Anos se passam, Enrique se torna diretor de cinema (Fele Martinez) e Ignacio (Gael García Bernal) bate à sua porta, oferecendo um texto que escrevera como matéria-prima para um filme e querendo o papel principal, como uma transexual. Amor, mágoa, vingança e desejo, ingredientes fortes para uma trama tão envolvente, do jeito que o povo gosta e que Almodóvar é mestre. E claro, a comédia tem seus momentos, com a presença de Javier Cámara, frequente colaborador do diretor, na pele da travesti Paca.
Nota: 10

Luís F. Passos