quinta-feira, 30 de maio de 2013

O Hobbit: Uma jornada inesperada - de volta à Terra Média

Eu tenho alguns pecados de cinéfilo - filmes que todo mundo viu e eu não. Por exemplo, trilogia Matrix e a série Piratas do Caribe. Um pecado que eu tinha e do qual me livrei há poucos meses foi a trilogia O Senhor dos Anéis. E no meio tempo em que via os filmes das aventuras de Frodo e companhia, assisti O hobbit: Uma jornada inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012), que sem dúvida foi um dos filmes mais aguardados do ano, e só saiu em dezembro. A reação da crítica não foi muito boa, mas eu decidi conferir o longa no cinema.
Voltemos ao primeiro filme da trilogia O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel (2001): um hobbit, Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), prepara uma grande festa no seu vilarejo para comemorar seu aniversário. Uma das muitas visitas que recebe é a de seu sobrinho Frodo (Elijah Wood) um de seus familiares mais próximos; e esse dia é o pontapé inicial para toda a saga de Frodo na tentativa de destruir o Um Anel. Enfim, este dia de festa também é o ponto inicial de O Hobbit. No momento da visita de Frodo, Bilbo relembra sua juventude, quando foi visitado pelo mago Gandalf, o Cinzento (Ia McKellen), que lhe fez um inusitado convite: viver grandes aventuras junto a ele e a um grupo de anões liderado por Thorin Escudo-de-Carvalho (Richard Armitage), na tentativa de recuperar o legado dos anões na Montanha Solitária, uma cidade repleta de tesouros que fora roubada pelo dragão Smaug.
A cada lugar em que o grupo chegava, um novo desafio, quase todos representados pelos orcs, seres das profundezas e inimigos mortais dos anões - e de qualquer coisa que não seja um orc. Os orcs se multiplicaram de tal forma pela superfície que haviam ocupado até mesmo as ruínas da cidade de Dol Gudur, uma espécie de local sagrado, informação dada ao grupo pelo mago Radagast, o Cinzento (um mago como Gandalf, mas com muito menos juízo e um tanto caricato). E o consequente confronto entre mago, hobbit e anões contra orcs acaba sendo o evento mais importante do filme, e ocupa boa parte dele. Bem, é isso.
A principal bronca com O Hobbit foi o fato de que o livro em que ele é baseado é relativamente pequeno e será usado para uma trilogia - enquanto que O Senhor dos Anéis também é uma trilogia nos livros e tem mais de 1200 páginas. Dos 19 capítulos do livro, só 6 foram utilizados, e lógico, o jeito foi prolongar as sequências; a critica caiu em cima dizendo que o diretor Peter Jackson encheu linguiça. Bem, é inegável que é um filme exagerado, que não precisava ter cerca de 2h50, que um corte de vinte ou trinta minutos faria bem; também é um pouco cansativo, não só pela duração mas também por ter sido gravado em 48 quadros por segundo (não entendo muito disso, mas pra simplificar, teve informação demais em pouco tempo), isso em 3D e alta definição. Mas francamente, se todos os filmes enchessem linguiça como aqui, o cinema seria outro. Mesmo as passagens visivelmente prolongadas são muito ágeis e interessantes, tanto visualmente como por ter um conteúdo implícito, e não só pura ação. Um dos destaques dos ótimos efeitos visuais é Gollum (Andy Serkis), que já impressionava dez anos atrás, e que agora retoma confirmando que é um dos melhores personagens já criados em 3D, com mais detalhes e possibilidades de expressões. E falando no diabo, aqui vemos como Bilbo tomou de Gollum o Um Anel sessenta anos antes de passá-lo a Frodo, com direito a passagens de século atrás, quando o anel ainda não havia desfigurado o hobbit Sméagol, que viria a se transformar na criatura Gollum. E vamos ser sinceros, por mais feio e malvado que seja, Gollum sabe cativar o espectador.

E depois disso tudo, afinal, qual a minha opinião? Apesar de todo o excelente trabalho por trás dele, O hobbit é inferior aos filmes da trilogia do Anel. Falta o carisma de atores como Viggo Mortensen ou Orlando Bloom, que interpretaram Aragorn e Legolas, respectivamente, ou mesmo o encanto que O Senhor dos Anéis tinha, capaz de seduzir espectadores e criar expectativa para os próximos filmes. 

Nota: 7,5/10

Luís F. Passos

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Repulsa ao Sexo - pesadelos sexuais

Em suas já cinco décadas de carreira, o diretor Roman Polanski reuniu em sua filmografia uma boa quantidade de obras clássicas e diversas, unidas pelo menos em um ponto principal: a altíssima qualidade. Se nos anos 70 ele reinventou o cinema noir com Chinatown, nos anos 60 sua visão era mais voltada a inovações cinematográficas relacionadas a filmes de tensão extrema e palpável, com personagens confinadas em apartamentos pequenos e com a difícil missão de sempre ter que se confrontar consigo mesmo, lutando contra monstros interiores ou se perdendo em devaneios da mente. É assim com O bebê de Rosemay e principalmente com a primeira grande incursão do diretor pelo cinema experimental, Repulsa ao sexo (Repulsion, 1965). 
A história de enredo cruelmente simples, centra-se exclusivamente na figura da jovem Carole (Catherine Deneuve), banal manicure cuja mente aparentemente simplória vive a beira da loucura. Loucura esta intimamente relacionada com comportamento sexual. Por motivos jamais explicados em nenhum momento do longa, qualquer contato sexual desencadeia em Carole delírios psicóticos e mudanças comportamentais, que vão da histeria à catatonia. Esses contatos sexuais não envolvem necessariamente nenhum tipo de toque. O simples ato de ouvir a irmã fazendo sexo com o namorado (que, aliás, é casado) no quarto ao lado já é capaz de levar a moça a um estado de neurose. Um simples beijo e até mesmo uma camisa suja esquecida no banheiro já são elementos mais que suficientes para provocar grande desconforto físico e psicológico. 
Quando sua irmã viaja por alguns dias com o namorado, a mente frágil de Carole torna-se cada vez mais susceptível a seus delírios psicóticos, pois agora um novo elemento foi interligado: a solidão. Confinada e isolada no pequeno apartamento que parece cada vez mais sufocante e sombrio, sua mente vai mergulhando por caminhos mais profundos que levam a manifestações da mais pura violência, atingindo um nível de agressividade que jamais poderia ser previsto.
Polanski mostra em Repulsa ao sexo toda sua capacidade de criar clima, visto a trilha sonora pulsante e estridente sempre acompanhada das feições transtornadas de uma incrível atuação da grande musa Catherine Deneuve e seguidas por silêncios profundos e incômodos, onde as imagens do apartamento cada vez mais bagunçado, sujo e legitimamente podre são capazes de causar, realmente, repulsa. A fotografia consegue aliar closes reveladores do rosto hora agonizante hora apático e perdido da protagonista como também tornar os poucos metros quadrados em que quase toda a história se desenrola em cubículos ou hectares, dependendo apenas do ponto de vista e da situação.
Produção visceral, Repulsa ao sexo é capaz de chocar. Àqueles que não aguentam nem ver Nina Sayers se autodestruindo em Cisne Negro, não recomendo este filme. No entanto, para os mais firmes, preparem-se para uma experiência cinematográfica genuinamente única, pois é um filme extremista (não num sentido físico, mas psicológico). Não espere respostas, esclarecimentos ou muito menos conseqüências. Apenas aproveite este delírio sombrio.

Nota: 10

Lucas Moura

sábado, 25 de maio de 2013

O Cortiço – ou o Brasil, tanto faz

É natural que tua vida seja uma bosta.
E sabes todo esse mexerico que é badalado da internet até a mesa de bar sobre o teu, o nosso povo brasileiro? Pois, é papo antigo. De tão velho está precisando ser enterrado, por que se tu ainda não percebeste não há quem não vire o nariz quando o assunto está no ar.
Dia desses estava relendo O Cortiço (1890), tinha batido uma saudade danada da fogosa Rita Baiana. Que personagem! Talvez tenha sido minha primeira paixão literária, tão abrasante que eu não tinha mais olhos para Capitu (e graças a deus ela não tinha os tais dos olhos de cigana para mim), nem coragem para Helena e nem dinheiro para Lucíola. Era a Rita Baiana e só ela; a representação da mulher brasileira, da sensualidade ferina, do sabor apimentado, do aroma lascivo, da carne abrasante.
Poderia ser um livro todo apenas dela, no entanto é muito mais do que isso. A minha Baiana é somente um pedaço do personagem principal, o próprio Cortiço. Parece engraçado analisar através deste ponto de vista, até um pouco maluco, mas quem lê vai acompanhando aos poucos o surgimento desta habitação multicultural a partir do trabalho árduo e da malandragem do português João Romão e da exploração de sua companheira crioula Bertoleza (eita mulher! ali sim está para o que der e vier). O lugarzinho vai crescendo, vão aparecendo os primeiros moradores, incomodando até quem não tinha nada a ver, principalmente o Miranda, o vizinho abastado, que sofria só de ver um matuto como o Romão crescendo na vida!
Aahn, esse Miranda nascido em berço de ouro me lembra tantos outros... Daquele tipinho bem conhecido: observa a existência de todos enquanto tenta encobrir os desvios da própria. E olha que D. Estela, sua mulher, dava era motivos para as lavadeiras cochicharem!
Aliás, me pergunto o que não poderia gerar intriga nesta novela? Aluísio de Azevedo (1857 – 1913) não era de poupar o leitor. Com ele é assim: ali está o ser humano, e se o ser humano está ali não tardará a subversão. Isso tudo é natural.
O arco subversivo na obra abrange todo o tipo de violência; o livro sangra. Pomba, outra personagem intrigante, e sua tão esperada menstruação, ela é jurada a um jovem estudante, precisando atender às expectativas não apenas de sua mãe como de toda a comunidade do cortiço que torce pelo futuro da moça. O soldado Alexandre com suas lamúrias e responsabilidades, pecando e rezando pelo bem de suas filhinhas. O capoeirista Firmo e todo o seu aspecto de gatuno esperto, a caracterização do carioca. Leocádia, a adúltera, perdoada após uma bela sova do marido Bruno. A “bruxa” esquizofrênica Paula respeitada e temida por todos. A Leandra lavadeira e moradora do Cortiço, apelidada de Machona e demonstrando tendência homossexual também reparada na personagem da prostituta da capital Leonie.
Quando os personagens de Jerônimo e Piedade surgem na história vamos notando melhor a noção de Aluísio sobre o brasileiro e o brasileirismo. Jerônimo é um português devotado ao trabalho, pai e marido cortês. Um exemplo de “homem europeu”. Sua reputação é tão alta ao ponto de atrair a atenção de João Romão que decide por contratar o seu conterrâneo pagando até uma quantia difícil dele abrir mão. Vivendo no Cortiço, Jerônimo (no começo receoso) vai se misturando com os seus próximos, principalmente abismado pelas características sensuais de Rita Baiana (ai, Rita!).
Daí então é a transformação do homem.
O lusitano após cair de cama por conta de uma febre, fica aos cuidados da Rita, esta o trata imediatamente com o forte café brasileiro. O homem ergue-se enérgico, agora distante daquela tristeza letárgica e saudosa por sua terra. Passa a trocar o vinho do porto pela cachaça, o bacalhau pela comida bem temperada, a canção acompanhada da viola pelo samba e o pagode. Entretanto, essa paixão acaba por se tornar uma obsessão e uma das marcas trágicas do livro.
Sim, esse é Azevedo na sua mais clássica obra. A identidade brasileira descrita há mais de 100 anos a qual tu podes dizer “nada mudou”. O vício verde e amarelo subtraindo a tal virtude do velho continente. Ainda que em um de seus intensos capítulos este mesmo povo se unisse (jamais acreditei que fossem desunidos, na verdade, a convivência acaba tornando vizinhos em companheiros) contra outra vivenda próxima que começava a causar conflitos. Eram pau e pedra em mãos amigas; o Cortiço era a pequena nação a qual eram patriotas e irmãos. Ao fim do embate, semelhante a qualquer guerra, o retorno ao cotidiano e seu falatório rotineiro com suas pequenas intrigas.
Reflete, leitor (a): mas é isso?
Esperto foi o João Romão dando sua volta por cima, por cima de todo mundo?
Pobre da Pombinha? Pobre do Jerônimo?
Pobre de mim e de tu! Que é tudo natural.

Leia também:

Guilherme Patterson

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Dorminhoco - as origens cômicas de Woody Allen

Ainda no início de sua carreira e antes de dirigir/escrever/estrelar o grande sucesso Annie Hall (1977), um dos mais queridos vencedores do Oscar e uma das principais comédias do cinema, Woody Allen, e também sua grande parceira da época, Diane Keaton, já trabalhavam juntos em filmes menores e totalmente vinculados ao gênero da comédia. Mais precisamente, comédia no maior estilo “pastelão”, cheia de piadas padrão, situações embaraçosas e inexplicáveis, com direito a tortas na cara, explosões, armas que não funcionam e tudo mais. O maior destaque dessa fase inicial de suas carreiras é O dorminhoco (Sleeper, 1973), um de seus principais trabalhos, dirigido e escrito por Allen. 
No filme, temos o típico judeu neurótico de Nova York, Miles Monroe (Woody Allen), que, durante um procedimento hospitalar relacionado a uma leve úlcera, acaba sendo congelado e preservado em papel alumínio dentro de uma cápsula por um período de 200 anos, e acorda no ano de 2173. Nesse futuro (inspirado nitidamente em produções da época que esboçavam futurismo, como Laranja mecânica e 2001 – uma odisséia no espaço) ele tem que se adaptar a uma realidade totalmente diferente do que estava acostumado em 1973 e acaba se envolvendo diretamente com um grupo de revolucionários que tenta derrubar o governo. Esse governo é super autoritário, assumiu o controle após uma guerra e obviamente funciona como uma comparação direta aos governos totalitários que existiram durante o século XX. Daí, segue-se todo o tipo de situação bizarra envolvendo desde formas primárias de humor, como escorregar em casca de banana, até comentários ácidos sobre o comportamento social americano nos anos 70, a dificuldade em manter relacionamentos amorosos firmes e duradouros, referências a grandes figuras do século XX (desde Stálin a Muhammad Ali), piadas sobre religião (colocando, como sempre, a existência ou não de Deus como um questionamento) e críticas à maquinaria política e ao seu jogo de manipulação. No entanto, o que realmente conta em O dorminhoco é a comédia para rir sem preocupações (o próprio Allen o descreve, assim como outros de seus filmes da mesma época, como “filmes divertidos de primeira fase”).
Miles conta sempre com a ajuda atrapalhada da bela Luna Schlosser (Diane Keaton), bem intencionada, porém tola, uma típica mulher fiel ao governo que acaba se transformando numa perfeita militante no grupo dos revolucionários. Juntos, os dois ditam as regras do filme e dão o tom que o torna diferencial.
De todas as divertidas cenas de O dorminhoco, devo destacar duas que me chamaram muito a atenção: uma sequência hilária em que Allen e Keaton representam, respectivamente, Blanche e Stanley, de Uma rua chamada pecado, numa homenagem bem colocada e totalmente inusitada; a cena final representa praticamente um resumo da proposta de trabalho de Woody Allen, mostrando os pilares nos quais se baseia toda a sua obra. Num diálogo simples e ágil, como sempre, ele expõe religião, amor, política, sexo, vida e morte.

Nota: 7/ 10

Leia também:
Annie Hall
Vicky Cristina Barcelona
Para Roma com amor

Lucas Moura

sábado, 18 de maio de 2013

Festival de Cannes 2013

Começou na última quarta, 15, a 66ª edicção do Festival de Cannes, maior festival de cinema europeu e maior  premiação do cinema fora do mercenário domínio hollywoodiano. O júri desse ano é presidido por Steven Spielberg e também composto por Nicole Kidman, Lynne Ramsay, Ang Lee, Christoph Walt, Daniel Auteuil, Cristian Mungiu (vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro ano passado), Vidya Balan e Naomi Kawase. Entre os destaques estão O Grande Gatsby de Baz Luhrmann (Mulin rouge), Inside Llewyn Davis de Joel & Ethan Coen, Only God Forgives de Nicolas Winding Refn , The Immigrant de James Gray, Venus In Fur de Roman Polanski, The Past de Asghar Farhadi e Nebraska de Alexander Payne, entre muitos outros. O Grande Gatsby foi o filme de abertura, enquanto que Zulu, de Jérôme Salle encerrará o festival dia 26.
Os filmes exibidos em Cannes podem ser dividos em: aqueles que concorrem à Palma de Ouro (em competição), fora da competição, Un certain régard, Sessão da meia-noite e Sessão especial. Entre os que não concorrem ao prêmio pricipal, destaque para The Bling Ring, de Soffia Coppola e com Emma Watson no elenco, um dos filmes mais aguardados do ano e que cria certa expectativa em Cannes - Soffia é muito querida por lá, mas seu Maria Antonieta foi vaiado em 2006.
Mas porque Cannes? A ideia surgiu nos anos 30, quando o então ministro da cultura da França estava inconformado com a mostra de cinema de Veneza; foi tomando corpo e sua primeira edição seria realizada em setembro de 1939, mas com o início da 2ª Guerra Mundial, só em 1946 ocorreu a primeira mostra na cidade francesa - o Festival International du Film. Em 1955, surge a Palma de Ouro, prêmio principal.
Os prêmios de Cannes são: Palma de ouro (melhor filme), Grande Prêmio (tipo segundo lugar), Prêmio de interpretação masculina (melhor ator), Prêmio de interpretação feminina (melhor atriz), Prêmio de direção, Prêmio de roteiro e Prêmio do júri. Há ainda prêmios para os curta-metragens.

Seleção Oficial de 2013:

Filme de Abertura
“O Grande Gatsby” (dir. Baz Luhrmann)
Em Competição
“Behind The Candelabra” (dir. Steven Soderbergh)
“Borgman” (dir. Alex Van Warmerdam)
“Un Chateau En Italie” (dir. Valeria Bruni-Tedeschi)
“La Grande Bellezza” (dir. Paolo Sorrentino)
“Grisgris” (dir. Mahamat-Saleh Haroun)
“Heli” (dir. Amat Escalante)
“The Immigrant” (dir. James Gray)
“Inside Llewyn Davis” (dir. Joel & Ethan Coen)
“Jeune Et Jolie” (dir. Francois Ozon)
“Jimmy P” (dir. Arnaud Desplechin)
“Michael Kohlhaas” (dir. Arnaud Despallieres)
“Nebraska” (dir. Alexander Payne)
“Only God Forgives” (dir. Nicolas Winding Refn)
“The Past” (dir. Asghar Farhadi”)
“Soshite Chichi Ni Naru” (dir. Hirokazu Kore-eda)
“Tian Zhu Ding” (dir. Zhangke Jia)
“Venus In Fur” (dir. Roman Polanski)
“La Vie D’Adele” (dir. Abdellatif Kechiche)
“Wara No Tate” (dir. Takashi Miike)

Fora da Competição
“All Is Lost” (dir. J.C Chandor)
“Blood Ties” (dir. Guillaume Canet)

Un Certain Regard
“Anonymous” (dir. Mohammad Rasoulof)
“As I Lay Dying” (dir. James Franco)
“Bends” (dir. Flora Lau)
“The Bling Ring” (dir. Sofia Coppola)
“Death March” (dir. Adolfo Alix Jr)
“Fruitvale Station” (dir. Ryan Coogler)
“Grand Central” (dir. Rebecca Zlotowski)
“L’Image Manquante” (Rithy Panh)
“L’Inconnu Du Lac” (dir. Alain Guiraudie)
“La Jaula De Oro” (dir. Diego Quemada)
“Miele” (dir. Valeria Golino)
“Norte, Hangganana Ng Kasaysayan” (dir. Lav Diaz)
“Omar” (dir. Hany Abu-Assad)
“Les Salauds” (dir. Claire Denis)
“Sarah Prefere La Course” (dir. Chloe Robichaud)

Sessão Meia-noite
“Blind Detective” (dir. Johnnie To)
“Monsoon Shootout” (dir. Amit Kumar)

Sessão especial
“Max Rose” (dir. Daniel Noah)
“Weekend Of A Champion” (dir. Roman Polanski)
“Muhammad Ali’s Greatest Fight” (dir. Stephen Frears)
“Stop The Pounding Heart” (dir. Roberto Minervini)
“Seduced & Abandoned” (dir. James Toback)
“Otdat Konci” (dir. Taisia Igumentseva)
“Bombay Talkies” (dir. Anurag Kashyap, Dibakar Banerjee, Zoya Akhtar, Karan Johar)

Filme de Encerramento
“Zulu” (dir. Jérôme Salle)

Luís F. Passos

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Fahrenheit 451 – os poros no rosto da vida

O livro escolhido para hoje foi escrito pelo grande escritor americano Ray Bradbury, em 1953. Faz parte das chamadas distopias, ou utopias negativas, do século XX, quando surgem tentativas de se prever o futuro na humanidade a partir de um presente cheio de desesperança. Junto com Admirável Mundo Novo (1934), de Huxley e 1984 (1949), de Orwell, Fahrenheit 451 faz parte da grande tríade do movimento, não sem razão.
O enredo se passa em um futuro não bem definido, e pode ser chamado de metalinguístico já que vai explorar toda a importância dos livros para uma sociedade que já não se importa mais com eles. Aliás, por que ler e ficar pensativo ou angustiado com questões existenciais se você pode pegar o carro e dirigir a mais de 200km/h ou outra velocidade maior na qual não se consiga pensar em nada? Por que se entreter com palavras se festas e drogas são liberadas à vontade? Por que interiorizar um pensamento se todos têm a “família”, como eram chamados os personagens da programação interativa a qual passava em telões enormes, espalhados pela casa, fornecendo o tanto exato de entretenimento para o estreito intelecto das massas?
 “Cuida-se então para que todos sejam felizes, oferecendo prazer e excitação em profusão. (...) Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum”.
Já deve ter notado a semelhança entre a sociedade em Fahrenheit 451 e a do livro de Huxley, ambas com grande inversão dos preceitos morais. Hedonista ao extremo, pode-se dizer que com o excessivo crescimento da população, tentar manter todos felizes foi a forma encontrada pelo governo para manter todos sob controle. E isso era conseguido incentivando desejos primitivos como festas, comemorações comunitárias, quem quisesse podia sair por aí atropelando pedestres desatentos, era comum, mas podia-se ser preso por gostar de passeios noturnos a pé. Nem a escola tem mais o mesmo significado que conhecemos:
 “A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é o que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”
E nesse contexto encontra-se Guy Montag, cujo sobrenome não coincidentemente remete a uma fábrica de papel. Bombeiro, mas não do tipo que conhecemos hoje. Naquele tempo, as casas já eram todas à prova de fogo e a profissão possuía agora outra função: “reduza os livros às cinzas e, depois, queime as cinzas”. Era esse seu slogan daqueles que um dia apagavam o fogo ao invés de começa-lo. Ao longo do livro vamos acompanhar toda a angústia de um homem que em um primeiro momento adorava seu emprego, sua esposa Mildred, sua vida, mas que a partir de certo ponto, vai enxergar o quão vazia e desprovida de sentido ela é.
Um dos marcos para essa epifania é quando Guy conhece Clarisse McClellan, sua vizinha, de 17 anos. Ela, por sua vez, era tida como estranha, porque gostava de caminhar a noite e ver o sol nascer, porque notava o orvalho cobrindo a grama logo pela manhã, porque olhava para o céu, porque não queria saber como uma coisa era feita, mas por quê. É ela quem ingenuamente perguntará ao nosso protagonista se ele era feliz. Não sabia ela o quanto essa pergunta ia ecoar em sua mente. A partir daí tudo na vida do nosso herói vai pouco a pouco desmoronar, levando-o a uma crise pessoal a qual se estenderá a todos aspectos de sua vida, como seu casamento. Não muito depois ele percebe o quanto sua mulher é fria, vazia, condicionada e que nunca a amou.
“Usava a felicidade como uma máscara e a garota fugira com ela pelo gramado e não havia como ir bater à sua porta para pedi-la de volta.”
Sua compunção abrangeria inclusive sua profissão, a partir, no entanto, de outro episódio. Certa vez após uma denúncia anônima os bombeiros vão a uma casa onde havia vários livros. E lá se passará uma cena belíssima na qual uma mulher se recusará a sair da casa, optando por ser queimada junto às obras não sem antes de fazer uma belíssima citação de Latimer, também queimado, por heresia, em 1555. É a partir daí que Montag passará a questionar-se qual o conteúdo de um livro para levar uma pessoa a optar por suicidar-se a deixa-los. 
“Temos tudo de que precisamos para ser felizes, mas não somos felizes. Alguma coisa está faltando. Olhei em volta. A única coisa que tive certeza que havia desaparecido eram os livros que queimei durante dez ou doze anos. Por isso achei que os livros poderiam ajudar.”
Nessa busca pelo sentido da vida, nosso protagonista terá ajuda de Faber, o mesmo nome do fabricante de lápis, um professor de inglês aposentado, presente inclusive na lista de pessoas a serem investigadas por atitude suspeita. Ele que há tempo desistiu de lutar contra o sistema, optou por resignar-se, tendo até já queimado todos os seus livros, terá seu ímpeto revolucionário restaurado pela energia de Montag e irá orientá-lo na sua jornada pelo crescimento pessoal enquanto buscam uma saída para reverter esse contexto sócio-político.
“A maioria de nós não pode sair correndo por aí, falar com todo mundo, conhecer todas as cidades do mundo. Não temos tempo, dinheiro ou tantos amigos assim. As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca. Trate de agarrar sua própria tábua e, se você se afogar, pelo menos morra sabendo que estava no rumo da costa.”
No fim da história, temos é um futuro ainda incerto, mas um protagonista muito diferente daquele do começo, aliás, é muito bonito ver a humanidade, em seu sentido ascético, retornando a uma pessoa que antes não era muito diferente de um robô. Nas palavras finais do próprio Montag:
“Caminharemos agora pelas estradas e teremos tempo para pôr as coisas dentro de nós. E algum dia, depois que elas decantarem em nós por muito tempo, sairão por nossas mãos e bocas. E muitas delas estarão erradas, mas o suficiente estará certo. Começaremos a caminhar hoje e veremos o mundo e o modo com ele caminha e fala, o modo como ele realmente é. Agora quero ver tudo. E embora nada do que entrar fará parte de mim quando entrar, após algum tempo tudo se juntará lá dentro e se fundirá a mim. Olhe para o mundo lá fora, Deus, meu Deus, olhe lá, fora de mim, para lá do meu rosto, e a única maneira de realmente tocá-lo é coloca-lo onde ele finalmente seja eu, onde ele fique no sague, onde seja bombeado mil, dez mil vezes por dia. Eu o guardarei para que nunca se esgote. Eu me agarrarei firme ao mundo algum dia. Já pus um dedo nele; é um começo.”
Infelizmente, em Fahrenheit 451, diferente de 1984, onde tudo era imposto pelo governo, a própria sociedade teve um papel importante para a nova estrutura organizada. Basta entender como os livros passaram a ser queimados para perceber. Em um primeiro momento, os livros foram perdendo espaço para resumos, colunas em revistas, depois programas de rádio ou outra coisa progressivamente menor, para se adaptar a um mundo onde ninguém mais tinha tempo. Depois, os livros perderam em qualidade também, com uma população muito grande, tem-se também uma população muito heterogênea. Para agrada a todos, as revistas se tornaram “uma mistura insossa” e os livros, “água de louça suja”, não demorou muito para pararem de ser vendidos. Foi-se criando uma sociedade anti-intelectual. As pessoas não tinham mais interesse em ler, mas também não queriam se sentir inferiores àquelas poucas que ainda o tinham. E assim, com cada minoria destruindo um livro contrário a seu pensamento, foi-se extinguindo todos eles, pouco a pouco. Os bombeiros só vieram a acelerar um processo iniciado espontaneamente.
“Entendem por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida.”
O incrível de Fahrenheit 451 é ele levar às últimas consequências processos já observados em nossa sociedade. Vivemos na era da imagem, das frases de facebook, dos relacionamentos distantes, da escassez de tempo, apesar de o livro ter sido pensado na época dos governos totalitários, da censura, do controle ideológico. Com essa distopia não tão distante assim, não dá para não teme-la; não dá, todavia, para não se apaixonar também. Se nas palavras do próprio Bradbury “os bons escritores quase sempre tocam a vida”, pode-se dizer que ele não só a toca como a expõe em toda sua crueza, tudo isso embalado por uma linguagem tão poética em um texto tão carregado de sentido que por alguns dias não se quererá ler mais nada.

Nota: 10

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Marcelle Freire

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Os sapatinhos vermelhos - uma vida pela dança

Sem dúvida alguma, Martin Scorsese é um de meus diretores favoritos. Seus filmes realistas a ponto de serem crus, envolventes e muito bem feitos são verdadeiras obras de arte cinematográficas, e remetem a sua infância em Nova York, um bairro de descendentes de italianos de religião católica e um tanto violento- daí os filmes violentos, alguns deles relacionados com máfia ítalo-americana. Mais do que isso, Scorsese é um cara realmente apaixonado pelo cinema. Não é só sua profissão, é sua vida. Devido a uma série de problemas de saúde na infância, ele não podia brincar na rua com outras crianças, e sua distração era ir ao cinema com um irmão mais velho. Distração essa que virou paixão, e que ele carregou por toda a vida.
Enfim, ano passado comprei um filme que trazia um comercial em que Scorsese e Clint Eastwood falam da restauração de filmes antigos e da gravação destes em bluray, com qualidade de som e imagem até mesmo superior aos originais. Eastwood falou da recuperação de O Leopardo, inesquecivel drama italiano, e Scorsese falou de Os sapatinhos vermelhos, um de seus filmes favoritos. Apareceram trechos do filme, em que se vê uma mulher de flamejantes cabelos ruivos e sapatilhas vermelhas igualmente destacadas, uma imagem muito bonita. O diretor fala da primeira vez que assistiu ao filme, quando criança, no cinema, e de como se encantou com ele. Tamanho carinho por parte de uma figura como Scorsese despertou minha curiosidade para Os sapatinhos vermelhos, e lá fui eu procurar o tal.
O filme gira em torno da companhia de balé Lermontov; seu frio e profissional diretor Boris Lermontov (Anton Walbrook), o recém contratato regente Julian Craster (Marius Goring) e a recém contratada bailarina Victoria Page (Moira Shearer). Craster é um jovem muito talentoso que conhece Lermontov através de seu professor que é amigo do diretor; este quer usar a inspiração do músico para fazer modificações em músicas conhecidas e assim melhorá-las. A primeira missão que ele dá a Julian é modificar o balé "Os sapatinhos vermelhos", baseado num conto de Hans Christian Andersen, que conta a história de uma menina que calça sapatos vermelhos encantados com as quais dançava muito bem; mas eles eram incansáveis e fizeram a menina dançar até morrer por exaustão. A escolhida para interpretar a menina seria Boronskaja, primeira-bailarina da companhia, mas esta se casa, deixando Victoria como sua provável sucessora; e Lermontov a escolhe para o papel. Aos poucos ela conquista o respeito e a amizade do diretor e do coreógrafo, Ljubov, que apesar de ser muito exigente, ajuda a moça a melhorar sua peformance. Quem também se aproxima de Victoria é Julian, que se apaixona por ela, despertando os ciúmes e a ira de Lermontov. É aí que surge o receio de que a tragédia do balé se repita na vida real.
Apesar de não ter a sorte de ter assistido a Os sapatinhos vermelhos (The red shoes, 1948) no cinema como Scorsese, vi versão restaurada em bluray, e deu pra sentir toda a magia que o filme consegue transmitir. Só assistindo pra saber quão belo é o filme. Tudo, cenário, figurino, elenco, maquiagem. E o filme de maneira geral é excelente. Ótimo roteiro, uma história envolvente que conquista fãs há sessenta e cinco anos, inclusive meninas aspirantes a bailarinas, que viram a personagem de Moira como exemplo, apesar da complexidade psicológica proposta pelos diretores Michael Powell e Emeric Pressburger.
O destaque do elenco vai para Walbrook, numa atuação impressionante, fazendo de Lermontov uma figura de aspecto maligno e manipuladora, e que apesar disso permanece solitário em sua devoção ao balé. Balé este que conduz o espectador por uma viagem; seja pela história dos Sapatinhos vermelhos na sequência de mais de vinte minutos em que Moira mostra muito talento, seja pela trajetória de devoção e auto-destruição de Victoria, que contribuiu para a inspiração de Cisne negro (2010), apesar de ser bem mais leve que o último. Mas em um dos primeiros diálogos entre a bailarina e o diretor, percebemos até que ponto ela leva sua ambição:
(Boris) - Por que você quer dançar?
(Victoria) - Por que você quer viver?
- Eu não sei exatamente o porquê... mas eu preciso.
- Essa é a minha resposta também.
Eu recomendo, pra quem puder, ver a versão restaurada, que existe disponível pra download nos torrents da vida. A imagem é muito mais nítida e podemos ver as cores brilhantes, especialmente o vermelho dos sapatinhos e dos cabelos da protagonista, que parecem flamejar enquanto ela dança - melhor que nas versões desgastadas, em que o vermelho mais parecia marrom.

Nota: 9,5/10

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Luís F. Passos