sexta-feira, 20 de março de 2015

Filmes pro final de semana - 20/03

1. Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014)
Pra quem é fã do grande diretor Wes Anderson, seu filme do ano passado é obrigatório. Traz todos os elementos recorrentes em sua obra: o jogo de cores claras, as simetrias, as personagens complicadas e a comédia comedida.  O título do filme é o mesmo do hotel em que é centrada a história, numa ex-república socialista, na porção mais oriental da Europa. Quem narra o enredo é seu proprietário, Zero Moustafa (F. Murray Abraham), contando como o grandioso e outrora prestigiado hotel chegou a suas mãos; a era de ouro do estabelecimento, quando administrado pelo rigoroso monsieur Gustave H. (Ralph Fiennes) e as divertidas enrascadas em que ambos se meteram envolvendo uma imensa herança.
Nota: 8,5/ 10
2. As Horas (The Hours, 2002)
"Sempre os anos entre nós. Sempre os anos, sempre o amor, sempre as horas". Baseado (em um livro que se baseia) na obra de Virginia Woolf, o complexo e introspectivo As Horas acompanha um dia na vida de três mulheres distintas que vivem em épocas distintas: a escritora Virgina Woolf (Nicole Kidman) nos anos 20, a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore) nos anos 50 e a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep) em 2002. O que une as três é o romance Mrs Dalloway, escrito por Virginia, lido por Laura e cuja protagonista se assemelha a Clarissa (tendo, inclusive, o mesmo nome). Ambas as personagens tentam esconder e lidar com a angústia que as sufoca, mesmo as que aparentemente levam uma vida perfeita. Ambas as três terão seus mundos transformados ao longo de um único dia.
Nota: 10
3. Interiores (Interiors, 1978)
Depois de vencer o Oscar nas categorias filme, direção e roteiro com sua inovadora comédia romântica Annie Hall, Woody Allen mostra sua versatilidade no seu primeiro filme de drama: Interiores. Bastante influenciado pela filmografia do ídolo Ingmar Bergman, Woody cria a trama de três irmãs que pouco se conhecem e são distantes, já que sempre esconderam seus medos e verdades dentro de si. Mas o centro da história é a mãe delas, Eve (Geraldine Page), que vê seu casamento de décadas desmoronar e se descobre sem chão e sem rumo. Por sugestão das filhas, Eve começa a trabalhar como decoradora, mas nem o novo emprego consegue fazê-la arrumar a bagunça que tem dentro de si. Este é mais um dos filmes de Woody que infelizmente não são muito conhecidos, apesar da qualidade - altíssima.
Nota: 9,5/ 10

4. The Rocky Horror Picture Show (1975)
Numa época em que os filmes eram muito inovadores, o inusitado musical sobre a criação de uma versão musculosa de Frankstein  conseguiu deixar todo mundo boquiaberto. Quando o inocente casal Brad (Barry Botswick) e Janet (Susan Sarandon) encontra um castelo à beira da estrada numa noite chuvosa não podiam imaginar o que encontrariam: seu proprietário, o dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), um "doce travesti da transsexual Transylvania", seus estranhos criados e também estranhos convidados, prestes a presenciar a criação de um Frankstein moderno e musculoso. Mais que um festival de músicas que grudam, The Rocky Horror Picture Show é uma mistura de sexualidade escancarada, frases irônicas ou de duplo sentido e figurino alucinante, que o que tem de estranho, tem duas vezes mais de qualidade. Let's do the time-warp again!
Nota: 9,5/ 10
5. Era uma vez no Oeste (C'Era una Volta Il West, 1968)
O velho Oeste filmado de um jeito novo, através da tradição da ópera italiana. O diretor Sergio Leone traz uma história de vingança, sonhos e ambição através do misterioso Harmônica (Charles Bronson), da viúva e ex-prostituta Jill (Claudia Cardinale) e do assassino Frank (Henry Fonda). O filme é marcado pela construção de ferrovias liderada pelo milionário Morton (Gabrielle Ferzetti), que contrata Frank e seu bando para expulsar todos os fazendeiros que se puserem em seu caminho, entre eles o marido de Jill, morto no início do filme. Guiado por um ódio antigo que aos poucos é explicado, Harmônica, junto do bandido de quinta Cheyenne, vai proteger a viúva e suas terras da ambição de Morton e dos criminosos de Frank. Seja por cenas memoráveis, como a abertura interminável, seja pela paisagem intrépida, pelo elenco de peso, pelo incrível roteiro ou mesmo pela música que Harmônica toca em sua gaita, o filme de Leone se consagrou imediatamente como um clássico.
Nota: 10

Luís F. Passos

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Dois dias, uma noite - a maior saga de 2014

Sandra (Marion Cotillard) encontra-se num momento muito importante de sua vida. Saindo de um período de depressão grave que ainda tem reflexos no seu presente, recebe a péssima notícia de que perderá seu emprego em nome de um abono salarial para os outros funcionários. A decisão da empresa não foi tão simples assim. No caso, os outros funcionários do local tiveram, eles mesmos, que escolher entre receber o abono ou manter a colega de trabalho em serviço. Após descobrir que um deles influenciou bastante na decisão dos demais, Sandra, munida inicialmente menos por suas forças próprias que pela insistência de sua amiga e de seu marido (Fabrizio Rongioni) consegue com que seu chefe faça uma nova votação – desta vez, secreta – para chegar à decisão final. Entre essa tomada de decisão e a nova votação, o que lhe sobra é um final de semana. Dois dias para que o pequeno número de três pessoas que votaram a seu favor se transforme em nove, para que assim a maioria esteja com ela. Tudo que lhe resta é uma jornada de porta em porta tentando convencer seus colegas a lhe apoiar.
Dois dias, uma noite (Deux jours, une nuit, 2014) é um filme magistral. Excelentíssimo. Um pouco cruel em sua proposta, também é um filme bastante humano, visto que sua temática é, basicamente, uma disputa clássica e travada na banalidade do cotidiano entre solidariedade e interesses pessoais. Claro, dinheiro é sempre bom, mas até quando vale a pena o lucro em detrimento do bem estar de um colega de trabalho? De um amigo? De uma pessoa próxima a que todos sabem que se encontra fragilizada? Desta forma, os Dardenne compõem essa trama meio trágica que também nos fala muito sobre compaixão e lealdade, tendo como plano de fundo a crise econômica europeia. 
A missão de Sandra não é fácil e muito menos confortável. Imagine ter que passar dois dias inteiros andando de porta em porta, na casa de pessoas as quais você precisa pedir um favor imenso. O desconforto está estampado na cara de Sandra, até por saber que muitas daquelas pessoas realmente necessitam daquele abono. Ao receber sim como resposta, Sandra se ilumina e torna-se esperançosa, ganhando forças para continuar a jornada e agradece de maneira discreta, porém sincera. Ao receber não como resposta, aceita passivamente e não tenta forçar muito para que os outros mudem de ideia, mas implode em seu mundo particular. Perde as esperanças a cada decepção, se entregando à depressão ainda não totalmente superada. Talvez o que realmente a sustenta seja mesmo a figura sempre presente e companheira do marido, que a acompanha de perto em todos os passos da jornada. 
Um aspecto bastante interessante em Dois dias, uma noite é ver as reações de cada uma daquelas pessoas, o que traz ao filme uma surpresa a cada cinco minutos de projeção. Afinal, nem ela e muito menos nós sabemos o que passa pela cabeça daquelas pessoas, e muito menos como reagirão a tal confronto de valores morais. As reações são das mais diversas e mesclam não apenas sentimentos extremos de solidariedade ou egocentrismo, mas também de culpa, agressividade e afastamento. Interpretação perfeita de Marion Cotillard, que traz mais uma excelente atuação a sua lista enorme de bons trabalhos (Piaf e Ferrugem e Osso são meus exemplos referência em relação à atriz), emprestando a Sandra a vulnerabilidade e a exaustão de uma pessoa lutando para sair de um abismo. Filme indispensável.

Nota: 10

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