domingo, 23 de agosto de 2015

Pelo Direito de Andar Nu

Na semana passada eu fui ao Detran, resolver cá meus problemas, quando me deparei com a seguinte cena: duas senhoras na casa dos seus 50 anos sendo impedidas de realizar a prova teórica exigida durante o processo de habilitação para dirigir porque, pasmem, estavam com suas saias uns dois dedos acima do joelho... E o doce – suave como um paquiderme – funcionário do Detran de Sergipe alegou o seguinte: “vocês não estão vestidas decentemente”! Quer dizer... Era algo tão surreal, tão inimaginável (e olhem que eu não estou nem entrando nas outras dezenas de assuntos que podem ser debatidos aqui...) que, sinceramente, eu quase não acreditei nisso.
Logicamente, é manifesto que – talvez porque não saibamos lidar com nossa libido e com as questões referentes à sexualidade, e a internet e o whatsapp estão aí pra contar a história... , ou talvez porque ainda não sejamos tão civilizados quanto achamos que somos, ou talvez por ambos os motivos – a exposição pública do próprio corpo ainda é uma questão bastante polêmica no Brasil em muitos contextos sociais, mas sinceramente ainda é de impressionar como uma coisa que deveria ser tão natural e que você faz todo dia, como ficar pelado, (logicamente, nem sempre com a presença de muitos expectadores...) ainda seja um tabu e que atrapalhe bastante ainda a vida de muitas pessoas ainda em nossos dias... E, infelizmente, o exemplo do parágrafo acima é apenas mais um exemplo possível.
Não é, portanto, de admirar que constatemos com espanto que, em pleno século XXI, num país onde a exposição do próprio corpo é, em muitos contextos sociais, até lugar-comum, as pessoas ainda não se dão conta que dignidade e demais valores morais não tem relação de causa e efeito com as roupas que se usa! Aliás... Moramos num país tropical, quente pra cacete, e não é difícil encontrar muita gente muito mais decente que o Silas Malafaia (que anda de terno e que é ‘religioso’) andando de shortinho e mostrando a barriga. Não é à toa que já dizia o Ferreira Gullar: “Obscenidades maiores são praticadas de terno, hein? De terno!!! E não pelado!”
E nessa vibe, prezados colegas, embora precisemos admitir – logicamente não somos tão cegos assim – que as roupas tenham sua função, como por exemplo, proteger o corpo, do frio ou do sol, ou mesmo nos permite expressar também a nossa subjetividade, nossa identidade, nossa maneira de viver e ser no mundo (à guisa de exemplo lembremo-nos nos Geeks (me included) que adoram vestir camisetas de vídeo-games e afins... Da turma ‘Zen’, que tem uma forma mais ‘descolada’ de se vestir e até mesmo do Playboy, que também tem suas vestimentas características...) a exigência de ter que se andar vestido, principalmente se de forma A ou B específica, serve mais como uma máscara social que se nos apresenta em tom ainda mais alto quando nos lembramos que as roupas servem justamente como um marco de distinção social: anda vestido de forma A, é bom, bonito e bacana, não anda, é ‘ralé’. Sem maiores discussões. E isso sem esquecer a nossa questão central debatida aqui: anda vestida assim, é piranha. Sentença: execração pública ou estupro – o que for mais conveniente. Sem direito a recursos.
Não imaginem, por favor, que estou defendendo aqui que, a partir de agora, teremos todos que andar todos pelados! Tiremos as roupas para um mundo mais justo! Risos! Vejam bem, não é bem isso que estou falando (embora não tenha nada contra)... Mas fica difícil não perceber que a exigência (eu disse EXIGÊNCIA) de andar vestido, ainda mais de maneiras específicas (como dito no parágrafo acima), é uma puta hipocrisia, uma vez que para o bem do comércio e, ou sob quaisquer outros pretextos, a grande senhora mídia, esperança dos que mais nada podem esperar, utiliza-se do corpo nu para promoverem quase qualquer coisa que seja “vendível”.
E vejam mais: a grande mídia não é a única culpada. Pessoas comuns fazem ‘swing’ na calada da noite, em lugares escondidos, compram ‘Playboy’, mostram a bunda na praia, adoram ver cenas picantes na novela da Globo, tratam ‘o outro’ como um pedaço de carne, mas não em público! Em público e na vida cotidiana comum, em nome da civilização, dos princípios éticos normatizados (e, além do mais, ficar nu em público é crime(!) – contravenção penal prevista no Código Penal Brasileiro, artigos 215-216 – daí é que se pode deduzir que a norma é andar vestido com alguma coisa) defendem que não se pode ficar pelado, sob pena de ser rechaçado, ultrajado, ofendido, humilhado, e até preso. Afinal de contas, tratar o outro como objeto não é imoral! Imoral é andar nu...
À guisa de exemplo, pra justificar meu ponto de vista, trago de volta aqui aquele caso da menina da UNIBAN, a Geyse Arruda: num espaço acadêmico (onde as pessoas deveriam, em tese, pensar, ou ao menos ter algo de bom na cuca... Mas tudo isso em tese...) e numa sociedade na qual a nudez tem um relativamente grande espaço na arte, cinema, teatro, pinturas, esculturas , fotografias, e até mesmo na moda, na MODA!, as vestes da ÚLTIMA MODA que adornavam parte do corpo da aluna da UNIBAN foram motivo suficiente para que a turba ensandecida a ultrajasse, humilhasse, xingasse, em suma, a escorraçasse de tal forma pela sua nudez presumida, que não poderia eu relatar aqui metade do furor e celeuma que se pode ver no You Tube. Logicamente (?), como se isso ainda fosse pouco, a ‘vagina da discórdia’ de Geyse ainda lhe rendeu uma expulsão, a qual a Universidade procedeu – mas depois voltou atrás, em parte pressionada pelo advogado de Geyse, em parte pela opinião pública – no dia imediatamente posterior ao ‘acontecido’. Claramente esse caso ilustra com precisão milimétrica a que ponto chega a hipocrisia social – e que não exagero em falar nas humilhações às quais estamos sujeitos – nessas questões que envolvem a nudez, e principalmente a nudez feminina.
Enfim... Por fim, como se não faltasse mais nada para completar a orgia da hipocrisia social, a parte humilhada, Geyse Arruda, que se disse extremamente abalada e coisa e tal, negociou, pouco tempo após o episódio, tirar – dessa vez, totalmente – a roupa para as revistas masculinas Sexy e Playboy. Com o dinheiro e a ‘oportunidade’ que a sua nudez proporcionou, a ex-estudante de turismo decolou uma carreira na televisão... Com efeito, existem muitas questões a serem discutidas aqui, mas, como queríamos demonstrar, o fato é que a nudez, que é castigada, é também ferramenta de ‘distinção’ social, mas, atenção: não pode ser exibida em público, exceto se somente em certos lugares autorizados por lei e tacitamente pelos hábitos e costumes (como na TV, por exemplo...).
Neste contexto, o que toda essa ‘moralidade’ que regulamenta o DEVER de andar devidamente vestido conforme a ocasião normatiza é, na verdade, a legalização da hipocrisia e de mais ferramentas de dominação social dos sans-cullote pelos abastados; é apenas mais uma mediatização (isso mesmo, mEdiatização) das relações entre os homens e que constitui numa eficiente forma de fazer-nos conhecer pelos outros de uma maneira que queremos, nos passando, muitas vezes, por algo que não somos, construindo barreiras que limitam a possibilidade reconhecer o outro como meu semelhante, não somente no que tange à animalidade natural da espécie, mas em posição social, em moralidade e dignidade.
E para aqueles que pensam que eu estou meio abilolado, deixo um último exemplo de modo a evitar que tais proposições assumam na cabeça do leitor uma visão tal qual uma miragem ou devaneio teórico: uma empresa de marketing da Inglaterra, visando promover o bem-estar da equipe e melhorar as relações entre os funcionários, propôs a sua equipe que todos os funcionários trabalhassem pelados por um dia. O evento, batizado de “Naked Friday”, não foi imediatamente aceito, contudo, paulatinamente os funcionários da empresa renderam-se ao convite e, de todos os funcionários, apenas dois não trabalharam totalmente pelados – mas ainda trabalharam trajando somente peças íntimas. Daqueles que se dispuseram a mostrar para todos como vieram ao mundo, todos aprovaram a experiência, e, de uma forma geral, assumiram que a perda das roupas os fez derrubar as barreiras que existiam entre eles melhorando o relacionamento no trabalho e aumentando a produtividade (Joguem “Naked Friday” e “The Telegraph” no Google que vocês acham a notícia).
Aí, depois de tudo isso, vocês vêm me dizer que é ‘moral’ e ‘decente’ uma regra que determine que uma mulher não pode fazer uma prova numa repartição pública porque está ‘indecente’? Com todo o respeito do mundo, é mais que inadmissível, em qualquer contexto, e em qualquer repartição, que a falta de quaisquer vestimentas que sejam te impeça de ter acesso a um serviço público PELO QUAL VOCÊ PAGA INDECENTES IMPOSTOS todo santo dia. INDECENTE é essa LEI IMORAL que diz que homem só pode entrar em repartição pública de calça, que terno é que é decente e deputado ganhe auxílio, vindo do bolso do contribuinte, pra comprar Hugo Boss e Giorgio Armani.
Não! A nudez NÃO é, necessariamente, indecente. A nudez NÃO é barbarismo. A exposição do corpo não é (necessariamente) falta de decoro ou desvio de conduta... Em uma sociedade esquizofrênica como a nossa, em muitos casos a exposição, a nudez, a naturalidade é uma oposição frontal à civilização e uma crítica a uma organização social tal que, como herdeira da religião, possui uma visão criminalizante acerca da própria natureza do corpo do homem, e, como curral dos dominantes, impõe uma vida numa coletividade de máscaras que são a antítese, literalmente, da honestidade e transparência.
E, para jogar a pá de cal, como se não bastasse de indecência e para minar o último ‘argumento’ dos caretas, é impossível provar que fazer uma prova de calça ou saia abaixo do joelho vai me fazer mais ou menos inteligente. Aliás, na Inglaterra a nudez fez foi aumentar a produtividade. A única conclusão que posso tirar, portanto, disso tudo, além daquele que me força a achar uma excrescência as leis que me OBRIGAM a não andar nu, é, talvez, meus amigos, que os nossos deputados e vereadores devessem trabalhar pelados. Quem sabe assim, finalmente, eles fariam alguma coisa decente pela sociedade, porque de indecência os caros bolsos dos seus ternos Armani já estão cheios...


 Guilherme Fernandes é mestre em Filosofia e acadêmico de Medicina.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Filmes pro final de semana - 05/06

1. Amor (Amour, 2012)
Vencedor da Palma de Ouro em 2012 e candidato ao Oscar em diversas categorias principais, Amor chamou mais ainda os holofotes para o cinema francês. Dirigido pelo austríaco Michael Haneke, conhecido pela sobriedade e simplicidade de seus filmes, Amor aborda o mais universal dos temas a partir de um casal de idosos, dois professores de música aposentados, em um amplo e confortável apartamento em Paris - praticamente o único cenário do filme. Quando Anne (Emanuelle Riva) sofre um derrame, em um momento chocante em que fica paralisada, seu companheiro de décadas Georges (Jean-Louis Trintignant) passa a tomar conta dela, num esforço enorme para alguém de sua idade. Anne vai aos poucos definhando, substituindo a outrora expressão viva e alegre por uma máscara mortuária, e ao mesmo tempo o longa se torna tenso a partir dos cuidados obstinados de Georges e sua preocupação com o futuro.
Nota: 10
2. Toda forma de amor (Beginners, 2011)
Com a questão da diversidade tão em foco atualmente, é sempre bom refletirmos um pouco sobre o assunto por meio da arte. O cinema, como boa arte que é, faz e sempre fez muito bom uso desta questão. O infelizmente pouco conhecido Toda forma de amor (Beginners, 2011) explora de maneiras muito amplas uma máxima que todos conhecem e muitos respeitam (ou deveriam respeitar): toda forma de amor é válida. O filme se foca não apenas na relação confusa entre um casal demasiadamente simpático vividos por Melanie Laurent e Ewan McGregor, como também na relação ainda mais complexa entre este e seu pai (Christopher Plummer), que, já em idade bem avançada, decide abraçar um novo estilo de vida assumindo sua homossexualidade e se permitindo amar - tanto o namorado, quanto o filho - de maneira com a qual nunca pode ao longo de tantas décadas passadas pelos bloqueios pessoais que todos, em menor ou maior grau, costumamos nos impor. De forma carismática e adorável, Toda forma de amor é uma obra de grande delicadeza, simplicidade que, para olhares mais desatentos, pode parecer até superficial e pouco emotivo em meio a um montante de produções de sentimentalismo barato, mas que expressa destreza ao manifestar a complexidade dos relacionamentos e daquelas pessoas tão corriqueiras e inseguras que dão um palpável tom de realidade e empatia a seus dramas. O título original, Beginners, faz uma boa menção à posição de imaturidade de todas personagens perante os próprios sentimentos e os sentimentos dos outros, de modo que o filme foca justamente numa mudança de fase na vida de todos. Tudo isso somado ao melhor cachorro coadjuvante dos últimos anos, monta um filme agradabilíssimo e caloroso. 
Nota: 9,0/ 10
3. Direito de amar (A single man, 2009)
Protagonizado por um Colin Firth austero e introspectivo, Direito de amar acompanha o dilema de um professor inglês que vive na Califórnia, George (Firth), após a morte de seu companheiro, Jim, com quem viveu por 16 anos. George não consegue lidar com o vazio deixado por Jim, nem mesmo ocupando seus dias com suas aulas ou com a ajuda de sua amiga de longa data, Charlotte (Juliane Moore). O desespero faz o professor pensar e planejar seu suicídio, mas novas perspectivas podem convencê-lo de que ainda pode haver esperança em meio a tanta dor. O filme é recortado por diversos flashes do passado, no início do relacionamento com Jim, de momentos passados juntos e da trágica morte precoce.Além da bela e triste história, o filme conta com as incríveis atuações dos sempre competentes Colin Firth e Juliane Moore.
Nota:8,5/ 10
4. Encontros e desencontros (Lost in tanslation, 2003)
 Em seu segundo filme, Sofia Coppola provou ao mundo que não se firmaria em Hollywood apenas com o poderoso sobrenome, mas com o enorme talento que é comum à família. Em Encontros e desencontros Sofia une a história de um ator de meia-idade que está em Tóquio para gravar comerciais de uísque (Bill Murray) à de uma bela jovem (Scarlett Johansson) que está na cidade porque seu marido fotógrafo está trabalhando em um filme. Os dois se sentem solitários e, a partir do momento em que estão numa terra tão diferente de seu país de origem, perdidos não só na cultura e língua japonesas como no rumo que a vida tomou - ele, vivendo um casamento de 25 anos que perdeu a força e ela casada com um workaholic que a deixa de lado por causa do trabalho. Filme excelente (para muitos o melhor de Sofia) que foi indicado aos Oscar de melhor filme, direção, ator e roteiro original, este último o único faturado pela jovem e promissora Coppola.
Nota: 9,0/ 10
5. Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller's day off, 1986)
Saindo da linha romântica, um clássico contemporâneo que está completando 29 anos. Um filme inesquecível não só da sessão da tarde mas também o símbolo de uma geração que viveu a adolescência numa fase relativamente tranquila do mundo e queria algo pra sair da rotina. Ferris (Matthew Broderick) acorda num certo dia dizendo quão curta é a vida e que ela não deve ser desperdiçada com coisas inúteis como aulas de geografia. Ele então põe a namorada e o melhor amigo na Ferrari do pai deste e vão à Chicago fazer coisas num só dia que a maioria das pessoas não faz uma só vez na vida, como subir no carro de uma parada e cantar Twist and shout, dos Beatles. Que atire a primeira pedra quem nunca quis imitar o ídolo Ferris.
Nota: 10


Lucas Moura e Luís F. Passos

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Filmes pro final de semana - 08/05

1. Drive (2011)
Drive  centra-se na relação entre um homem misterioso, o qual nem sabemos o nome, interpretado por Ryan Gosling , que se encontra perdidamente apaixonado por sua jovem vizinha de modo a se dispor a protegê-la de todos os perigos que a envolvem, relacionados a seu marido recém saído da prisão e da máfia que os cercam. Tecnicamente falando, Drive é impecável. A fotografia é belíssima e acompanha as grandes mudanças de tom pelas quais o filme passa. Se num primeiro momento tudo é a magia da descoberta do amor, com paisagens bucólicas e ensolaradas ao entardecer, a metade final é negra, escura, sórdida e violenta. A violência é elevada aos limites conforme o conto torna-se cada vez mais perigoso e envolvente. A relação amorosa entre Ryan Gosling e Carey Mulligan é de uma pureza e uma sensibilidade que contrasta a todo o momento com o extremismo da violência onde aqueles personagens se encontram, tendo este antagonismo alcançado o ápice na já clássica cena do elevador. É quase um conto de fadas na verdade, onde um “príncipe encantado” luta a qualquer preço para defender sua “donzela” em perigo. A diferença é que no lugar de uma armadura de metal temos uma jaqueta prateada e em vez de cavalos brancos, carros envenenados dispostos a intensas cenas de perseguições.
Nota: 10
2. Preciosa - uma história de esperança (Precious, 2009)
Harlem, NY, década de 80.  Claireece Jones (Gabourey Sidibe), mais conhecida como Preciosa, é um poço de problemas. Com apenas 16 anos, a menina carrega o trauma de ser estuprada pelo pai, estar grávida do segundo filho dele, ser soropositiva, obesa, negra, e ter uma mãe (Mo'Nique) pra madrasta de Cinderela nenhuma botar defeito. A cereja em cima desse bolo de desgraças é o fato da coitada ser analfabeta. Apesar de tudo, ela não deixa de sonhar e às vezes se imagina rica, magra, famosa e desejada, mas isso não parece nada além de um sonho impossível. Felizmente Preciosa encontra em seu caminho algumas pessoas decentes, como sua professora miss Rain (Paula Patton), a assistente social sra Weiss (Mariah Carey) e o enfermeiro do hospital em que tem seu segundo filho, John (Lenny Kravitz). Como diz o título nacional, apesar dos pesares, é um título de esperança.
Nota:  9,0/ 10
3. Closer - perto demais (Closer, 2004)
And so it is... impressionante a qualidade e a capacidade de impactar deCloser. Dirigido por ninguém menos que Mike Nichols, veterano diretor de A primeira noite de um homem e Quem tem medo de Virginia Woolf?, Closeraborda quatro pessoas em Londres e suas relações de amor, ciúme e ódio entre elas: a fotógrafa Anna (Julia Roberts), por quem o escritor frustrado Dan (Jude Law) se apaixona e cria uma certa obsessão. Indiretamente graças a Dan, Anna conhece o médico Larry (Clive Owen), com quem se casa, mas mais tarde mantém um caso com Dan. Nesse vai e vem, há também a stripper Alice (Natalie Portman), com quem Dan mantinha um relacionamento, e que também vai se aproximar de Larry. Um drama sólido e intenso que vai muito além da questão de relacionamentos e traições; uma grande produção coroada com a música The blower's daughter.
Nota: 9,0/ 10
4. Cassino (1995)
Cinco anos depois do enorme sucesso de Os bons companheiros , Robert De Niro e Joe Pesci se reencontram sob a direção de Martin Scorsese para fazer aquele que é por muitos considerado como a continuação do filme de 1990: Cassino. De Niro interpreta Sam, jogador profissional que cresceu próximo a jogos de azar e todo o tipo de apostas, e é um dos melhores na sua área. Devido a sua reputação, é contratado por mafiosos de Las Vegas para gerir um grande cassino. Pouco tempo depois de se instalar em seu novo emprego, chama seu velho amigo Nicky (Pesci) para ajudá-lo com a segurança. Nicky é muito parecido com Tommy, personagem de Pesci emGoodfellas: muito esquentado e violento. Os negócios prosperam bastante para a dupla, que se estabelece de vez na cidade; fulano monta uma rede de restaurantes (além de ter uma quadrilha de ladrões sob suas ordens) e Jimmy constrói uma família ao lado da ex-prostituta Ginger (Sharon Stone) – figura que aparece para desestabilizar os negócios e a amizade de longa data de Sam e Nicky. Mais um exemplo da primorosa direção de Scorsese, que consegue fazer com que as 2h45 de Cassino passem rápido e deixem um gosto de quero mais.
Nota: 8,5/ 10
5. O Circo (The Circus, 1928)
Há tempo não via filme de Chaplin, e me acertei vendo um que era novo pra mim. Em O Circo temos mais uma vez o Vagabundo, Carlitos, que após um mal entendido com a polícia se mete num espetáculo circense e faz a plateia ir ao delírio com sua performance acidental. Ele é contratado como comediante pelo proprietário, um homem egoísta que vive maltratando a filha, que é corista no circo. Carlitos apieda-se da moça, que vive sendo maltratada pelo pai, e acaba criando um carinho especial por ela - bem especial, chegando a ter ciúmes de um equilibrista contratado. Bem, o filme é mudo e é predominantemente uma comédia, tendo algumas das cenas mais famosas da filmografia de Chaplin, como a que Carlitos fica preso na jaula de um leão. Uma boa pedida pra quem curte as mais clássicas comédias do cinema.
Nota: 8,0/ 10

Lucas Moura e Luís F. Passos

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Filmes pro final de semana - 01/05

1. Os sonhadores (The dreammers, 2003) 

Que Bernardo Bertolucci é um diretor polêmico, nem preciso dizer; basta lembrar de filmes como O último tango em Paris. E um de seus mais conhecidos trabalhos dos últimos anos (e consequentemente, polêmicos) foi Os sonhadores, de 2003, que acompanha um jovem americano que estuda em Paris, Matthew (Michael Pitt) que conhece os irmãos gêmeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green), ambos apaixonados por cinema como eles. Os irmãos são filhos de um casal de intelectuais que parte numa viagem, e Matthew é convidado para passar um tempo na casa deles. Não preciso dizer que a estadia de Matthew é marcada por eventos no mínimo estranhos, que são um misto de cinefilia, filosofia e sexo – não exatamente relações sexuais, mas várias formas de expressão do sexo. Por trás da sexualidade e eventuais bizarrices, temos aqui um ótimo filme sobre o cinema antigo das décadas de 20 e 30 e a nouvelle vague nos anos 60, além de acompanhar o espírito juvenil durante a inquietação política que marcou a França no ano de 68.  
Nota: 9,0/ 10 

2. Moulin Rouge - amor em vermelho (Moulin Rouge!, 2002)
O cabaré mais famoso do mundo chegou às telonas nesse inesquecível filme do habilidoso e extravagante diretor Baz Luhrmann. Na Paris do fim do século XIX, uma geração de jovens e pobres artistas buscava deixar sua marca na cultura da época, visando uma arte que girasse em torno da beleza, da verdade, da liberdade e do amor. Entre esses artistas há o escritor Christian (Ewan McGregor), que se apaixona pela mais bela das cortesãs do Moulin Rouge, Satine (Nicole Kidman) - mas entre os dois havia os planos de transformar o cabaré num teatro, um rico e maléfico barão e a doença que era o mal do século. Moulin Rouge fascina pelo exagero, brilho, beleza, músicas (apesar de não ter nenhuma música original, usando clássicos como Diamonds are the girls best friends e Like a virgin) e tem o grande mérito de ressuscitar o decrépito gênero dos musicais, sendo o primeiro musical em mais de vinte anos indicado ao Oscar de melhor filme.
Nota: 9,5/ 10
3. O Pianista (The pianist, 2002)
O diretor Roman Polanski apresenta uma visão do Holocausto diferente da comumente mostrada nos filmes, dos campos de concentração, e foca no gueto de Varsóvia através do pianista Władysław Szpilman (Adrien Brody), famoso músico polonês que assiste à invasão de seu país pelas tropas nazistas em setembro de 1939 e a implantação das absurdas leis contra os judeus, que culminou na implantação dos guetos. É impressionante a realidade do filme ao acompanhar a perda da dignidade de um homem na busca pela sobrevivência, e parece que os obstáculos não param de surgir. E no filme, a representação de um dos pontos altos do Holocausto: o levante do Gueto de Varsóvia, quando operários deram início a uma revolta contra os soldados que resistiu por mais de vinte dias até ser totalmente esmagada pelos alemães. A emocionante história de Polanski foi vencedora da Palma de Ouro, além dos Oscar de melhor direção, ator e roteiro adaptado.
Nota: 9,5/ 10
4. Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999)
Este longa de 1999 é centrado em Manuela (Cecilia Roth), enfermeira que perde seu único filho num acidente depois de assistir à peça Uma rua chamada pecado. Ela então vai à Barcelona em busca do pai do garoto para dar a notícia, mas não o encontra; quem ela reencontra é a travesti Agrado (Antonia San Juan), sua amiga de muitos anos atrás, e através de quem conhece a freira Rosa (Penélope Cruz), que descobre estar grávida e soropositiva. Manuela se vê mantendo Rosa sob seus cuidados e responsabilidade ao mesmo tempo em que se aproxima do elenco de Uma rua chamada pecado, cuja protagonista Huma (Marisa Paredes) vive Blanche DuBois dentro e fora dos palcos. Com referências ao cinema clássico, Almodóvar mais uma vez constrói perfis femininos através da ótica de um homem crescido entre mulheres, especialmente a figura materna simbolizada por Manuela. O resultado é um filme maravilhoso, vencedor do Prêmio de direção de Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Nota: 10
5. O pecado mora ao lado (The seven year itch, 1955)
Verão, Nova York, calor dos infernos e famílias em férias. Mas muitos maridos permanecem na cidade por causa dos empregos; é o caso de Richard Scherman (Tom Ewell), editor que se vê sozinho em casa e ganha uma vizinha loira, sensual e meio burra, uma modelo cujo nome é ignorado (Marilyn Monroe). Cria-se uma tensão sexual engraçadíssima entre os dois; Richard sente-se muito atraído, mas ao mesmo tempo temeroso de trair a esposa, enquanto a garota parece desconhecer o efeito que tem sobre o pobre Richard, perseguido por delírios de infidelidade. Em meio aos divertidos diálogos muito bem construídos, temos a cena em que o vestido de Marilyn levanta com o sopro do respiradouro do metrô, uma das mais famosas do cinema - e que apesar de toda a popularidade, não dura mais que poucos segundos.
Nota: 9,0/ 10 

Luís F. Passos

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Filmes pro final de semana - 24/04

 1. Sniper Americano (American Sniper, 2014)
Os filmes sobre guerras, cujo apogeu foram as décadas de 70 e 80, pós- Guerra do Vietnã, ainda têm muito a nos oferecer. É o que prova Sniper Americano. Dirigido pelo sempre competente Clint Eastwood, é baseado na história real de Chris Kyle (Bradley Cooper), o mais letal atirador de elite da história militar norte americana. Foram mais de 150 mortes confirmadas pelo Pentágono, chegando a 250 em versões não confirmadas. O mérito de Sniper Americano é fazer o que seus antecessores dos anos 80 também fizeram: acompanhar a degradação psicológica e moral de Chris ao longo do tempo, e os graves efeitos da guerra na sua mente e na sua vida social.
Nota: 8,0/ 10
2. Magia ao luar (Magic in the Moonlight, 2014)
O último filme filme de Woody Allen pode ser definido bem rapidamente como uma graça. Woody viaja no tempo e nos leva à Europa dos charmosos anos 20, onde somos apresentados a Stanley Crawford (Colin Firth), que nos palcos é o magnífico mago chinês Wei Ling Soo, mas fora deles é um cético incorrigível e arrogante o suficiente pra desprezar todo e qualquer crédulo. Stanley é convocado por um amigo,também mágico, a desmascarar uma jovem médium (Emma Stone) que está impressionando na Riviera Francesa, principalmente a rica família que a acolheu. Acontece que por mais que se esforce, Stanley não consegue encontrar falhas na garota. E quando um cético acredita em algo, ele acredita de verdade - e mais que confiança, essa conflituosa relação 
Nota: 9,0 / 10
3. Ela (Her, 2013)
Sem dúvidas um dos melhores e mais bonitos filmes dos últimos anos. Theodore (Joaquin Phoenix) é um solitário escritor que acaba se apaixonando por um sistema operacional (OS). O filme é ambientado num futuro próximo, onde a tecnologia é sutilmente mais avançada que no presente, e os sistemas operacionais são grandes facilitadores da vida das pessoas. Samantha (voz de Scarlett Johansson), o OS de Theodore, dotado de voz feminina e personalidade, acaba por envolver seu dono. A ideia do amor entre um homem e um software parece totalmente plausível, apesar de uma certa estranheza com que muitas pessoas encaram a relação. A proposta é fazer pensar na relação de dependência com a tecnologia além de, claro, afirmar que toda forma de amor vale a pena.
Nota: 10
4. Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin, 2011)
Mais uma vitória do circuito semi-alternativo americano. Um filme tenso, provocador, reflexivo e belo - beleza oculta por mágoas, mas belo. O longa baseado no best-seller homônimo é focado na figura de Eva Khatchadourian (Tilda Swinton), cuja história é montada a partir de flashbacks que datam da infância de seu filho mais velho, Kevin (Ezra Miller) até a adolescência dele; o menino doce que escondia birras e uma certa maldade que só a mãe parecia perceber, a ligação aparentemente saudável com o pai Franklin (John C. Kelly) e a paixão pelo arco e flecha, que tem papel importantíssimo na história. Desde o início vemos do que Kevin foi capaz de fazer, mas ver todo os antecedentes e o agravamento da relação entre mãe e filho é o que o filme mais tem de espetacular, realçado pelas excelentes atuações de Ezra Miller e Tilda Swinton. Sem dúvida uma das melhores críticas à sociedade americana contemporânea.
Nota: 9/ 10
5. Todos os homens do presidente (All the President's men, 1976)
Um filme de investigação jornalística sem paralelo. Baseado num escândalo da política americana dos anos 70, Todos os homens do presidente tem seu ponto de partida no assalto à uma sede do Partido Democrata. Analisando o pouco valor subtraído e a condição social dos suspeitos, dois jornalistas do The Washington Post (Dustin Hoffman e Robert Redford) farejam um mistério que desafia figurões do alto escalão da política e pegam um rastro que segue até a Casa Branca. Apoiados por seu editor chefe e com o inconstante apoio de um informante que soltava apenas poucos detalhes do que sabiam, a dupla enfrenta inimigos poderosos que mal conhecem, numa caçada que pode abalar os pilares da política mais influente do mundo.
Nota: 10

terça-feira, 21 de abril de 2015

A Rede Social - Crônica de uma geração

Há uns quatro anos eu via pela primeira vez a cerimônia do Oscar tendo assistido a boa parte dos filmes que concorriam, e começava a arriscar meus palpites. Na ocasião, obviamente, torcia por Cisne Negro na categoria principal, mas não achei ruim O discurso do rei ter levado o prêmio. O que me deixava intrigado era: o que A rede social estava fazendo na lista, concorrendo a tantas estatuetas? O tempo passou, meu pequeno conhecimento sobre cinema aumentou um pouco, o gosto apurou, A rede social foi novamente assistido e eu tenho a resposta da pergunta de 2011 na ponta da língua: é um filmaço. Diferente do que todo mundo pensou na época de seu lançamento, A rede social não é um filme sobre o Facebook ou sua criação. O evento acaba sendo só o plano de fundo pra o muito que o filme tem a oferecer.
O ano é 2003 e estamos na Universidade Harvard, uma das melhores e mais prestigiadas do mundo, e certamente a mais socialmente estratificada dos Estados Unidos. Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) é um jovem aspirante a programador que rompe com a namorada Erica depois de uma briga um tanto tola, mas que segundo ela foi mais uma manifestação da arrogância e falta de sensibilidade de Mark. Abalado, ele vai pro dormitório e começa a beber e escrever em seu blog pessoal. Quanto mais bêbado ficava, mais ofensas dirigia à ex e às mulheres em geral. Além disso, ele teve a ideia de criar um site chamado Facemash, com fotos de todas as alunas da universidade, para criar um ranking das mais bonitas. Lá pelas tantas seu melhor amigo, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield) aparece e Mark lhe pede um algoritmo que permita fazer a comparação no Facemash. O site vai pro ar, se torna um sucesso instantâneo em plena madrugada, e às 4h da manhã derruba o servidor de Harvard. Foram 22 mil acessos em apenas duas horas.
A fama do Facemash deu, além de uma audiência no conselho de disciplina de Harvard, uma certa notoriedade a Mark. É aí que entram em cena os gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss, jovens aristocratas da equipe de remo, que junto de seu amigo Divya Narendra, queriam construir um site de relacionamentos para estudantes de Harvard - que teria o domínio Harvard.edu, "o endereço de email mais prestigiado do país". O fato de Mark ter criado um site em apenas algumas horas, e bêbado, fez os três verem o potencial de Zuckerberg, e o convidam a ser o programador do seu projeto. Acontece que onde os Winklevoss e Narendra viam um site pra uma universidade, Mark via algo muito maior. Ele enrolou os gêmeos por mais de quarenta dias, fingindo que não estava trabalhando no projeto deles, até que lança um projeto seu: thefacebook. Põe o site no ar com a ajuda de Saverin e outros amigos, informando em todas as páginas que se tratava de uma realização de Mark Zuckerberg. Não demora muito e os gêmeos o processam por roubo de propriedade intelectual.
Com o apoio financeiro de Saverin, o thefacebook sai dos muros de Harvard e alcança outras universidades, sendo um sucesso em todas. É aí que a amizade do brasileiro com Mark começa a desandar. Eles conhecem Sean Parker (Justin Timberlake), criador do Napster, que chega com mil ideias para alavancar o site; acontece que a antipatia entre Parker e Saverin é imediata, e culmina numa armação para afastar o brasileiro da empreitada. Resultado: Saverin também processa Zuckerberg.
A Rede Social (The social network, 2010) é um filme repleto de ironias. A primeira delas: um site de relacionamentos que fez várias pessoas, inclusive dois melhores amigos, brigarem. O interessante é que momentos da época da criação do Facebook (que perdeu o "the" com uma sugestão de Parker) são intercalados com cenas da batalha judicial pelo site, em que os três lados (Mark, Saverin e os gêmeos) lavam muita roupa suja nas audiências de conciliação. Essas audiências são cheias de exposição de mágoas, intrigas, decepções, traições e inveja. Acho que por mais que o filme tente ser imparcial na exposição da história, unindo os pontos de vista das três partes pra montar o enredo, ele acaba se desviando pra o lado que aponta um culpado - e aí vem outra ironia fortíssima: em volta da origem da maior rede de relacionamentos do mundo, a incapacidade de se manter relações duradouras.
Os protagonistas são expostos como mitos da sociedade contemporânea, em especial, claro, Mark Zuckerberg. Criador do Facebook aos 19 anos, aos vinte e poucos considerado o bilionário mais jovem do mundo, Mark é uma representação do poder de ser genial. De como é incrível ser jovem e muito mais que ser inteligente, ser criativo e inovador. Bilionário parece ser o de menos, o que é realmente vibrante é despontar como um garoto prodígio. E é nesse sentido que a direção de David Fincher leva o filme durante todo o tempo. Direção, inclusive, que pode ser resumida numa palavra: espetacular. Espetacular como todos os outros aspectos artísticos e técnicos do filme, que pra mim foi um dos três melhores no cinema americano num ano de ótima safra.

Nota: 10

Luís F. Passos

sexta-feira, 20 de março de 2015

Filmes pro final de semana - 20/03

1. Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014)
Pra quem é fã do grande diretor Wes Anderson, seu filme do ano passado é obrigatório. Traz todos os elementos recorrentes em sua obra: o jogo de cores claras, as simetrias, as personagens complicadas e a comédia comedida.  O título do filme é o mesmo do hotel em que é centrada a história, numa ex-república socialista, na porção mais oriental da Europa. Quem narra o enredo é seu proprietário, Zero Moustafa (F. Murray Abraham), contando como o grandioso e outrora prestigiado hotel chegou a suas mãos; a era de ouro do estabelecimento, quando administrado pelo rigoroso monsieur Gustave H. (Ralph Fiennes) e as divertidas enrascadas em que ambos se meteram envolvendo uma imensa herança.
Nota: 8,5/ 10
2. As Horas (The Hours, 2002)
"Sempre os anos entre nós. Sempre os anos, sempre o amor, sempre as horas". Baseado (em um livro que se baseia) na obra de Virginia Woolf, o complexo e introspectivo As Horas acompanha um dia na vida de três mulheres distintas que vivem em épocas distintas: a escritora Virgina Woolf (Nicole Kidman) nos anos 20, a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore) nos anos 50 e a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep) em 2002. O que une as três é o romance Mrs Dalloway, escrito por Virginia, lido por Laura e cuja protagonista se assemelha a Clarissa (tendo, inclusive, o mesmo nome). Ambas as personagens tentam esconder e lidar com a angústia que as sufoca, mesmo as que aparentemente levam uma vida perfeita. Ambas as três terão seus mundos transformados ao longo de um único dia.
Nota: 10
3. Interiores (Interiors, 1978)
Depois de vencer o Oscar nas categorias filme, direção e roteiro com sua inovadora comédia romântica Annie Hall, Woody Allen mostra sua versatilidade no seu primeiro filme de drama: Interiores. Bastante influenciado pela filmografia do ídolo Ingmar Bergman, Woody cria a trama de três irmãs que pouco se conhecem e são distantes, já que sempre esconderam seus medos e verdades dentro de si. Mas o centro da história é a mãe delas, Eve (Geraldine Page), que vê seu casamento de décadas desmoronar e se descobre sem chão e sem rumo. Por sugestão das filhas, Eve começa a trabalhar como decoradora, mas nem o novo emprego consegue fazê-la arrumar a bagunça que tem dentro de si. Este é mais um dos filmes de Woody que infelizmente não são muito conhecidos, apesar da qualidade - altíssima.
Nota: 9,5/ 10

4. The Rocky Horror Picture Show (1975)
Numa época em que os filmes eram muito inovadores, o inusitado musical sobre a criação de uma versão musculosa de Frankstein  conseguiu deixar todo mundo boquiaberto. Quando o inocente casal Brad (Barry Botswick) e Janet (Susan Sarandon) encontra um castelo à beira da estrada numa noite chuvosa não podiam imaginar o que encontrariam: seu proprietário, o dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), um "doce travesti da transsexual Transylvania", seus estranhos criados e também estranhos convidados, prestes a presenciar a criação de um Frankstein moderno e musculoso. Mais que um festival de músicas que grudam, The Rocky Horror Picture Show é uma mistura de sexualidade escancarada, frases irônicas ou de duplo sentido e figurino alucinante, que o que tem de estranho, tem duas vezes mais de qualidade. Let's do the time-warp again!
Nota: 9,5/ 10
5. Era uma vez no Oeste (C'Era una Volta Il West, 1968)
O velho Oeste filmado de um jeito novo, através da tradição da ópera italiana. O diretor Sergio Leone traz uma história de vingança, sonhos e ambição através do misterioso Harmônica (Charles Bronson), da viúva e ex-prostituta Jill (Claudia Cardinale) e do assassino Frank (Henry Fonda). O filme é marcado pela construção de ferrovias liderada pelo milionário Morton (Gabrielle Ferzetti), que contrata Frank e seu bando para expulsar todos os fazendeiros que se puserem em seu caminho, entre eles o marido de Jill, morto no início do filme. Guiado por um ódio antigo que aos poucos é explicado, Harmônica, junto do bandido de quinta Cheyenne, vai proteger a viúva e suas terras da ambição de Morton e dos criminosos de Frank. Seja por cenas memoráveis, como a abertura interminável, seja pela paisagem intrépida, pelo elenco de peso, pelo incrível roteiro ou mesmo pela música que Harmônica toca em sua gaita, o filme de Leone se consagrou imediatamente como um clássico.
Nota: 10

Luís F. Passos