terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Sagaranando recomenda: O espião que sabia demais

Hoje eu vou indicar um livro que não li: O espião que sabia demais. Mas não é filme? Também, aí eu aproveito pra indicar o filme do mesmo jeito. É um bom filme, ganhou destaque e algumas indicações a prêmios importantes nas categorias de Melhor filme, Melhor ator (Gary Oldman) e Melhor roteiro adaptado. Mas deixe eu falar da história: George Smiley (Oldman) era um dos melhores agentes do Serviço Secreto britânico até ser aposentado depois de uma missão fracassada. Mas anos depois ele é convocado pela agência para investigar uma suspeita de traição entre os dirigentes do Serviço Secreto.
A questão é: todos os suspeitos sabiam que estavam sendo investigados, o que aumenta a tensão do filme, não só porque eles temiam pelos seus pescoço como também porque o resultado da investigação poderia mudar a posição da Grã-Bretanha na Guerra Fria. Com a ajuda de Peter Guillam (Benedict Cumbertach) e as dicas deixadas pelo antigo chefe do Serviço Secreto, Smiley se arrisca num perigoso jogo de interesses ideológicos, políticos, românticos e claro, financeiros.
O livro foi lançado em 1974, em plena Guerra Fria, e diferente do que estamos acostumados, como 007, não é o tipo de história de espionagem cheio de tiros, explosões e mulheres sensuais. O espião que sabia demais foca o lado burocrático e investigativo, abrindo espaço para personagens profundas e interessantes, o que permitiu ao cinema produzir um excelente filme. 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Incidente em Antares


Erico Veríssimo (1905-1975) é o mais popular escritor gaúcho, e um dos grandes nomes da literatura brasileira do século XX. Com pouco mais de vinte anos já escrevia, e em 1928 lançou seu primeiro livro, Fantoches. Os primeiros romances, que apresentavam uma visão sentimental da classe média urbana, fizeram grande sucesso, principalmente Olhai os lírios do campo (1938). Mas foram os romances histórico-políticos que imortalizaram Veríssimo. Sua obra prima, a trilogia O Tempo e o Vento, conta a história rio-grandense da época das Missões do século XVIII até a Era Vargas através das gerações da família Terra Cambará.
Incidente em Antares (1971) foi o último livro de Erico Verissimo, e um dos mais vendidos. É dividido em duas partes: Antares e O Incidente. A primeira fala da origem da cidade de Antares, no interior gaúcho, a partir de um povoado dominado por um certo Chico Vacariano. Com o crescimento do lugar, chega a família de Anacleto Campolargo, que logo se torna rival de Vacariano. E é essa rivalidade entre essas duas famílias, que disputam o domínio político de Antares, que movimenta a primeira parte. Mas em certo ponto, é firmada a paz entre os dois clãs, que se tornam amigos, sendo que os Vacariano eram conhecidos por serem mais ricos enquanto os Campolargo, na figura de sua matriarca, dona Quitéria, tinham fama de prezarem pela moral e pelos bons costumes.
A primeira parte termina com o falecimento de dona Quitéria Campolargo. A segunda parte, O Incidente, se inicia com o velório da ilustre senhora. Quando o cortejo fúnebre chega ao cemitério, uma surpresa: os coveiros da cidade haviam aderido à greve dos operários, impedindo os sepultamentos de Antares. Mesmo com a pressão dos fazendeiros e da polícia, a família Campolargo não conseguiu enterrar dona Quitéria, cujo caixão ficou na porta do cemitério, junto com outros seis que também haviam sido largados no local.
Os insepultos eram da mais diversas classes sociais: além da rica dona Quitéria, o advogado Cícero Branco, o pianista Menandro Olinda, o estudante comunista João Paz, o sapateiro anarquista Barcelona, o bêbado Pudim de Cachaça e a prostituta Erotildes. Na madrugada, aconteceu o inesperado: os defuntos se levantaram de seus caixões e foram ao centro da cidade exigir um enterro digno. Toda a população ficou apavorada, mas os grevistas não recuaram. Sem o cumprimento de sua exigência, os mortos-vivos ocuparam a praça principal da cidade e ameaçaram revelar segredos dos poderosos da região.
A confusão é imediata – onde já se viu morto levantando do caixão pra exigir enterro? Os defuntos começam a causar problemas: seus corpos em decomposição atraíam moscas e ratos, além de infectar o ar e a água da cidade. Mas a coisa fica séria mesmo quando eles começam a contar os segredos mais perturbadores de Antares.
Incidente em Antares é um dos melhores livros de Erico Verissimo. Tem a fluidez típica dos textos do escritor, além de muito bom humor e claro, a forte crítica social. O livro mostra como uma sociedade moralista e preconceituosa pode ter seus esqueletos escondidos no armário. Isso porque todos os mortos-vivos tinham coisas pra falar: o advogado Cícero sabia de todas as fraudes da administração pública, Erotildes conhecia todos os adúlteros, João morrera nas mãos da violenta polícia local, e até mesmo d. Quitéria põe de lado sua postura aristocrática e revela segredos das famílias ricas.
A obra virou minissérie, exibida pela Rede Globo em 1994.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Oscar - Grandes premiados (3): Melhor Atriz

Agora a porra ficou séria. Vou falar da minha segunda categoria preferida, melhor atriz. Perde apenas para a categoria de melhor filme.
Na disputa de melhor atriz sempre temos ótimas opções. Aqui não há ano fraco, todo ano é ótimo.

1. Vivien Leigh: ...E o vento levou (Gone with the wind), 1939
Antológica. Scarlett O’hara é uma das personagens mais queridas e mais conhecidas não apenas da época de ouro de Hollywood, como de toda a história do cinema. Sua participação como protagonista e heroína de um dos filmes mais assistidos e conhecidos do cinema mundial, elevou a atriz Vivien Leigh a categoria de atrizes top de linha da história. Scarlett é uma personagem que são mil em uma. Riqueza, pobreza, luto, guerra, amores, interesses: tudo passa pela vida de Scarlett e cabe a ela lidar com tudo isso nas longas, porém agradáveis, quatro ou mais horas de duração desse longuíssimo filme que é ...E o vento levou. Grande parte do sucesso do filme cabe à relação entre o casal protagonista, mas acredito que a substituição de Vivien Leigh por outra atriz não obteria o mesmo sucesso. Vivien e Scarlett parecem feitas uma para a outra. Talvez seja essa a chave do sucesso. 

2. Vivien Leigh: Uma rua chamada pecado (A streetcar named desire), 1951
Como assim Vivien Leigh de novo? Bom, pra mim ela merece tudo e mais um pouco em termos de admiração como artista. Vi Uma rua chamada pecado antes de ver ...E o vento levou e admito: acho Blanche (deste filme) uma personagem melhor, mais interessante e mais complexa que Scarlett. Pra mim essa é a melhor atuação da atriz, além de ser a personagem mais interessante desse filme que é marcado justamente por seus personagens muito, muito cheios de nuances. Blanche lidera os quatro personagens principais e é, de fato, a melhor coisa no filme que, digo e repito, é um dos meus clássicos preferidos (acho que é até melhor que Um lugar ao sol, filme que o derrotou na disputa do Oscar de melhor filme).

3. Elizabeth Taylor: Quem tem medo de Virginia Woolf? (Who’s afraid of Virginia Woolf?), 1966
Arrisco-me a dizer que esse é o melhor trabalho de Elizabeth Taylor, a melhor atuação feminina vencedora de Oscar nos anos 60 e um dos melhores, mais complexos e mais cheio de grandes diálogos do cinema estadunidense. Elizabeth vive Marta, uma mulher de meia idade que junto com seu marido (interpretado por Richard Burton) convidam um jovem casal para passar uma noite na casa deles, onde são expostos a muita bebida e a joguinhos de destruição moral, onde os quatro personagens são expostos a discussões e humilhações, tudo na base da palavra, possíveis. Destaque para as grandes discussões entre o casal protagonista que são realmente incríveis. Junto a Uma rua chamada pecado, os dois filmes compõem meus dois elencos preferidos. Ambos liderados por uma atriz. Ambas vencedoras do Oscar. 

4. Jane Fonda: Klute – o passado condena (Klute), 1972
Prostituta cujo sonho é ser atriz (beleza, essa é clichê nos filmes) passa a ser perseguida por uma espécie de maníaco sexual que já foi um antigo cliente seu. No meio dessa história, aparece um investigador (Donald Shutterland) cuja função ali é acompanhar Bree Daniels (Jane Fonda) e tentar descobrir o motivo do assassinato de seu melhor amigo que parece estar, de alguma forma obscura, conectado com a mocinha. Nossa, quanto spoiler. Mas Klute não se preocupa em esconder as coisas. Durante grande parte do filme a gente sabe muito bem que é o psicopata em questão. O grande “X” de Klute é o climão que é formado. Nossa, muito bom. O filme tem partes muito tensas, mesmo que você saiba quem é o bandido da história, pouco importa. O que vale é entrar no clima de mistério. Além disso, Bree Daniels é uma das minhas personagens preferidas. Ela não é simplesmente uma prosituta. Ela é uma mulher muito complexa, que muda várias vezes ao longo do filme, toma posições diferentes, atitudes inesperadas e sempre surpreende (inclusive no final). 

5. Liza Minelli: Cabaret, 1972
Extrovertida, falante, brincalhona, divertida, ousada e ao mesmo tempo triste e insatisfeita. Essa é Sally Bowles. Uma dançarina de um cabaré de Berlim na Alemanha nazista que passa toda uma imagem caricatural de uma pessoa que ela, de fato, não é. Sua vida é mais complexa e conturbada do que parece. Quando então ela se envolve com um jovem (pobre), aí é que a coisa entra em conflito mesmo. Sally passa a se conflitar com antigos preceitos de si mesma, opiniões sobre o que é certo e errado, sobre amor e dinheiro. Dá pra perceber muito bem essa dualidade da personagem no último número musical do filme, que de alguma forma é triste. 

6. Louise Fletcher: Um estranho no ninho (One flew over the cuckoo’s nest), 1975
Pior do que uma pessoa que só faz coisas ruins é uma pessoa que faz coisas ruins crente de que está fazendo algo de bom. Essa é a vaca da enfermeira Mildred Ratched, a mulher que realmente dita as regras num hospital psiquiátrico. E as dita rigorosamente, tomando as atitudes mais enérgicas possíveis para controlar (a palavra é essa mesmo) seus pacientes “loucos” e impedi-los de todas as maneiras a se expressar, a se divertirem ou qualquer outra manifestação que lide com a liberdade de cada um. Mildred ao mesmo tempo que consegue ser irritante, também consegue atrair quem assiste ao filme. Louise Fletcher não é uma atriz que fez muitos filmes (confesso que esse é o único dela que eu realmente lembro), mas aqui ela dá uma das melhores interpretações femininas da Hollywood dos anos 70. Parceria 100% com Jack Nicholson (seu oponente no filme). 

7. Faye Dunaway: Rede de intrigas (Network), 1976
“A televisão encarnada”...até que é uma boa descrição pra Diana. Empresária do ramo televisivo tudo em sua vida, TUDO gira em torno de audiência televisiva. Ela trabalha unicamente para conseguir pontos e mais pontos de audiência para o canal de televisão no qual é funcionária. Por trás das câmeras, a rede televisiva é um grande jogo de intrigas, cheio de pessoas inescrupulosas que fazem tudo para prender você, otário telespectador. Diana é uma delas. Sem escrúpulos. Manipuladora. Faye Dunaway é ótima. 

8. Diane Keaton: Annie Hall, 1977
Não há melhor personagem na filmografia de Woody Allen (minha opinião). Engraçada, divertida, inteligente (inteligente, sim! – quem viu o filme vai entender essa observação), estilosa, sensível na medida certa, moderna (apesar dos muitos anos do filme), cheia de atitude e carisma: essa é Annie Hall, protagonista do filme de mesmo nome, interpretada por uma Diane Keaton em seu auge. Melhor parceria da carreira de ambos, Diane e Woody, coroada com esse filmaço. Ah, talvez esse seja meu filme preferido. 

9. Meryl Streep: A escolha de Sofia (Sophie’s choice), 1982
Tá difícil sofrer mais do que essa Sofia, viu? Tá difícil ser melhor que Meryl Streep também. Não sei se o papel da polonesa sofrida, vivendo nos EUA após sair de um campo de concentração – com direito a famosa escolha do título – seja de fato o melhor papel da atriz, mas que está entre os melhores, está com certeza. O filme todo gira em torno dela e sua atuação é o que sustenta tudo aqui. É o filme de Meryl com maior carga emocional dos que já vi. Vale muito a pena assistir e é um Oscar mutio bem merecido. 

10. Marlee Matlin: Filhos do silêncio (Children os a lesser God), 1986
Mulher surda-muda se envolve com professor de uma escola de alunos com necessidades especiais, na qual trabalha, cujo trabalho é ajudar a desenvolver fala em crianças e jovens surdos-mudos. Ela é muito difícil de se lidar, algo vindo com certeza de todo o sofrimento pelo qual passou em sua vida cheia de limitações. Tá até aí tudo bem. O que há de tão extraordinário assim? A questão é que a atriz, Marlee Matlin, é surda-muda de fato. Durante todo o filme, ela se comunica apenas por linguagens de sinais e expressões faciais que muitas vezes são mais do que suficientes para entender o que ela está pensando pela força que a atriz coloca nas expressões já que não pode usar palavras. Uma das minhas atrizes preferidas, apesar de só conhecer esse filme dela (trabalhos para atores nessa condição com certeza são difíceis...). 

11. Kathy Bates: Louca obsessão (Misery), 1990
Mulher doida, totalmente sem noção, que após um acaso do destino, faz o escritor de sua série de livros, intitulada Misery, como refém e o mantém em cativeiro para que ele mude o final que havia planejado para a série de sucesso. Essa mulher é medonha. Ela passa uma imagem estável, mas é só começar a falar ou a ser contrariada que ela se transforma em uma pessoa totalmente diferente, capaz de tudo (quem viu o filme, sabe de que cena em específico eu estou falando). Filme baseado em obra de Stephen King, o rei dos personagens violentos e bizarros. 

12. Frances McDormand: Fargo, 1996
O que é mais Coen do que uma policial grávida interpretada pela hilária Frances McDormand cuja missão é investigar um seqüestro de uma mulher, filha de um homem rico da região? Marge é muito divertida, apesar de ao mesmo tempo ser uma personagem séria, numa missão séria de resgate. Tudo isso, obviamente, é recheado com o humor irônico não só dos Coen, como também da própria Frances, que é uma grande atriz que sempre traz bons trabalhos. 

13. Charlize Theron: Monster, 2003
Vi esse filme há muuuuito tempo atrás e ele de fato me impressionou muito, pois até hoje falo muito e muito bem dele. Nele, uma Charlize Theron incrivelmente feia e acabada (maquiagem realmente faz milagre) é uma prostitua, lésbica, apaixonada por uma garota mais jovem que se torna a primeira seria killer (primeirA) dos EUA. Interpretação muito forte da atriz, seu melhor trabalho (em segundo lugar viria Terra fria de 2006) e uma das melhores vencedoras da década. 

14. Marion Cotillard: Piaf (La vie en rose), 2007
Uma artista interpretando uma artista. Marion faz o papel de Edith Piaf e não nos poupa de nenhum, NENHUM dos muitos, MUITOS sofrimentos pelos quais a cantora francesa passou durante sua curta e movimentada vida. O filme em si é meio chato, algumas vezes é entediante mesmo. Tem horas que a pessoa cansa de ver tanto sofrimento. O que salva o longa: Marion Cotillard, que está incrível no papel. Sua grande transformação física e psicológica pra captar todos os altos e baixos da cantora garantem a Marion um lugar entre as grandes vencedoras do Oscar (vencendo nesse ano a experiente Julie Christie por um filme excelente chamado Longe dela). 

15. Natalie Portman: Cisne negro (Black Swan), 2010
Nina. Jovem e talentosa bailarina que recebe o maior desafio de sua carreira: interpretar a rainha dos cisnes, no balé do Lago dos cisnes. Interpretar o cisne branco, tudo ok. O problema é se transformar no cisne negro, uma figura que é justamente o oposto de tudo aquilo que Nina sempre foi forçada a ser. Uma personagem conturbadíssima, que sofre muito tanto psicologicamente quanto fisicamente, complexa, com uma sexualidade totalmente abafada pela presença constante de sua mãe controladora (Barbara Hershey) que quanto mais é colocada sobre pressão, mais entra mais e mais fundo numa onda alucinante de loucura. Dentre as jovens atrizes, Natalie Portman é a melhor e sua carreira já está coroada, graças a esse longa, que vai deixar a atriz fixa no imaginário dos cinéfilos. 

por Lucas Moura

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Doidinho

Depois de crescer no engenho do avô como um legítimo moleque descontrolado, Carlinhos é levado por seu tio Juca a Itabaiana, para estudar no colégio interno de seu Maciel. O colégio, como o menino logo descobriu, era o mais rigoroso da cidade - o temperamento rude do diretor e a palmatória garantiam a eficácia da disciplina. A primeira coisa que fez Carlinhos perceber que sua vida ia mudar foi com o tratamento, passando a ser chamado de seu Carlos de Melo. As primeiras semanas no colégio foram muito difíceis: os estudos do menino estavam atrasados - o que fez a palmatória de seu Maciel cantar muito em suas mãos - e as saudades da família e dos amigos o atormentaram bastante. 
Mas aos poucos Carlinhos passa a enxergar o colégio com outros olhos: melhora nos estudos e se torna mais interessado e aprende a conviver com seus colegas, principalmente o João José, apelidado de Coruja. É em Coruja que Carlinhos encontra amizade e lealdade - o amigo, inclusive, era o único que não o chamava de Doidinho, apelido que ganhara por ser muito inquieto. Aliás, todos na escola tinham apelidos: Pão-Duro (o avarento), Papa-figo (um menino que tinha uma grave doença e estava sempre pálido), entre outros.
Outro fato que merece atenção é o amor não correspondido por Maria Luísa, que estudava no colégio mas em regime aberto. Carlinhos chega a enviar recados, que são interceptados por seu Maciel e devidamente punidos com palmatória e humilhação. E assim é a permanência de Carlos de Melo no colégio, cheia de altos e baixos.
Doidinho (1933) é a continuação de Menino de engenho (post aqui) , e apresenta diferenças importantes em relação ao primeiro. Ele é menos lírico e saudosista e também é mais crítico e social, isso porque Carlinhos passa a perceber que o mundo é bem maior do que o engenho de seu avô. Ele passa a ver as grandes injustiças do mundo, como o autoritarismo e a pobreza - reforçando o típico caráter esquerdista da 2ª fase modernista. Carlinhos também volta a sofrer com as lembranças do pai e da morte da mãe. É um ótimo livro, mas confesso que gosto mais de Menino de engenho. Mas nem por isso deixo e recomendá-lo.
Por se passar num colégio interno, Doidinho é constantemente comparado a O Ateneu, clássico de Raul Pompeia.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Oscar - Grandes premiados (2): Melhor ator acoadjuvante

Segunda postagem, agora para falar das atuações masculinas como coadjuvantes que mais me marcaram dentre os coadjuvantes que ganharam o Oscar e que eu pude ver.

1. Karl Malden: Uma rua chamada pecado (A streetcar named desire), 1951
Esse filmaço tem quatro grandes atuações. Todas foram indicadas ao Oscar. Três saíram vencedoras, e uma delas é a de Karl Malden, como o pobre coitado e muito bem intencionado Mitch, cujo grande problema é se sentir atraído e realmente querer algo sério com a problemática Blanche (Vivien Leigh). Tem uma sessão específica em que os dois discutem que é excepcional.

2. Joel Grey: Cabaret, 1972
Um dos meus musicais preferidos e um dos meus coadjuvantes preferidos. Joel Grey faz aqui o mestre de cerimônia que faz vários e vários espetáculos nos palcos do famoso cabaré alemão dos anos 20 onde se apresenta a famosa Sally Bowles (Liza Minelli). Sua atuação é limitada aos palcos do cabaré, em grandes apresentações musicais como muita dança e cantoria. Todas ótimas, destaque para “Money makes de world go around, Money makes the world go around...” música chiclete que fala da relação não apenas deles, como de todos, com o dinheiro. 

3. Robert DeNiro: O poderoso chefão, parte II (The godfather, part II), 1974
Quase tão bom quanto ver o Don Corleone forte, temido e poderoso feito por Marlon Brando, é ver o jovem Don Corleone interpretado por Robert DeNiro na segunda parte da trilogia. Aqui, Don Corleone é só mais um pobre coitado. Vamos acompanhar o nascimento daquela figura tão imponente e marcante que acompanhamos no primeiro filme.

4. Timothy Hutton: Gente como a gente (Ordinary people), 1980
O ator mais jovem a vencer nessa categoria, Timothy Hutton interpreta o jovem Conrad. Nossa, como esse cara sofre. Devastado pela perda não tão distante de seu irmão mais velho num acidente de barco, recém saído de uma internação por ter tentado cometer suicídio justamente por causa desse acidente e tendo que conviver com seu psicólogo, antigos amigos que nada podem fazer, um pai confuso (Donald Shutterland) e  uma mãe que é uma mulher totalmente fria, distante e incompreensiva (interpretada por Mary Tyler Moore, também indicada ao Oscar pelo longa.

5. Louis Gosset Jr.: A força do destino (Na officer and a gentleman), 1982
Paralelo a historinha de amor açucarada vivida por Richard Gere e Debra Winger, temos o sargento Emil Foley, cuja função é infernizar aquele rapazes, e moça, que tanto querem um alto cargo no exército. Ele realmente é muito rígido, muito agressivo e seu treinamento não é para qualquer um. Interessante também é sua relação com o protagonista, interpretado por Richard Gere, que vai da competição à admiração e o respeito mútuo, tanto como oficiais do exército quanto como pessoas. 

6. Michael Caine: Hannah e suas irmãs (Hannah and her sisters), 1986
O Elliot interpretado por Caine é uma figura meio desengonçada que acha estar perdidamente apaixonado por Lee (Barbara Hershey) ao mesmo tempo em que é casado com Hannah (Mia Farrow) com quem mantém uma relação instável, não por parte dela, mas por parte de si mesmo, por julgar a si mesmo como inferior e menos importante na relação com a esposa. Mais um dos personagens insatisfeitos que Woody Allen tanto gosta de mostrar.

7. Kevin Kline: Um peixe chamado Wanda (A fish called Wanda), 1988
Um “italiano” criminoso e mal caráter que faz questão de forçar muito seu sotaque tosco, tem um caso com a personagem de Jamie Lee Curtis, todo caricato, espalhafatoso e muito, muito engraçado. É a maior graça desse filme de comédia de nome esquisito que gosto tanto e o segundo trabalho de Kline que mais admiro (o primeiro, sem dúvida, é seu papel em A escolha de Sofia). 

8. Joe Pesci: Os bons companheiros (Good Fellas), 1990
Demorou pra Joe Pesci levar seu Oscar, mas em 1990 chegou sua vez com o mau caráter, sem noção, violento e sádico Tommy, um baixinho ignorante e um dos mais perigosos homens daquela máfia que dominava grande parte dos negócios da cidade.

9. Martin Landau: Ed Wood, 1994
Martin interpreta Bela Lugosi, um grande nome dos primórdios do cinema, famoso por ter interpretado Drácula, o primeiro Drácula! Muitos anos mais tarde, Lugosi é um morto na industria cinematográfica e não há nenhum interesse no tipo de entretenimento que ele mostra em seu trabalho. Eis que surge a chance bizarra de trabalhar com Ed Wood, um dos diretores mais toscos da história do cinema, famoso por fazer filmes de ficção científica/ terror de baixo orçamento e de qualidade extremamente duvidosa. Obs: para quem não sabe tanto Bela Lugosi quanto Ed Wood são personagens reais da história do cinema! 

10. Tim Robbins: Sobre meninos e lobos (Mystic river), 2003
Melhor personagem desse grande filme de Clint Eastwood, Tim Robbins vive um homem problemático que sofre com um acontecimento trágico que ocorreu na sua infância e que se vê envolvido com a violenta morte da filha de um antigo amigo de quando era criança (interpretado por Sean Penn). Sua personalidade confusa e as evidências do crime levam até mesmo a sua esposa (Marcia Gay Harden) a acreditar que ele é o culpado.

11. Alan Arkin: Pequena miss Sunshine (Little miss Sunshine), 2006

O vovô é uma grande figura do filme. Em meio aquela família cheia de desajustados, ele consegue se destacar como uma figura totalmente diferente do que se imagina de alguém da terceira idade. Pervertido e viciado em heroína, o vovô dá vários conselhos totalmente fora do convencional e é a grande sustentação de Olive (Abigail Breslin) e quem mais alimenta seu sonho de ser a rainha da beleza infantil. Destaque para a coreografia que ele criou para a apresentação da neta no concurso... é uma cena que dispensa comentários de tão engraçada.

12. Javier Bardem: Onde os fracos não tem vez (No country for old men), 2007
O sádico e implacável assassino do filme é o que há de mais interessante no longa. De assustador, ele passa a ser divertido. Principalmente por aquele cabelinho totalmente ridículo. Um personagem que não foge muito dos padrões dos irmãos Coen, e isso é muito bom por si só.

13. Heath Ledger: O cavaleiro das trevas (The dark knight), 2008
O Coringa de Ledger é mil vezes melhor que o próprio Batman de Christian Bale e consegue ser superior até mesmo ao Coringa interpretado por Jack Nicholson nos anos 80. É um dos melhores vilões de filmes de heróis que já foram feitos. Extremamente violento, perturbado e muito, muito sádico. É raro ver um ator se entregar tanto assim numa personagem. Com certeza é o melhor papel de Heath Ledger. É tão bom que se tivesse sido indicado a melhor ator, teria dado muito trabalho ao vencedor do ano, Sean Penn (Milk –a voz da igualdade). Infelizmente, esse Oscar é póstumo, visto que o ator morreu antes de receber o prêmio. É realmente uma grande pena, pois Heath Ledger era um grande ator e sua carreira com certeza só iria crescer mais e mais após esse papel impressionante. 

14. Christoph Waltz: Bastardos inglórios (Inglorious basterds), 2009
Como esquecer do incrível Coronel Hans? Uma das personagens mais interessantes da filmografia de Quentin Tarantino, é o maior destaque desse grande filme que é Bastardos inglórios. Apesar de ser violento, o que realmente marca o coronel é seu humor sarcástico e ao mesmo tempo sádico, além de sua incrível inteligência. Não é a toa que no filme ele é o maior caçador de judeus da Alemanha nazista. Levou o ator austríaco Christoph Waltz ao sucesso imediato. 

15. Christian Bale: O vencedor (The fighter), 2010
Fracassado, agressivo, problemático, viciado em drogas, péssima influência e ao mesmo tempo um grande nome do boxe. Esse é Dicky, personagem vivido por Christian Bale no filme O vencedor, que é uma espécie de modelo a ser seguido, e também a ser evitado, para seu irmão, Micky Ward (Mark Whalberg). É um personagem muito complicado e a peça chave de todo o filme. Durante o longa, muitas vezes tudo gira mais em torno de Dicky do que do irmão (teoricamente, o protagonista).

por Lucas Moura

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Oscar - Grandes premiados (1): Melhor Atriz Coadjuvante

Hoje, na primeira postagem, vou falar sobre grandes atrizes vencedoras do Oscar de melhor atriz coadjuvante. São todas grandes atrizes que muitas vezes roubaram a cena dos protagonistas. Muitas vezes, o coadjuvante é o elemento que diferencia esse filme.
O primeiro ano em que foi dado um prêmio para esta categoria foi em 1936, a 9ª edição do prêmio.


1. Hattie MacDaniel: ...E o vento levou (Gone with the Wind), 1939

Personagem muito interessante, a atriz interpreta aqui a empregada, ou melhor, escrava da excelentíssima senhorita Scarlett O’hara num dos principais filmes da história do cinema hollywoodiano: ...E o vento levou. A atuação de Hattie chama atenção não apenas por ser divertida, mas por ter sido também a primeira atriz negra a ganhar um Oscar, não muito longe da época em que personagens negros no cinema eram interpretados por atores brancos maquiados. 

2. Jane Darwell: Vinhas da ira (The grapes of wrath), 1940
Jane faz uma pobre mãe de uma família miserável de agricultores dos EUA que perderam tudo o que tinham devido a grande crise que se instalou no final dos anos 20 e que vêem na possibilidade de migrarem para o oeste, lugar de terras abundantes, uma chance de recomeçarem suas vidas. Vinhas da ira é um filme intenso. A relação daquela família com suas terras, seu desespero e sua esperança de uma vida melhor tornam o filme muito bonito. Grande elenco, com destaque para Henry Fonda e a própria Jane Darwell. 

3. Kim Hunter: Uma rua chamada pecado (A streetcar named desire), 1951
Ê filme bom! Uma rua chamada pecado é um dos clássicos de que mais gosto, e não é por menos. A complicada relação entre as duas irmãs, Blanche (Vivien Leigh) e Stella (Kim Hunter), principalmente quando o assunto é o grosseiro, Stanley Kowalski (Marlon Brando), marido de Stella e por quem ambas encontram-se atraídas, torna o filme muito forte, principalmente para a época. Claro que quando se fala em Uma rua chamada pecado logo vem à cabeça as atuações de Vivien Leigh e Marlon Brando, mas esse é um filme de grande elenco. Stella também é um personagem vital para o desenrolar da história. Impossível ver o filme e não lembrar dos gritos de Kowalski chamando por “Stellaaaaaaaa! Stellaaaaaaaaa!” 

4. Eva Marie Saint: Sindicato de ladrões (On the waterfront), 1954
Num filme em que basicamente só existem personagens masculinos, a então desconhecida Eva Marie Saint aparece fazendo uma jovem mocinha corajosa que resolve lutar e gritar em defesa de justiça pelo seu irmão morto pela máfia de criminosos que mandam na perigosa região do cais. Rouba a cena totalmente e é importantíssima no processo de conversão do protagonista, interpretado por Marlon Brando, de criminoso a herói. 

5. Estelle Parsons: Bonnie e Clyde, 1967
A escandalosa Blanche Barrow é a esposa do irmão, também criminoso, de Clyde, e acaba envolvida em perseguições policiais e nos crimes cometidos pelo maior casal de criminosos dos EUA. Muito engraçada. 

6. Ruth Gordon: O bebê de Rosemary (Rosemary’s baby), 1968
Ruth Gordon aparece aqui como a bizarra bruxa da cidade grande, que resolve usar sua nova e inocente vizinha, Rosemary (Mia Farrow) como hospedeira para o nascimento de uma espécie de demônio. Buh! A questão aqui é que a atuação de Ruth é muito convincente e totalmente fora do convencional e ela é marca registrada nesse que é um dos mais importantes filmes do gênero. Pra falar a verdade, gosto mesmo da atriz por seu trabalho em Ensina-me a viver (Harold e Maude, 1971) em que ela faz uma velhinha cheia de vida e que tem uma maneira muito curiosa de encarar a morte. 

7. Beatrice Straight: Rede de intrigas (Network), 1976
A triste e traída esposa de um importante homem do meio da mídia que tem apenas pouco mais de 6 minutos de aparição no filme e levou um Oscar mesmo assim. Imaginem, então, como é a atuação de Beatrice Straight nesse filme fantástico que é Rede de intrigas. Só digo isso.

8. Meryl Streep: Kramer VS. Kramer, 1979
A atriz mais querida de muita gente. Essa considerada melhor atriz em atividade não poderia estar de fora dessa singela lista, ainda mais por um papel tão bom quanto o de Joanna Kramer. Dona de casa, triste, entediada e solitária que resolve tomar uma atitude drástica ao largar o marido (Dustin Hoffman), o filho pequeno (Justin Henry) e seguir em busca de sua felicidade, sua estabilidade e sua realização profissional. Grande atuação, um dos meus filmes preferidos da atriz e seu primeiro Oscar. 

9. Dianne Wiest: Hannah e suas irmãs (Hannah and her sisters), 1986
Uma das personagens mais interessantes e carismáticas de Woody Allen, Dianne Wiest faz a fracassada, deprimida, desestabilizada, imatura, indecisa e ex viciada Holly nesse que é um dos melhores filmes de Woody. Apesar de ser uma grande perdedora, a personagem consegue ser também envolvente e carismática e acompanhar sua trajetória de fracassos e sucessos é show de bola. Dianne Wiest voltou a ganhar outro Oscar de atriz coadjuvante anos mais tarde, também por atuar em parceria com Woody, no filme Tiros na Broadway, na década de 90. 

10. Whoopi Goldberg; Ghost, 1990
Impossível esquecer Whoopi. Impossível esquecer Ghost. Impossível também esquecer Oda Mae Brown (confesso que não lembrava do nome dela de jeito nenhum) a vidente duvidosa do filme Ghost que consegue fazer contatos com o além, mais conhecido com Patrick Swayze e tem como missão fazê-lo se conectar com seu Love, mais conhecido como Demi Moore, que ficou aqui na terra. Filme clássico da Sessão da tarde e muito querido pelo público em geral. 

11. Anna Paquin: O piano (The piano), 1993

A conhecida protagonista da série True Blood começou a ter destaque nesse filme de 1993, O piano, onde ela faz a filha ainda criança de Ada (Holly Hunter) que acompanha a mãe numa viagem para a então selvagem Nova Zelândia. Seu destaque principal, entretanto, vai por ela ter a segunda atriz mais jovem a vencer um Oscar, aos 11 anos de idade, perdendo apenas para Tatum O’neal (venceu aos 10).

12. Mira Sorvino: Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite), 1995
Desbocada e divertida, Mira Sorvino interpreta Linda Ash, jovem aspirante a atriz, que acaba como atriz pornô, mãe do filho adotivo de Lenny Weinrib (Woody Allen). As cenas em que ambos contracenam juntos são as melhores do filme. Os diálogos entre os dois são muito engraçados, as situações bizarras e as atuações ótimas. Um dos meus filmes preferidos do diretor, culpa, em parte, da atuação carismática de Mira Sorvino.

13. Penélope Cruz: Vicky Cristina Barcelona, 2008
Penélope entrou para a lista de atrizes oscarizadas por esse que é um dos grandes sucessos recentes do diretor Woody Allen fazendo a personagem da sedutora, problemática e neurótica pintora Maria Elena, uma bizarra peça chave na relação entre seu ex marido, Juan Antonio (Javier Bardem) e sua namoradinha americana (Scarlett Johansson). Penélope Cruz aqui é tão bonita quanto a Barcelona mostrada. 

14. Mo’nique: Preciosa (Precious: based on the novel ‘Push’ by Sapphire), 2009
Bizarro, cruel e com sérios problemas psicológicos. Essa é a doce e simpática mãe da personagem Precious (Gabby Sidibe) nesse filme tão...dramático, forte e na maioria das vezes cruelmente real que é Preciosa. A personagem de Mo’nique é um pesadelo na vida de qualquer pessoa, uma mulher violenta e sem um pingo de caráter. Uma personagem muito difícil de digerir e muito mais difícil ainda de atuar. Excelente, uma das melhores.

15. Melissa Leo: O vencedor (The fighter), 2010
A mais recente atriz a vencer a categoria, Melissa aqui aparece como a mãe durona e sem caráter do fracassado Micky Ward (Mark Whalberg), do ex lutador viciado em crack, Dicky (Christian Bale) e de outras sete adoráveis garotas, que ao mesmo tempo em que é uma parasita na vida de Micky também é uma mulher que zela, mesmo que em muitas vezes seja da forma errada, pelo maior bem que tem: sua família. 


por Lucas Moura

O Oscar vem aí!

Dia 26 de fevereiro tem a maior e mais aguardada premiação do cinema mundial: o Academy Awards, mais conhecido como o Oscar. Na semana  passada conhecemos os indicados, e houve a tradicional discussão de quem merecia ou não merecia ser indicado e claro, começaram as especulações sobre quais os vencedores que levarão a famosa, dourada e careca estatueta. A premiação contempla os filmes que obtiveram maior destaque em diversas categorias no ano anterior. Esse ano, o Oscar vai para sua 84ª edição. Grandes filmes e grandes atuações marcaram a história da premiação. É justamente aí que eu queria chegar. Em cinco postagens, vou falar um pouco sobre grandes vencedores do Oscar nas seguintes categorias: melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor atriz, melhor atriz coadjuvante e melhor filme. As categorias de atuação e a de melhor filme são as mais esperadas e comentadas das cerimônias e também são as que mais ficam na memória dos cinéfilos.

Lucas Moura