segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Contraponto - A Humanidade Despida


Depois de tanto tempo sem escrever, não poderia fazer a minha volta com um escritor não menos que sensacional, o inglês Aldous Huxley. Do contrário do que muitos já devem estar pensando, não vou falar sobre Admirável Mundo Novo, grande clássico desse autor, mas sobre Contraponto, um livro igualmente genial. Publicado em 1928, figura na lista dos 100 melhores romances do século XX, publicada pela Modern Library. 
Seu mérito já começa na própria estrutura do romance, apenas por ser um romance de ideias, no qual cada personagem representa algo. O próprio autor, através do intelectual personagem Philip Quarles, exprime sua intenção:
“O romance de ideias. O caráter de cada uma das personagens deve-se achar, tanto quanto possível, indicado nas ideias das quais ela é porta-voz. Na medida em que as teorias são a racionalização de sentimentos, de instintos, de estados de alma, isto é praticável. O defeito capital do romance de ideias é que somos obrigados a por em cena pessoas que tem ideias a exprimir, o que exclui mais ou menos a totalidade da raça humana – à parte apenas 0,01 por cento. Aqui a razão pela qual os romancistas verdadeiros, os romancistas natos não escrevem tais livros. Mas, ora! Eu nunca pretendi ser um romancista nato.”
E todos esses personagens vão estar em perfeita harmonia, em um arranjo que lembra o contraponto musical ao qual o título faz referência, à exceção de que não se trata de uma composição em polifonia.Em lugar de múltiplas melodias tocadas simultaneamente, temos sentimentos humanos. Os personagens são pouco a pouco despidos em seu íntimo e podemos saborear cada personalidade, analisar cada diálogo ou nos identificarmos com cada emoção. À medida que enredo se desenvolve, sabemos mais sobre a história de vida de cada personagem, cada sentimento é detalhadamente descrito, assim como cada motivação e idiossincrasia, Huxley os deixa nus para os analisarmos por nós mesmos. Em uma simetria perfeita, aquilo em falta em um personagem, sobra em outro, um tema de uma passagem é revisitado na seguinte e esse contraste de personalidades torna quase impossível não se identificar com algumas.  

“(...) – Eu me sinto de tal maneira feliz, desde que estou aqui com a senhora! – anunciou ela, apenas oito dias depois de sua chegada.
– É porque tu não te esforças por ser feliz, e porque não perguntas a ti mesma porque te tornastes infeliz, porque cessaste de pensar nas coisas sob o ponto de vista da felicidade e da infelicidade. É a tolice enormíssima dos jovens desta geração – continuou Mrs. Quarles –; eles não pensam nunca na vida senão relacionando tudo com a felicidade... 'Que farei para me divertir?' Eis a pergunta que eles se fazem a si mesmos, ou então se queixam: 'Por que minha vida não é divertida?' Mas nós estamos num mundo em que 'os bons momentos', na acepção vulgar desta palavra, ou talvez em todas as suas acepções, não podem durar continuamente nem pertencer a toda gente. E, mesmo que a mocidade tivesse esses 'bons momentos', ela havia de ficar inevitavelmente decepcionada porque a sua imaginação é sempre mais bela do que a realidade. E, depois que gozamos um pouco esses momentos, eles se tornam aborrecidos. Cada um se esforça para obter a felicidade e o resultado é que ninguém é feliz.”
Bem, e tudo isso está intimamente relacionado ao contexto histórico pós Primeira Guerra Mundial. O fim da Belle Époque, a ascensão do comunismo e da luta de classes, o avanço da indústria e da mecanização, presidentes governando, as mulheres ganhando espaço no meio social, tudo fazendo parte desse romance, sob pontos de vistas únicos, no que pode ser considerado um ensaio sobre o mundo moderno.

“Se vocês acreditam nos negócios, como no serviço e na santidade do trabalho, vocês se transformarão simplesmente em idiotas mecanizados durante vinte e quatro horas, das vinte e quatro que tem um dia. Reconheçam que é um trabalho infecto, tapem o nariz, dediquem-se a ele durante oito horas e depois concentrem-se em si mesmos para ser, nas horas de folga, entes humanos verdadeiros. Seres humanos verdadeiros e completos. Não leitores de jornais, nem amadores de jazz, nem maníacos da radiofonia. Os industriais que fornecem às massas divertimentos padronizados e fabricados em serie fazem o possível para torná-los, nas horas de lazer, os mesmo imbecis mecânicos que vocês são durante as horas de trabalho. Mas não permitam isso. É preciso fazer o esforço necessário para ser humano.”
E os personagens são tão diversos quanto poderiam: o cínico Burlap, o revolucionário e insignificante Ildidge, o demasiadamente humanoRampion, a atormentada Marjorie dentre vários outros. Sendo meus preferidos a inteligente e hedonista Lucy, em diálogo a seguir com o angustiado Walter Bidlake:
“- Romântico, romântico! – escarneou ela. – Tens uma maneira tão absurdamente antiquada de pensar nas coisas. Matar e tripudiar sobre cadáveres e amar e o mais que segue. É ridículo. Por que não andas logo de fraque e plastrão?… Procura ser um pouco mais moderno.
- Prefiro ser humano.
- Viver modernamente é viver rapidamente – continuou ela. – Não podes carregar um vagão cheio de idéias e romantismo nestes tempos. Quando viajamos de avião, devemos deixar para trás as bagagens pesadas. A velha alma de antanho sentava muito bem quando se vivia vagarosamente. Mas é pesada demais para os nossos dias. Não há lugar para ela no avião…
- Nem mesmo para um coração? – perguntou Walter. – Não me preocupa muito a alma. – Já uma vez se preocupara com ela. Mas agora que a sua vida não consistia em ler filósofos, ele estava um pouco menos interessado nela. – mas o coração – ajuntou -, o coração…

Lucy sacudiu a cabeça.
- Talvez seja uma pena – concedeu ela. – mas tudo tem o seu preço. Se gostamos da velocidade, se queremos ganhar terreno, não podemos levar bagagem. Trata-se de saber o que queremos, e de estarmos prontos a pagar o preço devido. Eu sei exatamente o que quero; assim, sacrifico a bagagem. Se te agrada viajar num caminhão de mudanças, viaja. Mas não esperes que eu te acompanhe, ó meu suavíssimo Walter. Não esperes que eu leve o teu piano de cauda no meu monoplano de dois lugares.”
E o pessimista sem objetivos ou credos,Spandrell. Eles vão levantar os debates e as ideias mais interessantes.  

“- É jovem ainda. - Foi assim que Spandrell comentou a noite. Jovem e um pouco insípida. As noites são como seres humanos: só começam a interessar depois que ficam adultas. Lá pela meia-noite elas atingem a puberdade. Um pouco depois da 1 hora chegam à maioridade. A sua plenitude esta entre duas e duas e meia. Uma hora mais tarde elas vão ficando cada vez mais desesperadas, como essas mulheres devoradoras de homens e esses homens maduros em declínio que andam por aí a saltitar num pé só mais violentamente do que nunca, na esperança de se convencerem a si mesmos de que não são velhos. Depois das quatro horas, as noites entram em plena decomposição. E a sua morte é horrível. Verdadeiramente horrível, ao nascer do sol, quando as garrafas estão vazias, as pessoas têm um aspecto de cadáveres e o desejo se desfaz em desgosto. Tenho um fraco pelas cenas de leito de morte, confesso – ajuntou Spandrell.”
Antes de finalizar essa resenha, aproveito, pois, para justificar a nota que se segue. Por ser tão denso, é também por vezes cansativo. Além disso, nem todos personagens são tão interessantes assim. O próprio autor, ainda na voz de Quarles exprimiu isso: 
“O grande defeito do romance de ideias é que ele é uma coisa artificial, arranjada. Necessariamente; porque as pessoas capazes de desenvolver teses formuladas de maneira adequada não são bem reais; são levemente monstruosas. Torna-se um tanto cansativo, com o andar do tempo, viver com monstros.”
 Mas nada que tire seu mérito. Contraponto é daqueles livros que te deixam inquieto, que precisam ser relidos, uma vez que toda sua significação depende de como interage com o leitor. É um livro de múltiplas camadas para se ler entre pausas e respiradas. Se de acordo com Huxley a única generalização que podemos arriscar é que as maiores obras de arte tem tido grandes assuntos, essa é uma obra de arte das mais elevadas.
Nota: 9/ 10 

Marcelle Freire

sábado, 21 de dezembro de 2013

Filmes pro final de semana - 20/12

1. O Vencedor (The fighter, 2010)
Micky Ward (Mark Wahlberg) é um lutador muito esforçado, que tem como exemplo e treinador seu irmão mais velho, Dicky Eklund (Christian Bale). Dicky é um ex-lutador de boxe profissional, atualmente no fundo do poço devido ao seu vício em crack, que é tido como  herói de sua cidade por ter vencido uma luta importante anos atrás. O problema é que Dicky é tão desequilibrado e inconsequente que acaba puxando pra baixo a carreira de seu irmão. As outras duas figuras chave na vida de Micky são sua mãe possessiva Alice (Melissa Leo) e sua namorada Charlene (Amy Adams), que vê a família de Micky como um grande empecilho para seu sucesso. O pior é que Charlene tem uma certa razão, e ao perceber isso o lutador se afasta um pouco da mãe, do irmão e das sete irmãs barangas decidido a impulsionar sua carreira; aos poucos, Dicky também percebe o mar de lama em que está mergulhado e decide que precisa mudar sua vida. Nessa muito bem elaborada trama familiar, três atuações se destacam: as de Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams, sendo as duas primeiras vencedoras do Oscar de ator e atriz coadjuvante, respectivamente. Mais uma vitória desse filme sobre fracassados.
Nota: 9,0/ 10
2. Cidade de Deus (2002)
Cidade de Deus talvez seja um dos filmes mais influenciados por Pulp fiction (1994), e dentre estes provavelmente é o melhor. Histórias de várias personagens que se ligam e se completam dão uma agilidade ao filme semelhante ao que Tarantino fez num dos maiores filmes dos anos 90 - e Fernando Meirelles fez aqui um dos maiores filmes dos anos 2000. A partir do aprendiz de fotógrafo conhecido como Buscapé é contada a história de uma das mais famosas favelas do Rio de Janeiro, a Cidade de Deus, de 1960 aos anos 80, através de figuras marcantes da comunidade, principalmente bandidos. Inicialmente o Trio ternura, que roubava e distribuía os frutos do crime com os moradores, anos depois com Dadinho, que acompanhara o trio quando criança e que depois de crescido retorna à favela com o nome de Zé Pequeno - claro, na icônica cena do "Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno!". Buscapé, cujo irmão mais velho era um dos três "ternuras", observa a comunidade através de sua câmera e percebe ter uma carreira promissora quando divulga fotos dos traficantes. A gentileza de Buscapé contrasta com a brutalidade e falta de remorso de Zé Pequeno, responsável por criar outros monstros do lugar. Mais do que um retrato da violência, Cidade de Deus é uma história sobre empatia e esperança, além de ter um caráter de crônica.
Nota: 10
3. A Época da Inocência (The Age of Innocence, 1993)
 Maiores desafios mostram maiores talentos. No cinema não é diferente; filmes complexos ou que precisam de maior cuidado, quando bem feitos, revelam o talento de seu diretor. A Época da Inocência é um exemplo, no caso mais um exemplo, da competência de Martin Scorsese. Fazer um filme de época sem que tudo pareça um baile de fantasias é tarefa árdua, e Scorsese não desapontou. A trama ambientada na aristocracia novaiorquina do século 19 acompanha o jovem casal Newland Archer (Daniel Day-Lewis) e May Welland (Winona Ryder), apaixonados e de casamento marcado. O surgimento da condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), recentemente divorciada de um nobre europeu balança os sentimentos de Newland, que fica dividido entre a noiva angelical e a condessa sedutora. O fato de ser um amor impossível só aumenta o desejo do jovem. As angústias de Newland e Ellen são mostradas através do domínio de câmera que é velho conhecido dos fãs de Scorsese, que também retrata os costumes, vícios e esqueletos no armário de uma sociedade moralista que também tem seu teto de vidro.
Nota: 9,0/ 10
4. Gata em teto de zinco quente (Cat on a Tin Hoof, 1958)
"Nós não vivemos juntos, apenas dividimos a mesma jaula". Ver o filme e esquecer essa frase é mais difícil que ganhar na Mega da virada sozinho.  Tais palavras são ditas por Maggie (Elizabeth Taylor) para seu marido Brick (Paul Newman), jogador de futebol americano entregue à bebida após um incidente no trabalho envolvendo um amigo - coisa que não é totalmente esclarecida e que dá brecha para a suspeita de um caso gay. E porque Maggie disse uma frase tão forte para o esposo? É porque Brick simplesmente despreza a mulher, assim como toda a família, em especial o pai, "Big Daddy" Harvey (Burl Ives), com quem nunca teve boa relação. Bid Daddy está com câncer, não há perspectiva de cura e se preocupa com a possibilidade de deixar toda sua fortuna para o filho mais velho, Gooper, que é uma lesma e casado com uma mulher gorda e chata, e tem vários filhos gordos e chatos. A tensão entre Brick e Maggie e Brick e Big Daddy abre espaço para discussões diálogos brilhantes - afinal, o filme é baseado numa peça de Tennessee Williams, influente dramaturgo da Broadway. Também chama a atenção as espetaculares atuações de Paul Newman e Liz Taylor e claro, a beleza inesquecível da atriz.
Nota: 9,5/ 10
5. O Natal do Mickey Mouse (Mickey's Christimas Carol), 1983
Baseado na obra imortal de Charles Dickens, o curta da Disney traz Tio Patinhas na figura do rico Ebenezer Scrooge, velho, egoísta e solitário, que acumulou fortuna às custas de trabalhadores mal-remunerados e golpes em viúvas em crianças órfãs. A maldade de Scrooge era tamanha que ele roubou o falecido sócio (Pateta) e usou o dinheiro do enterro, jogando o corpo do defunto no mar. Um dos mais dedicados empregados do velho é o pobre Bob Cratchit (Mickey), que sustenta sua família precariamente com o péssimo salário pago pelo patrão. Na véspera de Natal, Scrooge espanta coletores de donativos, briga com parentes e aborrece funcionários, como sempre, sem imaginar o que lhe aconteceria horas depois. Depois de dormir, Scrooge foi visitado pelos fantasmas do Natal passado (Grilo falante), presente (Willi, o gigante) e futuro (Bafo), que lhe mostraram todas suas maldades e as consequências que elas trariam se o velho não mudasse seu comportamento para com o próximo. Beleza que todo mundo já viu, que a Globo sempre passa antes da Missa do Galo, mas nem isso tira a beleza da história ou do filme.
Nota: 9,5/ 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Filmes pro final de semana - 13/12

1. Bravura Indômita (True grit, 2010)
Primeiro filme totalmente de cowboys dos Irmãos Coen, Bravura indômita é a segunda adaptação para o cinema do romance homônimo, sendo a primeira de 1969 com John Wayne, que ganhou um Oscar por sua atuação. No longa, Mattie Ross (Hallee Steinfeld) é a filha de um homem morto covardemente por um de seus ajudantes, Tom Chaney (Josh Brolin) e deseja fazer justiça, por mais difícil que seja sua missão. Para isso ela contrata Rooster Cogburn(Jeff Bridges), um caçador de recompensas velho, beberrão e mal humorado. A contragosto de Cogburn, Mattie o acompanha na busca do bandido, apesar de ter apenas 14 anos; a eles se junta o LaBoeuf (Matt Damon), um patrulheiro texano que também tem bons motivos para perseguir Chaney. Não surpreendentemente, o trio vai criando afeto aos poucos e acabam se dando bem, unidos na árdua tarefa. Também não surpreendentemente, este é um filmaço. Por ser a segunda versão de um filme tão bem sucedido como foi o de 1969 e ter à frente os talentosos Coen, criou-se uma expectativa imensa e ninguém saiu decepcionado. O elenco é ótimo, o modo como é mostrada a dura realidade do velho Oeste é incrível e o desfecho (que aliás é diferente do filme de 69) é digno de aplausos.
Nota: 8,5/ 10
2. Piaf - um hino ao amor (La môme/ La vie en rose, 2007)
A cinebiografia da cantora francesa Edith Piaf acabou se tornando uma das mais populares de todo o cinema. A atriz Marion Cotillard dá vida à dona de uma das maiores vozes que a França já teve, desde o início da idade adulta, com pouco mais de quarenta anos, mas aparentando cerca de 80. A vida de Edith foi uma coleção de tragédias: órfã de mãe, foi criada no bordel da avó em meio à pobreza, sofreu de cegueira durante alguns anos da infância, até descobrir seu talento e sobreviver com as moedas que ganhava nas ruas de Paris por cantar junto com uma amiga. Descoberta pelas rádios parisienses, viu sua carreira ascender meteoricamente, ao mesmo tempo em que desgraças continuavam a surgir, entre elas a doença degenerativa que lhe tirou a vida precocemente. A atuação de Marion não merece outro adjetivo que não seja perfeita, do tipo que aparece uma vez a cada muitos anos; entrega total da atriz à personagem. Tal entrega é vista não só por ela parecer deixar de existir, deixando apenas a alma de Piaf transparecer em sua performance, como na dublagem das músicas - que normalmente faz cagada em cinebiografia, mas aqui não há descompasso algum entre os lábios de Marion e a voz de Edith. Inesquecível.
Nota: 8,5/10
3. Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, 2004)
Ambientado na Ruanda de 1994, quando a morte do presidente deu inicio a uma guerra civil entre as duas etnias do país, hutus e tutsis, Hotel Ruanda é centrado em Paul Rusesabagina (Don Cheadle), gerente do Hotel Des Milles Collines, propriedade de uma empresa belga. A guerra deu início a um genocídio em que a maioria hutu pretendia dizimar a minoria tutsi, e Paul se vê no meio disso tudo por ter um hotel cheio de turistas estrangeiros e por ser amigo do comandante das forças de paz da ONU no país. Com a ajuda de membros corruptos do governo e com a estrutura do hotel, Paul tenta salvar o maior número possível de tutsis – incluindo ele próprio e sua família. A coragem e solidariedade de Paul fazem sua história muito parecida com a de Oscar Schindler e sua lista; e assim como o filme de Spielberg, esse também é baseado em fatos reais. 
Nota: 9,0/ 10
4. Cabaret (1972)
Pra um público que viu o festival de alegria que é Catando na chuva na década de 50 e a fofura bonitinha demais que é Minha linda dama nos anos 60, imagine o choque ao chegar em 72 e ver Cabaret, que sai de cenários elegantes e vai para o subúrbio da Berlim dos anos 30, onde um país arrasado pela Guerra e pela Depressão era campo fértil para a disseminação das ideias totalitaristas e racistas de Hitler. Nesse rebuliço, Brian Roberts (Michael York), jovem americano, chega em Berlim para dar aulas de inglês, e logo conhece Sally Bowles (Liza Minelli), estrela do Kit Kat Club, a casa de shows mais animada da cidade. Sally é uma dançarina que sonha em ser uma grande atriz - típico, não? Mas a história do diretor Bob Fosse consegue ser surpreendentemente original, com seus ótimos números musicais que floreiam amores incompreendidos e ambição; é como diz uma das músicas: "money makes the world go round!". Cabaret também se destaca por dividir os holofotes do Oscar de seu ano com O Poderoso Chefão, faturando os prêmios de direção, atriz, ator coadjuvante (Joey Grey, mestre de cerimônias do Kit Kat e figura essencial no filme), entre outros. 
Nota: 10
5. Barry Lyndon (1975)
Depois da história futurística de Laranja mecânica (1971) Kubrick volta séculos no tempo para, na Prússia do século 18, acompanhar o jovem Redmond Barry (Ryan O'Neal), que é obrigado a fugir de sua terra natal depois de um duelo em que quase matara um oficial. Ele ingressa no exército britânico, luta na Guerra dos Sete Anos, e depois de receber a ordem de prender um golpista, une-se ao criminoso, aplicando golpes na nobreza de diversas cidades - tirando a sorte grande com uma jovem, nobre e rica viúva, Lady Lyndon (Marisa Berenson). A falta de escrúpulos de Barry fica comprovada quando ele assume o sobrenome e títulos do falecido, passando a se chamar Barry Lyndon e figurando de nascido em berço esplêndido perante a nobreza, e aparentemente conquistando a todos - exceto seu enteado, que cresce alimentando ódio mortal contra o plebeu oportunista. A história bem trabalhada de ascensão social de Barry Lyndon foi coroada por um dos melhores trabalhos de direção de Kubrick, cujo principal destaque é a iluminação: não foi usada nenhuma fonte de luz artificial. Kubrick usou câmeras antigas com lentes enormes produzidas para a NASA capazes de absorver mais luz, perfeitas para os cenários iluminados naturalmente pelo sol ou pela luz de centenas de velas; efeito belíssimo e único. Só vejo um defeito: o longo filme, de cerca de três horas, não é nenhum exemplo de velocidade.
Nota: 9,5/ 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Filmes pro final de semana - 06/12

1. Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin, 2011)
Mais uma vitória do circuito semi-alternativo americano. Um filme tenso, provocador, reflexivo e belo - beleza oculta por mágoas, mas belo. O longa baseado no best-seller homônimo é focado na figura de Eva Khatchadourian (Tilda Swinton), cuja história é montada a partir de flashbacks que datam da infância de seu filho mais velho, Kevin (Ezra Miller) até a adolescência dele; o menino doce que escondia birras e uma certa maldade que só a mãe parecia perceber, a ligação aparentemente saudável com o pai Franklin (John C. Kelly) e a paixão pelo arco e flecha, que tem papel importantíssimo na história. Desde o início vemos do que Kevin foi capaz de fazer, mas ver todo os antecedentes e o agravamento da relação entre mãe e filho é o que o filme mais tem de espetacular, realçado pelas excelentes atuações de Ezra Miller e Tilda Swinton, que deveria integrar a brilhante lista de atrizes indicadas ao Oscar ano passado - e que perdeu a indicação para Rooney Mara, de Millenium. Sem dúvida uma das melhores críticas à sociedade americana contemporânea.
Nota: 9/ 10
2. Vicky Cristina Barcelona (2008)
Quando se pensa em Vicky Cristina Barcelona não há outra palavra que venha à mente senão caliente. Um dos mais queridos filmes de Woody Allen dos anos 2000 exala sensualidade através de seus quatro protagonistas. Tudo começa quando as amigas Vicky (Rebeca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) vão passar uma temporada na Catalunha, Vicky para terminar sua dissertação de mestrado, e Cristina para ver se encontrava algo para sua vida, já que esta não tinha rumo certo. Num certo dia elas conhecem um sedutor pintor espanhol chamado Juan Antonio (Javier Bardem) que as convida para um final de semana com muita cultura, lugares lindos, boa comida, vinhos deliciosos... e sexo. O inusitado convite é o ponto de partida para um breve contato entre Vicky e Juan Antonio e o início da relação do artista com Cristina - que será sacudido com a volta da ex mulher dele, Maria Elena (Penélope Cruz). Os cenários, o idioma, a música, a fotografia e o elenco são ingredientes que fazem deste um filme intenso, sexy e carismático, mostrando a versatilidade de Woody mesmo depois dos setenta anos, além de sua capacidade de criar grandes personagens femininas que presenteiam suas intérpretes com Oscar - Penélope Cruz foi vencedora na categoria atriz coadjuvante.
Nota: 9/ 10
3. Encontros e desencontros (Lost in translation, 2003)
Em seu segundo filme, Sofia Coppola provou ao mundo que não se firmaria em Hollywood apenas com o poderoso sobrenome, mas com o enorme talento que é comum à família (pai, avô e primo vencedores de Oscar, só pra resumir). Em Encontros e desencontros Sofia une a história de um ator de meia-idade que está em Tóquio para gravar comerciais de uísque (Bill Murray) à de uma bela jovem (Scarlett Johansson) que está na cidade porque seu marido fotógrafo está trabalhando em um filme. Os dois se sentem solitários e, a partir do momento em que estão numa terra tão diferente de seu país de origem, perdidos não só na cultura e língua japonesas como no rumo que a vida tomou - ele, vivendo um casamento de 25 anos que perdeu a força e ela casada com um workaholic que a deixa de lado por causa do trabalho. Filme excelente (para muitos o melhor de Sofia) que foi indicado aos Oscar de melhor filme, direção, ator e roteiro original, este último o único faturado pela jovem e promissora Coppola.
Nota: 9,0/ 10
4. Um sonho de liberdade (The Shawshank Remdemption, 1994)
Pequeno clássico dos anos 90, é um leve mas ótimo drama ambientado numa prisão americana nos anos 40 e centrado no jovem banqueiro Andy  Dufresne (Tim Robbins), condenado à prisão perpétua acusado do homicídio de sua esposa e do amante dela. Na cadeia, ele conhece Red (Morgan Freeman), com quem constrói uma forte amizade. Andy vai se adaptando à prisão e ganhando certa proteção do diretor e dos guardas por resolver os problemas com contabilidade, se esquivando de valentões e conseguindo ocasionais presentes para si e seus companheiros. Ao longo de mais de vinte anos de história, vemos as dificuldades enfrentadas por Andy e seus esforços para superá-las, inclusive conseguindo transformar a biblioteca da prisão. Através de um roteiro sólido e de um ótimo trabalho de direção, Robbins e Freeman lideram um filme coeso, forte e carismático conto originalmente escrito por Stephen King - sim! Nem só de terror vive o cara.
Nota: 8,0/10
5. ...E o vento levou (Gone with the wind, 1939)
Tan tan tan taaan... se você acha que aquela música que tocava no Chaves quando o professor Girafales e a dona Florinda se viam é trilha original do seriado, tá na hora de saber de onde veio. A música tema da personagem Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) é quase tão icônica quando a heroína, uma das mais queridas figuras de todo o cinema. Scarlett é filha de um rico fazendeiro da Geórgia que vê seu mundo virar ao avesso com o início da Guerra Civil (Guerra de Secessão). A moça, que tinha dezenas de admiradores aos seus pés e era apaixonada por Ashley Wilkes vê seus fãs irem para a guerra e seu amado se casar e também ir para a luta. Ao longo de quatro horas de filme, vemos as mudanças de Scarlett: de rica à pobre, de dondoca a mulher forte; de ingênua a ser capaz de matar para proteger a si e a sua família -versatilidade mostrada graças ao enorme talento de Vivien Leigh, que fez dessa uma das maiores atuações vencedoras de Oscar. Do outro lado da história, o cafajeste Rhett Butler (Clark Gable) apaixonado por Scarlett e que tem um enorme coração por trás da cara de canalha, que luta pelo coração da jovem, teimosa e ambiciosa O'Hara. Uma dupla que o mundo vê e ama há mais de setenta anos.
Nota: 9,5/ 10

Luís F. Passos

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A Noite dos Desesperados - circo de desesperança

Muitos são os filmes que focam o período da Grande Depressão, ou das consequências diretas deste. Ao longo de toda sua história, o cinema americano ocasionalmente coloca este momento de crise como foco de suas tramas. Nos períodos que sucederam a depressão, décadas de 30 e, sobretudo, de 40, o tema era bem recorrente em diversas formas. Farrapo Humano se dispôs a falar sobre o problema dos alcoólatras pós-crise. Vinhas da Ira mostrou a questão da migração de pobres proprietários rurais que, além de terem a crise econômica, passaram por uma das maiores secas da história do país, sendo esses apenas alguns exemplos mais importantes.
Sabemos muito bem dos casos de pessoas que se suicidavam, que migravam, que partiam para tentar a vida em Hollywood, que se viciavam em bebidas e que se marginalizavam das mais diversas formas. Na verdade, no período todos estavam desesperados para se manter vivos, ou pelo menos continuar com a ideia estúpida de sonho americano. Era um período em que muitos se disponham às mais diversas atividades possíveis. Desde trabalho semiescravo às populares maratonas de dança. Sim. Maratonas de dança. Competições em que centenas de casais deveriam dançar, quase que ininterruptamente, até que restasse apenas um em pé no salão.
Parece simples, mas estas competições não duravam horas, mas sim semanas. Há relatos de maratonas que duraram mais de um mês. Um mês de pessoas dançando, quase sem parar, em busca de um prêmio qualquer e sendo alvo de uma das formas de entretenimento mais disfarçadamente sádicas que eu conheça. Afinal, enquanto os casais se exauriam na pista de dança, havia todo um fiel público pagante disposto a divertir-se à custa do sofrimento e da humilhação alheios.
É neste cenário relativamente esquecido que A noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?, 1969) se desenvolve. No filme, temos Gloria e Robert, um casal que na verdade não era um casal. Apenas duas pessoas que se encontram no momento da inscrição na competição. Ambos não têm qualquer perspectiva de vida. Gloria (Jane Fonda), a verdadeira protagonista da trama, é uma personagem consideravelmente enigmática. Não se sabe muita coisa sobre seu passado, mas seu temperamento e suas atitudes nos levam sempre a encará-la como uma pessoa que não está mais apenas cansada. Está em estafa por uma vida totalmente desperdiçada de sonhos frustrados e pobreza. A última esperança de Gloria, e sua cartada final, é justamente vencer a competição de dança. Desta forma, ela persevera com todas as armas que possui em busca de seu objetivo final. Não é uma personagem carismática – seu passado desconhecido a tornou rude demais para tal – mas em qualquer momento se apresenta como uma vítima. Até nos momentos de fraqueza é capaz de denotar uma força surpreendente.
Bom, de qualquer forma, o que Gloria descobre, e que nós sabemos muito bem, é que sonhos são difíceis de realizar. Vivemos num mundo muito cruel. Todo o sofrimento, o cansaço e as humilhações daquelas pessoas em prol do entretenimento de um público nem tão mais privilegiado assim não são muito diferente da vida de tantos outros aí espalhados pelo mundo, seja em temos de depressão ou não. É interessante também analisar a curiosidade mórbida dos espectadores. A impressão que dá é que assistir o sofrimento alheio é só uma forma de disfarçar um pouco a seu próprio.
Apesar de seus mais de 40 anos, A noite dos desesperados continua sendo um filme muito forte, muito inteligente e com um caráter quase documental. Um bom registro de uma época, mas também uma boa análise sobre o comportamento humano em si. A direção é assinada por Sidney Pollack (diretor de A escolha de Sofia, entre outros) e dentre as atuações se destacam a de Gig Young (vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante) que interpreta o anfitrião do “circo”, Susannah York (indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) que vive uma das personagens mais decadentes de todas, Michael Sarrazin cujo Robert é uma das personagens mais empáticas e, obviamente, Jane Fonda. Um dos melhores papéis de sua carreira, uma personagem muito complexa e muito interessante. Atuação merecedora do Oscar de melhor atriz (ao qual foi apenas indicada). Só pra constar, A noite dos desesperados só não é o melhor filme de seu ano por causa de Perdidos na noite.
Obs: o título original, They shoot horses, don’t they?, parece muito estranho, mas na verdade é genial. Para entendê-lo, é só ver o filme.

Nota: 10


Leia também: Vinhas da Ira