sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Filmes pro final de semana - 07/08

1. Oito mulheres e um segredo (Oceans'8, 2018)
Spin-off da aclamada trilogia Ocean's - no Brasil, 11 homens e um segredo e aí por diante -, liderada por George Clooney, o filme traz Sandra Bullock no papel de irmã do personagem de Clooney. Debbie Ocean (Bullock) sai da cadeia e encontra sua parceira de longa data, Lou (Cate Blanchett), e as duas começam a acertar os detalhes de um plano que Debbie elaborou durante os anos em que ficou presa: o roubo de um lendário colar de diamantes que vale centenas de milhões de dólares. Para isso, montam um grupo que envolve uma hacker (Rihanna), uma estilista falida (Helena Bonham Carter), uma ladra profissional (Awkwafina), uma fabricante de joias (Mindy Kaling) e uma contrabandista (Sarah Paulson). Mirando a atriz Daphne Kugler (Anne Hathaway), que usará o colar num jantar de gala, a quadrilha liderada por Debbie nos dá um filme que não é apenas uma versão feminina da trilogia protagonizada por George Clooney, apesar de usar e abusar da mesma fórmula. Ser mulher faz parte do plano: "Se for ELE, é notado. Se for ELA, é ignorada. E pela primeira vez, queremos ser ignoradas", diz Debbie às suas companheiras.
Nota: 8,0/ 10
2. O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017)
Um filme que traz a assinatura de Sofia Coppola a cada cena - assim, podemos resumir a essência de O estranho que nós amamos, o que é suficiente para dar motivo para este longa ser visto, considerando a sólida obra que a diretora produziu nos últimos vinte e poucos anos. Ambientado no estado da Virgínia em plena  Guerra Civil, o filme se passa num casarão onde funciona uma escola para moças, dirigida por Martha Farnsworth (Nicole Kidman); as outras ocupantes da escola são a professora Edwina (Kirsten Dunst) e cinco alunas de diferentes idades. A tediosa rotina da escola muda quando um soldado ianque (Colin Farrell) é encontrado nas proximidades da propriedade gravemente ferido e é acolhido pelas sete mulheres. A intenção inicial é salvar o militar para entregá-lo às tropas sulistas assim que ele estivesse recuperado, mas com o passar do tempo surgem desejos e interesses pelo estranho - uns inocentes, outros nem tanto. Num clima introspectivo, sóbrio e repressivo, Sofia Coppola conduz uma parábola sobre desejo e manipulação, demonstrando talento de sobra na direção - trabalho reconhecido com o Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes.
Nota: 9,5/ 10
3. Spotlight - segredos revelados (Spotlight, 2015)
O ano é 2001 e o jornal The Boston Globe tem um novo editor-chefe, Marty Baron (Liev Schreiber). Logo em seus primeiros dias após assumir o comando do jornal, Baron se interessa por uma coluna assinada pelo excêntrico advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci), a qual dizia que o arcebispo de Boston tinha conhecimento de casos de abuso sexual praticados por padres e não fazia nada a respeito - apenas mudava os padres de paróquias. Baron convoca a equipe Spotlight, especializada em jornalismo investigativo, para assumir o tema. Liderados por Walter Robinson (Michael Keaton), os jornalistas da Spotlight enfrentam a difícil tarefa de encontrar vítimas e extrair depoimentos, e o desafio ainda maior de ter conseguir provas contra membros da poderosa e influente Igreja Católica de Boston. Neste filme intenso e despretensioso, o espectador é colocado dentro da redação do jornal, nos bastidores da notícia, presenciando o difícil e minucioso trabalho do jornalismo investigativo - trazendo à lembrança filmes como o maravilhoso Todos os homens do presidente, de 1976. Spotlight venceu os Oscar de melhor filme e melhor roteiro original.
Nota: 9,5/ 10
4. Quincas Berro d'Água (2010)
Quando Quincas Berro d'Água (Paulo José), o rei dos vagabundos da Bahia, foi encontrado morto no dia do próprio aniversário, uma nuvem de tristeza pairou sobre o Pelourinho e pelos cais de Salvador. Sendo muito bem quisto pelos bêbados, prostitutas, pescadores e jogadores, sua morte pôs de luto todos os marginalizados e personagens da noite que o conheciam. A notícia da partida de Quincas promove o inusitado encontro dos dois lados de sua vida: seus amigos pobres e boêmios, que dividiram com ele os últimos anos, e a família de classe média que ele largou por não suportar mais a pacata e hipócrita vida de funcionário público e cidadão exemplar. Depois de os amigos vagabundos conseguirem se livrar dos familiares do defunto, uma série de fatos estranhos os faz acreditar que Quincas estava vivo e pregando uma peça neles. A turma então percorre as vielas e becos, por bares, terreiros de candomblé e prostíbulos, fazendo algazarra enquanto os parentes e a polícia tentam encontrá-los e sua filha Vanda (Mariana Ximenes) mergulha em lembranças da infância com o pai exemplar e sua posterior transformação em pária da família. Baseado numa das mais conhecidas novelas de Jorge Amado, o filme é fiel à obra ao retratar tão bem arquétipos da noite e dos problemas sociais da Bahia.
Nota: 9,0/ 10
5. O segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos, 2009)
Argentina, 2009. Benjamín Esposito (Ricardo Darín) é um oficial de justiça (meio delegado, meio investigador) recém aposentado que decide ocupar o tempo livre escrevendo um livro a partir das memórias de um caso marcante que ele investigara vinte e cinco anos antes. Era 1974 e a Argentina vivia sob um governo ditatorial, uma época de bastante violência, não apenas relacionada à política. O departamento de Esposito recebeu a missão de investigar o estupro seguido de morte de uma jovem; um crime bárbaro que ganhou repercussão. Durante a investigação ele conhece o marido da vítima, Ricardo (Pablo Rago), por quem desperta empatia e passa a ter uma relação cordial, chegando a prometer encontrar o culpado. A difícil missão de Esposito conta com a ajuda de seu parceiro alcoólatra Pablo Sandoval (Guillhermo Francella) e de Irene Hastings (Soledad Villamil), sua chefe imediata - por quem Esposito nutre uma paixão secreta. O filme tem o mérito de unir investigação policial, romance e análise histórica numa história muito intensa e envolvente, vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio Goya.
Nota: 10


Luís F. Passos

terça-feira, 12 de maio de 2020

Crepúsculo dos deuses - Billy Wilder, 1950

Um dos temas preferidos de Hollywood é falar sobre si, sobre o processo criativo e os bastidores da indústria do cinema. É um tópico bastante recorrente desde a chamada época de ouro do cinema clássico até os filmes contemporâneos. Um dos filmes que mais se aprofunda nos aspectos psicológicos envolvidos com a fama e a idolatria que cerca as grandes estrelas é Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950), clássico indispensável para qualquer amante de cinema.
O filme traz o relacionamento complexo entre um jovem e falido roteirista chamado Joe (Willian Holden) e uma antiga estrela do cinema chamada Norma Desmond (Gloria Swanson). Os dois se conhecem por um acaso quando ele acaba escondendo na mansão da atriz enquanto fugia de funcionários do banco que lhe perseguiam para tomar seu carro por falta de pagamento. Na interação entre os dois, parece se formar uma relação bem simples e até vantajosa para Joe. Em troca de um abrigo (quase um esconderijo) e um bom salário, Joe trabalharia junto com Norma fazendo revisões em um roteiro escrito pela atriz como sua tentativa de voltar ao estrelato.
Temos aqui duas figuras vivendo momentos completamente diferentes em suas vidas, mas ambos no limite. Joe é jovem, mas a situação financeira que ele vive é tão séria que não parece haver grandes opções para ele que não voltar para sua cidade natal e desistir do sonho de uma carreira dentro do cinema. Esta é uma das faces de Hollywood que o filme traz: a difícil jornada para o estrelato. Apesar da grande propaganda de terra de oportunidades, fazer uma carreira dentro do cinema é extremamente difícil. Mesmo que tenha tido um aparente bom começo, Joe encontra-se desempregado e num difícil processo artístico, visto que não consegue encontrar o balanço entre tornar sua arte relevante e ao mesmo tempo comercial. A mesma cidade que se maquia de cidade dos sonhos é bastante cruel com sonhadores. Joe é, então, um homem cínico e cético que não tem muito a perder – e quem não tem nada a perder está disposto a muitas coisas.
Norma Desmond não é uma atriz qualquer, mas sim uma das maiores estrelas do cinema mudo. A maior de todas (como gosta de frisar), mas seus dias de glória há muito ficaram para trás com a mudança na maneira de fazer cinema que veio com o advento da fala e com a extinção do cinema mudo. A mesma indústria que alimentava o ego de suas estrelas, e que as elevava ao status de deuses, simplesmente virou as costas para eles, jogando-os ao esquecimento e a lembranças e ilusões de um passado glorioso e distante. A maneira como o estrelato e a exclusão são capazes de perverter a mente humana é o grande foco do filme. Norma é completamente desconectada com a realidade, agarrada fielmente a um passado que não vai voltar e a crenças cegas de que o público e a indústria não a descartaram. Sua negação é tão grande que ela demonstra profundo desprezo pelo cinema falado, quase como se esta fosse uma forma inferior de arte e como se a culpa pelo seu sofrimento fosse o áudio e não as pessoas que se aproveitaram de sua imagem. Em suas próprias palavras: eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos. A maneira como ela se agarra à grandiosidade é digna de pena (inclusive por parte de Joe) e reverbera na manutenção de hábitos do passado, em relações pontuais com antigos amigos também envolvidos no cinema mudo e no apego a bens materiais decadentes, mas com toda a extravagância digna de Gatsby e dos anos 20. Quando a realidade torna-se inevitável, Norma demonstra toda sua fragilidade emocional e deixa à mostra grande tristeza e vulnerabilidade.
Outro aspecto que o filme aborda de maneira bem pertinente é o processo de envelhecimento diante das telas e de como isso é um problema para as atrizes. ATRIZES, não atores. Quando acredita que seu projeto realmente vai sair do papel, Norma entra em um processo obsessivo de “embelezamento”, se submetendo a diversos e desconfortáveis tipos de tratamento para tentar aparentar ser mais jovem. Esse é um problema que atrizes vivenciam até hoje. É muito comum que atrizes tenham seus anos mais prolíficos no cinema em torno de seus 20 a 30 anos de idade e que a partir de certa idade o número de ofertas de papéis interessantes diminui consideravelmente, além de muitas acabarem sendo encaixadas em personagens engessados ou figuras específicas como a mãe, a esposa ou a professora. Mesmo hoje, poucas atrizes conseguem quebrar com frequência os estereótipos que vêm com a idade, o que não se vê na mesma intensidade com os homens. Em certo momento, Joe critica – e até ridiculariza – Norma pelo seu desespero em tentar parecer uma mulher de 25 anos, mas não parece se atentar muito à origem do problema, o que também é algo que fazemos com frequência nos dias de hoje, com uma mídia focada em apontar “falhas” e criticar a aparência de atrizes e de mulheres em evidência no geral.
Em um toque de genialidade na escolha do elenco, Gloria Swanson vive Norma. É genial, pois no sentido mais íntimo da questão Gloria e Norma são até certo ponto a mesma pessoa, visto que a atriz Gloria Swanson, assim como a personagem Norma Desmond, foi uma atriz de reconhecimento gigante no cinema mudo que teve sua carreira arrasada pelo envelhecimento e pelo crescimento do cinema falado.
Crepúsculo dos deuses vai fundo na ferida e critica a maneira hollywoodiana de tratar pessoas como bens materiais descartáveis de uma forma que o torna relevante mesmo hoje, 70 anos após seu lançamento. É um dos melhores filmes do Billy Wilder (isso não é pouca coisa) e um dos melhores clássicos do cinema estadunidense.

Nota: 10

Lucas Moura

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sábado, 18 de abril de 2020

Me chame pelo seu nome – Luca Guadagnino, 2017


Em um belo verão no norte da Itália, um estudante estadunidense passa algumas semanas realizando um estágio sob a tutela de um renomado professor (Michael Stuhlbarg). Neste período, o rapaz não apenas trabalha como experimenta a vida local e compartilha de momentos de lazer e socialização junto à família de seu professor, que o acolhe não apenas como um estudante, mas como um querido e bem vindo convidado. Na casa, além do professor, residem sua esposa, seu filho e os funcionários locais. São semanas de cochilos preguiçosos ao sol, vinhos, comida, música, dança, flertes, livros e banhos refrescantes, tudo emoldurado com as mais bucólicas paisagens que a Itália pode oferecer. O cenário perfeito para aproveitar a vida. O cenário perfeito para se apaixonar.
Me chame pelo seu nome (Call me by your name, 2017) não é um filme de romance qualquer. O filme que, à primeira vista, relata a história de amor entre Elio (Timothee Chalamet) e Oliver (Armie Hammer), na verdade se apresenta como um profundo estudo de personagens. Apesar de o parágrafo inicial deste texto não deixar muito claro, o grande protagonista de Me chame pelo seu nome é Elio, filho do professor. O filme é centrado na visão de Elio e em como ele viveu este verão com a avassaladora paixão que se desenvolve entre ele e Oliver.
Não é um filme apenas sobre amor em si, mas sobre o processo de se apaixonar e o entusiasmo igualmente inocente e excitante de amar e ser amado pela primeira vez. Apesar de que, em teoria, o enredo nos força a nos apaixonar por Oliver, é por Elio que o espectador realmente desenvolve uma profunda conexão. Com 17 anos, Elio vivencia toda a enxurrada de emoções e incertezas caracteristicamente marcantes do término da adolescência, então todos os seus sentimentos simplesmente explodem na tela das maneiras mais íntimas possíveis. Conseguimos sentir sua ansiedade por chamar atenção do amado e por ser correspondido pelo mesmo, as dúvidas sobre seus sentimentos, a intensidade de sua sexualidade e até mesmo o desconforto de suas atitudes muitas vezes desengonçadas. Elio está entrando de cabeça em um mundo de sentimentos adultos que desafiam toda a vivência que seus poucos anos podem lhe oferecer. A maneira como é possível enxergar pelo menos um pouco de cada um de nós em Elio é tão efetiva (graças à atuação impecável e merecedora de Oscar de melhor ator de Timothee Chalamet) que é impossível não se identificar com o personagem, mesmo que este viva uma vida de privilégios e refinamento que simplesmente parece irreal, algo quase como um conto de fadas estranhamente intelectualizado. Me chame pelo seu nome é, portanto, muito mais que um filme de romance regular, mas sim um coming of age.
Uma das coisas que nitidamente mais fazem com que Elio sinta-se atraído por Oliver é a maneira como este parece estar sempre muito confortável com seu corpo, com seus atos. A segurança que este demonstra sobre si e em relação aos outros. Boa parte da manifestação de sentimentos em Me chame pelo seu nome – o que, inclusive, é trazido de maneira bem sensata pelo título e pela forma carinhosa como um se refere ao outro pelo próprio nome em momentos de intimidade – vem justamente do fato de ter o amor como um agente de aproximação entre duas pessoas que desejam tornar-se um o complemento do outro. Da mesma forma que Elio aprecia em Oliver e deseja para si toda a sua aparente confiança, Oliver deseja neste de maneira quase invejável a coragem em demonstrar seus sentimentos e a liberdade que um seio familiar tão acolhedor é capaz de promover para que este se expresse de uma maneira que Oliver dificilmente poderia fazer dentro de seu contexto pessoal.
É curioso que, ao contrário da maioria dos filmes que possuem casais LGBTQ+ no foco principal, Me chame pelo seu nome não gira em torno de orientação sexual propriamente dita. Obviamente, é impossível não esbarrar no tema em diversos momentos e a sexualidade define muito do comportamento e da maneira como eles conduzem seu relacionamento durante aquelas semanas, mas o ponto central aqui é o amadurecimento pessoal de Elio. O envolvimento entre dois homens é tratado de maneira orgânica, delicada e em um cenário de aceitação, algo muito distinto do que se pode ter na maioria dos filmes com casais LGBTQ+ que, em virtude de o mundo ser como é, comumente trazem enredos trágicos. O filme, inclusive, tem um pequeno monólogo dado pelo pai de Elio sobre a necessidade de aceitar os sentimentos, o amor em suas diferentes formas e permitir-se sofrer como forma de crescimento pessoal que provavelmente é um dos melhores monólogos do cinema estadunidense dos últimos anos.
Todos esses amores e angústias culminam com uma das minhas cenas preferidas de encerramento em um filme. Ao som da perfeita canção Visions of Gideon (do genial Sufjan Stevens), Me chame pelo seu nome deixa uma última e silenciosa mensagem: na tristeza ou na alegria, a vida é feita para ser sentida e sentimentos sempre valem a pena.

Nota: 10

Lucas Moura

terça-feira, 14 de abril de 2020

Lady Bird - Greta Gerwig, 2017


A obra-prima de Greta Gerwig foi um dos maiores sucessos comerciais dentro do cinema alternativo dos últimos anos e foi um dos filmes mais comentados e aclamados pela crítica no ano de seu lançamento. Muito foi e ainda é discutido sobre o filme desde 2017. Curiosamente, à primeira vista, o filme – como tantos outros que podem ser encaixados nessa concepção do “mumblecore” – parece não ser dos mais complexos em virtude de como o enredo se desenvolve e de como todos os acontecimentos parecem banais e corriqueiros demais, mas é justamente nesse retrato do cotidiano que o filme realmente brilha e nos faz lembrar o quanto de beleza e intensidade passam despercebidos no meio da rotina.
O filme é um coming of age clássico e traz a trajetória de Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma adolescente de 17 anos de personalidade forte e grandes desejos de ser muito mais do que a vida lhe parece oferecer. O que ela tem? Uma vida de classe média nos subúrbios de Sacramento (ninguém pensa em Sacramento quando pensa em Califórnia, verdade?), uma educação religiosa não necessariamente opressiva, mas definitivamente pouco estimulante e um convívio familiar típico com uma mãe tão carinhosa quanto sufocante (Laurie Metcalf), um pai amoroso lutando contra depressão, um irmão mais velho e sua cunhada (todos vivendo num espaço aparentemente pequeno). O que ela deseja? Não sei. Ninguém sabe. Nem ela sabe. E aí está a mágica do filme, Lady Bird é um filme sobre os anseios e crises de personalidade de uma adolescente que está buscando seu lugar no mundo, sem saber ao certo onde ou como quer chegar e o que irá fazer a partir daí. Dessa forma, vemos Lady Bird passear por todos os tipos de experiências tristes, patéticas, engraçadas, desconfortáveis e gloriosas que realmente fazem parte do processo natural de formação de identidade. Ela se envolve com diferentes projetos na escola, toma atitudes claramente reprováveis, questiona novos e antigos amigos, desenvolve diferentes relacionamentos amorosos, mente, trabalha, adapta-se, cai e levanta. Até um novo nome (que convenientemente evoca liberdade) ela decide adotar. Tudo isso faz parte de uma longa jornada de descoberta, que, como o filme aparentemente leva a entender, nunca termina.
Em tempos de Time’s Up (movimento comandado por diversas personalidades femininas de grande importância midiática mundial que é participante ativo na luta feminista em nossa época), um filme escrito e dirigido por uma mulher (Greta Gerwig) e com protagonismo feminino (Saoirse Ronan) não poderia encontrar um momento melhor. Com todos seus defeitos, Lady Bird, no fim das contas, não se dobra a ninguém, é extremamente persistente nos seus objetivos e apesar de não saber exatamente quem ela é, fica muito claro o que ela não quer para si. Mesmo em muitos momentos ela parecer egoísta e rude (adolescentes, am I right?), levantar a voz em defesa própria o tempo todo exige coragem.
À parte do quão interessante Lady Bird é como personagem por si só, a relação entre esta com a mãe também é um grande forte do filme. Não é um relacionamento fácil de maneira alguma. Por um lado, Lady Bird parece muito egoísta e toma atitudes que claramente soam como desrespeito ou falta de consideração pelos pais. Por outro lado, Marion (Laurie Metcalf) é, realmente sufocante, parece estar sempre irritada com alguma coisa e mesmo com muito esforço não consegue não depositar um pouco da sobrecarga que vem passando no relacionamento com sua filha. Enfim, relação clássica de pais e filhos. De um lado, uma filha que às vezes pesa a mãe na necessidade de autoafirmação como indivíduo, no outro uma mãe que pesa a mão numa tentativa de controle por estar, também, em processo de adaptação pela chegada iminente da “hora de voar” de sua filha. Simples, banal e corriqueiro amor. O carinho de Lady Bird pela sua família, sua melhor amiga e pela cidade de Sacramento (que em tantos momentos ela se referiu de maneira depreciativa) vão ficando cada vez mais claros conforme ela vai se despedindo da cidade, o que ainda traz um agridoce lembrete de sempre olhar com afeto para o que temos ao nosso lado.

Nota: 10

Lucas Moura

sexta-feira, 13 de março de 2020

Filmes pro final de semana - 13/03

1. Jojo Rabbit (2019)
Um dos destaques do Oscar deste ano, Jojo Rabbit é uma deliciosa comédia nada convencional centrada no garoto Johannes, conhecido como Jojo (Roman Griffin), um alemão entusiasta do nazismo que tem como amigo imaginário o próprio führer (Taika Waititi). O ponto de partida do filme é a entrada de Jojo na Juventude Hitlerista, comandada por um capitão doido de pedra que fora tirado da linha de frente por perder um olho após ser ferido. Logo no primeiro dia Jojo ganha o apelido de Jojo Rabbit por não conseguir estrangular um coelho. Depois de ser envergonhado pelos colegas, ele tenta demonstrar bravura explodindo uma granada, mas acaba ferido e ganha algumas cicatrizes no rosto e uma lesão na perna que o deixa mancando. Depois da recuperação, obrigado a passar mais tempo em casa, Jojo descobre que sua mãe (Scarlett Johansson) escondia uma menina judia (Thomasin McKenzie) no sótão, e sem a mãe saber, inicia uma estranha amizade com ela. O ódio que foi ensinado a ter e os mitos absurdos sobre judeus (chifres escondidos, beber sangue, devorar bebês" vão dando lugar a um carinho fraterno. Filme sensacional, uma sátira que oscila entre comédia caótica e drama. 
Nota: 10
2. O Lobo atrás da porta (2013)
 O desaparecimento de uma menina na escola é o pontapé inicial para uma trama que quanto mais avança, mais fica sombria. Na sala de um desbocado delegado (Juliano Cazarré), uma mãe desesperada (Fabiula Nascimento) chora até a chegada de seu marido Bernardo (Milhem Cortaz), que ao ouvir o depoimento da professora de sua filha dá as primeiras pistas ao suspeitar do envolvimento de sua ex-amante, Rosa (Leandra Leal), no sumiço da filha. Através de depoimentos e flashblacks é montado o quebra cabeça do caso que Bernardo  e Rosa mantiveram, e a personalidade forte e misteriosa dela, que se manifesta através de olhar decidido e fala mansa, mas sabendo bem seduzir e dominar. Tenso e um pouco aflitivo graças ao trabalho de direção, o filme é abrilhantado pelo ótimo trabalho de seu elenco, em especial de Leandra Leal, vencedora do Prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio.
Nota: 9,0/ 10
3. Ray (2004)
Estrelado pelo brilhante Jamie Foxx, o filme mostra boa parte da vida do super astro Ray Charles, desde a infância pobre até o estrelato absoluto. Nascido na Geórgia e criado no interior da Flórida em meio à pobreza e racismo, Ray ficou cego aos sete anos. Sua mãe Aretha o ensinou a ser forte e nunca ser um pobre coitado. A voz e o talento no piano o levaram longe - inicialmente tocando em bares, depois saindo em turnês simples, até ser descoberto por uma gravadora. Em meio à ascensão, memórias perturbadoras de um trauma que choca ao ser revelado - trauma que leva ao caminho do vício em heroína, que marcou a vida do artista. Um filme muito bem construído, no ritmo de um gênio que revolucionou a música, e carregado pelo talento imenso de Jamie Foxx, cuja atuação memorável foi vencedora do Oscar.
Nota: 9,0/ 10
4. Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995)
Esse é um filme imperdível - afinal, foi-se o tempo em que Nicolas Cage fazia ótimos trabalhos. Vivendo o alcoólatra Ben Sanderson, Cage mostra a que ponto um homem pode chegar por causa do alcoolismo: viver na solidão, perder o emprego, e quando a esperança de dias melhores parece acabar, resolve ir a Las Vegas para beber até morrer. Simples, trágico e chocante. Em Las Vegas, Ben conhece a prostituta Sera (Elizabeth Shue), com quem inicia um estranho relacionamento baseado num acordo: ela não reclamaria da bebida e ele não reclamaria da profissão dela. O problema é que mesmo que Ben tente sair de seu deplorável estado, ele já parece irreversível.
Nota: 9,5/ 10
5. O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940)
Um barbeiro judeu (Charles Chaplin) ferido na I Guerra passa quase vinte anos numa clínica de repouso após perder a memória. Ao sair ele encontra seu país, Tomânia, dominado pelo ditador Adenoid Hynkel (também Chaplin), que havia instituído a perseguição aos judeus como uma das principais políticas de Estado. O antigo bairro do barbeiro se tornou um gueto judeu, onde membros do exército e da SS vivem agredindo os moradores. Do outro lado da estória está Hynkel, ditador perverso e ao mesmo tempo bastante caricato - sua grande vaidade o torna ridículo, além do fato de ser muito desastrado. Associando cenas do mais puro humor pastelão à delicada questão do holocausto, Charles Chaplin cria uma de suas melhores obras-primas.
Nota: 10

Luís F. Passos

quinta-feira, 5 de março de 2020

Livros para Março

1. Essa gente (Chico Buarque, 2019)
O mais novo livro de Chico Buarque talvez seja o melhor dele - pelo menos é o melhor entre os que eu li. Escrito intercalando a forma de diário com a forma epistolar, Essa gente é centrado em Manuel Duarte, escritor decadente que em seus dias áureos foi um dos mais vendidos autores do Brasil. Falido, em crise constante com suas duas ex-mulheres e pai de um adolescente com quem não consegue manter uma conversa trivial, Duarte é mais um fracassado da obra literária de Chico. Através das andanças de Duarte por bairros nobres, praias e favelas da zona sul carioca, vemos a sociedade sangrar por feridas históricas muitas vezes defendidas orgulhosamente por pessoas ditas diferenciadas - claras referências ao atual contexto social e político de nosso país. Atual, mas vigente há séculos. O romance não poupa aspereza e tem seu toque de enigma. É sensacional. É cru, é intenso, é pulsante, mesmo sendo apresentado com o distanciamento emocional com que Duarte vê e trata da decadência de valores humanos. É Chico Buarque em sua melhor forma.
Nota: 10
2. Memorial de Aires (Machado de Assis, 1908)
Depois de inaugurar o Realismo no Brasil e lançar quatro livros imortais nessas características, Machado de Assis muda o estilo ao escrever seu último romance, o emocionante Memorial de Aires, em que fica visível o caráter pessoal. O livro mostra um casal de idosos, Aguiar e Carmo, que apesar de muito felizes, não têm filhos. Mas Tristão, afilhado deles, e Fidélia, uma jovem viúva, são tratados pelo casal Aguiar como se fossem filhos deles.
A história é narrada pelo conselheiro José Aires, diplomata aposentado, amigo dos Aguiar e que acompanha o surgimento do amor entre Tristão e Fidélia. No final do livro, a tristeza e solidão sentida pelo casal Aguiar é reflexo do sofrimento do autor, que anos antes havia perdido sua esposa Carolina, o grande amor de sua vida.
Nota: 10
3. O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo, 1831)
Um dos melhores e mais conhecidos romances do grande escritor francês se passa no fim da idade média. Numa época em que o poder da Igreja Católica era absoluto, soldados sonhavam com glória e a maior parte da população lutava contra a fome e a miséria, acompanhamos a estória do pobre Quasímodo, o tocador dos sinos da catedral de Notre Dame. Corcunda, caolho, deformado, surdo e coxo, Quasímodo fora abandonado e frente à igreja ainda bebê, e criado pelo rígido padre Claude Frollo, arquidiácono de Notre Dame. Do alto das torres da catedral, Quasímodo observa apaixonadamente a bela e jovem cigana Esmeralda, que também desperta a paixão do arquidiácono Frollo - no entanto, Esmeralda é apaixonada pelo capitão da guarda Phoebus Châteaupers, que não corresponde seu amor, mas apenas tem por ela desejo sexual. Victor Hugo nos apresenta com maestria uma estória de amor, ódio, preconceito e injustiças.
Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Filmes pro final de semana - 28/02

1. O Irlandês (The Irishman, 2019)
O filme que talvez seja o último da brilhante carreira de Martin Scorsese é uma obra prima. Não há outra definição. As mais de 3 horas de duração de O Irlandês são puro deleite para os fãs de Scorsese e para qualquer apreciador do bom cinema. 24 anos depois de Cassino, Scorsese retoma a parceria com o amigo de longa data Robert De Niro, que dá vida a Frank Sheeran, caminhoneiro e veterano de guerra que entra na máfia aos serviços da poderosa família de Russel Bufalino (Joe Pesci), e a partir de então se torna assassino profissional. Frank ganha a alcunha de "o irlandês" e uma bela reputação por sua eficácia e discrição. Algum tempo depois ele entra no mundo dos sindicatos e se aproxima do poderoso Jimmy Hoffa (Al Pacino), o todo poderoso do sindicato de transportes. Disputas por poder e a grande pressão do FBI e do governo sobre o sindicato fazem a figura de Hoffa ser cada vez mais questionada, e cabe a Frank decidir até onde vai sua lealdade ao chefe - o que é decisivo nos momentos mais intensos do filme. 
Nota: 10 
2. O Barato de Iacanga (2019)
Quem imaginaria que uma fazenda no interior paulista, numa região bastante conservadora, ainda mais em pleno regime militar, seria o palco pra hippies andarem nus livremente? O Barato de Iacanga traz a história pouco conhecida por trás do lendário Festival de Águas Claras (que infelizmente não é conhecido como merece), realizado em quatro edições entre 1975 e 1984. Conhecido como Woodstock do Brasil, o Festival evoluiu de um encontro de bandas de rock progressivo, uma coisa mais underground, para uma reunião de artistas consagrados e extremamente populares, como Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Alceu Valença e João Gilberto - momento mostrado no filme como o apogeu do festival, quando João Gilberto cantou Wave junto a uma multidão de 100 mil pessoas na terceira edição, em 1983. Conduzido de uma maneira bastante leve, mesmo ao tratar da repressão da época e de todo o esforço do idealizador Leivinha e sua família para contornar a censura, o filme é uma mistura de cultura, memória e resistência. Dá uma saudade do que a gente não viveu.
Nota: 9,5/10
3. Democracia em vertigem (2019)
Nunca antes na história desse país uma indicação ao Oscar gerou tanta polêmica. O documentário que retrata a ascensão e queda do Partido dos Trabalhadores, com a consequente guinada à direita e extrema direita que o Brasil deu foi indicado ao Oscar e gerou opiniões diametralmente opostas, que vão do amor ao extremo ódio. Dirigido por Petra Lopes, que é filha de militantes de esquerda e neta de empreiteiros, o filme não é uma defesa de Lula ou exaltação aos anos em que o PT presidiu o País. Petra começa pelo fim do mandato de Lula, e a partir das manifestações de junho de 2013 mostra a queda da popularidade de Dilma e de toda a esquerda, passando pelas turbulentas eleições de 2014 e pela chegada de Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados - fato decisivo no conturbado segundo mandato de Dilma. Vemos o rompimento de Cunha com o Planalto, a abertura do processo de Impeachment, a deplorável cena da votação na Câmara em abril de 2016, o julgamento de Dilma no Senado meses depois com a deposição da presidenta e consequente posse de Michel Temer, a podridão por trás daqueles que articularam e executaram o Golpe (os escândalos envolvendo Temer e Aécio com a JBS). Fatos tão conhecidos e que mostram todo o caminho percorrido até chegarmos no delicado momento em que estamos, sob a tutela de um governo iminentemente autoritário que a cada dia ameaça as instituições democráticas.
Nota: 9,5/10
4. Aquarius (2016)
Do mesmo diretor de um dos filmes mais falados no ano passado em terras tupiniquins (claro que tô falando de Bacurau. Aliás, você viu Bacurau?), Aquarius merece ser incessantemente comentado e aplaudido mais ainda. O longa traz Clara (Sonia Braga, rainha da p* toda), uma jornalista aposentada que mora em um velho prédio na praia de Boa Viagem, no Recife, resistindo à pressão de vender seu apartamento para que seja construído um edifício de luxo no lugar. Todos os moradores já haviam vendido suas casas, exceto Clara. Ao longo do filme ela demonstra uma força incrível para defender o lugar em que passou boa parte de sua vida e criou os filhos, lutando conta a construtora, os vizinhos - e a empresa nada mais é do que a representação da opressão que parte dos mais ricos, tão forte em nossa sociedade ("ou você é Cavalcanti ou é Cavalgado"). Através de um grande elenco liderado por Sonia Braga, um filme excelente sobre a mulher, o passado e o Brasil.
Nota: 10
5. Vinícius de Moraes (2005)
Mais um documentário, e o mais delicioso filme da lista de hoje. Não podia ser diferente ao falar de um dos mais populares poetas do Brasil: Vinícius de Moraes, o eterno poetinha. Poeta, cantor, músico, compositor, diplomata e amante inveterado, Vinícius é, sem dúvidas, uma das figuras mais importantes da cultura brasileira do século XX, com grande importância para a cultura mundial. Afinal, estamos falando de um dos pioneiros da Bossa nova e compositor da Garota de Ipanema. O filme é guiado pelas interpretações magistrais de Camila Morgado e Ricardo Blat, declamando poesias e lendo outros textos de Vinícius, e recheados de entrevistas de pessoas que conviveram com ele: uma irmã, filhas, e artistas como Chico Buarque, Toquinho, Edu Lobo, Carlos Lyra, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros. Também participam artistas que interpretam músicas de Vinícius, a exemplo de Zeca Pagodinho, Mart'nália e Adrina Calcanhotto. Acompanhamos a vida do poeta, seu trabalho artístico e no Itamaraty, os amores e seus nove casamentos, as lembranças saudosas dos amigos, a popularização de Vinícius, inclusive s turnês internacionais de sucesso, e o declínio de sua saúde, que levou à sua partida aos 66 anos. Destaco os vários testemunhos bem humorados de Chico Buarque e o emocionante depoimento de Edu Lobo sobre o gradativo adoecimento do parceiro Vinícius. É um documentário imperdível, envolvente, incrivelmente prazeroso de se ver.
Nota: 10

Luís F. Passos