segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Touro Indomável - não menos que genial


Entre o fim dos anos 60 e toda a década de 70, instalou-se em Hollywood um movimento cinematográfico liderado por jovens atores, diretores e roteiristas, inspirados, sobretudo, nas diretrizes da nouvelle vague e afoitos por trazer uma forma nova de criação para o cinema americano, utilizando-se da exposição de temas mais sérios, violentos e sexuais, muitas vezes ultrapassando limites, quebrando noções de falsa moralidade, elevando um mundo “underground” de pessoas excluídas da sociedade e apresentando trabalhos tão frios quanto cruéis e realistas. O primeiro grande marco dessa geração foi a viagem alucinógena de Peter Fonda, Dennis Hooper e Jack Nicholson, no road movie Sem destino (Easy Rider, 1969) que abriu definitivamente as portas da contra-cultura, dos anti-heróis e do cinema autoral para a sétima arte americana. Durante os anos que se passaram, quase toda a produção cinematográfica estava diretamente relacionada a esse movimento que atingia uma grande margem de espectadores, em sua maioria jovens, ansiosos por verem uma digna representação de sua geração nas telas. No entanto, todo carnaval tem seu fim.
Aos poucos, a Nova Hollywood (como eram chamadas) foi perdendo força (lê-se dinheiro) quando o público em geral passou a se cansar da excessiva densidade psicológica a qual ficavam expostos. Dessa forma, não havia mais interesse por parte das grandes produtoras em financiar filmes tão viscerais e, aos poucos, o movimento foi perdendo a força. Diria que uma grande marca desse declínio foi a derrota d Apocalypse Now para Kramer vs. Kramer, no Oscar de 1979. Era o início do fim. Antes que o movimento em si terminasse (mantendo, no entanto, seu legado), Martin Scorsese (um dos principais diretores desse período) trouxe ao mundo este que é um de seus melhores trabalhos, um dos melhores filmes dos anos 80 e uma grande homenagem ao cinema de toda essa geração: Touro indomável (Raging bull, 1981).
Touro indomável, em termos de roteiro, é bem simples. É a vida de Jake La Motta (Robert De Niro), o “touro do Bronx”. La Motta é uma pessoa real, e foi um grande lutador de boxe na década de 40. O filme vai explorar, então, todos os traços de sua confusa personalidade, uma pessoa extremamente violenta, agressiva, intolerante e confusa, incapaz de manter uma relação estável com alguém, egocêntrico demais para perceber que o mundo não gira apenas em torno de si e que não sabe se comunicar ou muito menos expressar seus sentimentos confusos, conturbados e, às vezes, indecifráveis, de outra forma que não seja através dos punhos. A inconstância e a mentalidade violenta o tornam quase insuportável e o afastam até mesmo de seu irmão, Joey (Joe Pesci), que também foi seu empresário durante muitos anos e que o fez chegar à posição de destaque no boxe mundial, e de sua mulher, Vickie (Cathy Moriarty, com uma beleza clássica), por quem sente um ciúme doentio (fundamentado pela sua incapacidade sexual). Dessa forma, La Motta segue pelo filme como se estivesse subindo e descendo uma ladeira: uma grande subida inicial, encontrando sua futura esposa, firmando-se no boxe, assumindo uma rivalidade com Sugar Ray Robinson (outro grande lutador da época) e alcançando o título mundial dos pesos-médios e uma descida brusca, onde o homem jamais derrubado nos ringues termina como um gordo velho solitário e ignorante, vendendo as jóias de seu cinturão para pagar advogados, esmurrando paredes frias de uma cela minúscula e apresentando-se como comediante de quinta em bares quaisquer pela cidade.
Scorsese nos mostra, então, um conto tão belo quanto marcante. Utiliza-se para isso de um protagonista que é um típico anti-herói (figura comum nos filmes da época. Esse papo de mocinho e vilão não rola), que é tão distante o possível de Rocky Balboa (em alta na época). Afinal, quem é Jake La Motta? Um completo fracassado. Um homem cuja ignorância o tornou incapaz de aprender qualquer coisa com tudo que ocorreu ao longo de sua vida e que se permite terminar seus dias como um qualquer, sendo que podia ter sido alguém (é feita uma citação direta ao personagem de Marlon Brando em Sindicato de ladrões que levanta o mesmo posicionamento). De fato, ele não demonstra pontos positivos a seu respeito e muito menos qualquer explicação para ele ser desse jeito. E mesmo assim, La Motta é uma das melhores personagens da história do cinema. É incompreensível e fascinante ao mesmo tempo, tornando impossível uma não aproximação curiosa por parte de quem o assiste a sua figura. Grande parte dessa estranha empatia vem, logicamente, do trabalho de mestre de Robert De Niro. Um exemplo clássico de atuação do método (escola de atuação em que o ator não deve interpretar o personagem e sim vivê-lo) há uma entrega completa à personagem, que fica bem evidente na profunda transformação física pela qual o ator passa ao longo do filme, desde o La Motta musculoso no auge de sua forma física ao gordo decadente. De Niro ganhou o seu Oscar de melhor ator por este filme, numa interpretação que é, no mínimo, inesquecível.  
Para maximizar o clima do filme, o longa é filmado em um belo preto e branco, que o torna muito mais sóbrio e triste (também apropriado às décadas de 40 e 50 nas quais o filme passa) e que permite que a explosão de violência, sangue e suor que acontece a todo o momento em surtos constantes e tão equilibrados como uma dança se torne mais poética sem deixar de ser feroz. Nos ringues, a fotografia permite que os momentos de glória e perda de La Motta sejam opostos. Nas vitórias, é tudo claro e nítido. Nas derrotas, o clima do ringue é quase infernal, com imagens distorcidas remetendo a calor e um ambiente esfumaçado e cheio de sangue. A edição dita o ritmo que pode ser lento ou ágil, dependendo da circunstância e da intensidade do momento, contrapondo momentos quase líricos a momentos de selvageria.  
Sendo assim, Touro indomável exibe a força máxima do cinema. O auge de um diretor e de seu protagonista, um dos melhores (talvez o melhor) filme dos anos 80, uma das mais notáveis produções artísticas do cinema e um conto moderno que já nasceu clássico. Como o movimento do qual Touro indomável faz parte já estava enfraquecido, o jamais derrubado Touro do Bronx acabou sendo abatido, injustamente, pelo belíssimo Gente como a gente no Oscar de 1981, protagonizando um dos casos mais clássicos e evidentes de injustiça do Oscar, que tirou praticamente tudo de suas mãos, incluindo ator coadjuvante (Joe Pesci foi indicado, mas perdeu para Timothy Hutton), melhor filme e principalmente melhor diretor. Por mais que Scorsese tenha recebido o prêmio depois (mais de 20 anos depois) por Os infiltrados, é evidente e inegável que seu melhor desempenho tenha sido aqui.  

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Lucas Moura 

sábado, 17 de novembro de 2012

Taxi driver - "you talkin' to me?"

O ilustre aniversariante de hoje não é apenas um diretor, e sim um titã do cinema mundial. Martin Scorsese chega aos 70 com uma das mais brilhantes carreiras não só de Hollywood como de todo o mundo. Nascido em Nova York, Scorsese quis ser padre, mas ingressou na Escola de Cinema da Universidade de Nova York, onde produzia curta-metragens, e na década de 70 começou a dirigir longas. Também nessa época conheceu Robert DeNiro, de quem se tornou amigo íntimo e com quem fez uma das mais bem sucedidas parcerias do cinema. 1976 foi o ano em que Scorsese ganhou destaque ao deixar os Estados Unidos boquiabertos com seu incrível Taxi driver, tema do post de hoje.
Travis Bickle (DeNiro)é um cara estranho e solitário que busca emprego numa empresa de táxi alegando que precisava de uma ocupação e que poderia trabalhar várias horas por dia, já que sofria de uma séria insônia. Trabalhando principalmente na madrugada, e nos mais variados bairros dos subúrbios novaiorquinos, Travis presencia diariamente a vida no submundo dos negros pobres, traficantes, drogados e prostitutas, grupos que ele julga ser a escória da cidade e que merecem ser exterminados.
É época das eleições presidenciais, e ao passar pelo comitê de campanha do senador Palantine, Travis conhece uma jovem assessora chamada Betsy (Cybill Shepherd), por quem fica obcecado. O taxista se aproxima de Betsy,e inicialmente ela se interessa por ele, mas se afasta depois que Travis a leva a um cinema pornô - primeiro indício de que a solidão vinha afetando Travis e tirando dele noções básicas de socialização.
Quando Travis conhece Iris (Jodie Foster), uma prostituta de apenas 12 anos, é que ele fica totalmente inconformado com a crueldade do mundo e volta-se contra tudo que ele julga ser errado, querendo liberar toda a agressividade que se acumulou nele por conta de seu isolamento. Primeiro raspa quase todo o cabelo, ficando com um moicano sinistro, depois compra armas e começa a fazer exercícios físicos e de pontaria. Travis quase comete um atentado contra Palentine, mas as vítimas de sua ira serão os cafetões e a máfia que opera no subúrbio.
Ao lado de Touro indomável (Raging Bull, 1980), Taxi driver é considerado o melhor filme de Scorsese, e é o único dele presente na lista de 50 melhores filmes já feitos (da Sight and Sound) e também marca o início de derrotas no Oscar, perdendo a estatueta de melhor filme para Rocky. É bom salientar que Scorsese é um dos maiores injustiçados pela Academia, só recebendo os merecidos prêmios de melhor filme e melhor direção por Os Infiltrados (The Departed, 2006). Enfim, Taxi driver é uma obra-prima sobre obsessão (por Betsy, por Palantine e por Iris), solidão, violência, e é um dos mais crus retratos da periferia de Nova York já feitos - em contraponto à Nova York tão romantizada por outros cineastas, como Woody Allen, que em Manhattan (1979) faz um verdadeiro tributo à cidade. O princípio para a solidão de Travis é ter o que não quer, e não ter o que quer - ou seja, ele provoca a própria solidão. O motorista, num primeiro momento, tentou fazer parte da sociedade da qual ele era afastado, mas pareceu apenas um bisbilhoteiro. Como não deu certo, ele tentou destruí-la, e por isso tentou matar Palantine. Ao mesmo tempo, ele estava tão obcecado pela sordidez do lugar que tentou salvar uma prostituta que não queria ser salva; não por nobreza, mas simplesmente pela obsessão que tem por ela.
Scorsese pega carona
Esta não foi a primeira produção em que Martin Scorsese e Robert DeNiro trabalharam juntos, mas foi a primeira a ter grande repercussão. DeNiro faz um Travis difícil de ser imaginado com outro ator senão ele, rude, arrogante, transtornado. O final ainda traz uma interessante comparação entre o vilão que Travis aparenta ser durante boa parte do filme (e que quer ser) e o mocinho que acaba se tornando, mesmo sem querer. Destaque também para Jodie Foster, com apenas catorze anos em seu início de carreira, e desde já chamando a atenção para a grande atriz que viria ser.

Obs1: o subtítulo é uma frase do filme, muito conhecida. Caso ainda não tenha assistido, aproveite a recomendação porque é um dos melhores longas da década de 70 - o que não é pouca coisa.
Obs2: em 1981 um cara chamado John Hinckley Jr. tentou matar o presidente Ronald Reagan, alegando que o fizera para impressionar Jodie Foster, por quem era apaixonado. Hinckley inclusive usava um moicano semelhante ao de Travis. Ainda bem que Reagan saiu inteiro - já pensou?

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Kubrick vs Scorsese

Luís F. Passos

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Jerry Maguire - a grande virada pessoal, amorosa e profissional

 Jerry Maguire (Tom Cruise) está no topo do mundo. Um ambicioso e bem sucedido agente de atletas que trabalha numa grande empresa do ramo e que, aparentemente, tem tudo e todos a suas mãos. Por mais que esteja no auge, Jerry passa a se sentir incomodado com a situação em que vive. O modo como trabalha e como ele e sua empresa tratam os atletas os quais assistem, de modo a vê-los como cifrões e não como pessoas, passa a perturbá-lo a ponto de chegar o momento de um grande desabafo. Ele escreve no plano de metas da firma mais de 20 páginas apontando todos os erros e a podridão na qual eles vivem e a qual ajudam a sustentar, propondo um atendimento mais humanitário, visando o bem estar dos clientes e conseqüentemente diminuindo os lucros. O que ele ganha disso tudo? Uma demissão. Sai da empresa que ajudou a construir almejando voltar aos negócios a sua própria maneira. 
Jerry Maguire está no fundo do poço. Da noite pro dia, perdeu tudo e percebeu que, na verdade, sempre esteve sozinho. Todas as pessoas que estavam a sua volta, as quais julgava como amigos, e até mesmo sua noiva, na verdade não tinham o menor interesse por ele como pessoa, mas sim pela figura admirável de poder e controle que ele fazia questão de exibir. Ele só não está completamente sozinho por causa de duas pessoas, que serão as responsáveis por sua grande virada: Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.) e Dorothy (Renée Zellweger). Tidwell é um jogador de futebol americano e o único atleta que não largou Jerry quando este decidiu tocar seus negócios por conta própria após ser demitido. É um bom jogador, mas seu comportamento e sua postura consigo mesmo o impedem de ser um jogador brilhante e famoso. Dorothy era a contadora da empresa em que Jerry trabalhava e foi a única funcionária do lugar que decidiu largar tudo e seguir o sonho dele de construir uma nova agência de atletas com um tratamento mais humanitário. Isso porque ela realmente acredita nessa ideologia e sente-se profundamente inspirada pelo desabafo do memorando. Ah, ela é mãe solteira de um garotinho muito legal e facilmente se apaixona por Jerry e os dois passam a viver um complicado relacionamento amoroso.
Juntos, os três têm a difícil missão de dar a volta por cima em suas próprias vidas. Achar um caminho digno e correto para elas, por mais complicada e árdua que seja a jornada. Entre altos e baixos, Jerry, Dorothy e Tidwell vão trilhando um relacionamento interessante de amizade, união e companheirismo que vão transformá-los.
Eu simplesmente adoro esse filme. Não sei dizer exatamente qual o motivo, pois filmes cheios de lição de moral geralmente não fazem muito meu estilo. Afinal, qual a graça de Jerry Maguire (1996)? Tem uma temática de superação através de uma grande mudança de vida em que uma personagem central, no caso, Jerry, larga um estilo de vida moralmente incorreto e passa a seguir um novo caminho bem comportado, feliz e humano, e tem também uma história de amor complicada, mas altamente previsível. Mesmo assim, consegue se destacar entre tantos outros tão similares. Isso pode vir da gigante simpatia que o filme imprime. É um filme cativante que prende o espectador. Cheio de piadas divertidas, inteligentes, bem colocadas e personagens marcantes e fáceis de provocar empatia e identificação. Isso não se limita aos três principais, mas a todo o elenco. A família de Dorothy, a família de Tidwell e até mesmo o antigo e nojento ciclo social de Jerry são muito bons e geram momentos impagáveis. Cuba Gooding Jr. mostra não apenas seu melhor desempenho como o escandaloso Tidwell como também interpreta seu melhor papel (disparado). Renée Zellweger na época ainda era uma atriz qualquer, sem muito reconhecimento e sem muita credibilidade. Foi Dorothy que a colocou no mundo e abriu definitivamente as portas para sua bem sucedida carreira, sobretudo para os grandes papéis que ela conseguiu no início dos anos 2000. Isso não veio apenas de sua grande química com Tom Cruise, mas também de seu desempenho pessoal. Quem lidera tudo, no entanto, é o próprio Tom Cruise. Aqui ele nos mostra um de seus melhores trabalhos em um de seus melhores filmes. Posso dizer inclusive que, para mim, Jerry Maguire é o início do fim do período áureo da carreira do ator. Venhamos e convenhamos, Cruise não apresenta mais papéis tão bons quanto fazia entre os anos 80 e 90 e Jerry é um destes. Claro que ele fez bons filmes dos anos 2000 pra cá, mas nada que equivalesse ao que ele fez antes, em filmes como Rain Man, Nascido em 4 de julho, De olhos bem fechados e o próprio Jerry Maguire. Se a carreira dele dependesse só do que ele fez nos últimos 12 anos, seu nome não teria o peso que tem. De qualquer forma, é um ator que gosto muito. 
Quer ver um filme simples, bonito, feito pra agradar, que arranque boas risadas e ainda um pouco de emoção, mas tem medo de acabar vendo uma bobagem? Veja Jerry Maguire. Você não vai se arrepender.
Vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante (Cuba Gooding Jr.) e indicado a mais outros quatro prêmios, incluindo melhor ator para Tom Cruise (derrotado por Geoffrey Rush em Shine) e melhor filme (derrotado por O paciente inglês, filme preferido de Elaine Benes da série Seinfeld).

Lucas Moura

domingo, 11 de novembro de 2012

Amanhecer - o fim da picada. Ou da mordida?

Depois do épico (só que não) fim de Eclipse, em que Bella sobreviveu ao ataque de Victoria e sua trupe de jovens vampiros anencéfalos, a heroína (err...) e seu amado Edward resolvem que não adianta adiar o inevitável e resolvem se casar e assim oficializar o gigantesco, fortíssimo e sonolento amor deles. Então eles se casam na propriedade dos Cullen e logo depois viajam ao Brasil para passar a lua de mel em Angra dos Reis, numa ilha particular de Esme, "mãe" de Edward. A grande expectativa ai, claro, é a noite de núpcias do casal. Quem sabe agora a estória esquenta? Bem, até que começou a esquentar. Estavam os dois na praia, sob o sol, aquela vista e pá, e depois de tanto mar e Edward fazendo cosplay de Fada Sininho brilhando diante da luz, vem a vontade e os dois vão para o quarto. Essa é a hora em que o vampiro deveria jogar sua esposa na cama e gritar "se prepare que eu quero lhe usar", mas não. Todo delicadinho, começa o beija beija, o passa mão... e acaba o capitulo, pulando direto pro dia seguinte.
A songa monga da autora, que outrora descrevera coisas bestas como beijos e toques ao longo de vários parágrafos, foi incapaz de botar um pouco de baixaria em seu mundo cor de rosa (mas sem problemas, assim que Black style gravar um cd em inglês eu mando pra ela). Bem, ainda em Angra Bella começa a se sentir mal e imediatamente retorna a Forks com Edward. Os dias passam e ela só piora; dores no corpo, enjoo, tontura... estava grávida. E nada dos sintomas desaparecem. Isso porque o bacuri estava devorando a mãe por dentro, o que indica que ela era parte vampira. Jacob, o lobisomem tarado, dá a ideia de que o feto precisava de sangue; Carlisle então compra sangue humano no mercado negro (:o) e Bella o toma, e não é que deu certo?
Agora uma pausa pra reflexão: se vampiros são seres mortos cujos corpos são imutáveis, como diabos Edward produziu espermatozoides vivos para engravidar Bella? E outra, essa é uma das gestações mais rápidas que a mãe Natureza concebeu: acho que nem durou 4 meses. Mais rápida que isso, só se Bella parisse na nidação*.
Bem, o fato é que a gravidez de Bella preocupou os Cullen, já que ela estava morrendo por isso, e o clã de lobisomens, que via o nascimento do bebê como a chegada de um monstro que precisava ser destruído. A coisa esquenta e a tensão paira sobre as florestas de Forks; não lembro se no livro chega a haver luta, mas no filme há sim. Enfim, nasce o cãozinho, uma menina chamada de Renesmee (René, mãe de Bella + Esme, mãe de Edward), mas Bella não resiste ao parto e morre (uhu!), mas Edward imediatamente injeta seu veneno nela para que seja feita a transformação da moça em vampira.
Um fato importante é que Jacob, assim que viu Renesmee, teve uma "impressão" - um acontecimento na vida de todos os lobisomens, em que eles se apaixonam por determinada mulher e esta se torna o eixo de sua vida (zzzzz). Bem, Bella passa três dias em sofrimento e acorda, mais bonita do que nunca (não haha) e toda trabalhada nos superpoderes vampirescos. Pra adiantar a história, o novo foco do livro começa quando uma vampira que era amiga dos Cullen descobre a existência de Renesmee, que provavelmente era a primeira mestiça de todos os tempos e conta isso aos Volturi, a "família real" dos vampiros. Carlisle recebe  dos Volturi uma carta exigindo explicações, que serão recebidas pela própria família Volturi e seus servos quando estes chegarem a Forks no próximo inverno.
Claro que o plano dos Volturi, que não valem nada, é destruir os Cullen. Carlisle e alguns de seus filhos resolvem viajar pelo mundo procurando antigos amigos e demais vampiros ousados o suficiente para se juntar a ele, desafiando a aristocracia Volturi. Na volta a Forks eles trazem um bocado de vampiros que passa a treinar seus poderes aguardando a luta; Bella, que descobrira seu poder, um escudo contra ataques psicológicos e físicos, começa a tentar expandir sua proteção ao outros. Reforçando o pequeno exército temos o clã de lobisomens de Jacob, que decide superar as diferenças com os Cullen em nome da proteção da região.
Ufa! Enorme esse enredo. Imagine o esforço que não é ler isso tudo. Mas de tão tosco, Amanhecer (Breaking Dawn, 2009) é engraçado. Muito! Primeiro com as passagens da noite de núpcias, com camas quebradas (ui, pentada violenta), depois a história da gravidez relâmpago de Bella, o amor de Jacob pelo bebê, o bebê (kkk), o clã de Jacob e claro, a não-guerra entre Cullens e Volturi. Santa Mãe! Meyer é tão insossa, tão afetada, que nem aqui ela dá um presentinho pro leitor com uma luta, destruição e membros amputados. Qual nada! Os Volturi chegam, tem uma conversa interminável e tensa, e depois vão embora de boas. O que há de errado em uma guerra? O que?
Talvez o maior defeito de Amanhecer seja a incoerência com os três livros anteriores e até com ele mesmo. Incoerência esta que se manifesta nas características principais de vampiros e lobisomens, como a citada anteriormente sobre a imutabilidade e ausência de vida do corpo de vampiros, e mesmo assim Bella engravida de um. Aqui continua o caráter meloso dos anteriores, principalmente entre Bella-Renesmee e Bella-Edward, adianto logo que a última passagem vai arrancar milhões de "oowwn" das fãs pelo mundo quando Amanhecer parte 2 chegar aos cinemas. Falando nisso, a divisão em partes, que não teve outro motivo senão o financeiro, exigiu dos produtores que esticassem cada metade do livro no filme, aumentando o tempo das passagens fofinhas e imbecis. A parte 1, que eu tive o desprazer de ver ontem, vai até a transformação de Bella - muito pouco enredo esticado em quase duas horas de filme, prolongando momentos inúteis e entendiantes.
E assim se encerra uma das piores e mais lucrativas séries literárias / cinematográficas dos últimos tempos. O jeito agora é rezar pra são João Guimarães Rosa e demais divindades do Olimpo pra que tão cedo não apareça outra dessa.
*Nidação: evento posterior à fecundação em que o zigoto se fixa à parede interna do útero.

Leia também: Eclipse
                      Lua nova
                      Crepúsculo

Luís F. Passos

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O diabo veste Prada - o inferno e o paraíso no mundo da moda

Andy Sachs (Anne Hathaway) é uma jovem jornalista cheia de idéias originais e dedicada a uma forma mais séria de jornalismo que está à procura de um novo emprego. Seu destino a leva, no entanto, a trabalhar na revista mais distante o possível de seu perfil profissional: a Runway. A Runway é uma das principais revistas de moda do mundo e praticamente dita às regras com relação ao modo com que as pessoas devem se vestir e se portar. Lá, todos são a perfeita oposição de Andy. Enquanto ela está muito preocupada com o conteúdo para se importar em como está vestida ou se usa tamanho 40 ou 38, as mulheres de lá são belas, elegantes, sempre arrumadas e fazem de tudo para ser um peão no grande tabuleiro do mercado mundial do estilo. Apesar de não ser parte efetiva do sistema, Andy consegue o emprego e agora tem a difícil missão de trabalhar como segunda assistente (sendo a primeira, a arrogante e hilária Emily) da poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep, em um de seus papéis mais populares e mais divertidos), uma das mulheres mais influentes da moda mundial e que simplesmente dita o que é certo e o que é errado, quem entra e quem sai e o que é bom e o que é ruim quando o assunto é tendência.
Miranda é absurdamente exigente e famosa por dar missões impossíveis para suas assistentes, tornando-se uma pessoa terrível de se lidar. Após uma fase inicial de adaptação ao novo emprego, cheia de compromissos, estresses, erros, confusões e, principalmente, humilhações, Andy acaba entrando de cabeça nesse mundo que sempre olhou com desprezo e ironia. Larga as roupas de liquidação e se afoga em Prada, Calvin Klein, Marc Jacobs, Gabbana e em tudo o que está no topo da cadeia alimentar. Aos poucos, vai se tornando uma típica garota da Runway, com a ajuda direta ou indireta dos colegas de trabalho Emily (Emily Blunt) e Nigel (Stanley Tucci). Os olhares de desprezo que recebe passam a se tornar olhares de respeito, vai se tornando cada vez mais eficiente e precisa no seu emprego, chegando bem próximo de agradar a própria Miranda e sua carreia vai subindo cada vez mais. No entanto, a cada pequeno passo adiante na sua vida profissional, Andy dá um verdadeiro salto na direção contrária com relação a sua vida pessoal. Vai se afastando de seu namorado, de sua família, de seus amigos e, principalmente de sua própria identidade pessoal (inclusive ao “trair” sua colega Emily). O que sobrou da antiga Andy dos suéteres azuis nessa nova mulher vestindo milhares de dólares? O quanto ela se afastou de seus princípios? Tudo o que ela está fazendo vale de alguma coisa? 
Baseado no best seller de 2003, de autoria de Lauren Weisberger, O diabo veste Prada (The devil wears Prada, 2006) foi um fenômeno pop cinematográfico dos anos 2000. Utiliza-se de um ótimo roteiro, um ótimo elenco (todos os atores principais do filme estão muito bem) e de um humor ácido na medida certa para falar sobre o rígido cotidiano do alto escalão da moda, que dita comportamentos a serem seguidos por todos na sociedade moderna, por mais distante que seja essa conexão. Não deixa, no entanto, de tocar no complicado ponto de construção de uma identidade pessoal e na difícil relação entre sucesso profissional e pessoal, sobretudo com relação às mulheres que, cada vez mais, assumem cargos e funções mais importantes em suas empresas, alcançando a tão sonhada realização profissional que cobra o alto preço da perda de contato familiar e afetivo (personificadas na figura da própria Miranda).

Obs1: Por mais que seja um filme bacana e tal, tem a tendência de ficar muito datado num futuro bem próximo. As personagens usam tudo o que estava no auge da moda e isso é muito bonito. Mas, é tudo o que estava no auge da moda em 2006 e todo mundo sabe como esse mercado é volátil. Daqui a alguns anos, pode ser que as pessoas apontem para Anne Hathaway e digam que ela está ridícula, mais ou menos o que todo mundo faz hoje em dia quando vê qualquer filme dos anos 80. Além disso, a trilha sonora tem tudo o que havia de melhor no pop... em 2006, o que já a torna datada mesmo para os dias de hoje.
Obs2: Indicado ao Oscar de melhor atriz (Meryl Streep).

Leia também:
A dama de ferro
Um divã para dois
Batman: O cavaleiro das trevas ressurge

Lucas Moura

sábado, 3 de novembro de 2012

Anticristo - antagonista e perturbador

Eu tenho a mania, quase defeito, de ver filmes aleatoriamente, em termos de diretor. Enquanto muitas pessoas seguem uma cartilha que quase todo diretor tem, eu ignoro. Por exemplo, muitos dizem que Os pássaros (1963) não é um bom primeiro Hitchcock (o porquê só Deus sabe). Pois bem, foi meu primeiro. Também tenho esse costume com livros; lembro de uma professora de literatura que me aconselhou a começar a ler Guimarães Rosa com livros menores como Primeiras Estórias, e eu parti direto pra Sagarana. Já com Lars von Trier, dizem pra ver primeiro os mais leves pra depois assistir aos mais fortes. Até que comecei com um leve, o fantástico Melancholia (2011), mas dele fui direto pro marcante Anticristo.
Na trama temos um casal, representado por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe, que perde o filho e passa a enfrentar as dificuldades do luto e da consequente loucura que Ela (as personagens não têm nome) começa a manifestar. Como é típico na filmografia de Trier, o filme é dividido em partes (Prólogo, Luto, Dor (O Caos reina), Desespero (Femicídio), OsTrês Mendigos e Epílogo). No Prólogo, que é em preto e branco e em câmera lentíssima, do jeito que só Trier consegue fazer, vemos quando o casal está num ato sexual (explícito) e na mesma hora seu filho aproveita que está só, sai da cama e acidentalmente cai de uma janela aberta. O clímax do sexo coincide com a hora da queda da criança, fazendo a relação entre desejo (vida) e morte.
A partir do capítulo Luto a mãe começa a se afundar num poço de dor e culpa sem fim. Enquanto seu marido, que é um cético psicólogo, consegue dominar sua dor e voltar a encarar a vida, ela é internada numa clínica e não vê perspectiva de recuperação. Ele então resolve tirá-la da clínica e fazer o tratamento da esposa. Depois das primeiras conversas o casal vai a uma cabana isolada numa floresta chamada Éden (primeira de muitas referências bíblicas) onde Ela havia passado o verão com o filho há algum tempo. Na chegada deles há uma passagem interessante em que um veado carrega seu filhote morto, representando o fardo da morte do filho que o casal carrega.
No decorrer dos outros capítulos há a piora da loucura da mulher com breves momentos de aparente cura, que são seguidos de crises cada vez piores. Ela passa a usar o sexo como forma de aliviar sua ansiedade, ao mesmo tempo em que fica mais insegura e a natureza parece querer atormentar o casal - Ela chega a dizer que a natureza é a igreja do diabo. Lá pelo terceiro capítulo parece que tudo fica fora de controle e o filme passa a testar os nervos do espectador. Como não quero fazer spoiller, digo apenas que perturbador chega a ser eufemismo; Trier não tem pudor algum em mostrar cenas muito chocantes.
Anticristo (Antichrist, 2009) foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, onde causou imensa perplexidade na plateia. Aqui Lars von Trier reforça a ideia de que seus filmes ou são amados, ou são odiados, e com Anticristo é impossível ficar em cima do muro. O diretor mostra quão sádico é ao fazer espectadores e elenco sofrerem diante de tamanho horror - mas deixa espaço para apreciação, que tem caráter muito pessoal. Pra começar, quem é o Anticristo? Cada pessoa é que deve decidir. Trier conseguiu equilibrar sutilmente dois argumentos perfeitamente opostos: a mãe é vítima ou algoz? É tudo loucura ou há um fundo de razão nisso tudo? É o sofrimento interferindo na razão ou há mesmo fenômenos sobrenaturais? O julgamento cabe a quem estiver disposto a viver essa experiência única que é  Anticristo.

Leia também: Melancholia
                       Persona

Luís F. Passos

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Os Incompreendidos - jovens sem rumo

O filme que vou falar hoje é um marco no cinema mundial. Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959), de François Truffaut, é o primeiro grande sucesso da chamada Nouvelle vague francesa, movimento cinematográfico liderado por jovens diretores, alguns deles ex-críticos de cinema, cansados da mesmice hollywoodiana, cheios de ideias e afoitos por levar ao cinema um modernismo e uma forma totalmente nova de contar histórias, da maneira mais pessoal e intimista possível. De modesto, o movimento da nouvelle vague tomou proporções gigantes, influenciando toda a produção cinematográfica subseqüente, sobretudo ao encher de inspiração os jovens diretores que viriam a fazer a revolução do cinema americano, como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola.
François Truffaut foi um dos líderes do movimento e um dos mais criativos diretores que já viveram. Isso é um fato. Sua produção é tão longa quanto diversificada e elogiada. Mas poucos filmes de Truffaut são tão bem visto ou tão emblemáticos quanto Os incompreendidos, seu primeiro trabalho.
No longa, acompanhamos o jovem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud). Um rapaz de seus 13 anos, mais ou menos, que sente uma recusa em aceitar padrões de convivência sociais da maneira as quais lhe são impostos. Em Antoine, há um forte espírito transgressor, inovador e um ar indomável. Percorre as ruas de Paris divertindo-se e praticando pequenos furtos, de modo a pouco se importar com as conseqüências de seus pequenos grandes atos. De fato, no menino podemos ver uma necessidade pelo novo e uma angústia simplesmente inexplicável. Não dá pra saber ao certo o que ele quer, pois nem ele mesmo sabe. Só nos é permitido perceber o que ele não quer e isso fica muito óbvio. O que Antoine rejeita tanto é a vida a qual tentam lhe forçar a viver. De todas as memoráveis cenas do filme, as que mais se destacam são, justamente, as que escancaram essa necessidade de Antoine de se libertar das amarras sociais. Primeiro, temos um momento em que ele brinca despreocupado num parque de diversões, após fugir da escola, em que entra num brinquedo onde as pessoas devem manter-se paradas e em pé, e, em vez de seguir o padrão, o garoto se move na maior bestialidade. Outro grande momento é uma fuga. Fuga para lugar nenhum. Ele apenas sai correndo, sem destino e sem saber o que fazer a seguir ou muito menos que rumo sua vida vai tomar.
Truffaut aproveita o gancho para criticar as instituições que deveriam fazer o papel de guiar a juventude. Família e escola. Ambos são postos em cheque e ambos falham na tentativa de “arrumar” a cabeça de Antoine. Sua família é totalmente desajustada e simplesmente não dá a devida importância ou atenção a ele e na escola é julgado como um aluno incorrigível que merece apenas ser castigado. Até o próprio reformatório infantil, local que, teoricamente, foi criada para “ajustar” jovens perdidos, falha em sua missão. Claro que todos falham. Os tempos mudaram e é cada vez mais difícil controlar a inquietude da juventude.
Antoine, aliás, é baseado em experiências vividas na infância e adolescência do próprio Truffaut (não sei definir o limite entre o que aconteceu de fato e o que é ficção). Jean-Pierre Léaud, então com 15 anos de idade, tornou-se um dos principais atores do cinema francês e repetiu a parceria com Truffaut, interpretando o mesmo Antoine Doinel, em mais quatro filmes, firmando uma das melhores parcerias ator-diretor de todos os tempos no cinema.

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