sábado, 20 de julho de 2013

Os Bons Companheiros - trinta anos de uma vida na máfia



“Até onde posso me lembrar, sempre quis ser um gângster”. Com essas palavras de Henry Hill (Ray Liotta), começamos a acompanhar sua vida, inicialmente em um subúrbio de Nova York em que boa parte dos moradores é descendente de italianos e trabalha basicamente para se alimentar. As exceções são os gângsteres, quase todos descendentes de imigrantes italianos e irlandeses. Os gângsteres não precisavam cumprir carga horária, não recebiam salário mínimo, não precisavam entrar em fila, estacionavam onde queriam... eram caras privilegiados. E não foi difícil para Henry tê-los como heróis e fixar a ideia de que seria bem melhor ser um gângster do que um trabalhador comum. É na primeira oportunidade, que surgiu com Paulie (Paul Sorvino), capo da máfia local, que Henry entra para o crime inicialmente como mensageiro mas evoluindo para roubo de carga. Não demora para que ele passe a receber mais que o pai e saia de casa, entrando de vez no mundo da máfia.
Ao entrar de vez na gangue de Paulie, Henry conhece Jimmy (Robert De Niro) e Tommy (Joe Pesci), que se tornaram seus melhores amigos. Jimmy era mais velho e um respeitado assaltante de cargas; Tommy era praticamente da mesma idade que Henry e conhecido por seu temperamento explosivo. Juntos, os três eram os bons companheiros. Uma amizade tão forte que mais parecia fraternidade; eles eram mais próximos uns dos outros que do resto da quadrilha, que se assemelhava a uma grande família, com constantes reuniões em que todos levavam mulheres e filhos, e faziam tudo juntos. Henry se casa com Karen (Lorraine Bracco), uma jovem judia de classe média, que se vê diante da obrigação de se encaixar no mundo do marido e dos amigos dele; e aos poucos se acostuma com as mulheres dos colegas de Henry, todas sem educação, grosseiras e meio cafonas - e com uns traços de Maria Bonita de Lampião. Desconsiderando alguns desconfortos, essa era a vida perfeita. E mesmo em caso de prisão, o procedimento era ficar de boca fechada, aguardar na prisão (que graças a muito suborno se mostrava muito confortável) e sair em liberdade condicional. Uma vida boa demais, levando em conta que era baseada no crime, e como era de se esperar, um dia a casa cai. 
Lembro que na primeira vez que vi Os Bons Companheiros (GoodFellas, 1990), não gostei muito. Achei cansativo e fiquei boiando em algumas partes. Foi depois de ver Cassino (1995), também de Scorsese e também com De Niro e Pesci no elenco, que pensei um bocado em Goodfellas, entendi e resolvi revê-lo - aí caiu a ficha de como o danado é bom. Diferente da máfia romantizada por Coppola na Trilogia O Poderoso Chefão, aqui os gângsteres não são cavalheiros e não têm pudor nenhum em matar, roubar ou agredir. É Scorsese voltando à violência que presenciara em sua infância no Brooklyn, retratada anteriormente em Caminhos perigosos (1973), filme que marca o início da parceria com De Niro. A maior representação dessa violência é Tommy, baixinho esquentado que a cada três palavras que fala, uma é fuck (palavra repetida 246 vezes no filme), bate, atira e esfaqueia com um prazer imenso e sabe Deus por que, não tolera ser chamado de engraçado - "Am I funny? Funny how? Funny like a clown?" O trabalho de Joe Pesci lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante e é bem mais destacado que as personagens de Liotta e De Niro, apesar do primeiro ser o protagonista e do outro ser o excelente ator que é.
Falando em Oscar, GoodFellas é lembrado pela segunda pior derrota de Scorsese nos prêmios de filme e direção, em que Dança com lobos, filme de estreia de Kevin Costner, faturou os prêmios. O pior foi a derrota na direção; pra mim, o que Scorsese fez aqui é quase tão bom quanto em Touro indomável: a edição, posição das câmeras, trilha sonora, escolha de elenco. Direção brilhante que fez um dos melhores filmes da década e que sem um pingo de moralismo passou a mensagem do preço pago por aqueles que tentam burlar a lei. E apesar de toda a violência, o filme consegue ser muitas vezes engraçado (funny how, motherfucker?), mostrando que até valentões que só sabem resolver as coisas na porrada têm senso de humor; basta lembrar da cena em que os três bons companheiros viajam numa estrada carregando um corpo no porta malas, param na casa da mãe de Tommy (interpretada pela mãe do próprio Scorsese) e depois veem que a vítima ainda estava viva. No meio de tanto sangue, não tem como não rir. Ah, o pai de Scorsese  também faz participação especial, como um velho mafioso preso.

Nota: 10/ 10

Leia também:
Taxi driver
Touro Indomável
Filmes favoritos (2)

Luís F. Passos

terça-feira, 16 de julho de 2013

2º Voziviolão Aracaju

Nesse último domingo aconteceu no Parque da Sementeira a segunda edição do evento Voziviolão, que reúne e divulga o trabalho de artistas autorais de Sergipe.
O encontro contou com as participações das bandas Pedro Confábulas e os Cosmonautas, Ferrerones, Fi Da Mãe, Folhetim e Kings And The Queen, além do lançamento do EP do cantor Alisson Coutto. 
Os repertórios contaram principalmente com as músicas autorais das bandas, mas também com covers de diversos artistas do rock/pop nacional e internacional e MPB, como Raul Seixas, Los Hermanos, Belchior, Capital Inicial, Muse, Foster The People etc. E no final o microfone ficou aberto para quem quisesse mostrar o seu trabalho.
A próxima edição do evento acontecerá em agosto, e os organizadores pretendem, além de música, acrescentar ao evento apresentações de esquetes e recitação de poemas.
Para saber mais sobre o Voziviolão (e até mesmo participar!) acesse a fanpage: www.facebook.com/voziviolao

Luciana Dinelli

sábado, 13 de julho de 2013

Indomável Sonhadora - um mundo selvagem pelos olhos de uma criança

Como já disse aqui algumas outras vezes, todo ano a Academia costuma procurar algum filme independente ou semi-independente e colocá-lo na competição junto com as grandes produções dos maiores estúdios de cinema do mundo, os quais dispõem, geralmente, de elenco e equipe de maior renome, qualidade técnica mais apurada e, principalmente, maior verba. Ao indicar filmes menores entre os “gigantes” do ano, a Academia dá uma de que é mais moderna e arrojada do que o que de fato é, mas ao mesmo tempo todo um ciclo de cinema que permanece fora dos holofotes consegue ter um destaque maior, sendo mais evidenciado pelo público de um modo geral. Foi assim com filmes como: Pequena Miss Sunshine, Juno, Inverno da alma e, mais recentemente, Indomável sonhadora (Beasts of the southern wild, 2012).
Apesar de tudo dito acima, esta jornada de filmes independentes rumo ao reconhecimento efetivo por parte de público e crítica não é tão simples. O filme deve se sobressair com o pouco que tem para sua realização. Literalmente, deve criar muito com muito pouco. Indomável sonhadora, de orçamento muito baixo, consegue fazer milagres com uma câmera, um grupo pequeno de atores totalmente desconhecidos, um roteiro inteligente e um diretor habilidoso.
Na história, temos Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), uma criança de seus oito anos, aproximadamente, que vive numa região alagadiça, de risco, localizada ao redor de uma barragem de água. É um espaço de terra tão pequeno e tão instável que é conhecido como a Banheira. Dentro da Banheira, a pobreza dita o estilo de vida, mas não o espírito das pessoas. Mesmo sem absolutamente nenhum bem material efetivo, vivendo de restos, amontoados entre tralhas e em barrancos, o povo que vive na Banheira tem toda sua espiritualidade baseada na mais pura força. Esta força faz com que eles esqueçam um pouco das condições precárias em que vivem e é o melhor caminho para a sobrevivência. Vida e morte, felicidade e miséria são tratados de forma diferente dentro da Banheira. A realidade dura daquelas pessoas as fez contornar os desafios cotidianos e adaptar a selvageria em que vivem para que realmente consigam seguir em frente.
Toda a história de Indomável Sonhadora é narrada e observada a partir do ponto de vista de Hushpuppy. Ela vive na banheira junto a seu pai, com quem mantém uma relação intensa, confusa e atípica, e ele demonstra sempre uma necessidade de permitir a sua filha que esta esteja sempre pronta para qualquer adversidade e que permaneça forte independente das situações. Quando Hushpuppy grita “I am the man” ela está bradando toda sua força. A força de uma sobrevivente da Banheira. Em Inverno da alma, de 2009, a personagem de Jennifer Lawrence tem esta mesma obrigação de fazer com que seus irmãos mais novos estejam prontos para enfrentar todo e qualquer imprevisto, uma relação similar a de Hushpuppy com a do pai, numa das cenas mais memoráveis dos últimos anos do cinema americano.
Durante uma forte tempestade, a Banheira é totalmente alagada, e apenas algumas pessoas restam na região. Entre elas, Hushpuppy e seu pai. Neste ponto, o que é ressaltado em Indomável Sonhadora é esta relação muito mais espiritual do que física/geográfica do ser humano com sua terra, que representariam sua identidade e suas raízes.
Como o ponto de vista é todo apresentado por uma criança, em muitos momentos a realidade mescla-se com a fantasia. Um detalhe técnico de muita inteligente utilizado pelo diretor Benh Zeitlin é a utilização metafórica de animais pré-históricos que correm em direção à Banheira. Estes animais representariam, dentro da mente imaginativa de Hushpuppy, todas as adversidades que parecem muito superiores àquele grupo de pobres coitados e que os cercam, os confrontam e estão cada vez mais próximas. Apesar de a visão infantil, teoricamente, amenizar a chocante realidade, os elementos técnicos, sobretudo as locações externas de catástrofe e a fotografia reveladora e simplória tornam toda a experiência de Indomável Sonhadora tão forte quanto o possível, sem ser exageradamente dramática. A sensação despertada por aquelas pessoas não é a pena, é a admiração. Admiração que, logicamente, é maior em relação a Hushpuppy.
Grande parte do sucesso de Indomável Sonhadora deu-se em virtude de sua protagonista. A jovem Quvenzhané Wallis, de apenas nove anos de idade, é a mais jovem indicada ao Oscar em qualquer categoria de atuação, tendo superado as vencedoras de atriz coadjuvante Tatum O’neal e Anna Paquin e a indicada de melhor atriz Keisha Castle-Hughes. Sua indicação, no entanto, gerou considerável polêmica. Muitos alegavam que esta indicação não necessariamente representava o trabalho de uma atriz, mas simplesmente um trabalho instintivo de uma criança, mas que sem grandes certezas sobre uma provável continuidade na arte de atuar. Bom, este argumento é relativamente inválido. Apesar de Tatum O’neal e Keisha Castle-Hughes não terem montado carreiras notáveis conforme foram envelhecendo, Anna Paquin, cuja estreia nas teles deu-se justamente pelo filme ao qual recebeu seu Oscar, encontra-se estável e bem sucedida desde a época de O piano, cujo lançamento deu-se em 1993. E como negar que seu trabalho foi instintivo? Claro que foi. Uma jovem de 11 anos não tem sequer treinamento de atriz. Grande parte de sua interpretação primorosa foi instinto e talento natos. Natos de uma grande atriz como ela é. Bem assim é com Wallis. Além de ser protagonista ela não protagonista um filme qualquer, pois a tensão e a selvageria do universo de Indomável Sonhadora dá a seu trabalho uma qualidade de gente grande.
Apesar de todos os pontos positivos de Wallis, não há considero a melhor das opções. Colocar crianças em categorias de atuação em que disputam com atores e atrizes profissionais, alguns até mesmo lendários, pode ser psicologicamente complicado para mente de uma criança tão jovem. Além disso, por mais que ela seja legal não tem como superar a fantástica interpretação de Marion Cotillard em Ferrugem e Osso, a qual é, em minha opinião, a segunda melhor atuação feminina do ano passado, perdendo apenas para a potência dramática que Naomi Watts apresenta em O impossível.
Nota: 7,5/ 10
Leia também:

Lucas Moura 
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terça-feira, 9 de julho de 2013

Top 30: Filmes preferidos - Luís (3)

10. Um Estranho no ninho (One Flew over the Cuckoo's nest, 1975)
Direção: Milos Forman. Com Jack Nicholson, Louise Fletcher e Brad Dourif.
Bem no meio da época em que a geração conhecida como Nova Hollywood estava a pleno vapor, o diretor Milos Forman adaptou para o cinema o livro Um estranho no ninho de Ken Kelsey, uma história que tinha tudo a ver com o contexto da época, em que eram produzidos filmes de forte apelo psicológico e questionador. Jack Nicholson vive o bandido de quinta Randle P McMurphy, que finge problemas mentais para sair do presídio, onde era obrigado a trabalhar, e vai para o manicômio judicial esperando fazer o que quisesse. O que ele não sabia é que o demônio tinha feito curso de enfermagem e atendia pelo nome de Mildred Ratched (Fletcher), enfermeira chefe do hospital. O que faz de Mildred um ser tão maligno é o fato dela fazer o mal na certeza de estar fazendo o melhor para seus pacientes. O anticonformista e carismático McMurphy então declara guerra à enfermeira, tentando rebelar seus companheiros contra o sistema vigente no hospital. O resultado é um filme excelente que entrou na história por ser o segundo a faturar os cinco Oscars principais (filme, direção, roteiro, ator e atriz), além de ser um dos melhores e mais queridos trabalhos de Jack Nicholson.

9. Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959)
Direção: Billy Wilder. Com Marilyn Monroe, Jack Lemmon e Tony Curtis.
Dia desses eu tava comentando com uns amigos o porquê de considerar Quanto mais quente melhor (QMQM pros íntimos) a melhor comédia de todos os tempos, já que existem comédias excelentes como Annie Hall de Woody Allen e The apartement (Se meu apartamento falasse, no Brasil), do mesmo diretor de QMQM. Bem, Annie é um filme que apesar de muito engraçado, não se restringe à comédia e é muito abrangente, sendo muito eficiente em todos os temas que engloba - e como quase todos os filmes de Woody, não dá pra encaixar num gênero, é melhor chamar de gênero Woody Allen. Já The apartment é uma comédia de costumes completíssima que também trata de diversos temas, satirizando quase todos e com uma história de amor bem bacana; também dispõe do mesmo protagonista que QMQM, Jack Lemmon. A questão é que QMQM é comédia no sentido mais comum da palavra, um filme para provocar gargalhadas, já que traz elementos mais pastelão que os outros dois que citei acima. Não nego que o prefiro também por um fator chamado Marilyn Monroe (que meus amigos têm razão, não era grande atriz, mas executava perfeitamente o que era esperado de si), de quem gosto muito, e que ao interpretar o típico estereótipo de loira burra e sensual junto aos ótimos Jack Lemmon e Tony Curtis, que se vestem de mulher para escapar da máfia, fez história nesse filme queridíssimo e da mais alta qualidade que é Quanto mais quente melhor.

8. As horas (The hours, 2002)
Direção: Stephen Daldry. Com Nicole Kidman, Meryl Streep, Juliane Moore e Ed Harris.
Lembro de quando assisti As horas pela primeira vez e fiquei de boca aberta e cara de contrariado, quase a mesma expressão que Nicole Kidman manteve por boa parte do filme. "Que coisa mais linda!", era o que pensava. Nas outras vezes que vi mantive a expressão contrariada, mas sem a boca aberta, pois já não era surpresa a qualidade do filme. Dividido entre três épocas diferentes, As horas gira em torno do livro Mrs Dalloway de Virginia Woolf; em 1923 vemos Virginia (Kidman) escrevendo o livro e lidando com seus problemas psicológicos, em 1951 uma dona de casa chamada Laura (Moore) lê o romance de Virginia e queria viver aquela história, já em 2002 uma editora chamada Clarissa (Meryl) é praticamente a encarnação de Clarissa Dalloway, e no dia em que dará uma festa a seu amigo Richard (Harris) quase desmorona sob o peso que carrega em sua vida - inclusive Richard, que é soropositivo. Um filme introspectivo, bonito e emocionante, marcado por ótimas atuações, principalmente a de Nicole Kidman, vencedora do Oscar de melhor atriz.

7. Fale com ela (Hable con ella, 2002)
Direção: Pedro Almodóvar. Com Javier Cámara, Darío Grandinetti e Rosario Flores.
Quando escrevi sobre Fale com ela aqui no blog ano passado falei que o vi sem saber que era um filme de Almodóvar e que não sabia nada sobre ele; talvez a feliz surpresa que tive tenha contribuído para a ótima imagem que criei sobre ele. A história é simples: o repórter Marco (Grandinetti) se envolve com a promissora toureira Lydia (Flores), que ao sofrer um grave acidente entra em estado de coma profundo. Na clínica em que Lydia é internada Marco conhece o enfermeiro Benigno (Cámara), que é apaixonado por sua paciente Alicia. Os dois amigos se veem na mesma situação, buscando o amor de mulheres permanentemente inconscientes - o "fale com ela" do título é um conselho que Benigno dá ao repórter para que este tente diminuir sua dor. Almodóvar utiliza poesia e sutileza para contar essas tristes histórias que se encontram e são tão semelhantes, se afastando um pouco de seu estilo em que personagens femininas e homossexuais se destacam, dando lugar a dois protagonistas masculinos, e trocando a tradicional turbulência pela delicadeza da dança (inclusive as touradas são suavizadas e comparadas ao balé) e músicas bonitas e tristes, como Cucurrucucu paloma, interpretada por Caetano Veloso.

6. O poderoso Chefão pt 2 (The Godfather pt 2, 1974)
Direção: Francis Ford Coppola.
Com Al Pacino, Diane Keaton, Robert De Niro, Robert Duvall e John Cazale, Talia Shire e Lee Strasberg.
Prosseguindo o estrondoso sucesso de O poderoso chefão e mantendo a qualidade altíssima (para muitos, até mesmo superando) a parte II se divide em duas épocas distintas: uma que segue a partir do fim do primeiro filme, com Michael (Pacino) como o novo Don Corleone, e outra que começa na Itália em 1909 em que a criança Vito Corleone, então com oito anos, enterra seu pai, morto pelo mafioso local.
A partir de um atentado sofrido por Michael em sua mansão no fim dos anos 50/ início dos 60, ele busca saber quem tentou matá-lo e saber quem são seus verdadeiros inimigos, enquanto procura aumentar a rede de cassinos da família, viajando, inclusive, para a Cuba pré-Revolução e sendo testemunha da tomada de Havana pelos rebeldes na virada do ano de 1961. Além disso, há o desmoronamento de seu casamento e o declínio vertiginoso de seu caráter na busca de poder e dinheiro. Paralelamente, décadas antes, vemos o jovem Vito (De Niro a partir da idade adulta) em um bairro pobre do Brooklyn, em que mata um mafioso de relativo poder e aos poucos vai ganhando reputação e poder, crescendo seus negócios e ganhando "afilhados".
Diferente do primeiro filme, aqui é mais visível a crueldade da máfia e seus efeitos negativos sobre as pessoas, no caso Michael, que cresce em poder mas afunda num ciclo de melancolia, crueldade e traição. Esse é um dos motivos de mostrar dois Corleone em épocas diferentes: comparar o jovem Vito, que mesmo trabalhando na ilegalidade procurava ajudar aos outros e aumentou sua influência com base em amizades e favores, ao famigerado Michael, que termina praticamente sozinho em sua mansão. O filme é mais sombrio e negativo que o anterior, em boa parte pela personagem de Pacino, mas nem por isso menos envolvente - impossível sair de frente da tela ou mesmo se cansar ao longo das mais de 3 horas dessa obra-prima.

5. Taxi driver (1976)
Direção: Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Jodie Foster e Cybill Shepherd.
Ninguém retrata os subúrbios melhor que Scorsese. E foi mostrando o ambiente sujo dos subúrbios nova-iorquinos à noite que ele fez um de seus melhores filmes, logo no início de sua carreira. De Niro interpreta Travis, veterano do vietnã que arruma emprego como taxista para trabalhar na madrugada já que tinha uma insônia grave; e a partir de seu olhar vemos as excluídas personagens da noite suburbana: traficantes, ladrões, prostitutas, travestis, negros e viciados. Segundo Travis, era preciso uma chuva para lavar Nova York. Vemos desde o início que ele é obsessivo, e ao longo da história, os alvos de sua fixação mudam: primeiro, uma jovem cabo eleitoral, depois um candidato à presidência, por fim uma jovem prostituta. E esses transtornos de Travis são frutos de seu isolacionismo; a moça que ele tenta namorar é sua tentativa de se reaproximar da sociedade, não dá certo; ele então parte na tentativa de destruir a mesma sociedade, e também não dá certo; por fim, ele tenta salvá-la, ajudando a jovem prostituta - e acaba se tornando um herói que nunca imaginara ser.
O filme ultrapassa o cinema noir e se enegrece ao ponto de ser sujo. É um retrato tão real, tão visceral da desordem e do mal-estar urbanos que chega a ser incômodo. Por mais forte que seja a personagem de De Niro, os temas que o filme trata são maiores que ela, deixando-o muito abrangente e universal; o mesmo não acontece em Touro indomável, cujo protagonista marcante é um pilar único do filme. Contribuindo com a direção de Scorsese, a trilha sonora típica do cinema noir - jazz - e a ótima interpretação de De Niro, um dos primeiros trabalhos dele junto ao seu amigo e diretor.

4. Annie Hall (1977)
Direção: Woody Allen. Com Woody Allen, Diane Keaton e Tony Roberts.
O melhor filme de Woody Allen consegue abranger vários assuntos, mas entre eles o que mais se destaca é o amor, mais especificamente o amor na forma de relacionamentos - e quão difícil é mantê-los. E por mais que eles sejam irracionais, complicados, absurdos... precisamos deles. Essa é a lição passada por Alvy (Allen), comediante nova-iorquino e típico judeu da obra de Woody: neurótico, irônico, hipocondríaco, reclamão. Alvy se apaixona por Annie (Keaton), que é bem diferente dele, já que é tranquila, não tem profissão definida, trabalhando como cantora em bares e se ocupando com fotografia e cursos para adultos em universidades. O relacionamento complicado de Alvy e Annie é prato cheio para situações engraçadas, brigas, discussões filosóficas, psicanalíticas e claro, romance. O ótimo roteiro escrito por Woody e Marshall Brickman, que levou o Oscar de roteiro original, acompanha a relação do casal do início até depois de seu fim (não é spoiller, logo na primeira cena vemos que não deu certo) sem seguir uma ordem cronológica; uma cena mostra os dois brigando, a seguinte mostra boa convivência, a próxima traz o primeiro encontro deles numa quadra de tênis. Tais quebras foram inovadoras, assim como várias criadas por Woody que revolucionaram o falido e clichê gênero das comédias românticas e lançaram as bases do gênero tal qual o conhecemos hoje, apesar de quase nenhum filme atual manter um padrão de qualidade de Annie Hall. (500) dias com ela, de 2008, lembra muitas características de Annie, tanto de enredo como de técnica, e se destaca por ser um filme bem superior a seus concorrentes atuais. Mesmo assim, é difícil competir com essa obra-prima que mesmo 36 anos depois de seu lançamento permanece incrivelmente atual.

3. O poderoso Chefão (The Godfather, 1972)
Direção: Francis Ford Coppola. Com Marlon Brando, Al Pacino, Robert Duvall, James Caan e Diane Keaton.
Quando eu dizia que ainda não tinha visto O poderoso Chefão, a reação de meus amigos era sempre a mesma: olhos arregalados e a vontade de me dar um tapa. E depois que eu assisti, pensei porque não tinha feito isso antes com a mesma expressão de meus amigos. A primeira das obras-primas de Coppola está num nível tão alto de qualidade  que é difícil de acreditar que há gente que viu e não gostou. Baseado no best-seller de Mario Puzo, que foi co-roteirista do filme, O poderoso Chefão é centrado na Família Corleone, uma das cinco grandes famílias mafiosas de Nova York, e a mais poderosa delas, pois é quem detém o maior número de amigos na política, na polícia e na justiça. Liderada pelo sábio e carismático Don Corleone (Brando), é formada por seus filhos Sonny (Caan), Fredo (John Cazale), pelo consigliere e filho adotivo Tom Hagen (Duvall) e vários outros familiares, de sangue ou não, que são protegidos pelo padrinho.
Coppola nos apresenta a um mundo em que criminosos são mocinhos (e os vilões também) cheios de charme, carisma e que prezam pela família acima de tudo. Trabalhando com maestria o clássico, o cinema noir e os dramas sociais, o diretor ditou muitos dos padrões que seriam seguidos na gloriosa década de 70 por toda Hollywood e que até hoje influenciam filmes de máfia. E o melhor de tudo é que mesmo trabalhando tantos temas, o filme é delicioso de se assistir, e suas três horas de duração passam incrivelmente rápido, graças a uma mágica (essa é a única palavra em que consigo pensar) que só ele e a parte II de sua continuação têm.

2. 2001: Uma odisseia no espaço (2001, A Space Odissey, 1968)
Direção: Stanley Kubrick. Com Keir Dullea, Gary Lockwood e William Sylvester
Depois da sequência de Lolita (1962) e Dr. Fantástico (1964), o público sabia que deveria esperar por mais um filme de Kubrick. E o que veio foi muito além das expectativas de qualquer um. 2001 foi concebido por Kubrick para ser mais uma sensação do que uma história. O diretor queria fazer um filme de ficção científica ambientado no espaço, e para isso olhou primeiro para o passado, milhões de anos atrás, na aurora da humanidade, para depois dar um salto até a era das viagens cósmicas. E com muita subjetividade e efeitos visuais impensáveis até então, que lhe renderam seu único Oscar, ele nos leva a uma viagem capaz de representar o desejo humano de conhecer o que há para dentro e para fora daquilo de nós mesmos que é conhecido. Mais que revolucionar a ficção científica, Kubrick mostra que não há limites para o cinema, para a imaginação e o talento de um artista.

1. Melancolia (Melancholia, 2011)
Direção: Lars von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland.
 A emoção de ver Melancolia é forte desde o prólogo em câmera lenta em que tableaux são mostrados com o Prelúdio de Tristão e Isolda ao fundo, música que acompanha boa parte do filme e que é perfeita para aquilo que ele tenta passar. Melancolia é dividido em dois grandes capítulos; no primeiro conhecemos Justine (Kirsten), que está se casando no castelo de sua irmã Claire (Charlotte) numa grande festa oferecida por seu cunhado John (Kiefer). Aos poucos percebemos que a felicidade de Justine é apenas uma máscara que vai caindo rapidamente na cerimônia e a depressão com a qual ela vinha lutando toma conta de vez de seu espírito. Corte para o segundo capítulo, Claire, em que Justine, totalmente debilitada, vai morar com a família da irmã. Ao mesmo tempo, a notícia de um planeta chamado Melancholia que está em rota de colisão com a Terra (segundo os céticos, isso não teria chances de ocorrer) acaba com o sossego da tranquila Claire. À medida em que o fim parece eminente, Claire se entrega ao desespero e Justine parece sair um pouco de sua depressão, feliz em saber que em breve não haveria mais nada.
Melancolia se afasta dos filmes típicos de Trier que são carregados de violência psicológica e sofrimento emocional e segue mais a linha da delicadeza e da introspecção - a angústia sofrida pelas personagens é forte mas muito diferente de outras personagens do diretor que comeram o pão que o diabo amassou, como em Dançando no escuro e Dogville. As excelentes atuações, somadas ao roteiro e à impecável direção de Trier fazem deste um dos melhores filmes dessa década - e a emoção que provoca em mim faz dele meu preferido. E por melhor que seja Melancolia, sei que filmes como Apocalypse now de Coppola, Persona de Bergman ou mesmo 2001 de Kubrick o batem de longe, mas como estamos falando de preferência... deixo meu coração com Claire e Justine.

Leia também:
2001: Uma odisseia no espaço/ Annie Hall/ As horas
Fale com ela/ Melancolia/ Quanto mais quente melhor/ Taxi driver

Luís F. Passos

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domingo, 7 de julho de 2013

Top 30: Filmes preferidos - Luís (2)

20. Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959)
Direção: François Truffaut. Com Jean-Piere Léaud.
Gosto de Nouvelle vague. De seus filmes e principalmente da revolução que ela espalhou pelo mundo cinematográfico. E se olharmos para o início de tudo, vemos Truffaut e seu excelente filme de estreia, Os incompreendidos, que deu a ele o Prêmio de direção em Cannes. Início de uma longa e muito produtiva parceria com Jean-Pierre Léaud, o filme traz o jovem ator como Antoine Doinel, garoto parisiense esnobado pela família, desacreditado pelos professores e que se vê totalmente desajustado às instituições tradicionais. Antoine para de ir às aulas, foge de casa e é mandado para um internato. Fica a dúvida de quão autobiográfica é a personagem, já que é sabido que muitos dos atos de Antoine são inspirados em episódios da juventude do próprio Truffaut.

19. Tempos Modernos (Modern Times, 1936)
Direção (e roteiro e música): Charles Chaplin. Com: Charles Chaplin, Paulette Goddard e Henry Bergman.
Unanimidade entre professores de história, Tempos Modernos é o mais conhecido e um dos melhores filmes de Chaplin. Interpretando mais uma vez seu carismático vagabundo, Chaplin mostra o dilema de trabalhar em fábricas segundo o modelo fordista, em que surge a linha de produção e o operário se aliena do processo geral de produção, tendo apenas uma função; a de Carlitos era apertar parafusos - que Chaplin satiriza ao mostrar que ele não conseguia parar de mover os braços depois de horas repetindo o movimento. Após um surto psicótico, Carlitos se vê desempregado e conhece uma órfã que também era vítima do mundo automatizado; juntos eles tentam sobreviver à miséria e a todos os problemas causados pela Depressão econômica. A principal crítica aqui é à automação da indústria. Segundo Chaplin, máquinas deveriam ajudar os trabalhadores, e não lhes roubar o emprego.

18. Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950)
Direção: Billy Wilder. Com Gloria Swanson, William Holden, Erich von Strohein e Nancy Olson.
Eu já estava cansado de ouvir que Billy Wilder fora um dos melhores roteiristas de Hollywood. Seja em dramas tensos como Farrapo humano ou comédias engraçadísimas como Quanto mais quente melhor, roteiro bem estruturado e diálogos sagazes eram marca registrada de Wilder. E quando eu vi Crepúsculo dos deuses, vi que todo e qualquer elogio aos roteiros do cara ainda são poucos.
Joe Jills (Holden) é um roteirista desempregado e endividado que acaba se refugiando na mansão da outrora estrela Norma Desmond (Swanson), atriz que encontrou a decadência com o surgimento do cinema falado. Norma sonha com a volta às telas, e contrata Joe para revisar o roteiro de um filme que ela estrelaria, acreditando que teria as portas dos estúdios novamente abertas para ela. A atriz se apaixona pelo roteirista, mas ele ama secretamente uma revisora chamada Betty (Nancy Olson), com quem passa a se encontrar para escrever um roteiro - sozinhos, ele não conseguiam muita coisa, mas juntos estavam escrevendo um excelente texto. A partir de Norma, Billy Wilder mostra a ferocidade da indústria cinematográfica, que utiliza seus empregados, especialmente os atores, como marionetes e fontes de lucro para depois descartá-los. Há uma cena em especial, em que Norma visita seu antigo amigo e diretor Cecil B. DeMille em que fica mais visível que não importa a contribuição que um artista tenha dado ao cinema, ele pode ser facilmente substituído e esquecido.
Para mim, este é o melhor filme de Billy Wilder, apesar de não ser meu favorito. E recentemente seu roteiro foi eleito um dos dez melhores do cinema americano pelo sindicato de roteiristas, muito merecidamente.

17. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)
Direção: Stanley Kubrick. Com Malcom McDowell.
Nada como um pouco da boa e velha ultraviolência... na melhor fase de sua carreira e três anos depois da maravilha chamada 2001: Uma odisseia no espaço, Stanley Kubrick deixou meio mundo boquiaberto ao adaptar para o cinema o livro de Anthony Burgess. O filme é passado numa Inglaterra futurística em que um jovem chamado Alex DeLarge (McDowell) lidera uma gangue de "drugues" que sai toda noite para praticar uma violência que ultrapassa os limites daquela que conhecemos: é violência física, sexual e psicológica a um nível que ultrapassa a bizarrice, como cometer um estupro diante do marido da vítima enquanto canta alegremente Singin'in the rain. Quando é preso, Alex passa por um tratamento no mínimo surreal em que seu corpo é treinado a rejeitar toda forma de crime e prazeres como sexo, em cenas chocantes que o mostram amarrado e impossibilitado de fechar os olhos.  De volta à sociedade, parece que todos aqueles a quem Alex causou mal têm a chance de se vingar - vingança e perversidade são algumas das muitas questões levantadas por Kubrick. Uma das mais importantes é: o bem-estar comum é um argumento forte o suficiente para destruir personalidades individuais? E Kubrick apresenta tudo isso de forma espetacular, visual e sonoramente - impossível esquecer a 9ª Sinfonia de Beethoven, de quem Alex é fã e que o diretor sabe explorar muito bem, afinal uma sinfonia tem longa direção e Kubrick soube casar cada trecho da música a cada cena. Por mais que cause certo desconforto, o filme provoca como poucos a satisfação de estar diante de uma pura obra de arte.

16. Os Bons Companheiros (Good Fellas, 1990)
Direção: Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Joe Pesci, Ray Liotta e Paul Sorvino.
Dentre os ótimos filmes de Scorsese, a cada década há um que se destaca: Taxi driver nos anos 70, Touro Indomável nos anos 80 e Os bons companheiros na década de 90. Retomando um estilo apresentado no início de sua carreira, antes do estouro que foi Taxi driver em 1976, Scorsese traz uma máfia diferente daquela eternizada por Coppola na trilogia O Poderoso Chefão. Sem o charme e cavalheirismo de mafiosos milionários da década de 50,  os gângsteres aqui são do subúrbio e nem todos têm descendência italiana. 
A figura central do filme é Henry Hill (Liotta), que cresce admirando os gângsteres e ingressa no mundo deles através de Paulie (Sorvino). Inicialmente fiscaliza venda de mercadorias roubadas, mas evolui para sequestro de aviões, assaltos a aeroportos, extorsões, lesões corporais graves e tráfico de drogas - este último foi sua maior ascensão e perdição. O acompanham seus melhores amigos Jimmy (De Niro) e Tommy (Pesci), um baixinho esquentado e violentíssimo que não hesita em bater, esfaquear ou atirar, até mesmo por alguém lembrar que ele fora engraxate na infância - atuação marcante que deu o Oscar de coadjuvante a Pesci. A empolgante história é contada através do controle de câmera que Scorsese tem  como poucos, que a faz ficar ainda mais veloz e envolvente. Outro mérito para o diretor é a trilha sonora marcada pelo pop.

15. Psicose (Psycho, 1960)
Direção: Alfred Hitchcock. Com Janet Leigh, Anthony Perkins e Vera Miles.
Ultimamente falei tanto em Psicose que provavelmente vou me repetir. Então é melhor dizer que o porquê dele ser um de meus preferidos: primeiro, porque é bom. E não é bom de bonzinho, de mediano, é bom de insuperável em seu gênero. E segundo, porque é feito de surpresas  de deixar qualquer um boquiaberto, aí fica quase impossível não se envolver.
Pra quem ainda não conhece a história: uma secretária chamada Marion Crane (Leigh) rouba uma pequena fortuna de seu patrão e foge no intuito de encontrar seu amante casado. No caminho, para em um motel de beira de estrada de propriedade do jovem tímido e charmoso chamado Norman Bates (Perkins). No meio da noite, Marion é assassinada no chuveiro, uma das cenas mais conhecidas de todo o cinema. Sua morte é só o início do clima de mistério e tensão que toma conta do filme até o fim. Hitchcock, que sofrera para fazer Psicose, obteve seu reconhecimento junto ao público, que fazia filas para ver o filme, e anos depois junto à crítica; atualmente Psicose ocupa a 34ª posição na lista de melhores filmes da Sight and Sound.

14. Touro Indomável (Raging Bull, 1980)
Direção: Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Joe Pesci e Cathy Moriarty.
Alguém pode descobrir a fórmula da Coca-Cola, descobrir o que aconteceu ao ET de Varginha ou mesmo a idade de Glória Maria, mas duvido que consigam um argumento definitivo que esclareça qual o melhor filme de Scorsese, Taxi driver ou Touro indomável. Mas não é tão difícil ver qual dos dois é o mais bem feito, e a resposta é Touro. Filmado em um preto e branco belíssimo, o longa acompanha a vida do lutador Jake LaMota, o touro do Bronx, desde sua ascensão meteórica até sua queda causada pelo seu gênio imprevisível e autodestrutivo. A personalidade egocêntrica e violenta de LaMota é o centro de um filme que surpreende pela poesia e beleza em meio a tantos socos e explosões de fúria. Como conseguiram isso? Com o talento de um diretor em sua melhor forma, que lapidou minuciosamente uma joia, escolhendo ângulos perfeitos, pondo flashes em câmera lenta e explosões de sangue e suor que parecem compor uma dança em meio às personagens. E Touro indomável não seria o mesmo sem a dedicação de Robert De Niro, que se entregou a LaMota de espírito e corpo - inclusive ganhando 25 quilos para fazer a parte final, em que o outrora musculoso lutador se torna um obeso apresentador de shows em bares baratos. Sem dúvida, um dos melhores trabalhos de vencedores do Oscar de melhor ator.

13. Anticristo (Antichrist, 2009)
Direção: Lars von Trier. Com Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe.
 Não sabia se Anticristo entraria nesta lista, ainda não tinha certeza se ele tinha ficado em minha mente por eu gostar muito dele ou só pelos motivos óbvios. O filme é muito forte, muito tenso. Inicia com um prólogo em preto e branco e câmera lentíssima em que um casal transa e seu filho pequeno sofre um acidente e cai da janela do apartamento ao som de uma ópera que diz "deixe que eu chore minha cruel sorte". E é esse o principal tema do filme: o sofrimento. A personagem de Charlotte (que não tem nome, assim como o marido) entra num processo de culpa e sofrimento sem fim que começa a destruir sua razão, enquanto o marido (Dafoe), que é psicólogo, tenta ajudá-la. Os dois então vão para uma cabana numa floresta convenientemente chamada Éden, e a partir daí Anticristo põe em questão vários temas religiosos, filosóficos e psicanalíticos. E tudo isso junto a cenas chocantes de sexo, masturbação e violência física. Uma experiência tanto incômoda quanto construtiva - Trier é mais uma vez um sádico que sufoca seus espectadores, mas também se volta para dentro de si, ajustando contas com um episódio de seu passado. É pra quem tem nervos fortes, mas também pra quem quer apreciar uma obra que é tão trágica quanto bela.

12. Apocalypse Now (1979)
Direção: Francis Ford Coppola. Com Martin Sheen, Marlon Brando e Robert Duvall.
O nome Francis Ford Coppola começa a se destacar no início dos anos 70 com a vitória de Patton por melhor roteiro original e alcança um patamar ímpar com O poderoso chefão 1 e 2, alguns dos melhores filmes de todos os tempos, dirigidos e escritos por Coppola. Também nessa época A conversação, do diretor, vence a Palma de Ouro em Cannes. Coppola então se joga num projeto grandioso e arriscado: rodar nas Filipinas um filme sobre a Guerra do Vietnã. Como já falei aqui no blog anteriormente, tudo conspirou contra ele, de um ataque cardíaco do protagonista a um tufão que destruiu os sets. Mas o produto foi aquilo com o que Coppola sonhava, ou ainda melhor. Não há filme de guerra que se compare a Apocalypse Now, nem mesmo Kubrick ou Oliver Stone chegaram perto.
O capitão Willard (Sheen), das Operações Especiais do Exército recebe a missão de matar o coronel Kurtz (Brando), oficial brilhante que enlouquecera e desertara para criar no Camboja uma sociedade bizarra em que é adorado como um deus e mata sem piedade. Na viagem, Willard vê a verdadeira face da guerra e seus efeitos nas pessoas - o medo, a loucura, o horror. Depois de uma epopeia para descer o Vietnã vivenciando coisas que chegam a ser bizarras, como a "Cavalgada das Valquírias" em que um coronel surfista (Duvall) distribui morte pelos ares e diz adorar o cheiro de napalm pela manhã, Willard enfim chega ao Camboja e vê sua vida mudada pelo que tem de enfrentar para terminar sua missão. Um final ambíguo e perturbador para a mais fiel das histórias sobre a Guerra do Vietnã.

11. Dr Fantástico (Dr Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and love the bomb, 1964)
Direção: Stanley Kubrick. Com: Peter Sellers, George C. Scott e Sterling Hayden.
Entre o fim do ano passado e começo deste, me veio a vontade de conhecer melhor a filmografia de Kubrick, sendo a principal razão a forte impressão ao ver 2001: Uma odisseia no espaço. Nessa época devo ter visto cinco filme do diretor, e o que mais gostei foi Dr Fantástico, comédia de humor negro lançada em plena Guerra Fria e que satiriza a tensão nuclear existente por causa da bipolarização EUA-URSS. No filme, um general neurótico americano ordena um ataque nuclear contra a URSS sem saber que estava condenando o mundo à destruição total por causa de um sistema de defesa atômico criado pelos soviéticos, em que a denotação de uma bomba atômica provoca a explosão de centenas de outras, e as explosões teriam força para devastar a vida na Terra.
Boa parte do sucesso do filme se deve à tripla atuação de Peter Sellers, como oficial da OTAN, presidente dos EUA e Dr Fantástico, especialista em tecnologia nuclear, ex-nazista e dono de um braço direito problemático que parece ter vida própria e ainda dever obediência ao Führer. Mais uma obra-prima de Kubrick, que foi derrotada no Oscar pelo musical água com açúcar Minha linda dama.

Leia também:
Anticristo/ Dr Fantástico/ Os incompreendidos
Psicose/ Taxi driver/ Touro indomável

Luís F. Passos

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Top 30: Filmes preferidos - Luís (1)

Os filmes fazem parte de nossas vidas, isso não é novidade e é inquestionável. É como sempre digo, o cinema nos mostra um mundo em que cabem os nossos sonhos - e como disse a Academia ano passado, "nós te mostramos como sonhar". E alguns filmes se aproximam mais de nós do que outros, os favoritos. Tá aí a diferença de uma lista de filmes favoritos de alguém e os melhores filmes que alguém viu. Enquanto os últimos têm a ver com a qualidade  (de elenco, de roteiro, trilha sonora, direção etc) os favoritos não precisam ser reconhecidamente ótimos (ou mesmo bons) para caírem no nosso gosto.
Particularmente, acho difícil elaborar uma seleção com filmes preferidos; primeiro por ter que selecionar um número limitado entre muitos, e mais difícil ainda ordená-los. Quanto mais eu penso em quais são meus filmes favoritos, mais títulos quero por na lista e mais confuso eu fico na hora de ordenar, então na preparação desse texto eu resolvi fazer tudo de vez e o que saísse seria publicado. A maior dificuldade foi excluir alguns, já que havia planejado fazer uma lista com trinta e na hora eram trinta e quatro os candidatos. Mas depois de alguns cortes, o top 30 ficou pronto:

30. Um corpo que cai (Vertigo, 1958)
Direção: Alfred Hitchcock. Com James Stewart e Kim Novak.
Eleito recentemente o melhor filme de todos os tempos e tirando Cidadão Kane de um lugar que ocupava há 50 anos, Um corpo que cai não foi bem recebido por público e crítica na época de seu lançamento, e só vinte anos depois passou a ser visto como uma das obras-primas de Alfred Hitchcock; francamente, não vejo o porquê de tal rejeição inicial. O filme tem uma das melhores reviravoltas do cinema, e aparenta não ter só um clímax, e sim um clímax principal que sucede e precede outros dois secundários. Na trama, James Stewart, que foi um dos mais frequentes parceiros de Hitchcock, interpreta um detetive que investiga a esposa de um antigo colega que aparentemente está possuída pelo espírito da bisavó. O filme é marcado pelo medo de altura da personagem de Stewart, que num acidente no alto de um prédio viu um colega da polícia morrer ao cair do telhado. Um suspense complexo e muito bem elaborado que envolve o espectador como poucos.

29. O demônio das onze horas (Pierrot le fou, 1965)
Direção: Jean-Luc Godard. Com Anna Karina e Jean-Paul Belmondo.
Dentre os poucos filmes de Godard que já vi, talvez Pierrot le fou seja o mais complexo, mas é de longe o que eu mais gosto. A história se desenvolve a partir da fuga de Ferdinand (Belmondo), um professor universitário que deixa pra trás a vida burguesa para cair na estrada com sua amante Marianne (Anna Karina). Se a Nouvelle vague queria quebrar princípios e reinventar o cinema, é só ver Pierrot para saber que eles conseguiram. A linearidade da história, marcada pela narração dos protagonistas, que se revezam  nos contando seus fatos e pensamentos, é quebrada várias vezes. Como bom filme de estrada, o que não falta aqui é filosofia e interrogações, até porque Godard mantém o padrão de diálogos que mais parecem interrogatórios. O casal de fugitivos é feliz? O que eles esperam do futuro? Afinal, Marianne corresponde aos sentimentos de Ferdinand? E mesmo sendo tantas as perguntas, as deixamos de lado porque parece que eles querem apenas seguir em frente, vendo beleza onde ninguém mais vê e estando lado a lado na jornada.
Obs: o título brasileiro não é mais uma viagem dos tradutores; é o nome do livro no qual se baseia o filme.

28. Tropa de Elite 2 - o inimigo agora é outro (2010)
Direção: José Padilha. Com Wagner Moura, Irandhir Santos, Milhem Cortaz, Sandro Rocha e Seu Jorge.
Nem Central do Brasil, nem Cidade de Deus (que aliás eu nem vi): o filme brasileiro tem lugar entre meus preferidos é a continuação do forte e polêmico Tropa de Elite. Trazendo um Nascimento que agora é tenente coronel, mais eficiente, solitário, consciente e que agora comanda todo o BOPE, o filme mostra que o problema da segurança pública vai muito além do tráfico dos morros e da corrupção dos policiais ligados a traficantes. Depois de assumir a subsecretaria de Inteligência e apertar o cerco contra o tráfico, Nascimento vê o surgimento das milícias, organizações formadas por policiais e bombeiros para dominar favelas antes ocupadas por traficantes e fornecer serviços clandestinos e "proteção" mediante pagamento. Uma forma de crime muito mais lucrativa e mais difícil de ser combatida - semelhante à máfia, são criminosos legitimando seu poder. A ação do primeiro filme deixa espaço para os conflitos do coronel com sua família, sua profissão e sua incansável luta pela honestidade daqueles que ocupam cargos públicos.

27. Luzes da cidade (City lights, 1931)
Direção (e roteiro, produção, música e edição): Charles Chaplin. Com Charles Chaplin, Virginia Cherril e Harry Myers.
Enquanto Hollywood se lançava na produção de filmes falados, muitos grandes artistas como Chaplin ainda achavam que a moda seria passageira e que a voz humana era desnecessária nas salas de cinema. Chaplin pode ter errado em relação à moda, mas tinha uma certa razão quanto à necessidade de se falar - e Luzes da cidade prova isso. A simplicidade e carisma desse filme provam que gestos e olhares são mais que suficientes para transmitir aquilo que o diretor e seu elenco propõem.
Mais uma vez, o mestre do cinema mudo trabalha  a solidariedade e a bondade inatas do ser humano com muito bom humor e cenas geniais. Em Luzes da cidade ele vive novamente o vagabundo Carlitos, que dessa vez conhece uma florista cega, que por uma série de mal entendidos, acha que ele era um milionário. Paralelamente, ele mantém uma estranha amizade com um milionário alcoólatra que se esquece dele quanto está sóbrio. Ao descobrir que pode ajudar sua amiga florista a recuperar a visão, o vagabundo se mete em inusitadas situações para conseguir pagar uma cirurgia. Na última cena, o emocionante reencontro com a florista, que o vê pela primeira vez, dá razão à Chaplin: a ausência de voz não o impedia de fazer cinema da mais alta qualidade.

26. V de Vingança (V for vendeta, 2006)
Direção: James McTeigue. Com Natalie Portman e Hugo Weaving.
Com a onda de protestos que está levando o povo às ruas, uma das coisas que mais se vê é máscara de Guy Fawkes, que tentou explodir o parlamento britânico no século XVII. A figura de Fawkes ficou mundialmente conhecida depois de V de Vingança, filme baseado nos HQ de Alan Moore publicados originalmente na década de 1980. Ambientada numa Inglaterra futurística dominada por um governo autoritário de extrema direita, a história acompanha a jovem Evey (Portman), funcionária da tv estatal que testemunha o primeiro ato do terrorista conhecido apenas por V (Weaving), que se esconde sob a máscara de Fawkes. Evey acaba se envolvendo com V, com quem aprende sobre arte e entende melhor os crimes e a repressão do governo. V na verdade não é um terrorista, diferente do que diz o governo, é um defensor ferrenho da justiça (que segundo ele traiu o povo) e da liberdade da qual se tornou símbolo.

25. Manhattan (1979)
Direção: Woody Allen. Com: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway e Meryl Streep.
Na primeira vez que vi, não gostei. Na segunda, percebi que era um bom filme. Na terceira, fiquei apaixonado. Homenageando sua amada Nova York, Woody Allen conta a história de um judeu nova iorquino "que não funciona fora de sua cidade" e sua relação com as três mulheres de sua vida: a ex-esposa que se assumiu lésbica, a namorada de 17 anos e a amante pedante (que é ex-amante de seu melhor amigo). Usando uma bela fotografia em preto e branco, Woody mostra diversos cartões postais de Nova York, inclusive a ponte da rua 52, que foi escolhida como pôster principal do filme, que é cheio de referências psicanalíticas, cinematográficas e literárias - e as referências muitas vezes vêm acompanhadas de tiradas ácidas. É como dizem em um dos melhores diálogos: em algum lugar, Nabokov está sorrindo.

24. Não se preocupe, estou bem! (Je vais bien, ne t'en fais pas, 2006)
Direção: Phillipe Lioret. Com: Mélanie Laurent, kad Merad, Isabelle Renauld e Julien Boisselier.
Nada como ver um filme bom sem saber nada sobre ele - não criar expectativas faz com que o que vier seja lucro. Neste caso, o lucro é uma história simples mas muito bem construída de uma garota que chega de viagem e descobre que seu irmão gêmeo, a quem é muito apegada, fugiu de casa. Lili (Melanie), a partir do sumiço do irmão, entra num processo de autoconhecimento e muda o rumo de sua vida. Ótimo filme sobre relações familiares, com direito a uma excelente música tema. E o melhor de tudo, o típico final surpreendente que atualmente os franceses sabem fazer como ninguém.
(Falei pouco porque o mínimo detalhe pode ser spoiller. E se não argumentei... é porque eu adoro o filme e ponto final.)

23. Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008)
Direção:Christopher Nolan. Com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie  Gyllenhall, Gary Oldman, Michael Caine e Morgan Freeman.
O segundo filme da trilogia Batman de Christopher Nolan se consagrou como um dos melhores da década de 2000. Dando continuidade à luta de Batman/ Bruce Wayne (Bale) para resgatar Gotham do crime, o diretor nos apresenta um vilão sádico, genial e imprevisível: o Coringa (Ledger). Atuação excepcional e incrivelmente popular junto ao público que deixou no chinelo até mesmo o Coringa de Jack Nicholson (que riu quando o jovem Ledger morreu em 2008). A presença do vilão e a técnica usada por Nolan deixam o filme sombrio, sem esperanças e dotado de um magnetismo que prende o espectador do começo ao fim. Para mim é uma bênção um filme de ação ter tanto conteúdo, numa era em que o que mais importa são explosões e heróis de corpo definido.
22. Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009)
Direção: Quentin Tarantino. Com: Brad Pitt, Christoph Waltz, Mélanie Laurent e Michael Fassbender
Na França ocupada pelos nazistas, um pequeno pelotão americano formado apenas por judeus e comandado pelo tenente Aldo "o Apache" (Pitt) desembarca com um único objetivo: matar nazistas. O terror espalhado pelos Bastardos Inglórios se espalha pelas fileiras alemãs e chega ao próprio Hitler. Paralelamente, há uma jovem dona de cinema (Mélanie) que anos antes viu sua família ser morta pelo genial e sádico coronel da SS Hans Landa (Waltz), que tem a chance de vingar seus parentes e todos os judeus mortos pelos nazistas. Utilizando a violência típica de seus filmes, enchendo a tela de sangue e fazendo referências cinematográficas e à  cultura pop, Tarantino cria uma história que é considerada por muitos a melhor dos anos 2000. O roteiro é excelente, envolvente e divertido; e também merece toda a glória Christoph Waltz, até então um desconhecido ator austríaco, que levou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo maravilhoso trabalho como Hans Landa. Bingo! (entendedores entenderão).
21. Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)
Direção: Woody Allen. Com: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams e Carla Bruni.
Se arrependimento matasse, eu morreria por não ter visto Meia-noite em Paris no cinema. O filme de 2011 de Woody Allen se tornou sua maior bilheteria, ganhou Oscar de melhor roteiro original (o que não acontecia em 25 anos), foi indicado por direção (o que não acontecia em 17 anos) e também a melhor filme (antes disso as únicas indicações foram Annie Hall em 1977, que saiu vitorioso, e Hannah e suas irmãs em 1986).
A partir de um roteirista de Hollywood que queria ser escritor de romances (Wilson), Woody nos leva à Paris dos anos 20 onde escritores, músicos, cineastas, fotógrafos e artistas plásticos promoviam uma efervescência cultural como poucas vezes a cidade luz viu. Tudo isso pra dizer que é besteira achar que seria mais feliz vivendo em outra época; o importante é aproveitar o presente e buscar a felicidade - uma coisa impressionante, partindo da cabeça de um homem que na época tinha 75 anos. Mais que um gigante cartão-postal, Paris é personagem, influenciando e inspirando os artistas do passado e do presente.
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