terça-feira, 4 de junho de 2013

As Patricinhas de Beverly Hills - teen anos 90, diversão atemporal

É difícil encontrar alguém que atribua algum valor a filmes adolescentes, por razões óbvias. De um modo geral, são filmes muito superficiais e clichês, com enredos centrais que sempre caem no lugar comum, baseando-se em bobagens e com desenvolvimentos românticos forçados ou errôneos. No caso estou me referindo àqueles com temática romântica, pois piores são as comédias que caem na mais pura obscenidade, tratando adolescentes apenas como pervertidos sem nada na cabeça e os malditos filmes de terror que são toscos até dizer chega. Tanta besteira em massa, que só pode ser reflexo de um público massivamente (não disse totalmente) ignorante, faz com que se crie um ultimato com relação aos filmes teen: porcaria. 
Mas não sejamos pessimistas. Não vamos nos esquecer dos raros filmes teens de qualidade. Aqueles que tratam o adolescente não como idiota, mas que se preocupam em lhes oferecer entretenimento de qualidade sem deixar de agradá-los e envolvê-los com todos os elementos de que mais gostam. Esse ano tivemos um drama teen de sucesso expressivo que foi As vantagens de ser invisível, mas não vamos nos limitar apenas a produções independentes como este e Juno, por exemplo. Vamos também pensar em grandes sucessos pop no maior estilo americano que são obras muito divertidas e que marcaram gerações com seu humor e carisma próprios. Nos anos 2000, a comediante Tina Fey explorou todos os clichês possíveis e deu vida a uma surpreendentemente divertida e ácida comédia pop comportamental sobre o jogo de interesses sociais e aparências que pontua Meninas malvadas, unanimidade entre as jovens do início da década. Nos anos 80, a filmografia do diretor John Hughes explorou o universo adolescente com um olhar cômico e sentimental em clássicos atemporais como O clube dos cinco e principalmente Curtindo a vida adoidado, através da figura icônica de Ferris Bueller que representa a personificação de todas as aspirações de liberdade e diversão dos jovens, sendo, definitivamente, a personagem masculina mais importante do cinema para adolescentes. A feminina viria alguns anos após, através de um dos maiores sucessos dos anos 90, o até hoje satisfatório As patricinhas de Beverly Hills (Clueless, 1995).
Em As patricinhas de Beverly Hills não temos, propriamente falando, absolutamente nada de novo, por isso é a prova de que clichês bem trabalhos dão certo. O filme explora o universo do comportamento social de adolescentes ricos da Califórnia envolvidos nos mais diversos relacionamentos amorosos e mergulhados na futilidade da vida dos milionários. A heroína é Cher (Alicia Silverstone), jovem cujo principal divertimento é ajudar a vida dos outros de todas as maneiras disponíveis, o que se resume, basicamente, a envolvimentos românticos que acabam causando confusões inesperadas e as chamadas “repaginadas”, processos nos quais ela provoca uma transformação física, comportamental e, principalmente, no estilo de se vestir da pessoa. O prazer que Cher encontra em ajudar os outros, a sua maneira, é uma manifestação de sua personalidade genuinamente bondosa e solidária, mas também um mecanismo de escape. Ao se preocupar tanto em melhorar, ou acreditar que está melhorando, a vida de seus amigos, o que ela realmente faz é deixar de lado seus sentimentos e suas dúvidas, comuns a qualquer jovem, e principalmente sua solidão, vinda da perda precoce da mãe (que morreu num acidente durante uma lipoaspiração de rotina) e da dificuldade na aceitação de seu próprio lado romântico, que vai de encontro com a postura que uma garota tão popular e descolada deveria tomar. Ao seu redor: a amiga inseparável, Dionne (Stacey Dash); Tay (Brittany Murphy) a nova aluna que precisa urgentemente de uma mudança de estilo que só Cher pode promover; o pai milionário e viciado em trabalho, mas incapaz de deixar a filha de lado; e Josh (Paul Rudd), o ex-irmão postiço que é o oposto de tudo o que Cher aparenta representar. 
As patricinhas de Beverly Hills dispõe-se como uma comédia romântica sem deixar de lado a captura do comportamento dos jovens da época. O filme respira os anos 90. As garotas e os rapazes vestem o auge da moda, o skate aparece com tudo, The Cranberries sempre toca nas fitas dos sons dos carros e nomes já esquecidos como Cindy Crawford e Kenny G são citados em piadas sempre da maneira certa. Na época, isso tornava o filme extremamente conectado com seu tempo e hoje em dia, apesar de torná-lo datado, o transforma num retrato fiel de uma geração. A principal marca não é necessariamente o romance. A acidez toma os holofotes. Assim como Meninas malvadas, As patricinhas de Beverly Hills cria centenas de piadas irônicas sobre a superficialidade material daquele ambiente, sempre fazendo as coisas mais fúteis aparecerem com uma importância comicamente exagerada. Como não notar a piada envolvendo 2001 – uma odisséia no espaço e um telefone – acredito que de última geração em 95 – que é o maior companheiro de Cher? Ou então, como ignorar a quantidade absurda de garotas com plástica no nariz que andam pela escola com seus vestidos Calvin Klein e suas bolsas Prada e levam doações aos desabrigados em sacolas da Tiffany’s? O filme também é recheado de piadinhas bem engraçadas, a maioria proferidas pela própria Cher, que também enche a história de observações cotidianas como se tudo não passasse de anotações em seu diário. Se for analisar, diferente de Meninas malvadas em que a protagonista interpretada por Lindsay Lohan vem de um universo paralelo, Cher é praticamente a personificação de tudo aquilo. Então, inconscientemente, ela nos cria críticas a um modelo de vida, ao mesmo tempo em que, no filme, é a principal representante deste.
O elenco é afiadíssimo, liderado por uma Alicia Silverstone perfeita. Sua interpretação é hilária e não soa nada caricata, apesar de todos os maneirismos da personagem. Aliado a isso, ela ainda é uma das atrizes mais bonitas dos anos 90 e este é o papel de sua carreira. Digo isso de fato, pois após o sucesso gigante de As patricinhas de Beverly Hills, Alicia Silverstone não conseguiu até hoje um papel que chegasse perto da qualidade de Cher (isso também aconteceu com Matthew Broderick. Ou alguém aqui realmente se importa com alguma coisa que ele fez depois de Ferris?). Os outros atores do elenco eram todos jovens promissores que de diversas maneiras também não conseguiram decolar muito, com a exceção de Paul Rudd que firma-se como um dos melhores atores de comédia atualmente. Outra que também conseguiu uma expressividade interessante foi a atriz Brittany Murphy, que infelizmente faleceu em 2009 aos 32 anos.
Ah, aos que só acham que coisas Cult têm qualidade, devo dizer que As patricinhas de Beverly Hills, sobretudo Cher, é inspirado numa obra de Jane Austen. 

Nota: 9/ 10

Lucas Moura

sábado, 1 de junho de 2013

Sagaranando recomenda: 360

Fernando Meirelles, um dos maiores diretores brasileiros da atualidade, diretor de Cidade de Deus (2002) e mais um injustiçado do Oscar - foi indicado a melhor diretor, merecia ganhar mas não ganhou - consolidou sua carreira no cinema internacional e vem há alguns anos trabalhando com forte elenco, como foi em Ensaio sobre a cegueira (Blindness, 2008). O longa baseado no romance consagrado de José Saramago contou com Mark Ruffalo, Juliane Moore, Gael García Bernal, entre outros. O trabalho mais recente de Meirelles, 360 (2012), também teve nomes de peso, como Anthony Hopkins e Jude Law, além dos brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré (sim, Adauto!).
360 começa em um estúdio fotográfico em que uma jovem chamada Mirkha tira fotos sensuais na esperança de ser modelo, mas acaba recebendo a proposta de se prostituir - que ela aceita. Seu primeiro cliente é Michael (Jude Law), que é casado com Rose (Rachel Weisz), que por sua vez mantém um caso com Rui (Juliano Cazarré); este é namorado de Laura (Maria Flor), que ao descobrir a traição decide sair de Londres e voltar ao Brasil. No voo de volta ela conhece John (Hopkins), um simpático senhor que se encanta pela jovem devido à semelhança desta com sua filha desaparecida anos atrás. No aeroporto Laura também conhece Tyler (Ben Foster), um cara que cumprira pena por estupro e tentava voltar à sociedade. Ainda entre as personagens temos dois homens da máfia austríaca e a irmã de Mirkha, que entrará na vida de um deles.
360, como o título sugere, traz variadas relações que juntas formam um círculo, fazendo com que ações se tornem cumulativas e atitudes de pessoas de um país acabem afetando outras que aparentemente não tem nada a ver com elas, em outro lugar, como as traições de Michael na República Checa que fazem sua mulher em Londres o trair com um brasileiro, que provoca a volta da namorada dele ao Rio de Janeiro, conhecendo no caminho um inglês e um americano. E como podemos ver, o combustível para todos esses movimentos é a traição - Meirelles não analisa os motivos, mas as consequências e a dor do arrependimento de quem trai. O filme nos lembra Babel (2006), mas sem toda a política trazida por Iñárritu; as reflexões aqui são mais particulares.
E como falei acima, o elenco é um mérito. Destaque para Anthony Hopkins, claro, cujas aparições não somam nem quinze minutos mas consegue se impor junto ao público como o senhor carismático de olhar vazio e lembranças tristes, que segundo o próprio Hopkins lembra um episódio de sua vida; Ben Foster, cuja personagem tem de lutar contra os instintos criminosos e ignorar a jovem que se aproxima dele; e Maria Flor, toda meiga e com ar inocente, tentando superar a traição do namorado e buscando novas pessoas para sua vida.

Nota: 8/ 10

Luís F. Passos

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O Hobbit: Uma jornada inesperada - de volta à Terra Média

Eu tenho alguns pecados de cinéfilo - filmes que todo mundo viu e eu não. Por exemplo, trilogia Matrix e a série Piratas do Caribe. Um pecado que eu tinha e do qual me livrei há poucos meses foi a trilogia O Senhor dos Anéis. E no meio tempo em que via os filmes das aventuras de Frodo e companhia, assisti O hobbit: Uma jornada inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012), que sem dúvida foi um dos filmes mais aguardados do ano, e só saiu em dezembro. A reação da crítica não foi muito boa, mas eu decidi conferir o longa no cinema.
Voltemos ao primeiro filme da trilogia O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel (2001): um hobbit, Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), prepara uma grande festa no seu vilarejo para comemorar seu aniversário. Uma das muitas visitas que recebe é a de seu sobrinho Frodo (Elijah Wood) um de seus familiares mais próximos; e esse dia é o pontapé inicial para toda a saga de Frodo na tentativa de destruir o Um Anel. Enfim, este dia de festa também é o ponto inicial de O Hobbit. No momento da visita de Frodo, Bilbo relembra sua juventude, quando foi visitado pelo mago Gandalf, o Cinzento (Ia McKellen), que lhe fez um inusitado convite: viver grandes aventuras junto a ele e a um grupo de anões liderado por Thorin Escudo-de-Carvalho (Richard Armitage), na tentativa de recuperar o legado dos anões na Montanha Solitária, uma cidade repleta de tesouros que fora roubada pelo dragão Smaug.
A cada lugar em que o grupo chegava, um novo desafio, quase todos representados pelos orcs, seres das profundezas e inimigos mortais dos anões - e de qualquer coisa que não seja um orc. Os orcs se multiplicaram de tal forma pela superfície que haviam ocupado até mesmo as ruínas da cidade de Dol Gudur, uma espécie de local sagrado, informação dada ao grupo pelo mago Radagast, o Cinzento (um mago como Gandalf, mas com muito menos juízo e um tanto caricato). E o consequente confronto entre mago, hobbit e anões contra orcs acaba sendo o evento mais importante do filme, e ocupa boa parte dele. Bem, é isso.
A principal bronca com O Hobbit foi o fato de que o livro em que ele é baseado é relativamente pequeno e será usado para uma trilogia - enquanto que O Senhor dos Anéis também é uma trilogia nos livros e tem mais de 1200 páginas. Dos 19 capítulos do livro, só 6 foram utilizados, e lógico, o jeito foi prolongar as sequências; a critica caiu em cima dizendo que o diretor Peter Jackson encheu linguiça. Bem, é inegável que é um filme exagerado, que não precisava ter cerca de 2h50, que um corte de vinte ou trinta minutos faria bem; também é um pouco cansativo, não só pela duração mas também por ter sido gravado em 48 quadros por segundo (não entendo muito disso, mas pra simplificar, teve informação demais em pouco tempo), isso em 3D e alta definição. Mas francamente, se todos os filmes enchessem linguiça como aqui, o cinema seria outro. Mesmo as passagens visivelmente prolongadas são muito ágeis e interessantes, tanto visualmente como por ter um conteúdo implícito, e não só pura ação. Um dos destaques dos ótimos efeitos visuais é Gollum (Andy Serkis), que já impressionava dez anos atrás, e que agora retoma confirmando que é um dos melhores personagens já criados em 3D, com mais detalhes e possibilidades de expressões. E falando no diabo, aqui vemos como Bilbo tomou de Gollum o Um Anel sessenta anos antes de passá-lo a Frodo, com direito a passagens de século atrás, quando o anel ainda não havia desfigurado o hobbit Sméagol, que viria a se transformar na criatura Gollum. E vamos ser sinceros, por mais feio e malvado que seja, Gollum sabe cativar o espectador.

E depois disso tudo, afinal, qual a minha opinião? Apesar de todo o excelente trabalho por trás dele, O hobbit é inferior aos filmes da trilogia do Anel. Falta o carisma de atores como Viggo Mortensen ou Orlando Bloom, que interpretaram Aragorn e Legolas, respectivamente, ou mesmo o encanto que O Senhor dos Anéis tinha, capaz de seduzir espectadores e criar expectativa para os próximos filmes. 

Nota: 7,5/10

Luís F. Passos

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Repulsa ao Sexo - pesadelos sexuais

Em suas já cinco décadas de carreira, o diretor Roman Polanski reuniu em sua filmografia uma boa quantidade de obras clássicas e diversas, unidas pelo menos em um ponto principal: a altíssima qualidade. Se nos anos 70 ele reinventou o cinema noir com Chinatown, nos anos 60 sua visão era mais voltada a inovações cinematográficas relacionadas a filmes de tensão extrema e palpável, com personagens confinadas em apartamentos pequenos e com a difícil missão de sempre ter que se confrontar consigo mesmo, lutando contra monstros interiores ou se perdendo em devaneios da mente. É assim com O bebê de Rosemay e principalmente com a primeira grande incursão do diretor pelo cinema experimental, Repulsa ao sexo (Repulsion, 1965). 
A história de enredo cruelmente simples, centra-se exclusivamente na figura da jovem Carole (Catherine Deneuve), banal manicure cuja mente aparentemente simplória vive a beira da loucura. Loucura esta intimamente relacionada com comportamento sexual. Por motivos jamais explicados em nenhum momento do longa, qualquer contato sexual desencadeia em Carole delírios psicóticos e mudanças comportamentais, que vão da histeria à catatonia. Esses contatos sexuais não envolvem necessariamente nenhum tipo de toque. O simples ato de ouvir a irmã fazendo sexo com o namorado (que, aliás, é casado) no quarto ao lado já é capaz de levar a moça a um estado de neurose. Um simples beijo e até mesmo uma camisa suja esquecida no banheiro já são elementos mais que suficientes para provocar grande desconforto físico e psicológico. 
Quando sua irmã viaja por alguns dias com o namorado, a mente frágil de Carole torna-se cada vez mais susceptível a seus delírios psicóticos, pois agora um novo elemento foi interligado: a solidão. Confinada e isolada no pequeno apartamento que parece cada vez mais sufocante e sombrio, sua mente vai mergulhando por caminhos mais profundos que levam a manifestações da mais pura violência, atingindo um nível de agressividade que jamais poderia ser previsto.
Polanski mostra em Repulsa ao sexo toda sua capacidade de criar clima, visto a trilha sonora pulsante e estridente sempre acompanhada das feições transtornadas de uma incrível atuação da grande musa Catherine Deneuve e seguidas por silêncios profundos e incômodos, onde as imagens do apartamento cada vez mais bagunçado, sujo e legitimamente podre são capazes de causar, realmente, repulsa. A fotografia consegue aliar closes reveladores do rosto hora agonizante hora apático e perdido da protagonista como também tornar os poucos metros quadrados em que quase toda a história se desenrola em cubículos ou hectares, dependendo apenas do ponto de vista e da situação.
Produção visceral, Repulsa ao sexo é capaz de chocar. Àqueles que não aguentam nem ver Nina Sayers se autodestruindo em Cisne Negro, não recomendo este filme. No entanto, para os mais firmes, preparem-se para uma experiência cinematográfica genuinamente única, pois é um filme extremista (não num sentido físico, mas psicológico). Não espere respostas, esclarecimentos ou muito menos conseqüências. Apenas aproveite este delírio sombrio.

Nota: 10

Lucas Moura

sábado, 25 de maio de 2013

O Cortiço – ou o Brasil, tanto faz

É natural que tua vida seja uma bosta.
E sabes todo esse mexerico que é badalado da internet até a mesa de bar sobre o teu, o nosso povo brasileiro? Pois, é papo antigo. De tão velho está precisando ser enterrado, por que se tu ainda não percebeste não há quem não vire o nariz quando o assunto está no ar.
Dia desses estava relendo O Cortiço (1890), tinha batido uma saudade danada da fogosa Rita Baiana. Que personagem! Talvez tenha sido minha primeira paixão literária, tão abrasante que eu não tinha mais olhos para Capitu (e graças a deus ela não tinha os tais dos olhos de cigana para mim), nem coragem para Helena e nem dinheiro para Lucíola. Era a Rita Baiana e só ela; a representação da mulher brasileira, da sensualidade ferina, do sabor apimentado, do aroma lascivo, da carne abrasante.
Poderia ser um livro todo apenas dela, no entanto é muito mais do que isso. A minha Baiana é somente um pedaço do personagem principal, o próprio Cortiço. Parece engraçado analisar através deste ponto de vista, até um pouco maluco, mas quem lê vai acompanhando aos poucos o surgimento desta habitação multicultural a partir do trabalho árduo e da malandragem do português João Romão e da exploração de sua companheira crioula Bertoleza (eita mulher! ali sim está para o que der e vier). O lugarzinho vai crescendo, vão aparecendo os primeiros moradores, incomodando até quem não tinha nada a ver, principalmente o Miranda, o vizinho abastado, que sofria só de ver um matuto como o Romão crescendo na vida!
Aahn, esse Miranda nascido em berço de ouro me lembra tantos outros... Daquele tipinho bem conhecido: observa a existência de todos enquanto tenta encobrir os desvios da própria. E olha que D. Estela, sua mulher, dava era motivos para as lavadeiras cochicharem!
Aliás, me pergunto o que não poderia gerar intriga nesta novela? Aluísio de Azevedo (1857 – 1913) não era de poupar o leitor. Com ele é assim: ali está o ser humano, e se o ser humano está ali não tardará a subversão. Isso tudo é natural.
O arco subversivo na obra abrange todo o tipo de violência; o livro sangra. Pomba, outra personagem intrigante, e sua tão esperada menstruação, ela é jurada a um jovem estudante, precisando atender às expectativas não apenas de sua mãe como de toda a comunidade do cortiço que torce pelo futuro da moça. O soldado Alexandre com suas lamúrias e responsabilidades, pecando e rezando pelo bem de suas filhinhas. O capoeirista Firmo e todo o seu aspecto de gatuno esperto, a caracterização do carioca. Leocádia, a adúltera, perdoada após uma bela sova do marido Bruno. A “bruxa” esquizofrênica Paula respeitada e temida por todos. A Leandra lavadeira e moradora do Cortiço, apelidada de Machona e demonstrando tendência homossexual também reparada na personagem da prostituta da capital Leonie.
Quando os personagens de Jerônimo e Piedade surgem na história vamos notando melhor a noção de Aluísio sobre o brasileiro e o brasileirismo. Jerônimo é um português devotado ao trabalho, pai e marido cortês. Um exemplo de “homem europeu”. Sua reputação é tão alta ao ponto de atrair a atenção de João Romão que decide por contratar o seu conterrâneo pagando até uma quantia difícil dele abrir mão. Vivendo no Cortiço, Jerônimo (no começo receoso) vai se misturando com os seus próximos, principalmente abismado pelas características sensuais de Rita Baiana (ai, Rita!).
Daí então é a transformação do homem.
O lusitano após cair de cama por conta de uma febre, fica aos cuidados da Rita, esta o trata imediatamente com o forte café brasileiro. O homem ergue-se enérgico, agora distante daquela tristeza letárgica e saudosa por sua terra. Passa a trocar o vinho do porto pela cachaça, o bacalhau pela comida bem temperada, a canção acompanhada da viola pelo samba e o pagode. Entretanto, essa paixão acaba por se tornar uma obsessão e uma das marcas trágicas do livro.
Sim, esse é Azevedo na sua mais clássica obra. A identidade brasileira descrita há mais de 100 anos a qual tu podes dizer “nada mudou”. O vício verde e amarelo subtraindo a tal virtude do velho continente. Ainda que em um de seus intensos capítulos este mesmo povo se unisse (jamais acreditei que fossem desunidos, na verdade, a convivência acaba tornando vizinhos em companheiros) contra outra vivenda próxima que começava a causar conflitos. Eram pau e pedra em mãos amigas; o Cortiço era a pequena nação a qual eram patriotas e irmãos. Ao fim do embate, semelhante a qualquer guerra, o retorno ao cotidiano e seu falatório rotineiro com suas pequenas intrigas.
Reflete, leitor (a): mas é isso?
Esperto foi o João Romão dando sua volta por cima, por cima de todo mundo?
Pobre da Pombinha? Pobre do Jerônimo?
Pobre de mim e de tu! Que é tudo natural.

Leia também:

Guilherme Patterson

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Dorminhoco - as origens cômicas de Woody Allen

Ainda no início de sua carreira e antes de dirigir/escrever/estrelar o grande sucesso Annie Hall (1977), um dos mais queridos vencedores do Oscar e uma das principais comédias do cinema, Woody Allen, e também sua grande parceira da época, Diane Keaton, já trabalhavam juntos em filmes menores e totalmente vinculados ao gênero da comédia. Mais precisamente, comédia no maior estilo “pastelão”, cheia de piadas padrão, situações embaraçosas e inexplicáveis, com direito a tortas na cara, explosões, armas que não funcionam e tudo mais. O maior destaque dessa fase inicial de suas carreiras é O dorminhoco (Sleeper, 1973), um de seus principais trabalhos, dirigido e escrito por Allen. 
No filme, temos o típico judeu neurótico de Nova York, Miles Monroe (Woody Allen), que, durante um procedimento hospitalar relacionado a uma leve úlcera, acaba sendo congelado e preservado em papel alumínio dentro de uma cápsula por um período de 200 anos, e acorda no ano de 2173. Nesse futuro (inspirado nitidamente em produções da época que esboçavam futurismo, como Laranja mecânica e 2001 – uma odisséia no espaço) ele tem que se adaptar a uma realidade totalmente diferente do que estava acostumado em 1973 e acaba se envolvendo diretamente com um grupo de revolucionários que tenta derrubar o governo. Esse governo é super autoritário, assumiu o controle após uma guerra e obviamente funciona como uma comparação direta aos governos totalitários que existiram durante o século XX. Daí, segue-se todo o tipo de situação bizarra envolvendo desde formas primárias de humor, como escorregar em casca de banana, até comentários ácidos sobre o comportamento social americano nos anos 70, a dificuldade em manter relacionamentos amorosos firmes e duradouros, referências a grandes figuras do século XX (desde Stálin a Muhammad Ali), piadas sobre religião (colocando, como sempre, a existência ou não de Deus como um questionamento) e críticas à maquinaria política e ao seu jogo de manipulação. No entanto, o que realmente conta em O dorminhoco é a comédia para rir sem preocupações (o próprio Allen o descreve, assim como outros de seus filmes da mesma época, como “filmes divertidos de primeira fase”).
Miles conta sempre com a ajuda atrapalhada da bela Luna Schlosser (Diane Keaton), bem intencionada, porém tola, uma típica mulher fiel ao governo que acaba se transformando numa perfeita militante no grupo dos revolucionários. Juntos, os dois ditam as regras do filme e dão o tom que o torna diferencial.
De todas as divertidas cenas de O dorminhoco, devo destacar duas que me chamaram muito a atenção: uma sequência hilária em que Allen e Keaton representam, respectivamente, Blanche e Stanley, de Uma rua chamada pecado, numa homenagem bem colocada e totalmente inusitada; a cena final representa praticamente um resumo da proposta de trabalho de Woody Allen, mostrando os pilares nos quais se baseia toda a sua obra. Num diálogo simples e ágil, como sempre, ele expõe religião, amor, política, sexo, vida e morte.

Nota: 7/ 10

Leia também:
Annie Hall
Vicky Cristina Barcelona
Para Roma com amor

Lucas Moura

sábado, 18 de maio de 2013

Festival de Cannes 2013

Começou na última quarta, 15, a 66ª edicção do Festival de Cannes, maior festival de cinema europeu e maior  premiação do cinema fora do mercenário domínio hollywoodiano. O júri desse ano é presidido por Steven Spielberg e também composto por Nicole Kidman, Lynne Ramsay, Ang Lee, Christoph Walt, Daniel Auteuil, Cristian Mungiu (vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro ano passado), Vidya Balan e Naomi Kawase. Entre os destaques estão O Grande Gatsby de Baz Luhrmann (Mulin rouge), Inside Llewyn Davis de Joel & Ethan Coen, Only God Forgives de Nicolas Winding Refn , The Immigrant de James Gray, Venus In Fur de Roman Polanski, The Past de Asghar Farhadi e Nebraska de Alexander Payne, entre muitos outros. O Grande Gatsby foi o filme de abertura, enquanto que Zulu, de Jérôme Salle encerrará o festival dia 26.
Os filmes exibidos em Cannes podem ser dividos em: aqueles que concorrem à Palma de Ouro (em competição), fora da competição, Un certain régard, Sessão da meia-noite e Sessão especial. Entre os que não concorrem ao prêmio pricipal, destaque para The Bling Ring, de Soffia Coppola e com Emma Watson no elenco, um dos filmes mais aguardados do ano e que cria certa expectativa em Cannes - Soffia é muito querida por lá, mas seu Maria Antonieta foi vaiado em 2006.
Mas porque Cannes? A ideia surgiu nos anos 30, quando o então ministro da cultura da França estava inconformado com a mostra de cinema de Veneza; foi tomando corpo e sua primeira edição seria realizada em setembro de 1939, mas com o início da 2ª Guerra Mundial, só em 1946 ocorreu a primeira mostra na cidade francesa - o Festival International du Film. Em 1955, surge a Palma de Ouro, prêmio principal.
Os prêmios de Cannes são: Palma de ouro (melhor filme), Grande Prêmio (tipo segundo lugar), Prêmio de interpretação masculina (melhor ator), Prêmio de interpretação feminina (melhor atriz), Prêmio de direção, Prêmio de roteiro e Prêmio do júri. Há ainda prêmios para os curta-metragens.

Seleção Oficial de 2013:

Filme de Abertura
“O Grande Gatsby” (dir. Baz Luhrmann)
Em Competição
“Behind The Candelabra” (dir. Steven Soderbergh)
“Borgman” (dir. Alex Van Warmerdam)
“Un Chateau En Italie” (dir. Valeria Bruni-Tedeschi)
“La Grande Bellezza” (dir. Paolo Sorrentino)
“Grisgris” (dir. Mahamat-Saleh Haroun)
“Heli” (dir. Amat Escalante)
“The Immigrant” (dir. James Gray)
“Inside Llewyn Davis” (dir. Joel & Ethan Coen)
“Jeune Et Jolie” (dir. Francois Ozon)
“Jimmy P” (dir. Arnaud Desplechin)
“Michael Kohlhaas” (dir. Arnaud Despallieres)
“Nebraska” (dir. Alexander Payne)
“Only God Forgives” (dir. Nicolas Winding Refn)
“The Past” (dir. Asghar Farhadi”)
“Soshite Chichi Ni Naru” (dir. Hirokazu Kore-eda)
“Tian Zhu Ding” (dir. Zhangke Jia)
“Venus In Fur” (dir. Roman Polanski)
“La Vie D’Adele” (dir. Abdellatif Kechiche)
“Wara No Tate” (dir. Takashi Miike)

Fora da Competição
“All Is Lost” (dir. J.C Chandor)
“Blood Ties” (dir. Guillaume Canet)

Un Certain Regard
“Anonymous” (dir. Mohammad Rasoulof)
“As I Lay Dying” (dir. James Franco)
“Bends” (dir. Flora Lau)
“The Bling Ring” (dir. Sofia Coppola)
“Death March” (dir. Adolfo Alix Jr)
“Fruitvale Station” (dir. Ryan Coogler)
“Grand Central” (dir. Rebecca Zlotowski)
“L’Image Manquante” (Rithy Panh)
“L’Inconnu Du Lac” (dir. Alain Guiraudie)
“La Jaula De Oro” (dir. Diego Quemada)
“Miele” (dir. Valeria Golino)
“Norte, Hangganana Ng Kasaysayan” (dir. Lav Diaz)
“Omar” (dir. Hany Abu-Assad)
“Les Salauds” (dir. Claire Denis)
“Sarah Prefere La Course” (dir. Chloe Robichaud)

Sessão Meia-noite
“Blind Detective” (dir. Johnnie To)
“Monsoon Shootout” (dir. Amit Kumar)

Sessão especial
“Max Rose” (dir. Daniel Noah)
“Weekend Of A Champion” (dir. Roman Polanski)
“Muhammad Ali’s Greatest Fight” (dir. Stephen Frears)
“Stop The Pounding Heart” (dir. Roberto Minervini)
“Seduced & Abandoned” (dir. James Toback)
“Otdat Konci” (dir. Taisia Igumentseva)
“Bombay Talkies” (dir. Anurag Kashyap, Dibakar Banerjee, Zoya Akhtar, Karan Johar)

Filme de Encerramento
“Zulu” (dir. Jérôme Salle)

Luís F. Passos