domingo, 30 de setembro de 2012

O Brega - Fogo e paixão

Amor, desamor, traição, bebedeira e prostituição. Esse é o universo do brega. Um estilo musical tão maltratado e injustiçado. Estilo que fala de fatos da vida tão comuns. E como só viver a vida não basta. Tem que vir um corno e cantar seu sofrimento pra servir de trilha sonora no boteco mais próximo. Talvez como forma de fugir do sentimento ou de desabafar. E é desse universo que eu vou me atrever a falar.
Amor e desamor. Sentimentos que fazem parte da vida de qualquer um. Mas que podem ser tratados de formas diferentes. No brega eles não são requintados. São simples. São cantados para pessoas simples: pedreiros, cobradores e pro garçom do bar da esquina. Talvez a diferença entre o desamor de Atrás da Porta de Chico e o de Pecado de Amor de Pablo é o publico alvo. Mas é o mesmo sofrimento cantado de maneiras diferentes. Pois no brega uma mulher nunca vai fazer cinema, mas provavelmente  vai ser a secretária com quem o cara trabalha todo dia.
Traição e bebedeira. Digamos que a parte mais peculiar do universo brega. E como a maior característica desse estilo é falar do cotidiano das pessoas mais simples, nada mais normal que falar do chifre e do porre tomado por alguém.  Uma mulher que vai ver outro rapaz sempre que o seu namorado sai e que provavelmente vai traí-lo em plena lua mel. Um cara que grita pro garçom: “Traga mais uma garrafa que hoje eu vou me embriagar...”. Pois a “dama de vermelho” que ele ama, já não é mais dele e o pobre coitado morre de ciúmes e não aguentaria vê-la dançar com outro. São historias simples e tão humanas como essas que servem de inspiração a essa fatia do brega. E nada melhor  que um bom porre pra esquecer a gaia levada. Pois pra matar a tristeza só mesa de bar...
Prostituição. Uma palavra que vive rodeando o imaginário masculino. E que não poderia ficar fora de uma coisa tão humana como o brega. São musicas que contam histórias como a do homem que doente de amor vai procurar remédio na vida noturna com uma “flor da noite” da Boate Azul. Outra que consegue misturar amor com uma essa palavra que parece ser despida de sentimentos. Como quando um cara se apaixona por uma prostituta que ele conheceu no cabaré e decidi tira-la daquele lugar.  E convenhamos, quase nada consegue ser mais brega que um cabaré.
Portanto, caros leitores, todos vocês são bregas. Amam. Sofrem por amor. Alguns traem. Outros ainda bebem quando estão sofrendo. Então parem de criticar o Brega só porque alguém disse que não presta e vivam o lado brega da vida kkkkk

Jorge Henrique

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sagaranando recomenda: Il y a longtemps que je t'aime

Há quase um ano atrás afirmei aqui no blog que uma das coisas que mais gosto no cinema francês é o quanto os filmes são surpreendentes. Pra ser bem sincero, ver filme francês é uma questão de ser paciente. Isso porque os longas costumam começar mornos, se desenvolver mornos pra no fim esquentar de vez. Você tá lá pensando "é, é legal, mas nada demais", e quando chega o final e tudo é explicado pensa "caramba, que filmaço!".
Comigo não foi diferente quando vi Il y a longtemps que je t'aime, filme sem título em português, mas que traduzindo ao pé da letra seria "Faz muito tempo que eu te amo". A história começa quando Juliette, depois de cerca de vinte anos na prisão, ganha sua liberdade e vai morar com sua irmã mais jovem, Léa, que é casada e tem duas filhas adotivas. Léa tenta ao máximo se aproximar de Juliette, mas esta é triste, amarga e parece viver em uma concha, protegida e isolada do mundo exterior. A personagem é tão dura que chega a assustar em alguns momentos, já que inicialmente não se sabe nada de seu passado nem o que a levou à prisão.
Aos poucos - bem aos poucos - Juliette vai se rendendo aos esforços da irmã e à doçura da sobrinha, com direito a umas cenas muito bonitas em que lhe dá lições de piano. E assim segue o filme, quase que no mesmo tom. Nos últimos vinte minutos, BUM! O espectador nem consegue piscar, fica de boca aberta e abençoa a hora em que decidiu ver o filme.
Como disseram os críticos, o longa pode não ter os melhores direção e roteiro, mas flui e envolve de um jeito tão bom, e tem atuações tão boas (principalmente Kristin Scott Thomas) que se faz merecidamente notável.

Luís F. Passos

domingo, 23 de setembro de 2012

A Princesa e o Plebeu - a grande estreia de Audrey Hepburn

Ann (Audrey Hepburn) é uma princesa de um país europeu que está visitando as principais capitais da Europa. Em público, aparenta sempre ser uma jovem séria, gentil e dedicada aos compromissos reais. No entanto, em sua intimidade, ela se mostra uma pessoa totalmente diferente. Ao contrário da figura correta que é obrigada a mostrar, Ann é infeliz e está constantemente entediada pelos enfadonhos compromissos reais. Apesar de ser uma vida de luxo, a vida da realeza é incrivelmente previsível e, de várias maneiras, fútil e quase desnecessária. Por essas razões ela está tão cansada de tudo aquilo e quer sair pelo mundo, conhecendo pessoas e lugares novos e aproveitando pequenos prazeres da vida.
Em sua visita à capital italiana, após uma crise histérica, ela resolve fugir do palácio e ir para a cidade como uma pessoa normal. No entanto, antes de fugir, ela havia sido medicada para que sua histeria fosse controlada. No fim das contas, acaba dormindo em praça pública no meio da cidade. É aí que ela conhece Joe Bradley (Gregory Peck), que acaba levando-a para sua casa por ela não ter condições de se cuidar sozinha estando entorpecida pela medicação.
Bradley é um jornalista de um jornal qualquer que, ao descobrir que a moça de quem é obrigado a cuidar, é na verdade a princesa, percebe que ali está uma verdadeira mina de ouro. Decide, então, aproveitar a oportunidade e tentar arrancar de Ana detalhes de sua vida pública e privada e publicá-los num jornal pelo valor de cinco mil dólares (ou mais), contando com a ajuda de seu melhor amigo, Irving (Eddie Albert), que vai tirar fotografias da princesa.
Sem ela desconfiar de nada, os três passam a percorrer as ruas de Roma, visitando belos pontos turísticos da cidade, onde a moça vai fazer todas as coisas corriqueiras feitas por gente comum que ela jamais teve a oportunidade de fazer e se divertem em situações das  mais banais às mais improváveis. Obviamente, um não sabe a verdade sobre o outro. Ana se passa por uma estudante de um colégio interno e Bradley por um trabalhador da indústria de produtos químicos.
A química entre Ann e Bradley é nítida desde as primeiras cenas e, obviamente, ao longo do dia os dois acabam se apaixonando e vão viver intensamente cada minuto juntos, sabendo que seu relacionamento sofre impedimentos gigantes.
O grande mérito desta simples e simpática comédia romântica é o da revelação da própria Audrey Hepburn. Se sua personagem Ann resolve sair da elite para experimentar a vida de plebéia, Audrey fez o caminho inverso: saiu do quase anonimato e se lançou de cabeça no topo de Hollywood, conquistando inclusive, o Oscar de melhor atriz, e se firmou lá de tal maneira que é, até hoje, uma das atrizes americanas mais reconhecidas. O fenômeno Audrey Hepburn, logicamente, não é inexplicável. Ann é a personagem perfeita para a atriz que fez da delicadeza a marca principal de suas personagens (até mesmo da própria Holly Golightly).
Por mais que deva muito à presença de Audrey, A princesa e o plebeu (Roman Holiday, 1953) também conta com um excelente elenco, um bom roteiro (é previsível, mas o final foge um pouco do padrão dos finais felizes dos filmes de romance) e conta com a direção de William Wyller, um dos principais diretores de sua época.

Leia também: Bonequinha de luxo

Lucas Moura

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Melancolia - o fim do mundo segundo Trier

Melancolia (Melancholia, 2011) acompanha os últimos dias de duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg) perante a passagem de um planeta chamado Melancolia pela Terra, algo que promete ser um grande espetáculo visual, já que a informação divulgada pelos cientistas é de que não há possibilidade de colisão, mesmo assimcria-se muita tensão em todo o mundo.
Num primeiro momento acompanhamos Justine em seu casamento, uma bela festa realizada por sua irmã no castelo de seu marido (Kiefer Shutterland). Nos primeiros momentos dessa seqüência (toda a primeira parte do filme é intitulada Justine) vemos a moça incrivelmente feliz. Pouco a pouco, durante a festa, Justine vai adquirindo comportamentos cada vez mais estranhos, torna-se cada vez mais distante e inquieta, desmancha os sorrisos falsos e não consegue mais disfarçar uma tristeza profunda. Fica claro que ela não está bem e que sofre de depressão. Mesmo a possibilidade de renovação garantida pelo matrimônio não foi capaz de ajudar em sua recuperação e após a festa ela passa a se entregar cada vez mais à doença. Uma boa explicação de um dos prováveis motivos para ela ser desse jeito, pode se encontrar nas figuras paternas. O pai e a mãe são totalmente opostos. Enquanto ele é muito alegre e pouco presente, ela é totalmente controladora, nem um pouco amável e parece estar sempre por ali.
Justine só faz piorar, não tem forças para comer, se levantar da cama ou tomar banho e acaba, então, passando um tempo no castelo junto com a irmã. Essa segunda parte do filme, intitulada Claire, vai se centrar nas duas irmãs e em seu relacionamento. Claire cuida de Justine, faz tudo para que ela melhora mas nada parece ter um resultado efetivo. Enquanto isso, o Melancolia se aproxima cada vez mais e mais da Terra e Claire fica cada vez mais insegura com relação a isso, na verdade, fica aterrorizada.
Enquanto o planeta se aproxima e com ele a grande possibilidade de um fim iminente, a tão orgulhosamente controlada Claire vai descontrolando, e a perturbada Justine parece até se recuperar um pouco, de modo até a encontrar um tipo de satisfação e aceitação de que o fim de tudo seja a melhor saída pra ela. Essa leve inversão de papéis vai se intensificando ao longo de toda a segunda parte do filme, principalmente após a confirmação de que os dois planetas realmente vão colidir, sobretudo na última cena com a destruição do planeta (um momento belíssimo). 
Melancolia segue a linha de ótimos trabalhos de Trier. Aqui ele lança algo novo em sua carreira, um filme que mistura drama com ficção científica, cheio de questões existenciais sobre como o homem é impotente e desprotegido. Também é um filme visualmente muito bonito, uma das fotografias mais interessantes que já vi em um filme. As primeiras cenas são apenas mixagens de imagens em uma super câmera lenta que mais parecem pinturas. Nessas imagens, é possível captar todos os mínimos detalhes do movimento e da expressão dos atores. A trilha sonora também é muito bonita e o elenco é ótimo. Principalmente Charlotte Gainsbourg (recorrente da filmografia de Trier, trabalhou com ele em O anticristo) e Kirsten Dunst (que saiu vencedora de melhor atriz principal em Cannes). 
A única coisa que poderia impedir que Melancolia fosse efetivamente colocado como um dos melhores filmes do ano e que levasse a Palma de Ouro em Cannes era o próprio Trier. Declarações equivocadas feitas por ele em uma coletiva de imprensa tiraram toda e qualquer chance do filme sair vitorioso, o fizeram ser expulso do festival, prejudicou prováveis futuras premiações ao filme (sobretudo Kirsten Dunst) e quase ofuscou o brilhantismo no qual esse filme foi realizado.

Lucas Moura

domingo, 16 de setembro de 2012

Tropa de Elite - agora o bicho vai pegar

Fé em Deus! DJ! Parapa-papapá-papá. Parapa-papapá-papá. Papará-papará-cláqui-bum!Parapa-papapá-papá.
Se você esteve no Brasil durante os últimos cinco anos e não se lembra qual a música a que pertence o trecho acima, pode procurar um neurologista. Afinal, nunca houve febre maior do que a provocada pelo corajoso e revolucionário Tropa de Elite (2007), filme brasileiro estrelado por Wagner Moura e dirigido por José Padilha. Com dois milhões de ingressos vendidos nos cinemas e pelo menos vinte e cinco milhões de dvds pirateados em todo o país, foi a maior fonte de bordões, músicas virais e paródias (inclusive as mais infames, como Bofe de Elite) daquele ano.
Morro do Dendê é ruim de invadir; nóis c'os alemão vamo se divertir. Porque no Morro do Dendê eu vou dizer como é que é: aqui não tem mole nem pra DRE. Pra subir no Dendê até a BOPE treme!
Roberto Nascimento (Wagner Moura) é capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro e chefe da equipe Alfa do Batalhão de Operações Especiais, o BOPE. Enquanto a PM era composta por trinta mil homens, em sua maioria mal armados e mal treinados, o BOPE contava com apenas cem militares - uma tropa de elite preparada para as piores situações, principalmente as que envolvem o combate ao tráfico de drogas nas favelas. Segundo Nascimento, o BOPE só faz parte da PM na teoria, porque na prática é outra polícia. Não veste azul, veste preto, e seu símbolo é uma caveira com uma faca enfiada; portava armas usadas apenas em países em guerra (e mesmo assim inferiores às do tráfico) e é o único batalhão onde não há corrupção. Nas palavras de Nascimento, num lugar violento como o Rio, e com os baixos salários recebidos pelos policiais, so há três caminhos: a omissão, a corrupção ou a guerra. E a opção dos membros do BOPE sempre foi a guerra.
Bota na conta do papa.
O ano é 1997 e a mulher de Nascimento, Rosana, está esperando o primeiro filho do casal. Cansado da guerra ao narcotráfico, o capitão pretende abdicar de sua farda preta e retornar à polícia normal, mas para isso ele precisa cumprir duas missões: encontrar um substituto a sua altura para chefiar sua equipe e pacificar as favelas em torno da sede da Arquidiocese do Rio, onde o papa João Paulo II ficará hospedado durante sua visita ao Brasil ("Tanto hotel em Copacabana e o papa quer dormir embaixo de favela? Depois de vir duas vezes ao Brasil, ele deveria saber como é que a banda toca por aqui"). É aí que a história de Nascimento se cruza com a de dois aspirantes a oficiais, Neto Gouveia (Caio Junqueira) e André Mathias (André Ramiro). Os dois são amigos de infância e entraram na polícia juntos. Ambos são honestos e idealistas, e assim que conhecem como é a PM por dentro - corrupta da ponta do pé ao último fio de cabelo - se decepcionam com a instituição e veem o BOPE como última esperança.
- Operações Especiais!
- NUNCA SERÃO!
Aí que vem a parte mais chocante do filme, e a maior responsável por sua popularidade: o curso de treinamento do BOPE. São duas semanas em que os aspirantes passam por coisas que só um soldado americano no Vietnã saberia descrever. Exercícios puxadíssimos, fome, frio, comida estragada e o terror físico e psicológico por parte dos membros do batalhão. Nascimento não esconde o jogo e se mostra o pior dos carrascos, pronto pra expulsar logo os fracos e os corruptos.
Pega um, pega geral, também vai pegar você!
Tropa de Elite foi avassalador, e não é difícil entender o porquê. Pra quem gosta de ação, o que não falta são ótimas sequências, mostrando a estratégia (em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie...) do BOPE na invasão de favelas, além do impressionante treinamento dos aspiras. Pra quem quer botar a cabeça pra trabalhar um pouco mais o filme traz a polêmica questão do consumo de drogas, apresentando a ideia de que não haveria venda se não houvesse alguém pra comprar. Nascimento, numa cena, aponta a arma para um usuário dizendo "é você quem sustenta toda essa merda". Esse lado também é mostrado através de Mathias, que estuda direito numa faculdade particular e presencia o uso e a venda de drogas por parte de colegas ligados a Baiano (Fábio Lago), "dono" do morro dos Prazeres, mas se omite por estar apaixonado por uma delas.
- Homem de preto, o quê que você faz? Eu faço coisa que assustam o Satanás!
- Homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e botar corpo no chão!
Mas aquilo que o filme tenta passar mesmo é o absurdo da violência usada pelo BOPE ao entrar em comunidades e ao interrogar suspeitos. É impressionante. Nascimento não hesita em bater no rosto, botar no saco ou até mesmo ameaçar com uma vassoura (vocês lembram onde). Direitos humanos são postos de lado no abuso da força policial. O legal é que exigiu muito de Wagner Moura, e o cara não decepcionou, fazendo um ótimo trabalho (que foi melhor ainda no segundo filme). Sua atuação foi reconhecida em alguns festivais nacionais, assim como a de Milhem Cortaz, que faz o corrupto capitão Fábio, amigo dos aspiras Neto e Mathias. Mas quem foi reconhecido mesmo foi o filme, que levou o Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim (Melhor Filme). Mas como Nascimento diz, nesse país as coisas não acontecem como deveriam: Tropa de Elite não foi indicado ao Oscar, pois nosso querido Ministério da Cultura escolheu "O ano em que meus pais saíram de férias" para a seletiva da Academia - e este nem foi aprovado. Pior que isso só o que aconteceu com Tropa 2, mas isso é assunto para os próximos capítulos.
Na cara não, doutor, na cara não! Na cara não, pra não estragar o velório!
Luís F. Passos

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Montanha Mágica - 1001 páginas para ler antes de morrer

Hoje escolhi falar sobre Thomas Mann, escritor alemão, Nobel de Literatura em 1929. Considerado como um dos maiores romancistas do século XX, escreveu obras reconhecidas como Os Buddenbrooks (1901), Doutor Fausto (1947) e A Montanha Mágica (1924), sobre a qual discorrerei.
O livro narra a história de Hans Castorp que foi visitar o primo, Joaquim Ziemssen no Sanatório Internacional de Berghof, a 1600 m de altitude nas montanhas da Suíça. Mais tarde descobre a si mesmo como tuberculoso e sua visita de três semanas acaba virando uma estada de sete anos, quando sai do sanatório para combater na Grande Guerra. E é isso. Porque então ler um livro de 1000 páginas com um enredo tão simples que cabe em um parágrafo? Porque nos faz refletir em cada uma de suas digressões filosóficas, políticas e sociais, porque somos transportados para época pré-guerra e podemos sentir o espírito europeu vigente, com suas diferentes idéias, porque nos envolvemos com o ambiente do Sanatório e com cada um de seus hóspedes.
Aliás, o Sanatório merece um destaque a parte. Ele é na verdade um microcosmo que reúne gente de todos os lugares, com todo tipo de idéia e com personalidades diferentes. A sala de refeições, onde passam a maior parte do tempo, é divida em sete mesas, cada qual com um “grupo social”, como a “sociedade meio-pulmão” (pacientes que realizaram o pneumotórax), ou a mesa dos “russos distintos” ou a dos “russos ordinários”. É um lugar onde “não há tempo nem vida” onde “se modificam todas as concepções”. Isso devido à monotonia do ambiente montanhoso com sua neve eterna aliado ao próprio regime do internamento. Com cinco fartas refeições por dia, seguidas do repouso obrigatório, nada melhor que as palavras do próprio narrador para definir a concepção de tempo lá:
“Se o dia se tornava breve pela múltipla subdivisão, de noite era a monotonia amorfa do progresso das horas a que produzia o mesmo efeito”.
E é lá onde nosso caro Hans que viria passar três semanas, onde a menor unidade de tempo é o mês, acaba ficando para tratar sua tuberculose recém descoberta. Aproveito o ensejo para caracterizar o nosso herói. Na época com 24 anos, escolheu a profissão de engenheiro naval, mas poderia muito bem ter escolhido outra coisa, desde que lhe permitisse “sair airosamente perante si mesmo e aos olhos do mundo”. Era um “jovem singelo ainda que simpático”, membro da aristocracia, mimado e franzino que gostava de viver bem. Nas palavras do autor:
“Hans Castorp não era nem um gênio nem um imbecil, e a razão de evitarmos, para sua qualificação, o termo “medíocre”, reside em circunstâncias que nada têm que ver com sua inteligência e quase nada com sua singela personalidade; fazemo-la devido ao respeito que temos pelo seu destino, ao qual nos sentimos inclinados a atribuir certa significação ultraindividual.”
Chega lá como uma ‘folha em branco’ e aos poucos acompanharemos seu amadurecimento intelectual e o vemos ser tragado pelo sanatório. Não demora muito e já estará usando expressões como “nós aqui de cima”, parará de usar chapéu (um hábito de “lá de baixo”), começará a tomar nota de sua temperatura várias vezes por dia, aprenderá o jeito certo de se cobrir na espreguiçadeira da sacada. Até seu querido Maria Mancini, sua marca de charutos preferida, perderá o sabor e marcará essa adaptação completa perto do fim do livro, quando para de importá-lo e passa a fumar marcas locais.
“Essa adaptação viera mais depressa do que se poderia imaginar: o tempo, nessas alturas, tinha um caráter especial e parecia feito para produzir hábitos, ainda que fosse apenas o hábito de não se habituar.”
Chega o momento de não mais fazer questão de receber alta, já não terá mais vínculos com ‘lá embaixo’ e se adapta completamente a sua “vida horizontal” nas palavras de Settembrini, um dos hóspedes e também uma espécie de orientador na formação intelectual desse “filho enfermiço da vida”. 
Aliás as discussões filosóficas entre Settembrini e Naphta, o humanista e o jesuíta são um dos pontos altos do livro. Mas não podemos esquecer também os outros personagens, como o melancólico Dr. Behrens, também apelidado de Radamanto, o que já diz muito sobre sua figura; o Dr. Krokowski, seu assistente; a enfermeira Von Mylendonks, com seu pince-nez; entre os hóspedes temos a estulta Sra. Stöhr; a bela Marusja, com seus risinhos e a misteriosa Mme. Chauchat cujos “olhos quirguizes” lembram os de Prislav um colega de ginásio do nosso protagonista, e a qual despertará nele uma certa obsessão erótica, a mesma nutrida pelo colega.
E praticamente isso tudo estará presente nas primeiras 141 páginas que descrevem o primeiro dia do nosso protagonista. Nosso meticuloso Mann marcou a própria estrutura do livro com a relatividade do tempo. Ao fim do primeiro dia, nosso herói pensa já estar lá há meses, e assim pensamos nós. Depois disso, o tempo passa muito rápido, passam-se sete anos nas próximas 900 páginas. Afinal, “todo caminho que trilhamos pela primeira vez é muito mais longo do que o mesmo caminho quando já conhecemos”. O final do livro é marcado pela ambiguidade, não está claro se nosso protagonista alcança o pleno desenvolvimento de sua individualidade, nem se morre ao fim como soldado anônimo.
Classificado pelos alemães como um Bildungsroman, ou seja, um romane que narra a história do aperfeiçoamento do herói como ser humano, no sentido moral, psicológico, político esse é o tipo de livro que também participa da formação pessoal do leitor. Sua linguagem é muito refinada, quase poética, mas ao mesmo tempo tão simples no seu entendimento. Mann se reafirma como um mestre da sintaxe, com frases tão bem estruturadas e idéias tão bem expostas. Para me fazer entender usei muitas passagens do livro, de outra forma não conseguiria me aproximar da grandiosidade da obra. Escrita a mais de 83 anos, permanece atual. Termino aqui essa resenha com mais um trecho:
“Acontece, porém, com a história o que hoje em dia também acontece com os homens, e entre eles, não em último lugar, com os narradores de histórias: ela é muito mais velha que seus anos; sua vetustez não pode ser medida por dias, nem o tempo que sobre ela pesa, por revoluções em torno do Sol. Numa palavra, não é propriamente ao tempo que a história deve seu grau de antiguidade – e com esta observação feita de passagem queremos aludir ao caráter problemático e à peculiar duplicidade desse elemento misterioso.”

Marcelle Vireira Freire

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Terra de ninguém - jovens, entediados e criminosos

Em uma pequena cidade da Dakota do Sul, vive Kit (Martin Sheen), um rapaz sem qualquer tipo de orientação que mal consegue manter um emprego como gari. Apesar de ser um total fracassado, se porta como se fosse alguém muito mais importante que o que de fato é. Fala de maneira arrojada e veste-se como uma espécie de James Dean. Um dia, ele conhece a jovem adolescente Holly (Sissy Spacek). Com o tempo, os dois acabam se apaixonando, algo que não é bem visto pelo pai da garota que não quer ver sua filha andando com um rapaz problemático. Em meio a essa crise amorosa, o casal acaba cometendo o seu primeiro crime: Kit assassina o pai de Holly. Depois do assassinato (o primeiro cometido pelo rapaz) eles fogem da cidade e queimam a casa para poder ganhar tempo e disfarçar sua fuga. Tudo, obviamente, planejado por Kit, enquanto Holly assiste sua vida se desmoronar com uma passividade que chega a ser irritante (“melhor passar uma semana com alguém que amamos do que anos em solidão.”). 
Os dois passam a viver em uma floresta, separados da sociedade, onde convivem apenas um com ou outro, têm altos e baixos típicos de qualquer casal e tentam construir uma vida perfeita, à medida do possível, enquanto dançam despreocupados ouvindo canções de rádio como jovens quaisquer. Quando descobertos, acabam cometendo mais crimes e passam a percorrer planícies desertas dos EUA, com mais e mais assassinatos, fugindo da polícia e se tornando um casal de criminosos de reconhecimento nacional (“não posso negar que tenhamos nos divertido... e isto já é mais do que outros podem dizer.”). 
O casal é uma espécie de Bonnie e Clyde. Holly e Kit praticam seus crimes sem nenhuma necessidade ou justificativa adequada. Não parecem mostrar nenhum tipo de sentimento perante as vítimas. Kit é violento e desequilibrado, apesar de não aparentar isso, e está obviamente interessado em se tornar uma celebridade (“sempre quis ser conhecido como um criminoso, só não sabia que seria tanto.”). Holly por sua vez é incrivelmente apática e vazia, tanto quanto as revistas adolescentes que ela lê. Sua passividade é impressionante e a única explicação para ela realmente ter seguido Kit nessa jornada, mesmo após o assassinato de seu pai (que ela encarou quase com a mesma placidez que a morte de seu peixe e de seu cachorro), por simplesmente não ter mais o que fazer. O filme, aliás, é narrado por Holly, numa voz doce e quase infantil. Narração essa que é tão superficial quanto um diário de adolescente cheio de banalidades.
Terra de ninguém (Badlands, 1973) é um filme frio e sem esperanças, ao mesmo tempo em que é estranhamente interessante e visualmente impactante. É um dos principais filmes dos anos 70. Está na lista com os 100 melhores filmes de todos os tempos, escolhidos por diretores, da revista Sight and Sound lançada agora no mês de agosto e é realmente único, apesar das semelhanças com Bonnie e Clyde (1967).
Uma grande importância de Terra de ninguém está na revelação de três grandes nomes do cinema: Martin Sheen, Sissy Spacek e Terrence Malick. Martin Sheen, que interpreta Kit, veio a se tornar um dos principais atores dos anos 70, protagonizando clássicos como Apocalypse Now, de Coppola. Ele ainda resolveu deixar um filho no mundo do entretenimento, o famoso Charlie Sheen. Sissy Spacek, uma das principais atrizes do cinema americano, fez aqui seu primeiro trabalho de destaque. Apesar de já ter mais de 20 anos quando fez o filme, aparenta ter bem menos para viver a ingênua (?!) Holly, e se passa perfeitamente por uma garota de 17 anos. A maior revelação do filme, porém, é a do próprio Terrence Malick, que aqui faz sua estréia cinematográfica como diretor, roteirista e produtor e, em minha opinião, o seu melhor trabalho.


Lucas Moura