segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Barry Lyndon - poder e cobiça

Há muito o que se ver nos filmes de Stanley Kubrick. Ao longo de 46 anos ele produziu e dirigiu poucos longas-metragens, mas foram filmes tão singulares e marcantes que seu nome foi gravado para sempre no panteão dos maiores gênios do cinema. Kubrick foi, antes de mais nada, um ilustrador conceitual da condição humana. Através dos mais diversos gêneros de cinema - guerra, terror, política, época ou mesmo ficção científica - o diretor esboçou em suas personagens tudo o que há de peculiar ao homem, desde os instintos mais primitivos aos mais refinados hábitos adquiridos em sociedade. Mas o brilhantismo de Kubrick não se restringe à temática. Ele também foi ímpar pelo seu preciosismo técnico, perfeccionismo e pelas diversas inovações no uso da câmera, da iluminação e edição de seus filmes, nos quais facilmente se percebe a assinatura do diretor. E se é pra falar da singularidade de Stanley Kubrick, nada melhor do que falar de Barry Lyndon (1975)
Ambientado na Europa do século XVIII, o filme inicia na Irlanda, onde somos apresentados ao jovem, belo e bobalhão (sim!) Redmond Barry (Ryan O'Neal), órfão de pai, criado pela mãe e amparado por um tio de posses cada vez mais endividado. Redmond é apaixonado por uma prima que o troca por um oficial do exército covarde e endinheirado, que seria a salvação das finanças de seu pai. Depois de um estúpido duelo com o oficial, Redmond foge de sua cidade com uma pequena fortuna dada por sua mãe e por um amigo da família, mas perde tudo num assalto na estrada. Fugitivo e com uma mão na frente e outra atrás, ele se alista no exército inglês e embarca para o continente, lutando na Guerra dos Sete Anos. Após anos de guerra ele deserta, mas é preso e forçado a lutar no exército da Prússia, aliado da Inglaterra. Findada a guerra, seu superior no exército o põe a serviço da polícia de Berlim, onde ele recebe a missão de se infiltrar no serviço de um jogador profissional, suspeito de ser espião austríaco. Acontece que o tal jogador, o cavaleiro de Balibari (Patrick Magee) era seu conterrâneo, e Redmond admite que estava a mando da polícia - mesmo assim Balibari o contrata, e ele fica como agente duplo, aprendendo o ofício da jogatina. Quando Balibari dá um golpe em um príncipe, o cerco se fecha e ele foge com Barry para a Bélgica.
A dupla de picaretas segue a vida viajando pelas cortes europeias, ganhando ouro e fama por onde passavam. E na cabeça de Barry, o pensamento de ganhar estabilidade através de um bom casamento, chance que lhe aparece quando conhece o velho lorde Charles Lyndon e sua bela e jovem esposa Honoria (Marisa Berenson), que se apaixona instantaneamente pelo irlandês. A morte não demora a chegar para o doente lorde Lyndon, deixando o caminho livre para Barry, que se casa com a viúva após um ano, atraindo olhares da sociedade, que estava admirada com sua ascensão, e fazendo crescer ódio no coração de lorde Bullingdon, filho de lady Lyndon que desaprova totalmente o casamento e percebe o mau caráter do padrasto.
Resumidamente falando, o enredo de Barry Lyndon pode ser descrito como a saga da ambição de um jovem belo e meio burro. Redmond Barry é burro por ter enfrentado o pretendente da prima, quase arruinando um golpe do baú, e é burro por seus atos após se tornar nobre e não saber administrar a fortuna dos Lyndon, gastando rios de dinheiro na tentativa de se efetivar na aristocracia. Imensos são o cinismo e a ousadia dele ao adotar o nome do falecido lorde Lyndon, passando a ser chamado de Barry Lyndon e deixando de lado seu nome original, ato que também demonstra sua disposição em humilhar-se em troca das recompensas materiais. Mas não sejamos tão cruéis com Barry. Vamos falar dele como jovem tolo e bonitão que procura as pistas de qual seria o comportamento certo para progredir na sociedade, se situar num ambiente que lhe era estranho. E aí está nosso Kubrick pintando o estereótipo da ambição e da sociedade materialista que vivia de aparências. Ponto pra Kubrick.
Quanto à técnica, o filme é um capítulo à parte na história do cinema. A produção de Barry Lyndon é quase uma lenda, e uma história incrível por si só. Kubrick procurou através dos seus amigos nos estúdios de Hollywood câmeras BNC, velhos aparelhos da época em que ele começara a carreira, e adaptou-as com lentes especiais usadas pela NASA em satélites, na intenção de captar luminosidade como nenhuma câmera comum conseguiria. Com o equipamento certo, ele gravou todo o filme sem usar uma lâmpada sequer, usando apenas velas ou a iluminação ambiente, gravando quase sempre na "hora mágica" (à tarde, pouco antes do pôr do sol) e criando cenas de beleza singular, que ao serem enquadradas em zoom parecem pinturas realistas da época. Outro fator que contribuiu para a beleza estética foi o figurino, composto em parte por peças originais da época, em parte por peças especialmente criadas para o filme devido à preocupação do diretor em ser realista e não parecer uma festa a fantasia. Além disso, a música tem sua grande importância no filme, como é costume na obra de Kubrick, que aqui usa de forma magistral clássicos que são a cereja do bolo em cenas como a do primeiro beijo de Barry e lady Lyndon, inesquecível com seus movimentos sutis e uso perfeito de linguagem corporal. Tamanho esforço foi recompensado com 4 Oscar: fotografia, figurino, música e direção de arte.
Acontece que o filme não foi muito bem recebido pelo público nos Estados Unidos e na Inglaterra,  e a crítica nesses países o classificou como longo e tedioso. Hollywood estava entrando na era dos filmes de ação de orçamento milionário, e o filme de época de quase 3 horas não atingiu a popularidade desejada por seu diretor. Por outro lado, foi um sucesso na Europa continental, onde a beleza foi aclamada e reconhecida. Mesmo assim, é fato conhecido que Kubrick ficou profundamente chateado por não conseguir agradar o público. A decepção com Barry Lyndon foi compensada no trabalho seguinte, O Iluminado (1980), mas aí já é assunto para outra conversa.

Nota: 10

Luís F. Passos

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