sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Filmes pro final de semana - 23/12

1. Dois dias, uma noite (Deux jours, une nuit, 2014)
Destaque no Festival de Cannes , esse filme já chama a atenção por sua protagonista, Marion Cotillard, sem dúvida uma das maiores atrizes da atualidade. Marion vive aqui Sandra, trabalhadora de uma pequena empresa que está diante de uma delicada situação. Saindo de uma crise depressiva, Sandra pretende retomar sua vida cotidiana e seu emprego, mas devido a problemas financeiros, a empresa se vê diante da necessidade de corte de funcionários. Seus colegas tiveram de escolher: ou a firma mantinha o quadro completo de funcionários, ou concedia um abono para os que permanecessem. Sandra inicia então uma jornada, porta a porta, para tentar convencer os colegas a desistirem da bonificação anual e mantê-la no emprego. Uma missão difícil, extremamente desconfortável e que aborda a temática da solidariedade versus interesses pessoais. Filme bastante humano que dá um show em sua proposta.
Nota: 10
2. Perfume de mulher (Scent of a woman, 1992)
Demorou, mas o grande Al Pacino, um dos maiores atores de sua geração, foi consagrado com um Oscar. Pacino vive o tenente coronel Frank Slade, que ao ficar velho, cansado e cego, decide viver intensamente um feriado em Nova York com o que a vida e o dinheiro têm de melhor a oferecer, para depois se matar. Ele conta com a companhia de Charlie (Chris O'Donnell), estudante de uma tradicional escola próximo a sua casa. Ao chegarem em Nova York, a dupla encontra parentes de Frank com quem ele não falava há anos (e quando encontrava, sempre brigava), dirige carros de luxo e frequenta hotéis e restaurantes de luxo - destaque para a inesquecível cena do tango. Um filme simples, mas cativante, com ótimo elenco e com a garantia de satisfação.
Nota: 8,5/ 10
3. Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962)
Super clássico do cinema mundial, este longo filme de quase quatro horas acompanha as aventuras no deserto do oficial inglês T. E. Lawrence (Peter O'Toole) na Primeira Guerra Mundial, sendo peça importante no combate aos turcos. Lawrence fora escolhido por seu vasto conhecimento sobre os povos do deserto, e acaba se tornando uma verdadeira liderança dos árabes, chegando a se afastar dos ingleses e dos costumes ocidentais. A personagem de Lawrence é muito interessante e é muito trabalhada ao longo do filme, construindo e desconstruindo hábitos e culturas. Destaque para a restauração que o filme ganhou anos atrás, umas das mais famosas dos grandes clássicos - tão boa que nos surpreendemos com os grãos de areia no rosto de O'Toole e a profundidade de seus lendários olhos azuis.
Nota: 10
4. Juventude Transviada (Rebel whitout a cause, 1955)
James Dean figura até hoje, sessenta anos após sua morte precoce, como uma das maiores promessas que o cinema já viu. Combinando beleza, carisma e muito talento, sua carreira ascendeu tão rapidamente quando os carros que o ator gostava de dirigir. Dean foi e é lembrado como ícone de uma geração retratada de forma brilhante em Juventude transviada, em que deu vida ao jovem Jim Stark, desiludido com os pais, professores, amigos e sociedade. Jim é o retrato dos jovens que buscavam orientação de uma geração mais velha que não conseguia dar resposta às questões dos mais novos, talvez por não serem sábios ou felizes como esperado. Jim encontra refúgio na família que monta para si: a namorada Judy (Natalie Wood) e o ingênuo amigo Plato (Sal Mineo). A irresponsabilidade dos jovens faz paralelo com a recusa dos mais velhos em encarar a responsabilidade pela nova geração, e o filme se mostra muito mais crítico e profundo do que aparenta. Clássico imperdível.
Nota: 10
5. O Natal do Mickey Mouse (Mickey's Christimas Carol), 1983
Baseado na obra imortal de Charles Dickens, o curta da Disney traz Tio Patinhas na figura do rico Ebenezer Scrooge (Tio Patinhas), velho, egoísta e solitário, que acumulou fortuna às custas de trabalhadores mal-remunerados e golpes em viúvas em crianças órfãs. A maldade de Scrooge era tamanha que ele roubou o falecido sócio (Pateta) e usou o dinheiro do enterro, jogando o corpo do defunto no mar. Um dos mais dedicados empregados do velho é o pobre Bob Cratchit (Mickey), que sustenta sua família precariamente com o péssimo salário pago pelo patrão. Na véspera de Natal, Scrooge espanta coletores de donativos, briga com parentes e aborrece funcionários, como sempre, sem imaginar o que lhe aconteceria horas depois. Depois de dormir, Scrooge foi visitado pelos fantasmas do Natal passado (Grilo falante), presente (Willi, o gigante) e futuro (Bafo), que lhe mostraram todas suas maldades e as consequências que elas trariam se o velho não mudasse seu comportamento para com o próximo. Beleza que todo mundo já viu, que a Globo sempre passa antes da Missa do Galo, mas nem isso tira a beleza da história ou do filme.
Nota: 9,5/ 10

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Filmes pro final de semana - 09/12

1. Os Descendentes (The Descendants, 2011)
É em paradisíacos cenários do Havaí que Alexander Payne conta a divertida e emocionante história do advogado Matt King (George Clooney), que se depara na delicada situação de ter a esposa numa UTI e precisa encarar a tarefa de cuidar sozinho das filhas, uma criança e uma adolescente, que mal conhece. Paralelo a isso, há também a relação (não muito boa) com os sogros e a questão da venda bilionária das terras da família junto aos seus vários primos. A pressão vinda da relação com as filhas, com a família e o próprio legado deixado para Matt o obriga a decidir o que realmente importa, com o peso de saber que suas decisões irão interferir diretamente na vida de muitas pessoas. Além do ótimo roteiro, a atuação de Clooney é outro destaque, deixando de lado o charme que lhe é peculiar para assumir as vezes de um homem cansado que tenta reatar os laços com seus entes queridos.
Nota: 9,0/ 10
2. 50%  (50/50, 2011)
Joseph Gordon-Levitt, queridinho da nova geração, dá um show de talento e carisma no papel do jovem Adam, um sujeito muito boa gente que descobre aos 27 anos ter um câncer raro, agressivo e supostamente incurável. Adam, que não fumava, não bebia e não fazia mal a ninguém, se pergunta então porque algo tão ruim estava acontecendo com ele. É com a ajuda do melhor amigo irresponsável mas muito fiel Kyle (Seth Rogen) e da analista Katherine (Anna Kendrick) que Adam aprende a lidar com seu problema, toma decisões importantes para aproveitar a vida diante do risco de sua piora e enfrenta os medos relacionados a seu tratamento e a sua chance de sobrevivência de 50%.
Nota: 8,5/ 10
3. Sangue Negro (There will be blood, 2007)
Um filme excepcional em todos os sentidos. Estrelado por Daniel Day-Lewis, Sangue negro trata com muito realismo e objetividade sobre ambição a partir de Daniel Plainview (Day-Lewis), mineiro pobre que descobre no petróleo a possibilidade de obter o dinheiro e o poder que sempre quis ter. Para isso, inicialmente ele conta com nada além de suas próprias mãos e mente aguçada, construindo a cada palmo de terra cavado seu império e endurecendo seu coração. Não são poucos os desafios que ele enfrenta, entre eles o pastor de uma pequena cidade, Eli (Paul Dano), que mostra a influência que um líder religioso possui num lugarejo esquecido do deserto da Califórnia. A história forte e sólida escrita e dirigida por Paul Thomas Anderson ganha vida a partir da atuação marcante de Day-Lewis, responsável por seu segundo Oscar e sem dúvidas a melhor em muitos anos no cinema americano.
Nota: 9,5/ 10
4. Beleza Americana (American Beauty, 1999)
 Um verdadeiro tapa na cara da classe média americana. Lester Burnhan (Kevin Spacey), o protagonista, é um pai de família cansado e entediado na monótona vida de típico trabalhador, com um emprego medíocre e muitas frustrações na vida profissional e pessoal. É casado com a famigerada Carolyn (Annette Bening), uma corretora de imóveis ambiciosa que se esforça para manter as aparências de família feliz, apesar do casamento desgastado, e sufoca a filha adolescente Jane (Thora Birch) com exigências, na tentativa de transformá-la numa garota prodígio. A história pega impulso com o surgimento de Angela, colega de Jane, por quem Lester se apaixona no auge de sua crise de meia-idade. A partir daí, a relação da família Burnhan com Angela, com os vizinhos Fitts e consigo mesma se torna uma sátira sobre beleza e satisfação pessoal, apunhalando sem piedade o desgastado sonho americano. O filme é cínico, dinâmico, provocante e envolvente. Merecidamente vencedor de cinco Oscar, incluindo melhor filme, diretor e ator (Spacey).
Nota: 10
5. Um Estranho no Ninho (One Flew over the Cuckoo's nest, 1975)
Tá aí um filme que consegue me deixar emocionado de verdade. A história do malandro Randle P. McMurphy (Jack Nicholson), que se finge de louco para sair do presídio onde cumpria trabalhos forçados e vai para um hospício é um convite à reflexão sobre a psiquiatria manicomial e principalmente sobre liberdade e desafio ao sistema. Isso porque McMurphy vai encontrar o verdadeiro diabo de saias e touca: a enfermeira chefe Ratched (Louise Fletcher), que odeia toda e qualquer coisa que atrapalhe a disciplina e perfeita harmonia em seu hospital psiquiátrico. Onde esperava encontrar vida mansa, o bandido vai encontrar um ambiente tenso e sufocante, em que regras antigas e rígidas valem mais que a felicidade ou mesmo a vida humana. Filme excelente que faturou os cinco prêmios principais do Oscar, filme, direção, roteiro adaptado, ator (Nicholson) e atriz (Fletcher).
Nota: 10

Luís F. Passos

domingo, 27 de novembro de 2016

Elizabeth - a mulher e a coroa


Filme que relata o período inicial do reinado de 40 anos de Elizabeth I numa Inglaterra ainda dividida entre duas crenças. Entre católicos e protestantes, a morte da rainha inglesa Mary (católica) culminou com a ascensão de sua irmã bastarda Elizabeth, filha de seu pai com Ana Bolena. Protestante, Elizabeth não teve grande apoio ao início do seu reinado e este filme de 1998 retrata com firmeza os altos e baixos da época.

E não foram poucos. Até poder reinar absoluta, Elizabeth I (vivida por Cate Blanchett) teve que superar tudo e todos. Uma irmã que a desprezava, inseguranças pessoais, o peso da coroa, reinos inimigos a poderosa e enraivecida igreja católica, uma corte dividida entre apoiadores e aqueles dispostos a vê-la cair e a pressão para se casar, perpetuando, assim o instável trono. Traições e amores também marcaram seu caminho par alcançar a “Era do Ouro”.

Elizabeth (1998) acerta, então, tanto como um estudo para os mais interessados em história, por trazer a mais conhecida versão de uma mulher tão importante para a história mundial, mas também nos apresenta um minucioso estudo de personagem, indo além da rainha Elizabeth I e se aprofundando na mulher Elizabeth. Jamais retratada como uma escolhida divina, mas sempre apresentada como uma pessoa entre erros e acertos e uma mulher à frente de seu tempo, com a coragem de ser soberana num mundo cruel e bastante masculino.

Vencedor do BAFTA e do Globo de Ouro de melhor atriz.

Nota: 8/10

Leia também: Blue Jasmine

Lucas Moura

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Filmes pro final de semana - 18/11

1. Amy (2015)
O último vencedor do Oscar de melhor documentário de longa-metragem traz a vida conturbada de uma das maiores estrelas da música que o mundo viu nos últimos anos. O início precoce da carreira, o sucesso estrondoso com o segundo CD e a incrível vitória de cinco Grammys recebem a mesma atenção que os problemas familiares, a relação autodestrutiva com o marido e o grave problema com álcool e drogas que tanto prejudicou sua carreira e acabou provocando sua morte em 2011, tendo apenas 27 anos de idade. O documentário mostra como Amy Winehouse viveu intensamente a música, as amizades e o amor. Um filme excelente; emocionante, mas nada apelativo, e bastante triste.
Nota: 9,5/ 10
2. Divertida Mente (Inside Out, 2015)
Outro vencedor do último Oscar, dessa vez na categoria animação. Divertida Mente é o argumento final de que animação não é sinônimo de filme infantil. A partir de uma garota de onze anos, Riley, que está passando por grandes mudanças em sua vida, vemos uma forma muito original de apresentar como funciona a mente humana: gerida por cinco emoções que são responsáveis pelo estado de humor e pela administração das memórias. São elas Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho. Um pequeno incidente envolvendo Alegria e Tristeza faz uma completa bagunça na cabeça de Riley, que só piora o difícil momento pelo qual ela está passando, e pode pôr em risco todo seu eu. O filme é lindo, não é simples o suficiente pra ser visto por qualquer criança, e consegue botar muito marmanjo pra chorar. Sem dúvida, uma das melhores animações já feitas.
Nota: 10
3. Direito de amar (A single man, 2009)
Protagonizado por um Colin Firth austero e introspectivo, Direito de amar acompanha o dilema de um professor inglês que vive na Califórnia, George (Firth), após a morte de seu companheiro, Jim, com quem viveu por 16 anos. George não consegue lidar com o vazio deixado por Jim, nem mesmo ocupando seus dias com suas aulas ou com a ajuda de sua amiga de longa data, Charlotte (Juliane Moore). O desespero faz o professor pensar e planejar seu suicídio, mas novas perspectivas podem convencê-lo de que ainda pode haver esperança em meio a tanta dor. O filme é recortado por diversos flashes do passado, no início do relacionamento com Jim, de momentos passados juntos e da trágica morte precoce. Além da bela e triste história, o filme conta com as incríveis atuações dos sempre competentes Colin Firth e Juliane Moore.
Nota:8,5/ 10
4. Sonata de Outono (Höstsonaten, 1978)
Dentre os filmes de Ingmar Bergman que já tive o prazer de assistir, este é um dos mais emocionantes. Este intenso drama familiar mostra a delicada relação entre uma mãe (Ingrid Bergman) que fora uma pianista famosa e sua filha (Liv Ullmann), que se encontram após sete anos sem se verem. É fácil ver que a convivência das duas é um constante desconforto, carregada de mágoas que a filha nutriu por uma mãe ausente, sempre viajando, e que quando ficava em casa era igualmente distante. O reencontro se torna uma lavagem de roupa suja e traz à tona todo o ressentimento que as aparências escondiam, com um forte teor psicanalítico muito bem explorado pela perfeita direção de Bergman e pelo talento de duas brilhantes atrizes.
Nota: 10
5. New Orleans (1947)
"Do you know what it means to miss New Orleans?" A voz inesquecível de Billie Holliday é um dos grandes atrativos desse esquecido musical que eu conheci por acaso (obrigado, Youtube) e pelo qual fiquei encantado. A história é simples e não muito atrativa, tendo como protagonistas uma cantora clássica (Dorothy Patrick) que se apaixona por um jogador profissional (Arturo de Córdova) que é dono de uma casa de jogos no submundo de Nova Orleans. Nos fundos da casa de jogos,  Louis "Satchmo" Armstrong (interpretado pelo próprio) e sua Happy Dixie Band, pioneiros do blues, tocam uma música diferente e apaixonante que é censurada na alta sociedade, mas que faz sucesso entre os moradores do subúrbio e que pra surpresa de todos, encanta a cantora clássica e seu maestro. O enredo um tanto clichê é deliciosamente embalado pela música de dois grandes ícones do jazz e blues, que aqui vivem um par romântico, que injustamente aparece em segundo plano. Interessados procurem no Youtube, tem versão completa e legendada.
Nota: 9,5/ 10 (mais pela música do que pela história)

Luís F. Passos

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Filmes pro final de semana - 04/11 - Especial ENEM

Chegou a hora da maior prova do País, com milhões de participantes e que é porta de acesso a boa parte das universidades públicas, além de servir pra quem quer bolsa no ProUni (enquanto o governo golpista não acabar de vez). E é em clima de Enem que temos uma lista especial, cheia de filme bom, cada um se relacionando a um bloco da prova. Se você não vai ficar dez horas numa sala fazendo uma prova cansativa, aproveite a lista no seu fim de semana.
 
CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS
1. Clube da luta (Fight club, 1999)
Um tema recorrente na prova de Ciências Humanas é falar de conflitos, e aqui temos um ótimo exemplo. Clube da luta, ícone da filmografia de David Fincher, põe em xeque os valores de uma sociedade guiada pelo consumo e por definições vazias do que é sucesso ou felicidade - "trabalhamos em empregos que não gostamos para comprarmos coisas das quais não precisamos", diz Tyler Durden (Brad Pitt) para o narrador anônimo (Edward Norton). O narrador vive uma vida pacífica demais e é a convivência com Tyler, violento e rebelde, que vai mudá-lo, quando os dois iniciam um grupo que se reúne pra trocar porrada. Isso e a relação com Marla (Helena Bonham Carter), que ele conheceu frequentando grupos dos quais nenhum dos dois precisava. A proposta do filme e os segredos que vão sendo revelados são algo arrebatador que tão cedo não será esquecido. E vou encerrar aqui, afinal a primeira regra do Clube da Luta é não falar sobre o Clube da Luta.
Nota: 10
CIÊNCIAS DA NATUREZA E SUAS TECNOLOGIAS
2. 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odissey, 1968)
Depois da sequência de Lolita (1962) e Dr. Fantástico (1964), o público sabia que deveria esperar por mais um filme de Kubrick. E o que veio foi muito além das expectativas de qualquer um. 2001 foi concebido por Kubrick para ser mais uma sensação do que uma história. O diretor queria fazer um filme de ficção científica ambientado no espaço, e para isso olhou primeiro para o passado, milhões de anos atrás, na aurora da humanidade, para depois dar um salto até a era das viagens cósmicas. E com muita subjetividade e efeitos visuais impensáveis até então, que lhe renderam seu único Oscar, ele nos leva a uma viagem capaz de representar o desejo humano de conhecer o que há para dentro e para fora daquilo de nós mesmos que é conhecido. Mais que revolucionar a ficção científica, Kubrick mostra que não há limites para o cinema, para a imaginação e o talento de um artista.
Nota: 10
LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS
3. O Escafandro e a Borboleta (Le scaphandre et le pappillon, 2007)
Uma nova definição de filme lindo. Sensibilidade é a palavra chave da história de Dominique Bauby (Mathieu Amaric), que depois de sofrer um derrame é vitimado pela raríssima síndrome do encarceramento, em que todo o seu corpo fica paralisado, exceto os olhos - sendo que todas as faculddes mentais ficaram preservadas. Para completar, seu olho direito precisa ser ocluído para evitar um ferimento na córnea, e ele fica dependente apenas do esquerdo. Com a ajuda de uma fonoaudióloga, Dominique aprende a se comunicar através de um sistema lento, mas eficiente, a partir do piscar de seu olho. Através da narração de Dominique, vemos como foi sua vida, os diversos erros que ele cometeu com seus entes queridos, a rua relação com seu pai e seus filhos, a amante que nunca o visitou depois da doença e a sua obstinação em compor um livro que se tornaria best-seller. Baseado em fatos reais.
Nota: 10
 MATEMÁTICA E SUAS TECNOLOGIAS
4. As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012)
O nome do protagonista vem exatamente do número tão complexo da matemática. Membro de uma família dona de circo, o jovem Pi está de mudança para o Canadá, junto com seus parentes, os animais do circo e todo material, em um navio cargueiro. Depois de uma tempestade o navio naufraga e Pi se vê à deriva em um bote salva vidas, na companhia do enorme tigre Richard Parker. O filme então aborda a luta pela sobrevivência e a estranha convivência de um homem com um animal selvagem em um espaço tão pequeno, em alto mar. Efeitos especiais belíssimos são usados para criar um ambiente fantasioso (seriam delírios ou a magia da natureza?), além da figura do próprio tigre, criado digitalmente mas de uma perfeição impressionante. E mais do que a beleza visual, o filme aborda crenças e religiosidade de forma muito bonita.
Nota: 8,5/ 10

REDAÇÃO
5. Julie e Julia (2009)
Falar em Julie e Julia é falar de um filme que eu via quase quinzenalmente e achava a coisa mais linda do mundo. Quase seis anos depois não tenho a mesma opinião, mas ainda gosto muito dele. É muito bacana ver o resgate de duas histórias reais de mulheres que tinham na culinária e no casamento os pilares de suas vidas. Na década de 1950 temos Julia Child (Meryl Streep), americana que em Paris aprendeu a cozinhar e começou a escrever um livro com duas amigas francesas; terminá-lo foi tão difícil quanto obter nota mil na redação do Enem, mas a publicação do livro deu fama e um programa de TV a ela. Cinquenta e dois anos depois, em Nova York, Julie (Amy Adams) é uma mulher que chega aos trinta com a sensação de que não fez nada na vida, e decide escrever um blog sobre a experiência de fazer todas as 524 receitas do livro de Julia no prazo de um ano. Ambas concluíram seus projetos com o apoio de seus maridos e sempre mantendo um bom humor que arranca boas risadas de quem assite ao filme. Bon appétit!
Nota: 8,0/ 10

Luís F. Passos

sábado, 8 de outubro de 2016

Garota exemplar - "o que fizemos um ao outro?"

Intensos. Talvez esta seja uma palavra apropriada para descrever os filmes de David Fincher ao longo de um pouco mais de duas décadas de trabalho. Seu último longa, Garota exemplar (Gone girl, 2014), trouxe intriga, choque e surpresas. Baseado em livro homônimo de Gillian Flynn (que também assina o impecável roteiro da adaptação cinematográfica) e ostentando uma nota 8,1 no IMDB e uma aprovação de 88% no Rotten Tomatoes, Garota exemplar mostra que o diretor que já foi responsável por poderosos filmes – alguns, inclusive, já clássicos modernos – como Seven e Clube da luta ainda tem muito a oferecer aos cinéfilos. Após já haver dissecado contos sobre serial killers, hackers problemáticas, milagres/anomalias da genética, crimes de todos os tipos e até redes sociais e o comportamento moderno, Fincher resolve, neste filme, esmiuçar um elemento social muito complexo e muitas vezes danoso: o casamento.


Garota exemplar é muitas coisas, mas, majoritariamente, é um filme sobre Amy (Rosamund Pike) e Nick (Bem Affleck).

Amy. A garota perfeita. A “cool girl” dos sonhos. Inteligente. Sagaz. Linda. Sexy. Criativa. Interessante.

Nick. O cara perfeito. O homem dos sonhos. Inteligente. Sagaz. Lindo. Sexy. Criativo. Interessante.

A união dos dois parece traçada pelo destino. O “felizes para sempre” de um conto de fadas embalado pela magia de uma Nova Iorque tão adequada à personalidade arrojada do casal. Tudo, de fato, caminha muito bem no inicio da relação, mas nada que o tempo, a falta de dinheiro e pequenas ofensas e agressões (não físicas) praticados um ao outro não consigam estragar. De casal descolado em Nova Iorque, os dois se tornam um casal suburbano vivendo no interior do Missouri (cidade natal de Nick, onde os dois tiveram de morar numa tentativa de ajudar a mãe dele, que sofria de câncer em estágio avançado). De casal apaixonado, se tornam uma dupla de estranhos arredios e desconfiados, sem ligação afetiva, dividindo um mesmo teto. Tudo muda no dia de mais um aniversário de casamento, quando Amy simplesmente desaparece e todos os rastros deste mistério levam a Nick como culpado de algum crime envolvendo sua esposa. O marido frio, distante e ressentido, aparentemente, também é um assassino. Mas, afinal, quem está dizendo a verdade?


Esta é a trama fundamental: um casamento e um crime. Ao longo do filme, vamos acompanhando toda a investigação policial em busca do paradeiro de Amy e a elucidação dos fatores envolvidos que levam de diversas formas a Nick como provável culpado – com, ainda, a participação de sua irmã gêmea e confidente Margo (Carrie Coon). Engana-se, porém, quem acredita que o enredo é limitado a um filme de investigação policial. O filme vai muito além. Garota exemplar se desenvolve como uma profunda – e de certo humor negro – análise dos danos que um casal é capaz de infligir um a outro. Um filme sobre erros e mentiras que montam a vida conjugal e sobre as máscaras que usamos para nos esconder mesmo estando ao lado das pessoas que nos são mais próximas. Como se só este aspecto já não valesse para que o filme fosse muito interessante, Garota exemplar também é uma análise de personagem incrível. O trabalho que Gillian Flyn faz ao criar o casal protagonista é primoroso, principalmente no que diz respeito à Amy. Amy não se encaixa em qualquer estereótipo que se possa pensar. De inicialmente esposa troféu, acaba se despindo de todas as aparências, de todas as convenções sociais e, por fim, esbanja sadismo e psicopatia. Inteligente, manipuladora, vingativa, metódica e cruel, Amy simplesmente não tem limites para conseguir o que quer. Isso tudo coroado com a atuação impecável (não tem outra palavra para descrever) de Rosamund Pike. Num contexto de excelência, ela consegue se destacar como o que há de mais memorável e é responsável por cenas inesquecíveis.


Nota: 9/10


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Lucas Moura

domingo, 2 de outubro de 2016

Apenas uma noite - fidelidade

Uma vida conjugal pode ser tudo, menos fácil. Apenas uma noite (Last night, 2010) – como o nome já deixa bem claro – se desenvolve basicamente em torno de uma noite que pode mudar completamente a dinâmica de um casamento de quatro anos entre um jovem casal vivendo na cidade de Nova York. Dentro destas poucas horas e separados por quilômetros de distância, Joanna (Keira Knightley) e Michael (Sam Worthington) vão colocar à prova o amor que sentem um pelo outro, valores próprios de lealdade e companheirismo e os pilares que sustentam seu relacionamento quando se encontram – justamente em um momento de leve fragilidade conjugal – envolvidos por tentações fora do matrimônio. Ele, em meio aos encantos de uma atraente companheira de trabalho (Eva Mendes), juntos numa viagem a trabalho. Ela, no surpreendente reencontro com um antigo namorado (Guillaume Canet) que reacende um honesto sentimento.


O filme passeia, então, ao longo de lentos (mas não tediosos) 90 minutos em torno dos sentimentos destas quatro personagens e nos delicados laços que as une. A temática central, dentro do grande espectro de ser um filme de romance sobre o funcionamento de um casamento em si, é mesmo a fidelidade e questões diversas envolvidas no peso que se dá a mesma dentro de um casamento. Sem fazer julgamentos morais, este é um filme mais observador que não propõe nenhuma resposta definitiva, apenas se desenrola em torno das ações de cada personagem.

Lotado de toques de leveza e diálogos corriqueiros, é difícil também não se sentir em nenhum momento próximo ao drama das personagens, especialmente em relação à Joanna, cuja personalidade é a melhor trabalhada na trama e que mantém (de longe) o eixo mais interessante da mesma. Sem que se levante qualquer julgamento, e a depender de quem assiste, o filme é capaz de evocar bastante empatia, identificação e até algumas doses de nostalgia. Não necessariamente dos fatos em si, mas dos sentimentos envolvidos. Seria muito interessante, e acredito que tornaria o filme melhor, se o eixo de Michael fosse bem trabalhado também. Este lado da trama beira o desinteressante e não tem nem metade do aspecto sentimental da outra e acaba enfraquecendo o filme como um todo. Parte disso eu acredito que se deve à interpretação apática de Sam Worthington.

Nota: 7/10

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Lucas Moura